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Por que é tão difícil transformar a negatividade?
Qui, 27 de Maio de 2010 13:46

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

Para vencer as causas do sofrimento psicológico - sempre atrelado às desilusões que o desejo provoca - é necessário um esforço que também representa sofrimento: aquele inerente a toda mudança. Nossas vacilações habituais mesmo para abandonar uma situação já considerada ruim, deixam clara essa dificuldade. Segundo E. Tolle, o problema é que nos tornamos viciados em sofrimento, identificando-nos com ele e achando-o mais seguro do que a mudança em direção ao desconhecido (O poder do Agora, Editora Sextante).

Se buscamos felicidade, como é que podemos identificar-nos exatamente com seu oposto, a infelicidade? Certamente não temos consciência disso. Alguma coisa está nos mantendo presos nessa masmorra auto-imposta - com seus horrores de escuridão e dor - quando bastaria abrir a porta e descobrir o sol do outro lado.

A identificação com o sofrimento, apesar de absurda, parece muito lógica da perspectiva do ego (o falso eu). Ninguém pode dizer, por exemplo, que sentimentos como ira, mágoa e vingança representem qualquer dose de felicidade. No entanto, somos capazes de mantê-los até por muitos anos, arruinando nossa vida e também contaminando a alheia.

O ego vai adiante nisso em virtude da “ofensibilidade” de sua auto-importância, anseio de autoridade e outras fantasias, “insistindo em fazer você pensar no que alguém fez para prejudicá-lo ou no que você vai fazer em relação a tal pessoa”. Nesse caso, você se identificou com o sofrimento, “ele se tornou você”, diz Tolle.

 Como tendência natural do ego, essa identificação ocorre com toda espécie de negatividade. A essência da negatividade é a separatividade, razão de existir do ego. Estando, por nossa vez, identificados com ele, vamos para onde ele vai. Deduz-se então que todo esse processo poderia deixar de existir se, ao contrário, nossa identificação fosse com o Eu Real, Deus em nós mesmos. O que impede isso? A impureza residente em nosso corpo mental - a morada do ego - fazendo-o senhor de nossa vida e de nosso pensamento.

A coisa, então, nada tem a ver com defeitos de caráter, ser ateu ou místico e outros rótulos usados para explicar aquilo que “já é”, assim como toda verdade que aceitamos foi acolhida somente porque “ressoou” em nós, identificando-se com um nível de pureza equivalente. É claro que ter uma religião pode ajudar. E tem feito maravilhas quando colocada em prática - levando o indivíduo a “ser a religião” - só porque determinado grau de pureza e convicção já se encontrava instalado nele.

A esse respeito, o teósofo R. Mehta diz: “Somente o movimento puro no observador pode reconhecer o movimento puro no objeto observado”. Ou seja, só aquele que é puro consegue ver a pureza. Isso explica, entre outras coisas, a dificuldade de fazer mudanças significativas na vida: nossas escórias mentais desvalorizam qualquer esforço nesse sentido.

Em resumo, somos governados pelas crenças e anseios do ego. Limitado em sua existência tanto quanto nosso próprio corpo físico, ele se agarra a qualquer fator que lhe pareça garantia de continuidade, reproduzindo elementos da única coisa que conhece: o passado. Aí está nossa grande dificuldade de estabelecer processos de renovação, pois não há espaço psicológico para eles dentro de nós.

Estar identificados com o sofrimento pode ser uma opção bem louca de nossa parte. Mas, afinal, quem disse que a sanidade tem presença garantida neste mundo?

ATIVIDADES – Práticas de Yoga Clássico. Curso “Meditação: saúde e consciência” (16h00) e palestras públicas gratuitas aos sábados, na Rua Pernambuco, 824, São Francisco. Em 08/05, Walter Barbosa apresentará o tema: “Autoconhecimento: a jornada dos paradoxos”. Acesse o site www.educbesant.org.br e participe de um trabalho educativo mais consciente. Contatos: (67) 9988-1010.