| O Budismo Tibetano e a Psic. Analítica de Jung |
| Ter, 08 de Julho de 2008 21:48 | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Palestra proferida por Antonio Carlos Jorge, na Loja Liberdade, em 30/03/07
A palestra, dentro deste enfoque, irá abordar elementos do budismo, da escola tibetana, assim como elementos da psicologia analítica fundada por Jung. Inicialmente vamos falar um pouco da história do Budismo. Há mais de 2.500 anos, nascia no norte da Índia, em uma região próxima à fronteira com o Nepal, no reino de Sakia, um ser muito especial, chamado Siddharttha Gautama, filho de Maya-devi e do rei Suddhodana. Aos sete dias após seu nascimento, sua mãe veio a falecer e seu pai, no sentido de protegê-lo, criou-o dentro de um cuidado especial, confinando-o dentro dos muros palacianos, a fim de que ele não pudesse vir a sentir qualquer tipo de sofrimento em contato com o mundo exterior. Aos 29 anos, curioso em conhecer o que se passava fora do ambiente em que vivia e ajudado por seu cocheiro, ele sai do palácio e se depara com uma realidade desconhecida, pois dentro do reino não existiam velhos, assim como qualquer tipo de doença ou motivações que pudessem levar ao sofrimento, pois seu pai afastava qualquer tipo de iniqüidade possível. Nos primeiros passos fora do palácio ele vê um ancião e, surpreso, procura falar com esse ancião. O ancião assustado foge e Siddharttha o segue. Na caminhada Siddharttha encontra pessoas doentes e ainda na busca do ancião, pois ele queria conversar com ele, no sentido de conhecer o que era aquilo, ele se depara com uma pessoa morta, sendo cremada. Até então ele não conhecia a velhice, a doença e a morte e essa visão deixou seu espírito profundamente abalado, passando a questionar a real natureza da vida e abandona todos os prazeres, indo buscar as explicações para as anormalidades humanas, as motivações do sofrimento humano. Ele busca durante seis anos as respostas e após manter contato com inúmeros filósofos, sábios e eruditos, sem êxito, acaba assumindo uma vida ascética, vivendo na floresta, em total abstinência, comendo em bebendo do que fosse fornecido pelo ambiente. Após esses seis anos ele percebe que essa vida de rigor físico não o estava levando a nenhum lugar. Ele experimentou sim a espiritualidade, o desprendimento, mas à custa do seu corpo físico, que estava depauperado, não respondendo mais aos seus anseios internos. Diz a história que ele tem essa percepção, quando escuta um instrutor de cítara falando para sua aluna que as cordas do instrumento deveriam estar na tensão adequada para produzir o diapasão, para propagar o som na medida exata, pois uma corda muito frouxa não tem capacidade de produzir som algum e uma muito estirada romperia, não produzindo também o som necessário. Siddharttha percebe que ele estava exatamente impondo ao seu corpo físico o rigor exagerado da tensão de uma corda. Percebe que o seu corpo o incapacitava, impedindo a expressão de sua vontade espiritual. Visto isso, ele toma banho, faz uma alimentação adequada e senta sob uma árvore, uma figueira chamada Bodhi, conhecida como a árvore da sabedoria, e entra em um processo de profunda meditação. Neste processo de meditação ele sofre três tentações de Mara, assim como Jesus que sofre as tentações pelo Demônio. Ele resiste a essas tentações e atinge o grau de iluminado, o nível do desperto, o de Buddha. Naturalmente essa história é rica em simbolismos, pois nos mostra o ciclo da evolução do espírito, que nasce puro, vive os prazeres do paraíso, vive em seguida o sofrimento e, após a compreensão da natureza da realidade e sofrer a noite escura da alma, atinge a iluminação. O Senhor Buddha, assim como os grandes mestres, não deixou nada escrito. Foram seus discípulos que escreveram sobre os