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Psicologia e Teosofia
Sáb, 06 de Setembro de 2008 18:31

Alfredo Puig Figueroa

Um dos problemas mais desconcertantes que a ciência moderna enfrenta é o da psicologia. Essa palavra foi empregada pela primeira vez em 1590 como título de um livro escrito por Rudolf Goclenius (1547-1628) e foi difundida posteriormente pelo Barão Christian von Welff (1679-1754). (1).

A psicologia é uma espécie de ciência órfã e, sem dúvida, é uma das mais antigas, pois através dos séculos o homem sempre tratou de conhecer e encontrar respostas para tudo o que está relacionado com a mente e os pensamentos.

Nas últimas décadas, a psicologia tem ganhado tanto em credibilidade como em descrédito. Os termos psicologia, psicanálise e psiquiatria constituem atualmente jargão popular, que se utiliza alguma vezes em forma muito elevada para definir as idéias de grandes pensadores sobre o tema do eu e, em outras ocasiões, é degradada para assinalar somente desejos sexuais veementes.

Existem outros termos nessa família de palavras, tais como psicagogia, psicalgia, psicastenia, psicocinesis, psicodiagnóstico, psicodrama, psicofisiológico, psicogênese, psicologizar, psicometria, psiconeurose, psicopatia, psicose, psicoterapêutico, psicoterapia, psíquico, psiquismo, etc., a cada um dos quais é dado um significado, que agora é de conhecimento geral nesse campo de atividade e aplicado normalmente. O estudo de um glossário de termos de psicologia é fascinante, pois mostra-nos como as atividades dessa ciência vêm se estendendo tanto no campo da psicologia empírica, ou experimental, como no da psicologia aplicada, ou prática.

A intuição é agora considerada uma palavra respeitável; o subconsciente e o superconsciente são estados que se aceitam como válidos.

Não obstante, os pseudo-cientistas invadiram esse campo, como têm feito em muitos outros, e não houve imunidade suficiente contra o ataque de mecanicistas e deterministas, que criaram uma psicologia sem consciência ou consideraram a consciência como um apêndice ou produto. Mesmo quando se estuda em detalhes tais teorias, descobre-se que, ao tratar de descartar o metafísico como anticientífico, postulam todos seus argumentos tendo como base uma posição puramente metafísica. Essa tendência procura justificar-se, explicando que se trata de atualização com a ciência. Porém, o certo é que o faz sempre uma oitava abaixo e com as limitações lógicas que correspondem a esse enfoque.

As publicações das obras teosóficas em geral e, em particular, A Doutrina Secreta (1888), da Sra. Helena P. Blavatsky (1831-1891) e Um Estudo Sobre a Consciência (1904), da Dra. Annie Besant (1891-1933), assim como A Ciência do Yoga (1961) e Vislumbres Sobre a Psicologia do Yoga (1973) do Dr. Ikbal K. Taimni (1898-1978), têm contribuído de maneira definida para a regeneração da psicologia quanto ao estudo da natureza da consciência e seus estados, como também têm feito para o renascimento da espiritualidade no mundo ocidental. A investigação psíquica segue atualmente um caminho firme e encaminha-se, passo a passo, para ocupar seu lugar entre as chamadas ciências exatas.

A consciência tornou-se uma realidade tão tangível como a eletricidade e pode ser conhecida sob muitas formas. Ao utilizar-se a eletricidade como símile para explicar a existência da consciência, chega-se ao que está implícito na separação dos dois aspectos da Vida Una, ou unidade fundamental que subjaz a todas as coisas manifestadas. A esse respeito a Dra. Besant diz o seguinte:

"A eletricidade manifesta-se apenas como positiva ou negativa, porém, quando uma corrente neutraliza a outra, a eletricidade desaparece. Em todas as coisas existe a eletricidade neutra e não-manifesta, e delas pode surgir tanto a positiva quanto a negativa; as coisas sempre mostram quantidades equilibradas de ambas as correntes, balanceadas entre si, e essas sempre tendem a entrar de novo no nada aparente, que não é o nada e sim a fonte da qual ambas surgem igualmente." (2)

De acordo com esse postulado, que se pode encontrar em qualquer texto de física, pode-se acrescentar que os dois extremos da Realidade são Espírito e Matéria (o Eu e o não-eu, a Vida e a Forma). Esses dois aspectos estão entrelaçados, unidos pela Consciência, que se pode conceber como sendo a relação contínua entre o Eu e o não-eu.

