“Transcender o mundo? Para quê? Ele é tão bom!”

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

Yoga significa “unir”, aproximando-se do significado de religião como “religar”. Só se pode religar aquilo que foi, um dia, desligado. É o que narra a “Parábola do Filho Pródigo”, simbolizando a jornada do espírito nos reinos da natureza.

Ao fim de sua jornada – aprendida a lição que o trouxe a este canto do universo – o filho “torna à Casa do Pai”, ou seja, transcende o mundo. Quem estaria, porém, desejando tal coisa? Devem ser poucos, considerando como as pessoas se agarram até a um corpo doente, como se dele dependesse a vida.

Impulsionado pela força do Desejo, o próprio universo – como ocorre ao ser humano – encontra-se em expansão, com surgimento de novos astros, significando que neste “momento cósmico” ele evolui de dentro para fora. E da mesma forma que nossos corpos, os astros também morrem. “Assim como é em cima, é embaixo” ensina o ocultismo.

Toda forma está sujeita à desintegração porque, tudo que tem começo, tem fim. A forma se desintegra por estar sujeita à saturação, ao desgaste, deixando então de ser útil para o trabalho da consciência que a habita. Daí dizer-se que ela é governada pela “Lei dos Ciclos” ou da “Periodicidade”: nascer, crescer, envelhecer, morrer.

O corpo é passível de morrer, mas não a essência que mora nele. Nós somos a essência, não nascemos com ele. Na verdade jamais nascemos, e, portanto, jamais iremos morrer. Podemos dizer então que tudo é transitório, exceto a vida.

Em nossa jornada evolutiva enquanto usando corpos físicos, o perecimento e a dor são companheiros permanentes, ao lado do desejo. Por isso Gautama Budha ataca a superação do desejo diretamente (não a simples negação). É uma condição essencial até por ser ele a razão da volta ao corpo, da reencarnação, pela “saudade” de suas sensações.

A própria busca da verdade – na essência das religiões – torna-se contraditória sem a superação do desejo. Os conflitos entre elas (ou dentro delas) demonstram o quanto estão longe de seu alvo, até porque a verdade não pode ser possuída, apenas vivida. O que nos impede de enxergar isso, “virar o jogo”?  A impureza impregnada em nossa mente.

Voltada para fora – como acontece ao próprio universo – e assim distanciada da intuição, do Espírito, a mente tem nos 5 sentidos sua única referência. Então, o que ela vê? Não o fato em si, mas só o que permite seu condicionamento, essa herança fatídica que transmitimos de uma geração a outra a partir do “bicho-papão” das cantigas de ninar.

Dessa condição da mente vem a superficialidade das relações, a ânsia de acumular externamente, a agonia do amor. Hoje simples objeto de consumo, o amor entrou em “linha de produção”, não mais sendo uma questão de sentir ou conquistar, mas de “fazer”.

Como se pode mudar isso? O “Raja Yoga” (ou Yoga Mental) vai direto ao ponto. Sua prática habilita a mente a voltar-se para dentro, por meio da concentração, da meditação, fornecendo meios para purificá-la, além da reeducação dos sentidos.

Gautama Budha também oferece técnicas de purificação da mente em sua “doutrina”. De fato, em época alguma o homem esteve só no propósito de se conhecer e libertar, até porque Deus é sua real natureza. Nesse sentido, se algo lhe falta depende dele próprio: vontade. E onde a vontade escasseia o lodo mental prospera, escancarando as portas ao desejo e sua irmã gêmea, a inconsciência. O desejo é a própria distância entre nós e o que necessitamos compreender, entre quem deseja e aquilo que é desejado.

Do iate de um milhão de dólares ao sanduíche da esquina, tudo ajuda a nos manter na inconsciência, identificados com o corpo: cada pequeno prazer anulando a percepção da miséria física ou psicológica de todo dia. “Veja quem tem olhos de ver”, disse Jesus.

ATIVIDADES – Práticas de Yoga Clássico. Curso “Meditação: saúde e consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00) aos sábados, na R. Pernambuco, 824, S. Francisco. Em 12/06, Jacinta I. Gehling falará sobre o tema: “Medo e coragem: como distinguir?”. No site www.educbesant.org.br acesse o Fórum de “Mães & Pais”. Inf.: (67) 9988-1010.

Seria a miséria o preço do contentamento?

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

É possível que alguém menospreze o contentamento por considerá-lo acomodação, ausência de impulsos para a vida, assim alimentando a inércia e a miséria.

A inércia, por sinal, é um dos atributos da matéria (tamas, em sânscrito), vinculado à resistência. Esta, no lugar certo, é essencial à forma: o tijolo na construção, o esqueleto no ser humano. Sob o efeito da mente, porém, é hospedeira do vício, da busca do prazer contrário à natureza e às funções do corpo – no sexo, no alimento, na bebida – criando obstáculos à libertação do ser humano. É um dos caminhos para a miséria, portanto.

A resistência é a matriz da preguiça, que nos indispõe para o trabalho e pode levar à inclinação para o roubo, para “viver do alheio”. No aspecto mental e psicológico, é mãe do apego, da obstrução ao estudo, acentuando o condicionamento e anseio por segurança, visto que se opõe às situações de esforço. Teria isso algo a ver com contentamento? Teria alguma relação com a vida de Sócrates, Gandhi e outros sábios – destituídos de posses, mas de forma alguma miseráveis? Obviamente não.

