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A Liberdade de Pensamento
Qui, 05 de Junho de 2008 12:42

A Liberdade de Pensamento
Ricardo Lindemann

 “A Sociedade Teosófica e seus membros estão lentamente manufaturando um credo. Diz um provérbio tibetano: ‘Credulidade gera credulidade e termina em hipocrisia.’  Quão poucos são aqueles que podem saber qualquer coisa a nosso respeito.” Como nós reagiríamos se recebêssemos uma carta nestes termos, dirigida à nossa pessoa e assinada pelo mestre K.H.? Foi o que aconteceu com a Dra. Annie Besant em agosto de 1900, portanto nove anos depois do falecimento de H.P. Blavatsky – a última carta pessoal dos Mestres de Sabedoria, que se tenha notícia.

É muito provável que o trecho acima, extraído de tal carta tão singular, tenha impressionado a Dra. Annie Besant, porque foi em sua gestão, quando a partir de 1907 tornou-se a Presidenta Internacional da Sociedade Teosófica, que o Conselho Geral Internacional decidiu explicitar a resolução da Liberdade de Pensamento: “Como a Sociedade Teosófica espalhou-se amplamente pelo mundo, e como membros de todas as religiões tornaram-se filiados a ela sem renunciar aos dogmas, aos ensinamentos e às crenças especiais de suas respectivas fés, é considerado desejável enfatizar o fato de que não há nenhuma doutrina, nenhuma opinião, ensinada ou sustentada por quem quer que seja, que esteja de algum modo constrangendo qualquer membro da Sociedade, nenhuma que qualquer membro não seja livre para aceitar ou rejeitar. A aprovação dos seus três Objetivos é a única condição para a filiação. Nenhum escritor ou instrutor, a partir de H.P. Blavatsky, tem qualquer autoridade para impor seus ensinamentos ou suas opiniões sobre os associados. Cada membro tem igual direito de seguir qualquer escola de pensamento, mas não tem o direito de forçar qualquer outro membro a tal escolha. Nenhum candidato a qualquer cargo, nem qualquer votante, pode ser tornado inelegível para concorrer ou votar por causa de suas opiniões ou por sua filiação a qualquer escola de pensamento. Opiniões e crenças não concedem privilégios nem infligem penalidades. Os Membros do Conselho Geral solicitam seriamente que cada membro da Sociedade Teosófica mantenha, defenda e aja de acordo com estes princípios fundamentais da Sociedade e também exerça destemidamente seu próprio direito de liberdade de pensamento e de expressão, dentro dos limites da cortesia e da consideração para com os demais.” Madame Blavatsky também se preocupava com esta questão, conforme considera em A Chave Para a Teosofia: “... referia-me à grande necessidade de julgamento claro e sem preconceitos que nossos sucessores na direção da Sociedade terão. Todas as tentativas como a da Sociedade Teosófica até agora terminaram em fracasso, porque, mais cedo ou mais tarde, degeneraram em seitas, estabeleceram dogmas próprios rígidos e fechados, e logo foram perdendo, pouco a pouco e imperceptivelmente, a vitalidade que apenas a verdade viva pode transmitir. Você deve lembrar-se de que todos os nossos membros nasceram e foram criados em algum credo ou religião; de que todos pertencem, mais ou menos, tanto física como mentalmente, à geração que pertencem e, conseqüentemente, seu julgamento mais que provavelmente poderá ser deformado e inconscientemente determinado por algumas ou todas essas influências. Se, portanto, eles não puderem livrar-se desses preconceitos inerentes, ou pelo menos ser ensinados a reconhecê-los instantaneamente e assim evitar ser desencaminhados por eles, o único resultado possível é a Sociedade ficar à deriva e ser arrastada para algum banco de areia mental e permanecer ali como uma carcaça encalhada para morrer e apodrecer.”

