A prática do yoga dos sonhos

A prática do yoga dos sonhos aprofunda a consciência em todas as experiências da vida. Através dela pode-se ter sonhos lúcidos com muitas experiências de aprendizado e resolução de problemas diversos durante a fase do sono.

Esta conferência foi proferida no dia 19 de Fevereiro de 2010 por Geshe Tenzil Wangnyal Rinpoché, trazido ao Brasil pela Associação Brasileira de Cultura Tibetana e Bön Garuda Brasil e marcou um ciclo de atividades no Brasil desse grande erudito e um dos mais renomados mestres Bön-Po da atualidade.

{vimeo}10408939{/vimeo}

A prática do yoga dos sonhos

A prática do yoga dos sonhos aprofunda a consciência em todas as experiências da vida. Através dela pode-se ter sonhos lúcidos com muitas experiências de aprendizado e resolução de problemas diversos durante a fase do sono.

Esta conferência foi proferida no dia 19 de Fevereiro de 2010 por Geshe Tenzil Wangnyal Rinpoché, trazido ao Brasil pela Associação Brasileira de Cultura Tibetana e Bön Garuda Brasil e marcou um ciclo de atividades no Brasil desse grande erudito e um dos mais renomados mestres Bön-Po da atualidade.

 

Em Sintonia com o Universo

Radha Burnier

A harmonia é de importância vital para a Humanidade. Estar sem sintonia com outras pessoas, com o meio ou com nós mesmos, é fazer enorme dano aos relacionamentos e ao nosso próprio progresso. O dano que fazemos a nós mesmos nunca pode estar separado do dano que fazemos aos outros. Somos responsáveis pelo todo. Aqueles que estão interiormente bem harmonizados e integrados irradiam harmonia e felicidade onde quer que estejam e em tudo que fazem. Por outro lado, quando há discórdia interna, ela alimenta a discórdia externa. Além disto, como diz A Voz do Silêncio: “Antes que a alma possa ver, deve-se atingir a harmonia interior.” Toda discórdia cega a visão e retarda o progresso humano. O Universo não é um caos mas um cosmo, tão perfeitamente sintonizado que aqueles que o compreendem através do estudo e da contemplação ficam sem fala, completamente assombrados. Em seu livro Apenas Seis Números, com o subtítulo de “As Profundas Forças que Modelam o Universo”, o autor Sir Martin Rees escreve sobre seis números, alguns deles muito pequenos e outros muito extensos, que constituem a “receita” para o Universo. Se qualquer deles fossem aumentado ou diminuindo mesmo em pequena escala, não haveria estrelas nem vida. Por exemplo, se a razão existente entre a gravidade e a energia que se expande tivesse sido ligeiramente diferente, o Universo deveria ter desaparecido há muito tempo, nem galáxias ou estrelas poderiam ser formadas. Fazemos a pergunta: “Esta harmonia é apenas um fato irracional, uma coincidência?”De acordo com os antigos indianos, a ordem cósmica era chamada de Rta. Um nível superior e inimaginável de harmonia que mantém a ordem cósmica em relação não somente com os fatos percebíveis e mensuráveis dos quais os cientistas tomam conhecimento, mas que existe em dimensões sutis com as quais a ciência não se ocupa.Para os antigos, Rta era a harmonia total, a base para todos os fenômenos nos campos e nas dimensões visíveis e nas profundezas invisíveis da existência. David Bohm deve ter tido uma visão deste aspecto quando escreveu em A Totalidade e a Ordem Implícita sobre a totalidade indivisa no movimento harmonioso e numa ordem implícita que “constitui um aspecto fundamental da realidade”.O ouvido de um músico hábil é tão sensível que ele se torna consciente até mesmo do menor desvio na harmonia dos sons. Ele escuta diferenças leves que seus ouvintes podem não notar e cada vez que seja necessário ajusta a corda para manter harmonia perfeita. Cada músico de uma orquestra também cuida para manter a excelência musical: por integrarem o Todo, mesmo leves nuanças são importantes.A ordem cósmica ou Rta, numa escala vasta e quase inescrutável, pode ser semelhante. Há uma inteligência e um poder criativo (o músico chefe) que restaura a harmonia do Universo, mesmo se ele for perturbado em escala muito pequena. Este é o trabalho do Karma ou Karma-Nemesis, como a Sra. Blavatsky o chamou em A Doutrina Secreta. Ela diz que “o único decreto do Karma – um decreto eterno e imutável – é a Harmonia absoluta no mundo da Matéria bem como no mundo do Espírito. Contudo, não é o Karma que nos recompensa ou pune, ao agirmos através e com a Natureza, obedecendo leis das quais dependem a harmonia, ou – quebrando-as.” (DS II.368). HPB também diz neste contexto que enquanto o efeito de haver perturbado “o menor átomo no Infinito Mundo de Harmonia” não tenha sido reajustado, o “fazedor do mal” sofre o que ele pensa ser retribuição. Ele experimenta o que chamamos de “dor” e luta para fugir dela, e, por ignorar o que acontece, age de tal maneira que cria mais perturbação.A tradição antiga também afirma que, invisível à nossa percepção, existem muitos tipos de seres, dotados de inteligência em medidas variadas, que estão num estado de harmonia inconsciente com a Natureza e que espontaneamente fazem o “Grande Trabalho”. Eles alegremente cumprem seu papel na sinfonia cósmica.Assim fazem todas as criaturas subumanas que conhecemos. Somente para os seres humanos surge a indagação de como estar em sintonia com o Universo. Nós, que estamos tão fora de sintonia, sentimos a infelicidade de disputar e almejar a paz, o amor e a beleza.Mas felizmente a consciência humana tem o poder de observar, pensar e entender suficientemente o Universo no qual se encontra para compreender a responsabilidade do indivíduo na preservação da harmonia. Por nosso próprio esforço em ver e entender a vida, devemos compreender que as condições caóticas da sociedade humana resultam de contradições em nós mesmos. Por conseguinte, o remédio está em nossas mãos. Se tentarmos entender, nossa consciência poderá fazer a transição para um novo nível de conhecimento da ordem universal, de seu significado e de sua beleza.A evolução não é simplesmente um crescimento do menor para os grandes graus de complexidade da forma, mas também um florescimento da consciência em níveis mais altos de percebimento. Este percebimento inclui uma apreciação das energias fundamentais do cosmo e não se refere necessariamente ao conhecimento dos detalhes. É uma visão dos princípios divinos que se manifestam em cada detalhe bem como no fluxo geral. Diz a tradição que a omnisciência de Buddha consiste no poder de saber tudo em vez de conhecer detalhes, como quantos fios de cabelo existem na cabeça de um homem!O fluxo da manifestação revela estes princípios divinos em vários graus através dos vários fenômenos e funções. No fluxo de uma cachoeira vemos um movimento firme embora haja alteração constante. A cintilação mudando em oposição ao fundo num estado uniforme, nos permite experimentar um deleite e um sentido de algo novo a cada instante. A sombra, ou mundo fenomênico, é movimento e mudança infindáveis, mas sob o movimento está o imóvel e perpétuo Ser – um paradoxo que se repete de outras maneiras. A ordem do Universo abarca uma diversidade imensa de formas e padrões. A energia criativa que o mantém, produz constantemente novas coisas; pois nada se repete, nem mesmo uma folha de árvore é igual à outra. A Natureza parece abominar a clonagem e a conformidade. Ainda assim, em meio à surpreendente diversidade da vida, existe um misterioso elo unindo todas as coisas num todo. O ser humano é como uma gota na vastidão e profundeza do oceano da existência, aparentemente separado mas inseparável dele.Estes paradoxos são todos parte da música das esferas. A grande sinfonia da Natureza é tocada por diversos instrumentos, músicos, melodias, ritmos, etc. Uma parábola sufi conta a seguinte história: o grito agudo de um corvo encomodou algumas pessoas, e estas, irritadas, o enxotaram. Então, o Senhor convocou seus auxiliares e perguntou por que um membro de sua orquestra estava faltando. Podemos dizer, desta forma, que cada elemento específico tem seu valor por enriquecer o todo, mas é o todo que é a “música das esferas”. É maravilhoso pertencer à raça humana porque podemos aproveitar a beleza e a novidade de todos os elementos diferentes e também compreender que eles fazem parte da totalidade. De fato eles são o Todo mostrando uma parte de sua natureza, assim como a Luz mostra as cores do arco-íris. Cada unidade tem o potencial da diversidade, e todas as diversidades desaparecem na unidade. O problema do homem é que nossas contradições internas têm sua base no grande paradoxo da manifestação, enquanto o Supremo mostra-se apenas como Ele. O Visconde de Nouy, em seu livro Destino Humano, como outros pensadores, especulou sobre os objetivos essenciais da evolução e sugeriu que eles incluem harmonia, liberdade e individualidade. Na média humana, a afirmação da individualidade destrói a harmonia e aparece para firmar a liberdade. A diversidade de formas e espécies é um meio para evoluir cada vez mais as caraterísticas individuais. Por exemplo, há enorme diferença entre um mosquito e um elefante, não apenas pelo tamanho, mas porque no primeiro dificilmente há individualidade, enquanto o último é notoriamente individual na aparência, comportamento e inteligência. O ser humano avançou ainda mais longe nesta direção. Mas através de milênios, a evolução da consciência também desenvolveu a liberdade e um sentido de harmonia. Organicamente houve evoluções: o animal é fisicamente mais livre do que a planta, e a Humanidade é ainda mais livre.Internamente também o progresso está sendo feito em direção à liberdade. Contudo, nas vidas da maioria dos seres humanos há a aparente contradição entre a necessidade de harmonia de um lado e a individualidade do outro lado. Isto foi resolvido nos primeiros estágios pré-humanos pelos próprios ajustes da Natureza. Mas no ser humano autoconsciente há conflito e luta. Ele quer relacionamentos, e ainda assim seu egoísmo arruina as oportunidades de experimentá-los alegremente. A afirmação da individualidade (que é egoísmo), é a causa primordial de nossa desarmonia. Semelhantemente queremos liberdade, mas também precisamos de ordem – este dilema não é apenas individual, mas também um dilema social e nacional.Portanto nosso maior problema é: Podemos ser livres sem criar situações caóticas e dolorosas? Podemos alimentar a latente singularidade em nós, sem estarmos lutando? Muito depende de como entendemos a nós mesmos e aos valores que estão na substância básica do Universo.Os valores universais e infinitos do cosmo são desligados e independentes das coisas externas. Como disse um poeta:“Paredes de pedra não fazem uma prisão
nem barras de ferro uma jaula.”
Um prisioneiro é tão livre quanto o homem supostamente livre mas escravo da paixão, da cobiça, da raiva ou da inveja. Da mesma forma, a verdadeira individualidade não é apenas mostrar importância ou exibir conhecimento. O que chamamos de valores fundamentais – liberdade, singularidade, harmonia, felicidade e paz – são caraterísticas da alma. Elas não dependem de algo externo para existir. Acreditar que podemos encontrá-las fora, manipulando relacionamentos, adquirindo propriedades ou alterando as circunstâncias, é causa de discórdia e sofrimento. Estes valores são facetas de nossa verdadeira natureza e da consciência universal. Quando compreendermos nossa verdadeira natureza, estaremos em sintonia absoluta com o Universo.
Extraído da revista The Theosophist, de maio de 2001
Tradução: Izar G. Tauceda, MST
Loja Jehoshua, Porto Alegre, RS

Em Direção ao Eterno

Ricardo Lindemann                     

A vida humana é como o ciclo das estações. A infância e a juventude  são comparáveis à primavera,  estação dos ventos e dos perfumes. Os jovens querem estar em toda parte, fazer tudo e ser livres como o vento. Os sofrimentos deste período surgem da incapacidade para saber o quê realmente se deseja. No verão da vida, os perfumes dos ideais da juventude perdem sua pureza porque sabemos o quê desejamos, e os desejos são tão poderosos quanto o fogo. Quando os desejos não se realizam, sentimo-nos frustrados e deprimidos. O fogo dos desejos produz o sofrimento próprio desta idade. Após o calor do verão vem a secura do outono – a velhice. As folhas caem, o corpo se deteriora, o cabelo rareia, os dentes caem, os sentidos enfraquecem e a vitalidade diminui. O outono é época de recordação e reflexão: “Porque tu és pó, e ao pó deves retornar”, diz a Bíblia Sagrada (Gênese 3:19). No inverno a árvore não está morta, apenas adormecida, “digerindo” os nutrientes absorvidos ao longo do ano. Ela está preparando a seiva para alimentar as folhas que brotarão na primavera. Da mesma forma, quando dormimos, sonhamos “digerindo” as experiências do dia, cuja essência passa toda vez à consciência como um mínimo de sabedoria. Os antigos gregos consideravam os deuses do sono e da morte, Hypnos e Thanatos, como irmãos, pois o sono compartilha a qualidade da morte.

Após o por do sol, ele deve surgir novamente para um novo dia, porque a periodicidade é a lei. Como diz o Gita:

” Não deves te afligir com o inevitável porque a morte é certa para os que nascem, e certo é o nascimento para os mortos”(II.27)

“Os prazeres que surgem do contato, na realidade são matrizes de dor, porque eles tem começo e fim, Ó Kaunteya; com eles não se alegra o sábio.”(V.22)

Talvez a transitoriedade seja melhor compreendida pelo morto, especialmente se a velhice não extinguiu seus desejos terrenos e existe sofrimento quando os desejos corporais continuam após a morte.

Contudo, devemos despertar e tornar-nos cônscios da transitoriedade de todas as coisas terrenas. Um sábio indiano certa vez disse que o maior milagre do mundo é que as pessoas vêem os outros morrerem sempre em toda parte sem cogitar que a morte também possa atingi-los. (I.K.Taimni, Auto Cultura, pp.198-9). Estamos realmente despertos? Quais seriam nossas respostas a nossas perguntas daqui a cem anos? Todos temos respostas em nossos corações. Quem não sabe que quando estamos numa fila, o tempo parece não  passar? Gostaríamos de ver a fila mover-se rapidamente, há impaciência, raiva ou frustração e o tempo psicológico não está mais relacionado com o tempo real; em contrapartida, quando estamos com alguém que amamos, o tempo parece voar.
Quando estamos verdadeiramente felizes, não esperamos um resultado ou uma recompensa no futuro. Somos felizes quando a ação é realizada por si mesma, no presente, sem qualquer motivo posterior. Não há tempo psicológico em nishkama karma. Este é o segredo da ação sem tempo – a ausência de desejo pessoal. Mas, se surgir o desejo de repetir a ação, o tempo psicológico se estabelece. A roda do samsara, de nascimento e morte, reinicia.

Diz Patanjali em seu Yoga Sutras (II.33): “Quando a mente está perturbada por pensamentos impuros, [o remédio] é considerar os opostos”. Portanto ao entrarmos numa fila, acalmemos nossa impaciência ao nos perguntarmos: O que importará isto daqui a cem anos? Isto é semelhante à evocação da morte como antídoto para o intenso desejo pela vida. As chuvas de inverno são o antídoto natural para o intenso calor do verão. Poderemos utilizar os opostos desta maneira?  Naturalmente podemos, porque todos estes são apenas estados mentais semelhantes a sonhos. Devemos vê-los como são, e retirar nossa identificação com eles. Assim eles perdem sua realidade aparente, como ao despertamos de um sonho.

Poderemos ver com clareza quão fútil é a perpétua busca por resultados e compreender que todas as coisas no mundo temporal nos envolvem, fazendo-nos depender do tempo e morrer no tempo? Esquecemos disto tão facilmente porque é difícil estar despertos, vigiando com toda nossa atenção. Ë mais fácil dormir e sonhar, embalados por tendências de nosso passado.

Na infância desejamos ser adultos, na maturidade desejamos nos aposentar; na velhice ou desejamos morrer porque estamos cansados ou desejamos renascer e ter novamente a experiência da vida. Nunca vivemos no presente, mas sempre ansiamos pelo futuro, para repetir nossos prazeres passados ou para fugir da repetição das tristezas passadas. Poderemos ver que na roda dos nascimentos e morte, tudo é ansiedade, quer por atração ou por repulsão, quer por desejo ou por medo? Ver isto com clareza é viveka ou discernimento espiritual. Então haverá a possibilidade de achar o eixo da roda dos nascimentos e morte que é firme, fixo, e sobre o qual a roda se movimenta. Este eixo é sem tempo, eterno, imutável. É como o “olho do furacão”. No centro da tempestade a mente do sábio é estável. Não é afetada pela fúria do furacão, e o eixo não se envolve no movimento da periferia.

