| “Não há bem que sempre dure...” |
| Qui, 27 de Maio de 2010 13:49 | |
Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA“E nem mal que nunca se acabe”. Na sabedoria dessas frases gêmeas mostra-se que gêmeas também são as alegrias e tristezas da vida, sucedendo-se numa alternância sem fim. Por trás disso revela-se ainda a dualidade que sustenta o mundo. E quem sustenta a dualidade? A mente, cuja ação separatista se reflete no campo das relações humanas. Indo mais fundo na questão, diz Sri Ramana Maharshi: “Na verdade, o que se chama de mundo não passa de pensamento. Quando o mundo desaparece, isto é, quando não existe pensamento, a mente sente a felicidade; e quando surge o mundo, a mente sofre”. O que faz o mundo desaparecer é o prazer momentâneo, a felicidade que num momento de amor, por exemplo, esteriliza a ação do pensamento. É esse tom mágico que, segundo outro pensador, Krishnamurti, faz da relação sexual um instante supremo, matando completamente o pensamento e a sensação do “eu” que surge com ele. Em essência, nosso grande sofrimento está nessa mesma sensação, porque nos lembra o estado de divisão que nos encontramos em relação ao mundo. Ela nos isola do resto, nos condena à solidão e a uma luta constante para remediá-la. Há algum mal na solidão? Na egocêntrica sim, pois a partir dela o próprio mundo se torna um permanente adversário, cada relacionamento é uma tortura, seja porque estamos convictos da proximidade interesseira do outro – disputando o mesmo “osso” – ou porque, sendo aparentemente desinteressada, nos cobra uma entrega que não estamos dispostos a aceitar. Da perspectiva do ego, a entrega é sempre uma ameaça de morte. A solidão na verdade é um estado mental, e sua condição de sofrimento – em intensidade ou “qualidade” – depende da consciência nele refletida, como fonte do próprio Ser. Veja-se, por exemplo, a condição do Cristo sendo julgado pela multidão. Absolutamente só, negado ou ignorado pelos próprios discípulos, ele não devia estar feliz sob o açoite daqueles a quem amava. Contudo, nem mesmo procurou se defender das acusações expostas por Pilatos, que afinal reconheceu nada pesar contra ele. Cristo sofreu ali por amor à humanidade. Sendo o amor um bem supremo, e em certa medida também solitário porque independe de qualquer coisa (segundo a Doutrina Secreta de Helena Blavatsky, “Deus é o Um sem segundo”), pode-se indagar: é então o bem passível de sofrimento, além de ter duração limitada como o próprio mal? Limitada, imediatista, é nossa visão do bem, pois não vai além da perspectiva do prazer. Por isso limitada é também nossa visão nos diversos setores da vida, seja como amantes, educadores, religiosos ou profissionais. Na melhor das hipóteses buscamos dar prazer ao outro, deixá-lo “feliz”, algo que no fundo é um investimento em nós próprios. Nada de errado com o prazer em si, mas – desde que fonte de apego – ele cede lugar à dor, na dependência da repetição incessante. O verdadeiro bem, contudo, é eterno, priorizando a consciência. Não tem o mal como oposto, assim como o ódio não se opõe ao amor real e nem tal amor leva ao sofrimento, como o entendemos. Só o que é humano se sujeita ao vai-e-vem da polaridade, tendo por isso começo e fim. Assim o oposto ao ódio é o amor limitado pela perspectiva do prazer, do apego, cuja inclinação é instintiva, dando base à continuidade do ego. Avessa à razão, tal perspectiva alimenta comportamentos obsessivos, cegos e autodestrutivos como a paixão e o vício. Da mesma forma que não se defendeu (quem necessita de defesa é o ego), Jesus deve ter vivido não o sofrimento da mente polarizada no prazer, mas sim a dor dos que amam de fato, ao presenciar atos de inconsciência dos seres amados. Assim, coube-lhe apenas rogar: “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem”. Essa é a solidão do amor. ATIVIDADES – Práticas de Yoga Clássico. Curso “Meditação: saúde e consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00) aos sábados, na Rua Pernambuco, 824, São Francisco. Em 15/05, Carla Bulla apresentará o tema “Comunicação é comunhão: estamos preparados para isso?”. Acesse o site www.educbesant.org.br e participe de um trabalho educacional mais consciente. Contatos: (67) 9988-1010. |