| A Fonte do Poder |
| Qua, 04 de Junho de 2008 20:21 | |
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A Fonte do Poder A palestra de hoje é a fonte do poder. O tema “A Fonte do Poder”, nós o colocamos na programação de março, de uma forma até meio improvisada, com a seguinte explicação: “Ocultistas e espiritualistas geralmente encontram dificuldade de lidar com o poder e com os poderosos; aqueles, ou sejam os ocultistas, que deveriam estar familiarizados com grandes forças naturais, recuam diante de pequenos obstáculos do cotidiano”. Isso é uma contradição! A nossa palestra é um ensaio sobre a fonte do poder e a relação que deveríamos estabelecer com ela. Então, nós vamos tratar de um tema que está bastante relacionado com a nossa vida, com o nosso dia a dia, mas que ao mesmo tempo é um tanto hermético, porque quando se fala em poder, quase sempre as pessoas recuam um passo. Há uma espécie de receio de se lidar com essas coisas. Mas a questão do poder é uma questão que foi tratada por diversos pensadores, em diversas épocas da história da humanidade e nós vamos pensar um pouquinho, fazer um raciocínio sobre essa questão do que é o poder, o que realmente significa ter poder, porquê o ocultista que gosta de pensar em termos de desenvolver, de descobrir poderes latentes ou poderes ocultos, ou seja, lá o que for, relacionado ao poder, ele precisa saber do que é que ele está falando, do que ele está procurando, para ele poder encontrar. É muito comum haver uma certa mistificação em relação a questões do poder. Uma pessoa poderosa normalmente fica envolta numa aura meio mística, parece que há uma certa magia dando poder àquela pessoa, quando às vezes o processo, a técnica de desenvolvimento desse poder é uma coisa muito simples, muito humana, muito fácil, muito acessível. Então, eu gostaria hoje é só de fazer um ensaio. Vamos pensar sobre essa questão do que é e do que significa o poder para a humanidade como um todo. O que é uma pessoa poderosa? Essa é uma pergunta que antes de tentar responder eu vou passar para vocês. O que é uma pessoa poderosa? O que é uma pessoa que tem poder? Vários participantes respondem: · São pessoas que tem domínio sobre si mesmas; · Integrada à natureza; · Carismática; · Sábia; · Autoridade própria; · Discernimento; · Rica; · Bonita; · Violenta; · Forte; · Voluntariosa; · Manipuladora; Nós estamos enumerando aqui uma série de características, que na opinião de cada um dá poder a uma pessoa. Será que tem alguma delas que é mais importante do que outras? Alguém responde: Integrada à natureza; Isso dá poder na tua opinião. Então, vamos pensar um pouquinho o que é o poder, quem me define o que é o poder? Nós pegamos mais ou menos o perfil do poderoso. Poderoso é uma pessoa voluntariosa, superior em alguns sentidos, que tem domínio sobre si, uma ou várias dessas características aparece numa pessoa poderosa. Mas “poder” significa o quê? O quê é o poder? Que atributo é esse que a pessoa tem que permite a gente perceber que é poderosa? Um participante faz uma colocação de dois conceitos de poder. Um, o poder político, da violência, do dinheiro e outro do amor, do integrado com a natureza. Por quê esses dois são chamados de poder? Olhe o verbo latino potior. Potência é a condição daquele que tem o poder. O que é potência, “potestas” ou “potis”? Tecnicamente falando, a potência é a capacidade não manifestada de realizar um trabalho. O Trabalho supõe uma transformação, uma mudança no ambiente, uma mudança do quadro geral do entorno. Uma pessoa que tem poder é uma pessoa que tem a capacidade, em certos momentos, em certas circunstâncias, de promover mudanças e transformações no seu entorno. Esse é o conceito de poder. Vejam bem, o fato de eu ser um cientista brilhante, muito inteligente, não significa que eu tenho poder. Eu posso ser ignorante e ser poderoso; eu posso ser feio e poderoso; eu posso ser fraco, aleijado e poderoso. Então alguma coisa a mais está envolvida na questão do poder. O que está envolvido efetivamente na questão do poder não é obrigatoriamente nenhum desses elementos, embora todos eles sejam realmente estimulantes, ou fortificantes do processo de identificação do poder em uma pessoa. Mas há algo importante que dá poder a uma pessoa. É justamente a relação que ela estabelece com as pessoas, outros seres, ou com os objetos o que lhe dá poder. Se nós acreditamos que tudo é vida, a relação dela com a vida fora dela. Tudo é vivo, e então nós podemos generalizar. Uma pessoa que tem muito dinheiro, mas não se relaciona com ninguém é poderosa? O que ela vai fazer com aquele dinheiro? Ela vai ter que dar para outros que sejam fortes e poderosos para que façam alguma coisa com aquele dinheiro, por ela. Ela não sabe fazer. Ela não sabe como se relacionar com as pessoas, como fazer o seu dinheiro circular e se transformar em algo que ela deseja que ele se transforme. Nós estamos falando do dinheiro porque não tem nada de espiritual no dinheiro, mas tem tudo de espiritual no dinheiro também. Então uma pessoa muito rica pode ser poderosa? Sim, uma pessoa muito rica pode construir um hospital gratuito para a população. Pode? Pode, claro, é só querer. Muitos hospitais são mantidos por fundações que são sustentadas por pessoas ricas e que dão dinheiro para continuar funcionando, ou por empresas. Então, esse poder pode se realizar de muitas formas e por muitos