As únicas coisas que sobrevivem à morte originam-se deste centro eterno que deve também ser eterno – isto é, sabedoria espiritual que surge do autoconhecimento, amor espiritual que é abnegação, e vontade espiritual que é auto controle. Nenhum momento é inoportuno para desenvolvê-los, nenhuma situação é inadequada para estimular seu crescimento porque eles são eternos.
 
Compreensivelmente J.Krishnamurti não considerava a reencarnação, embora  nunca a tenha negado. A visão de Krishnamurti é sempre de que a eterna profundeza da consciência se expressa na eternidade da verdadeira sabedoria, do amor e da vontade. Certamente a reencarnação é um fato no mundo temporal, e portanto é um fenômeno periférico, uma ilusão ou sonho transitório sob a perspectiva da eternidade, que é a única realidade.

Somente ações sem expectativa de resultados pessoais podem realmente ser morais, verdadeiramente religiosas. Quando as religiões organizadas pregam um tipo de moralidade que conduz à salvação pessoal, elas estão apenas seduzindo as pessoas com uma segurança psicológica e não com a verdade. Esta moralidade pode ser um tipo de hipocrisia que substitui um diferente tipo de prazer, um anseio egoísta de felicidade.

A única fundação segura da  moralidade é a fraternidade universal, que é a cessação do egoísmo. O eu é o movimento do desejo por recompensas futuras, um sinônimo de ansiedade e tempo psicológico. Na religião verdadeira não há lugar para a intolerância, para guerras santas, por matar em nome de Deus. Ë a reunião com o espírito de todas as coisas, a reconciliação com o Todo, que é bondade; é o amor apenas pelo amor. Como foi descrito no Gita por Sri Krishna:

“Quem Me vê em toda parte, e tudo em Mim, dele nunca me afastarei, nem ele nunca se afastará de Mim.” (VI.30)

 

Ecologia Oculta

Eduardo Weaver

Todas as grandes religiões ensinam que o homem é um ser divino por natureza. Alegoricamente se diz que o homem comum vive em um estado de profundo sono, esquecido de sua real natureza, e que precisa despertar, abrir os olhos e abandonar wholesale nfl jerseys a ilusão do “eu” separatista.

Embora a espiritualidade esteja latente em todo ser humano, é necessário em geral algum elemento externo para deflagrar o processo de redescobrimento da sua natureza divina. A grave crise ambiental que atravessamos está servindo como catalisadora do processo de regeneração do ser humano. A cada dia fica mais evidente que a Terra é um todo orgânico e que a própria sobrevivência da espécie humana estará ameaçada, caso não se reverta a escalada de degradação do meio ambiente.

Quando a casa está pegando fogo não há tempo para filosofar. É preciso agir. Problemas como a destruição da camada de ozônio, a poluição do ar, a contaminação dos alimentos e o desmatamento estão fazendo com que as pessoas se unam na busca de uma nova maneira de viver. Começa a despontar uma nova postura, uma nova consciência holística.

A moderna tecnologia tem contribuído para o desenvolvimento dessa nova visão de mundo. Quando, em 1969, os astronautas norte-americanos pela primeira enviaram à Terra imagens de nosso planeta visto de longe (da Lua), começou a se desenvolver uma nova consciência planetária. Para muitas pessoas essas imagens causaram grande emoção, porque a partir de então a Terra passou a ser percebida mentalmente não mais como uma abstração, mas como um corpo integrado. Surgiu a imagem da nave espacial Terra viajando pelo espaço sideral, tendo como tripulantes os seres humanos.

A televisão, apesar de todos os seus defeitos, tem contribuído para difundir essa nova cultura planetária. Diariamente ela leva a milhões de residências imagens de todos os cantos do mundo, com seus problemas, suas guerras e suas realizações. Esse partilhar das alegrias e dos sofrimentos de povos distantes vem contribuindo decisivamente para a redescoberta do sentido da unidade da vida naqueles que estão receptivos.

Processo universal

O movimento ecológico hoje deixou de ter apenas um objetivo preservacionista. Os rumos desse movimento transcendem as questões da qualidade de vida e sobrevivência do homem, estando dirigidos para o estudo das leis que governam a vida e para o descobrimento do papel do homem dentro do processo evolutivo universal. Nota-se uma convergência cada vez maior entre as leis que os ecologistas vêm estudando na sua busca de solução para os problemas ambientais e os princípios ocultos que são a base dos ensinamentos teosóficos. É esse aspecto oculto da ecologia que faz com que ela possa ser utilizada como veículo de regeneração da humanidade.

A seguir estão listados alguns princípios que são os pilares da visão de mundo dos ambientalistas. Da exposição que se segue, fica patente que esses princípios são uma expressão das leis ocultas estudadas pelos teosofistas.

1. O Sol é a fonte de toda a energia

O Sol é a fonte de onde recebemos o calor e a energia indispensáveis para a manutenção da vida biológica em nosso planeta. Sem o Sol a Terra seria um astro estéril e morto. Todos os processos biológicos estão intimamente ligados aos ritmos solares. Toda energia produzida a partir de fontes diversas tem sempre a sua origem no Sol.

A energia hidrelétrica depende da ação do Sol sobre os oceanos, propiciando a evaporação da água, a formação de nuvens e a chuva, que é indispensável na formação dos rios. O petróleo é vegetal, assim como o carvão natural. Os vegetais, incluindo a cana, que é a matéria-prima do álcool, só se desenvolvem na presença do Sol. Os ventos são resultantes de gradientes térmicos também provocados pela atividade solar.

O ocultismo afirma que o Logos Solar é o regente de nosso sistema. Em A Doutrina Secreta, de Helena Blavatsky, está dito que nossas vidas são partes da vida desse Grande Ser e que o Sol é o seu coração, seu centro vital. Seu cérebro, segundo Blavatsky, está oculto por trás do Sol visível. As ondas da essência da vida fluem por meio de artérias e veias invisíveis. Os planetas são os seus membros. Do Sol a energia é irradiada para todos os centros nervosos do Sistema Solar. Ele é o reservatório de energia do nosso pequeno Cosmo.

Da mesma forma que o coração humano pulsa regularmente para bombear o fluido da vida para todo o corpo, o Sol espiritual pulsa, conduzindo por meio de artérias invisíveis o prana, ou energia da vida, para todo o Sistema Solar.

O ocultista vai, assim, um pouco além dos ecologistas, uma vez que ele postula que não só dependemos do Sol para a geração de energia e para o crescimento dos vegetais indispensáveis à nossa alimentação, mas que nossa vitalidade dele provém. Somos células do Logos Solar. “Nele nos movemos e temos o nosso ser.”

2. Interdependência de todas as coisas

Um dos princípios mais importantes da ciência da ecologia é a lei da interdependência entre todas as coisas. Toda vez que o homem interfere na natureza, quebrando o equilíbrio natural, ele acaba prejudicando a si próprio. A derrubada e queima das florestas está causando o aparecimento de áreas desérticas e produzindo alterações climáticas que trazem prejuízos a populações de vários países. A poluição do ar, dos rios e dos mares está criando graves problemas de saúde.

Os ecologistas vêm questionando o significado do progresso, uma vez que a mentalidade de busca de lucros a qualquer preço da sociedade industrial tem se mostrado catastrófica para o meio ambiente. Hoje desponta entre os ambientalistas uma consciência de que precisamos aprender a viver juntos, e de que tudo que fazemos aos outros e ao meio ambiente acaba se refletindo sobre nós.

Esse princípio nada mais é do que uma formulação da Lei do Carma, da Lei da Ação e Reação. É a lei de justiça que está por trás de todos os fenômenos da natureza. Sempre que o equilíbrio é perturbado devido a uma ação irresponsável do homem, a própria natureza se encarrega de corrigir os desvios para que o equilíbrio possa ser restabelecido. Os remédios utilizados pela natureza, no entanto, são muitas vezes bastante amargos. A militância ecológica vem demonstrando que somente através de um amplo processo de conscientização será possível evitar uma grande catástrofe ambiental.

3. Responsabilidade pelo planeta

O conhecimento das leis da natureza está despertando um sentimento mais definido de responsabilidade pelo todo, pelo planeta. No passado, quando a população da Terra era relativamente pequena e os instrumentos de destruição eram mínimos, as agressões ao meio ambiente tinham efeito localizado e não afetavam o equilíbrio dos ecossistemas globais. A tecnologia moderna ampliou drasticamente o poder de destruição da natureza. Hoje, no lugar de machados, as florestas são devastadas com motosserras ou produtos químicos. No lugar de lanças e porretes temos bombas atômicas e mísseis intercontinentais.

A explosão demográfica, a escassez de alimentos e a miséria crescente dos povos do Terceiro Mundo exigem uma ação coordenada de todas as pessoas sensíveis. Quando recebemos pela imprensa imagens da fome na Nigéria e em outros países africanos, ou mesmo no interior de nosso país, não podemos permanecer indiferentes.

O sentimento de que somos responsáveis pelo todo é um princípio fundamental do ocultismo. A Teosofia ensina que somos como células de um organismo maior. Nossa vida é parte da vida do nosso planeta, que por sua vez é parte da vida do Logos Solar. Nossa ação influencia a vida universal. Como afirma Krishnamurti, “nós somos o mundo, e o mundo está em nós”.

4. Não somos donos do mundo

O conceito de posse, tão presente na nossa sociedade de consumo, está sendo muito questionado. Será válido aceitar que uns poucos privilegiados desfrutem os escassos recursos alimentícios e energéticos de nosso planeta, como se fossem donos do mundo, enquanto outros não têm acesso a um mínimo necessário para a sobrevivência? Até que ponto é justo aceitar que alguns privilegiados herdem fortunas enquanto outros nasçam para viver embaixo da ponte? Com que direito certos grupos desperdiçam alimentos enquanto outros vivem na miséria e não têm terra para plantar?

Um dos textos mais lidos e comentados entre os ecologistas é uma carta que o cacique Seatle escreveu ao presidente norte-americano no século passado, quando a palavra ecologia ainda nem havia sido criada. Nesse documento de extrema atualidade ele demonstra como é absurda a idéia de vender a terra onde viveram seus antepassados, vender o canto dos pássaros e a corrente dos rios. Em uma frase de grande profundidade, ele diz: “A terra não pertence ao homem, o homem é que pertence à terra”. Essa percepção da unidade da vida e do inter-relacionamento entre todas as coisas está sendo aos poucos resgatada, e é uma das maiores contribuições do movimento ecológico ao crescimento espiritual do ser humano.

Energia divina

Muitos pensadores e filósofos vêm afirmando que nossa sociedade, muito influenciada pelo materialismo, tem enfatizado em excesso o “ter”, em detrimento do “ser”. Os ocultistas de todos os tempos sempre ensinaram que o homem não é o senhor da criação, no sentido de ter direito de posse sobre os demais seres vivos e a terra. O homem só pode ser visto como senhor da criação na medida em que assume sua responsabilidade no processo da criação divina. Um dos grandes desafios para aquele que pretende trilhar a senda espiritual é se desapegar de todas as posses, incluindo o seu corpo, seus bens, ideologias e precon-ceitos. Só então ele pode se voltar para o desenvolvimento do seu verdadeiro ser, identificando a sua natureza com o divino. Deriva daí a percepção de que seu corpo é um veículo da vida universal e de que a energia que flui através de si é a expressão da energia divina.

A convergência entre a visão ecológica e a visão oculta e espiritualista do mundo está fazendo com que um número crescente de pessoas sensíveis ao apelo dos ambientalistas comece a vislumbrar a beleza das leis universais que são os pilares da Teosofia, da Sabedoria Divina.

 

Diagrama de Meditação

Mary Anderson
Secretária Internacional da Sociedade Teosófica em Adyar.

Em 1887-88, a Sra. Blavatsky ditou um Diagrama de Meditação ao Sr. E.T. Sturdy. Este Diagrama é interessante para o estudo e muito útil para a meditação,wholesale jerseys e também para a vida diária.

Ele inicia com as palavras: “Primeiro pense na Unidade.” Como podemos fazer isso?

Será que devemos pensar na unidade de todas as coisas como algo “do outro mundo”, rejeitando o mundo da diversidade que conhecemos? A Sra. Blavatsky cita duas coisas que conhecemos e nas quais podemos pensar facilmente: espaço e tempo. Todas as coisas que conhecemos estão localizadas no espaço e todos os acontecimentos que sabemos ocorrem no tempo.

O espaço é o pano de fundo dos acontecimentos. Portanto, por estarmos acostumados com objetos e acontecimentos podemos facilmente pensar em espaço e tempo. Na verdade, não podemos pensar na existência de objetos e acontecimentos que ocorrem no vazio, isto é, sem ou fora do pano de fundo do tempo e espaço.

Mas podemos pensar em espaço e tempo existindo sem objetos e acontecimentos? Se pudermos fazer isso, continuaremos com esta meditação!

Devemos conceber a “Expansão no Espaço e Infinita no Tempo”, isto é, devemos transcender o espaço e o tempo que conhecemos. Esta expansão e transcendência conduzem ao que pode ser imaginado como o númeno (Termo grego: noúmenon, particípio de noeo, compreender, de nus, mente. Segundo Immanuel Kant (1724-1804) aquilo inteligível, a coisa em si, o objeto tal como podemos supor que existe em si mesmo, em oposição ao perceptível pelos sentidos, ou seja, o fenômeno) do fenômeno no limite do espaço e tempo que conhecemos, isto é, as idéias-raiz ou arquétipos por trás das aparências de espaço e tempo, ou espaço e tempo mayavico – de fato, sua Origem Divina.

O númeno do tempo é algumas vezes chamado de Eternidade. HPB falou de “Duração” neste sentido. O númeno do espaço é o “Pai Eterno” ou a Grande Mãe. Há algumas belas passagens a respeito do Espaço em A Doutrina Secreta: “O que é aquilo que era, é e será, quer haja ou não um Universo, quer haja ou não deuses?”.

A resposta dada é – “Espaço”. Aqui temos uma referência a espaço sem deuses e, portanto, sem objetos de qualquer tipo. “Aquilo que sempre é, é um, aquilo que sempre foi é um, aquilo que sempre está sendo e se tornando também é um, e isto é Espaço”.

Não esqueçamos o objetivo deste exercício, que é pensar na Unidade. Mas pensar em expansão e infinidade envolve um processo de ampliação, de expansão, e podemos conceber a Unidade como uma limitação. Isso depende de como vemos a Unidade – esta unidade que também é chamada de “Absoluto”. A Unidade pode parecer que signifique uma limitação a um único ponto, que por definição não tem dimensões. É como um “Buraco Negro”, as coisas parecem desaparecer nele. É o zero, uma lacuna, um vazio.

Esta é a senda do “neti, neti”. Ao negar tudo que podemos conhecer, nos aproximamos daquilo que não pode ser conhecido. Mas se a Unidade significa uma expansão para incluir tudo, significa que a vemos como uma espécie de esfera infinita, sem dimensão naquilo que está além de todas as dimensões. É o plenum (espaço repleto de matéria), ou integridade. Esta é a abordagem comentada aqui.

Considerado como um plenum, o espaço infinito que inclui todos os “espaços” separados, as três dimensionais e mais o “multidimensional”, “espaço exterior” e “espaço interior”, etc., em Um Espaço. Considerada como tempo infinito, a Eternidade inclui todo tempo, o passado, o presente e o futuro, o tempo psicológico, o tempo de nossos sonhos, etc., em Um Tempo Infinito.

A Unidade abrange ambos, um vazio e um plenum. O Absoluto é ambos. É ao mesmo tempo a circunferência que não está em nenhum lugar e o ponto central que está em todo lugar. Espaço e tempo estão sempre ligados. Por exemplo, o tempo foi considerado a quarta dimensão. Assim, afinal, o Espaço infinito e a Eternidade são um. O Espaço, a Grande Mãe, é a raiz da matéria (mulaprakriti). O tempo é colocação em movimento, o movimento primordial sendo “o Grande Alento”, a origem da Consciência.

Portanto, retornando à origem de todas as coisas no espaço, isto é, a origem da substância ou matéria, e retornando em pensamento à base de todos os acontecimentos no tempo, ou seja, a origem do movimento da consciência ou espírito, nos aproximamos da Unidade da qual eles são aspectos. De acordo com a “Primeira Proposta Fundamental”, quando deve ocorrer a manifestação, o Absoluto mostra os dois aspectos, o da matéria primordial e o do espírito primordial ou consciência.