ensinamentos ministrados através dos discursos proferidos. O primeiro discurso proferido foi o de Sarnath, local próximo à Benares, em que é lançado o fundamento do budismo, ligado à natureza do sofrimento. O Sr. Buddha, para expor a natureza do sofrimento, estabelece as quatro nobres verdades e o caminho óctuplo, que são a base de todo ensinamento budista. É um ensinamento simples, altamente profundo, mas difícil de ser praticado em toda a sua plenitude. Para esta questão do sofrimento, a fim de que possamos compreendê-la melhor, está apresentado no diagrama, dentro de uma visão cartesiana, própria de nós ocidentais, mas que serve para ilustrarmos de forma didática. Estão colocados no histograma, com uma coordenada correspondendo à linha da vida, do tempo, e a outra à linha dos valores, tangíveis e não tangíveis. Nascemos e vivemos na busca pela satisfação de prazeres materiais e não materiais, como obtenção de poder, sensações sensoriais, necessidade de sermos reconhecidos e outros. Quando elegemos o objeto de prazer sofremos para obtê-lo e quando conseguimos, esse objeto nos dá uma felicidade, mas extremamente passageira, pois o desejo foi saciado e, em seguida, nós já estamos a eleger um segundo objeto de conquista. E agora sofremos duplamente, pois sofremos para obter o novo e sofremos para manter o conquistado. E, quanto mais vivemos, mais vamos agregando coisas inúteis à nossa existência. A lógica do sofrimento é esta. É ilógica! Como podemos fazer para cessar o sofrimento? Evitar a viver neste processo! Fala-se no Budismo que vivemos em Samsara, cujo termo tem duas conotações. Temos a roda de Samsara que é a roda de nascimentos e mortes, mas tem por significado também o andar em círculos e é este o sentido que estamos aplicando. É o perpétuo móbile, que tem a origem na ignorância, na ilusão centrada na permanência nas coisas, promovida pelo eu ávido. Nós não temos a nítida compreensão de que tudo isso, esse processo de obtenção e acúmulo, é na realidade efêmero. Normalmente nós percebemos isso quando chegamos ao fim da vida; a perspectiva de vida agora é limitada e nós questionamos os porquês de se ter tanto para viver. A vida é tão simples e podemos viver com muito pouco, embora alguns até mesmo à beira da morte continuam a ser ávidos pelo poder e apegados as suas posses. Assim, o caminho óctuplo envolve estas assertivas: Ora, se eu entendo corretamente as coisas, as relações de causas e efeitos, eu tenho que pensar de forma correta, envolvendo tanto o propósito de atitudes, como aquilo que eu aspiro da vida, em consonância com o entendimento correto. Se eu entendo e penso corretamente eu devo zelar pela minha fala. Não posso vir a falar coisas de forma a afrontar à reta compreensão e ao reto pensamento. Assim temos, em seguida, a ação correta, o modo de vida correto, o esforço correto, diligência e atenção corretas e por último, concentração e meditação corretas. Eu vejo que muitas vezes esse processo é subvertido em sua ordem, pois têm muitas práticas de apelo comercial que compelem às práticas da meditação, sem contudo observar todas as exigências que o caminho impõe. Estou falando de algumas "escolas" de Yoga e o mercado que se instalou em nossos dias, explorando essas coisas. Como eu posso entrar em um processo de interiorização, reflexão meditativa, se eu não atendo aos aspectos éticos que o caminho me exige. Naturalmente não vai ser uma meditação saudável, não atingindo ao objetivo que se propõe. Às vezes as pessoas passam a vida inteira meditando, mas cometem atrocidades contra seus semelhantes. Estes princípios estabelecidos pelo Sr. Buddha resultaram em uma série de interpretações. O Budismo é multifacetado, existindo diversas escolas, diversas tendências, diferentes filosofias que se desenvolveram, mas