meios, mas, há uma relação que estabelece essa pessoa, que nós vamos chamar de poderosa, com os demais e com os objetos, que é o que importa efetivamente, o que vai dar a ela a característica de ser poderosa. Essa relação tem um aspecto a ser considerado que é imprescindível para que ela tenha poder. Essa característica dessa relação é que tem que ser uma relação de natureza mítica. Não é uma relação de natureza lógica, racional, organizacional, estrutural. Quem trabalha com organização de empresas sabe perfeitamente que nem sempre é o gerente quem manda na equipe, nem sempre é o dono da empresa quem manda na diretoria, nem sempre é o diretor geral que dá as ordens na casa. Às vezes é o office-boy quem domina um departamento. Ele tem poder por quê? Isso se chama estrutura informal, existe uma estrutura formal. Digamos que o chefe sou eu, tenho aqui o meu crachá de chefe, aí todo muito ouve o que estou mandando fazer e dá risada. Eu não tenho autoridade. Por que eu não tenho autoridade? Por que eu não tenho poder? Eu sou o chefe. Aí as pessoas olham para o office-boy e o office-boy diz - faz um sinal com o dedinho – e as pessoas dizem tudo bem... Isso é um contra-senso. Mas é uma das formas que o poder assume, informalmente. Existem organizações onde a hierarquia, a ordem, a estrutura do poder é imprescindível, como por exemplo, a polícia, o exército. É baseado no princípio da autoridade, de poder hierárquico. Mas o quê acontece no exército? O quê acontece na polícia? É sempre o comandante quem comanda de verdade? Nem sempre. Quantas e quantas vezes o comandante perde o controle sobre os seus soldados, sobre os seus comandados. Quantas e quantas vezes numa guerra é o soldadinho raso que toma a frente e assume o comando de uma tropa. Quantas e quantas vezes o poderoso se manifesta numa situação de uma forma inesperada. Pela ordem natural das coisas ele não deveria ser aquele que tem o poder, mas, de fato, na vida real, no fato concreto, apareceu esse poder e aquela pessoa mostrou que é poderosa. Por exemplo, em situações de emergência, um incêndio acontecendo, um acidente de automóvel, uma briga de rua; quem é que resolve esse problema? Quem é que dá a ordem? Quem é que orienta e que salva vidas, resolve as coisas? É o policial, é o bombeiro, é o médico? Nem sempre. É aquele quem tem iniciativa. É aquela pessoa que naquele momento quando ninguém tem tempo de pensar em nada, ela também não pensou, mas fez a coisa certa. Fazer a coisa certa! Mas o que é a coisa certa? A coisa certa é a coisa que todos acham que é a coisa certa. Não há uma definição. Não há um conceito absoluto, de certeza. O mundo não tem certeza nenhuma. O mundo não tem uma ordem que seja a correta por oposição a todas as outras que sejam as erradas. Num certo momento se todos acharam que alguém fez a coisa certa, ele é forte e poderoso. Ele é aquele que acertou, ele é aquele que salvou, ele é aquele que resolveu. Matar é um crime, mas num certo momento o sujeito mata o outro e ele se transforma em herói. Mas afinal de contas, ele é um criminoso ou não é um criminoso? Ele é um assassino ou não é um assassino? Ah! Mas se ele matou o bandido ele é o herói. Mas tirar a vida humana não é um crime? Se todos acharem que não é, deixou de ser. Essa é a relatividade da estrutura, da organização da humanidade. Um ser humano pode parecer correto num certo momento e parecer errado num outro momento. Nós podemos tomar, por exemplo, alguns personagens da história. Tiradentes é traidor ou herói? Já foi traidor. Foi enforcado. Foi considerado um bandido, um vilão. Mas hoje ele é um herói, um herói nacional. Que policial hoje, por exemplo, de sã consciência, prenderia Robin Hood? Era ladrão, não era ladrão? Ladrão! Estava roubando. Então nossa pergunta é essa: Cadê o certo, cadê o errado? Não é isso que entra em jogo no dia a dia? O que está em jogo no dia a dia, não é a questão da lei, a questão da ordem, a questão da justiça. A lei, a ordem e a justiça são discutidas no tribunal, são discutidas por advogados, isso é uma questão de lógica, de palavras, de argumento, de retórica. No dia-a-dia entra em jogo uma outra natureza de fatos e de avaliações que não é de ordem lógica, mas sim de ordem mítica. E quando o mito aparece a razão vai por água abaixo. E o que é importante para nós é que a razão não dá poder a ninguém. Ninguém é poderoso porque tem razão. Ninguém é poderoso porque a razão está de seu lado. Poderoso é aquele que convence os outros que ele é poderoso. Poderoso é aquele que usa dos recursos míticos para se colocar como herói, como salvador, como forte, como líder, como comandante. Esse é o poderoso. Eu posso ter todos os direitos a meu favor, o errado ser considerado certo e eu o errado. O mundo está cheio de injustiças. Não é assim que a gente fala? O mundo é cheio de injustiças, sem dúvida nenhuma, injustiça do ponto de vista da razão, mas não há uma injustiça que seja do ponto de vista dos mitos? Os mitos na verdade, que nós chamamos de mitos, são as representações das grandes forças da natureza. As forças da natureza são vivas e vivem dentro de nós, ao redor de nós. Na medida em nós nos relacionamos com essas forças nós nos tornamos poderosos. O poder é isso. É identificar, não de forma racional, mas de uma forma vivencial, montar cavalo sobre essas forças e navegar com elas. Essas forças míticas são as grandes