Por isso, no plano físico é onde o Espírito e a Matéria encontram-se mais separados, já que é o plano mais externo da Realidade. À medida que a consciência ascende, ou adentra-se, plano por plano, até a Realidade, o Espírito e a Matéria põem-se em uma relação cada vez mais Íntima.

Quando finalmente o Espírito e a Matéria se encontram, ou reúnem-se, no ponto da Realidade, a consciência (no que se refere à sua separatividade) deve necessariamente cessar. É nesse ponto que chegamos ao limite da psicologia humana e entramos num nível conceitual superior.

Se dirigirmos agora nossa atenção para o século XIX, poderemos encontrar o famoso romancista francês Gustave Flaubert (1821-1880), considerado líder da escola naturalista, autor de Madame Bovary, obra muito conhecida. Esse escritor produziu uma novela em que os personagens, os senhores Bouvard e Pecuchet, decidem empreender o estudo da psicologia, partindo do pressuposto que a meta da psicologia é estudar os fatos que têm lugar no seio do eu e que podem ser descobertos por meio da introspecção. Diz ele:

"Durante quinze dias e de uma maneira regular, depois do desjejum, dedicaram-se a perseguir ao acaso os pensamentos que ocorriam em suas mentes, com a esperança de fazer descobertas notáveis, porém nada conseguiram, para surpresa de ambos." (Da obra Bouvard e Pecuchet, 1881.)

Não é difícil encontrar a razão do fracasso desses personagens. O fato de sua busca se efetuar "ao acaso" representou razão suficiente para desencorajá-los, ainda que o método de introspecção no qual basearam seu estudo fosse tão exigente e preciso quanto o da investigação objetiva. Descobertas notáveis e significativas, em qualquer campo, são sempre resultado de esforços denodados e definidos, tanto no mundo objetivo como no subjetivo.

O fato de esses personagens nada terem descoberto de interesse é de menor relevância. Sem dúvida, o importante é o que constituiu o tema de suas pesquisas. Diferentemente do deles, o enfoque verdadeiramente apropriado da psicologia, num estudo de introspecção, deve ser o de descobrir o significado e a extensão do que ocorre no seio do Eu, de acordo com o que existe no mundo do conhecimento.

Se aceitarmos que existe a ciência da psicologia, devemos defini-la. Assim como outras ciências, a psicologia deve tratar com um problema, ou com um grupo específico de problemas, concernente ao Universo, ao homem e a ambos em sua mútua relação.

Uma definição da psicologia não pode ser considerada um assunto simples. Que a biologia é a ciência que estuda especialmente as leis da vida; que a química é a ciência que estuda a natureza e as propriedades dos corpos simples, a ação molecular dos mesmos uns sobre os outros e as combinações devidas a essas ações; que se considera a matemática como a ciência que tem por objeto o estudo das propriedades das quantidades calculáveis; que a física é a ciência que estuda as propriedades dos corpos e as leis que tendem a modificar seu estado ou seu movimento sem mudar sua natureza (3), são definições que ninguém pode rechaçar ou rejeitar.

Essas definições apóiam-se nos campos de estudo que cobrem cada uma dessas ciências; campos definidos e indisputáveis, separados virtualmente nas investigações, de tal modo que ninguém precisa de um laboratório de química para ser um matemático.

Se isso é assim, podemos, então, nos perguntar o que é a psicologia? Defini-la como "o estudo da alma humana, da mente e da consciência" é como fazer um convite para o início de um debate.

Imediatamente surgem as seguintes perguntas: Existe a alma? O que é a alma? Como se pode estudar a alma humana? A que ângulo particular do campo do conhecimento limita-se essa ciência? Como se define a mente? É possível estudar a mente? Pode-se considerar como realidade uma ciência subjetiva? O que é a consciência? Pode-se investigar tudo o que se relaciona com a consciência? Que métodos se podem empregar para estudar a consciência?

Desse modo, poderíamos interminavelmente continuar formulando perguntas; cada qual teria várias definições como resposta, argumentos a favor ou contra, defensores ou detratores dos conceitos emitidos, e não é difícil imaginar os debates acalorados que surgiriam para fazer prevalecer determinados critérios a respeito.

Isso quer dizer que ninguém pode opinar sobre esse assunto? Naturalmente que se pode. Temos que começar por apoiar-nos na filologia, buscar as definições etimológicas das palavras que a constituem e, finalmente, interpretar as mesmas racionalmente.

O termo psicologia está formado literalmente por dois prefixos, psic, ou psico, do grego psyché, alma (ainda que talvez não seja a melhor tradução, pois também poderia utilizar-se: sopro vital, alento, princípio vital, etc.), e do grego logos, tratado (também significa doutrina, palavra, etc.).