Para evitar tal futuro sombrio para a S.T., é notável a ênfase que H.P. Blavatsky põe no dever dos fundadores: “Eles têm de se opor da maneira mais forte possível a qualquer parecença de fé dogmática e fanatismo – crença na infalibilidade dos Mestres, ou mesmo na própria existência de nossos invisíveis Instrutores...” Talvez por isso, mais recentemente, sob convocação da atual Presidenta Internacional, Dra. Radha Burnier, o Conselho Geral Internacional resolveu enfatizar: “... A crença de que os escritos de H.P.B. e as Cartas dos Mahatmas constituem a única fonte da mensagem que a Sociedade Teosófica deve promulgar não pode ser imposta aos membros, na medida em que tal limitação é contrária àquela Liberdade de Pensamento. Cada um deve ter a liberdade de decidir o que melhor auxilia a compreensão de si mesmo e provê inspiração para se trabalhar em prol do ideal de progresso e perfeição humanos.” O próprio Mestre K.H., por exemplo, pede desculpas, na carta nº 117 Cron. (ou 93 na 3ª ed.),  pelo erro no processo de precipitação da carta nº 12 Cron. (ou 6 na 3ª ed.), demonstrando as limitações de tal processo – que portanto não é infalível – nas seguintes palavras: “A carta em questão foi estruturada por mim enquanto viajava no lombo de um cavalo. Ela foi ditada mentalmente na direção de um jovem chela (discípulo, NRL) e ‘precipitada’ por  meio dele, que ainda não era perito neste ramo da química psíquica, e que teve de transcrevê-la a partir da impressão dificilmente visível. Por conseguinte, a metade dela foi omitida e a outra metade foi mais ou menos distorcida pelo ‘artista’.”

Por outro lado, recomenda-se o estudo da obra de H.P. Blavatsky e das Cartas dos Mestres, particularmente visando tentar averiguar, conforme Aos Pés do Mestre considera: “Se já viste o Mestre, n’Ele confiarás plenamente através de muitas vidas e mortes. Se ainda não O viste, mesmo assim tens de tentar averiguar a Sua existência e confiar n’Ele, porque, se não o fizeres, nem mesmo Ele poderá ajudar-te. A não ser que haja perfeita confiança, não poderá haver perfeita efusão de amor e poder” Todavia, a crença na existência dos Mestres não é obrigatória para o membro da Sociedade Teosófica, porque nela impera a Liberdade de Pensamento.
Recomenda-se, também, uma dieta lacto-ovo-vegetariana, a partir da compreensão da unidade da vida divina em todos os seres, particularmente visando minimizar o sofrimento e a matança dos animais, cujo sistema nervoso organizado é capaz de sentir tanta dor quanto o nosso, conforme se encontra em Aos Pés do Mestre: “deves ser cuidadoso para não causar dor a nenhum ser vivo...” “Sei que tu não farias coisas tais como estas; e pelo amor de Deus, quando a oportunidade se oferecer falarás claramente contra elas...”  “Pensa tu na horrível matança produzida pela superstição de que animais devem ser oferecidos em sacrifício, e pela ainda mais cruel superstição de que o homem necessita de carne para alimentar-se.” Ainda assim, a prática do vegetarianismo não é obrigatória para o membro da Sociedade Teosófica, porque nela impera a Liberdade de Pensamento.

Recomenda-se, ainda, a abstenção do uso de fumo, álcool e drogas, que perturbam a clareza da mente para prática diária da meditação, conforme encontra-se em Aos Pés do Mestre: “O corpo é o teu animal – o cavalo sobre o qual montas. Portanto deves tratá-lo bem e cuidar bem dele, não deves sobrecarregá-lo de trabalho, deves alimentá-lo corretamente, só com alimentos e bebidas puros, e mantê-lo sempre minuciosamente limpo, sem o menor resquício de impureza. Pois sem um corpo perfeitamente limpo e saudável, não podes realizar a árdua tarefa de preparação, nem podes suportar o seu incessante esforço.” Todavia, a abstenção do uso de fumo, álcool e drogas não é obrigatória para o membro da Sociedade Teosófica, porque nela impera a Liberdade de Pensamento.