Como expressão do homem superior, o contentamento vibra nas alturas da matéria sutil, geradora de harmonia, de luz (sattva). Tal sentimento vai, de fato, sendo construído aos poucos dentro de nós, inicialmente por decorrência do sofrimento, do desengano. Depois – na medida em que o desejo grosseiro perde sua força impositiva e nos tornamos mais abertos à influência do “interior” – o contentamento se instala em sua real natureza, que é “auto-suficiência”, segundo R. Mehta (Yoga – a arte da integração, Ed. Teosófica).

A auto-suficiência tem o sentido claro de não-dependência. Contudo, quem pode se dizer independente neste mundo? Seria o caso dos “bem sucedidos”? Alguém assim pode de fato obter o que quiser entre os objetos de satisfação disponíveis no mercado, até mesmo a companhia de determinada pessoa se estiver “à venda”. Tal independência se sujeitará, porém, ao jogo dos desejos. O desejo de alguém irá satisfazer o seu. Mesmo o dinheiro, então, não o torna livre, pois é da natureza do desejo depender de algo externo.

A propósito de Sócrates, conta-se que certa vez, estando ele a entrar e sair de diversas lojas sem nada comprar, perguntaram-lhe a razão disso. “Estou apenas olhando a imensa quantidade de coisas de que não preciso para ser feliz”, respondeu.

Depender do externo é a matriz da ansiedade e do medo. Mesmo quem tem dinheiro não está livre disso, pois sua ânsia de acumular não termina com os primeiros milhões. E nem com os últimos (a julgar pelos que morrem de “overdose” no meio deles), pois tais pessoas acabam descobrindo em si um “buraco” que nenhuma posse satisfaz: a ânsia de plenitude, só resolvida pelo contentamento, uma propriedade da alma.

Ora, se o portador do contentamento não é movido pelo desejo, qual é o sustento de sua ação? É a chama interna da vontade, do Espírito. Tendo suplantado o desejo – e, portanto, o medo – sua ação (a verdadeira, não reativa) tem a natureza do desapego, é pura, tendendo a espelhar a genialidade, como fruto da alma ou do intelecto iluminado.

Se no coração desse homem houver qualquer parcela de desejo, será sempre de natureza elevada, como talvez pela própria iluminação. Mesmo esse, porém, deverá desaparecer um dia, juntamente com o ego (o mais duro e derradeiro foco de resistência), dando lugar à sua meta. Sendo o desejo o motor do mundo, terá que sucumbir se quisermos transcender o mundo.

ATIVIDADES – Práticas de Yoga Clássico. Curso “Meditação: saúde e consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00) aos sábados, na R. Pernambuco, 824, S. Francisco. Em 05/06, Ana Lenita Gemeli falará sobre “O efeito libertador do desprendimento”. No site www.edubesant.org.br acesse o Fórum de Mães & Pais. Contatos: (67) 9988-1010

“Não há bem que sempre dure…”

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

“E nem mal que nunca se acabe”. Na sabedoria dessas frases gêmeas mostra-se que gêmeas também são as alegrias e tristezas da vida, sucedendo-se numa alternância sem fim. Por trás disso revela-se ainda a dualidade que sustenta o mundo. E quem sustenta a dualidade? A mente, cuja ação separatista se reflete no campo das relações humanas.

Indo mais fundo na questão, diz Sri Ramana Maharshi: “Na verdade, o que se chama de mundo não passa de pensamento. Quando o mundo desaparece, isto é, quando não existe pensamento, a mente sente a felicidade; e quando surge o mundo, a mente sofre”. O que faz o mundo desaparecer é o prazer momentâneo, a felicidade que num momento de amor, por exemplo, esteriliza a ação do pensamento.

É esse tom mágico que, segundo outro pensador, Krishnamurti, faz da relação sexual um instante supremo, matando completamente o pensamento e a sensação do “eu” que surge com ele. Em essência, nosso grande sofrimento está nessa mesma sensação, porque nos lembra o estado de divisão que nos encontramos em relação ao mundo. Ela nos isola do resto, nos condena à solidão e a uma luta constante para remediá-la.

Há algum mal na solidão? Na egocêntrica sim, pois a partir dela o próprio mundo se torna um permanente adversário, cada relacionamento é uma tortura, seja porque estamos convictos da proximidade interesseira do outro – disputando o mesmo “osso” – ou porque, sendo aparentemente desinteressada, nos cobra uma entrega que não estamos dispostos a aceitar. Da perspectiva do ego, a entrega é sempre uma ameaça de morte.

A solidão na verdade é um estado mental, e sua condição de sofrimento – em intensidade ou “qualidade” – depende da consciência nele refletida, como fonte do próprio Ser. Veja-se, por exemplo, a condição do Cristo sendo julgado pela multidão. Absolutamente só, negado ou ignorado pelos próprios discípulos, ele não devia estar feliz sob o açoite daqueles a quem amava. Contudo, nem mesmo procurou se defender das acusações expostas por Pilatos, que afinal reconheceu nada pesar contra ele.

