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A Busca da Felicidade
Qua, 04 de Junho de 2008 19:49

A Busca da Felicidade
Palestra proferida por Ricardo Lindemann
Em 1º de outubro de 1999

Eu confesso e devo dizer que no nosso atual sistema de ensino, uma pessoa ter o diploma de filósofo, talvez acrescente muito pouco; apenas indica que o indivíduo teve a perseverança de permanecer sentado nos bancos da universidade por cinco anos ou coisa parecida, e um dia, porque foi insistente, ganhou o diploma.

Mas a nossa questão é até que ponto a teosofia pode ser ensinada, é o tema da nossa palestra de domingo, nós vamos ali, aprofundar este detalhe.

Hoje, nós vamos tentar desenvolver um tema clássico que é a busca da felicidade. Talvez com um tempero da visão krishnamurtiana - a correlação com o tempo psicológico. Esta mesma mensagem tem sido dada desde o início dos tempos e refere-se a um fato relativamente simples do ser humano.

Se vocês me permitirem usar uma analogia:

Às vezes se comporta semelhantemente àquele cavalinho que vai em busca da cenoura que está pendurada por uma espécie de caniço que por sua vez está amarrado nas suas próprias costas. Então, o cavalinho corre, corre, corre em busca daquela cenoura, e não se apercebe, não compreende que é ele mesmo que lança cada vez a cenoura mais longe; ou se vocês quiserem assim considerar, ele se condena a jamais alcançar aquela cenoura que tanto deseja para satisfação daquilo que ele crê ser a sua necessidade.

Então, poderíamos encerrar a palestra, não há mais muito a acrescentar além disto.

Mas se nós aprofundarmos na dimensão do problema que isto representa, é o mesmo que perguntar: De onde vem a insatisfação humana ?

Alguns que seguem uma linha materialista, afirmam que se o ser humano, na verdade, é uma mera evolução do macaco; então, a psicologia não passa da interpretação de um mecanismo de sublimação daquela animalidade que constituiu o que se chama de civilização.

Mas se pararmos para observar esta afirmação, ela pretende também que se nós largarmos toda a nossa animalidade nós vamos ser mais felizes - é o que está subjacente no discurso.

Se vocês me permitem um parênteses:

Quando uma pessoa estuda filosofia, ela aprende a analisar as premissas. Geralmente os filósofos começam com a conclusão e depois buscam premissas para fundamentar a conclusão que desde o princípio queriam chegar. Quando vocês observam um sistema de pensamento, vocês devem rapidamente buscar quais foram as premissas, porque ali ele está pretendendo fundamentar alguma coisa que vai levar à conclusão que ele quer alcançar. Dizem que também os economistas fazem uma coisa parecida, se não me engano era Einstein que dizia que "a economia e a estatística eram as artes de mentir pelos números." Arranjam-se os números para se demonstrar o que se pretendia desde o princípio.

Filosofia é um campo bastante lodoso.

Então, estas pessoas pretendem fundamentar que por viverem de uma maneira tal, expondo a sua animalidade ao máximo, elas pretendem se tornar mais felizes.

Só que se vocês observarem este tipo de conduta, vocês vão também observar que se fosse assim, o ser humano deveria estar satisfeito toda vez que suas funções fisiológicas também estivessem satisfeitas.

Eu me lembro de uma pergunta feita ao senhor Krishnamurti, relatada no livro A Questão do Impossível. Perguntam a ele: Mas enfim, o mundo está passando fome, etc. e tal, o que adianta nós, uma meia dúzia de pessoas, ficarmos aqui discutindo sobre a natureza humana?

Ele dá uma resposta interessante, ele diz: Uma enorme revolução acontecerá no mundo se um certo número de pessoas se transformar interiormente.

Mas como a pergunta é insistente da parte do questionador, ele responde: Por outro lado, as pessoas que estão nesta sala não estão passando fome, senão, talvez não estivessem aqui. Portanto não estamos falando para estas pessoas, nós estamos falando para aquelas que talvez tenham condição de produzir a transformação; porque as outras primeiro vão precisar ser alimentadas.

Mas por que o mundo está do jeito que está ? Por que um automóvel é mais valioso do que a comida ? Qual é a nossa necessidade básica ?

Se formos analisar a questão pelo custo, nós vamos realmente verificar que os valores vão sempre na direção daquilo que é mais sofisticado, daquilo que é mais supérfluo - isto é, o mais caro. As coisas mais básicas são as menos valorizadas; claro, alguém poderia dizer que se a comida fosse a mais cara, ninguém comeria; eu concordo, só que quando a gente analisa as coisas, vê o pessoal queimando não sei quantas cebolas, fazendo isto e aquilo para levantar o preço da cebola enquanto os outros estão passando fome ... Aí eu digo que se começa a mentir com os números.

Quais são as nossas reais necessidades ? Esta é a pergunta que está por detrás da busca da felicidade.

Quando o homem pode ser feliz ?

Se nós enxergarmos o homem apenas como um animal, ele deveria estar feliz quando as suas necessidades animais, fisiológicas, estivessem satisfeitas. Eu estou certo ou errado ?

Esta é uma análise silogística - premissa e conclusão. Se ele é um animal, e se suas necessidades animais estão satisfeitas, logo, ele tem de estar feliz. Os animais ficam felizes quando suas funções estão preenchidas; a gente vê o cachorrinho dormindo quase como uma jibóia depois de ter comido bastante; muito feliz por ter o dono por perto. As necessidades dos animais são tão simples, fáceis de serem satisfeitas, rapidamente o cachorrinho está com o rabo abanando e a vida está ganha.