De um modo mais abrangente, na verdade, para evitar causar dor a qualquer ser vivo, recomenda-se a observação dos cincos preceitos (Pancha-sila) do Senhor Buddha: “Observo o preceito de me abster de destruir a vida dos seres; Observo o preceito de me abster de roubar; Observo o preceito de me abster de relações sexuais ilegais; Observo o preceito de me abster da mentira; Observo o preceito de me abster de embriagar-me.” Evidentemente, nenhuma destas recomendações é obrigatória para o membro da Sociedade Teosófica, porque nela impera a Liberdade de Pensamento.

Por outro lado, para aqueles que seguem naturalmente todas as recomendações mencionadas anteriormente, a nossa Presidenta Internacional, Dra. Radha Burnier, comenta em sua obra A Sociedade Teosófica Hoje: “Há uma Escola Esotérica ligada à Sociedade Teosófica na qual podem ingressar, se assim o desejarem, aqueles que tenham sido membros da Sociedade por um certo tempo, preenchendo as condições requeridas. A Escola Esotérica existe para os que desejam viver verdadeiramente a vida teosófica, e não apenas estudar teosofia e assuntos correlatos. A Sabedoria vem para aqueles cujas mentes são capazes de recebê-la. Os membros da Escola Esotérica preparam-se para uma vida de pureza e autodisciplina para se tornarem dignos de receber a Sabedoria. Ninguém, na Sociedade Teosófica, tem a obrigação de ingressar no Caminho de Virtude e Altruísmo que leva à Sabedoria e à Verdade. Mas aqueles que estão na Escola Esotérica voluntariamente aceitam as sérias obrigações dos que querem trilhar o Caminho.” Todo membro da Sociedade
Teosófica no Brasil recebe esse sagrado convite no Discurso de Boas-Vindas aos Novos Membros que acompanha o seu diploma de filiação, mas nem sequer a leitura do Discurso de Boas-Vindas da Presidenta Internacional é obrigatória, porque na Sociedade Teosófica impera a Liberdade de Pensamento.

A respeito desta questão os Mestres consideram: “Não pedimos aos membros da Sociedade em seu conjunto que sustentem algo em comum salvo o primeiro e grande objetivo sob cuja égide Nós os recebemos neste recinto externo do Nosso Templo.” “Não posso trabalhar a não ser com aqueles que queiram trabalhar conosco.”  “Jamais tentamos submeter à nossa a vontade de outrem.” “Se vos exigisse que fizésseis esta ou aquela coisa, em lugar de simplesmente vos aconselhar, seria eu o responsável por todos os efeitos que decorressem do passo dado, e a vós só caberia um mérito secundário.”

Este é um dos principais motivos pelos quais na Senda do Ocultismo ou Raja-Yoga a Liberdade de Pensamento é tão importante – porque o mérito ou a responsabilidade kármica referente à escolha de uma pessoa produz efeitos proporcionais sobre todos aqueles que participaram interferindo ou principalmente dando ordens para que tal caminho fosse escolhido. O Mestre K.H. também considera: “Visto ser cada um de nós o criador e produtor das causas que levam a tais ou quais resultados, compete-nos colher apenas aquilo que semeamos. Nossos chelas (discípulos, NRL) só são ajudados quando estão inocentes nas causas que os levam à perturbação, quando tais causas são geradas por influências estranhas e externas. A vida e a luta pelo Adeptado seriam muito fáceis, se tivéssemos sempre varredores atrás de nós a limpar os efeitos por nós gerados em nossa inconsideração e presunção”. “Não guiamos nunca nossos chelas (mesmo os mais avançados), nem os advertimos previamente, deixando que os efeitos produzidos pelas causas que eles próprios criaram, lhes ensinem pela melhor experiência”. “O chelado revela o homem interno e traz à existência os vícios e as virtudes adormecidos. O vício latente gera pecados ativos e é freqüentemente seguido de insanidade.”

Madame Blavatsky enfatiza tal efeito de “provação” para o qual a escolha da pessoa deve ser totalmente livre, na Advertência Preliminar: “Há em Ocultismo uma estranha lei que tem sido confirmada e comprovada pela experiência de milhares de anos, e que nunca falhou em quase todos os casos desde a fundação da Sociedade Teosófica. Sempre que alguém presta o juramento de ‘aprendiz’ ou discípulo ‘em prova’, certos efeitos ocultos desde logo aparecem, o primeiro dos quais é o abrolhar de tudo o que está latente na natureza do homem: defeitos, hábitos, qualidades e desejos reprimidos, sejam bons, maus ou indiferentes.”

