| A Mensagem dos Mitos |
| Qui, 05 de Junho de 2008 12:58 | |
|
A Mensagem dos Mitos O tema de hoje é a mitologia; essencialmente, a mensagem dos mitos. Quando a gente fala de mitologia, existe um único problema - definir o que é mito. Embora, para muitos de nós seja relativamente claro o que são os mitos, vale mencionar que a definição de mito e de mitologia é uma definição bastante polêmica. Existe uma polêmica que se arrasta há alguns séculos já. Há uns três ou quatro séculos que se discute esta questão da mitologia - o que é isto ou o que deixa de ser. Vamos explicitar o seguinte: Mitologia é o estudo dos mitos. Mito é propriamente o conteúdo, ou seja, são aquelas histórias, aquelas narrativas que vêm do passado - normalmente são narrativas muito antigas - que contam histórias de deuses, acontecimentos extraordinários, etc. . Portanto, mitologia é o nome que se dá ao conjunto destes mitos ou ao estudo deste conjunto. Mas o que é um mito propriamente? Há muita controvérsia sobre isto, e para não faltar com a precisão, trouxe algumas referências que eu não vou reproduzir de memória, vou ler efetivamente. Existem alguns mitólogos que se tornaram muito conhecidos. Aqui, nós temos dois, um que é citado no livro e outro, o autor - Ernest Cassirer, um francês que estudou mitologia exaustivamente e que escreveu o livro, Linguagem e Mito, publicado pela editora Perspectiva. O outro, que é citado no livro, é conhecido dos teosofistas porque foi muito comentado por Helena Blavatsk - Max Muller, que viveu no século XIX, foi considerado um dos maiores mitólogos, um dos maiores tradutores de textos arcaicos de sua época. Max Muller era um sujeito que conhecia os mitos porque tinha traduzido estes mitos de diversas línguas arcaicas para o alemão, e do alemão para outras línguas européias. Então, vamos dar uma definição de mito por parte deste grande mitólogo - Max Muller, e vamos ver o que ele fala sobre os mitos, vamos ver se vocês concordam ou não. Então, para Max Muller: "O mito não é nem a transformação da história em lenda fabulosa, nem uma fábula aceita como história, nem tão pouco, surge diretamente da contemplação das grandes configurações de poderes da natureza. Tudo que chamamos de mito, é algo condicionado e mediado pela atividade da linguagem. É, na verdade, o resultado de uma deficiência lingüistica originária de uma debilidade inerente à linguagem. Toda designação lingüistica, toda palavra, é essencialmente ambígua e desta ambigüidade, nesta paronímia [ou seja, uma palavra designando coisas diferentes] das palavras está a fonte primitiva de todos os mitos." Está é a concepção de Max Muller sobre os mitos. Vejam que é uma concepção muito "bonita", diz que o mito é uma doença da linguagem; ou seja, o mito é uma porcaria, uma falha da linguagem. Para um mitólogo, não deixa de ser uma opinião, no mínimo, estranha. A final de contas, um sujeito que estuda os mitos e acha que o mito é uma porcaria, uma falha, um erro, um engano da linguagem, no mínimo está perdendo seu tempo. Mas a opinião de Max Muller foi a opinião de muita gente. Por que se considerava o mito como a expressão da deficiência da linguagem? Porque na época em que ele viveu, tinha atingido o auge uma movimentação que começou no século XVIII - o Iluminismo, o conceito de que se podia, através do acumulo de conhecimentos, obter o conhecimento total do Universo. Então, seguindo por essa linha de raciocínio, a consciência se torna o único caminho para se obter algum saber, algum conhecimento - Eu preciso estar consciente das coisas; preciso ter um contato com a realidade, com os objetos; preciso desenvolver uma linguagem que descreva corretamente esta natureza, estes objetos ao meu redor. E se eu tiver este contato, e descrever corretamente estes objetos, estou construindo conhecimento, construindo um panorama que vai permitir me movimentar com mais desenvoltura neste universo. Ou seja, conhecer é dominar, é controlar - está é a idéia