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Dentro de nós, a batalha do mundo
Dom, 14 de Setembro de 2008 15:01

Walter da Silva Barbosa 

Uma noite, um velho índio Cherokee relatou ao seu neto a batalha que acontece dentro das pessoas, para definição do seu caráter.

Para ilustrar, ele disse: "Meu filho, a batalha que ocorre é igual à luta entre dois lobos. E eles existem dentro de todos nós. Um mau: a raiva, a inveja, o ciúme, a tristeza, o desgosto, a cobiça, a arrogância, a pena de si mesmo, a culpa, o ressentimento, a inferioridade, as mentiras, o orgulho, a superioridade e o ego. O outro, bom: a alegria, a paz, a esperança, a serenidade, a humildade, a bondade, a benevolência, a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão e a fé". O neto pensou naquilo por alguns minutos e finalmente perguntou ao avô: "Qual é o lobo que vence?"

A narração acima, de autor desconhecido, retrata o velho confronto entre o bem e o mal, objeto - nos últimos anos - de obras fílmicas belas e significativas. Em "O Senhor dos Anéis", por exemplo, esse confronto assume um contorno muito íntimo, aflitivo e claro, pois coloca o homem face a face não com algo externo, que ele possa  enganar, ou do qual possa fugir, mas sim consigo mesmo.

As criações artísticas em geral pouco exploram esse confronto interno, porque a cultura prevalecente - mesmo de cunho religioso - vê o homem como um produto físico, monolítico, cuja alma nasceu com o próprio corpo. Assim, esse homem vive sua existência num contexto de oposição a deuses e demônios externos a ele, sempre experimentando-o no sentido de elevá-lo ou expô-lo à danação. Necessita ele de um inferno maior do que esse?

A visão materialista em torno do homem é tão profunda que, em algumas correntes, a idéia da salvação chega a pressupor que os mortos levantarão de suas tumbas no "Dia do Juízo", milagrosamente reconstituídos do pó. Ou seja, confiança só mesmo no "tutano".        

S.Paulo, entretanto, diz "A carne milita contra o espírito e o espírito milita contra a carne", denunciando a existência de duas forças em luta no próprio homem. Na mente reside a essência dessa dualidade, estando ela em parte ligada ao ser divino, em parte ao terreno, sendo essa a base de nossos conflitos. Como ela tange, por exemplo, a questão sexual?

Estando na essência de tantos complexos, separações e violências, o sexo acaba se configurando num problema. Krishnamurti, porém, diz "Os obstáculos e as fugas da mente constituem o problema, e não o sexo ou outra qualquer questão específica; e, por isso, releva sobremodo compreendermos o processo da mente, suas atrações e repulsas, suas reações à beleza e à fealdade. Devemos observar-nos, tornar-nos cônscios da maneira como olhamos para homens e mulheres". (A educação e o significado da vida, Editora Cultrix).

No homem mundano, o lado material leva vantagem porque só ele é conhecido e cultivado. Mesmo quando algo de "espiritual" lhe cai às mãos, é imediatamente convertido em elemento de barganha, de comércio, porque sua consciência só conhece essa linguagem.

Contudo, por mais extensa e penosa que seja a luta, o espírito no final sempre leva a melhor. Primeiro, porque é eterno: como não teve começo, jamais terá fim. Segundo, porque é inatingível em seu próprio plano, não se contaminando com os devaneios da mente ou as "impurezas da carne". Terceiro, porque a própria carne não é sua inimiga, e sim sua mestra. Vivendo sua rudeza é que ele relembra sua origem divina, voltando-se enfim para ela.

Porém, o velho índio Cherokee não está contando a história de uma eternidade, e sim de uma vida, que pode ser a minha, a sua. Por isso quando o menino lhe perguntou "Qual é o lobo que vence?", o velho simplesmente respondeu: "Vence aquele que você mais alimentar!" 

Última atualização ( Dom, 14 de Setembro de 2008 15:06 )