Sobre a prática do Raja-Yoga preliminar ou período probatório da Senda do Ocultismo, Dr. Taimni comenta: “Qualquer pessoa familiarizada com o objetivo da vida do Yoga e com o tipo de esforço necessário para alcançá-la, compreenderá que não é possível nem recomendável para alguém absorvido pela vida mundana e completamente sob a influência dos Kleshas lançar-se de uma só vez na prática regular do Yoga. ... A diferença entre a perspectiva da vida do homem mundano comum  e da vida que se requer que o yogi viva é tão grande, que uma súbita mudança de uma para a outra não é possível, e, se tentada, pode produzir uma reação violenta na mente do aspirante, lançando-o de volta à vida mundana com uma força ainda maior. Um período preparatório de autotreinamento, no qual ele vai gradualmente assimilando a filosofia do Yoga e sua técnica e acostumando-se à autodisciplina, torna a transição de uma vida para outra mais fácil e mais segura. Conseqüentemente, também habilita o simples estudante a verificar se está suficientemente preparado para adotar a vida do Yoga e tentar seriamente realizar o ideal do Yoga. Há muitos casos de aspirantes entusiasmados que, sem uma razão aparente, esfriam, consideram a disciplina do Yoga muito cansativa e desistem. ... Mesmo onde haja a necessária seriedade e determinação ao trilhar a senda do Yoga, é preciso que se estabeleçam, permanentemente, o hábito e a disposição de buscar seu ideal. Mero desejo ou intenção não basta. Todos os desejos e poderes mentais do Sadhaka devem ser polarizados e alinhados com o ideal do Yoga. Muitos aspirantes têm idéias bastante confusas e, às vezes, totalmente equivocadas, em relação ao objetivo e à técnica do Yoga. Muitos deles têm noções bastante exageradas sobre sua seriedade e capacidade para trilhar a senda do Yoga. Suas idéias tornam-se claras e sua capacidade e seriedade são testadas com rigor, ao tentarem praticar Kriya-Yoga. Ou eles emergem da autodisciplina preliminar com um objetivo claramente definido, com determinação e capacidade de seguir até o fim, com vigor e sincera devoção, ou, aos poucos, vão compreendendo não se encontrarem ainda prontos para a prática do Yoga, e decidem sintonizar sua aspiração com a freqüência inferior do estudo meramente intelectual.”

Uma vez esclarecida a importância de assegurar-se a liberdade de escolha para o aspirante à Senda do Ocultismo Prático, devido aos riscos e às responsabilidades a ela inerentes, talvez fique também clara a relação da liberdade com a fraternidade, conforme considera o Mestre: “Não incidais em comparações não fraternais entre a tarefa executada por vós e o trabalho deixado por fazer por vosso próximo ou vosso irmão, no campo da Teosofia, pois ninguém é obrigado a semear uma área de terreno maior do que lho permitem a sua força e capacidade.”

Para sintetizar todo este tema, recomenda-se profunda reflexão sobre a magistral passagem de Aos Pés do Mestre: “... Há no mundo muitos pensamentos falsos, muitas superstições insensatas, e ninguém que estiver escravizado por eles poderá fazer progresso. Portanto, não deves acolher um  pensamento simplesmente porque muitas  outras pessoas o acolhem, nem porque se tenha acreditado nele por séculos, nem porque esteja escrito em algum livro que os homens julguem ser sagrado; tu tens de  pensar sobre a questão por ti mesmo, e julgar por ti mesmo se ela é razoável. Lembra-te de que, embora um milhar de homens concorde sobre um assunto, se eles não souberem nada sobre aquele assunto a sua opinião não tem valor. Aquele que quiser trilhar a Senda tem de aprender a pensar por si mesmo, porque a superstição é um dos maiores males do mundo, um dos grilhões dos quais, por ti próprio, deves te libertar completamente.

 

Última atualização ( Qui, 05 de Junho de 2008 12:47 )