Cristo sofreu ali por amor à humanidade. Sendo o amor um bem supremo, e em certa medida também solitário porque independe de qualquer coisa (segundo a Doutrina Secreta de Helena Blavatsky, “Deus é o Um sem segundo”), pode-se indagar: é então o bem passível de sofrimento, além de ter duração limitada como o próprio mal?

Limitada, imediatista, é nossa visão do bem, pois não vai além da perspectiva do prazer. Por isso limitada é também nossa visão nos diversos setores da vida, seja como amantes, educadores, religiosos ou profissionais. Na melhor das hipóteses buscamos dar prazer ao outro, deixá-lo “feliz”, algo que no fundo é um investimento em nós próprios.

Nada de errado com o prazer em si, mas – desde que fonte de apego – ele cede lugar à dor, na dependência da repetição incessante. O verdadeiro bem, contudo, é eterno, priorizando a consciência. Não tem o mal como oposto, assim como o ódio não se opõe ao amor real e nem tal amor leva ao sofrimento, como o entendemos.

Só o que é humano se sujeita ao vai-e-vem da polaridade, tendo por isso começo e fim. Assim o oposto ao ódio é o amor limitado pela perspectiva do prazer, do apego, cuja inclinação é instintiva, dando base à continuidade do ego. Avessa à razão, tal perspectiva alimenta comportamentos obsessivos, cegos e autodestrutivos como a paixão e o vício.

Da mesma forma que não se defendeu (quem necessita de defesa é o ego), Jesus deve ter vivido não o sofrimento da mente polarizada no prazer, mas sim a dor dos que amam de fato, ao presenciar atos de inconsciência dos seres amados. Assim, coube-lhe apenas rogar: “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem”. Essa é a solidão do amor.

ATIVIDADES – Práticas de Yoga Clássico. Curso “Meditação: saúde e consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00) aos sábados, na Rua Pernambuco, 824, São Francisco. Em 15/05, Carla Bulla apresentará o tema “Comunicação é comunhão: estamos preparados para isso?”. Acesse o site www.educbesant.org.br e participe de um trabalho educacional mais consciente. Contatos: (67) 9988-1010.

Religião: ópio da humanidade ou apoio evolutivo?

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

Religião e Deus são naturalmente entidades conexas e misteriosas. A partir daí, quando se tenta avaliar o sentido da religião sob a perspectiva intelectual, inúmeros são os argumentos encontrados no sentido de rechaçar as duas coisas, “resolvendo” o problema.

Considerando que para a natureza orgulhosa e separatista do intelecto, Deus – representando o Todo, o Infinito – é algo inconcebível, sua aceitação pode se dar no máximo pela via “dogmática”, numa espécie de opção cautelosa do ego sempre em busca de segurança. Diante daquilo que não pode definir – conforme a especialidade da mente – a inclinação do orgulho é simplesmente negar.

Luciene Félix – professora de Filosofia e Mitologia – diz que, segundo Freud, “o sentimento religioso de um vínculo indissolúvel, de algo ilimitado, sem fronteiras, essa sensação de eternidade, algo oceânico, por assim dizer, não passa de uma ilusão”. Para o “Pai da Psicanálise”, a busca do paraíso – a felicidade perene – é apenas uma recordação de nossa vida intra-uterina no corpo da mãe, onde todas as necessidades são atendidas.

Já para o filósofo alemão Nietzsche, a religião era “a responsável por insistir na cultura dos fracos, operando uma inversão de valores tais como os dos escravos que valoram a coragem como sendo um mal”. Autor da frase “Deus está morto”, a argumentação anti-religiosa de Nietzsche visava sobretudo o Cristianismo.

“Eis que o cristão afirma” – dizia Nietzsche – “nós, os escravos, somos vítimas, somos bonzinhos; eles, os senhores, os afirmativos, são malvados, opressores, não prestam. A submissão foi transformada numa virtude chamada obediência. Disso resultará o grupo dos ressentidos. E todo ressentido torna-se venenoso”. Estaria nesse veneno a fonte de sua loucura no fim da vida, às vezes intitulando-se o próprio “crucificado” que combatia, e cuja extensão jamais poderia abarcar com os limitados recursos do intelecto?

Contudo, Charles Darwin, sempre citado como um dos baluartes do materialismo por ter criado a “Teoria da Evolução das Espécies”, via Deus como o legislador supremo, afirmando ao mesmo tempo que a religião é “estratégia tribal de sobrevivência”.

Por sua vez, ao negar a evolução e as vidas múltiplas – ensinamento implícito em várias passagens bíblicas[1], como ressalta Raul Branco na obra “O poder transformador do Cristianismo Primitivo” (Editora Teosófica) – a religião parece justificar aquela idéia de “estratégia” e utilitarismo. O efeito é que, ao desconsiderar-se a expansão da consciência e o crescimento gradativo do Ser como um propósito da vida, retarda-se a jornada em direção à “estatura da plenitude do Cristo” (Efe 4:13), meta essa de impossível atingimento em uma só experiência encarnatória, como se vê mesmo pelos padrões evolutivos de hoje.

