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Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã As chaves que abrem o reino dos céus na Terra Autor: Raul Branco I- INTRODUÇÃOO cristão dedicado, sincero e que toma sua cruz, seguindo a orientação do Mestre, pode se questionar como é possível que o entusiasmo da cristandade dos três primeiros séculos, que manteve o fervor apesar das perseguições implacáveis, possa ter arrefecido e se transformado, para grande parte daqueles que se dizem cristãos, numa mera afiliação religiosa pró-forma sem o envolvimento de seu coração. As causas dessa mudança qualitativa da religiosidade do cristão são complexas, mas podem ser em boa parte imputadas ao fato de que a maioria das igrejas atuais distanciaram-se dos ideais originais, retornando ao comportamento de obediência a rituais externos e a práticas religiosas mecânicas que Jesus havia tão duramente criticado nos fariseus e levitas. São poucos os cristãos no mundo de hoje que procuram realmente entender os ensinamentos de Jesus e, um menor número ainda, seguir o Mestre.Com o passar dos séculos, a mensagem central de Jesus foi progressivamente desvirtuada e acabou sendo esquecida. Em vez de buscarmos o Reino dos Céus aqui e agora, colocamos a nossa esperança num paraíso distante, talvez no outro mundo. Porém, se meditarmos profundamente sobre a essência dos ensinamentos de Jesus, deixando de lado nossas idéias preconcebidas, chegaremos à conclusão de que somos o próprio filho pródigo e que algum dia retornaremos à Casa do Pai, que é o Reino dos Céus, voltando ao estágio de pureza prístina original de um Filho de Deus, tornando-nos, então, um Cristo[1] e podendo dizer, por experiência própria, que “Eu e o Pai somos um” (Jo 10:30). Paulo demonstra estar em sintonia com essa realidade ao dizer: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2:20). Esse entendimento do potencial ilimitado do homem e o conhecimento da herança divina podem ser obtidos por meio do estudo e da vivência do lado esotérico de nossa tradição, que permaneceu esqucido e negligenciado por tantos séculos. O primeiro passo para usufruirmos a herança divina é a decisão de reivindicá-la. Para isso temos que nos desvencilhar dos condicionamentos limitativos impostos por muitos séculos de apatia intelectual e de ausência do exercício da vontade. A verdade sempre esteve ao nosso alcance, mas, por várias razões, deixamos escapar a oportunidade de percebê-la. Podemos, no entanto, reverter esta situação porque o momento atual é extremamente propício para o despertar espiritual. Felizmente, os ensinamentos esotéricos da tradição cristã não foram totalmente perdidos. Eles podem ser recuperados, compreendidos e, se devidamente vivenciados, podem mudar nossas vidas, permitindo que alcancemos “O estado de Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4:13). O primeiro passo neste estudo dos ensinamentos de Jesus é deixar claro que o cristianismo, em sua essência última, não é uma instituição, mas sim uma convicção interior. Essa convicção, a verdadeira fé, deve guiar a conduta de seus seguidores rumo à meta final, o Reino, deixando um rastro de boas obras ao longo do caminho trilhado. Um aspecto pouco conhecido da natureza cíclica da manifestação é o de que, em cada final de século, a Providência Divina aumenta o fluxo de energias espirituais para estimular o progresso da humanidade. Ocorrem também ciclos maiores, como ciclos milenares e ciclos envolvendo as grandes eras. A humanidade está vivendo agora um momento muito especial, a confluência de três ciclos, o centenário, o milenar e o de transição da era de Peixes para a era de Aquário. Isso pode ser notado pelas pessoas mais sensitivas. O resultado dessa ação energética inusitada se faz sentir no mundo das idéias e do comportamento humano. Nesta virada do terceiro milênio, estamos vivendo um momento extremamente propício para tornar conhecidas as coisas ocultas. Por isso esforçamo-nos para fazer com que os ensinamentos de Jesus entesourados em documentos raros, ao alcance apenas de um limitado círculo de estudiosos, sejam postos à disposição dos cristãos sinceros que ainda não conhecem a inteireza de sua mensagem. Como não podia deixar de ser, essas energias afetaram de forma positiva a vida espiritual do planeta. As estruturas religiosas foram induzidas a alargar seus horizontes para abranger outros grupos e outras etnias. Em virtude da invasão chinesa, que forçou um êxodo de grandes proporções da