Um elemento adicional agora é acrescentado à meditação: Devemos conceber a expansão do espaço e do infinito além do tempo, quer com ou sem auto-identificação. Assim, dependendo de nosso temperamento, devemos imaginar objetivamente a expansão infinita (Espaço Infinito) e o infinito no tempo (Eternidade ou Duração), sem referência a nós mesmos, isto é, subjetivamente, sentindo sermos espaço infinito e tempo infinito. Esta abordagem nos lembra do método apresentado por Geoffrey Hodson na obra Yoga de Luz:

Não sou o corpo físico,

Sou o Eu espiritual.

Não sou as emoções,

Sou o Eu espiritual.

Não sou a mente,

Sou o Eu espiritual.

Assim, “sou espaço ilimitado, sou infinito” é uma abordagem perigosa se consciente ou inconscientemente identificamos a personalidade com o Eu Espiritual. Não faremos isso, se formos capazes de seguir as instruções adicionais de HPB: “Não há risco de auto-ilusão se, decididamente, esquecermos a personalidade”. Assim, a Meditação começa com conceitos inspiradores. E também, como veremos, finaliza com conceitos inspiradores.

Resumindo o que foi dito até agora, nesta meditação iniciamos com o que conhecemos: coisas diárias e acontecimentos diários. Depois buscamos coisas e acontecimentos diários, respectivamente, e suas fontes no espaço e no tempo, como também aquilo dos quais estas fontes são apenas aspectos.

Assim, o início da meditação é inspirador, quer nos identifiquemos ou nos percamos no Infinito Espaço e Tempo. Todas as sendas espirituais começam pela inspiração; por exemplo, a Senda Mística Cristã começa pela conversão: é uma volta. Tudo muda. Nada pode ser o mesmo novamente.

Nesta inspiração está o início e o fim da senda espiritual. Como um começo, ela nos inspira para continuar. Mesmo em épocas em que esta primeira inspiração parece desaparecer, a lembrança de que “conhecemos” ainda pode nos direcionar para a meta inconcebível, neste caso refletido no final da meditação pelas palavras: “Sou todo Espaço e Tempo”. Mas entre o começo e o fim de qualquer senda espiritual, há muitos esforços difíceis e muitos fracassos aparentemente desalentadores.

Vejamos brevemente o duro trabalho que vem após a inspiração inicial e antes da Realização final. Esta dura labuta e esforço pessoal são divididos em “Privações” e “Aquisições”, isto é, ao que respectivamente devemos renunciar ou deixar de fazer em pensamento e o que devemos fazer em pensamento, similar aos yamas e niyamas do Raja Yoga.

Por que “em pensamento”? Porque o pensamento precede e resulta em ação (embora possamos nos enganar em pensamento!). E pensar é uma ação em si mesma. As “privações” são a recusa constante de pensar na realidade de certas coisas. Todas as coisas mencionadas (que são todas temporais e ilusórias ou apenas relativamente reais), todas se referem às posses. Assim, a recusa de pensar nelas como reais significa desapego. Desta maneira, as “privações” ou renúncias significam a recusa de pensar na realidade de:

-separações e encontros e a associação com lugares, tempo e forma;

-diferenças entre amigo e inimigo;

-posses;

-personalidade;

-sensações.

Portanto, elas devem ser tomadas por irreais. Isso significa desapego em vários níveis de nossa experiência e de nosso ser. Se realmente percebemos que algo é irreal, não ficaremos mais dependentes dele. Somos apegados aos nossos parentes, nossos amigos, aos que admiramos etc. Também somos apegados a alguns lugares – onde nascemos, onde fomos felizes – e a algumas épocas, talvez “aos bons e velhos tempos” do passado ou do futuro, em uma “Época Dourada”.

Outros apegos ocorrem em relação a algumas formas externas (coisas ou rotinas de nossa vida diária), nossas posses, nosso “pequeno” eu e suas sensações. O que significam para nós estes tipos de apego? Eles promovem uma expansão da personalidade. Possuir muitas coisas faz-nos sentir maiores; elas incham nossa personalidade.

Da mesma forma, ter uma grande família ou muitos amigos faz nosso sentimento de eu expandir-se. Nossas sensações ampliam o alcance de nossa percepção, que pode ser uma bela experiência, mas ao mesmo tempo pode aumentar nosso sentimento de auto-importância.

Assim estamos apegados de todas estas maneiras, quer pelo prazer, que nos faz buscá-lo, ou pelo sofrimento, que nos faz teme-lo e que procuramos evitar. Até mesmo glorificamos nosso sofrimento: “Separar-se é tão doce tristeza”, “Nossas doces canções são as que cantam os mais tristes pensamentos”.

É evidente que desses apegos surgem certos sentimentos. Do apego a pessoas, lugares e formas surgem desejos fúteis, expectativas, tristes lembranças e lamentações relativas a separações e encontros. Da ilusão da diferença entre amigo e inimigo surgem a raiva e o preconceito.

Ganância, egoísmo e ambição resultam da ilusão da realidade das posses. A ilusão da personalidade faz surgir por um lado a vaidade e por outro o remorso. Da ilusão de que a sensação é real surge a gula e a luxúria. Estes são apenas exemplos: “O Diagrama faz apenas alusões gerais”.

Como enfrentamos estas privações ou renúncias? Primeiro devemos compreender que os vários apegos mencionados são a origem da dependência, da ignorância e da disputa. Depender significa estar privado de liberdade, inclusive de nosso livre arbítrio; a ignorância é falta de sabedoria e a disputa é ausência de amor. É interessante que ao final de Aos Pés do Mestre estes três – vontade, sabedoria e amor – são mencionados como qualificações para a Senda da Santidade.

Em segundo lugar, se realmente compreendemos a natureza desses apegos, poderemos dizer, nas palavras do Diagrama: “Estou sem eles”. Na verdade, se compreendemos sua verdadeira natureza, eles simplesmente cairão como as folhas secas no outono. Lembremos as palavras de A Luz da Ásia:

“Se pões limites na roda da mudança

E não há maneira de livrar-te da corrente,

O Coração do Ser ilimitado torna-se uma maldição,

A Alma das Coisas sente Dor.

Não estás limitado! A Alma das Coisas é agradável.”

Mas se não compreendemos realmente a natureza transitória desses apegos e ainda dizemos “Não os tenho”, estaremos nos enganando, porque eles são as personalidades! O terceiro passo é compreender que estamos sem qualquer atributo. Esta compreensão, afinal, pertence a Atma. Vejamos agora as “Aquisições”. Elas são de três tipos: dentro de nós, fora de nós e ligando-nos com o que está fora.

– Dentro de nós: “A perpétua presença em imaginação em todo espaço e tempo.” Dessa compreensão “origina-se uma base de memória que não cessa em sonho ou em vigília” – talvez, no fundo de nossos corações, a memória do que somos: a centelha da Chama Única – na realidade, esta própria Chama é a resultante da intrepidez.

– Fora de nós: percebemos que todos os seres corporificados apenas têm limitações. Sabendo que “nada é perfeito” ou completo, que o mundo no qual vivemos é apenas “relativamente real”, somos capazes de criticar impessoalmente, sem elogiar ou acusar.

– E a ligação entre dentro e fora é resumida na “tentativa contínua de uma atitude mental para com todas as coisas existentes, que não é nem amor, nem ódio nem indiferença”. Amor e ódio, ambos são apego, respectivamente de natureza positiva ou negativa. A indiferença é apego ao não-apego, evita o apego. Se estivermos sem o amor (pessoal), sem ódio e sem indiferença, estaremos sem apego pessoal e deste modo sem desejos.

Como resultado poderemos ver todas as coisas clara e objetivamente, reagindo apropriadamente com discernimento em cada caso individual, ao compreendermos que a mesma divindade interior habita todas as coisas. Isso significa que ficamos calmos, tranqüilos e harmoniosos. Assim a virtude se desenvolve espontaneamente. “Benevolência, simpatia, justiça etc. surgem da identificação intuitiva do indivíduo com os outros, embora ignorada pela personalidade”.

O tema de abertura -“Conceba a Unidade pela Expansão no Espaço e Infinita no Tempo” – é acompanhado e concluído pelas palavras de encerramento da Meditação: As aquisições são completadas pelo conceito de “Sou todo Espaço e Tempo”. Lembremos que isso só pode se dito verdadeiramente quando há perfeito cumprimento das privações e aquisições. Aí não é a personalidade que concebe a si.

O texto finaliza com as palavras “Além disso, … (nada pode ser dito)”. Este é o fim do texto do Diagrama de Meditação, mas talvez somente o início da Meditação. O que está além é inexprimível e até inimaginável; impossível de ser concebido pela mente, mas a Natureza Espiritual na realidade sabe ser una com tudo. “O resto é silêncio”. E neste silêncio ocorre a verdadeira meditação.

(Extraído da revista The Theosophist, de agosto de 2002.)

Tradução: Izar G, Tauceda, MST  – Loja Jehoshua, Porto Alegre, RS

 

“Progresso, do ponto de vista do espírito, é de cume;

de uma forma de perfeita síntese à outra;

de uma totalidade a uma outra totalidade ainda mais bela.”

N. Sri Ram

 

Despertando a Luz Interior

Despertando a Luz Interior – Entendendo a natureza transformadora do ministério de Jesus

Autor: Raul Branco

Podemos perceber um fato novo no seio da família cristã. Muitos fiéis que anteriormente pareciam satisfeitos com suas práticas devocionais tradicionais, agora estão buscando o caminho espiritual. Apesar dessa tendência representar um grande progresso, o que preocupa as autoridades eclesiásticas é que essa busca está levando um grande número de fiéis para outras tradições, principalmente as orientais. A razão para isso é que nossa tradição não enfatiza o estudo e a prática dos ensinamentos de Jesus, como fazem as tradições orientais. O objetivo deste trabalho é mostrar que o cristianismo detém um acervo de ensinamentos e práticas que nada deixam a desejar em comparação com outras tradições.

Ainda que o protestante geralmente conheça intimamente seu livro sagrado, a Bíblia, o mesmo não ocorre com seu irmão católico. Ambos, porém, geralmente desconhecem que a Escritura tem três níveis possíveis de entendimento. A Bíblia, tal como o ser humano, é constituída de corpo, alma e espírito. O “corpo” é o seu significado literal, que não deixa de ser útil a algumas pessoas. A alma são as lições morais a serem derivadas do texto. O espírito está escondido na alegoria, e traz geralmente lições bem diferentes das percebidas no sentido literal.

Como as chaves da interpretação da Bíblia, que permitem desvelar o espírito da Escritura, não estavam até recentemente ao alcance do grande público[1], o véu da simbologia e os aparentes absurdos de certas passagens do texto bíblico faziam com que muitas pessoas simplesmente desistissem de tentar entender a verdadeira natureza dos profundos ensinamentos que ali se encontram. Este trabalho é uma tentativa de apresentar a natureza transformadora do ministério de Jesus. O primeiro passo para isso é entender o ponto central de toda Sua pregação, o objetivo de todo o aprendizado humano no mundo, o Reino.

O Reino dos Céus

Os teólogos e estudiosos do cristianismo são unânimes em concordar que todo o ministério de Jesus girou em torno do “Reino”, referido em Mateus e João como o Reino dos Céus, em Marcos e Lucas como o Reino de Deus, em Tomé como o Reino do Pai, e também em João como a Vida Eterna. Como esses diferentes termos parecem indicar mais uma preferência dos autores daqueles evangelhos do que de Jesus, serão todos usados como sinônimos para o mesmo conceito.

Jesus, o pedagogo divino, usava as palavras com extrema habilidade para tocar a alma de seus ouvintes. A escolha do termo “Reino” é mais um exemplo dessa habilidade. Para os judeus, que viviam há várias gerações sob o jugo da dominação estrangeira, o “Reino” era uma palavra doce e alvissareira, evocando a esperança de dias melhores em que teriam mais uma vez um Reino governado por Reis judeus, como Davi e Salomão. O Messias tão esperado seria o instrumento divino para o estabelecimento daquele Reino. A menção de Reino de Deus ou Reino dos Céus eletrizava seus ouvintes, que projetavam seus anseios naquele “Reino” sobre o qual Jesus falava, sem apresentar uma definição precisa de sua natureza.

O primeiro passo de um pedagogo é prender a atenção de seus ouvintes. O segundo é fazê-los pensar e chegar a suas próprias conclusões. A forma como Jesus falava, por parábolas, servindo-se de imagens da vida cotidiana do povo, prestava-se maravilhosamente para esse fim

A passagem chave sobre o “Reino dos Céus” é atribuída a João Batista, e encontra-se logo no início do Evangelho de Mateus. Essa passagem lapidar gerou uma triste confusão na maior parte dos leigos e teólogos sobre o verdadeiro significado do Reino. As palavras de João, como chegaram a nós, foram: “Arrependei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3:2). A razão da confusão explica-se, em parte, pela tradução inapropriada da primeira palavra, o que dificultou o entendimento do verdadeiro sentido espiritual da mensagem.

A palavra traduzida como “arrependei-vos”, que no original grego derivava de metanoia, tinha uma rica conotação, pois significava transformação dos estados mentais pelo entendimento dos fatores que haviam levado ao pensamento ou ação errônea inicial. Com a tradução do termo como “arrependimento” a conotação que passou a ser dada para essa passagem é a de “culpa por transgressões anteriores” e não de “transformação interior devida ao entendimento dos fatores envolvidos”. A tradução foi extremamente infeliz porque desvirtuou a passagem e contribuiu para que, ao longo dos séculos, os cristãos desenvolvessem um sentimento negativo e apático de culpa em vez da atitude positiva desejada de transformação. Essa postura induziu, ademais, a uma interpretação errônea do “Reino dos Céus”, que passou a ser identificado como um lugar a ser atingido por aqueles que se arrependessem de seus pecados.

A expressão “o Reino dos Céus” também não foi devidamente compreendida. O povo judeu, antes de ser tocado pelo sentido espiritual da mensagem do Mestre, imaginava que Jesus estivesse prometendo aquilo que eles ansiavam ardentemente, um reino de Jeová na Terra, com os judeus, como povo eleito de Deus, governando toda a humanidade. Esse materialismo espiritual deu, mais tarde, o colorido para as interpretações das comunidades cristãs, com Jesus, após seu esperado retorno (parusia) glorioso à Terra, governando sobre todos os homens. Apesar de Jesus ter dito enfaticamente que seu reino não era deste mundo (Jo 18:36), ainda perdura até hoje uma conotação materialista para o Reino de Deus na maior parte dos tratados teológicos.

Mas o que seria então o Reino de Deus? Jesus nos ensinava, com seu método peculiar, que o Reino de Deus existe onde Deus impera, ou seja, na consciência daqueles que estão voltados para Deus. Fica claro que o Reino não é um lugar, pois se encontra em nosso interior (Lc 17:20-21). Como nos foi dito que na Casa do Pai há muitas moradas (Jo 14:2), podemos inferir que existem vários níveis hierárquicos dentro do Reino dos Céus, simbolizados pela escada de Jacó (Gn 28:12) estendendo-se da terra ao céu (cada degrau da escada simboliza um nível de realização espiritual). Assim, podemos concluir que o Reino de Deus é um estado de consciência de crescente sintonia com Deus, que nos leva progressivamente a senti-lo em nosso coração, a termos visões de Sua Luz, de comungarmos com Ele e, finalmente, alcançarmos a meta final de nos fundirmos Nele, como atestam milhares de místicos que alcançaram esse estado beatífico ao longo dos séculos.

Muitos autores descrevem o Reino dos Céus como um estado de união com Deus, no qual existe uma profunda paz, bem-aventurança inconcebível, conhecimento verdadeiro da natureza de todas as coisas e, enfim, um estado celestial que os místicos tentam em vão descrever. Essa união, no entanto, é a meta final no conjunto de realizações espirituais crescentes que expressam os estágios iniciais e intermediários da consciência do Reino. Por outro lado, nem todos os que crêem estar voltados para Deus realmente atingiram a consciência do Reino. A sintonia com Deus dá-se, inicialmente, ao nível da mente lógica, ou seja, ao nível da mente de nossa natureza inferior mortal. Somente quando o Cristo interior nasce, quando a sensibilidade intuitiva do indivíduo desperta, é que, num sentido mais estrito, inicia-se a consciência do Reino de Deus. O apóstolo Paulo deixou claro esta verdade ao falar a respeito de seu ministério entre os gentios: “A estes quis Deus tornar conhecida qual é entre os gentios a riqueza da glória deste mistério, que é Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1:27)

Os evangelhos apresentam essa profunda verdade de forma simbólica. É dito que João Batista é o precursor do Cristo (Mt 3:1-12), portanto um importante mensageiro divino. Mas Jesus nos surpreende ao declarar que, dentre os nascidos de mulher, nenhum é superior a João, no entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele (Mt 11:11). Essa passagem deve ser entendida no seu sentido simbólico. João, o precursor, simboliza a mente concreta (um aspecto da natureza inferior, portanto, nascido de mulher), enquanto o menor no Reino (referido como uma criancinha) é aquele em quem acaba de despertar o Cristo interior, descrito no relato bíblico como o evento histórico do nascimento de Jesus. Portanto, a mente desenvolvida, simbolizada por João, é a precursora do Cristo, ela deve preparar o caminho para a chegada do Cristo interior. Assim, a vida de Jesus pode ser entendida como a expressão figurada dos cinco grandes marcos da entrada e do progresso no Reino dos Céus, ou iniciações: o nascimento, o batismo, a comunhão, a morte e ressurreição e, finalmente, a ascensão ao Céu, ou união com Deus Pai, a culminação de todo o processo.