Suponho, pelo raciocínio que fizemos, que ninguém nesta sala está propriamente passando fome. Será que estamos todos felizes ?

Se observarmos quais as necessidades de um animal para ser feliz se suas funções fisiológicas estão preenchidas: Ele precisa procriar, quem sabe ? Ele precisa se alimentar, quem sabe ? O Primeiro caso, a sobrevivência da espécie; o segundo, a sobrevivência do indivíduo - está resolvido, a vida está ganha.

Mas o ser humano é mais complicado do que isto. Portanto, eu pretendo que o ser humano não é um mero animal. Se ele fosse um mero animal, teria que estar feliz com a satisfação das suas funções fisiológicas.

Eu pergunto: O que faltava para Elvis Presley ser feliz ?

Aparentemente, era um homem riquíssimo, tinha uma voz maravilhosa, era bem apessoado, as mulheres corriam atrás dele como se fosse um deus. Mas ele acabou em overdose de cocaína.

Eu tinha um amigo, meio radical, que dizia que "os tolos fazem as experiências, os sábios aprendem com as experiências dos tolos". Nós não precisamos cometer todos os erros que os outros já cometeram para chegar à sabedoria; caso contrario, talvez mil encanações não fossem suficientes.

Ah não! Eu tenho que experimentar.

Ótimo, quebre a cara como o outro já quebrou.

Vamos observar a vida dos grandes ídolos da nossa civilização, e vamos ver se eles conquistaram a felicidade. Será que Elvis Presley era um homem feliz, ou quem sabe a Elis Regina, a Adriana de Oliveira, o River Fenix ?

São pessoas que morreram de overdose de cocaína.

Será que vocês conseguem entrar no que significa ter tudo e não poder mais justificar a sua insatisfação ?

Quando a pessoa está passando fome debaixo da ponte, ou do Viaduto do Chá, ou sei lá onde, ela pelo menos tem um desculpa: Eu não estou muito feliz. Está faltando comida, está faltando isto, está faltando aquilo.

Mas quando a pessoa tem tudo, atingiu o topo da Pirâmide de Maslow, as necessidades foram todas preenchidas, é aí que o vazio espiritual aparece de uma forma palpável. Nos outros casos, enquanto as questões animais não estão preenchidas, talvez não se dê conta, o indivíduo, das suas necessidades e carências espirituais.

Por isto, talvez, o maior índice de suicídios se dê na Suécia, onde, propriamente, as pessoas não estão morrendo de fome; se é que vocês conhecem a legislação de carga social poderosa que lá existe - um auxílio desemprego que é um salário maior que o nosso, enfim; ou que o maior índice de suicídio de adolescentes do mundo, se encontre no Japão; ou que o maior índice de suicídio de crianças no mundo, se dê na Alemanha.

A gente pensava que tinha que ser na Etiópia; quem sabe na Índia, no Brasil. Por que na Alemanha, no Japão e na Suécia ? Vocês pararam alguma vez para pensar nisto ?

Então, vamos voltar à nossa questão fundamental de hoje: O que leva uma pessoa a sentir-se feliz ?

Quando ela está satisfeita. É a resposta básica.

Mas há uma frase similar do Talmude que diz o seguinte:

"Rico é o homem que está satisfeito com o que tem."

Vejam só: O que torna o indivíduo feliz ?

Quando ele, antes de mais nada, compreende o movimento do desejo. Enquanto ele corre atrás de uma cenoura que ele mesmo projeta lá longe ...

Eu vou usar um exemplo de um visitante ilustre que nós tivemos em Brasília este ano, o professos P. Krishna. Ele usava a idéia de uma linha que separa as coisas que nós temos, ou dizemos ter ...

Eu desafio vocês a me dizer o que é possuir qualquer coisa. Alguém pode dizer: Quando eu sair daqui eu pego meu carro. Mas quem garante que o carro estará esperando por você. ( não querendo tirar, claro, a tranqüilidade de vocês)

Então: Ah, eu possuo uma esposa, ou um marido.

Quem me garante que não vai morrer amanhã. Estes medos estão todos no nosso subconsciente, não que estejamos sempre pensando nisto. Mas grande parte da ansiedade humana é que no fundo a pessoa sabe que pode perder aquelas coisas a qualquer momento; e a própria saúde, e a morte. Todas estas coisas estão no nosso inconsciente, basta mencionar que talvez o carro não esteja lá em baixo, para que alguns aqui já não assistam mais a minha palestra, a cabeça já vai para o carro, para o alarme: Eu não deveria ter estacionado ali, estava muito escuro. Porque não paguei o estacionamento, afinal ?

Estas preocupações, o cachorrinho não tem. Eu costumo dizer que deve ser extremamente difícil explicar para o cachorro do Elvis Presley porque o dono dele se matou se a geladeira estava cheia. Já tentaram imaginar a dificuldade ?

Se uma pessoa está com a vida ganha, por que ela se suicida ?

Claro, este é um exemplo extremo. Mas tem várias pessoas se suicidando com o cigarro, com a bebida, com as ansiedades, com a úlcera, com a conta bancária, com não sei mais o quê; são suicídios menores, não aquele da overdose de cocaína que é para gente rica; são várias maneiras de suicidar-se aos poucos.