do Iluminismo. O iluminista considera que quanto mais conhecimento, mais poder. Quanto mais conhecimento, mais domínio sobre a natureza. Nesta concepção iluminista, quando a linguagem não consegue definir corretamente a natureza, quando as palavras resvalam nos objetos e caem em valas obscuras do entendimento humano, isto provoca medo; o pesquisador começa a encarar aquele fato como um problema, não como um fato a mais a ser pesquisado, mas como um problema a ser resolvido, a ser eliminado. Este raciocínio do erudito que quer acumular conhecimento, mas não quer enfrentar os problemas decorrentes do conhecimento intelectual - esta falha, é expressada por essa opinião de Max Muller quando ele diz que o mito é uma falha da linguagem, é um erro com o qual temos que aprender a conviver. Toda a linguagem humana é imperfeita, conseqüentemente, deixa lacunas, áreas obscuras onde brotam os mitos. Esta opinião de Max Muller prevaleceu no meio intelectual, universitário, por muito tempo. Era considerada a mais válida definição dos mitos: os mitos são as crendices dos antigos que enxergavam as coisas de modo imperfeito, e achavam que aquilo era a verdadeira natureza. Esta opinião, evidentemente, sofreu um processo crítico, sofreu uma evolução; esta evolução foi decorrência do próprio desenvolvimento do pensamento intelectual, chamado posteriormente de científico. Então, à medida que o cientista evoluía na sua arte, na sua ciência, ele aprendeu a definir a sua maneira de enxergar o Universo de um modo mais claro. Ele aprendeu a identificar a sua maneira de enxergar o Universo, não como uma maneira exclusiva, mas com uma finalidade determinada. Não exclusiva porque existe outra maneira de enxergar o Universo. Esta outra maneira, claramente distinta da científica, surge no século XIX - a maneira filosófica. A maneira filosófica é universalista. A maneira científica é minimalista; procura os detalhes da natureza, tenta explicar e compreender estes detalhes. Então, ela recorta a natureza e estuda cada uma das suas partes como se fosse uma entidade completa. Este é o princípio do pensamento científico - definir um campo de estudo e estudá-lo com a máxima precisão, com o maior volume de informações que puderem ser extraídas. Nesta concepção científica, intelectual de abordagem da natureza, um fato aparentemente singular: Um objeto novo - ele é único, é singular. Mas este fato aparentemente singular passa a ser conhecido, compreendido, conceituado, à medida que ele é encaixado num universo; ou seja, numa categoria, num gênero, numa família de entidades semelhantes. Então, ele é aceito como um caso de uma lei maior, como membro de uma multiplicidade ou série. Neste sentido, cada objeto conhecido se explica através de outros objetos, ou por oposição ou por semelhança ou por comparação ou por analogia. Este é o modo de pensar do intelectual, o modo de pensar do cientista. O cientista categoriza a natureza: existem os animais; existem os vegetais; existem os minerais ... Eu não vou misturar minerais com seres humanos. Eu não vou dizer que uma pedra é um homem ou um vegetal é um elefante. São categorias cientificamente diferentes, e a lógica do pensamento científico me impede de fazer isto. Mas o que acontece em relação ao mito? No caso do mito, Cassirer desenvolve uma explicação embasada em toda uma evolução que vem acontecendo ao longo século XX, uma avaliação do pensamento mítico, uma conceituação do que é mito. Ele diz o seguinte: "O pensamento mítico não se coloca livremente diante do conteúdo da percepção para relacioná-lo e compará-lo a outros conteúdos." Então, se eu olho algo miticamente, eu não vou compará-lo com nada parecido ou diferente; eu não vou explicá-lo por outros objetos. Não se usa a reflexão consciente, mas colocada diretamente perante este conteúdo, a nossa consciência é por ele subjugada e aprisionada, repousa sobre ele, só sente e conhece a sua presença imediata e sensível tão poderosa que