Voltando à passagem inicial sobre o Reino dos Céus, a proximidade a que se refere Mateus não é também a proximidade temporal. Aqueles que achavam que o Reino seria estabelecido em breve, com o retorno do Senhor, ficaram desapontados, pois, com o passar do tempo, o desfecho apocalíptico esperado não ocorreu. Com isso mudou-se a ênfase. O Reino viria então no fim dos tempos, e muitos ainda acreditam que esse tipo de reino está próximo.

Quando nos lembramos que o Reino é o estado de consciência de crescente sintonia com Deus, percebemos que ele está ao alcance, ou seja, está próximo de todo aquele que passa por uma radical transformação interior. Visto sob esse prisma, o caminho que leva ao Reino é o Caminho da Perfeição. Quanto mais sintonizados estamos com Deus, mais refletimos em nossa vida os atributos de nossa natureza divina essencial. É por isso que Jesus dizia: “Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5:48). Jesus certamente não se referia a um Pai celeste longínquo e inacessível, mas sim à nossa natureza divina interior que anseia manifestar-se por nosso intermédio. Deus precisa da cooperação do homem para completar sua obra na Terra.

A passagem inicial de João Batista sobre o Reino poderia ser traduzida como: “Transformai a vossa natureza interior, pois dessa forma alcançareis a sintonia com Deus, que é bem aventurança, paz e amor”. Jesus, ao pregar o Reino, estava nos convidando a efetuarmos uma mudança de estado mental, que se refletisse em nossos sentimentos e no comportamento exterior. Mas Jesus não só nos convidou a entrarmos com Ele no Reino, mas procurou ensinar-nos como efetuar essa transformação interior.

A Natureza do Mistério de Jesus

Jesus, a compaixão personificada, procurava ajudar de alguma forma a todos seus ouvintes e os que o procuravam. As inúmeras curas milagrosas relatadas na Bíblia provavelmente são uma amostra parcial de sua atuação compassiva no mundo procurando aliviar o sofrimento de seu povo. Mas Jesus sabia que as doenças do corpo e da alma são efeitos gerados por causas ativadas no passado, sob a ação da inevitável lei da retribuição universal, também conhecida como lei de causa e efeito, ou carma. Seu objetivo não era meramente aliviar o sofrimento cuidando dos efeitos, mas ensinar os homens a promover sua própria cura, por meio de uma vida reta, em harmonia com o plano divino. A atuação sobre as causas do sofrimento demanda, porém, que o homem mude de vida, daí a natureza transformadora de seu ministério.

Mas a transformação interior do homem, como todos os processos da natureza, deve seguir a Lei divina. Se Deus concedeu o livre arbítrio ao ser humano, essa liberdade de escolha e de ação tinha de ser levada em consideração por Jesus. A mudança não podia ser forçada. Seus ouvintes naquele tempo na Palestina, como seus seguidores nos dias de hoje, precisavam ser tocados em seus corações, para então serem motivados a transformar sua vida.

Jesus sabia que o ser humano, principalmente os que vivem em sociedades tradicionais, tendem a ser conservadores e a seguir os padrões e valores de sua tradição. A sociedade judaica era especialmente conservadora. Praticamente todos os aspectos da vida diária do povo eram regidos pelos 613 preceitos da Lei Mosaica. Como a Lei estabelecia tudo o que era proibido fazer, assim como as ações que o praticante devia realizar, o judeu ortodoxo era condicionado desde cedo a obedecer a Lei. Mesmo quando a estrita obediência àquela Lei levava a aparentes absurdos ou injustiças, em vez de seguir seu discernimento ou os ditames da compaixão, ele se refugiava na letra morta da Lei Mosaica, sem se importar com as conseqüências de seus atos, confiante de que estava agradando a Deus.

Se essa obediência cega aos preceitos tradicionais fosse suficiente para o aperfeiçoamento do homem, na Palestina de há dois mil anos, como em nosso mundo moderno, Jesus não teria sido chamado a encarnar-se em nossa Terra, pois o Paraíso já teria sido reconquistado não havendo mais necessidade de um Salvador. Mas os profetas antes de Jesus repetidamente alertaram que o povo precisava mudar. E a mudança preconizada não significava simplesmente uma obediência mais rigorosa aos preceitos mosaicos, mas sim agir com compaixão e discernimento, como expressa o profeta: “Porque é compaixão que eu quero e não sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6:6).

A evolução da família humana ocorre da mesma forma como a do ser humano individual. A criança, para a sua proteção, precisa aprender a obedecer a seus pais e mentores até alcançar a idade de pensar por sua própria conta. Na juventude e na vida adulta deve desenvolver o discernimento, para verdadeiramente exercer sua liberdade de forma criativa e harmônica. O discernimento é o aprimoramento da mente racional, isto é, da mente concreta altamente desenvolvida, que foi simbolizada por João Batista, o precursor do Cristo. Porém, o estágio mais elevado da evolução humana ocorre quando nasce o Cristo interior, ou seja, quando o homem começa a perceber a verdade de forma intuitiva, diretamente, e não através da mente lógica. Paulo refere-se a esse nascimento em linguagem poética: “Meus filhos, por quem eu sofro de novo as dores do parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4:19).

O conceito de intuição em nossa sociedade é geralmente associado a uma certa irracionalidade, a uma percepção geralmente feminina inexplicável, tendo portanto uma conotação um tanto pejorativa em nosso mundo que sobre-valoriza a lógica formal aristotélica. No entanto, a intuição é uma capacidade altamente elevada, que transcende a objetividade da mente lógica, sem qualquer contradição com o discernimento. Na verdade, a intuição, a luz do Cristo interior, traz-nos verdades que estão além do alcance da mente. As grandes descobertas dos cientistas e sábios são, via de regra, resultado de vislumbres intuitivos.

Se o discernimento caracteriza a vida do adulto amadurecido, a intuição distingue a do sábio. A expressão basilar de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32) tem um alcance bem mais profundo do que geralmente imaginamos. Jesus não se referia meramente àquilo que achamos ser a verdade em termos de nossos padrões tradicionais. Não era a “verdade” na forma dos conceitos ensinados externamente pela família e a sociedade.[2] A verdade libertadora a que se referia Jesus era a verdade interior, a verdade sem mácula, muitas vezes com implicações surpreendentes, que surgia do fundo do coração, do Cristo interior. Por isso Jesus disse: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará as coisas futuras” (Jo 16:13).

O ministério de Jesus visava ajudar a todas as pessoas, cada qual a seu modo. Além de consolo e esperança para os sofredores, o Mestre procurava facilitar o avanço de seu povo da etapa “infantil” de mera obediência, para desenvolver o discernimento e, no caso de seus discípulos avançados, despertar a luz interior da percepção direta da verdade. Fica claro, portanto, por que Jesus, diante da natural muralha dos condicionamentos de seus ouvintes, precisava usar de linguagem contundente, na prática uma terapia de choque, ainda que respeitando a liberdade de pensamento de seu povo sofrido. Com suas parábolas que concluíam o inesperado, com seus ditados chocantes, com sua linguagem hiperbólica, Jesus conseguia despertar a atenção de seus ouvintes e inserir uma semente de dúvida, de contestação de conceitos ultrapassados ou de retórica em suas mentes, forçando-os a pensar.

É bem verdade que nem todos eram tocados. O destino de suas palavras era semelhante às sementes do semeador da parábola (Mt 13:4-9), muitas não vingavam porque caiam à beira do caminho, em lugares pedregosos e entre os espinhos, mas algumas, felizmente, caiam em terra fértil. Na prática, as pessoas que permitem a germinação da palavra divina são as que têm a mente aberta e o coração sensível.

Um ser divino age como o sol, iluminando a justos e pecadores, aquecendo a simpatizantes e a opositores. Assim, Jesus distribuía suas benções a todos seus ouvintes, apresentava as verdades eternas a seus discípulos diletos e ao povo despreparado. Nesse caso, no entanto, sabendo que algumas dessas verdades profundas podiam ser mal utilizadas pelos egoístas e ambiciosos, era forçado a velar seus ensinamentos públicos em parábolas e ditados simbólicos, os quais podiam ser compreendidos pelos iniciados de todos os tempos.

Levando em consideração a complexa natureza do ser humano, Jesus concebeu seu ministério transformador atuando por meio de três grandes conjuntos de medidas. Em primeiro lugar seus ensinamentos, em segundo uma vida ética e, finalmente, as práticas e rituais espirituais. Esses conjuntos de medidas eram organicamente interdependentes. Não era possível progredir muito somente ouvindo e memorizando os ensinamentos. Era imprescindível incorporá-los à vida diária, pois, conforme Ele mesmo disse: “todo aquele que ouve essas minhas palavras e as põe em prática será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha” (Mt 7:24). Tiago, seu irmão, ecoando os ensinamentos do Mestre foi ainda mais direto: “Tornai-vos praticantes da palavra, e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos!” (Ti 1:22). A prática dos ensinamentos levava a uma vida ética, ou seja, a uma progressiva purificação. A purificação, por sua vez, tornava possível o acesso a certas práticas e rituais que aceleravam a expansão da consciência que, para completar o ciclo, permitia um maior e mais profundo entendimento dos ensinamentos do Mestre. Os três elementos do ministério de Jesus interagiam, retro alimentando-se  e criando uma espiral de progresso constante.

A Figura a seguir oferece uma imagem desta interação do ministério de Jesus. O leitor atento perceberá que existe um paralelo entre os três conjuntos de medidas: ensinamentos, ética e rituais, e os três aspectos da natureza divina: sabedoria, amor e poder. Os ensinamentos levam à sabedoria, a ética superior é a expressão do amor e os rituais e práticas conferem poder espiritual.

Vista sobre outro prisma, a sabedoria é a expressão da Seidade, o estado de Ser do Absoluto com sua infinita compreensão de tudo o que existe em todos os planos. Mas para alcançá-la, temos que nos integrar tanto com a expressão externa como com a interna de Deus. A expressão externa de Deus é a Natureza e, mais perto de nós, a família humana. Uma vida ética promove uma progressiva integração harmônica do homem com seu ambiente exterior. Por sua vez, os rituais e práticas espirituais promovem a integração da natureza inferior do homem com a interior, ou se preferirmos, do homem com Deus. A vida ética e as práticas e rituais espirituais seriam as ações do homem visando promover sua integração com os dois mundos: exterior e interior. Esta integração leva à harmonia, que é paz e amor. A sabedoria eqüivaleria à colheita, no nível da consciência, dos frutos desta harmonia.

Assim como um avião precisa atingir uma certa velocidade antes de alçar vôo, o discípulo também precisava de um mínimo de sintonia com Deus para alcançar os primeiros níveis do Reino dos Céus. Ele deveria ter um mínimo de compreensão dos ensinamentos do Mestre, além de certo nível de purificação expresso por uma vida ética e o acesso a certas práticas e rituais.

Mais Detalhes sobre os ensinamentos de Jesus

Podemos imaginar as palavras de Jesus como sementes que caíam na alma de seus ouvintes. Se a alma estivesse aberta, seria um solo fértil. Nesse solo as sementes deviam ser cultivadas por uma vida ética e regadas por práticas e rituais espirituais, por bom tempo, para que pudessem germinar, tornarem-se árvores e, na estação apropriada, darem frutos. Esses frutos conteriam, por sua vez, novas sementes para continuar o trabalho divino de propagação da verdade redentora.

Visto sob outro ângulo, as palavras de Jesus eram o começo, o meio e o fim. Davam início ao processo de despertar espiritual daquelas almas; proporcionavam os meios pelos quais seus discípulos eram instruídos; e culminavam com a expressão de sabedoria e de unidade com o Pai, que era o objetivo final da obra, como dito por Jesus e até hoje pouco entendido por seus ouvintes: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30).

Havia entre os judeus uma profunda crença que eles eram o povo eleito de Deus, pois Jeová teria prometido a Abraão que seus descendentes seriam numerosos e teriam o domínio sobre todos os povos da Terra. Em contrapartida deviam obedecer aos preceitos da Lei, para que continuassem a receber as bênçãos e a proteção divina. Esse condicionamento social explicava o extremo grau de conservadorismo do povo judeu e a natural relutância em aceitar idéias em conflito com suas crenças religiosas.

Jesus precisava, portanto, abrir espaço para novas idéias, para novas interpretações das verdades eternas que, com o tempo, foram sendo relegadas a segundo plano, quando não esquecidas pelos judeus. Uma taça cheia de água não pode ser preenchida com vinho novo. A taça deve ser primeiramente esvaziada para só depois ser enchida. A dádiva do conhecimento divino requeria um esvaziamento da mente atulhada de preconceitos, processo esse apropriadamente referido pelos místicos da tradição cristã como esvaziamento (kenosis).

O divino pedagogo utilizou um método eficaz para proceder a esse esvaziamento. Esse método consistia numa terapia de choque, de contestação dos valores centrais da tradição judaica. As crenças sobre a observância do sábado (o dia de descanso em que nenhum tipo de trabalho deveria ser realizado), os rituais de purificação e as limitações à comensalidade foram os principais alvos. A razão por trás destas críticas de Jesus era invariavelmente o conflito entre a prática da letra da lei e o exercício da compaixão. Assim, Jesus curava os sofredores que o procuravam até mesmo no sábado. Por exemplo, Jesus curou uma mulher “possuída havia dezoito anos por um espírito que a tornava enferma: estava inteiramente recurvada e não podia de modo algum endireitar-se” (Lc 13:11). O chefe da sinagoga indignou-se por Jesus ter feito a cura no sábado. O Mestre contestou duramente aquela posição: “Hipócritas! Cada um de vós, no sábado, não solta seu boi ou seu asno do estábulo para levá-lo a beber? E esta filha de Abraão que Satanás prendeu há dezoito anos, não convinha soltá-la no dia de sábado?” (Lc 13:15-16).

Os fariseus e escribas censuraram Jesus e seus discípulos por não darem a devida atenção ao ritual de abluções com a quantidade preestabelecida de água antes das refeições. Jesus aproveitou a oportunidade para dar um ensinamento sobre as prioridades na vida do ser humano. Ainda que a limpeza das mãos seja importante para manter o corpo saudável, mais importante ainda são as palavras maliciosas, inverídicas ou maldosas, que causam muito mais danos, pois atingem a alma. Jesus, porém, transmitiu esse ensinamento de forma contundente: “Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isto sim o torna impuro” (Mt 15:11).

O fato de Jesus aceitar comer com publicanos (coletores de impostos) e notórios pecadores era muito criticado pelos fariseus. Jesus, no entanto, explicou a razão porque não seguia as doutrinas tradicionais: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar justos, mas pecadores” (Mc 2:17). Ademais, a cena de Jesus sentado à mesa com seus discípulos e os párias da sociedade judaica parece ter um profundo sentido alegórico. A casa onde ocorre a refeição simboliza o corpo humano. Jesus representa o princípio divino no homem, e seus discípulos os atributos e as qualidades mais elevadas da mente. Publicanos e pecadores expressam os aspectos da natureza inferior, tais como egoísmo, ganância, orgulho e sensualidade. A interação do princípio divino aliado aos atributos superiores da mente com os aspectos da natureza inferior, simbolizada pela refeição compartilhada, promove a regeneração e a transformação do homem comum. Essa integração do superior com o inferior, é o processo pelo qual ocorre a mudança de orientação do material para o espiritual.

Por meio de inúmeras passagens de teor semelhante, Jesus forçava seus ouvintes a pensar sobre os verdadeiros valores da vida e, com isso, a redirecionar sua atenção dos rituais externos de purificação e propiciação para o que é mais importante na vida do ser humano, a compaixão para com os que sofrem. Seguindo a tradição dos profetas, Jesus reiterou o ensinamento divino: “Misericórdia é o que eu quero e não sacrifício” (Mt 12:7).