Compreende-se a ligação feita entre Darwin e o materialismo, pela idéia de que a evolução parece negar a criação, levando junto o Criador. Essa lógica esquece, porém, que a evolução tem que partir de um ponto potencial onde as possibilidades evolutivas estão contidas – com toda sua extraordinária diversidade – do contrário surgiriam do nada.

Quando é que o nada pôde criar alguma coisa? No tempo de Aristóteles pôde, e hoje também. Defendendo a “Abiogênese”, ele dizia: “há certos materiais que são possuidores de um princípio ativo ou força vital, ou seja, a possibilidade de criação da vida”. Assim, “um punhado de trapos velhos e sujos, depois de algum tempo, origina seres vivos de características semelhantemente sujas como ratos e insetos”. Nos tempos de hoje, com a teoria do Big-Bang,  precisa-se de menos ainda para criar seres vivos, não é?

Se a Nietzsche se deve a frase “Deus está morto”, a Einstein deve-se outra não menos famosa e mais verdadeira: “A ciência sem religião é aleijada; a religião sem ciência é cega”. Em meio às trevas da ignorância, a religião ainda é um ponto de luz, apesar de em seu nome (e de Deus) se terem cometido tantos enganos. A falha, porém, é da religião ou do homem? Do instrumento deixado pelo Mestre ou de seu operador?

ATIVIDADES – Práticas de Yoga Clássico. Curso “Meditação: saúde e consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00) aos sábados, na R. Pernambuco, 824, S. Francisco. Em 22/05, Eduardo Besser apresentará o tema “Religião e Sociedade”. Contatos: 9988-1010.


[1] (Lc 1:13-17; Mt 17:9-13; Jo 3:1-15; Mc 8:27-30; Lc 9:18-20; Ml 3:1; Mt 16:13-14; Je 1:5)  

Por que é tão difícil transformar a negatividade?

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

Para vencer as causas do sofrimento psicológico – sempre atrelado às desilusões que o desejo provoca – é necessário um esforço que também representa sofrimento: aquele inerente a toda mudança. Nossas vacilações habituais mesmo para abandonar uma situação já considerada ruim, deixam clara essa dificuldade. Segundo E. Tolle, o problema é que nos tornamos viciados em sofrimento, identificando-nos com ele e achando-o mais seguro do que a mudança em direção ao desconhecido (O poder do Agora, Editora Sextante).

Se buscamos felicidade, como é que podemos identificar-nos exatamente com seu oposto, a infelicidade? Certamente não temos consciência disso. Alguma coisa está nos mantendo presos nessa masmorra auto-imposta – com seus horrores de escuridão e dor – quando bastaria abrir a porta e descobrir o sol do outro lado.

A identificação com o sofrimento, apesar de absurda, parece muito lógica da perspectiva do ego (o falso eu). Ninguém pode dizer, por exemplo, que sentimentos como ira, mágoa e vingança representem qualquer dose de felicidade. No entanto, somos capazes de mantê-los até por muitos anos, arruinando nossa vida e também contaminando a alheia.

O ego vai adiante nisso em virtude da “ofensibilidade” de sua auto-importância, anseio de autoridade e outras fantasias, “insistindo em fazer você pensar no que alguém fez para prejudicá-lo ou no que você vai fazer em relação a tal pessoa”. Nesse caso, você se identificou com o sofrimento, “ele se tornou você”, diz Tolle.

 Como tendência natural do ego, essa identificação ocorre com toda espécie de negatividade. A essência da negatividade é a separatividade, razão de existir do ego. Estando, por nossa vez, identificados com ele, vamos para onde ele vai. Deduz-se então que todo esse processo poderia deixar de existir se, ao contrário, nossa identificação fosse com o Eu Real, Deus em nós mesmos. O que impede isso? A impureza residente em nosso corpo mental – a morada do ego – fazendo-o senhor de nossa vida e de nosso pensamento.

A coisa, então, nada tem a ver com defeitos de caráter, ser ateu ou místico e outros rótulos usados para explicar aquilo que “já é”, assim como toda verdade que aceitamos foi acolhida somente porque “ressoou” em nós, identificando-se com um nível de pureza equivalente. É claro que ter uma religião pode ajudar. E tem feito maravilhas quando colocada em prática – levando o indivíduo a “ser a religião” – só porque determinado grau de pureza e convicção já se encontrava instalado nele.

A esse respeito, o teósofo R. Mehta diz: “Somente o movimento puro no observador pode reconhecer o movimento puro no objeto observado”. Ou seja, só aquele que é puro consegue ver a pureza. Isso explica, entre outras coisas, a dificuldade de fazer mudanças significativas na vida: nossas escórias mentais desvalorizam qualquer esforço nesse sentido.

Em resumo, somos governados pelas crenças e anseios do ego. Limitado em sua existência tanto quanto nosso próprio corpo físico, ele se agarra a qualquer fator que lhe pareça garantia de continuidade, reproduzindo elementos da única coisa que conhece: o passado. Aí está nossa grande dificuldade de estabelecer processos de renovação, pois não há espaço psicológico para eles dentro de nós.

Estar identificados com o sofrimento pode ser uma opção bem louca de nossa parte. Mas, afinal, quem disse que a sanidade tem presença garantida neste mundo?