De certa forma, nós estamos mortos toda a vez que a mente não está no momento presente. Já pensaram alguma vez sobre isto ?

O passado existe ?

Já era. Existiu, mas já era.

O futuro existe ?

Talvez venha a existir, mas por enquanto ele é mera imaginação.

Portanto, entre a memória e a imaginação - que se baseia na memória -, vocês encontram o único momento real que é momento presente. A memória cria um momento virtual, ilusório que é o passado. A imaginação cria uma projeção, ou um momento virtual que é o momento futuro. Nem um dos dois existe de fato.

Jesus dizia: "Deixai que os mortos enterrem seus mortos."

Se vocês pegarem A Voz do Silêncio, de Blavatsk, ela dizia lá pelo aforismo do 173 ao 176: "A nenhum voluntário da luta entre o vivo e o morto pode-se negar o direito à batalha; porque ou vencerá ou cairá, se vencer será um Buda, e se cair terá a chance numa nova encarnação porque já na próxima não encontrará os inimigos que matou na anterior." A gente tem uma chance de encontrar menos dificuldades numa próxima encarnação do que temos nesta. Esta é a idéia budista de A Voz do Silêncio.

Mas de uma forma ou de outra, o mesmo preceito aparece tanto no cristianismo quanto no budismo - a luta entre o vivo e o morto.

Para estar morto o que é preciso ? Estar na sepultura ?

Não. No simples momento em que nós viajamos para o passado, nós já não estamos vivos, nós entramos num parênteses virtual. No simples momento que eu estou me preocupando com o futuro, eu também entrei numa rede virtual criada pela minha própria imaginação. Em ambos os momentos estou num parênteses, não estou existindo, estou na ilusão que os vedantinos chamam de maya.

Daí decorre que todo sofrimento psicológico é fictício, é uma ilusão.

O Sofrimento fisiológico, este é de outra natureza, é objetivo. O sujeito tem um espinho no pé, enquanto ele não tirar o espinho, a dor não cessa. (tem também a solução lusitana que é cortar o pé, mas não recomendamos esta solução.)

Mas quando a dor é objetiva - o sujeito está com dor de dente; muito bem, tem que ir ao dentista, é tão linear quanto isto.

Suponhamos que a dor, o sofrimento seja psicológico. Qual é a sua causa ? Qual é a causa da ansiedade ? Qual é a causa da insatisfação ? Qual é a causa do orgulho ferido ?

Se tem uma coisa misteriosa, é o tal do orgulho ferido. Existe uma frase lapidar de Sri Ram, que foi o nosso quinto presidente. Ele tinha conquistado, suponho, um estado de paz extraordinário, ele dizia: "Somos nós que colocamos na boca dos outros as palavras que nos ofendem."

Fulano me ofendeu. Quem é o fulano para nos ofender, em primeiro lugar?

Ah, mas ele disse tal coisa. Mas aquela palavra que ele disse, que chegou ao nosso ouvido, é uma variação de pressão atmosférica, produzida pela vibração das cordas vocais de fulano. Então, ela vem com aquela variação de pressão, põem em movimento o nosso tímpano, aciona o tal do estribo, põem em movimento o martelo que detona a bigorna que gera uma descarga elétrica no sistema nervoso e vai chegar à alguma região do cérebro (que o pessoal até hoje fica futricando para descobrir onde é) e de repente, ela é interpretada.

Se não for ... O sujeito me chama de burro em chinês:

- Ah, muito obrigado.

Depois, chega um fuxiqueiro e diz:

- Olha, ele te chamou foi de burro.

- Mas como! Aí eu me sinto muito ofendido.

Mas se uma pessoa me chamar de burro, será que a minha burrice vai aumentar ?

Ela é porque é; pode ser que eu não goste dela, mas ela não vai mudar porque alguém apenas caracterizou o fato:

- O senhor é um burro!

O que é que tem ? Seja feita a vontade dele. O que eu posso fazer ? A burrice é tanta que os outros chegam até a perceber!

Agora, outra pessoa chega e diz:

- Ah, o senhor é muito inteligente. Então, o ego não cabe dentro da roupa. Mas eu pergunto: Será que a inteligência aumentou porque alguém me chamou de inteligente ? Talvez ele esteja até mentindo, me bajulando.

Quando eu fui eleito presidente, comecei a notar ... bem, não vou concluir.

Então, devo dizer a vocês: Será que minha inteligência aumentou porque de repente eu me tornei Presidente da Sociedade ?

Meus queridos, não é assim. A pessoa continua sendo a mesma coisa que sempre foi. (talvez com mais cabelos brancos) O que o outro diz, não aumenta nem diminui o que eu sou.

Porque nos deixamos ofender pelo que os outros dizem a nosso respeito ?

A gente dorme mal; há filhos que não falam com os pais há dez, vinte, trinta anos; só vão reencontrá-lo no dia em que o homem está na UTI; aí, ele resolve se comover, dá um abraço no pai na hora da morte. Ás vezes, ainda chega atrasado e se sente culpado porque não chegou a tempo.

É um dramalhão a vida humana. E isto, o cachorro do Elvis Presley não consegue entender. Não consegue, o pobrezinho do cachorrinho. A geladeira está cheia, a vida está ganha, porque vou me preocupar com isto ?

