| Diagrama de Meditação |
| Seg, 30 de Junho de 2008 20:04 | |
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Mary Anderson Em 1887-88, a Sra. Blavatsky ditou um Diagrama de Meditação ao Sr. E.T. Sturdy. Este Diagrama é interessante para o estudo e muito útil para a meditação, e também para a vida diária. Ele inicia com as palavras: “Primeiro pense na Unidade.” Como podemos fazer isso? Será que devemos pensar na unidade de todas as coisas como algo “do outro mundo”, rejeitando o mundo da diversidade que conhecemos? A Sra. Blavatsky cita duas coisas que conhecemos e nas quais podemos pensar facilmente: espaço e tempo. Todas as coisas que conhecemos estão localizadas no espaço e todos os acontecimentos que sabemos ocorrem no tempo. O espaço é o pano de fundo dos acontecimentos. Portanto, por estarmos acostumados com objetos e acontecimentos podemos facilmente pensar em espaço e tempo. Na verdade, não podemos pensar na existência de objetos e acontecimentos que ocorrem no vazio, isto é, sem ou fora do pano de fundo do tempo e espaço. Mas podemos pensar em espaço e tempo existindo sem objetos e acontecimentos? Se pudermos fazer isso, continuaremos com esta meditação! Devemos conceber a “Expansão no Espaço e Infinita no Tempo”, isto é, devemos transcender o espaço e o tempo que conhecemos. Esta expansão e transcendência conduzem ao que pode ser imaginado como o númeno (Termo grego: noúmenon, particípio de noeo, compreender, de nus, mente. Segundo Immanuel Kant (1724-1804) aquilo inteligível, a coisa em si, o objeto tal como podemos supor que existe em si mesmo, em oposição ao perceptível pelos sentidos, ou seja, o fenômeno) do fenômeno no limite do espaço e tempo que conhecemos, isto é, as idéias-raiz ou arquétipos por trás das aparências de espaço e tempo, ou espaço e tempo mayavico – de fato, sua Origem Divina. O númeno do tempo é algumas vezes chamado de Eternidade. HPB falou de “Duração” neste sentido. O númeno do espaço é o “Pai Eterno” ou a Grande Mãe. Há algumas belas passagens a respeito do Espaço em A Doutrina Secreta: “O que é aquilo que era, é e será, quer haja ou não um Universo, quer haja ou não deuses?”. A resposta dada é – “Espaço”. Aqui temos uma referência a espaço sem deuses e, portanto, sem objetos de qualquer tipo. “Aquilo que sempre é, é um, aquilo que sempre foi é um, aquilo que sempre está sendo e se tornando também é um, e isto é Espaço”. Não esqueçamos o objetivo deste exercício, que é pensar na Unidade. Mas pensar em expansão e infinidade envolve um processo de ampliação, de expansão, e podemos conceber a Unidade como uma limitação. Isso depende de como vemos a Unidade – esta unidade que também é chamada de “Absoluto”. A Unidade pode parecer que signifique uma limitação a um único ponto, que por definição não tem dimensões. É como um “Buraco Negro”, as coisas parecem desaparecer nele. É o zero, uma lacuna, um vazio. Esta é a senda do “neti, neti”. Ao negar tudo que podemos conhecer, nos aproximamos daquilo que não pode ser conhecido. Mas se a Unidade significa uma expansão para incluir tudo, significa que a vemos como uma espécie de esfera infinita, sem dimensão naquilo que está além de todas as dimensões. É o plenum (espaço repleto de matéria), ou integridade. Esta é a abordagem comentada aqui. Considerado como um plenum, o espaço infinito que inclui todos os “espaços” separados, as três dimensionais e mais o “multidimensional”, “espaço exterior” e “espaço interior”, etc., em Um Espaço. Considerada como tempo infinito, a Eternidade inclui todo tempo, o passado, o presente e o futuro, o tempo psicológico, o tempo de nossos sonhos, etc., em Um Tempo Infinito. A Unidade abrange ambos, um vazio e um plenum. O Absoluto é ambos. É ao mesmo tempo a circunferência que não está em nenhum lugar e o ponto central que está em todo lugar. Espaço e tempo estão sempre ligados. Por exemplo, o tempo foi considerado a quarta dimensão. Assim, afinal, o Espaço infinito e a Eternidade são um. O Espaço, a Grande Mãe, é a raiz da matéria (mulaprakriti). O tempo é colocação em movimento, o movimento primordial sendo “o Grande Alento”, a origem da Consciência. Portanto, retornando à origem de todas as coisas no espaço, isto é, a origem da substância ou matéria, e retornando em pensamento à base de todos os acontecimentos no tempo, ou seja, a origem do movimento da consciência ou espírito, nos aproximamos da Unidade da qual eles são aspectos. De acordo com a “Primeira Proposta Fundamental”, quando deve ocorrer a