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Krishnamurti e as Relações Humanas
Dom, 14 de Setembro de 2008 14:55

Ricardo Lindemann    

Segundo Krishnamurti, "a vida são relações que se expressam no contato com coisas, pessoas, idéias". Essa é, evidentemente, uma visão ampla das "relações", pois abrange tanto o físico como o emocional e o mental. Mas do que isso, esse autor considera que "a vida é experiência, experiência em relação. Não se pode viver no isolamento". "As relações, sem dúvida, são um espelho em que nos descobrimos. Sem relações não existimos".

Evidentemente, decorre disto que a felicidade de nossa vida dependerá da harmonia destas relações, mas para tanto tem de haver compreensão. "Compreendendo as relações, teremos capacidade para enfrentar a vida de maneira completa, adequada". 

Nosso verdadeiro problema, porém, reside no fato de que a grande maioria de nós não está realmente interessada na verdade, na compreensão ou na sabedoria, mas sim na busca do prazer e na fuga da dor. 

Daí decorre que "só estamos em relação com alguém enquanto essas relações nos agradam, enquanto nos proporcionam um refúgio, enquanto nos satisfazem. No momento em que ocorre qualquer perturbação, causadora de desconforto para nós, abandonamos essas relações. Em outras palavras, só há relações enquanto estamos satisfeitos". Deveria ser desnecessário comentar que tal fato denota relações superficiais e vazias - sem amor. 

Conforme considera o próprio autor, "quando se dá importância a valores secundários, eles nos conduzem ao sofrimento e ao caos; os valores secundários são, necessariamente, valores dos sentidos (isto é, das aparências: "a propriedade, o nome, a casta, a nação, a etiqueta que usamos"; a civilização moderna, baseada que está nestes valores, proporciona-nos esses meios de fuga - fuga através de nossas ocupações, família, nome, estudos, arte, etc.; toda nossa civilização está baseada nesta fuga, alicerçada nesta fuga". 

De maneira semelhante, também as relações, que poderiam ser auto-reveladoras, tornam-se, usualmente, um meio de fuga, fuga do que é, do que nós somos. Pois, esta é, como diz Krishnamurti, "a coisa que menos desejamos: conhecer a nós mesmos". Por isso, "em nossa solidão, em nossa desgraça, procuramos servir-nos uns dos outros, fugir de nós mesmos". "Isto é, servindo-nos das nossas relações como um meio de auto-esquecimento; e enquanto as relações não nos mostram o que somos realmente, estamos satisfeitos. Eis por que aceitamos o domínio de outra pessoa". 

"Quando minha mulher ou meu marido me domina, isso não revela o que sou, sendo uma fonte de satisfação. Se minha mulher não me domina, se é indiferente e eu descubro o que realmente sou, isso causa muita perturbação. Quem sou eu. Um ente vazio, rígido, confuso com certos apetites - e tenho medo de enfrentar todo esse vazio. Por isso aceito o domínio de minha esposa ou de meu marido, porque me faz sentir muito perto dele ou dela, e não desejo ver-me tal qual sou. E esse domínio dá um sentimento de relação, esse domínio gera o ciúme: se não me dominais, é porque estais com os olhos noutra pessoa. Por isso, tenho ciúmes, porque vos perdi; e não sei como me livrar do ciúme, o qual está também no plano do cérebro. O homem que ama não é ciumento. O ciúme é coisa do cérebro, mas o amor não pertence ao cérebro; e onde há amor não há domínio".   

"Ora, decididamente, o amor nada tem que ver com a mente, ele não é produto da mente; o amor é de todo independente de cálculo, de pensamento". "O amor é eternamente novo". "O que tem duração não é eterno". "O amor não pertence ao tempo". 

Aqui Krishnamurti mostra-se muito esclarecedor, pois se o amor não pertence ao tempo ele não pode ser criado, ele não surge da busca de satisfação ou segurança, porque ele não pode ser criado, ele não surge da busca de satisfação ou segurança, porque ele já existe, sempre existiu e sempre existirá - o amor simplesmente é. Ele está em nós, embora talvez precise ser descoberto. É o "eu" que bloqueia o seu fluxo natural. "A criatividade egocêntrica do ‘eu' é um processo temporal. É a memória que dá continuidade à atividade do centro que é o ‘eu'. "Quando há amor, não há ‘eu' ". 