Então, se começarmos a pensar quantos problemas a mente cria, vamos ver que ela pode tornar a nossa vida um inferno, sem que haja nada palpável que justifique o porquê de tanto desespero. Está é a grande questão que nos traz aqui hoje.

O doutor Krishna, que nós citávamos, delineava um linha que separava as coisas que nós temos ou pensamos ter, daquelas que nós almejamos ter - aquela cenourinha:

Se eu não for Presidente da Sociedade, não vou ser feliz.

Depois que o cara é Presidente, ele vai querer ser Presidente Internacional, e depois, tem que ir para outro planeta.

Se a pessoa condiciona a sua felicidade a atingir este posto, este salário, este automóvel, esposa, etc.; qual não é a sua surpresa quando tem aquilo na mão ... não tem mais graça; dura uns dois ou três dias, e aí, vem aquele vazio de novo:

O que preciso agora para preencher esta cratera que se abriu ?

Aquilo passa a fazer parte da memória do passado, nós nos acostumamos com o que temos, e aí, não tem mais graça.

A moda é baseada essencialmente nisto. Quantas vezes eu vi a minha mãe dizer:

- Ah, não tenho roupa para ir nesta festa.

O meu pai já guarda as roupas dele no armarinho do corredor porque no quarto, as dez portas que há lá, são todas dela. Abre uma porta, cai sapato; abre outra, chega estar vergando aquela madeira de tanto vestido.

Um pobre ser como eu, com as limitações cerebrais evidentes que vocês já notaram, não consegue entender isto. Eu acho que o cachorro do Elvis Presley teria mais capacidade de entender este problema do que eu. Alguma coisa não me convence, todas as evidências são no sentido de que a casa está abarrotada de roupas até o limite.

Nós dizemos: Falta-me isto. Falta-me aquilo. Falta-me não sei o quê.

E o pior, aqueles que mais têm, freqüentemente, são os mais insatisfeitos. Por isso, nós vamos lembrar que o maior índice de suicídios fica na Suécia; de adolescentes, no Japão, e de crianças na Alemanha. Porque se fossem aqueles que têm menos, os mais insatisfeitos, nosso argumento estaria negado.

Eu desafio as correntes de psicologia que dizem que o homem é um mero animal; senão, ele teria que estar satisfeitos com suas funções fisiológicas devidamente satisfeitas.

Agora, se o homem é uma entidade espiritual, aí, o número de insatisfações que a mente pode lhe criar são infinitas. A menos que nós compreendamos a mente, ou o que preferem outros, conquistemos o autoconhecimento, eu posso também demonstrar a vocês que não será possível encontrar a felicidade, ela estará sempre num lugar inatingível.

Então, se eu tenho esta esposa - ela é chata, a boa é sempre a do vizinho; a galinha do vizinho é sempre a mais gorda. Se eu tenho este carro - este não é bom, o bom é aquele lá. Mas se eu tiver aquele lá, eu vou querer acolá. Se eu tenho este emprego - é uma chatice, não agüento mais, vou me demitir para arrumar outro. O outro, está morrendo de fome porque não tem emprego ... (este teria motivo)

Mas este, por sua vez, de repente achou que a felicidade está no copo, na bebida. A gente entende: Meu Deus, o cara está se afundando. Mas a esposa do bêbado continua atrelada àquele traste, e se afunda junto com ele.

A senhora Robin Norwood escreveu aquele livro, Mulheres que Amam Demais. (não sei se vocês já leram) Ela fez uma pesquisa sobre alcoolismo na empresa onde trabalhava e descobriu, para surpresa dela, que não era suficiente estudar apenas o alcoólatra, era necessário estudar a família dele. Aí, apareceu o incrível - mais dependentes não eram os maridos, mas as mulheres daqueles maridos não serviam para nada. É um caso de dependência.

Então, se nós observarmos onde estão as nossas dependências, elas poderão estar nos lugares mais inacreditáveis. Mas o nosso medo de nos libertarmos daquilo que parece a condição de nossa existência é tão grande, que nós, às vezes, não temos coragem de enfrentar. E aí, começamos a criar uma série de justificativas, compensações; é o que Jung chama de neurose; diz ele que a neurose é um "sofrimento substitutivo", ou seja, para não encarar o nosso medo maior, se vocês me permitirem encurtar o caminho - o medo da morte.

Quando nós morrermos, todos os nossos outros medos cessaram, vocês não vão mais se preocupar com salário, se vão ser demitidos, se o carro vai ser roubado ou sei lá com o quê mais que as pessoas são capazes ... se o Corinthians perdeu do Palmeiras.

O meu avô dizia o seguinte: Vinte e dois barbados correndo atrás de uma única bola, se pelo menos cada um tivesse uma bola própria o jogo melhoraria.

Mas tem gente que morre por isso; uma das coisas que me marcou na infância: Meu pai era um inveterado apreciador do futebol, ele me levava invariavelmente, não tinha onde deixar o Ricardinho, então, ele ia junto para o jogo. Eu devia ter uns oito nove anos de idade quando uma certa vez, o Alcindo (se é que alguém lembra, foi até centroavante da seleção brasileira) estava na pequena área num "Gre-nal" (se é que vocês imaginam o grau de rivalidade que isto representa no Rio Grande do Sul), a bola quicou, o cara chutou e "matou um urubu lá fora", a bola não entrou. Caiu um sujeito lá da arquibancada porque teve um ataque cardíaco fulminante e morreu. Para ele, aquela bola não ter entrado, foi uma insatisfação insuportável.