comunidade monástica tibetana, o budismo tibetano passou a ser conhecido e praticado por centenas de milhares de pessoas em quase todo mundo ocidental, quebrando um milênio de isolamento no Tibete. O sofrimento do povo tibetano foi transmutado em benefício dos buscadores da verdade em todo o mundo, com a tradução das obras dos mestres budistas daquele país e o estabelecimento de centros de ensino do Dharma em vários países do oriente e do ocidente. Até a rígida e arcaica Igreja de Roma mostrou sinais de abertura. Atendendo aos clamores dos fiéis que há muito se sentiam alienados com os serviços religiosos em latim, uma drástica reforma litúrgica foi implementada, permitindo que a missa fosse conduzida na língua de cada povo e com maior participação dos fiéis. O sacerdote, que anteriormente oficiava boa parte da missa de costas para o público, passa agora a voltar-se de frente para os fiéis numa tentativa de quebrar barreiras e promover a comunicação.[2] Porém, a iniciativa conciliadora mais importante do Vaticano foi o movimento ecumênico. Depois de muitos séculos de disputas fratricidas a Igreja de Roma, numa demonstração saudável de humildade, tomou a iniciativa de promover o contato com grupos dissidentes dentro da grande tradição cristã, bem como com outras religiões.[3] A mudança de atitude foi, em grande parte, motivada pelo relativo esvaziamento das igrejas católicas, face ao rápido crescimento das seitas protestantes e de outros movimentos, como o espiritismo e as religiões ou filosofias orientais. Esse processo ecumênico, ainda que tímido e cauteloso, em virtude dos ânimos acirrados por séculos de disputas, muitas vezes sangrentas, promove pontos de união e minimiza os de separação. Esse ecumenismo tem-se mostrado, no entanto, eminentemente externo. Mais importante ainda, com imensas perspectivas de vir a provocar mudanças radicais, inclusive ao nível da espiritualidade das massas de fiéis em todo o mundo, seria um ecumenismo interior, entendido como uma abertura que leve em consideração todos os aspectos da natureza humana. Os cultos de praticamente todas as igrejas cristãs tradicionais, antes e depois da Reforma, baseiam-se num acirramento do aspecto emocional do homem. As liturgias, cânticos, romarias e atos devocionais baseiam-se numa fé emotiva e cega. A questão da verdadeira fé é de grande importância e será examinada posteriormente, pois ela é um dos instrumentos fundamentais do processo transformador da ioga cristã. Mas a emoção é apenas um dos aspectos interiores do homem. O caminho que leva ao Reino dos Céus requer a integração de todos os aspectos do ser humano. Isso significa que a emotividade religiosa tem que abrir espaço para a razão, a fim de que as duas, emoção e razão, possam ser integradas e transcendidas, no seu devido tempo, pela intuição. Isso só ocorre quando o Cristo interior tem condições de despertar no âmago de nossos corações e, progressivamente, assenhorar-se do comando de nossas vidas. Esse processo de integração, ou ecumenismo interior, é a essência dos ensinamentos internos de Jesus. Assim como o aumento da intensidade das energias espirituais neste século se fez sentir ao nível das idéias, dos movimentos e das instituições existentes, com mais razão ainda se fez sentir na alma das pessoas. Milhões de indivíduos em todo mundo passaram a sentir o chamado do alto. Esse chamado, sempre sutil, procura por diversos meios fazer com que o homem entenda que sua meta é o Reino e que, para atingi-la, torna-se necessário um progressivo desapego do mundo material. A forma como os homens geralmente sentem esse chamado é por intermédio da insatisfação com sua vida, mesmo quando estão aparentemente fazendo as coisas certas e vivendo uma vida ética. Essa divina insatisfação deslancha um processo de busca, que, inicialmente, é confuso, pois o homem não consegue identificar exatamente o que está procurando. Busca livros e outras formas de auto-ajuda, dentro e fora de sua tradição; procura ouvir todo tipo de palestra sobre temas espirituais. Procura, enfim, por todos os meios, saciar sua terrível sede da verdade. Muitos dos que batem às portas das igrejas voltam desapontados com o receituário prescrito pelos seus sacerdotes e pastores. Podemos identificar três áreas principais de insatisfação com a ortodoxia: os dogmas, a conceituação do homem como pecador e de Deus como justiceiro e, finalmente, as práticas espirituais sugeridas. Os dogmas de fé sempre constituíram-se em obstáculos para o crescente