forças do universo e a pessoa que consegue se relacionar com elas é uma pessoa poderosa. Esse é um conceito do poder. Essa é a fonte do poder. O poder vem essencialmente dos mitos. Mas como é que a gente percebe os mitos? Essa é uma pergunta muito interessante. Eu vou comprar um dicionário de mitologia? Aí eu vou ficar poderoso, porque eu vou conhecer os mitos? Então, se fosse assim os mitólogos seriam os donos do mundo. O que acontece é que o mito subverte a razão, o mito é aquilo que aparece quando a gente está dormindo, quando a gente está desmaiada, quando a gente não está pensando em nada, é naquele momento que o mito emerge. Mas quando a gente olha para ele, ele desaparece. Nós não conseguimos olhar direto para o mito. O mito se evade, ele foge da nossa percepção consciente. Nós só conseguimos manter ele junto de nós, a força desse mito, o movimento que ele representa, através da ação. Uma ação pode ser mítica, o discurso não. O discurso pode retratar o mito, mas não tem a força do mito. A ação sim, ela tem o poder do mito. Alguém da platéia questiona sobre a relação dos mitos com os arquétipos. Vamos considerar que os mitos são quaisquer movimentos concretos ou abstratos que entram em ressonância com as grandes forças da natureza. Nesse sentido pode-se considerar que os arquétipos são um tipo de mito, mas há outros tipos de mitos. Ou seja, todos aqueles movimentos – o mito é essencialmente um movimento, uma pulsação, um movimento – qualquer movimento que entrou em ressonância com as forças da natureza se torna um mito dentro de nós. Reflete-se para a nossa percepção como uma força contra a qual não conseguimos lutar; ele se impõe para nós; ele acaba se refletindo na nossa consciência como se fosse uma narrativa, uma história mítica; nós percebemos o valor; a nossa interpretação das forças naturais é um mito, essa que é a idéia. Então, como é que a gente vai estabelecer uma relação com os mitos? Essencialmente agindo. E há muitas ações que nos põem diretamente em contato com os grandes mitos, que são as grandes forças da natureza. Muitas ações. Nós podemos dividir essas ações em duas; duas ordens de ações que nós vamos chamar de ações míticas que são ações que nos põem em contato com as grandes forças da natureza. Eu vou dizer qual que seria a diferença entre uma e outra. Uma é boa, outra é má. Coisa simples não é? Essa dualidade é uma dualidade que a gente pressente, mas nem sempre a gente entende. O que é uma boa ação e o que é má ação? Se vocês procurarem a literatura que existe em relação ao poder, como se tornar rico, poderoso, forte, bonito, elegante, inteligente, sem fazer força ou um curso rápido de 15 dias ou as regras básica do poder? Existem livros, livros e livros. Maquiavel foi um deles apenas, ou seja, no início da renascença já estava se discutindo a questão de como mobilizar essas forças, como ser poderoso. Então, as regras geralmente partem de certos princípios do tipo “agrade aqueles que já são poderosos”. É uma fonte de poder? Sim. Será aceito no círculo de poder. É um passo para ficar poderoso. Então vejam só, ser a ama do príncipe tornava a mulher poderosa e respeitada nas cortes antigas. Ela era uma serva, mas ela zelou do príncipe, era a serva da rainha. Então ela se torna poderosa. A rainha dava ordem para ela, mas ela dava ordem para todo mundo. O senhor de um de uma residência – não o dono – mas aquele que cuidava da residência, o majordommus, o grande senhor da residência, o mordomo. Hoje mordomo não significa grande coisa, mas no passado era o gerente da casa do poderoso. Ele era em si um homem poderoso. Condições de proximidade com o poder sempre deram às pessoas um certo poder. Por exemplo, havia uma condição de poder daquele indivíduo que cuidava dos cavalos do rei. O termo até hoje é um termo respeitado por quem não sabe o que significa, o condestável, na verdade é o conde dos estábulos. Era um título de nobreza do trabalhador que administrava o estábulo com os cavalos do rei, ou o cavalariço real. Essa é uma das formas de se tornar poderoso; pertencer ao círculo de poder; usufruir disso aí. Mas há muitas outras formas de se tornar poderoso. Por exemplo, há livros que ensinam como conquistar o sexo oposto; como arrumar um namorado ou uma namorada. Vocês já viram isso? Então, como é que se faz? Aí tem as regras... faça assim, se vista desse jeito..., fale dessa maneira..., nunca faça esse gesto, faça aquele outro..., coloque-se dessa maneira..., ponha a luz de lá para cá, não de cá para lá..., tem regras e é óbvio que vocês vão perceber que essas fórmulas lançam a espontaneidade, a naturalidade da relação, no lixo. Não tem relação nenhuma. Não são duas pessoas se relacionando. São dois arquétipos tentando se encaixar. Olha, eu faço de conta que eu sou forte, você faz de conta que acredita. E aí se estabelece uma relação de troca de interesses. Então, nós estamos falando desses exemplos que são ações míticas, porque as pessoas se baseiam em forças, em princípios míticos que são importantes para os demais, mas que são ruins, são maus porque aprisionam a pessoa, é uma camisa de força. Eu tenho que ser outra pessoa para ser poderoso. Eu quero descobrir a fórmula do poder e para ser poderoso eu preciso usar um bigode, eu preciso botar um terno, eu preciso fazer isso, eu preciso fazer aquilo, mas é coisa que eu não gosto de fazer; mas se eu não fizer eu