O amor está radicado no verdadeiro centro de todas as coisas, esse verdadeiro centro não pertence ao tempo e, por isso, só quando a atividade egocêntrica da mente, que é temporal, cessa, cessando assim o centro artificial que é o "eu", é que o amor pode ser descoberto e fluir abundantemente. Disse Krishnamurti: "Estamos sempre pensando de um centro para a periferia, mas, para a maioria de nós, a periferia é o centro, e por isso tudo o que tocamos é superficial. Mas a vida não é superficial; ela exige ser vivida com plenitude". "Os problemas existem, enquanto estamos vivendo na superfície, na periferia, sendo a periferia o ‘eu'. Mas," "o que chamamos consciência tem muitas camadas", e, por isso, não é fácil encontrar o amor. "O amor não pode ser cultivado", não podemos criar o amor, pois ele já existe fora do tempo - é incriado - pode apenas ser descoberto quando dissolve-se a atividade egocêntrica da mente - o "eu". "Os homens refletidos estão bem cônscios de que  só quando cessa tal atividade procedente do centro, é possível haver felicidade". "Sem dúvida, esta é a finalidade da existência - transcender a atividade egocêntrica da mente. Depois de experimentar esse estado que não é mensurável pela mente, então essa própria experiência efetuará uma revolução interior". Mas, "para transcender as atividades egocêntricas da mente, deveis compreende-las. E compreende-las, é estar cônscio da ação nas relações, nas relações com coisas, com pessoas e com idéias". 

"A dificuldade no que respeita à maioria de nós, é que não temos a intenção de compreender, pois reeamos que a compreensão produza uma ação revolucionária em nossa vida, e por isso resistimos". "Meu único interesse é de não ser perturbado, e estou procurando uma forma de nunca ser perturbado. Por que não devo ser perturbado; Tenho de estar perturbado, para poder descobrir alguma coisa, não achais. Tenho de passa por tremendas comoções, agitações, ansiedades, para descobrir, não achais. Se não sou perturbado, fico dormindo; e talvez seja isso o que quase todos nós desejamos: ser acalmados, postos a dormir, afastar-nos de toda perturbação, buscar o isolamento, a reclusão, a segurança". 

"Procuram-se relações, onde se encontra segurança, onde o indivíduo possa viver em estado de segurança, em estado de satisfação, em estado de ignorância - estados causadores de conflito, não é verdade". "As relações, pois, redundam invariavelmente em posse, condenação, em arrogantes exigências de segurança, de conforto, de satisfação, e nisso, naturalmente, não há amor". 

"Vivemos fechados, porque achamos muito mais agradável, muito mais seguro". "As relações, pois, no caso de quase todos nós, são, de fato, um processo de isolamento, e é bem óbvio que tais relações criam uma sociedade também causadora de isolamento". "As relações, por conseguinte, têm muito pouca significação, quando estamos apenas em busca de satisfação mútua, mas se tornam extraordinariamente significativas quando constituem um meio de auto-revelação e autoconhecimento". 

O autor considera que "o indivíduo é constituído de várias entidades". "Cumpre distinguir entre 'pessoal' e 'individual'. O pessoal (proveniente do grego persona - 'máscara', N.R.L.) é acidental; por acidental entendo as circunstâncias de origem, o ambiente em que fomos criados, com seu nacionalismo, suas superstições, distinções e preconceitos de classe. O pessoal ou acidental é só momentâneo, ainda que esse momento dure a vida inteira". 

O individual (ou seja, indivisível, integrado), ao contrário, não é acidental, mas refere-se à nossa essência humana que é, por isso mesmo, comum a toda humanidade. "Todos somos humanos", diz Krishnamurti - "não importa o nome que nos atribuímos - e sofrer é o nosso destino". Se compreendêssemos em profundidade que todos os seres humanos têm, em essência, as mesmas necessidades, dores e carências, compreenderíamos também que somos uma só consciência - a consciência humana. Então o amor e a compaixão tornam-se naturais e, até mesmo, inevitáveis; mas isso só é possível quando pela compreensão do pessoal, do "eu", este é transcendido. 

Despertar essa "compreensão das tendências hereditárias e das influências ambientais, que condicionam a mente e o coração e sustentam o temor", deveria ser o objetivo da educação. Como provavelmente nós não recebemos este tipo de educação, cabe a nós condicionamentos para produzir um ente humano integrado". 

"Existência significa relações; e só podemos superar o sofrimento pela compreensão de nós mesmos nas relações. Apenas o autoconhecimento pode trazer a tranqüilidade e a felicidade ao homem, porque o autoconhecimento é começo da inteligência e da integração. A inteligência não é mero ajustamento superficial; nem cultivo da mente, aquisição de saber. Inteligência é a capacidade de compreender as coisas da vida, é a percepção dos valores corretos". "A inteligência não está separada do amor", como o intelecto e a erudição podem estar. "Consiste a inteligência em o indivíduo compreender-se, ultrapassar e transcender a si mesmo; mas não pode haver inteligência se existe temor". 