diante dela tudo mais desaparece. Ou seja, o mito absorve toda a atenção do indivíduo sobre ele, e não se explica por nada mais que exista. É uma concepção curiosa, mas é uma concepção natural para que se possa entender os mitos. Os mitos não se explicam; na verdade, não têm explicação e não querem ser explicados. Os mitos querem apenas ser percebidos. Os mitos brotam do inconsciente do ser humano, falam a linguagem do inconsciente que não é a linguagem da ciência. O mito tem uma natureza totalmente diferente do conhecimento científico. O mito tem uma linguagem totalmente diferente da linguagem verbal. Quando Max Muller coloca o mito como uma falha da linguagem verbal, ele erra porque está tentando resolver os mitos numa categoria à qual os mitos não pertencem. Ele está tentando explicar o mito pela linguagem, mas o mito não precisa da linguagem. Há um professor brasileiro, da Universidade de Brasília, o professor Eudoro de Souza, que escreveu um livro muito bonito, chamado Dionísio em Creta. Este livro trata, essencialmente, dos Mistérios e da mitologia na Grécia. Ele diz o seguinte: "A dificuldade está em que a linguagem da mitologia não tem tradução. A mitologia não é uma linguagem em que a realidade se exprimiu outrora, e que agora se exprime em outra linguagem. Mas sim, o mito é uma realidade que quer se exprimir sem o uso, sem a mediação da linguagem." Isto pode parecer difícil para a gente entender. Mas, vejam bem: O mito é algo que os antigos chamavam de inefável, ou seja, que não se expressa com a linguagem. A linguagem cerca o mito, carrega o mito, mas ele não se explica nem se expressa através da linguagem. Ele preexiste à linguagem, ele existe numa outra esfera que não a da própria linguagem. Na verdade, o mito faz parte da estrutura de algo que para nós é totalmente inconsciente. O que é inconsciente para nós? Que parte de nós é inconsciente? Eu já tive a oportunidade de mencionar em outra ocasião, uma concepção indiana do ser humano na qual ele organiza a sua mente em dois eixos distintos, mas integrados. Um eixo é da inconsciência. O outro, da consciência. No eixo da consciência nós encontramos duas esferas de fenômenos próprios da mente humana - a esfera dos fenômenos emocionais e a esfera dos fenômenos intelectuais. Estes dois fenômenos distintos fazem parte da consciência porque dependem dela para existir, para acontecer. Eu só posso usar o meu intelecto se eu estiver observando objetos que vou relacionar uns com outros, compará-los, estudar as semelhanças e diferenças, estabelecer relações ou séries, analisar as transformações de objetos externos. O intelecto depende da percepção de objetos, uso a inteligência para compreendê-los. A emoção, como o próprio nome diz, é um movimento estimulado por uma causa externa - ex-motio. Então, a emoção é tudo aquilo que mexe com a gente, mas tem origem em estímulos externos. Quando eu olho uma flor, acho bonita e quero ter esta flor para mim. Ela produziu uma emoção, ela me induziu a um movimento. Quando sinto atração por uma pessoa, passa uma moça bonita e eu olho, quero ir atrás (...eu não vou porque sou casado), isto é uma emoção que me tomou; algo externo que provocou uma transformação em mim. Eu me mexo, me movo, ou seja, a emoção mexe com a gente, move, daí - ex-motio. A emoção depende da percepção, da consciência - tenho que perceber o mundo externo para ser afetado por ele. O eixo da consciência é identificado como o luminar do dia, o Sol. A consciência não é tudo na vida do ser humano, existe também o lado inconsciente. Foi servido um cafezinho agora a pouco, e duvido que alguém tenha pensado o que fazer com a mão na hora de pegar o copo. Este movimento é comandado pelo inconsciente. Eu não preciso avaliar a distância que a bandeja está da minha mão; não preciso calcular que força vou fazer para pegar o copo sem esmagá-lo; não preciso fazer nada disso - é tudo inconsciente. Temos uma série de comportamentos que são movidos pelo