segmento pensante da cristandade. Enquanto o domínio da Igreja de Roma era total sobre seus fiéis, o medo era geralmente suficiente para manter os fiéis e até mesmo os intelectuais em linha. Porém, neste último século, com os grandes avanços na educação das massas e a liberdade de pensamento exercida sem as antigas inibições religiosas, o conflito entre dogma e razão vem levando um número crescente de cristãos a assumir uma posição de coerência com seus sentimentos mais íntimos. Infelizmente, isto tem também levado muitos a rechaçarem, juntamente com os dogmas, toda a doutrina cristã e os ensinamentos corretos da Igreja. A segunda área de conflito com a doutrina ortodoxa já era sentida de forma latente há muitos séculos. Trata-se da repulsa instintiva ao conceito de Deus justiceiro apresentado pelo Antigo Testamento, numa interpretação literal, que foi encampado pela ortodoxia cristã. Conceber Deus como um Ser sujeito a ataques de fúria que precisam ser aplacados por diversas formas de sacrifícios e holocaustos fere a consciência daqueles que não se recusam a pensar e constitui-se uma verdadeira heresia. A máxima heresia nesse sentido é a proposição de que o Filho de Deus foi oferecido em sacrifício para propiciar o perdão de Deus pelos pecados dos homens, conhecida como doutrina da expiação vicária. Felizmente, em nosso século, com os avanços da psicologia moderna e o entendimento do lado sombra do ser humano, o cristão começou a entender porque sempre se sentiu incomodado por sua caracterização como ‘vil pecador.’ Jung mostrou que as negatividades inerentes ao nosso processo de aprendizado terreno devem ser entendidas e superadas pela compreensão e pelo amor e não pelo temor a um Deus implacável que castiga nossas falhas e fraquezas com os tormentos do fogo eterno.[4] Muitos dos cristãos que ainda se mantêm fiéis à Igreja mostram finalmente seu descontentamento com as práticas espirituais tradicionais da ortodoxia e, em alguns casos, com o significado deturpado dado a elas. A missa, o terço, as romarias e as outras práticas disponíveis aos leigos contrastam com as práticas de outras tradições que, aos poucos, se tornaram conhecidas no Ocidente. Esse descontentamento não se restringe aos católicos mas é sentido também pelos fiéis das seitas evangélicas e protestantes por causa de sua conhecida inflexibilidade em questões doutrinárias. Apesar de muita resistência interna, a poderosa energia crística atuando nesta época de transição, parece ter rachado, em alguns lugares, a espessa muralha do conservadorismo. Assim, algumas aberturas, como o movimento carismático e os movimentos de jovens e de casais da igreja católica resultaram em entusiástica resposta dos leigos e de parte do clero. Também a divulgação, por iniciativa de alguns padres e monges, de certas práticas meditativas e contemplativas, parcialmente inspiradas nos modelos orientais, tiveram excelente acolhida. Porém, para a grande massa dos buscadores, a Igreja permaneceu uma instituição rígida, distante, indiferente e até mesmo alienada das necessidades espirituais de seus fiéis. O resultado tem sido um progressivo desapontamento dos fiéis com a ortodoxia religiosa cristã e conseqüente êxodo para outros movimentos e tradições não-cristãos ou fora dos cânones ortodoxos. Isso explica porque o espiritismo, o budismo, o hinduísmo, a ioga e outros movimentos religiosos e filosóficos no Brasil tiveram tão boa acolhida entre os cristãos insatisfeitos com a postura ortodoxa de sua tradição. Isso ocorre porque, nesses movimentos ou tradições, o buscador encontra práticas espirituais sólidas e doutrinas que não agridem a razão. As tradições budista e da ioga têm exercido grande atração sobre os buscadores ocidentais. Ambas podem ser mais acertadamente consideradas como tradições filosóficas do que religiosas. Seus aspectos doutrinários são extremamente atraentes, englobando conceitos filosóficos e cosmológicos de abrangência e grandeza que fascinam os estudiosos livres de preconceitos. Porém, o ponto que exerce maior atração parece ser a prática espiritual dessas tradições voltadas para a libertação do sofrimento. Dentre essas práticas destaca-se a meditação, com todas suas modalidades e etapas. Até mesmo alguns padres e monges cristãos, como Thomas Merton[5] e William Johnston,[6] depois de estudarem o budismo, procuraram introduzir suas práticas meditativas nos meios cristãos. Johnston, preocupado com o desinteresse crescente dos fieis pelas práticas devocionais tradicionais (rosário, via sacra e novenas), e verificando a firmeza milenar das práticas budistas, tal como observou no Japão, desabafa: “A velha contemplação cristã destinava-se a uma elite - os franciscanos, os jesuítas, os dominicanos e as pessoas de bem. Mas o pobre leigo, o cidadão de segunda classe, ficava com as contas de seu rosário. De ora em diante, não é preciso que seja assim. Assim como a liturgia ampliou-se para abranger a todos, também o mesmo pode dar-se com a contemplação. O muro infame que separava o cristianismo popular do cristianismo monástico pode ser derrubado de forma a que todos possamos ter as nossas visões, alcançar o nosso samadhi.”