Jesus sempre criticou a obediência cega aos preceitos externos sem entendimento e, principalmente, sem a devida atitude de compaixão. Se acreditarmos que a mensagem de Jesus também foi dirigida ao mundo moderno, devemos, por coerência, estender esta atitude de avaliação crítica expressa por Jesus para a grande família cristã atual. Observando nossa vida diária, o Mestre poderia concluir que nosso comportamento realmente reflete nossas crenças religiosas? Os fariseus e levitas atuais estão mais envolvidos na divulgação e na prática dos ensinamentos do Mestre ou na preservação de suas instituições? Será que o cristão atual, apesar dos avanços da ciência e do aprimoramento do nível educacional, está menos sujeito a condicionamentos limitativos para a compreensão dos mistérios divinos? O cristão esclarecido atual estaria aberto a interpretação simbólica dos ensinamentos de Jesus, como seus discípulos originais, ou só estaria capacitado a aceitá-los no seu sentido literal, como o povo palestino, ‘os muitos’, de então?

Podemos testar a nossa atitude sobre esse último ponto examinando as quatro chaves conhecidas para a interpretação bíblica, que foram sistematizadas e divulgadas no século XX pelo grande estudioso Geoffrey Hodson,[3] e que resumimos da seguinte forma:

1. Todos os eventos registrados, supostamente históricos, também ocorrem interiormente. Cada evento descreve uma experiência subjetiva do homem.

2. Cada pessoa que figura proeminentemente na história representa uma condição da consciência e uma qualidade de caráter.

3. Cada história é considerada como descrição da experiência da alma ao passar por certas fases da jornada evolutiva rumo à terra prometida.

4. Todos os objetos e certas palavras têm significado simbólico especial.

Só quando o cristão busca entender a mensagem subjacente nos textos sagrados, usando essas chaves para sua interpretação, é que começa, então, a despertar para a beleza e a profundidade dos ensinamentos redentores. Por exemplo, a expressão “montanha” é geralmente usada como símbolo de um estado de consciência elevado. Assim, o Sermão da Montanha não teria sido dado num ponto geográfico elevado, mas sim num estado de consciência elevado a que Jesus teria induzido seus discípulos. Da mesma forma, quando Moisés sobe ao Monte Sinai, o que ocorre é que ele está ascendendo a um nível de consciência que lhe permite receber os Mandamentos de Deus, mas, para transmiti-los ao povo, por meio de palavras (conceitos mentais), ele deve antes descer da montanha. O entendimento das passagens bíblicas muda inteiramente quando vemos um monte ou montanha não como um acidente geográfico mas como um estado interior elevado.

A maior parte das passagens bíblicas prestam-se a interpretações desse gênero, conferindo uma visão mais ampla aos que ousam buscar o sentido do espírito que vivifica e abandonar a letra que mata (II Co 3:6). Jesus sempre  procurou estimular o discernimento da mente e a abertura do coração para os lampejos do espírito.

No entanto, o método de constante questionamento adotado por Jesus pode ser causa de atritos com aqueles que nos são mais caros, como nossos familiares, amigos e instrutores. Um exemplo flagrante disso está indicado na passagem em que Jesus é apresentado como dando motivo a divisões e discórdias: “Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada. Com efeito, vim contrapor o homem ao seu pai, a filha à sua mãe e a nora à sua sogra. Em suma: os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” (Mt. 10:34-36). Essa passagem também pode ser interpretada com as chaves indicadas, sugerindo que a palavra divina, Cristo, vai contrapor o homem (o verdadeiro ser, a alma) a seu pai e a sua mãe, ou seja, a sua natureza material. Os familiares, unidos por seus laços sangüíneos, simbolizam as tendências materiais e egoístas da personalidade, portanto, os inimigos do verdadeiro homem, a alma.

Vida Ética

O ser humano inicia sua vida no núcleo familiar e desenvolve-se dentro de um grupo maior que, por sua vez, faz parte da grande família humana. A vida do ser humano no mundo envolve constantes relacionamentos e interações. Dentro dessa realidade de interdependência de todos os seres que compõem nosso mundo exterior, a ética determina as normas que devem reger as relações entre os membros da sociedade para assegurar seu bem estar. Na medida em que o homem vive de acordo com a mais alta ética, ele está contribuindo para a harmonia no mundo e, portanto, está em sintonia com o Plano de Deus. Nesse sentido, o homem perfeito, é aquele que alcançou a mais elevada sintonia com Deus, referida por Paulo, como a medida da estatura da plenitude do Cristo (Ef 4:13).

A realidade, porém, é que o homem geralmente não percebe e, portanto, não segue a orientação de sua natureza superior que é a expressão de Deus imanente nele, sendo, por isso mesmo, a personificação da mais profunda sabedoria e compaixão. Quando a ação do homem é contrária à ética ditada pelo divino habitante do recôndito, ele gera infelicidade para si mesmo e cria desarmonia dentro do grande organismo da vida. Essa vibração dissonante pode ser vista como uma impureza que se origina no homem e afeta o Todo. A vida ética, portanto, eqüivale a um processo de purificação em que o indivíduo livra-se progressivamente de suas vibrações dissonantes com o Plano Divino. A recíproca também é verdadeira, ou seja, toda prática de purificação contribui para elevar o padrão ético do indivíduo.

Jesus oferecia ajuda às pessoas em todos os estágios do caminho. Para o povo em geral, a primeira etapa da vida ética era aprender a não fazer o mal. Os dez mandamentos de Moisés eram o ponto de partida. Jesus, porém, pregava um enfoque mais radical. Não bastava não fazer a coisa errada, era preciso também não pensar e desejar o errado. O aprimoramento pregado por Jesus incluía além da inibição das más ações, a elevação do estado mental e emocional, bem como a purificação das intenções. Os exemplos clássicos desse aprofundamento encontram-se em sua prédica sobre o assassinato e o adultério.

Vale a pena recordar suas palavras: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; aquele que matar terá de responder no tribunal. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá de responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão ‘Cretino’ estará sujeito ao julgamento do Sinédrio; aquele que lhe chamar ‘Louco’ terá de responder na geena de fogo” (Mt 5:21-22). Jesus deixa claro, portanto, que os sentimentos de cólera e as palavras ofensivas estão na mesma categoria dos ataques contra a vida do ser humano.

O mesmo enfoque é dado para as relações sexuais ilícitas. “Ouvistes que foi dito: Não cometerás adultério. Eu, porém, vos digo: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mt 5:27-28). O pensamento é colocado claramente no mesmo nível que a ação de adultério. Como toda ação começa com um pensamento, devemos aprender a agir sobre a raiz do mal e não apenas sobre sua expressão exterior.

Devemos, nesse ponto, recordar a pregação fundamental sobre o Reino em que somos instados a mudar nossos estados mentais. Se examinarmos os evangelhos com atenção, veremos que todo o ministério de Jesus estava voltado para a mudança de nossa mente e do nosso coração. Num sentido mais amplo, Jesus estava procurando mudar a orientação de nossa natureza interior, incluindo sentimentos, pensamentos e percepções, do mundo material para o espiritual.

Quando o indivíduo cessa de fazer o mal pode, então, começar a aprender a fazer o bem. Seus ensinamentos e prédicas contra o desejo de vingança, que contrastam nitidamente com a prática da tradição judaica, estão nessa categoria. “Ouviste que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao homem mau; antes, àquele que te fere na face direita oferece-lhe também a esquerda; e àquele que quer pleitear contigo, para tomar-te a túnica, deixa-lhe também a veste” (Mt 5:38-40).

Chegamos, agora, ao pináculo do comportamento ético: “Ouviste que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:43-44). E Jesus explica a razão para essa mudança radical no comportamento tradicional de seu povo: “Desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos. Com efeito, se amais aos que vos amam, que recompensa tendes: Não fazem também os publicanos a mesma coisa? E se saudais apenas os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem também os gentios a mesma coisa?” (Mt 5:45-47).

Jesus conclui essa pregação lembrando o objetivo supremo de nossa vida na terra, ou seja, alcançar o Reino dos Céus: “Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5:48). A vida ética é o próprio caminho da perfeição. Essa perfeição está ao alcance de quem transcende sua natureza humana, morrendo para o mundo para renascer para Deus. Quando isso ocorre, o fiel pode dizer, como Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2:20).

A transição da moral tradicional para a ética superior, em que o discípulo aprende a fazer o bem, começa quando o amor passa a orientar sua vida. Mas amar significa doar. A doação requer uma atitude altruísta em que o centro de atenção é retirado do eu e colocado no outro. O cerne da transformação do ser humano, o altruísmo, é conseqüência natural da renúncia ao eu.

Seus discípulos eram instados a adotar uma postura ativa e não meramente de crer na pessoa ou nas palavras do Salvador. Deviam aguçar a mente, abrir o coração, agir com discernimento e compaixão, e procurar seguir o exemplo do Mestre em tudo. Essa era a essência da purificação implícita numa vida ética. Compreendemos, assim, porque Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9:23).

Esse ditado carece de mais atenção. Como Jesus usava a simbologia sagrada em seus ensinamentos públicos, o primeiro postulado “Se alguém quer vir após mim” significa ir além do estado de consciência de Cristo, o Filho, e alcançar o Pai. Esse é o objetivo último do caminho espiritual, a união com o Pai, que Jesus afirma ser possível. Mas para isso o discípulo deve, em primeiro lugar, renunciar a si mesmo. A simplicidade dessas palavras esconde a enorme dificuldade dessa realização. Elas não significam simplesmente a renúncia aos bens terrenos, o que por si só afasta a maior parte dos aspirantes, como sucedeu com o moço rico que perguntou a Jesus como alcançar a vida eterna (Mt 19:16-22). Significam, na verdade, renunciar ao que acreditamos ser a coisa mais importante em nossa vida, a nossa noção de individualidade e independência. O autocentrismo que rege nossas vidas nesse mundo deve ser abandonado.

O centro de nossa vida passa a ser Deus: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento” (Lc 10:27). Essa é a suprema renúncia, que leva até mesmo os grandes santos a imensos conflitos interiores e a momentos de indescritível angústia, como relatado por João da Cruz em sua obra, A Noite Escura da Alma.

Além de renunciarmos a nós mesmos, devemos tomar a nossa cruz todos os dias e então segui-lo. O que significa tomar a nossa cruz? Significa aceitarmos o fardo da providência divina, conseqüência de nossos atos anteriores, da lei de causa e efeito. Esse alerta é importante para que alguns aspirantes ao caminho da perfeição não cometam o erro de pensar que renunciar a si mesmo significa renunciar seus compromissos neste mundo. O renunciante não é chamado a abandonar sua família e outras obrigações. A renúncia é uma atitude interior. A vida exterior pode permanecer praticamente a mesma quando a renúncia interior ocorre. A diferença é que tudo passa a ser feito em benefício do Plano Divino e não mais para nosso próprio interesse. Assim, devemos viver no mundo sem ser do mundo. O Divino Mestre nos ensinou que a motivação é o fator primordial da vida e deve orientar nossos esforços e qualificar o resultado de nossas ações. Por isto foi dito: “onde está o teu tesouro aí está o teu coração” (Mt 6:21).

Resumindo, Jesus nos ensinou que devemos renunciar a nós mesmos para alcançarmos o estado beatífico de união com o Pai e, dentro dos limites impostos por nossas obrigações e limitações, devemos dedicar toda a nossa energia e aspiração a seguir o Mestre. Mas o que seria seguir o Mestre? Certamente não era a mera atitude mecânica de andar atrás do homem Jesus, seguindo-o fisicamente. A exortação é certamente a de seguir-se o modo de vida de Jesus. Somos instados a uma mudança interior que nos possibilite entrar na consciência do Reino e viver inteiramente para o serviço à humanidade, sem nenhuma ambição a não ser de nos tornarmos um instrumento cada vez mais eficiente na seara do Senhor.

O discípulo que procura seguir o Mestre rege sua vida pelo amor. Ele ama seu próximo como a si mesmo. Isso quer dizer que o amor a si mesmo deve ser o marco referencial para o amor ao próximo. Porém, amar a si mesmo não seria egoísmo, o contrário da vida altruísta de um discípulo? Somente aqueles que sabem o que é o verdadeiro “amor a si mesmo” podem alcançar esse estágio. Não se trata mais de amar nossa personalidade, nossa natureza inferior, com seus intermináveis desejos e apegos ao mundo. O verdadeiro “si mesmo”, que os anglo-saxões chamam de “self”, é o verdadeiro ser humano, a natureza superior, o Cristo interno. Quando nos identificamos com nossa natureza superior, não de forma meramente intelectual mas como expressão consciente de todo nosso ser, o comportamento altruísta passa a ser perfeitamente natural para nós. A partir de então, passamos verdadeiramente a amar nosso próximo como a nós mesmos. Essa é a atitude de todos os grandes servidores da humanidade. Quando perguntaram a Madre Teresa como ela podia tratar com tanto amor a todos os indigentes em seus albergues em Calcutá, ela respondeu que não lhe era possível amar pessoalmente a cada uma daquelas pessoas, mas que amava a Cristo no interior de cada uma delas.

Para deixar claro que a nova ética que leva ao Reino requer uma atitude ativa de procurar fazer o bem e não meramente de não fazer o mal, como pregavam os antigos (Tb 4:15), Jesus reverte a Regra de Ouro: “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7:12).

Práticas Espirituais e Rituais

Poderíamos imaginar o conjunto de ensinamentos de Jesus como as instruções para a fabricação de um instrumento musical, a vida ética como a metódica tarefa de construção do instrumento e as práticas espirituais como o processo em que o músico começa a testar sistematicamente o instrumento até soar sua nota perfeita para integrar-se na sinfonia das esferas. Deus é o Supremo Maestro que rege uma sinfonia celestial, na qual cada ser humano é um instrumento e deve soar sua nota especial, que é a sua contribuição para o Plano Divino.

Em todas as tradições espirituais é sabido que práticas e rituais foram concebidos para facilitar, ou mesmo induzir, expansões de consciência que, no seu devido tempo, conferem poder a seus praticantes. Nos Ioga Sutras de Patanjali estão listados esses poderes, que incluem a capacidade de ler pensamentos, ver e ouvir à distância, efetuar curas consideradas pela ciência como milagrosas etc. Obviamente tais poderes podem ser usados tanto para o bem como para o mal. Por isso, todos os instrutores idôneos exigem de seus discípulos um período relativamente longo de preparação, antes de ensinarem as técnicas ou permitirem a participação dos discípulos nos rituais que conferem poder. A raja ioga, por exemplo, inicia-se com a ioga preliminar, na qual o discípulo deve se engajar por vários anos em práticas que visam a purificação. O objetivo de todos esses cuidados é promover o que os orientais chamam de ahimsa, ou seja, a inofensividade. Apenas o aspirante que é incapaz de fazer mal aos outros, não só com suas ações, mas principalmente com seus pensamentos, recebe as instruções orais que permitem alcançar os estágios avançados.

Como é bem sabido, Jesus conduziu seu ministério em dois níveis, para o grande público em linguagem simbólica e para seus discípulos abertamente, como indica a passagem: “A vós foi dado o mistério do Reino de Deus; aos de foram, porém, tudo acontece em parábolas” (Mc 4:11). São poucas as referências a práticas e rituais na Bíblia, e essas são consideravelmente veladas por simbolismo. Jesus ensinou seus mistérios aos discípulos, mas alertou-os severamente sobre o perigo decorrente da revelação desses segredos. O alerta foi registrado numa passagem cuja linguagem é especialmente forte: “Não deis aos cães o que é santo, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (Mt 7:6).

O cristão moderno verdadeiramente comprometido com sua transformação interior deve estar atento para os indícios nas diversas escrituras das práticas e rituais ensinados por Jesus. Alguns ensinamentos dessas práticas são mencionados na Bíblia, outros estão nos textos apócrifos que vieram a tona nos últimos séculos e outros, ainda, nas práticas conservadas pela tradição oral, principalmente em certas comunidades monásticas.

A oração sempre foi a prática básica de todas as tradições religiosas e espirituais. Quanto à forma, Jesus pontifica que o verdadeiro aspirante deve evitar a oração mecânica, repetitiva, sem o engajamento do coração: “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos” (Mt 6:7). Aos seus discípulos ensinou o “Pai Nosso” como forma de expressão de devoção e compromisso de vida. Muito aproveitaria ao fiel a leitura do livro inspirado de Teresa de Ávila, Castelo Interior ou Moradas (Paulus, 1981), em que essa grande mística carmelita discorre sobre os sete tipos de oração com seus respectivos níveis de realização espiritual. O primeiro nível é a oração mecânica e os mais elevados envolvem a contemplação.