nosso corpo sem que precisemos pensar. Eu não preciso pensar que perna vou mexer para dar o próximo passo. Talvez, se eu pensar, não consiga dar o próximo passo, talvez eu caia; no mínimo perco a graça, perco o rebolado. É uma ação inconsciente, a gente faz porque faz, e ponto. Se eu sinto sede, automaticamente procuro onde tem água, vou lá e bebo; não preciso pensar o que vou fazer, quantos mililitros de água preciso tomar; eu não vou avaliar a minha temperatura para saber se tomei água de mais ou de menos; não penso em nada disto, simplesmente ajo, faço. O eixo do inconsciente na sua parte inferior tem o corpo, e tem a inteligência corporal que comanda estes atos inconscientes que fazemos. Mas existe algo mais que é inconsciente em nós - a inspiração espiritual. A nossa vocação, nosso caminho espiritual, o nosso dharma, é inconsciente. Então, o espírito também está neste eixo. Vejam bem, em que eixo está a linguagem humana, as palavras? As palavras definem objetos no mundo externo. A palavra mapeia o universo ao nosso redor; portanto, a linguagem está no eixo da consciência. O eixo da inconsciência, os antigos relacionavam à Lua e não ao Sol; relacionavam à noite, aos demônios, a tudo aquilo que é profundo, que é da terra. Como se expressa este eixo da inconsciência? Aí, nós chegamos no ponto - ele se expressa através dos mitos. Os mitos são a expressão do corpo e do espírito do ser humano; a expressão das nossas necessidades, vicissitudes corporais e a expressão da nossa inspiração espiritual. Então, agora é preciso entender melhor o que é mito. Os mitos são só aquelas histórias de deuses? O mito é só a história de Hércules, de Deméter, de Zeus, de Krishna, entre tantos outros? Tudo isto são mitos, mas não haverá outros tipos de mitos, além desses? Existem muitos tipos de mitos. Vamos falar de alguns mitos de hoje: muita gente, no reveillon, toma certas providências para garantir um ano melhor: "Vou usar uma cueca de determinada cor", "Vou levar três uvas no bolso para comê-las à meia noite", "Vou juntar um potinho de arroz com não sei o quê", "Vou vestir uma roupa que usei a dez anos atrás", e assim por diante. Tudo isto são mitos modernos, não têm explicação; se perguntarem para a pessoa o por quê: "É para dar sorte". Mas como isto dá sorte? "Ah! Não sei, só sei que se eu não fizer vai dar azar". Esta é a essência do mito. O mito não se explica, mas simplesmente absorve a nossa atenção, a nossa consciência. O mito neutraliza toda nossa inteligência intelectual, neutraliza toda a nossa inteligência emocional e concentra toda a nossa atividade num ato ritual. As expressões formais dos mitos são os ritos. Nós temos muitos rituais que fazemos todo o dia: o ritual do banho, o ritual de lavar as mãos, o ritual da comida, etc. Todos temos as manias pessoais que são os pequenos rituais de cada um, e estes rituais são expressão de mitos internos - é a mitologia na prática cotidiana, na prática mais "chão" que possa existir. As superstições são, tipicamente, pequenas manifestações mitológicas. As lendas urbanas, por exemplo: Todo mundo conhece uma história que um primo de um vizinho de um amigo de um amigo meu contou, e que é verdade. Só que é uma história extraordinária, sem pé nem cabeça, mas como foi o primo de um vizinho de um amigo de um amigo meu que contou, a história é verídica, pois tem um testemunho real. Existem várias lendas urbanas. Quem gosta de passear na internet, se procurar lendas urbanas - urban legends em inglês - vai encontrar uma tonelada delas. Vocês vão achar engraçado porque está circulando na China uma história que vocês ouviram e que aconteceu no Brás; mas só que lá, aconteceu em Pequim; e na França aconteceu em Paris; nos EUA aconteceu em Nova York, e todos juram que é verdade. Estas historinhas são mitos modernos, mitos da vida de hoje; são aquelas histórias da ironia do destino, casos curiosos de situações desconfortantes; normalmente são situações humilhantes. Como