[7] A diferença radical de enfoque para a vida espiritual entre a tradição budista e a cristã pode ser aquilatada pela maneira como se denominam seus membros. Os budistas geralmente se autodenominam “praticantes,” no sentido de serem praticantes do dharma, do corpo de ensinamentos do Senhor Buda. Os cristãos, por sua vez, são normalmente caracterizados como “fiéis,” refletindo o fato de serem supostamente fiéis à sua crença no corpo doutrinário da Igreja. Enquanto uns praticam os ensinamentos de seu mestre, outros simplesmente crêem passivamente nos dogmas de sua crença, desconhecendo, em geral, os ensinamentos de seu Salvador. Dentro desse contexto de crescente insatisfação com as práticas cristãs ortodoxas e a constatação de que existem alternativas atraentes nas outras tradições, a apresentação das doutrinas e práticas espirituais do lado interno da tradição cristã assume especial importância. Felizmente, quando conseguimos desvelar os ensinamentos esotéricos de Jesus, verificamos que as práticas do cristianismo primitivo nada deixam a desejar às outras tradições orientais tão em voga atualmente. Este livro vem juntar-se a uma crescente literatura sobre o cristianismo primitivo e os aspectos esotéricos da tradição cristã, enfatizando os métodos e práticas espirituais voltados para a transformação interior, tão escondidos no passado.[8].Esses antigos ensinamentos abrangentes, profundos e eternamente atuais, levaram Agostinho, reputado como um dos baluartes da Igreja, a escrever há quinze séculos atrás: “Esta que hoje chamamos de religião cristã existiu entre os antigos e existia desde o começo da raça humana até que o Cristo se fez carne, tempo a partir do qual a verdadeira religião já existente começou a ser denominada de cristianismo”[9] [1] Peter Roche de Coppens, , sugere que: “Tornar-se um ‘verdadeiro’ cristão, para mim não é mais do que se tornar um ‘ser humano crístico,’ um ser humano que alcançou a verdadeira Iniciação espiritual. Um ser humano em quem o Senhor é Rei e Governa; um ser humano em quem o Eu espiritual tornou-se o princípio unificador e integrador da psique e dos pensamentos, emoções, desejos, palavras e ações: um ser humano, então, que se torna num outro Cristo vivo.” Divine Light and Fire: Experiencing Esoteric Christianity (Rockport, Mass: Element, 1992), pg. 7. [2] Para uma interessante explicação do lado oculto dos rituais, vide: Geoffrey Hodson, O Lado Interno do Culto na Igreja (S.P.: Pensamento) e C.W. Leadbeater, O Lado Oculto das Coisas (SP: Pensamento) [3] Esta abertura demandou grande coragem por parte do Vaticano, pois até meados deste século, a convicção de que “fora da Igreja não há salvação,” foi absolutamente dominante para a postura da Igreja Romana em relação às outras igrejas e religiões. [4] C.G. Jung, AION. Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo, (Petrópolis, R.J., Vozes, 1994), pg. 6-8. [5] Thomas Merton, Zen e as Aves de Rapina (S.P.: Cultrix, 1987) e Mystics and Zen Masters (N.Y.: The Noonday Press, 1994). [6] W. Johnston, Cristianismo Zen. Uma forma de meditação (S.P.: Cultrix, 1991) [7] Cristianismo Zen, op.cit., pg. 47. [8] Ver, a propósito, Jacob Needleman, Cristianismo Perdido (S.P.: Pensamento); Robin Amis, A Different Christianity (Albany: State University of New York Press, 1995); Ted Andrews, O Cristo Oculto (S.P.: Pensamento, 1997); Boris Mouravieff, Gnosis, Study and Commentaries on the Esoteric Tradition of Eastern Orthodoxy (Newbury, MA: Praxis Institute Press, 1990), 3 vol, e The Philokalia, The complete text (Londres: faber and faber, 1979), 5 vol. [9] St. Agostinho, Confissões, Livro I, cap. 13, vers. 3, citado por C.W. Leadbeater, A Gnose Cristã (Brasília: Editora Teosófica, 1994), pg. 90. ______________________________________
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