ATIVIDADES – Práticas de Yoga Clássico. Curso “Meditação: saúde e consciência” (16h00) e palestras públicas gratuitas aos sábados, na Rua Pernambuco, 824, São Francisco. Em 08/05, Walter Barbosa apresentará o tema: “Autoconhecimento: a jornada dos paradoxos”. Acesse o site www.educbesant.org.br e participe de um trabalho educativo mais consciente. Contatos: (67) 9988-1010.

Hipocrisia: a familiaridade da mentira em nossas vidas

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

“Sem as pequeninas hipocrisias mútuas nos tornaríamos intoleráveis uns para os outros”. A frase é atribuída ao filósofo alemão Emanuel Wertheimer, coincidindo com as práticas gerais do mundo até nas grandes hipocrisias, como freqüentemente chega ao nosso conhecimento por meio das manchetes diárias.

“Impostura, fingimento, simulação, falsidade”. Dessas quatro facetas ligadas à definição da hipocrisia provavelmente a menos conhecida é a impostura, como “artifício para iludir, embuste, vaidade ou presunção extrema”. De qualquer maneira, o que se ressalta aí é a presença da mentira. No caso da hipocrisia, a mentira social por excelência.

A mentira busca alcançar ou manter vantagens que, na ausência dela, poderiam ser impossíveis. Na essência, então, é um furto. A partir das técnicas mercadológicas, criando artifícios para induzir o consumo até o limite da “propaganda enganosa”, é provável que a mentira tenha se institucionalizado como um “mal necessário” em nossas vidas, algo normal e até benéfico, justificando o pensamento de Wertheimer. O que perdemos com isso?

Cada um de nós projeta o mundo que traz em sua mente. Isso acontece conforme o conteúdo do eu psicológico (o ego), nada tendo a ver com aquilo que o mundo é. Na mesma medida em que, diante de determinado fato, cada um tem uma interpretação diferente, nosso comportamento e escolhas não são uma conseqüência do mundo, mas sim de nossas crenças, mesmo quando, confortavelmente, seguimos os “costumes”, a moral de nosso tempo.

É provável que nesse ponto de vista haja uma profunda diferença entre a filosofia acadêmica e a filosofia esotérica. A primeira – cunhada na influência do pensamento cristão dominante – tende a ver o homem como um produto do meio, enquanto a filosofia esotérica vê o meio como produto do homem, considerando que este não nasceu com seu corpo físico, à semelhança de uma “folha em branco”.

O homem tem milhões de anos em sua jornada como centelha divina, trazendo de vidas passadas não a memória do dia-a-dia (perdida com a desintegração do físico), mas sim a memória vibratória, as tendências que resumem seu potencial de realização, sem o estorvo das cristalizações mentais de outras vidas. De natureza atômica sutil – guardada na bagagem espiritual do homem – essa memória não morre, elevando-se sempre em luz e pureza, embasando assim o produto evolutivo mais importante de todos: o avanço da consciência.

 Do que depende esse avanço? Identificados que nos encontramos com a mente e seus conteúdos conscientes ou não – crenças, julgamentos, preconceitos, ambições, traumas, medos – faz-se necessário que nos distanciemos dela, como ensinado nas técnicas do Raja Yoga, a fim de enxergar a realidade que aqueles conteúdos encobrem, ao mesmo tempo purificando-os. Por outro lado, a mentira apenas reforça tais projeções com uma fantasia maior ainda: a de nosso voluntário auto-engano, enquanto pensamos enganar o mundo.

Por essa razão, “ser verdadeiro em tudo” é o ensinamento dos Mestres de Sabedoria. Também por essa razão o lema da Sociedade Teosófica é “Não há religião superior à verdade”, sabendo-se que essa verdade não poderá ser encontrada na filosofia acadêmica, que é uma projeção das crenças do próprio filósofo – em essência um produto mental.

Ao adotar a hipocrisia ou qualquer outra mentira como “meio de vida”, aumentamos a confusão do ego, perdendo a fé em nós mesmos. Perdemos também a fé alheia, aumentando as sombras do mundo, além de afastar o conhecimento do Deus Interno, nosso Eu Real. Tudo isso não parece mais um meio de morte?

ATIVIDADES – Aulas de Yoga Clássico na Rua Pernambuco, 824, S. Francisco. Aos sábados, curso “Meditação: Saúde e Consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00). Em 24/4 Jacinta Inês Gehling apresentará o tema “Estar no Agora: cura natural da ansiedade”. No site www.educbesant.org.br acesse o Fórum de Mães & Pais.

Na “alegria de servir” todas as contradições se resolvem

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

Um dos meios de tentar a permanência das coisas que desejamos é ter controle sobre elas. Como as buscamos “fora” – por força de nossos valores atuais – aquela permanência depende dos outros. Assim, o controle dos outros é uma de nossas obsessões, sendo daí fonte de expectativa e sofrimento. Dentro de certos limites, podemos controlar um patrimônio colocando, por exemplo, cerca elétrica em nossa casa. E quanto às pessoas?

A questão da expectativa é um dos paradoxos mais desconcertantes na evolução humana. Ela parece ter um efeito positivo no que tange às conquistas materiais (base do livro “O Segredo”), mas não funciona quando envolve coisas fora de controle, como os relacionamentos e a busca espiritual. Aí quanto mais tentamos controlar, mais perdemos.