Essa análise filológica da composição do termo psicologia aproxima-nos um pouco mais do seu significado, ou melhor, da interpretação que vamos lhe dar.

Como questão interessante e convite ao estudo mais detalhado, oferecemos, a seguir, à consideração dos interessados no tema, apenas duas definições acadêmicas atualizadas.

Psicologia: parte da filosofia que trata da alma, suas faculdades e operações. Modos de sentir de uma pessoa, de um povo, caráter. (4)

Psicologia: ramo da biologia que trata da mente e das faculdades afetivas. Psicologia analítica ou experimental: Análise da psique segundo os conceitos de Jung. Diferentemente de Freud, que se baseia no estudo dos antigos complexos, o método analítico fundamenta o diagnóstico e o tratamento das neuroses na valorização da inadaptação do momento, e não como Freud que se baseia no estudo de antigos complexos. Psicologia animal: Estudo da atividade mental dos animais. Psicologia constitucional ou fisiológica: a que mostra as relações entre a função mental e os estados orgânicos. Psicologia genética: a que estuda o desenvolvimento da mente do indivíduo e a evolução da mesma na sua raça. Psicologia individual: (A) fundada por Adler, que considera o homem como unidade indivisível e sustenta que a conduta está condicionada à luta pelo poder e pela superioridade social. Psicologia profunda: a psicologia do inconsciente. Psicologia social: a que estuda os aspectos sociais da vida mental. (5)

Sendo assim, se a palavra psicologia é definida como "a ciência da alma" e, depois, refuta-se, como vemos com freqüência, a existência da alma, contrariam-se, desta forma, as melhores leis da lógica.

Temos duas ou talvez três formas para sair desse dilema. Primeiro, podemos definir a psicologia independentemente das várias filosofias existentes (especialmente as mais mecanicistas e deterministas) que se cobrem com a roupagem dessa palavra. Contudo, não temos por que nos sentir indecisos, tímidos ou cheios de dúvidas para utilizar os termos "alma", "mente" e "consciência".

A segunda alternativa consiste em reconciliar todos os diferentes critérios e opiniões emitidos, para convertê-los numa espécie de frase atrativa que abranja todos.

O terceiro método, para chegar até seu significado é, como diz o provérbio popular, "por a carreta na frente dos bois". Resumidamente, pode-se defini-lo do seguinte modo: se pudermos descobrir o que estudam os psicólogos, saberemos o que é a psicologia. As falhas de tal método são óbvias, porém seguramente não são menos ambíguas que as outras duas formas.

O psicólogo George T. Ladd (1842-1921) define a psicologia como sendo "a descrição dos estados de consciência tais como são". Em outras palavras, seria o estudo do processo que conduz à consciência normal do homem e além dela, o que deve incluir todo o processo que conduza à "percepção" e a todos os estados do intelecto supernormal.

Alguns psicólogos consideram somente dois fatores como campo da investigação, que são: 1) pensamentos e sentimentos, ou estados transitórios da consciência; 2) conhecimento de outras coisas por meio desses estados de consciência.

De acordo com o que foi dito, a psicologia, para seu estudo, pode ser classificada em três aspectos: a) sensação; b) cerebração, ou intelecção; c) tendência à ação.

O psicólogo britânico Charles K. Ogden (1889-1957) indica três razões para o estudo da psicologia: 1) porque queremos saber o que somos; 2) porque algo vai mal e facassamos; 3) porque achamos que podemos melhorar.

O psicólogo Ogden afirma que a mente é o ponto de partida desse estudo. A psicologia está relacionada, entre outras coisas, com a adaptação, a consciência, as emoções, os instintos e o inconsciente. Um exame de cada um desses pontos deve responder às seguintes perguntas:

a) Que é o Eu?
b) Onde se situa a experiência?
c) Que coisa é uma experiência?
d) Quais são os aspectos essenciais de uma experiência?

O psicólogo Herbert Spencer (1820-1903) foi o primeiro na história da psicologia a assumir o ponto de vista evolutivo. Ele tentou oferecer explicações genéticas que abrangiam desde a complexidade do pensamento até as operações nervosas mais simples, indo até os movimentos da matéria. Ele descreveu a psicologia como "o ajuste das realidades internas às externas" e isso talvez seja o que o psicólogo Ogden estava buscando com suas interrogações.