manifestação, o Absoluto mostra os dois aspectos, o da matéria primordial e o do espírito primordial ou consciência. Um elemento adicional agora é acrescentado à meditação: Devemos conceber a expansão do espaço e do infinito além do tempo, quer com ou sem auto-identificação. Assim, dependendo de nosso temperamento, devemos imaginar objetivamente a expansão infinita (Espaço Infinito) e o infinito no tempo (Eternidade ou Duração), sem referência a nós mesmos, isto é, subjetivamente, sentindo sermos espaço infinito e tempo infinito. Esta abordagem nos lembra do método apresentado por Geoffrey Hodson na obra Yoga de Luz: Não sou o corpo físico, Sou o Eu espiritual. Não sou as emoções, Sou o Eu espiritual. Não sou a mente, Sou o Eu espiritual. Assim, “sou espaço ilimitado, sou infinito” é uma abordagem perigosa se consciente ou inconscientemente identificamos a personalidade com o Eu Espiritual. Não faremos isso, se formos capazes de seguir as instruções adicionais de HPB: “Não há risco de auto-ilusão se, decididamente, esquecermos a personalidade”. Assim, a Meditação começa com conceitos inspiradores. E também, como veremos, finaliza com conceitos inspiradores. Resumindo o que foi dito até agora, nesta meditação iniciamos com o que conhecemos: coisas diárias e acontecimentos diários. Depois buscamos coisas e acontecimentos diários, respectivamente, e suas fontes no espaço e no tempo, como também aquilo dos quais estas fontes são apenas aspectos. Assim, o início da meditação é inspirador, quer nos identifiquemos ou nos percamos no Infinito Espaço e Tempo. Todas as sendas espirituais começam pela inspiração; por exemplo, a Senda Mística Cristã começa pela conversão: é uma volta. Tudo muda. Nada pode ser o mesmo novamente. Nesta inspiração está o início e o fim da senda espiritual. Como um começo, ela nos inspira para continuar. Mesmo em épocas em que esta primeira inspiração parece desaparecer, a lembrança de que “conhecemos” ainda pode nos direcionar para a meta inconcebível, neste caso refletido no final da meditação pelas palavras: “Sou todo Espaço e Tempo”. Mas entre o começo e o fim de qualquer senda espiritual, há muitos esforços difíceis e muitos fracassos aparentemente desalentadores. Vejamos brevemente o duro trabalho que vem após a inspiração inicial e antes da Realização final. Esta dura labuta e esforço pessoal são divididos em “Privações” e “Aquisições”, isto é, ao que respectivamente devemos renunciar ou deixar de fazer em pensamento e o que devemos fazer em pensamento, similar aos yamas e niyamas do Raja Yoga. Por que “em pensamento”? Porque o pensamento precede e resulta em ação (embora possamos nos enganar em pensamento!). E pensar é uma ação em si mesma. As “privações” são a recusa constante de pensar na realidade de certas coisas. Todas as coisas mencionadas (que são todas temporais e ilusórias ou apenas relativamente reais), todas se referem às posses. Assim, a recusa de pensar nelas como reais significa desapego. Desta maneira, as “privações” ou renúncias significam a recusa de pensar na realidade de: -separações e encontros e a associação com lugares, tempo e forma; -diferenças entre amigo e inimigo; -posses; -personalidade; -sensações. Portanto, elas devem ser tomadas por irreais. Isso significa desapego em vários níveis de nossa experiência e de nosso ser. Se realmente percebemos que algo é irreal, não ficaremos mais dependentes dele. Somos apegados aos nossos parentes, nossos amigos, aos que admiramos etc. Também somos apegados a alguns lugares – onde nascemos, onde fomos felizes – e a algumas épocas, talvez “aos bons e velhos tempos” do passado ou do futuro, em uma “Época Dourada”. Outros apegos ocorrem em relação a algumas formas externas (coisas ou rotinas de nossa vida diária), nossas posses, nosso “pequeno” eu e suas sensações. O que significam para nós estes tipos de apego? Eles promovem uma expansão da personalidade. Possuir muitas coisas faz-nos sentir maiores; elas incham nossa personalidade. Da mesma forma, ter uma grande família ou muitos amigos faz nosso sentimento de eu expandir-se. Nossas sensações ampliam o alcance de nossa percepção, que pode ser uma bela experiência, mas ao mesmo tempo pode aumentar nosso sentimento de auto-importância. Assim estamos apegados de todas estas maneiras, quer pelo prazer, que nos faz buscá-lo, ou pelo sofrimento, que nos faz teme-lo e que procuramos evitar. Até mesmo glorificamos nosso sofrimento: “Separar-se é tão doce tristeza”, “Nossas doces canções são as