Neste mundo, sob o jugo separatista da mente, habitamos um espaço onde o ego é rei e senhor. Seus anseios têm tudo a ver com a consciência material que sustenta o corpo físico, apoiando sua segurança, além de estimular posses afetivas e patrimoniais.

Entre esses apoios está, por exemplo, o enriquecimento do instinto. Herdado do reino animal, ele acentua em nós características como a astúcia e cria a tendência de projetar sobre os outros nossos próprios defeitos – ou anseios de autorrealização – a fim de preservar o ego. O que está em jogo aí? Todo o lado transitório de nossa natureza, a partir do físico. Em certa passagem diz a Bíblia “Tu és pó e ao pó voltarás”. Esse “tu” é o ego, e não o homem verdadeiro, cuja natureza é Deus, a própria imortalidade.

Estando identificados com o ego nesta fase primária de nossa existência cósmica (correspondendo à metade da evolução humana), o que buscamos? A continuidade que não é característica do ego. Temos aí a base do sofrimento: ansiar por eternidade e felicidade trabalhando com a matéria-prima do egoísmo, que é fonte de tristeza e solidão.

Entre as diversas situações onde a expectativa está presente, uma pode parecer mais desprendida: a do pai (ou mãe) quanto ao sucesso do filho. Na essência, porém, isso é projeção do ego paterno, ainda que engatinhando na direção do amor altruísta.

No curto prazo o controle sobre pessoas é possível, dependendo do preço que estamos dispostos a pagar. Nas relações amorosas, por sinal, tais expectativas ficam no início amortecidas, gerando a doação mútua, pretendendo-se talvez cativar para depois controlar (uma armadilha da natureza?). Vencido esse tempo, a memória das coisas boas ainda perdura nas situações de “amor e ódio” até que se esvai o restante do afeto.

Nossas relações amorosas são, então, realmente de amor? Na obra “Um retorno ao amor” Williamson diz “o amor quer sempre o bem do outro”. Ele age assim mesmo quando não é compreendido (ao negar algo prejudicial, por exemplo). Enquanto isso o ego prioriza seu sossego, evitando todo esforço que não lhe traz ganhos diretos. Não obstante, o Cristo diz “Ama o próximo como a ti mesmo”. Como se resolve o paradoxo?

Sendo o ego naturalmente inclinado a se amar, pela força da matéria, Cristo nos exorta a pelo menos igualar esse amor na relação com o próximo. Mais amplamente, porém, é na alegria de servir que todas as contradições se resolvem, dizem os Mestres, sendo isso possível de muitas maneiras (Ramana Maharshi servia por meio do silêncio).

No serviço desinteressado o ego se dilui, assim como o medo da morte, pois a tão ansiada “autorrealização” passa a acontecer dentro de nós, e não mais fora, num espaço sem fronteiras que inclui a totalidade da vida, estendendo-se ao infinito. Ao mesmo tempo a expectativa se acaba – levando junto o sofrimento – pois ela não resiste ao infinito.

ATIVIDADES – Aulas de Yoga Clássico. Novo curso: “Meditação: Saúde e Consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00) aos sábados, na Rua Pernambuco, 824, São Francisco. Em 17/3 será apresentado o tema “Auto-observação: preciosa chave consciencial”, por Rogê Teissére Delgado. No site www.educbesant.org.br acesse o Fórum de Mães & Pais, colaborando para o desenvolvimento de um trabalho educacional mais consciente. Contatos: (67) 9988-1010.

O que é a irracionalidade?

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

Atribui-se ao filósofo grego Aristóteles a afirmação “O homem é um animal racional”. A não ser pela “racionalidade”, a frase justapõe dois reinos completamente distintos: o animal e o humano, certamente tomando o corpo do homem – herança do arquétipo animal – como o próprio homem. Essa visão arrasta-se através dos séculos, considerando que a humanidade quase toda confunde a si mesma com seu corpo.

A Ciência é algo muito próximo da lógica, da razão, ajudando na percepção dos fatos. Contudo, freqüentemente suas conclusões são alteradas por novos conhecimentos, mudando a interpretação dos fatos. Então essa lógica é também limitada, havendo algo além dela que se chama “razão pura”, situada nos domínios do Espírito, como a própria essência da razão e do conhecimento.

A irracionalidade opõe-se à razão, sendo definida como “superimposição da mente” por Rohit Mehta na obra “Yoga, a arte da integração”, onde são analisados os Yogasutras de Patanjali, elaborados há mais de 25 séculos, dando os fundamentos essenciais do Yoga (Editora Teosófica).

Tal superimposição atropela os fatos, aquilo que “é”, colocando em seu lugar o que a mente vê (o olho apenas registra a imagem, quem vê é a mente). Estamos numa condição e agimos como se estivéssemos em outra – às vezes oposta – sendo exemplo clássico o homem que se encontra diante de uma corda e teme uma serpente.

Apesar de criar o nada, isso não vem do nada. Origina-se em tendências viciosas da mente, adquiridas no passado, gerando, ao lado da memória, o banco de dados do comportamento e de sua condição reativa (segundo Mehta, tal característica permeia os atos da maioria das pessoas, geralmente por incapacidade de estar no agora).

