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Autor: Sérgio Carlos Covello
Sabemos que o misticismo é uma forma de conhecimento superior que inclui prática de tipo religioso como a meditação, a contemplação e a prece, visando à união íntima e direta do espírito humano com o princípio fundamental do ser.
Mas é preciso, não confundir misticismo com religião. Embora essas palavras evoquem o sagrado e o divino, religião designa tradicionalmente o conjunto de crenças, dogmas, costumes, normas e ritos de certa comunidade que adora um mesmo Deus. As religiões têm em geral um fundador, um ou mais líderes, escrituras sagradas e templos para o culto público. Organizam-se e hierarquizam-se para propagar a fé e conquistar adeptos. Com sua doutrina sobre a origem do mundo e do homem, o sentido da vida, o sofrimento e a morte e sua práticas litúrgicas, as religiões exercem poderosa influência sobre a conduta de seus seguidores e têm produzidos místicos notáveis. O místico, todavia, não surge sempre de uma religião.
Há místicos que não são religiosos, e religiosos que não são místicos apesar de exercerem até liderança religiosa, por exemplo, os fariseus no judaísmo antigo. O jovem rico mencionado no Evangelho (Mateus 19:16-22) era religioso, tanto que cumpria todos os mandamentos de sua fé: "Eu tenho observado tudo isso desde a minha mocidade. Que me falta ainda?". Mas não era místico, porque seu apego às riquezas o impedia de transcender o ego, seu status de homem rico, e atingir a verdadeira riqueza interior: "Retirou-se triste, porque tinha muitos bens". A experiência mística não depende de organização nem hierarquia, nem templos materiais nem escrituras sagradas, porque é uma percepção imediata do divino, uma atitude interior.
Muitas vezes, o místico se indispõe com a religião a que pertence ou encontra sérias dificuldades dentro dela por causa de sua conduta mística que extrapola os costumes de sua comunidade. São Francisco de Assis e São João da Cruz, para só citarmos dois preeminentes santos do catolicismo, são bons exemplos disso em épocas diferentes. Eles, na verdade, contribuíram muito para o aprimoramento da religião, mas até que fossem reconhecidos por seus trabalho, tiveram de enfrentar a incompreensão de seus irmãos de fé, especialmente os que exerciam o pode político-eclesiástico. São João da Cruz chegou até a ficar preso por ordem das autoridades religiosas de sua igreja! O místico não necessita de "santuário feito por mão, figura do verdadeiro" (Hb, 9:24), mas entra quando quer do santuário de sua alma, onde encontra a Divindade. Ser místico é viver profundamente a realidade divina dentro de si. Tal vivência é transformadora, porque a união com o divino faz com que o homem materializado pelas ilusões do mundo se transforma em homem espiritual.
Erro é supor que a experiência mística requer a fuga do mundo.
Quando o indivíduo vive sua realidade divina liberta-se do apego às coisas exteriores que o mundo oferece: lucros e perdas, prazeres e tristezas, honra e difamação, porque passa a desfrutar da felicidade interior que, por ser plena, dispensa os prazeres ilusórios e transitórios. Contudo, seu estado de bem-aventurança, longe de o isolar de seus semelhantes, faz com que se relacione melhor com outros seres, sendo compreensivo, paciente, compassivo, magnânimo, generoso, caritativo e pacífico, qualidades típicas do altruísta. É claro que muitas pessoas preferem isolar-se e dedicar-se a práticas ascéticas na esperança de atingir dessa forma o Absoluto. Na busca de estados superiores de consciência, cada qual escolhe o caminho mais de acordo com suas inclinações pessoais. É, no entanto, perfeitamente possível viver misticamente sem deixar seus afazeres, sua família, sua comunidade, sem ingressar em igrejas ou mosteiros nem realizar mortificações ou exercícios incompatíveis com a vida em grupo.
Gurdjieff, filósofo e mestre espiritual que influenciou celebridades como Rudyard Kipling e Katherine Mansfield, chamava de quarto caminho o daqueles que querem permanecer no mundo, mas não pertencer ao mundo. É o caminho do místico comum, que almeja a auto-realização sem abdicar se suas tarefas corriqueiras, esforçando-se em compreender o universo, a natureza e o seu próprio ser num trabalho orientado para a bondade, a beleza e a verdade.
A vida mística também não consiste necessariamente na união com um Deus pessoal, conforme o figurino judaico-cristão, a que nós, ocidentais, estamos acostumados. Nas tradições orientais, fala-se em união com o divino ou sagrado impessoal, a união com o Todo ou o Absoluto. É por isso que muitas escolas de misticismo preferem substituir o termo Deus, que lembra uma pessoa distante e patriarcal pelo vocabulário Cósmico ou Cosmos, entendendo-se por essas palavras a ordem univérsica viva que rege todas as coisas. É uma questão de preferência que não interfere no cultivo da espiritualidade. Paulo de Tarso, um dos maiores místicos da humanidade, tinha em Cristo a sua realização suprema: "Já não sou eu quem vive - dizia - mas o Cristo vive em mim".
No século 19m o psiquiatra Richard Maurice Bucke, que não era religioso, teve uma experiência mística semelhante e a chamou de consciência cósmica, desenvolvendo toda uma teoria psicológica a esse respeito. O que para o apóstolo Paulo era a presença de Cristo em sua vida, para o Dr. Bucke era a Consciência Cósmica, isto é, a percepção da vida e da ordem do universo que põe o homem em um novo plano de existência e lhe acrescenta um estado de exaltação moral, um sentimento de elevação e júbilo e o senso de imortalidade, operando uma nova vida. Daí, o mesmo apóstolo dizer que quem "transforma sua mente, nova criatura é".
Qualquer que seja a sua fé, o místico é sempre um ser que se harmoniza com uma ordem superior: o Uno, o Absoluto, o Tao, sem a necessidade, para tanto, da intermediação de uma organização religiosa ou de um sacerdote. O conhecimento que ele busca não é intelectual, nem doutrinário-formal, senão intuitivo-experimental (donde as práticas acima mencionadas). Trata-se de um saber que é, ao mesmo tempo, um vivenciar - um contato com a Realidade Superior, pelo qual o homem descobre e atinge a sua essência, desfazendo-se das impurezas do eu inferior.
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