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A Perseverança e o Desapego
Seg, 08 de Setembro de 2008 12:47

Surendra Narayan

"Pedra que rola não cria limo" é um velho ditado que ouvimos desde criança. Quer dizer que uma pessoa inquieta, que está sempre mudando, não prospera nem vence na vida.

É comum usá-lo para alertar os jovens contra a troca de curso - de artes para ciências ou mesmo de física para biologia. Se alguém está interessado em esportes, é alertado contra mudar de voleibol para basquete e em seguida para futebol. Se alguém troca de carreira com muita freqüência - de direito para jornalismo e depois gerente de restaurante - a analogia da pedra que rola também vem a calhar.

A moral desse ditado, porém, tem implicações muito mais amplas. No caminho espiritual alguém pode se sentir tentado a mudar de jnana yoga para mantra yoga  e depois para hatha yoga; assim, progride pouco. Ou pode viajar por todos os continentes, numa busca sem fim por sábios e gurus, sem conseguir proveito algum.

Do mesmo modo, a pessoa que busca a verdade pode se distrair com o transcorrer da vida. Ela pode dar ouvidos a ilusões, permanecer estagnada ou até andar para trás. Foi por isso que Buda, em um dos últimos sermões a seus discípulos, disse: "Buscai aquilo que é permanente e exercitai vossa salvação com diligência."

Sem diligência, ou seja, sem constante esforço e atenção, não se pode crescer na compreensão correta; pedra que rola não cria limo. "Um caminho com muitas paradas não permite chegar rápido ao final da linha", como um dos Mahatmas avisou a Sinnett, em suas cartas. (Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett, Ed. Teosófica.)

No livro Footprints of Gautama Budha, Marie Byle conta uma interessante história. Um monge estava tendo problemas com seu progresso espiritual; freqüentemente voltava "à vida superficial da Terra, embora ainda estivesse usando o manto amarelo". Desanimado, procurou Buda, que logo compreendeu a causa do problema e apontou para uma galinha numa moita. Havia dez ovos no ninho, mas nenhum pintinho. A galinha andava de lá para cá, em vez de chocar os ovos. Mesmo quando chocava, revirava-os com os pés, esperando que rachassem e alguns biquinhos aparecessem. Porém, não tinha sucesso.

Buda disse: "Aquela galinha queria muito os filhotes, mas ela não os deixou nascer porque não chocou os ovos. O monge que tanto deseja a libertação dos desejos e o alcance da imortalidade não chegará à sua meta cobiçando-a. As coisas não vêm pelo desejo. Devemos deixá-las acontecer."

O Gênesis traz a mesma lição, embora com palavras diferentes: "Instável como a água tu não vencerás." A impaciência é um obstáculo no caminho. Queremos resultados rápidos para os esforços espirituais. Como a galinha, reviramos os ovos  e os destruimos. Como um jardineiro impaciente, cavamos as raízes das plantas, para termos certeza de que elas se aprofundaram.

Em Aos Pés do Mestre, Krishnamurti lembra a importância da objetividade em nossa conduta: "Nenhuma tentação, nenhum prazer mundano, nenhuma afeição mundana deverá jamais te pôr de lado. Pois tu mesmo deves tornar-te um com o caminho."

Krishnamurti também aconselhou: "Mantém-te vivo, consciente, e não deixes que nada sufoque a chama. Não deixes um simples pensamento sequer escapar sem observares de onde veio, seus motivos e significação. Mantém-te acordado."

O ditado "pedra que rola não cria limo" também pode ser interpretado de maneira completamente diferente, num outro contexto. O limo numa pedra pode ser um estorvo. Ele faz a pedra parecer musgosa e suja, pois uma pedra limpa, clara e brilhante é mais agradável ao olhar.

A pedra fica cheia de limo quando permanece apegada a um lugar. O mesmo se aplica a nós. Quando permitimos que o apego a pessoas, coisas e sensações prevaleça, a mente fica contaminada pelo limo dos pensamentos e das memórias, que passam a governar nossa vida. As percepções se turvam, tornam-se estreitas e limitadas. Em A Voz do Silêncio, Blavatsky recomenda: "Luta com teus pensamentos impuros antes que eles ganhem poder sobre ti, (...) pois se lhes deres folga e eles crescerem e tomarem raiz, sobrepujarão a ti e te matarão." Nessa interpretação, rolar tem um sentido de desapego. "Os sábios não se demoram nos jardins das delícias dos sentidos", como  afirmou Krishnamurti.

Uma pessoa bem estabelecida no caminho da santidade é chamada parivrajaka  (andarilho), no saber religioso hindu. Os budistas também o chamam de sotapanna, "aquele que entrou na corrente". Uma pedrinha no leito do rio vai rolando na rápida corrente, não cria limo e gradualmente se torna mais lisa, limpa e menor, até que finalmente se funde à areia indiferenciada e brilhante