A prática da meditação é apresentada na Bíblia de forma velada. Jesus, contrastando a postura daqueles que chama de hipócritas por fazerem suas orações nas sinagogas e em lugares públicos para serem vistos, exorta seus seguidores a fazerem suas orações em recolhimento. “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora ao teu Pai que está lá, no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará” (Mt 6:6).

O que é apresentado como sendo externo, o quarto, refere-se a algo interno, o coração. Jesus nos exorta a retirarmos nossa consciência para o âmago de nosso ser, simbolizado por aquele órgão. Fechar a porta, significa fecharmos a entrada das percepções do mundo exterior para a nossa consciência, inclusive o fluxo de pensamentos. Isso eqüivale à quinta etapa da ioga de oito passos de Patanjali, o recolhimento interior (pratyahara). Orar em segredo ao Pai significa permanecer em absoluto silêncio, sem palavras e pensamentos, no que é conhecido na tradição monástica como sendo o estado de contemplação. Com essa total aquietação da mente criamos as condições para que a pura luz da intuição possa atravessar a mente e gravar no cérebro o conhecimento superior, a maravilhosa recompensa do Pai.

Os místicos de todos os tempos praticaram a meditação contemplativa. As descrições de Teresa de Ávila são extremamente reveladoras. João da Cruz, em sua obra, A Chama Viva do Amor,[4] descreve a transição das práticas de devoção sentimental para a intimidade com Deus. Quando a alma não mais se compraz com suas práticas devocionais tradicionais, ela passa a ansiar por algo mais. Esse é o ponto de partida para um novo relacionamento com o Pai. A alma abandona, então, as antigas práticas e entregar-se a Deus sem demandas e em silêncio. Inicia-se um período de descanso em Deus, em que nada parece acontecer. A alma entrega-se a Deus sentindo uma profunda paz. Ainda que esse período de relativa aridez possa durar semanas, meses ou mesmo anos, se o praticante realmente se entregar a Deus, mais cedo ou mais tarde encontrará o Bem Amado, não como imaginava que Ele fosse, mas como Ele é na realidade.[5]

A oração e a meditação devem ser praticadas diariamente, para que seus efeitos de elevação de consciência possam ocorrer. Mas, para entrar no Reino não basta alcançarmos esporadicamente alguns instantes de elevação espiritual. O Reino foi descrito como um estado de crescente sintonia com Deus. Essa sintonia deve ser estabelecida e mantida durante todo o dia. Paulo provavelmente referia-se a isso quando disse, na linguagem de seu tempo, que devemos orar sem cessar (1 Ts 5:17). Não devemos imaginar que Paulo, o grande ativista, estivesse exortando seus discípulos a abandonarem seus deveres para ficar orando dia e noite. O que estava sendo recomendado era o que veio a ser conhecido mais tarde, na tradição cristã, como a prática da lembrança de Deus. Devemos procurar voltar o nosso coração, a nossa lembrança, para Deus durante todo o dia, exatamente como fazemos quando estamos apaixonados por uma pessoa. Por isso foi dito: “Permanecei em mim como eu em vós” (Jo 15:4). O Cristo interior está sempre conosco, o que falta é nos voltarmos para Ele também. Essa sintonia é tão importante que o Divino Instrutor nos prometeu: “Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vós o tereis” (Jo 15:7).

Quando o praticante se engaja no processo de lembrança de Deus, ainda que inicialmente de forma imperfeita e com lapsos freqüentes durante o dia, ele inicia uma nova etapa no caminho. Antes ele lutava contra seus demônios interiores sozinho. Agora terá um aliado permanente a seu lado, o próprio Senhor do universo, a luz infinita que automaticamente repele a escuridão, a onisciência divina que vence toda ignorância. A partir de então o progresso será muito mais rápido, porque a verdade é incompatível com a falsidade do mundo, e o Amor, com o egoísmo da personalidade. Como Deus é verdade e amor, enquanto estivermos sintonizados com ele, as vibrações distorcidas do mundo material não terão lugar em nosso coração. Estaremos vivendo, então, numa vibração elevada, praticando naturalmente as virtudes divinas e avançando no Caminho da Perfeição.[6]

Além das práticas da oração, meditação e lembrança de Deus, encontramos nos evangelhos referências a certos rituais. A tradição esotérica sustenta que Jesus usava dois tipos de rituais, aqueles realizados com a participação de um grupo de discípulos e os de caráter iniciatório, que eram conferidos individualmente na medida em que o discípulo tornava-se capacitado para aquela expansão de consciência transformadora.

Dentre os rituais de caráter grupal, vale mencionar, além da Santa Ceia, aquele que é referido como o Hino de Jesus. Na Bíblia encontramos somente a curta e enigmática menção de um hino cantado por Jesus e seus discípulos: “Depois de terem cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras” (Mt 26:30 e Mc 14:26). Felizmente esse ritual, que ainda hoje é praticado por alguns místicos, com efeitos marcantes, foi preservado num documento conhecido como Atos de João e, mais tarde, publicado como O Hino de Jesus.[7] Nesse ritual, os discípulos giravam ao redor de Jesus, que entoava invocações no centro da roda, enquanto os discípulos respondiam “Amém”. 

Outro rito de Jesus, que se supõe era ainda mais poderoso, está descrito de forma tão velada na Bíblia, que é geralmente referido como o milagre da ressurreição de Lázaro. Se examinarmos a longa passagem em João (Jo 11:1-43) veremos que o relato é estranho devido ao comportamento aparentemente bizarro de Jesus. O Mestre, ao ser avisado pelas irmãs de Lázaro, Maria e Marta, que seu discípulo querido[8] estava “doente”, parece não demonstrar preocupação e interesse por seu estado de saúde. Seu comentário, ao receber o pedido de ajuda, é de que “essa doença não é mortal, mas para a glória de Deus”. Depois disso Jesus permanece mais dois dias onde estava pregando e só então decide ir ao povoado de Lázaro. Ao dizer aos discípulos: “Lázaro morreu. Vamos para junto dele!”, Tomé, surpreendentemente, diz: “Vamos também nós, para morrermos com ele!” Como explicar esse desejo de Tomé de morrer com Lázaro, a não ser que essa “morte” fosse algo extremamente desejável?

Todos conhecemos o final feliz do episódio, com Lázaro saindo do sepulcro, em resposta ao comando de Jesus, com os pés e as mãos enfaixados e com o rosto recoberto por um sudário. Essa passagem bíblica é um relato alegórico de um elevado ritual dos mistérios, no qual o iniciado entra em transe por três dias, aparentando estar morto. Ao fim do terceiro dia, o hierofante, no caso Jesus, usando palavras de poder, desperta-o do transe. Noutra passagem bíblica Jesus parece referir-se a esse mesmo mistério quando diz: “Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2:19).

Nas epístolas de Paulo encontramos várias passagens em que é usada a linguagem técnica dos mistérios. Talvez a mais clara seja: “É realmente de sabedoria que falamos entre os perfeitos, sabedoria que não é deste mundo nem dos príncipes deste mundo, votados à destruição. Ensinamos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória” (1 Co 2:6-7). Aproximadamente um século depois, alguns discípulos de Valentino diziam ter recebido de seu mestre os ensinamentos secretos de Paulo.[9]

No Evangelho de Felipe, texto encontrado na Biblioteca de Nag Hammadi, descoberta no Egito em 1945, existem várias passagens relacionadas com os sacramentos ou mistérios de Jesus. É interessante notar que Jesus teria instituído cinco e não os sete sacramentos usados pela Igreja: “O Senhor fez tudo num mistério, um batismo, uma crisma, uma eucaristia, uma redenção e uma câmara nupcial”[10] Esses sacramentos pareciam ter um caráter iniciático, e cada um era ministrado somente uma vez na vida do indivíduo (na Igreja romana a eucaristia e a redenção podem, em princípio, ser ministradas todos os dias).

A igreja romana, herdeira da tradição aberta dos ensinamentos de Jesus ministrados ao povo, adotou os sacramentos de Jesus, instituindo, mais tarde, outros dois, a ordem (para a ordenação dos padres) e a extrema unção. O caráter iniciático dos três primeiros sacramentos (batismo, crisma e eucaristia) foi mantido pela Igreja, com algumas modificações necessárias para serem ministrados abertamente ao público. No entanto, o batismo, entre os primeiros cristãos, só era conferido após a idade de 20 anos, quando o postulante teria suficiente maturidade para decidir livremente o caminho a tomar e preparar-se devidamente pelo prazo mínimo de dois anos, para a cerimônia de iniciação.

Os dois últimos sacramentos, que conferiam os estágios mais elevados de consciência associados ao Reino dos Céus, foram desvirtuados em suas versões externas. A redenção, conhecida na igreja primitiva como apolytrosis, teria certo paralelo com a ressurreição de Lázaro. Era nesse estágio que provavelmente ocorria a transformação do “homem velho em homem novo,” a que se referia Paulo (Cl 3:9-10). O sentido de transformação desse sacramento de Jesus foi utilizado mais tarde pela Igreja, na instituição de seu sacramento da penitência, mais conhecido dos católicos como confissão. É interessante notar que esse sacramento da Igreja parece estar em contradição com os ensinamentos de Jesus a respeito da lei de causa e efeito, também referidos de forma clara por Paulo: “Não vos iludais; de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso colherá: quem semear na carne, da carne colherá corrupção; quem semear no espírito, do espírito colherá a vida eterna” (Gl 6:7-8).

No sacramento da câmara nupcial, que só estava ao alcance dos discípulos mais avançados, era conferida a suprema iluminação. A igreja romana transformou esse sacramento no matrimônio, visando santificar a união exterior entre homem e mulher. O sacramento da câmara nupcial visava promover a união interior. Nele, a alma totalmente purificada, referida como virgem, unia-se ao divino esposo, o Cristo interior. Esse sacramento é referido na Bíblia, de forma velada, nas parábolas do banquete nupcial (Mt 22:1-14) e das dez virgens (Mt 25:1-13). Vários místicos referem-se a experiências interiores semelhantes. Vale a pena mencionar Jan van Ruysbroeck, um dos maiores místicos católicos, que escreveu no século XIV, em Adornos do Casamento Espiritual, que Cristo é o nosso noivo que nos convida a ir a Ele. [11]

Ainda que os sacramentos originais pareçam perdidos, pelo menos no sentido em que eram ministrados por Jesus e seus discípulos, ao que tudo indica, continuaram a ser conferidos no plano interior aos místicos, ao longo dos séculos. Parece existir um estreito paralelo entre as cinco iniciações, os cinco sacramentos de Jesus e os cinco estágios da vida mística.[12]

Conclusão

Nossos anseios espirituais podem ser perfeitamente atendidos pela herança que o Mestre nos legou. O Evangelho do Reino, mencionado tantas vezes na Bíblia, era exatamente a Boa Nova de que o Pai Amoroso nos aguarda ansiosamente em Seu Reino. Esse Reino está ao nosso alcance aqui e agora. Se perguntássemos como podemos conhecer o caminho para o Reino, provavelmente Cristo nos responderia hoje, como o fez a Tomé: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim” (Jo 14:6). “Eu Sou” era uma expressão técnica usada pelos judeus para referir-se a Deus.

Com muita propriedade, o Cristo interior é o Caminho, a Verdade e a Vida. Em primeiro lugar, Cristo é o Caminho: somente quando o despertamos interiormente é que de fato entramos no Caminho da Perfeição. Cristo é Luz, portanto, ao trilharmos o Caminho alcançamos a Verdade. E o conhecimento da Verdade nos concede a Vida Eterna, que é outra forma de expressar a realização do Reino, o estado de continuidade de consciência da união com o Pai. Portanto, verdadeiramente, ninguém vem ao Pai a não ser por intermédio do Cristo interior.

Vale a pena lembrar que o Filho é Deus em seu aspecto imanente, em todos os seres e todas as coisas, enquanto o Pai é Deus em seu aspecto transcendente. Portanto, só podemos alcançar Deus Pai que está além deste mundo, por intermédio de Deus em nós, o Cristo interior.

Ainda que o enfoque sugerido neste artigo possa parecer um tanto diferente do enfoque tradicional do cristianismo, a diferença é simplesmente de enfoque. A razão para isso é a premissa adotada de que o Reino dos Céus está próximo para aqueles que assumem a responsabilidade por sua transformação interior, e não meramente ‘arrependem-se’, como foi inapropriadamente traduzida a passagem bíblica referida anteriormente (Mt 3:2).

Vale a pena recordarmos mais uma vez a orientação de Jesus: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”. Mas para que a verdade possa nos libertar devemos conhecê-la, e para conhecê-la devemos procurá-la. Assim o caminho começa com a busca e não precisamos temer os percalços desta jornada porque Ele é o bom pastor e está sempre conosco. Como Ele é a Vida em nós, é a essência última de nosso ser, podemos nos entregar a Ele e, com total confiança, buscar Nele a Verdade. Na prática, isso significa uma atitude ativa e não passiva. Significa seguirmos Seus ensinamentos e procurarmos viver de acordo com a mais alta ética indicada por nosso coração e com base em Seus ensinamentos, para assim promovermos a purificação de nossos corpos. Uma vez purificados, como os místicos bem sabem, podemos nos entregar às práticas espirituais com a confiança de que alcançaremos a Graça da Presença Divina em nosso coração.

A Igreja Romana também reconhece a importância da busca da verdade no caminho espiritual. Em seu parágrafo introdutório da “Carta Encíclica FIDES ET RATIO (Fé e Razão)”, o Papa João Paulo II pontifica: “Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si mesmo”.

Um ponto fundamental da mensagem de Jesus é a nossa responsabilidade por nossa vida. Criados à imagem e semelhança de Deus somos, também, criadores. Criamos nosso mundo com nossas ações, palavras e pensamentos. Jesus nos conclama a agirmos no mundo exterior com amor e discernimento para promovermos a harmonia ao nosso redor. Nos exorta, também, a criarmos a harmonia interior com práticas espirituais e rituais apropriados. Quando estamos em harmonia com o mundo que nos cerca e nossa natureza exterior está em harmonia com a interior, alcançamos o Reino dos Céus, somos a expressão de Deus na Terra.

De muita ajuda neste trabalho transformador será a fé. A fé é o fundamento da religiosidade cristã, tanto de católicos como de protestantes, de todas as correntes e denominações. Devemos ter fé que Ele estará conosco todos os dias, até a consumação dos tempos (Mt 28:20). Se realmente tivermos essa fé, saberemos com certeza que Ele só aguarda a nossa permissão para estar conosco. Essa revelação encontra-se numa das passagens mais tocantes da Bíblia: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Ap 3:20). Ele está permanentemente à porta de nosso coração, batendo suavemente em respeito ao nosso livre arbítrio. Mas não basta ouvirmos Sua voz, a voz da consciência. Temos que abrir a porta. Uma porta simboliza uma barreira à entrada dos que estão fora. A barreira que impede a entrada de Cristo em nossa vida são nossas impurezas, nossas vibrações dissonantes com a harmonia do Plano Divino. Por isso, abrir a porta significa mudarmos nossa vida, sintonizando nossa vibração com o Amor, a Verdade e a Paz. Quando isso ocorrer, Ele entrará em nosso coração e passaremos a ter consciência de Sua Presença. Então, Ele poderá cear conosco e nós com Ele, ou seja, alcançaremos a bem-aventurança da comunhão com Deus.

 

*   *   *   *   *   *   *

——————————————————————————–

[1] Essas chaves podem ser obtidas na obra de Geoffrey Hodson, A Vida do Cristo do Nascimento a Ascensão (Brasília, Editora Teosófica, 2000).

[2] Para uma interessante análise dos ensinamentos de Jesus subvertendo a sabedoria convencional de seu tempo, vide: Marcus Bog, Jesus. A New Vision (Harper, San Francisco, 1991).

[3] A Vida de Cristo do Nascimento à Ascensão, op.cit..

[4] João da Cruz, Obras Completas (Petrópolis, Vozes, 1996), pg. 823-930.

[5] A prática da meditação e da contemplação vem sendo cada vez mais difundida, principalmente por membros das ordens monásticas, como Thomas Merton, W. Johnston, Thomas Keating e William Menninger. Esses últimos publicaram vários livros e vêm organizando retiros para ensinar a contemplação em diferentes  mosteiros nos Estados Unidos.

[6] Raul Branco, “Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã” (S.P., Pensamento, 1999), pg. 233.

[7] G.R.S. Mead, O Hino de Jesus (Brasília: Editora Teosófica, 1994)

[8]  Lázaro é o nome assumido pelo autor do Evangelho, para não colocar a si mesmo em evidência.

[9] Vide Clemente de Alexandria, Stromateis (The Catholic University of America, 1991), pg. 162.