Ao mencionar Spencer, estabelecendo o princípio da evolução, vemos posteriormente a psicologia considerar um desenvolvimento das formas inferiores do plano mental à semelhança do que aconteceria no físico. Charles Darwin (1809-1882) encarregou-se de oferecer o incentivo à aceitação desses pontos de vista.

A psicologia também é definida como "a ciência da consciência expressando-se por si mesma no plano físico". Pode-se argumentar, e talvez com certo fundamento, que nem todas as fases da consciência podem se expressar no plano físico, isto é, que se convertam em ação ou sensação. Tais fases da consciência podem não estar totalmente fora do campo da investigação psicológica.

Ao considerar-se que "o trabalho fundamental da psicologia é estudar o homem subjetivo, seu comportamento, seus pensamentos, sentimentos e imaginações", pode-se perceber que esse homem subjetivo nem sempre encontra expressão necessariamente objetiva.

Pode-se entender que qualquer que seja a parte do campo de conhecimento que se atribua à psicologia na área de estudo sobre a consciência, a sua natureza, origem ou conteúdo constituem claramente um problema de supremo interesse psicológico. Pode-se reduzi-la a um reflexo ou uma reação mecânica, ou pode-se estendê-la para que inclua e abarque toda a grande onda evolutiva, desde a consciência adormecida do mineral até a consciência pulsante e oniabarcante do sistema solar.

O psicólogo William James (1842-1910), que se pode afirmar ter iniciado a psicologia moderna, destacou as suas dificuldades para definir a consciência. James é conhecido como um dos fundadores do pragmatismo, tendo desenvolvido a teoria da emoção juntamente com Carl G. Lange (1834-1900).

O tema de Psicologia e Teosofia, como se pode ver no que foi esboçado em linhas gerais, deixa inevitavelmente interrogações que a limitação do tempo não nos permite esclarecer nesta ocasião.

Do mesmo modo, não nos foi possível abordar as vidas e os conceitos de muitos daqueles que têm interpretado e criado "sua própria" psicologia, dentro do marco de um período específico de tempo, exercendo uma determinada influência no pensamento de sua época e mesmo posteriormente.

Queremos oferecer nossa respeitosa homenagem e reconhecimento a todos os trabalhadores do campo da psicologia, que sempre enfrentaram com valor e integridade muitas incompreensões, tanto no desenvolvimento de suas investigações como na aplicação de seus resultados.

Como conclusão, consideramos de interesse geral a citação da conferência chamada "O Valor da Teosofia no Mundo do Pensamento", que foi realizada pela Dra. Annie Besant, em Londres. Diz assim:

"O que Charles Samuel Myers (1873-1946) mencionou algumas vezes como ‘a consciência cósmica', em contraste com nossa própria consciência limitada, é uma verdade profunda e leva consigo a profecia da grandeza futura do homem. Da mesma forma que o peixe está limitado à água, assim como o pássaro está limitado ao ar, o homem está limitado ao corpo físico e tem sonhado que não tem contato com outros espaços, aos quais ele realmente pertence. Porém sua consciência está vivendo em três mundos e não em um, está tocando possibilidades mais poderosas, está começando a pôr-se em contato com fenômenos mais sutis; e todos os vestígios disso encontram-se em nossa psicologia mais recente; essas são simplesmente provas de muitas daquelas teorias sobre o homem que a teosofia está ensinando no mundo por muitos séculos, mais ainda, por muitos milênios."


BIBLIOGRAFIA
 
(1) Dicionário de Psicologia, Friedrich Dorsch, publicado com a colaboração de Werner Traxel, com um apêndice matemático de Wilhelm Witte, versão para o espanhol de Ismael Antich, Editorial Herder, Barcelona. 1977.

(2) Un estúdio sobre la conciencia, Dra. Annie Besant, Capítulo II "La consciencia". 1. "Significado del término", The Theosophical Publishing House, edición de Adyar,1938.

(3) Diccionario Pequeño Larousse Ilustrado, de Ramán Garcia-Pelayo Gross, ediciones Larousse, Marsella 53, México 6, D.F., 1983.

(4) Ibid.

(5) Diccionario Terminológico de Ciencias Médicas, décima primeira edição em espanhol. Ministério de Cultura, Editorial Científico-Técnica, Calle 2 no. 58, entre 3ra. y 5ta, Vedado, Ciudad de La Habana, 2 volumes impressos en mayo y junio de 1984. 

Tradução: Edimar Silva, MST
Loja Fênix, Brasília, DF
Revisão: Edilson Pedrosa Almeida, MST, Loja Brasília, Brasília, DF