que cantam os mais tristes pensamentos”. É evidente que desses apegos surgem certos sentimentos. Do apego a pessoas, lugares e formas surgem desejos fúteis, expectativas, tristes lembranças e lamentações relativas a separações e encontros. Da ilusão da diferença entre amigo e inimigo surgem a raiva e o preconceito. Ganância, egoísmo e ambição resultam da ilusão da realidade das posses. A ilusão da personalidade faz surgir por um lado a vaidade e por outro o remorso. Da ilusão de que a sensação é real surge a gula e a luxúria. Estes são apenas exemplos: “O Diagrama faz apenas alusões gerais”. Como enfrentamos estas privações ou renúncias? Primeiro devemos compreender que os vários apegos mencionados são a origem da dependência, da ignorância e da disputa. Depender significa estar privado de liberdade, inclusive de nosso livre arbítrio; a ignorância é falta de sabedoria e a disputa é ausência de amor. É interessante que ao final de Aos Pés do Mestre estes três – vontade, sabedoria e amor – são mencionados como qualificações para a Senda da Santidade. Em segundo lugar, se realmente compreendemos a natureza desses apegos, poderemos dizer, nas palavras do Diagrama: “Estou sem eles”. Na verdade, se compreendemos sua verdadeira natureza, eles simplesmente cairão como as folhas secas no outono. Lembremos as palavras de A Luz da Ásia: “Se pões limites na roda da mudança E não há maneira de livrar-te da corrente, O Coração do Ser ilimitado torna-se uma maldição, A Alma das Coisas sente Dor. Não estás limitado! A Alma das Coisas é agradável.” Mas se não compreendemos realmente a natureza transitória desses apegos e ainda dizemos “Não os tenho”, estaremos nos enganando, porque eles são as personalidades! O terceiro passo é compreender que estamos sem qualquer atributo. Esta compreensão, afinal, pertence a Atma. Vejamos agora as “Aquisições”. Elas são de três tipos: dentro de nós, fora de nós e ligando-nos com o que está fora. – Dentro de nós: “A perpétua presença em imaginação em todo espaço e tempo.” Dessa compreensão “origina-se uma base de memória que não cessa em sonho ou em vigília” – talvez, no fundo de nossos corações, a memória do que somos: a centelha da Chama Única – na realidade, esta própria Chama é a resultante da intrepidez. – Fora de nós: percebemos que todos os seres corporificados apenas têm limitações. Sabendo que “nada é perfeito” ou completo, que o mundo no qual vivemos é apenas “relativamente real”, somos capazes de criticar impessoalmente, sem elogiar ou acusar. – E a ligação entre dentro e fora é resumida na “tentativa contínua de uma atitude mental para com todas as coisas existentes, que não é nem amor, nem ódio nem indiferença”. Amor e ódio, ambos são apego, respectivamente de natureza positiva ou negativa. A indiferença é apego ao não-apego, evita o apego. Se estivermos sem o amor (pessoal), sem ódio e sem indiferença, estaremos sem apego pessoal e deste modo sem desejos. Como resultado poderemos ver todas as coisas clara e objetivamente, reagindo apropriadamente com discernimento em cada caso individual, ao compreendermos que a mesma divindade interior habita todas as coisas. Isso significa que ficamos calmos, tranqüilos e harmoniosos. Assim a virtude se desenvolve espontaneamente. “Benevolência, simpatia, justiça etc. surgem da identificação intuitiva do indivíduo com os outros, embora ignorada pela personalidade”. O tema de abertura -“Conceba a Unidade pela Expansão no Espaço e Infinita no Tempo” – é acompanhado e concluído pelas palavras de encerramento da Meditação: As aquisições são completadas pelo conceito de “Sou todo Espaço e Tempo”. Lembremos que isso só pode se dito verdadeiramente quando há perfeito cumprimento das privações e aquisições. Aí não é a personalidade que concebe a si. O texto finaliza com as palavras “Além disso, ... (nada pode ser dito)”. Este é o fim do texto do Diagrama de Meditação, mas talvez somente o início da Meditação. O que está além é inexprimível e até inimaginável; impossível de ser concebido pela mente, mas a Natureza Espiritual na realidade sabe ser una com tudo. “O resto é silêncio”. E neste silêncio ocorre a verdadeira meditação. (Extraído da revista The Theosophist, de agosto de 2002.) Tradução: Izar G, Tauceda, MST - Loja Jehoshua, Porto Alegre, RS
“Progresso, do ponto de vista do espírito, é de cume; de uma forma de perfeita síntese à outra; de uma totalidade a uma outra totalidade ainda mais bela.” N. Sri Ram
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