não sou poderoso, então isso é ruim, é uma fórmula ruim de poder. Mas o que é uma fórmula boa de poder? Existe algum poder bom? Ser poderoso é uma coisa boa? Pode ser, não é? Então, para ser poderoso existem algumas coisas que podem ser feitas que são boas. Quem me dá um exemplo de uma ação mítica, uma ação que nos torna poderosos e que é uma ação boa? Alguém da platéia menciona sobre o pensamento positivo. Pensar positivamente, ser otimista, sim é uma coisa boa, mas será que dá poder? Outras pessoas participam, mencionando a qualidade das pessoas serem comunicativas. Eu conheço algumas pessoas que são muito comunicativas. Eu trabalhei com um cidadão durante cerca de quatro anos, mais ou menos, e em quatro anos eu nunca vi ele falar uma coisa que seja verdade. Mas é um cara comunicativo, fala bem, todo muito gosta dele. É bom? Ser comunicativo é ser não mentiroso. Ser comunicativo pode tornar a pessoa simpática, mas para ser bom precisa ser comunicativo de uma maneira sincera, transparente, não mentirosa. Quando a gente está falando de uma ação mítica, alguma coisa que nos torna poderosos e que é intrinsecamente boa é uma ação mítica que não nos põe em contato com forças externas, alheias a nós mesmos. Esse é o princípio de todas as escolas místicas. A escola mística é aquela que se relaciona à prática de mistérios. As pessoas que passavam pelas escolas místicas eram pessoas que se tornavam poderosas. Todos os iniciados nos mistérios eram considerados pessoas poderosas, porque tinham aquilo que foi mencionado aqui como carisma, tinham uma força que vinha de sua própria maneira de ser. Eles eram fortes, poderosos, ou são, porque ainda existem. As pessoas que passam pelo processo de iniciação nos mistérios se tornam poderosos porque se tornam eles próprios, porque são diferentes. Tornam-se diferentes do resto. Um artista é precioso, ele é considerado valioso, o trabalho dele é brilhante, é criativo, quando é diferente. Um artista que só copia aquilo que outro já fez não vale nada. A mesma coisa vale para o ocultismo, para a filosofia, a mesma coisa vale para quem está no caminho da espiritualidade ou do ocultismo. Quer poder? Seja autêntico. Esse é o primeiro passo, a primeira regra do poder. É o princípio básico da Sociedade Teosófica, a verdade acima de tudo. Sem verdade não tem poder. A religião que nos põe em contato com o poder, com a grande força criadora do universo, é a religião da verdade. Ser autêntico é a regra básica, ser verdadeiro é a regra fundamental. A mentira enfraquece o ser humano. Isso é uma regra fundamental. Então, o que é uma ação mítica boa? É uma ação mítica que nos torna mais autênticos, mais verdadeiros, mais naturais, mais espontâneos na nossa relação conosco, antes de qualquer coisa. Agora, não basta ser autêntico. Um autêntico tímido é uma pessoa fraca. Uma pessoa espontânea, mas tímida, recolhida, retraída, é uma pessoa fraca. Ela disse bem, a comunicação fortalece a pessoa, mas a comunicação autêntica, espontânea, natural, transparente, verdadeira, essa é a comunicação boa; é a ação mítica boa; que vai colocar ela em contato com as grandes forças construtivas da natureza. Essa relação do ser humano com o poder tem um aspecto importante a ser considerado. Existem mecanismos do poder. Nós dizemos que o poder tem uma fonte. É essencialmente o mito. O mito dá poder ao ser humano. O poder de influência de uma mãe sobre o filho não vem do fato de ela ser naturalmente uma mulher poderosa; mas pelo fato de na mente dessa criança ela encarna o mito da mãe; ela é aquela que o gerou, que o criou, a terra matriz; ela é o mito poderoso da grande mãe; ela é uma deusa; ela pode ter o defeito que tiver, mas enquanto durar esse mito na mente da criança a mãe tem autoridade, tem poder sobre essa criança. Então quanto essa criança perde esse contato com os mitos? Na medida em que ela vai desenvolvendo a razão, o intelecto, vai se tornando crítica; é na adolescência que ela perde o contato com os mitos e se desilude com os pais; geralmente começa a ser adversário; começa a disputar o poder e a autoridade com os pais; mas enquanto ela está sob o domínio dos mitos, enquanto a razão da criança não é o suficiente para apagar a relação dela com o inconsciente, com os mitos, ela respeita os pais, ela ouve, ela obedece, ela tem uma admiração, um respeito pela autoridade de seus pais. Se bem que há pais que são tão fracos, tão mentirosos, que não conseguem nem numa criança pequena impor o mínimo de respeito, mas numa situação normal, pais normais vivem um mito para a criança. Mas há um detalhe nesse exemplo da criança que é importante para nós entendermos o processo mitológico ou mítico do poder. É que o poder tem um mecanismo para se manifestar e esse mecanismo está baseado na percepção, está baseado mais do que na percepção, na atenção do outro. Vejam bem! Não basta ser poderoso para si mesmo. É preciso que os outros percebam esse poder. É como diz um advogado: não basta ser honesto, tem que parecer honesto também. O sujeito honesto que parece um bandido ele vai ser preso e condenado, porque todo mundo está convencido de que ele é bandido. Tem que ser honesto e parecer honesto. Tem que ser poderoso e parecer poderoso e como a gente parece poderoso? Como a pessoa parece poderosa? Como uma pessoa convence os outros que ele é poderosa? Alguém da platéia responde que é através da