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“Calamidades”: a eterna lição da Dor
Qui, 27 de Maio de 2010 13:41

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

Neste ano, em curto espaço de tempo o mundo conheceu episódios de trauma coletivo muito parecidos: os terremotos no Haiti e no Chile, este sofrendo também com o tsunami.

Em situações opostas na economia e na cultura, seria de esperar-se desses países igual distância no enfrentamento da crise, guardadas as proporções. De fato, melhor estruturado em todos os sentidos, o Chile já na semana passada pôde dizer que estava “de pé”, pela boca de sua primeira mandatária, apesar de haver ainda enorme quantidade de entulho nas ruas, com a destruição de centenas de carros e milhares de residências.

O que, porém, nos mostrou o comportamento das pessoas naquelas circunstâncias? Cada observador vai ter uma resposta. De nosso ponto de vista duas coisas ressaltaram, evidenciando os extremos gerados nesses momentos: de um lado, a solidariedade dos flagelados entre si – desconhecidos ajudando-se mutuamente – e, de outro, as ações de saque.

Entre os animais já se observou, na ocorrência de desastres naturais, que predadores e presas andam lado a lado, buscando apenas fugir do perigo comum. Na condição humana, os saques e outras rapinagens são a diferença gerada pelo “ego” imaturo: é justamente na fragilidade das crises individuais ou coletivas que ele ataca, independentemente de seu “status”. O que torna isso possível é a ignorância quanto à nossa divina natureza: o Eu Real.

Quem é o ego? Chamado “falso eu” por Sri Ramana Maharshi, é a projeção de nossa Alma Individual nas sombras do mundo. Tão fantasioso como essas sombras, o ego – que se renova em cada vida física com as tendências anteriores – um dia será completamente absorvido pela Alma Individual. Num tempo muito distante essa alma destacou-se da Alma Universal, a Totalidade do Ser, devendo agora achar seu caminho de volta, assim como a água do oceano que, ao evaporar, cria uma infinidade de gotas no vapor das nuvens, cai de novo sobre a terra, corre pelos rios e num belo dia chega ao oceano. O Eu Real é o oceano.

Contudo, a gota d’água que retorna não é a mesma que saiu. Traz em seu colorido o conhecimento de toda a jornada pelos caminhos da Terra, o que significa expansão de consciência, credenciando-a para realizar o que disse o Cristo: “Sede perfeitos como vosso Pai que está nos Céus”. “Sede perfeitos” está, imperativamente, no aqui e agora!

Da mesma forma, Sri Ramana Maharshi ensina: “O Eu Real sempre é, mas o conhecimento dele está obstruído, e a obstrução chama-se ignorância. Remova a ignorância e o conhecimento resplandece”. Onde se acha tal conhecimento? Em nós mesmos, sendo por isso um tesouro tão mais oculto quanto mais procurado sob a ânsia de posses do mundo.

Sabe-se, contudo, que uma ânsia encobre a outra. A sede de posses decorre de nossa ânsia de viver, da busca de continuidade, sob a vaga lembrança de que somos eternos.

Quantas dores e calamidades serão ainda necessárias – transformando em lixo nossas posses – para chegarmos, enfim, à totalidade do Ser: essa condição que não morre, não fica doente, não envelhece, e nem depende das quinquilharias do mundo para ser feliz?

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