Isto é o que eu chamo de neurose, é um sofrimento substitutivo. Os verdadeiros problemas dele nada tinha a ver com aquela bola, ou aquele jogo. Mas porque ele fez uma transferência e uma projeção dos seus problemas num time de futebol, o fato da bola não ter entrado foi insuportável, ele morreu do coração na hora.

Agora, se formos analisar a miséria daquele "João da Silva" que morreu naquele momento ... E o jogo continuou, poderia sair um gol quinze minutos depois, ou não sair gol nenhum e todo mundo voltar para casa com aquela cara de zero a zero. Como dizia o sábio Dino Sani, que era o técnico na época : "Em futebol, se ganha se perde ou se empata."

Mas será que nós conseguimos ter a mesma postura quando nosso time ganha, perde ou empata ? Afinal, o jogo continua. Ou será que se a bola não entrar no gol, eu morro de um ataque do coração ? São várias perguntas que levam à mesma questão.

Como sinto que o meu tempo já se escoa ... Cronos é a maior de todas as ilusões, é a última ilusão a ser vencida - o tempo.

Nós temos que falar do tempo psicológico. Então, vamos entrar no núcleo desta discussão.

Eu sempre acredito que vou ser feliz quando chegar lá; seja este lá o nirvana, que é o problema teosófico clássico - as pessoas abdicam do interesse pelo automóvel, pelo futebol, por isto, por aquilo... mas o nirvaninha que elas querem tanto, pode levar várias encarnações.

Aí, começam os problemas teosóficos, um sempre acha que o outro não está fazendo com deveria, e resolve administrar a Loja Teosófica do outro porque esta Loja trabalha mau, o melhor é trabalhar assim, trabalhar assado ... É isto que eu administro, este é o meu drama - administrar as Lojas e Grupos Teosóficos do Brasil; explicar que uma Loja tem direito de trabalhar assim, da mesma forma que aquela tem o direito de trabalhar assado. Mas por que o assim tem que reclamar do assado, e o assado tem que reclamar do assim ? Esta é a minha grande pergunta. Não se satisfazem de estar com dificuldades no seu trabalho, querem corrigir as dificuldades dos outros e não resolveram, às vezes, a sua.

Este mecanismo de projeção se manifesta de várias formas, Jesus dizia que a pessoa se "preocupa com o cisco no olho do vizinho e não vê a trava no seu próprio olho" - é a falta do autoconhecimento. A mente se projeta, cria uma cenoura que ela quer alcançar, e corre, corre, corre atrás da cenoura, e quando finalmente conquista a cenoura, conhece a satisfação. Só que dura pouco a tal da satisfação. Vocês já notaram ? Daqui a pouco, a pessoa está de novo entediada: Esta droga ... Não era o quê eu pensava. Ou mesmo que fosse: Agora já não é suficiente, eu preciso de mais não sei o quê...

Pergunta-se: Quando é que vamos conquistar a felicidade ? O que nos falta para sermos felizes ? Será que chegando lá estaremos satisfeitos ? Por quantas semanas, até que queiramos outra coisa?

A menos que compreendamos como o cavalo lança a cenoura cada vez mais longe, jamais a alcançaremos. Talvez, tenhamos de procurar outra cenoura que está no chão, e não aquela que está pendurada.

De repente, descobrimos uma plantação de cenoura, fazemos um estrago... Mas aquela que projetamos, jamais alcançaremos. E se parecer à imagem metal que alcançamos, não tenham dúvida de que dali a uma semana, aparece uma nova cenoura na imaginação, e a anterior, não tem mais graça.

Eu gostaria de fazer um pequeno diagrama. Vocês vão observar que o conceito de tempo cronológico é muito diferente do conceito de tempo psicológico.

Vocês sabem como se mede o tempo cronológico ?

Com o relógio. É o espaço de doze horas entre o nascer e o pôr do sol na linha do equador, etc. Agora, na passagem do Sábado para o Domingo, haverá um ajuste. Vai dar uma confusão ... Tem gente que acorda tarde, reclama. Outros acham que melhorou, vão aproveitar o dia. Tem os que são contra e os que são a favor. [do horário de verão]

Mas é uma coisa objetiva, não depende de uma mensuração do nosso sentimento. É apenas um mecanismo externo.

Como se mede o tempo psicológico ?

Pela ansiedade. Nós teríamos que criar o "ansiômetro" para medir o tempo psicológico. Vou dar um exemplo:

Hoje é o primeiro dia do mês, ontem foi o tal do último dia. Quantos aqui foram ao banco e enfrentaram a fila do último dia ?

Alguns há que só de saber que vai ter fila, preferem pagar a multa. O que acontece é o seguinte: O sujeito entra na fila, fica lá quinze minutos, meia hora; parece que passou quinze, trinta anos; sai com o fígado estragado, querendo brigar com todo mundo.

Na fila, você sabe com quem ele está ?

Com ele mesmo.

Este costuma ser o maior desafio para o ser humano; companhia extremamente difícil de se ter e conviver. Talvez a mais difícil de todas. Como dizia Krishnamurti: "O que nós menos desejamos é conhecer a nós mesmos."

Agora, o sujeito está quinze minutos, trinta minutos nos braços da amada: Já passaram trinta minutos ? Ele não acredita.