ação. Às vezes agir funciona, às vezes não funciona. O que acontece é o seguinte. As pessoas estão de tal maneira entorpecidas, a sua atenção está de tal maneira voltada para valores impostos socialmente, para valores sociais, que elas dificilmente percebem os sinais de força quando ela se manifesta de fato. Uma coisa complicada é isso, nós nos deparamos com pessoas fortes, capazes, pessoas que são capazes de mudar o mundo e não percebemos a presença dessas pessoas; não conseguimos perceber, porque a nossa atenção não se volta para essas pessoas, a nossa atenção está na televisão, está no programa da casa dos artistas, no big brodher e não sei o que mais que faz a gente mergulhar numa fantasia; nós vivemos numa fantasia; nós vivemos num outro mundo; nós estamos torcendo lá para personagens que nem existem, que são uma farsa; e nós damos a nossa atenção a isso e não damos a nossa atenção àqueles que efetivamente estão buscando o poder bom. Se nós não estamos prestando atenção nas coisas boas uma parte da culpa é nossa, mas e a responsabilidade do outro lado. Observem um detalhe importante. Se eu sou um mestre poderoso, sábio, cheio de pureza, de bondade, de alegria, eu vou me esconder na montanha. Aí eu digo, o mundo não liga para mim, mas ninguém sabe onde ele está, não é verdade? Vocês já ouviram essa expressão: “Quando o discípulo estiver preparado o mestre aparece”. Eu sinceramente duvido muito. O discípulo não se prepara sozinho. Mestre, por definição, é a pessoa que deve ser imitada. É aquele que trabalha bem, faz bem as coisas e conseqüentemente os aprendizes ao seu redor imitam ele. Esse é o mestre. Sempre foi assim. O mestre é um sujeito que tem perfeição em alguma atividade, em algum ofício. Um mestre em sabedoria é aquele indivíduo que age com sabedoria, aquele indivíduo que sabe agir com sabedoria e que conseqüentemente está sempre cercado de discípulos que querem aprender a ser como ele. Então, imitam. Entrar em ressonância com o modo dele ser para ver se se tornam parecidos no futuro, para ver se manifestam algum tipo de sabedoria. Agora, se eu sou um indivíduo dedicado à prática do bem, mas que eu fico me escondendo, vou para sombras; cadê o poder? Não se manifesta! É um poder individual; é uma conquista individual, que não leva a humanidade nem um passo para frente. O mestre que se esconde não ajuda a humanidade. É um problema grave. Para que o poder seja bom, seja útil, ele precisa chegar às pessoas. Se vocês perguntarem para um cidadão mediano hoje, o que ele acha do poder, ele vai dizer que o poder é podre, que os poderosos são todos ruins, são maus, todo homem rico é ruim, todo político é ruim, todo militar é ruim, todo mundo que tem poder é ruim. Mas o padre, o sacerdote, não tem algum poder? Ah! Mas é tudo corrupto, são todos pervertidos, não tem um que presta. As pessoas estão com uma percepção distorcida do poder. O poder só é ruim na mão das pessoas ruins, na mão das pessoas boas o poder é bom. Há um problema em relação ao poder. O que dá força ao poderoso não é ele ser poderoso, é nós aceitarmos que ele é poderoso, é nós acreditarmos que ele é poderoso, é nós darmos atenção às coisas que ele indica para nós. Na platéia alguém faz uma colocação sobre a questão do poder e a autoridade. O problema da autoridade falsa é que ela é esvaziada. Autoridade autêntica é aquela que está preenchida com valores míticos. Por exemplo, eu olho para você e digo: “esse cara parece um cara forte”. Você pode ser fraco, mas eu estou achando que é forte; aí eu compro uma briga e digo “ele vai me defender”. Mal sei eu que ele vai ser o primeiro a fugir, mas eu estou me fiando no poder, na força que eu sinto nele para enfrentar uma situação de perigo. Isso é, mais ou menos, o princípio de funcionamento do poder. É um ponto de ilusionismo. É como se diz, as pessoas ruins estão tão voltadas para si mesmas, que elas podem ser facilmente ludibriadas. As pessoas boas estão tão voltadas para os demais que ninguém engana elas; ninguém ilude uma pessoa boa. Essa pessoa não sai de seu caminho. O mal pode ser resgatado, o bom dificilmente é derrubado. Então, são essas coisinhas que dão força ao bem. O mal geralmente é egoísta; acaba ficando sozinho, acaba enfraquecendo ou ficando isolado. Os bons são solidários; geralmente dão as mãos e formam uma grande rede; dão força uma para o outro. Vamos fazer aquela balança: O mal é muito mais forte do que o bem. Se nós fizermos uma relação de um para um, o mal ganha, ele pesa mais. Haja visto que para eu construir um prédio eu levo meses; para destruir, em poucos segundos, dinamito ele. Destruir é fácil; boto um carro-bomba aqui na frente e desaparece metade do centro da cidade. É fácil destruir. O mal é forte, poderoso, mas o bem é organizado. O mal é egoísta, é isolado. Essa é a nossa sorte. O mal só se torna forte quando ele se organiza. O crime organizado é o terror do mundo; é o grande o único mal do mundo; o crime organizado é difícil de se combater. Agora, [voltemos] a questão do poder. Nós temos que ter a percepção do poder e temos que emprestar a nossa atenção ao poder. Mas que atenção? Porque sem a nossa atenção não tem o poder. Qual é o poder da rede globo? É a atenção de cada um de nós. Cada vez que uma pessoa liga a televisão e fica olhando para a rede globo ela fica mais poderosa. Não tem outra razão para ela ser poderosa. Ela só é poderosa