podemos fazer algumas divisões, mais para a compreensão didática. Os dois primeiros fundamentos estão ligados à sabedoria, pois é sábio quem entende e pensa corretamente. No entanto isso não é uma questão intelectiva, pois às vezes encontramos pessoas muito simples, iletradas, mas profundamente sábias e que entendem essas questões de maneira intuitiva e as praticam. Os quatros fundamentos seguintes estão ligados mais aos aspectos éticos, pois a fala correta, a ação correta, o modo de vida correto e o esforço correto remetem a questões atitudinais, lembrando que ética está ligada a ações praticadas que não levem prejuízos a qualquer semelhante e para a ética teosófica e budista essa questão tem um envolvimento mais amplo, pois não se pode levar esse prejuízo também para outros seres senciente, incluindo os animais, que é o princípio da ahimsa, a doutrina da não-violência. Os últimos dois fundamentos dizem respeito à disciplina mental. Dentro da prática budista tivemos dois grandes desdobramentos, que são as escolas Hinayana e Mahayana. A Hinayana envolve mais os aspectos ligados aos seis primeiros fundamentos e a Mahayana aos dois últimos. Todas, naturalmente, praticam os oito fundamentos, mas as ênfases são diferentes. A escola Hinayana, a Theravada, que é a mais antiga, desenvolveu-se mais no sul da Índia e no Sri-Lanka e a Mahayana, que se desenvolveu posteriormente, tendo como precursor Nagarjuna, que foi um monge e grande filósofo, um reformador que pavimentou a criação da escola Mahayana que prosperou ao norte da Índia, no Tibet, no Nepal, na China, no Japão, ramificando em outras escolas como a Terra-Pura, o Zen-Budismo.
O ideal do adepto da escola Mahayana é atingir a condição de Boddhisattva, pois não basta ser Arhat. Ele sai da roda, mas por compaixão ao ser humano ele retorna. É a história dos Mestres e dos seres iluminados que transcenderam e continuam a ajudar à humanidade na busca da salvação. Dentro da escola Mahayana, no Tibet, desenvolveu-se outra escola que é a Vajrayana, o coração esotérico do budismo. Antes da entrada do Budismo no Tibet, que se deu por volta do VII século d.c., já existia uma religião xamânica nativa denominada Bon que em certa medida influenciou essa nova escola, embora o atual Dalai Lama diga que o Lamaísmo seja o mais puro e sublime Budismo, mas eu acredito que foram incorporados sim alguns aspectos, haja vista a consulta a oráculos cujo principal é Dordje Drakden, uma divindade protetora que fornece conselhos. Essa divindade é incorporada por um monge. O Budismo no Tibet encontrou um terreno fértil para o desenvolvimento das manifestações esotéricas. Vajrayana corresponde ao caminho diamantino, sendo que segundo os Budistas Tibetanos sua prática pode levar ao processo de iluminação em uma única vida. O Vajrayana é também conhecido por Tantrayana, mas sem a conotação errônea da maithuna que se dá. A sua prática requer três componentes: A renúncia, a motivação iluminada e visão concreta da realidade. Jung também fala que todos nós ansiamos pela iluminação, independente do nível de evolução que nós tenhamos. O que nos puxa para baixo é o eu ávido, atrações contrárias do que realmente nós procuramos, mas no centro do coração de todos os seres encontra-se a chama divina, que um dia irá se manifestar na busca da iluminação. Muitos não sabem disso, mas chegará o momento em que serão tocados. O Budismo fala de dois estratos, que é o da consciência, o da mente desperta, que está em contato com a realidade da vida e o estrato da inconsciência, que é a escuridão da mente, o que a pessoa desconhece, não só em termos cognitivos, como também espirituais, ou seja, a falta de percepção do que é divino, do que é espiritual, aquilo que não é tangível e compreendido pela natureza na consciência, da