Como é que o tempo corre de um jeito na fila do banco, e de outro num momento mais agradável ?

No tempo psicológico, apresentam-se dois fatores muito importantes: O prazer e a dor. Eles modificam a contagem do tempo. Só que o prazer ou a dor, estimulados pela memória, vão gerar projeções na área que nós chamamos imaginação. A partir da experiências do passado, a mente projeta o futuro como ela queria que fosse ou como ela queria que não fosse. Dizemos que o prazer projeta uma coisa que chamamos de desejo; e a dor projeta uma coisa que chamamos de medo.

A dor se projeta através da imaginação e vira o medo que é a resistência psicológica. Passa a se repetir a dor que eu já experimentei ou que vi outros experimentando e me imagino na situação deles; tudo isto é psicológico. Portanto, o medo e a imaginação são virtuais ou ilusórios. Então, o futuro que é uma criação da imaginação, é uma ilusão.

Com isto, eu estou demonstrando a vocês que tanto o medo quanto o desejo ... Desejo é a vontade de repetir um tipo de prazer que no passado nós já experimentamos. Ou projetamos, tendo visto o quê o outro experimentou, comparando com o que eu já experimentei, que aquilo deve ser melhor do que eu já experimentei; e aí, tenho que fazer uma nova experiência. Muitas vezes este é o caminho que leva à cocaína: Já que isto é bom, aquilo deve ser melhor, aquilo outro, melhor ainda ... As pessoas vão fazendo comparações.

A palavra manas, em sânscrito, vem do radical ma que é relacionado a medir; à comparação mental. Todo pensamento é um processo de comparação e mensuração.

Ora, a memória nutre aquele sentimento de passado que também é uma coisa virtual, e portanto, uma ilusão. A pessoa experimentou o prazer, projeta com a imaginação o desejo; experimentou a dor, projeta com a imaginação o medo. Todo o problema psicológico está aqui, e o tempo psicológico nada tem a ver, necessariamente, com o tempo cronológico.

O corpo físico trabalha no nível cronológico, a mente, a alma ou psique, trabalha na dimensão psicológica. O tal do ego psicológico é o reforço do passado que cada expectativa de medo ou desejo reforça.

Quem é que se ofende?

O fulano de tal.

Mas quem é o fulano de tal ?

Aí, pega a carteira de identidade - tem um nome que não foi ele que escolheu, mas o pai ou a mãe. Às vezes o cara briga com o nome a vida inteira. O nome não é ele, não foi escolhido por ele; o lugar onde nasceu, supõe-se que também não seja. Ele escolheu o lugar onde nasceu ou o pai ou a mãe que teve ? O que o identifica ? A carteira de identidade é a coisa que menos nos identifica. (principalmente aquela fotografia que ninguém acredita que é nossa)

Então, o que é o eu; este ego psicológico se não uma projeção ilusória da mente criada a partir do tal do passado que é virtual. Portanto, volto a dizer as palavras sábias de Sri Ram: "Somos nós que colocamos na boca dos outros as palavras que nos ofendem."

Eu faria uma paráfrase e diria: "Somos nós que colocamos na vida as insatisfações que temos." Primeiro eu desejei para depois não conseguir satisfazer o desejo; e aí, me sinto frustradíssimo porque a vida não me ajudou. Mas fui eu que criei aquela cenoura que está pendurada lá na frente. Fui eu que criei a insatisfação primeiro para depois ficar insatisfeito. Criei um objetivo que é inalcansável; mesmo que o alcance, jogo-o mais longe depois.

Então, nunca serei satisfeito enquanto estiver projetando indefinidamente este processo. Por incrível que pareça, o único momento real ( que espero nada tenha a ver com a nossa moeda que é a mais irreal possível ) é o presente. O aqui e agora, por incrível que pareça, tem um ponto de contato com o corpo físico. É por isto que a reencarnação nos ajuda a sair do mundo das construções psicológicas, e a poder interagir com esta dimensão que é atemporal, onde o tempo psicológico não existe. É o que alguns chamam de eterno ou espiritual. Este é o reino que alguns chamam de espírito ou de consciência.

Alguma vez nós saímos do momento presente? Esta é uma pergunta que a gente deve levar mais a fundo.

Enquanto eu penso estar no passado, é a minha mente que está se projetando. Quando penso estar no futuro, é a minha mente que está se projetando. Mas o único momento que uma pessoa pode encontrar a felicidade é o tal do agora.

Se não for agora, não será nunca. Esta é a essência do que Krishnamurti e Buda nos ensinaram. Se não for agora não será nunca; porque o futuro não existe, o passado também não. A eternidade é aquela da qual nós nunca saímos; não que estejamos em busca da eternidade, nós estamos dentro dela e não a percebemos. Estamos criando cenouras para nos causar problemas; estamos projetando o tempo psicológico onde nada existe.

Talvez, eu possa afirmar que não precisamos de nada para sermos felizes, senão, estarmos bem conosco.

"Nada importa muito, e a maioria das coisa não importa nada." Esta é uma frase do Sr. Leadbeater.

Se vocês meditarem, todas as verdadeiras coisas que produzem felicidade estão aqui; elas não dependem do tempo: amor, sabedoria, compreensão; etc., vocês podem colocar as virtudes que quiserem, se for genuína ela está neste reino, no reino da consciência; ela não precisa ser construída, já existe, é apenas uma questão de percepção.