por que eu acredito que ela é poderosa. Eu não tenho nada contra a rede globo; eles estão fazendo a coisa certa; é uma empresa que quer lucro; para ter lucro precisa ter audiência; para ter audiência precisa ser forte, ter essa aura de poder, e aí o anunciante vai lá e dá dinheiro para ela, para aparecer, porque ele sabe que vou estar olhando para ele. É um princípio muito simples: O poder depende da nossa atenção. O que acontece com a poderosa rede globo se todos se cansarem dela e não mais a assistirem. Ela quebra em três meses. Três meses sem audiência é suficiente para todos os anunciantes cancelarem seus anúncios. E aí acabou a rede globo, o poder. Então vejam, o poder está intimamente ligado à atenção. A fonte do poder é um mito. Mas o mito precisa ser captado pela nossa atenção. Nós não vamos perceber o mito automaticamente. Nós temos o nosso livre arbítrio que nos permite escolher onde que nós vamos procurar o mito. Esse é o ponto essencial que pode desequilibrar o poder do mundo. Há muitas pessoas poderosas, mas cabe a nós escolher qual delas que vai se realizar na prática. Por que Adolf Hitler foi um terror para a humanidade? Por que ele veio com uma mensagem maluca e um monte de gente achou que ele estava certo? Ele poderia ser um “pintorzinho” medíocre; um aquarelista medíocre, que ia passar o resto da vida vendendo quadros num parque qualquer de Hamburgo ou de Berlim. Por que ele se tornou o grande tirano, o grande ditador do século XX? Por que ele é o símbolo do mal? Tem gente que diz que ele é a reencarnação do demônio, do mal. Por que? Porque as pessoas deram importância para ele. Cada alemão que deu importância a ele o ajudou a ser um mestre, o poderoso, o grande chefe do clã dos demônios. Não temos só a vitória do mal nesse processo do poder. Vejam o que aconteceu com a Índia, com Mahatma Gandhi. Um pouco antes da independência da Índia, quando aquilo, com a orquestração dos britânicos, estava virando um caldeirão para cozinhar a raça humana toda lá dentro, estava em curso um jogo horrível de jogar irmão contra irmão, vizinho contra vizinho. A Índia estava mergulhando no caos, na violência. Então um homem sozinho, Mahatma Gandhi, fazendo jejum, dizendo que iria morrer de fome se eles não parassem de brigar, conseguiu que a Índia ficasse em paz; conseguiu que 350 milhões de indianos parassem de brigar uns com os outros. Como é que um homem tem esse poder de influenciar tantos milhões de pessoas, sozinho, quase nu, sem nenhuma posse, sem nada? Como esse indivíduo tem essa capacidade? Que poder é esse? Ele não tem esse poder sozinho. Os indianos tinham a necessidade da paz. Ele foi o porta-voz. Alguém acreditou e disse para o outro, que disse para o outro e disse para o outro e aquilo virou uma rede e todo mundo deu atenção a ele e ele virou o baluarte. Ele era a referência da paz. Ele podia ser um incendiário, dizer “gente, vamos acabar com a vizinhança, vamos destroçar os islâmicos, eu sou hindu, vamos acabar com o islamismo”. Ia ser um banho de sangue, sem dúvida nenhuma. Alguém argumenta que ele tinha um poder espiritual. Mas o que é poder espiritual? Onde é que se manifesta o poder espiritual? O quê acontece é que uma pessoa que tem força espiritual é uma pessoa que tem caráter; é uma pessoa que se determina a fazer uma coisa e se fixa intensamente naquilo - e a gente percebe que ela está sempre coerente com seus princípios internos. Agora, uma pessoa de caráter nem sempre é uma pessoa boa. O sujeito pode ter um caráter forte e ser um sujeito ruim. O chefe de um clã da máfia, por exemplo, é uma pessoa de caráter; você sabe como ele vai se comportar; você sabe, se você não andar na linha ele vai te dar um tiro; será que ele tem força espiritual? Vejam só! É uma coisa curiosa; ele tem uma força que é de natureza espiritual sem dúvida nenhuma; ele tem o poder de influenciar as pessoas; ele tem uma ascendência sobre as pessoas; mas muito da força dele não está baseado efetivamente na natureza espiritual, está baseado no medo que as pessoas têm de provocar a ira, a raiva dele. Então aí que a gente começa a distinguir um do outro. Mahatma Gandhi era sincero. O Adolf Hither não era sincero? Não sei, pode ser que ele fosse. Só que ele escolheu o bonde que levava à destruição. Mahatma Gandhi dizia, “nós não devemos confrontar Hitler, nós devemos ignorá-lo, porque nós estamos dando força a ele. Nós devemos perdoá-lo e esquecê-lo. Vamos ignorá-lo. Vamos mostrar para ele o sofrimento que ele já produziu. Vamos mostrar isso para o povo alemão. Será que eles não vão se sensibilizar?” Talvez sim. Mas ninguém deu ouvido para o Gandhi. Churchill, com seu charutão, disse “nós temos que fazer a batalha chegar a seu limite; botar nossos heróis para lutar”. E nesse momento ele está encarnando o mito do herói; o sujeito que vai sozinho e enfrenta o leviatã. Enfrenta a grande baleia do inimigo; pronta para devorá-lo. Esse era outro mito que estava forte naquele momento. São os mitos. E o jogo do poder é um jogo de mitos, onde não importa a fonte interna de cada um, mas o que está importando para a gente é a fonte coletiva desse poder, porque o poder individual não leva a sociedade ao desenvolvimento, ao progresso ou à destruição; é o poder coletivo de muitos indivíduos que acaba por levar a sociedade à destruição ou ao crescimento. Alguém da platéia pergunta sobre o mito de Hitler. Sempre