[10] Evangelho de Felipe, em J. Robinson (ed.), The Nag Hammadi Library (S.F., Harper, 1980), pg. 150.

[11] John of Ruysbroeck, The Adornment of the Spiritual Marriage, The Sparkling Stone, The Book of Supreme Truth (reprint) (Kessinger Publishing), pg. 10

[12] Vide: Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã, op.cit., cap. 27.

 

Conto Chinês

Um esposo foi visitar um sábio conselheiro e disse- lhe que já não amava sua esposa e que pensava em separar-se.
O sábio escutou-o, olhou-o nos olhos e disse-lhe apenas uma palavra:

– Ame-a…… E logo se calou.
– Mas, já não sinto nada por ela!
– AME-A , disse-lhe novamente o sábio.

E diante do desconcerto do senhor, depois de um breve silêncio, disse-lhe o seguinte:

“Amar é uma decisão, não apenas um sentimento. Amar é dedicação e entrega.

Amar é um verbo e o fruto dessa ação é o amor. O amor é um exercício de jardinagem.

Arranque o que faz mal, prepare o terreno, semeie, seja paciente, regue e cuide.

Esteja preparado porque haverão pragas, secas ou excessos de chuvas, mas nem por isso abandone o seu jardim.

Ame seu par, ou seja, aceite-o, valorize-o, respeite-o, dê afeto e ternura, admire e
compreenda-o. Isso é tudo. Ame!!! “

A inteligência sem amor, te faz perverso.

A justiça sem amor, te faz implacável.

A diplomacia sem amor, te faz hipócrita.

O êxito sem amor, te faz arrogante.

A riqueza sem amor, te faz avaro.

A docilidade sem amor te faz servil.

A pobreza sem amor, te faz orgulhoso.

A beleza sem amor, te faz ridículo.

A autoridade sem amor, te faz tirano.

O trabalho sem amor, te faz escravo.

A simplicidade sem amor, te deprecia.

A oração sem amor, te faz introvertido.

A lei sem amor, te escraviza.

A política sem amor, te deixa egoísta.

A fé sem amor te deixa fanático.

A vida sem amor… Já não tem mais esse nome…

 

Compreendendo o Dharma e a Evolução

Autor: Edimar Silva

A Filosofia Esotérica afirma que a essência do ser humano é a mônada; esta é comparada a uma “chispa divina” que se “desgarra” do Absoluto (mas, de maneira misteriosa para nós, permanece una com Ele) e se lança no mundo da matéria em busca de experiências. A mônada freqüentemente é também comparada a uma gota de água no oceano que, por ter sua individualidade como gota pode ser apartada do restante das águas, mas conserva a sua natureza original. Do mesmo modo, todos os seres que têm existência no universo, apesar de existirem como seres, mantêm em si esta essência e dela recebem os germes dos atributos divinos. Costuma-se dizer que Deus queria se conhecer e fez para Si um espelho, para poder se ver melhor.

Esse espelho é o universo manifestado, com suas miríades de formas animadas e outras aparentemente inanimadas, através das quais a Vida Divina se manifesta e evolui. As múltiplas formas de vida individualizadas são, portanto, reflexos da Vida Divina, que é oniabarcante, e todas elas, mesmo que pareçam isoladas umas das outras, permanecem unas, entre si e com a própria Fonte primordial.

A construção do universo manifestado, que aqui estamos comparando a um espelho, não é feita ao acaso, mas sim, através de um plano, chamado Plano de Evolução, que atinge o universo em sua totalidade, e do qual todos nós participamos. A matéria que o constitui é organizada em níveis diferentes de densidade (ver esquema abaixo), e a vida deverá, gradativamente, passar por experiências em todos eles. Estes níveis vão do físico mais denso aos mais altos níveis espirituais e dizer que a vida passa por experiências em todos eles significa que ela ocupa formas, ou corpos, nos reinos mineral, vegetal, animal, humano, antes do mineral e depois do humano.

A diferença entre os níveis é apenas o grau de densidade da matéria que os constitui, já que a Filosofia Esotérica diz que em todo o Universo existe apenas uma energia (ou matéria) primordial que vai se condensando cada vez mais e formando todos os diferentes níveis e graus de densidade do universo manifestado, onde temos nossa existência.

A vida, à medida que vai ocupando estas diferentes formas, vai também se tornando conhecedora de si mesma e de sua existência, e chamamos consciência a esta capacidade de conhecer. Ou seja, quanto mais a vida passa por experiências nos mundos da matéria, mais ela se torna consciente, tanto de si própria, das formas que utiliza para adquirir seu aprendizado e desenvolvimento, quanto do mundo que a rodeia. A vida que anima as formas vai aos poucos, nível após nível, reino após reino, se tornando mais desperta, mais autoconsciente. Ter experiências em todos os níveis e reinos, e através delas esgotar todas as possibilidades do universo manifestado, aprender com tais experiências, é a própria evolução.

Não ajudamos na elaboração deste plano evolutivo, somos apenas seus partícipes, uma espécie de atores que representam uma grande peça. Durante grande parte de nossa atuação nele, nos reinos que antecedem o humano e mesmo nas primeiras etapas de nossa passagem por este, não sabemos nada a respeito deste grande plano, e por isto nossa participação nele é, por assim dizer, “compulsória”. Isto significa que a consciência que hoje se encontra no estágio humano e possui noção de individualidade, em outras eras passou pelos reinos elementais, mineral, vegetal e animal, e viveu “por inércia”, como é o caso dos minerais e vegetais, e por instinto, como os animais. Durante estas experiências não havia a noção de individualidade, e isto se deve ao fato de que o princípio mental não estava ainda desperto, ou, pelo menos, não estava desperto o suficiente para que houvesse aquela noção. Os seres humanos que recém entraram no reino humano também têm suas vidas em grande parte guiadas pelos instintos e seu princípio mental funciona de maneira muito rude.

Ocorre que as individualidades que pertencem a esse “mundo do espelho”, que é o universo manifestado, perderam o contato com o mundo real, que é o próprio Absoluto, de onde vieram; todas as individualidades são idênticas a Ele em sua essência, mas se esqueceram disso porque tiveram sua percepção obstruída pela matéria e não conseguem mais percebê-Lo. Só se vêem umas às outras como entidades separadas entre si e da sua Fonte primordial. A tradição cristã se refere a este fato quando fala em anjos decaídos, e Helena Blavatsky diz que “somos deuses e nos esquecemos disto”.

A Filosofia Esotérica afirma também que as consciências individuais evoluem aprendendo, e que quando uma consciência individual aprende algo e evolui com isso, todo o universo aprende e evolui, já que essas consciências formam, na realidade, uma unidade indivisível; da mesma forma, a Consciência Divina também evolui, já que as consciências individualizadas são partes Suas que evoluem conforme esquemas particulares (ver esquema abaixo), mas que estão integrados ao esquema maior. Isto poderá ser melhor entendido se for observado o ensinamento encontrado em várias tradições de que cada alma humana está em um processo de evolução individual, e também se aceitarmos a idéia que em um grupo, quando uma pessoa aprende alguma coisa, todo o grupo pode se beneficiar disto.

Podemos fazer uma analogia com um tanque cheio de água límpida, que seria o nosso universo, sendo que cada porção de água que ele contém simboliza as infinitas individualidades existentes. Quando uma porção de água é retirada do tanque e recebe uma quantidade de tinta azul, se esta água volta colorida para o tanque, dentro de algum tempo a coloração se espalhará uniformemente por todo ele e toda a água terá se modificado; uma outra porção de água recebe tinta vermelha, o fato se repetirá, e assim por diante, indefinidamente. Observemos que se pode separar litros, gotas e moléculas da água, mas, quando as juntamos, tudo se torna uma só água, ou uma só unidade. O mesmo acontece com o universo em evolução: quando um ser humano se aperfeiçoa, por pouco que seja, todo o plano de evolução dá um passo à frente, fato que corresponde à amplitude daquele aperfeiçoamento e à capacidade dos outros homens para aproveitar esta oportunidade.

O reino humano é o estágio evolutivo em que uma individualidade se torna autoconsciente, e por isto cabe ao homem perceber o seu lugar dentro do plano, e, aos poucos, colaborar conscientemente com o mesmo. Esta parece ser a meta evolutiva dentro do estágio humano: sermos cada vez mais autoconscientes e, também, conscientes de nossa condição de partícipes de um plano evolutivo e, conscientemente, colaborarmos com ele. Conforme já dissemos, nas primeiras etapas do plano evolutivo as consciências individualizadas têm sua participação “por inércia”, por assim dizer, ou seja, Hierarquias da Natureza (anjos, arcanjos) constroem, por exemplo, uma pedra que é utilizada por uma pequena parcela da Vida Universal na sua busca de experiências. A pedra não tem outra coisa a fazer senão ficar ali parada tomando chuva, sol, depois virar paralelepípedo, brita, etc., e aquela consciência também não tem outra coisa a fazer senão passar por todas essas experiências, que serão assimiladas como experiências já vividas, ou seja, como aprendizado.

Durante séculos aquela consciência individualizada ocupa uma pedra comum, alguns séculos depois ela tem experiências como ametista, outros como esmeralda, outros como diamante, etc., sendo que agora ela já não mais será paralelepípedo, mas vai enfeitar dedos e pescoços na forma de jóias; com isso aquela vida aprende tudo o que necessitava aprender como mineral, e passa então para o reino vegetal, em que os materiais que ela vai ocupar são menos densos, têm alguma maleabilidade e movimento, pois já se balançam ao vento, podem ser destruídos pelo fogo e servir como alimento, mas não manifestam sentimentos de nenhuma espécie e ainda estão presos ao solo.

Essa vida pode agora passar pelas experiências de virar lenha, cadeira, ponte, porta, alimento, etc., e aprende muita coisa, até passar para o reino animal, em que já sente e demonstra medo, carinho, amor, ódio, enfim, emoções primárias, instintivas, talvez. Já pode se locomover, e ser um burro de carga, um cão de guarda ou de companhia, etc; ainda age movida basicamente pelo instinto de sobrevivência, ou automaticamente, conforme treinamentos recebidos, já é capaz de dar a vida por alguém, ou de tirar a vida de alguém, já pode gostar ou não gostar, ainda que não pense no que está fazendo.

E assim, após aprender tudo o que necessitava nesse estágio, a vida se torna ainda mais individualizada, e ingressa no reino humano, agora já consciente da sua individualidade e capaz de agir por si mesma. Nas primeiras vidas nesse novo reino, os instintos ainda são muito atuantes, e o homem que está nessa fase terá necessidades muito rudes, como o serão também suas atitudes. Assim, seu instinto de sobrevivência será exacerbado e ele terá facilidade para matar outros seres, humanos ou não, a fim de preservar a sua vida, sua sensualidade será mais animalesca, não sentirá atração pela arte mais elaborada, enfim, todas suas experiências serão mais rudes.

Podemos perceber, no que foi exposto, que a evolução não acontece ao acaso nem aos saltos; ela segue um caminho coerente, em que cada passo dado e cada estágio vencido criam condições para se passar a um novo estágio. Podemos até fazer uma analogia, talvez simplória, com os métodos utilizados em nossas escolas, em que se passa de uma série para outra quando já se aprendeu o suficiente. Da mesma forma, podemos também comparar com as empresas, que trabalham com metas estabelecidas de acordo com sua capacidade de produção, que precisam se capacitar para produzir mais ou fazer um novo produto.Quando aprendermos tudo o que pudermos como humanos, passaremos, segundo a Filosofia Esotérica, para o nível super-humano, que é o nível dos Mestres de Sabedoria, os Homens Perfeitos que já aprenderam tudo e agora auxiliam a humanidade a também passar para o seu nível evolutivo.

A Filosofia Esotérica afirma que a humanidade também evolui por metas, e não só a humanidade, mas todo o sistema evolutivo do qual fazemos parte. Isso implica em que temos metas evolucionárias a atingir, e, cada estágio evolutivo atingido é a somatória dos resultados conseguidos nos anteriores.

Só criamos condições para viver um nível evolutivo e nele aprender quando já aprendemos tudo o que podíamos no estágio que o precede ou, em outras palavras, quando fizermos direito aquilo que devíamos aprender a fazer ou, ainda, quando cumprimos a meta de tal estágio. Aqui nós chegamos à idéia de Dharma.

Muitas palavras são utilizadas como sinônimo de Dharma: Lei, religião, dever, justiça, piedade, virtude, mérito, condição, qualidade ou propriedade essencial, doutrina, credo, código, direito, conhecimento, sabedoria, verdade, prática, costume, bem, obra piedosa, etc…E como definição de Dharma, utilizemos aquela que foi dada por Annie Besant, que diz o seguinte: “O Dharma é a natureza interna caracterizada em cada homem pelo grau de desenvolvimento adquirido e, além disso, a lei que determina o desenvolvimento no período evolutivo que vem a seguir (a meta a ser atingida). Esta natureza interna, posta pelo nascimento físico num meio favorável para o seu desenvolvimento, é que modela a vida exterior que se expressa através de pensamentos, palavras e ações”.

Vamos dar uma visão de conjunto para a questão e depois nos deteremos no dharma humano; se existe um plano de evolução formulado pela Mente Divina, esse plano é, segundo a analogia que fizemos anteriormente, a meta evolutiva que o próprio Absoluto estabeleceu para nosso universo, ou para Si próprio, pois a Filosofia Esotérica afirma que Deus evolui com a evolução do universo; podemos então dizer que esse plano é o dharma do próprio sistema evolutivo do qual fazemos parte, é aquilo que o universo precisa fazer para evoluir como um todo. Ou, ainda, que a Vontade de Deus, ou Logos é o dharma do nosso sistema evolutivo.

Quando ocorre a manifestação do universo no qual o plano evolutivo vai ser executado, todo esse universo tem como meta, ou como dharma, cumprir a vontade de Deus para ele. E não só o universo como um todo, mas inclui-se aí cada individualidade que o compõe e dele faz parte, como os seres humanos, animais, plantas e, ainda, sistemas solares, planetas, países, civilizações, raças, famílias…. Mas o problema é que, conforme vimos anteriormente, em grande parte do que conhecemos do processo evolutivo, a vida individualizada ainda não sabe qual é a sua meta, não sabe sequer que existe um plano evolutivo. Ela foi dotada de autonomia para atuar no mundo manifestado, e está envolta pelos diversos níveis de densidade de matéria, que utiliza como corpos ou veículos para o seu aprendizado, mas, são eles próprios que a impedem de perceber a meta final ou a vontade divina.

Na figura abaixo vemos um esquema no qual estão representados os princípios, ou veículos, através dos quais a mônada pode se projetar no mundo manifestado. Neste esquema pode ser vista a divisão entre o homem mortal – formado pelos princípios físico, duplo etérico (a energia vital), astral (ou o veículo das emoções) e manas inferior (a mente concreta ou intelecto, nosso princípio racional) -, e o homem imortal, formado por Manas Superior (a mente abstrata, que lida com os arquétipos), Buddhi (a intuição que ilumina os fatos) e Atma ( a Vontade Divina presente em nós). Vale observar que esta divisão é apenas didática, pois todos os princípios estão presentes o tempo todo em nós; vale observar, também, que este é um dos esquemas existentes, porque diversos autores e tradições fazem apresentações diferentes deste tema.

Enquanto esta vida estava nos reinos elementais, mineral, e vegetal, nada mais lhe restava a fazer além de ir na direção que o fluxo evolutivo lhe levasse. Quando ela entra no reino animal já começa a fazer escolhas, mesmo que por instinto e no reino humano, ela ainda passa algum tempo se baseando nos instintos e desejos mais rudes para fazer suas opções, mas, gradativamente, essa situação começa a mudar. Neste ponto está o grande problema que o plano evolutivo nos coloca na forma do dharma: nós estamos dotados de capacidade de escolha, ou livre-arbítrio, e necessitamos exercer essa capacidade, só que as nossas escolhas não coincidem com os objetivos do plano evolutivo, ou, em outras palavras, não coincidem com a Vontade Divina, porque a essência divina presente em nós está envolta pelos níveis de matéria que criam a ilusão e nos impedem de percebê-la. E se não percebemos a essência divina presente em nós, não percebemos também as necessidades que ela possui – que nada mais são do que as nossas necessidades evolutivas.

Mas aquela essência divina individualizada, que é a própria essência de nosso ser, conhece as metas de Deus para o universo e para o homem; e nossa alma, ou a tríada superior, que é um reflexo da mônada ou consciência individualizada, sabe pelo menos a meta evolutiva do homem. E se não percebemos, conscientemente ou mesmo intuitivamente, nem a existência de nossa alma, não percebemos também as necessidades que ela possui – que, conforme já foi dito não são nada mais do que as nossas próprias necessidades evolutivas.