mente desperta para as coisas materiais da vida. A emancipação do sofrimento, então, requer a renúncia não somente aos desejos como também de todas as formas de alienação, a moldarmos artificialmente aos padrões esperados pela sociedade e pelas relações impostas pelos outros, descaracterizando a nossa real aspiração. A emancipação do sofrimento requer também a motivação iluminada, Bodhichitta, que é a empatia pelo sofrimento alheio e que leva a atingir a iluminação em prol do outro, ou seja a compaixão. A emancipação do sofrimento requer, por último, a visão correta da realidade que é a visão do vazio, chamado Sunyata, que depende do desenvolvimento da sabedoria intuitiva e do conhecimento da não-dualidade. O vazio não significa a vacuidade simples, mas sim o vazio que envolve o todo. A percepção clara de que não existe dualidade e que estamos todos integrados com o todo, pois nada existe fragmentado. Para isso são praticados os mantrans que estão correlacionados com a fala, os mudras que estão correlacionados com o corpo e a meditação correspondendo à mente. Trabalha-se então com a fala, com o corpo e com a mente, que são os fundamentos a serem observados. Mantrans têm poderes vibracionais permitindo-se adentrar nos planos sutis, enquanto mudras abrem e fecham circuitos e polaridades energéticos. O método usa muito a meditação e a visualização, sendo que a imaginação é fundamental. A meditação acalma, domestica e disciplina a mente, para alcançar a concentração em um ponto, cultivando a concentração e conscientizando-se. Já a visualização envolve a construção de imagens mentais, que podem ser divindades serenas e belas, mas que podem ser também coléricas e aterradoras, que a pessoa se identifica, sendo pura criação da imaginação, mas que servem de guia no processo de libertação, pois tem função arquetípica fundamental. Temos a presença do guru que é fundamental no processo, pois é ele quem constrói e dá ao discípulo a figura mental necessária, sendo a divindade protetora para a sua caminhada, que pode ser um velho sábio, uma imagem feminina, a grande deusa. No processo, entretanto, estas imagens podem se transformar, razão pela qual isso deve ser exercido dentro de muitos cuidados, pois existem perigos latentes. A princesa adormecida pode se transformar em uma devoradora. A grande deusa pode se transformar em Mara. Essas imagens acabam sendo autônomas, tendo vida própria e se não houver os necessários cuidados podem se transformar em perigos ao praticante. Nos templos budistas vemos uma série dessas expressões antropomórficas, que são Dakinis, Yidans, Vajra Yogini, Taras. Não se trata de um panteão de divindades. Mas são expressões arquetípicas. Dakini significa éter, vazio, não tem forma, mas sim a forma mental impregnada pelo discípulo. Podemos compará-las aos elementais artificiais, com todos os perigos que eles oferecem. Isso tudo tem que ser muito bem orientado. Vajra Yogini é a correlata a Anima de Jung, que é a parte feminina da natureza masculina, assim como as Taras constituem-se no aspecto feminino de Brahma. Todo esse reino tem por função fazer emergir o espiritual na pessoa. O transpessoal. Para se evitar os perigos falados, a prática é precedida por um processo de esvaziamento da mente, aí passa-se pela construção da imagem e antes do término da prática passa-se novamente pelo esvaziamento, pelo desfazimento da imagem que foi objeto da mentalização. O caminho da espiritualidade é árduo, pois muitas pessoas se enveredam por determinadas trilhas estando sujeitas a cair nas garras desse mundo desconhecido, que é o mundo do inconsciente. Pode-se desenvolver patologias, como a esquizofrenia, por exemplo. Quanto ao aspecto visual temos as mandalas, que têm uma grande importância, pois apresentam as polaridades