entenda que há o mito bom e o mito ruim. O mito ruim é aquele que faz o indivíduo desempenhar um personagem que não é ele e, conseqüentemente, vai colocar esse indivíduo talvez numa posição de poder, mas em conflito permanente consigo mesmo. Marilyn Monroe morreu do quê? De overdose de drogas; ela morreu usando drogas, porque ela não estava suportando o fato de fazer um papel, um personagem que não era ela. Ela havia se tornado o símbolo sexual da humanidade, na época. A mulher que todo homem queria ter em sua cama. Mas, não era isso que ela queria. Não era esse o sonho dela. Não era esse o objetivo dela. Ela disse isso para as pessoas que ela queria bem. Então, o que significa isso? Ela estava vivendo um mito maligno. Ela estava vivendo uma ação mítica ruim, prejudicial; e isso não é bom. Nós criamos certa vez um presidente da república com base num mito também: deveria ser o caçador dos marajás; o lutador pela moralidade, etc. Mas, ele era assim, na verdade? Ele era uma pessoa íntegra, moral, caçando marajás, destruindo o mal que existia no governo? Infelizmente não era - e essa contradição acabou produzindo mais mal do que bem. Alguém da platéia questiona sobre a condição oculta dos Mestres e o momento de sua manifestação. O mestre somente é mestre se ele tiver discípulo. O mestre só é mestre se ele puder ser imitado, copiado, se ele puder servir de exemplo. Então, o mestre que está sempre oculto pode ser qualquer coisa, menos um mestre; pode ser um espírito do bem, um espírito que influencia as pessoas à distância, mas não é um mestre. O que é um mestre? O mestre é uma pessoa que chega, dá o exemplo e todo mundo diz: “esse cara está certo”. Esse é o mestre. Então, o mestre vai passar momentos de isolamento? Todo mundo precisa passar momentos de isolamento. Posso conversar o dia inteiro, mas à noite eu tenho que dormir; eu não vou dormir conversando. Então, nós temos momentos de recolhimento e momentos de manifestação; momentos de ação e momentos de recolhimento. Momentos da consciência e momentos do inconsciente. Nós precisamos desses momentos de isolamento, de inconsciência para recuperar nossas forças. A consciência consome nossas forças; esgota nossas forças. Você tentar ficar prestando atenção em tudo que acontece, se informar de tudo, você vai ter uma dor de cabeça, vai ter um mal estar, vai ficar tonto. Então, nós prestamos atenção nas coisas e quando aquilo cansa, a gente vai dormir, vai descansar, vai se recolher; de repente você quer silêncio, vai para o meio de uma mata, fica lá um tempo, escutando os passarinhos. Então, nós alternamos, porque tudo na natureza é assim, oscila, tem ciclos, etc. E com os mestres é a mesma coisa; um dia ele ensina, o outro dia ele descansa, mas se ele ficar permanentemente oculto ele deixa de ser mestre, não é mestre. Quando nós falamos em poder espiritual, poder oculto, poder mítico, nós sempre falamos nos Mestres, mas nós vamos cair naquela pergunta. O que é um Mestre? Jesus era um Mestre? Vamos falar sobre Jesus por um instante. Por que Jesus é tão conhecido? Ele nunca se divulgou. Jesus é um absoluto desconhecido na história de Israel e na história de todo o entorno; de toda a região. Ninguém fala nele. Quem fala nele? Os apóstolos, mais especificamente Paulo e os evangelistas. O que estavam próximos dele não falam dele. Não há registro dele. Diz-se que os judeus tinham medo dele, que o preposto romano em Israel lava as mãos e entrega ele para o sanedrim, para os sacerdotes julgarem ele, por tem medo da reação do povo. O povo nem sabe da existência desse Rabi. Não há notícia da existência dele, da passagem dele, exceto pelos escritos cristãos. E o cristianismo só nasce depois que ele já morreu. O cristianismo nasce em 42 e 43 da era cristã, em Antióquia, por Paulo. Então, vejam só, por que ele ficou conhecido? É porque ele propagava a mensagem para o povo? Não, o trabalho dele era silencioso, era reduzido. Ele era um indivíduo que dava um exemplo de vida e era seguido por alguns. Assim se revela a imagem dele. Gautama, o Buddha, era um sujeito que fez propaganda, que foi fazer discurso para todo mundo? Não, era um sujeito discreto, ficou desconhecido até depois da sua morte. Aquele parente dele, chamado Ananda, que vai ser o seguidor, que vai inaugurar uma ordem, que vão tentar seguir e manter o exemplo dele, é que começa o processo de deixar viva a memória dele. Eles começam a escrever o que ele fez. Escrevem tanto que se somar tudo que ele fez nos escritos ele precisaria ter vivido uns quatrocentos anos. Tanta coisa que atribuíram a ele. Mas, era ele que propagava isso? Não. A maior parte dos Mestres efetivamente vai nascer, crescer, viver e morrer despercebido. Porque somente aqueles que tiverem a sensibilidade para dar atenção, para perceber que ele é um Mestre vão ser capazes de tirar proveito da presença do Mestre. Não basta que o Mestre esteja aqui; nós precisamos reconhecer nele a condição de Mestre. Agora, se eu considero que o mestre é um sujeito bonitinho, rico, bem relacionado, um sujeito que fala bem; eu posso estar do lado de um e não reconhecê-lo; tratá-lo com desprezo inclusive. Ele pode ter uma aparência ruim, pode ser um analfabeto, pode não saber se expressar direitinho, mas ele é um mestre e eu sou uma “besta”. Então, essa situação é possível, porque a nossa atenção está desviada do essencial. O essencial é invisível para os olhos, disse Saint Exupéry. Não sei se ele era um mestre ou se ele não era, mas, ele falou muito certo: “O essencial é invisível para os olhos”. Nós tentamos achar com os olhos o que só se percebe com o coração. O mestre a gente percebe quando a gente está sensível às coisas humanas, às coisas verdadeiras, e nem sempre estamos sensíveis. Não há dois, três, quatro tipos de mestre. O que encontramos, ao longo da história, são aqueles mestres que, pelas circunstâncias, ficaram expostos. Quando se expõe um Mestre e é um Mestre místico, ou seja, relacionado aos mistérios, ele é quase sempre sacrificado. Revelou, apareceu, “cortem-lhe a cabeça!”