o caso do sujeito que recebe o telefonema de um amigo dizendo assim: "- Olha, me desculpe por amassar o teu carro, mas eu vou pagar. - Você amassou o meu carro? Nem reparei. - É , amassei no estacionamento do motel. - No estacionamento do motel? Mas eu não fui ao motel! - Foi! Claro que foi! A placa do seu carro não é ... . O sujeito vai conferir, e no dia em que ele deveria ter ido ao motel, foi a esposa que usou o carro para ir supostamente ao supermercado." Este tipo de história constrangedora, circula no mundo inteiro, e todos juram que a história é verídica: "Olha, a história é verídica, aconteceu com um amigo de um amigo meu". Estes mitos são na verdade, a exploração da nossa vocação para acreditar ou seguir determinados rituais: Rituais processuais - ou seja, nos colocamos como juízes e queremos julgar alguém, condenar alguém por alguma coisa que aconteceu. Rituais propiciatórios - como o caso de comer as três uvinhas, ou vestir não sei o quê do avesso, não passar embaixo de escada (superstições). Cassirer, quando trata dos mitos, fala dos deuses instantâneos, que podemos criar a qualquer momento, isto vai nos levar a um degrau a mais nesta explicação sobre os mitos. O mito não é apenas mecânico e automático, o mito tem por trás a sensação de uma intencionalidade. Alguma coisa acontece, qualquer um poderia dizer que foi um acidente, mas a pessoa que passou por aquela situação diz: "Não foi um acidente, isto foi intencional." Por exemplo: Um sujeito, um selvagem (não nós ;"não" fazemos isto), está andando na floresta, caçando um animal e, de repente, cai uma árvore na frente dele e ele perde o animal. Ele esbraveja : "Esta porcaria desta árvore atrapalhou meu caminho." Mas quando ele passa pela árvore, vê que logo adiante tinha um buraco enorme; como ele estava correndo atrás do animal, inevitavelmente, iria cair no buraco e morrer. Aí ele diz : "A árvore salvou minha vida!" Ele descobre uma intencionalidade na queda daquela árvore: "Foi o destino, foi um deus que abateu esta árvore e salvou minha vida." Então, ele dá um nome para este deus, ele quer a proteção deste deus. Mas como é que ele invoca esta proteção? Ele pensa: "O que eu estava fazendo imediatamente antes da árvore cair? Eu tinha pisado numa pedra, dei três pulinhos porque estava doendo meu pé. Será que é isto?" Então, da próxima vez que ele sair para caçar, dá três pulinhos e diz: "Fiz o ritual, eu quero a proteção." Aí, ele vai para caça confiante. Então, o ritual nasce da sensação de uma intencionalidade que geralmente fica personificada, vira um deus, uma divindade, e aí, surgem os mitos. Isto acontece na vida moderna também. Pode-se dar qualquer nome, pode-se dizer que não é um deus, pode-se dizer que é uma entidade cibernética, que é um extraterrestre. Hoje, existem as religiões extraterrestres. Está cheio de gente se comunicando telepaticamente com extraterrestres e criando religiões baseadas nestes "mestres extraterrestres", líderes, comandantes, transformadores de universo, etc. Se não tivéssemos bons Mestres aqui na terra, até justificaria, mas temos bons Mestres aqui, não precisa buscar fora. Mas tem gente que quer o extraterrestre porque há uma mitologia. Há mitos se formando baseados nesta crença no extraterrestre. Eu não vou entrar na questão se existe ou não existe; o fato é que o sujeito enxerga aquilo como a solução dos seus problemas e se agarra àquele novo deus. Quando Erich Von Daniken escreveu "Eram os Deuses Astronautas?", baseou-se exatamente neste princípio da origem de um mito baseado num contato com uma entidade tecnologicamente superior. Este princípio da origem dos mitos é relativamente fácil de entender, mas nós temos uma concepção de que um mito não nasce apenas por uma espécie de acidente; ele nasce, na verdade, por uma necessidade que nós temos da expressão do nosso conteúdo e da nossa natureza espiritual. A literatura teosófica quando se refere ao nosso centro espiritual, é muito clara quando