Ao mesmo tempo em que a memória é importante para auxiliar nas decisões do presente, dependendo de suas impurezas ela se torna fonte de irracionalidade e reatividade. Seus mecanismos de antecipação do prazer (ou da dor) turvam-nos a percepção do real, como acontece nas situações de medo, paixão, raiva e ciúme.

No tocante aos vícios a irracionalidade é muito ativa, contrariando a lógica da boa convivência com as pessoas e com o “dharma” do corpo (dharma no sânscrito é lei, dever, significando, no caso do corpo, suas propriedades essenciais e o que elas exigem de nós em questões como alimento, descanso, higiene, uso das energias e sexualidade).

Em uma de suas definições, vício “é a inclinação para o mal”, representando então o oposto da virtude. Não apenas fumar ou ingerir drogas é vício, mas toda prática que aprofunda a negação de nossa natureza divina, aumentando – pela supervalorização da posse e do prazer – nossa ligação com os parâmetros do mundo, onde Lúcifer, o “Portador da Luz”, está encadeado conosco. Isso nos lembra o Mito de Prometeu.

Referindo-se à “Queda dos Anjos”, aquele mito narra que Prometeu rouba o fogo do Olimpo – de uso exclusivo dos deuses – para entregá-lo aos homens, ficando em razão disso preso a uma rocha onde um abutre lhe devora continuamente o fígado, que se regenera. O “fogo” é a mente acrescentada ao reino humano na 3ª raça-raiz, acelerando-lhe a evolução. Nesse processo a mente atua voltada para fora, sustentando o ego.

Então, qual é a natureza do mal? Como diz Helena P. Blavatsky em “A Doutrina Secreta”, é apenas a “ausência do bem”, não tem existência além do ego humano, onde sua força se baseia na ilusão de estarmos separados uns dos outros.

Dessa ilusão nasce também a irracionalidade, às vezes tornando-nos menos lúcidos que os próprios animais, apesar do Deus Pessoal que em nosso coração nos distingue deles. Por isso na meditação trabalha-se de maneira direta com a mente, forçando-a de volta para o interior, de forma a restabelecer nosso autoconhecimento como Luz e Poder.

ATIVIDADES – Aulas de Yoga Clássico. Novo curso: “Meditação: Saúde e Consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00) aos sábados, na Rua Pernambuco, 824, São Francisco. Em 10/3, Erlinda Martins Batista com o tema “Ser verdadeiro em tudo”. No site www.educbesant.org.br acesse o “Fórum de Mães & Pais”. Inf.: (67) 9988-1010.

“Calamidades”: a eterna lição da Dor

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

Neste ano, em curto espaço de tempo o mundo conheceu episódios de trauma coletivo muito parecidos: os terremotos no Haiti e no Chile, este sofrendo também com o tsunami.

Em situações opostas na economia e na cultura, seria de esperar-se desses países igual distância no enfrentamento da crise, guardadas as proporções. De fato, melhor estruturado em todos os sentidos, o Chile já na semana passada pôde dizer que estava “de pé”, pela boca de sua primeira mandatária, apesar de haver ainda enorme quantidade de entulho nas ruas, com a destruição de centenas de carros e milhares de residências.

O que, porém, nos mostrou o comportamento das pessoas naquelas circunstâncias? Cada observador vai ter uma resposta. De nosso ponto de vista duas coisas ressaltaram, evidenciando os extremos gerados nesses momentos: de um lado, a solidariedade dos flagelados entre si – desconhecidos ajudando-se mutuamente – e, de outro, as ações de saque.

Entre os animais já se observou, na ocorrência de desastres naturais, que predadores e presas andam lado a lado, buscando apenas fugir do perigo comum. Na condição humana, os saques e outras rapinagens são a diferença gerada pelo “ego” imaturo: é justamente na fragilidade das crises individuais ou coletivas que ele ataca, independentemente de seu “status”. O que torna isso possível é a ignorância quanto à nossa divina natureza: o Eu Real.

Quem é o ego? Chamado “falso eu” por Sri Ramana Maharshi, é a projeção de nossa Alma Individual nas sombras do mundo. Tão fantasioso como essas sombras, o ego – que se renova em cada vida física com as tendências anteriores – um dia será completamente absorvido pela Alma Individual. Num tempo muito distante essa alma destacou-se da Alma Universal, a Totalidade do Ser, devendo agora achar seu caminho de volta, assim como a água do oceano que, ao evaporar, cria uma infinidade de gotas no vapor das nuvens, cai de novo sobre a terra, corre pelos rios e num belo dia chega ao oceano. O Eu Real é o oceano.

Contudo, a gota d’água que retorna não é a mesma que saiu. Traz em seu colorido o conhecimento de toda a jornada pelos caminhos da Terra, o que significa expansão de consciência, credenciando-a para realizar o que disse o Cristo: “Sede perfeitos como vosso Pai que está nos Céus”. “Sede perfeitos” está, imperativamente, no aqui e agora!

Da mesma forma, Sri Ramana Maharshi ensina: “O Eu Real sempre é, mas o conhecimento dele está obstruído, e a obstrução chama-se ignorância. Remova a ignorância e o conhecimento resplandece”. Onde se acha tal conhecimento? Em nós mesmos, sendo por isso um tesouro tão mais oculto quanto mais procurado sob a ânsia de posses do mundo.