e os paradoxos existentes na vida. O nome mandala é sânscrito, mas está presente em todas as culturas, às manifestações xamânicas, na arte gótica, na islâmica, enfim, é inerente ao homem, ao inconsciente coletivo. No Tibet o uso da mandala talvez tenha alcançado o ápice, pois sintetiza justamente os aspectos tratados pelo Budismo, que é a polaridade e a impermanência, a efemeridade da vida. Lá, as mandalas são construídas em areia, para depois de concluídas serem desmanchadas, como a representação desta transitoriedade das coisas. É uma visão muito bonita. A libertação não é alcançada pelos livros ou pelo conhecimento abstrato, mas sim requer um mestre espiritual, um amigo, que irá estimular o despertar da consciência. O guru representa um modelo que é próprio guru supremo, o Senhor Buddha. Embora esse guru seja uma representação projetada, na realidade o guru está no interior de cada um e isso que deverá ser encontrado. É o Cristo interior. Bom, falamos um pouco de Budismo e agora vamos à Jung. Após mais de dois mil anos, nascia na Suíça, no ano de 1875, Carl Gustav Jung, um ser também muito especial, que desde pequeno já percebia no seu interior algo que o fazia diferente de outras crianças, pois ele encara a vida dentro de uma ótica mais amadurecida, como se tivesse outra personalidade que ao longo de sua vida foi desabrochando, ganhando força e vida com o decorrer de sua existência. Jung faz medicina e se torna psiquiatra, que na época era uma área de especialização médica muito nova, inexplorada e pouco procurada. No início do século XX ele conhece aquele que seria o seu mentor e maior amigo que é Freud. Dizem que no primeiro contato com Freud, os dois conversaram ininterruptamente por mais de 12 horas, pois a identificação entre os dois foi muito grande. Freud era quase 20 anos mais velho. Essa parceria foi muito profícua, mas desde o início já existiam algumas diferenças que mais tarde motivaram a separação entre eles, depois de muito tempo, lá pelos anos trinta. As questões divergentes correspondiam à visão de Freud de que os traumas psicológicos tinham sempre uma raiz de natureza sexual, coisa que Jung nunca aceitou. Freud, por sua vez, não aceitava o interesse de Jung pelo universo metafísico, pela espiritualidade, coisa que para a sua mente científica, não cabia. O rompimento ocorrido, embora traumático para Jung, na realidade se demonstrou benéfico, pois a partir daí é que ele fundamenta toda a sua teoria. Mas não foi fácil. Ele permanece durante 6 anos, praticamente confinado em uma torre que manda construir e é lá que ele tem suas piores crises, a sua noite escura da alma, o processo que antecede as transformações espirituais. Neste período ele chegou a desenhar uma mandala por dia, como uma forma de reintegrar os seus conteúdos inconscientes. Jung teve muito contato com o conhecimento oriental, ocorrendo fenômenos de sincronicidades. Ele pensava em um assunto e um amigo o presenteava com um livro sobre o tema. Foi assim como um livro de preceitos taoístas, denominado "O Segredo da Flor Dourada", tem também o "Bardo Todol" que é o "Livro Tibetano dos Mortos", que temos aqui na livraria da Loja. Bardo significa entre marcos ou entre ilhas, sendo um tratado sobre a erraticidade da alma que é um guia orientativo para a morte, mas eu diria que é o livro tibetano da vida, pois segundo ele existe vida após a morte. Enfim todo esse universo, assim como o mundo da alquimia, impregnou muito as suas idéias. Todo esse legado, taoista, budista e alquímico o influenciou. Segundo Jung a estrutura da psique constitui-se pelo ego psicológico, que denomina sombra, a animus que é o aspecto masculino na mulher e anima que já falamos, é o aspecto feminino no homem, assim como o si mesmo, que o Self ou a individualidade.
