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Pode alguém cheio de desejos viver o contentamento?
Qui, 27 de Maio de 2010 12:44

por Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

O desejo é realmente o “motor” do mundo. O próprio ressurgimento do universo, após a “longa noite escura do pralaya”, é considerado como resultante do “Desejo do Absoluto” de vir à existência corpórea por meio de Sua criação. Assim, em toda parte há uma só coisa ou entidade real: Deus. Pessoas, árvores, animais, rios ou montanhas, tudo é Sua manifestação.

Tal ensinamento é expresso no Bhagavad-Gita – texto hindu que inspirou muitos líderes sábios, inclusive Gandhi – quando Krishna diz a Arjuna: “Eu sou Atman estabelecido no coração de cada ser; Eu sou o princípio, o meio e o fim de todos os seres”.

Da mesma forma que encarnamos neste mundo pelo casamento de nossos pais, o próprio mundo veio à existência pelo casamento do Espírito (pai) com a Matéria (mãe), sendo o universo o fruto dessa relação. Diante disso, pode-se perguntar: tendo o desejo um papel tão importante, por que razão no Budismo, por exemplo, ele é considerado fonte de sofrimento, tendo que ser superado para que o sofrimento chegue ao fim?

O motivo está bem claro em nosso viver diário, onde a satisfação é sempre transitória. Nessa relação de começo, meio e fim para todo “bem-estar” – e seu respectivo apego – a infelicidade é a outra face da moeda. Em geral não percebemos isso porque somos enganados pelos pequenos prazeres “compensatórios” do dia-a-dia, levando um choque, porém, quando ocorrem perdas significativas mostrando a ilusão desses prazeres.

Onde entra o contentamento nisso? Em lugar nenhum, porque é um componente da realidade, onde o chamado “jogo dos opostos” termina. Ele é descoberto naturalmente na medida em que nos tornamos “des-iludidos” – uma bênção, portanto – deixando de colocar a expectativa de felicidade nas mãos caprichosas do vento, para descobri-la no porto seguro do próprio coração, onde reside “Atman”: Deus, o Espírito.

De que maneira o Bhagavad-Gita descreve o homem possuidor de contentamento? É “aquele que considera o prazer e a dor como iguais; que está tranqüilo, que dá o mesmo valor à terra, à pedra e ao ouro; que é sábio e aplica a mesma medida às coisas gratas e ingratas; que tem uma mente equânime para o louvor e a censura”. Podemos enquadrar aí alguém carregado de desejos? Obviamente não.

O desejo tende a provocar um estado de permanente e ansioso “vir-a-ser”, algo que pode até atuar como estímulo para o aperfeiçoamento, para a busca, mas que de fato se opõe ao simplesmente “ser”, no aqui e agora. O desejo tem tudo a ver com “ter” – a tônica do homem bem sucedido no mundo e, em especial, do cobiçoso e avarento – mas não com “ser”.

Justamente por impulsionar a realização humana é que o desejo se apresenta como obstáculo à realização interior, considerando que essas direções são opostas. Enquanto a mente está ocupada com o fazer externo, naturalmente se prende a ele, visto que não pode se ocupar de duas coisas ao mesmo tempo, como exemplifica a “Parábola do moço rico”.

Além disso, toda ação – mesmo a elevada – acaba nos prendendo aos seus efeitos, gerando apego, o que indica ser a atividade exterior algo inerente à matéria. Ou seja, a matéria é que promove a ação, e não o Espírito, como também ensina o Bhagavad-Gita. Então, para nos elevar estamos condenados a não agir? Viver na inércia é o preço do contentamento? Eis aí uma questão a ser melhor investigada.

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Última atualização ( Qua, 02 de Junho de 2010 10:26 )