O dharma maior do reino humano é remover todos os véus, ou os níveis de matéria que envolvem este núcleo de consciência que está em cada um de nós, que é a alma ou tríada superior, para vermos quais são as metas do plano evolutivo, e passarmos a atuar no mundo em sintonia com essas metas. Mas ficamos durante inúmeras vidas fazendo nossas escolhas de acordo com interesses pessoais, que estão enraizados em nossos desejos autocentrados, quando o objetivo é agirmos de acordo com as metas do plano de evolução.

Esse é o dilema que nos coloca o dharma: aprender a fazer o que é realmente melhor dentro de todo o esquema, e não o que é melhor do ponto de vista pessoal. Esse problema está presente em todos os momentos de nossas vidas, pois a cada instante temos a oportunidade de escolher entre dois caminhos: o caminho “correto” e aquele que “não é correto”, ou o caminho no sentido da evolução e aquele que nos desvia deste sentido; podemos dizer ainda, entre o caminho dos interesses da Alma e o caminho dos interesses da personalidade. Podemos escolher entre estudar ou não estudar, nos alimentarmos bem ou não, ajudar as pessoas ou nos aproveitarmos delas, etc… A todo o momento estamos usando o livre-arbítrio. Quando usarmos o nosso livre-arbítrio de maneira coerente com o nosso dharma, estaremos evoluindo e, ao mesmo tempo, auxiliando o plano de evolução.

Vamos fazer um pequeno parênteses para dizer que a Lei do Dharma é reconhecida por civilizações muito antigas, como, por exemplo, a civilização hindu, onde esta lei inspirou a criação do sistema de castas, e em A República, no livro III, Platão também a utiliza no seu esquema de classificação das almas em quatro tipos, a saber, almas de ferro, bronze, prata e ouro.

O sistema de castas classifica as pessoas de acordo com o estágio evolutivo de suas almas, ou seja, sua natureza interna manifestada, ou ainda, o dharma de suas vidas atuais; assim, temos:

os shudras, ou os servos, encarregados de tarefas mais simples, e que aprendem a obedecer à lei e às ordens;

os Vaishya, ou os agricultores e mercadores, que por já reconhecerem as leis, têm agora um outro aprendizado, que é o de aprender a acumular posses;

os Kshattriya ou os guerreiros e soberanos, aqueles que já são capazes de dar sua vida por um ideal, e que desenvolvem a bravura e a persistência;

E os Brâhmanas, que são os sacerdotes e educadores; eles já devem ter passado pelos estágios anteriores, tendo aprendido tudo o que tinham para aprender, e agora estão prontos para ensinar aos demais.

A classificação das almas feita por Platão segue a mesma idéia, e existe uma clara correspondência entre os shudras e as almas de ferro; os vayshya e as almas de bronze; os kshattriya e as almas de prata; e, por último, os brâhmanas e as almas de ouro.

Estas classificações podem ser úteis, mas entendo que elas podem também nos levar ao erro de pensarmos que não é possível evoluir além de determinados limites, quando, expandir os limites é a própria evolução. Assim, se interpretarmos ao pé da letra aquelas classificações, pode-se achar que alguém que nasce como shudra permanecerá assim até o final de sua vida. E com o decorrer do tempo, o sistema que deveria auxiliar os homens em sua evolução, passou a ser mal utilizado e se tornou instrumento de discriminação. Os seres de uma casta passaram a se sentir superiores aos de outra, o que constitui uma deturpação da idéia original.

Outro problema que este sistema apresenta quando levado à prática é a quem atribuir a tarefa de reconhecer em que estágio evolutivo se encontra a alma de alguém, para que tal pessoa possa assumir seu lugar na sociedade humana e desenvolver as tarefas que lhe cabe desempenhar. A classificação por hereditariedade mostra-se falha, pois nem sempre um filho de um verdadeiro brâmane está em nível evolutivo que lhe permita agir como seu pai; ou talvez o filho de um shudra possua atributos que lhe permitam desempenhar funções de um Vaishya, por exemplo.

O sistema de castas da Índia e a classificação das almas elaborada por Platão, se referem à real condição interna do ser, que é o seu estágio evolutivo conquistado em existências anteriores e somente pessoas extremamente sábias poderiam desempenhar esta função sem risco de engano e com total isenção.

Mas estas classificações, exatamente por se referirem à real condição interna do ser podem, paradoxalmente, ser muito úteis, desde que aplicadas corretamente. Se assim fosse, os governantes, os líderes religiosos, os educadores, enfim, aqueles que exercem funções relacionadas ao exercício do poder e à instrução, deveriam ser somente brâhmanas ou almas de ouro, porque são pessoas que já se encontram mais no alto da cadeia evolutiva. Deduz-se que pessoas assim já seriam almas mais antigas, que já viveram muitas vidas e, portanto, por terem aprendido muito e estão aptas a ensinar àqueles que sabem menos. Estas pessoas estariam preparadas para exercer o poder sem se corromper, com elevado senso de justiça; já teriam muito desenvolvido em si o altruísmo e não estariam preocupadas em acumular riquezas com seu trabalho. São pessoas que teriam uma visão mais clara do plano de evolução, que trabalhariam para ele de maneira mais objetiva.

Os kshattriya ou almas de prata, os guerreiros ou soberanos, seriam os responsáveis pela defesa de seus países, das famílias, da paz e do bem-estar geral. Dariam a vida por um ideal e não usariam sua coragem e sua bravura para se apossar daquilo que não lhes pertence, pois já teriam um senso de justiça bastante desenvolvido. Já passaram pela etapa em que acumular posses é o que interessa, e o que mais lhes motiva a vida são os seus ideais e suas tarefas, encarados como missão.

Os vaishya, ou almas de bronze, são os agricultores ou mercadores, que vivem para acumular riquezas e posses, mas são bons seguidores das leis, às quais já conhecem.

E os shudras levariam uma vida em que seriam comandados pelos demais, por aqueles que já são seguidores das leis. Teriam então chance de se tornarem disciplinados, de aprenderem a seguir as leis, através da obediência às ordens daqueles que já as conhecem. Encarregar-se-iam das tarefas mais simples, o que lhes daria o senso de humildade e aceitação das condições que a vida lhes traz.

O Sr. Buda propõe uma outra interpretação, quando sugere que o cumprimento do dharma deve ser buscado na vida; assim, vivemos para cumprir o dharma, seja ele qual for. A doutrina budista diz que todos os seres querem e devem buscar a felicidade, e isto é uma maneira de entendermos o dharma. Só que para sermos completamente felizes, devemos ver também os outros felizes, então devemos buscar também a felicidade do outro, e isto também é dharma de todos os seres. Assim, qualquer que seja a casta a que se pertença, em qualquer atividade, devemos buscar a felicidade e o bem-estar de todos os seres, fazendo o que sabemos fazer, e não visar apenas a nossa felicidade, e isto faz uma enorme diferença.

Aqui se faz necessário entendermos como é que ocorre a evolução para uma individualidade humana; já falamos que o núcleo de consciência, a fim de evoluir, se reveste de diversos níveis de matéria, mais ou menos densos, e retirar conscientemente estes véus de matéria é o dharma maior do estágio humano. Os níveis de matéria mais densa que revestem a consciência possuem suas próprias necessidades, sejam elas físicas, emocionais ou mentais. Elas são, na realidade, necessidades dos corpos físico, emocional ou mental, não do nosso núcleo de consciência e enquanto atendê-las for o foco de nossas ações, nós não estaremos olhando para o centro de nosso ser, ou seja, não estaremos atendendo à vontade de nossa alma, que conhece a Vontade de Deus, e, portanto, não estaremos colaborando com o plano de evolução.

Podemos comparar esta situação a um diamante que se encontra no interior de uma pedra bruta; à medida que vamos removendo pequenos fragmentos da pedra grosseira, pequenas facetas do diamante irão se mostrando, límpidas e brilhantes. O diamante, em sua totalidade, é a nossa real e completa natureza interior, o centro de nosso ser que só se mostra inteiramente após uma seqüência, inimaginável para nós, de existências nos diferentes níveis de matéria que o universo nos proporciona para o nosso aprendizado. Enquanto estamos desbastando nossa pedra bruta, a cada vida que vivemos, novas facetas vão se mostrando, e isto constitui nossas diferentes possibilidades de atuação em cada existência, ou, em outras palavras, a natureza interna que se manifesta em cada vida nos capacita a executarmos diferentes tarefas e com elas aprendermos.

Nossa alma, ou nossa real natureza interna, é perfeita e suas potencialidades são ilimitadas; aquilo que não conseguimos fazer corresponde às potencialidades que ainda não se manifestaram, ou, para usar a analogia, são as facetas do diamante que ainda estão encobertas pela pedra grosseira.
O Sr. I. K. Taimni, no livro Estudios Sobre la Psicologia de la Yoga (Federación Teosófica Interamericana, 1982, pag. 225 a 235), no capítulo “O Indivíduo e seu Dharma”, nos chama a atenção para o problema do livre-arbítrio, que costumeiramente nos embaralha a mente quando estamos estudando ou refletindo sobre as leis do dharma e do karma. Ele diz que (Disponível na Home-page da Loja Fênix, em “Artigos & Palestras”) “Se há livre-arbítrio no indivíduo e no curso da evolução humana, coletiva e individual, é devido à interação da Vontade Divina com a vontade individual”.

Entendo por esta afirmativa que o Sr. Taimni está nos dizendo que, se hoje temos o livre arbítrio, é porque, consciente ou inconscientemente, seguimos a Vontade Divina dentro daquilo que era esperado de nós em cada estágio pelo qual já passamos, ou seja, fizemos o dever de casa; e que o uso correto do livre arbítrio fará com que percebamos cada vez mais esta Vontade Divina.

Ele continua dizendo que “É evidente que nas etapas iniciais a lei que governa a evolução humana, permitindo que o indivíduo exerça seu livre-arbítrio, é a Lei do Karma em seu aspecto mais amplo”, ou seja, nas primeiras vidas no reino humano nós aprendemos porque causamos sofrimento através de ações egocentradas e causando sofrimento estamos formando karma para ser resgatado no futuro. Mas somos nós que escolhemos agir dessa maneira e, portanto, somos os responsáveis por isso.

Ele se refere à primeira metade do caminho evolutivo trilhado pela consciência que consiste em um mergulho desta na matéria, conhecido como Pravriti-Marga, em que ela vai se revestindo pela matéria, cada vez mais densa; este é o caminho da ação, da busca de experiências. Para o ser humano isto equivale a contrair karma. A segunda metade é a etapa em que a consciência se “livra” da matéria, e é o Nivriti-Marga, em que ocorre a renúncia à ação, e nesta etapa se dá o equilíbrio kármico do indivíduo (ver figura abaixo).

Podemos entender então que na primeira parte do caminho evolutivo, quando ainda não percebemos o que Deus espera de nós, não agimos de acordo com Sua vontade, e então geramos karma; na segunda metade em que, pouco a pouco, vamos percebendo o que Deus espera de nós, começamos, também aos poucos, a cumprir nosso dharma, e, ao mesmo tempo, equilibramos nosso karma.

Cabe aqui a pergunta: o que é cumprir o dharma? Será que encontraremos um caderninho com uma lista de tarefas a serem executadas em cada uma de nossas vidas? Parece que não é assim tão simples; faz parte do aprendizado não só reconhecer o que deve ser feito, como também buscar as tarefas para desempenhar.

Assim, tanto aquelas coisas que não sabemos ainda fazer, quanto as nossas pequenas tarefas diárias, aquelas que muitas vezes nos parecem sem graça, ou mesmo sem a grandeza e importância que, julgamos, nossa capacidade merece, todas elas desempenham um papel importantíssimo para o nosso aprendizado; elas constituem a oportunidade que a vida nos oferece de executarmos tarefas que nos possibilitam aprender parte do que ainda não sabemos.

Muitas vezes temos a impressão, que considero errônea, de que tudo aquilo que sabemos e gostamos de fazer constitui o máximo de nossas possibilidades e que a vida nunca nos pedirá nada de novo ou que ainda não sabemos fazer. Pensar assim é negar a existência de um caminho evolutivo, e constitui também uma forma de arrogância, que é a de acharmos que somos senhores absolutos de nossos destinos.

Conforme diz o Sr. Taimni, o livre-arbítrio é a maneira pela qual interagimos com a Vontade de Deus, e isto nos garante, até certo ponto, o direito de fazermos ou não aquilo que a vida nos propõe; quando temos a oportunidade de desempenharmos uma tarefa qualquer, desde que seja algo correto e justo, podemos achar que não temos temperamento adequado para realizar tal fato, ou que é tarefa de outros, e isto pode até não estar errado, sob certo ponto de vista. Mas não devemos nos esquecer que, enquanto não chegamos ao final do processo evolutivo como seres humanos, apenas algumas facetas do nosso diamante se mostram, e aquilo que julgamos não ser o nosso temperamento, podem ser as facetas que continuam ocultas e querem se mostrar.

O buscador espiritual é alguém que se propõe a revelar as facetas escondidas do seu diamante interno em um espaço de tempo menor, e que tenta fazê-lo de maneira objetiva e consciente; é natural que para ele surjam possibilidades de executar tarefas estranhas à sua natureza interna já manifestada, mas cuja capacidade de execução está prevista em sua natureza interna mais ampla e ainda não totalmente revelada. Em outras palavras, temos dentro de nós a capacidade para fazermos qualquer coisa, e aquilo que a vida nos pede que façamos e ainda não sabemos, pode ser a oportunidade de aprendermos a fazer e, com isto revelarmos mais aspectos de nossa natureza interna, cumprindo assim nosso dharma e nosso objetivo de evolução.

Para entendermos isto, podemos relembrar a passagem dos Evangelhos que relata o encontro do Mestre Jesus com Pedro, em que este era um simples pescador, e o Mestre o convida para ser um pescador de almas. Esta passagem exemplifica a possibilidade do inesperado surgir em nossas vidas, através de um chamado para desempenharmos uma nova tarefa, que nunca desempenhamos anteriormente.

O Homem Perfeito, ou o Mestre de Sabedoria, não escolhe caminhos; Ele não tem mais dificuldades, pois já manifestou todas as suas potencialidades e pode desempenhar qualquer tarefa com perfeição, e as executa com a tranqüilidade de quem faz o que tem que ser feito, simplesmente porque a vida necessita que seja feito.

O entendimento, aceitação e a superação das surpresas e dificuldades que a vida nos traz são, na realidade, os degraus que nos levam em frente em nosso autoconhecimento, já que isto nos possibilita manifestarmos capacidades nossas com as quais ainda não entramos em contato. Quase sempre as oportunidades que nos causam estranheza são aquelas que nos levam a fazer coisas que não nos dão nenhum tipo de recompensa ou reconhecimento, além de serem, às vezes, aquelas tarefas que nunca desempenhamos; as recompensas poderão ser o aprendizado, a evolução individual e a colaboração com a evolução da humanidade.

Quem muito escolhe o que quer fazer corre o risco de optar, consciente ou inconscientemente por aquilo que prefere fazer, em vez de escolher o melhor para o plano de evolução. Mas isto não significa que devemos fazer tudo aquilo que tivermos oportunidade, já que estamos também desenvolvendo uma outra virtude, o discernimento, que é a capacidade de escolher o melhor que é, dentro do contexto que estamos tratando, o melhor para a evolução pessoal e coletiva.

De um modo geral, podemos afirmar que o aspecto mais nobre do dharma do ser humano é aprender a servir; qualquer que seja sua atividade ou seu nível de evolução, ele deverá perceber que o serviço desinteressado de qualquer recompensa ou resultado é o objetivo de sua existência.

O trabalho em prol do bem geral, sem o objetivo da recompensa, é algo que só pode ser feito quando alicerçado no amor indiferenciado por todos os seres e esta é a idéia fundamental que está por trás de ensinamentos de todas as genuínas tradições espirituais da humanidade.

O amor indiferenciado pela natureza, animais e seres humanos faz com que ajudemos a todos, sem pensar nas diferenças que percebemos entre nós mesmos e os outros; se esquecemos que somos brancos ou negros e os outros amarelos ou mestiços, se esquecemos que somos pobres e os outros são ricos e vice-versa, que somos cultos e os outros são analfabetos, etc., o que vai restar será unicamente a essência divina presente em cada um de nós, que é igual em todos, sejam homens, animais, vegetais ou minerais.

Assim estaremos eliminando todas aquelas barreiras, ilusórias e transitórias, que nos fazem pensar que somos seres separados.