Jung classifica quatro tipos humanos: o pensativo, o sentimental, o intuitivo e o perceptivo. Os dois primeiros ligados a funções racionais e os dois últimos ao irracional. Todos nós nos enquadramos em um destes tipos, eventualmente em dois e às vezes alguns poderão dominar três, mas os quatro juntos não é possível dentro de uma condição normal. O processo de individuação leva à integração destes quatro tipos, sendo utilizada a linguagem do inconsciente coletivo, que envolve os mitos, os sonhos, ou seja, o mundo dos arquétipos que são conteúdos do inconsciente coletivo. São imagens primordiais sem conteúdo, formas de pensamento, gravadas na constituição psíquica, que já eram de conhecimento dos budistas, conforme já mencionamos. Sem este fator, segundo Jung, é impossível de se chegar ao Self. O Self é a quintessência dos arquétipos, sendo o princípio organizador, guia e unificador que dá direção à personalidade e sentido à vida. É o ápice do crescimento pessoal que leva a auto-realização, ou seja, é o homem eterno, a divindade no homem. É atemporal, único, eterno e universal. O inconsciente coletivo, que é parte da psique, deve-se à hereditariedade e não às experiências pessoais. Isso está numa camada, num estrato, que todos podem acessar de uma maneira inconsciente. Podemos fazer uma analogia aos registros Akashicos ou registros búdicos. Ele diz que o inconsciente é constituído por material esquecido ou reprimido. Jung fala ainda em psique subjetiva que é o inconsciente pessoal e a psique objetiva, impessoal, transpessoal, essa sim o inconsciente coletivo. Essa foi a maior contribuição de Jung; a descoberta do inconsciente coletivo. O conceito de ego segundo Freud e isso se aplica às condições da psique de Jung, é um coitado, pois está pressionado pelo Id, que é o aspecto de desejos inconscientes, hereditários, transcendentes, que leva ao prazer. O ego submetido ao id vive uma vida de prazeres, condicionado àquela estrutura que vimos no início. A roda de prazer e dor, que leva ao sofrimento. Por outro lado Freud diz que existe o superego, que é o que impõe as regras, os limites, o castrador. A pessoa também que é submetida ao superego também vai sofrer. O ego também é confrontado com o mundo exterior, com todos os perigos latentes. O ego então fica confinado a essas condições da vida, duas internas e uma externa. O desenvolvimento do método de Jung foi desenvolvido através da sua própria experiência. Ele percebe que o método funcionou para ele e conclui que é possível ser aplicado a outros, constituindo-se em um modo revolucionário de analisar essas questões da espiritualidade sob o prisma científico, dentro de uma metodologia controlada. O método é chamado de psicologia analítica. Inicialmente ele chamou de psicologia dos complexos. Jung diz que a pessoa que passa pelo processo tem que necessariamente assumir um compromisso ético, pois uma vez que se tenha descoberto a sua patologia o paciente tem um compromisso ético em relação àquilo, que é a idéia do budismo. Pois se você se conscientiza, entende e pensa corretamente, tem que assumir uma postura ética que é a fala, a ação, o modo de vida e o esforço corretos. A função de todo o processo é curadora, tanto é que em seu livro "Memórias, Sonhos e Reflexões" Jung diz "A Cura das Almas é minha missão". A psicologia de Jung cura a alma e não é simplesmente um processo de ajuste da personalidade e cura de sintomas. É um processo de Integração da personalidade, autônomo e inconsciente, que determina um impulso natural e espontâneo para auto-realização, podendo tornar-se atividade consciente. A personalidade permeia-se de luz e o consciente estende-se e amplia-se mais. O processo, embora seja inconsciente, pode tornar-se atividade consciente, direcionado pela própria pessoa. É o princípio da função transcendente, como no Budismo, existindo uma luta contra as forças opostas, entre o inconsciente e o inconsciente, representada pelas mandalas. Esse processo de alimentação mútua, onde o consciente clareia o inconsciente e este nutre o consciente, harmonizando conteúdos, permitindo que o inconsciente fale no silêncio e se perceba pacientemente as mensagens. Isso faz com se transforme a personalidade. Desenvolve-se a plenitude do indivíduo.