Sabe-se, contudo, que uma ânsia encobre a outra. A sede de posses decorre de nossa ânsia de viver, da busca de continuidade, sob a vaga lembrança de que somos eternos.

Quantas dores e calamidades serão ainda necessárias – transformando em lixo nossas posses – para chegarmos, enfim, à totalidade do Ser: essa condição que não morre, não fica doente, não envelhece, e nem depende das quinquilharias do mundo para ser feliz?

ATIVIDADES – Aulas de Yoga Clássico. Novo curso: “Meditação: Saúde e Consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00) aos sábados. Em 20/3, Ana Lenita com o tema “A enorme presença do medo em nossas vidas” na Rua Pernambuco, 824, São Francisco. No site www.educbesant.org.br participe do Fórum de Mães & Pais, contribuindo para o desenvolvimento de um trabalho educacional mais consciente. Contatos: (67) 9988-1010.

Qual é o preço do seu ideal?

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

Apresentei a questão acima a uma pessoa amiga e ela de pronto respondeu: “Meu ideal não tem preço”. Achei bonita a resposta, porém rápida demais. Na economia do Universo tudo tem preço, sendo sua meta mais elevada – a conquista da Consciência – obtida palmo a palmo durante milhões de anos, com o aperfeiçoamento também de nossos corpos. Até mesmo a “Graça do Guru” tem um preço, baseado nas condições alcançadas pelo discípulo.

Ideal é “aquilo que é objeto de nossa mais alta aspiração intelectual, estética, espiritual, afetiva ou de ordem prática”, ensina o velho “Aurélio”. Também pode ser o que “existe somente na idéia, imaginário, fantástico”. Nesse intervalo entre algo prático e fantasia – sendo a realidade medida pelo sacrifício envolvido – onde se enquadra nosso ideal? Quanto ele consome de nossa atenção, recursos e tempo? É uma força autêntica ou mero verniz, resumindo-se nosso dia-a-dia às funções instintivas herdadas dos animais?

Em certo sentido, “ter um ideal” parece não ser tão bom assim. O idealista pode encarnar alguém que não vive o momento, sempre focado em algo “melhor” a acontecer no futuro. Sendo o agora o tempo de fato existente – só podendo ser vivido na ausência do medo e da expectativa criados pelo “tempo psicológico” – por que alguém deveria perder esse tesouro esperando para “se realizar” na muito improvável circunstância do “amanhã”?

Não nos enganemos, porém, achando que “ausência de expectativa” admita ser fraco ou displicente na ação. Ao contrário, é a condição de executá-la com habilidade, no exato compasso dos ciclos de realização do mundo, onde a precipitação ou o atraso é a morte.

Cabe a ressalva de que alguns pensam viver o agora com o “máximo de prazer e o mínimo de compromisso”. Mas isso é justamente o que a Matéria quer, mantendo-nos presos à inconsciência, além de ser um engano quanto à extensão do compromisso. Bem ou mal utilizada, a energia é uma só – e toda ação é um emprego de energia. A única ação isenta de compromisso é a que não busca recompensa, pois “mata” o Carma em sua própria fonte.

Em ângulo oposto, Eckhart Tolle (O Poder do Agora) fala daqueles que habitualmente colocam suas perspectivas de realização no futuro, tornando o agora mero trampolim para a nebulosidade do amanhã. Estando a felicidade “lá” só restaria a infelicidade “aqui”?

Mas Tolle lembra também aqueles que nutrem um ideal sem perder o foco do presente, como o único espaço-tempo onde as possibilidades de construir e vivenciar estão disponíveis. Dessa forma, nenhuma oportunidade será perdida, seja em função do ideal ou das demais propostas que o universo a cada instante nos oferece, podendo até mudar tudo.

 “E qual é o seu ideal?” Pensei em fazer essa pergunta à minha amiga quanto ao seu ideal “sem preço”, mas desisti. Se ele tiver um sentido prático (ainda que espiritual), com certeza terá um preço, significando enterrá-lo pensar-se o contrário. Poderá ser também uma ficção como felicidade baseada em condições futuras, pois ela só existe no agora. Qualquer ideal pode gerar felicidade “já” pela totalidade da atenção que lhe damos, sem expectativa.

 Não longe disso, o teósofo Rohit Mehta diz: “Só o infinito é felicidade” (O Chamado dos Upanixades). O infinito é o Eterno Agora. Qual é seu preço? De acordo com Tolle, é nos libertarmos do tempo psicológico criado pela mente. Em termos mais profundos é a morte do ego (o preço mais alto de todos), abrindo as portas ao próprio infinito: Deus em nós mesmos.

ATIVIDADES – Aulas de Yoga Clássico. Novo curso: “Meditação: Saúde e Consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00) aos sábados. Em 13/03, Walter Barbosa com o tema “Consciência e inconsciência no dia-a-dia” na Rua Pernambuco, 824, S. Francisco. No site www.educbesant.org.br participe do Fórum de Mães & Pais, colaborando para o desenvolvimento de um trabalho educacional mais consciente. Contatos: (67) 9988-1010.