Krishnamurti considera que "o medo embota a mente e o coração, de modo que não podemos estar despertos para sentir o inteiro significado da vida; tornando-nos insensíveis aos nossos próprios sofrimentos, aos movimentos dos pássaros, aos sorrisos e às lágrimas alheias". O medo é uma emoção de repulsão ao outro, semelhante ao ódio, e coloca-nos em posição defensiva. Todavia, "a defesa contém o germe do ataque". Até um cachorro, instintivamente, sente isso, pois late tanto mais quanto for o medo daquele que se aproximar. Se o cão não tiver sido artificialmente treinado para o ataque, ele será facilmente conquistado por um homem amoroso e, por isso mesmo, isento de temor. O mesmo se dá nas relações humanas. Daí sugiram os antigos adágios: "O ódio (ou o medo, N.R.L.) jamais é vencido pelo ódio. O ódio só se extingue com o amor; esta é uma lei eterna"; "amor omnia vincit" (o amor a tudo vence), etc. O medo é uma forma de agressão, reforça o "eu" isolando-nos, repelindo o outro. Quando alguém nos agride ou é porque ameaçamos ou obstaculizamos a realização de um desejo dessa pessoa, ou porque essa é a maneira desequilibrada pela qual o seu vazio interior está nos pedindo preenchimento, atenção e amor, ou por ambas as causas. 

Contudo, devemos estar sempre atentos ao fato de que o mais arraigado desejo do homem é o de "vir a ser" ou "eu" que idealizou para si próprio, a auto-imagem, é o querer realizar-se representando o personagem que criou em sua própria mente. "O ‘eu' é constituído dessas entidades, que são meros desejos em várias formas. Desse conglomerado de desejos surge a figura central, o ‘pensador', à vontade do ‘eu', estabelecendo-se assim uma divisão entre o ‘eu' e o ‘não-eu', entre o ‘eu' e o ambiente ou sociedade. Esta separação é o começo do conflito, interno e externo". 

"O percebimento desse processo integral - tanto o processo consciente como o oculto - é meditação; por meio dessa meditação, o ‘eu', com seus desejos e conflitos, pode ser transcendido". Quando desperta-se esse percebimento, essa compreensão nas relações, elas passam a ser uma meditação, um processo de autoconhecimento; surge então a possibilidade de ser transcendido o "eu", o pessoal, e, por isso, haver a completa comunhão com o outro. Isso só depende da profundidade de nosso percebimento do caráter acidental e secundário do que é pessoal em relação à nossa condição humana. Esse ente fictício - o "eu" - no qual investimos muitas emoções e expectativas de "vir a ser" é, via de regra, um bloqueio, um entrave para uma verdadeira comunhão com o outro. É preciso desidentificar-se dessa auto-imagem que projetamos para poder sentir o outro unido conosco em comunhão. Quanto mais nos identificamos com esse personagem que criamos como auto-imagem em nossa mente, tanto menos percebemos que somos todos uma só consciência uma é percebida, desaparecem as imagens: tanto a imagem que formamos do outro quanto a nossa própria auto-imagem que se relaciona com aquela. 

Como considera Krishnamurti: "Afinal, no amor não há relações, há. Só quando amais e esperais retribuições desse amor, há relação. Quando amais, isto é, quando vos dais inteiramente, completamente, não há relações. Se amais, se existe um tal amor, ele é então uma coisa maravilhosa. Neste amor não há atrito, não há um e outro, há união completa. É um estado de integração, um ser completo. Existem desses momentos, desses momentos raros, felizes, festivos, em que reina um amor completo, uma comunhão completa. O que em geral acontece é que o importante não é o amor, mas ‘o outro', o objeto do amor; aquele a quem damos nosso amor se torna importante, e não o próprio amor. Então, o objeto do nosso amor, por várias razões, biológicas ou verbais, ou em virtude de um desejo de satisfação, de conforto, se torna importante, e o amor se retrai. Depois, a posse, o ciúme, as exigências criam conflito, e o amor se retrai mais e mais. E quanto mais ele se retrai, tanto mais o problema das relações perde em significação. Por conseguinte, o amor é uma das coisas mais difíceis de compreender". 

"Não dizeis ‘amo o mundo inteiro'; quando sabeis amar a um só, sabeis amar o todo. Porque não sabemos amar a um só, nosso amor à Humanidade é fictício. Quando amais, não há nem um nem muitos: só há amor". "Só existe amor quando há auto-esquecimento, comunhão completa, não entre dois, mas comunhão com o supremo, o que só pode acontecer quando o ‘eu' está olvidado".

Última atualização ( Dom, 14 de Setembro de 2008 14:58 )