. Geralmente quando os Mestres são vinculados aos mistérios eles acabam pó ficar nas sombras. Isso é uma regra. Não se pode, por ser uma regra da prática dos mistérios, alardear por aí o que são os mistérios, o que se faz, o que se deixa de fazer, não é esse o procedimento. Os mistérios tornam a pessoa autêntica, tornam a pessoa natural, espontânea, forte, vigorosa, ativa. Aí essa pessoa vai fazer o quê? Vai vender ingressos para os mistérios? Não. Ele vai ficar no seu canto, vai dar um exemplo vivo de perfeição, vai esperar que as pessoas se aproximem dele, seguindo seu exemplo, e mais nada, apenas multiplicando esse exemplo por aí. Esse é o princípio do mestrado. Esse é o princípio do caminho da iluminação. Nós temos a tendência de pensar que há uma organização. Quando se fala, por exemplo, a Grande Fraternidade Branca, parece que é uma organização do tipo da IBM, mas que em vez de cuidar de informática cuida de “espirituática”, e que vai determinar como será o caminho da humanidade no futuro... A coisa não é assim. Isso é orgânico, é vida. A vida não é planejada. Tudo que acontece de bom para a gente, não acontece porque nós planejamos. É bom porque acontece inesperadamente. Acontece de uma forma viva, não planejada. O planejamento faz parte da razão e a razão quase sempre leva a gente para as coisas erradas. A razão se estrutura em torno de valores temporais, valores intelectuais. O nosso coração tem a capacidade de sentir aquilo que é permanente, ele sente aquilo que é importante. A questão do Mestre é que não há um tipo de mestre e outro tipo de Mestre. A literatura teosófica, quando ela foi dirigida por ingleses, boa parte dela foi muito orientada para o intelectual, para o racional. Ora... são sete raios, são sete Mestres, é uma hierarquia assim, são nove graus de iniciação, depois tem mais um décimo misterioso, depois tem isso e aquilo.... Isso não ajuda em nada a humanidade. Para nós tanto faz saber se são 10 ou 10 mil ou 200 mil ou 60 mil ou 2; quantos Mestres são ou como eles são, para mim não importa! O importante, na verdade, é a essência do mestrado. A perfeição, a busca da perfeição humana. Que não é a perfeição externa. Não é a perfeição da forma. É a perfeição na ação. É ser perfeito por agir e ser perfeito no agir. Ser coerente, sincero, espontâneo, natural. Isso é difícil. É difícil ser eu mesmo. Não é difícil eu ser você ou ser o outro; eu imito qualquer pessoa. Nós seres humanos somos excelentes imitadores. O difícil para nós é descobrir no que eu sou diferente e ser, efetivamente, essa diferença. Ser, aceitar minha diferença por que essa diferença é a minha contribuição para a humanidade. É nessa diferença que eu me torno um mestre. Se eu não reconhecer a minha essência espiritual que é aquilo que me distingue, me caracteriza e me identifica perante a natureza, se eu não perceber isso dentro de mim, não realizar, não manifestar, a minha vida foi inútil. Essa é a essência do mestrado. Se nós nos colocamos em condição de perceber. Se nós tiramos fora de nossas cabeças os nossos preconceitos em relação ao o que é o Mestre, nós vamos identificar o mestre em cada pessoa com quem a gente se relaciona, porque tem um mestre dentro de cada um. Existe uma perfeição latente em cada um. Mas os nossos olhos que se atentam ao lado de fora, ao lado externo, só vêem as imperfeições expostas e não vêem a perfeição que está lá dentro. A gente aprende com cada pessoa com quem a gente se relaciona e é sempre bom lembrar que o ser humano sem relacionamento com outros seres humanos não é nada. Os meninos-lobo eram os animais com os quais eles viveram. Por que eles não manifestaram a superioridade humana; nós não somos evoluídos; nós não somos o ápice da evolução; o animal que é capaz de manifestar inteligência que os outros não têm. Só que quando estamos sozinhos na natureza não somos nada. O ser humano é coletivo. O ser humano só manifesta o seu lado humano junto com outros seres humanos. E pobre daquele que diz, “eu sou o que sou por força de meu mérito pessoal, eu sou o que sou, eu me fiz sozinho, não dependo de ninguém”... além de tudo ele é um iludido. Por que só chegou onde chegou por causa de todas as pessoas com quem ele se relacionou na vida. Se ele se relacionou mal, problema dele, pior para ele, poderia estar muito melhor, com muito menos vaidade. O mestrado não é algo racional, intelectual, formal, organizado, estruturado. Ele acontece naturalmente, é orgânico, é natural. O Mestre está integrado à natureza, mas o seu poder não vem daí, o seu poder vem da sinceridade dos seus atos. E a força social dele vem da percepção que as pessoas tem desse poder que ele manifesta.
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