Nós falamos de desenvolvimento e é interessante conceituarmos o que é desenvolvimento, já que muitas vezes não prestamos muita atenção no significado das palavras. O conceito é um pouco diferente que normalmente estamos habituados a considerar. Pode-se acreditar que para o desenvolvimento são requeridas ações externas ao meio, mas na realidade desenvolvimento requer uma interiorização. Vamos analisar o que é desenvolver. O que significa embrulhar? É revestir algo com alguma coisa. O que é desembrulhar? É tirar o revestimento de algo. O que é envolver? O mesmo que revestir, embrulhar. Desenvolver-se, então, é desembrulhar-se. Nós temos que desembrulharmos de nosso corpo físico, astral e mental, para atingirmos a pedra preciosa e incorruptível que está no âmago de nosso ser. Não no sentido de negligenciarmos esses corpos, mas de submetê-los à vontade do nosso Eu verdadeiro. Nós devemos ser os jogadores, mestres de nosso tabuleiro da vida, e não meros peões. Não devemos nos submeter aos condicionamentos sociais. Mas voltando ao processo... Na realidade não existe um método rígido, sendo que o terapeuta é um facilitador do desenvolvimento das possibilidades criativas do paciente. O terapeuta deve ser livre de preconceitos e teorias, deve compreender o indivíduo e deixar que a natureza seja o guia. A criatividade é um fator importante no processo, através da arte é possível se fazer a síntese. Muitas pessoas têm medo de serem criativas, por egoísmo. O ato de criar, o objeto da criação, uma vez concebido, não pertence mais a quem criou. Uma música, uma pintura, um poema, um filho. Depois de criado não pertence mais ao criador. As pessoas às vezes reprimem a sua capacidade criativa por egoísmo. O processo além de estimular o extravasar do que está reprimido, provoca um estado mental calmo e livre de pensamentos e sem julgamentos e a observar os desdobramentos dos conteúdos inconscientes, que é similar à meditação. Ele diz também que as experiências resultantes dos contatos mantidos com o universo do inconsciente devem ser registradas por escrito ou por desenhos, expressões criativas. A ação deve ser pautada pela não-ação, ou seja, deixar-se ir, deixar fluir, pois isto é a chave que abre a porta do caminho, pois o consciente está a sempre interferir e não permite a fluidez. Podemos associar o consciente com a mente concreta, que analisa, critica e julga. O que Blavatsky menciona na "Voz do Silêncio" que "A mente é a grande assassina do real. Que o discípulo mate a assassina". Com esse processo de interfusão e união dos opostos resulta-se na consciência crescente e na amplitude da personalidade transformada, emergindo um novo. Emerge um novo centro de personalidade, o Self, o Eu superior, diminuindo a tendência do ego, do eu Inferior, atraindo para si tudo que pertence à unicidade, cessando o superficial e o não essencial. Na realidade, segundo Jung, todo esse processo é de auto-educação, não existindo cura pessoal sem a retomada da perspectiva religiosa da vida. Vejam o caráter místico no qual é revestida a sua psicologia. Jung menciona em seu livro "A Prática da Psicoterapia" que "O processo de individuação leva ao nascimento de uma consciência da comunidade humana, justamente porque nos torna cônscios do inconsciente, que une e é comum a toda a humanidade. A individuação é uma reconciliação consigo mesmo e ao mesmo tempo com a humanidade, visto que somos parte dela". Para concluirmos, nos quadros temos uma síntese dos aspectos similares e diferenças apresentadas entre os dois sistemas.
Quem quiser aprofundar mais no estudo do tema, recomendamos a leitura, além dos livros de Jung, os livros "Psicologia de Jung e o Budismo Tibetano" de Radmila Moacanin e "A Sincronicidade e o Tao" de Jean Shinoda Bolen, estes dois da Cultrix. |
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| Última atualização ( Ter, 03 de Novembro de 2009 13:33 ) | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||








