| Seria a miséria o preço do contentamento? |
| Qua, 02 de Junho de 2010 10:20 | |
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Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA É possível que alguém menospreze o contentamento por considerá-lo acomodação, ausência de impulsos para a vida, assim alimentando a inércia e a miséria. A inércia, por sinal, é um dos atributos da matéria (tamas, em sânscrito), vinculado à resistência. Esta, no lugar certo, é essencial à forma: o tijolo na construção, o esqueleto no ser humano. Sob o efeito da mente, porém, é hospedeira do vício, da busca do prazer contrário à natureza e às funções do corpo – no sexo, no alimento, na bebida – criando obstáculos à libertação do ser humano. É um dos caminhos para a miséria, portanto. A resistência é a matriz da preguiça, que nos indispõe para o trabalho e pode levar à inclinação para o roubo, para “viver do alheio”. No aspecto mental e psicológico, é mãe do apego, da obstrução ao estudo, acentuando o condicionamento e anseio por segurança, visto que se opõe às situações de esforço. Teria isso algo a ver com contentamento? Teria alguma relação com a vida de Sócrates, Gandhi e outros sábios – destituídos de posses, mas de forma alguma miseráveis? Obviamente não. Como expressão do homem superior, o contentamento vibra nas alturas da matéria sutil, geradora de harmonia, de luz (sattva). Tal sentimento vai, de fato, sendo construído aos poucos dentro de nós, inicialmente por decorrência do sofrimento, do desengano. Depois – na medida em que o desejo grosseiro perde sua força impositiva e nos tornamos mais abertos à influência do “interior” – o contentamento se instala em sua real natureza, que é “auto-suficiência”, segundo R. Mehta (Yoga - a arte da integração, Ed. Teosófica). A auto-suficiência tem o sentido claro de não-dependência. Contudo, quem pode se dizer independente neste mundo? Seria o caso dos “bem sucedidos”? Alguém assim pode de fato obter o que quiser entre os objetos de satisfação disponíveis no mercado, até mesmo a companhia de determinada pessoa se estiver “à venda”. Tal independência se sujeitará, porém, ao jogo dos desejos. O desejo de alguém irá satisfazer o seu. Mesmo o dinheiro, então, não o torna livre, pois é da natureza do desejo depender de algo externo. A propósito de Sócrates, conta-se que certa vez, estando ele a entrar e sair de diversas lojas sem nada comprar, perguntaram-lhe a razão disso. “Estou apenas olhando a imensa quantidade de coisas de que não preciso para ser feliz”, respondeu. Depender do externo é a matriz da ansiedade e do medo. Mesmo quem tem dinheiro não está livre disso, pois sua ânsia de acumular não termina com os primeiros milhões. E nem com os últimos (a julgar pelos que morrem de “overdose” no meio deles), pois tais pessoas acabam descobrindo em si um “buraco” que nenhuma posse satisfaz: a ânsia de plenitude, só resolvida pelo contentamento, uma propriedade da alma. Ora, se o portador do contentamento não é movido pelo desejo, qual é o sustento de sua ação? É a chama interna da vontade, do Espírito. Tendo suplantado o desejo – e, portanto, o medo – sua ação (a verdadeira, não reativa) tem a natureza do desapego, é pura, tendendo a espelhar a genialidade, como fruto da alma ou do intelecto iluminado. Se no coração desse homem houver qualquer parcela de desejo, será sempre de natureza elevada, como talvez pela própria iluminação. Mesmo esse, porém, deverá desaparecer um dia, juntamente com o ego (o mais duro e derradeiro foco de resistência), dando lugar à sua meta. Sendo o desejo o motor do mundo, terá que sucumbir se quisermos transcender o mundo. ATIVIDADES – Práticas de Yoga Clássico. Curso “Meditação: saúde e consciência” (16h00) e palestras públicas (18h00) aos sábados, na R. Pernambuco, 824, S. Francisco. Em 05/06, Ana Lenita Gemeli falará sobre “O efeito libertador do desprendimento”. No site www.edubesant.org.br acesse o Fórum de Mães & Pais. Contatos: (67) 9988-1010 |