Quando chega o duro momento de se pagar a anuidade da Sociedade Teosófica - R$ 136,00 - ,alguns ainda pedem isenção e descontos, o sujeito pergunta:

O que eu ganho com isto?

Depois de uma longa explicação do que a Sociedade Teosófica faz, ele conclui:

Só quatro revistas por ano! Então cada revista está custando R$ 40,00! (o pessoal costuma arredondar para cima )

Mas a Sociedade Teosófica e a Teosofia têm algo muito importante a compartilhar com o mundo. Ela depende das contribuições de alguns membros que perceberam o valor do seu trabalho. Se eu quiser mensurar qual é a importância deste trabalho, se eu quisesse colocar um preço nisto, talvez se tornasse impagável a anuidade da Sociedade Teosófica. As pessoas não têm a percepção de quanto esta sabedoria faz falta no mundo; elas às vezes, acham caro, e aí, nós temos inúmeras escalas de descontos, até chegar ao nível da gestão anterior que dava prejuízo. Quinze por cento tem que ser pago à Índia; quando pediam isenção total, era a Sociedade que tinha que pagar os quinze por cento. Portanto, ela tinha prejuízo para manter o membro isento dentro da Sociedade.

O dinheiro é uma questão de percepção. O que para nós tem valor, o que não tem?

Tem pessoas que dizem que o problema da Sociedade Teosófica é que ela dá palestras gratuitas. Se cobrasse... Eu acho que a sabedoria, se nós fossemos cobrá-la, não teria preço, ninguém poderia pagá-la. Quando a gente dá de mão beijada, algumas pessoas não dão valor; quando cobra, reclamam. Mas o dinheiro é uma questão de percepção. Por que o mundo vive a crise atual? Morrem 40.000 crianças por dia de fome, enquanto US$ 1.000.000,00 são gastos em armas no mundo. (sem falar o que é gasto em cocaína, em heroína, em corrupção)

Eu posso demonstrar a vocês que para cada criança que morre de fome, segundo as estatísticas da UNESCO, (A UNESCO não diz como, ela diz: "Problemas derivados da subnutrição no mundo em desenvolvimento") corresponde a US$ 36.000,00 gastos em armas. Portanto, não só a criança não precisaria morrer, como ela compraria um bom apartamento, ainda alugaria alguns quartos e encheria a geladeira; nem que morasse no quarto de empregada, mas a geladeira e a vida estariam ganhas.

O dinheiro apenas mostra para nós qual a escala de valores.

O que é mais importante para o nosso Planeta?

O armamento!

Qual a causa da guerra?

A ambição, o desejo, a insatisfação, a ganância, a falta de generosidade; tudo isto vem de uma projeção da mente.

Quando os prazeres normais não produzem mais efeito, surge um componente que eu acho muito complicado de demostrar, mas que é muito simples até certo ponto. Quanto mais se sente desejo, mais se tem medo de que o desejo não se realize. Se a pessoa tem medo da morte, é porque deseja de viver; se ela deseja muito passar no vestibular, tem medo de "rodar". O desejo e o medo se constituem mutuamente, são inseparáveis.

Buda disse: "O apego causa sofrimento." Esta era a essência do budismo. Enquanto houver apego, vai haver ansiedade, vai haver desejo, vai haver medo; não vai ser possível usufruir da paz que está no nosso coração, de graça.

Aí, procuro longe o que perto está. Então, a pessoa vai fazer um curso de psicologia, longe, um fim de semana num hotel, custa R$ 1.000,00; o cara dá um jeito, vende o carro para fazer o curso. Mas para conseguir pagar R$ 10,00 por mês à Sociedade, aí é uma dificuldade.

Por que?

Porque lá, a pessoa acha que vai colher algo para si. Aqui, que é caridade para o mundo, fazem pouco caso. É uma questão de percepção. Percepção do que para nós é valioso e do que não é.

Existe uma coisa que tem a ver com a palavra tempo: Quanto mais no prazer e na dor a pessoa busca o motivo da sua vida, ela sentindo prazer, cai no tédio; e o desejo leva ao medo porque ela tem medo de não conseguir preencher as dependências que gerou com o desejo.

Então, acontece uma das coisas mais misteriosas: Quando os prazeres normais ou simples, já não satisfazem, a pessoa passa numa loja, compra algemas, chicote e não sei mais o quê. (vendem mais que nossos livros, estas coisas) Não satisfeita, coloca argolas em lugares inacreditáveis. Acha que tomando viagra resolve o problema. (depois acaba com problema na coluna ou morre do coração) Não quer aceitar que o corpo chega ao fim das suas funções fisiológicas.

Diz o Bhagavad-Gita no aforismo cinco, se não me engano:

"Os prazeres do sentido são ventos de dor porque eles tem início e fim." Se vocês quiserem eternizar o prazer, vão precisar, talvez, da dor como contraste; aí, começa esta coisa sadomasoquista e outras coisas estranhas. Já que o prazer entorpeceu, elas precisam da dor para sentir contraste; como alguém que ficou enjoado de tanto doce, precisa de comida salgada para depois voltar a comer doce. Deixa de se cumprir uma função fisiológica que é limitada, para tentar através dela, produzir um preenchimento espiritual que é ilimitado.

Eu vou demonstrar que enquanto a pessoa busca nos prazeres do sentido a paz espiritual, jamais se sentirá satisfeita; ela quer mais, mais e mais; e quando os prazeres fisiológicos normais não forem suficientes, ela deforma o que é normal, e depois de deformar o que é normal, ela entra na área química - o álcool, as drogas, etc.. E aí, o amor, a sabedoria, a felicidade, tiram férias, porque são de outra dimensão.

Se eu pudesse sintetizar, diria que todo o sofrimento psicológico é uma ilusão, e que o apego é a causa. Esta talvez fosse uma boa síntese.

Pergunta: Neste exato instante, atemporal - talvez seja o grande paradoxo - se nós "atravessamos", não temos consciência, porque neste exato instante, a consciência, como nós conhecemos, não atua. Então, é difícil medir; é muito fácil, ao mesmo tempo, a pessoa se iludir que teve uma experiência deste tipo. Se realmente ela teve, não tem como se lembrar.

Nós estamos tendo esta experiência agora, e já não lembramos. A cada instante, estamos embebidos da eternidade; dela, nunca saímos.

Mas por que nós procuramos sarna para se coçar? Esta é a pergunta desta palestra. Por que nós procuramos problemas com a nossa mente, ao invés de perceber que tudo o que a gente cria é ilusório?

Nós já estamos no nirvana sem perceber. O que o Buda descobre é que ele nunca saiu do nirvana. Isto é o que o Buda descobre ... que não é preciso ir a lugar nenhum para encontrar felicidade. As causas da infelicidade é que precisam ser conhecidas, e as causas da infelicidade são o movimento do desejo; elas se criam momento a momento, temos que estar continuamente vigiando; "Orai e vigiai." como dizia o Cristo, para que a dor não apareça.

A dor psicológica é criada aparentemente do nada, e destrói a nossa vida.

Pergunta: Todo Estado-Nação, se baseia no fortalecimento do potencial nacional. Todo Estado é um criador de dissabores. A sua teoria é contrária a isto.

Bem, é fácil repetir as palavras do próprio Krishnamurti: "O Estado não é outra coisa, se não a soma dos indivíduos." Se cada indivíduo tem um problema não resolvido, está criando cenouras. O Estado cria um cenourão institucionalizado que vai justificar a guerra para vender armas.

Então, nós vamos ver que os problemas antigos eram ser atacado por um tigre, ser picado por uma serpente ... Os problemas modernos são ser atropelado por um automóvel, ser assaltado na esquina... Nos tornamos nossos próprios predadores. Enquanto nós não resolvermos os problemas do ser humano ...

Eu não posso resolver o problema para os outros, eu preciso antes resolvê-lo em mim mesmo. Somente à medida que ele for se resolvendo em mim, se é que eu posso mensurar isto, é que eu poderei ter alguma capacidade de auxiliar os outros. Eu não posso impor isto com uma teoria, é uma questão de percepção.

Tudo que falamos aqui, é um exercício de percebimento, de autopercebimento, de autoconhecimento. Mas se eu não perceber isto em mim, será vã toda a exemplificação que foi dada, todas as palavras que foram usadas vão apenas encher livros, mas não vão transformar minha vida nem me tornar mais feliz.

Esta é a essência da Teosofia, isto é Sabedoria Divina. Não se compra na farmácia nem eu poderia vendê-la a vocês, nem por uma anuidade nem por dez mil.

Por isso, eu volto a dizer que a Sociedade é representada por um pórtico com três degraus. Galgar aqueles três degraus e entrar no templo da Sabedoria Divina, vai do esforço e da percepção de cada um. A Sociedade mal tenta oferecer as condições de diálogo; ela institucionaliza um fórum de investigação. São os três objetivos, as condições nas quais esta investigação é possível: tem de haver fraternidade, liberdade de pensamento; tolerância no estudo de religião comparada; e investigação e busca da verdade. Isto é o que a Sociedade pode fazer por nós.

Agora, se nós não galgarmos aqueles três degraus ... ninguém pode nos levar para lá.

Pergunta: Existe um dito popular que diz: "O que o olho não vê, o coração não sente.". Nós vivemos sempre cercados de apelos visuais, através de propaganda nos meios de comunicação. Sabemos que é grande o poder de fascinação que a mídia, através da propaganda, exerce sobre a massa humana. Será que não cabe um pouco de culpa em toda esta campanha maciça para que haja um tremendo consumo e a pessoa procure mais ter do que ser ?

Com certeza. A televisão é um mecanismo de projeção de imagens que para algumas pessoas já se tornou mais real que a própria vida. Elas não conseguem mais sair de casa sem ver o último capítulo da novela; não querem olhar mais os problemas da sua vida, é mais fácil trocar o canal ... relaxa mais.

Volto à expressão do Sr. Krishnamurti que me parece extraordinária - "aquilo que nós menos desejamos (ou que o ser humano menos deseja) é conhecer a nós mesmo", porque aí, todas as ilusões cessam e ele descobre a verdadeira origem de seu problema.

Se ele descobrisse isto, se libertaria, mas é a isto que ele mais resiste. É como aquela criança que não que tomar banho ou não quer ir ao dentista; mesmo que se dê a toalha, o sabonete, água quente ... não quer; o doente que mais precisa de remédio, geralmente não quer tomar; estas coisas a gente já viu várias vezes.

A televisão nutre a fuga. A fuga se tornou a maneira de se viver do ser humano tecnológico. Claro, projeta inúmeras cenouras e cenourões institucionalizados.