diz que a natureza da Mônada, a natureza da Unidade espiritual que está por trás do nosso Eu, é a natureza da expressão; ela se exprime e constantemente projeta ao seu redor imagens e mensagens. A Mônada se expressa; e por se expressar, passa a existir. A nossa existência espiritual é decorrência da necessidade de expressar a nossa existência, expressar a nossa individualidade. E, esta expressão se revela através dos mitos. Por isso, os antigos, com uma intuição muito clara, diziam que todo o Universo nasce da expressão da Mônada, da expressão do Espírito, do Verbo espiritual; nasce da Palavra, mas não a palavra da linguagem consciente, mas a Palavra da linguagem espiritual. A Mônada expressa a sua própria natureza. E, o que é a natureza da Mônada? É o nome dela. Ela diz: Eu Sou; Eu Sou a Mônada; Eu Sou Eu. Este dizer: Eu Sou, aqui estou; não é que ela seja exibicionista, ela simplesmente sente a necessidade de se expressar; nosso Centro Espiritual quer mostrar que existe. Então, esta expressão é a Palavra, o nome de Deus, o nome do Senhor, é Aquilo em nome de que se batiza uma pessoa. O ritual católico do batismo diz o seguinte: "Eu te batizo em nome de Deus." Esta expressão é grega, é uma expressão que diz: "Eu te batizo em nome do Senhor", em nome do Ungido, em nome do Centro Espiritual. A intenção era dar um nome que expressasse a própria natureza espiritual daquela criatura que se está batizado; e que é batizada diante da água salgada, da água do mar que representa, justamente, a natureza material. Ou seja, estamos tentando criar a ligação entre o Corpo e o Espírito através do batismo. Consagrar a unidade Corpo-Espírito independente de quaisquer outros recursos da consciência. Estamos tentando dar a este indivíduo, um mito primordial, um mito de criação; ele é criado no momento em que é batizado. Ele deixa de ser uma parte da Mãe, se desmama, se desliga da Mãe no momento em que é batizado. Este é o rito primitivo de batismo no cristianismo. É, essencialmente, um mito de criação da nossa individualidade, da nossa identidade pessoal. Então, qual é a mensagem deste mito de criação, deste mito original? A mensagem deste mito original é o que nós na literatura teosófica chamamos de dharma, ou seja, a expressão da nossa natureza interior, da nossa natureza primordial. Agora, de que maneira isto pode nos ajudar? De que maneira isto pode nos fortalecer, aperfeiçoar? Podemos pensar: "Eu quero é estudar, não quero saber de dharma coisa nenhuma." Pois é, acontece que na concepção teosófica, assim como na concepção de todos os povos antigos, este fenômeno, esta expressão do mito, é a única fonte de força que temos para guiar todos os atos da nossa vida. Se eu quero estudar, mas não sei qual a minha vocação espiritual, qual o meu dharma, se eu não sinto ele presente em mim, posso me esforçar à vontade que meu estudo não vai render nada; eu não vou tirar proveito nenhum porque ele não vai ter força , não vai ter vigor. O mito me dá o vigor necessário para que meu estudo seja proveitoso; ele converte todas as minhas ações, em ações que dão preenchimento à minha alma, à minha mente, à minha consciência, dá sentido, e esta é a palavra chave dos filósofos franceses de hoje : O mito dá sentido à vida do ser humano. Aquela velha pergunta: Qual é o sentido da vida? O sentido da vida é o meu mito primordial, o meu mito individual. Se eu não tiver contato com este mito, sou fraco, sou incompleto, sou um corpo sem cabeça. Se eu tiver contato com o meu mito pessoal, meu corpo se enche de energia, se enche de vigor, e sou capaz de grandes realizações. Por isso, nas Escolas de Mistérios, a iniciação era feita através da vivência de um mito, fosse ele qual fosse; variava de escola para escola. Em Elêusis era o mito de Deméter e Perséfone. Em outros lugares era o mito de Cibéler, era o mito de Artêmis, era o mito de Ísis, Osíris. Mas objetivo era que o iniciando, aquele que está passando pelo processo de iniciação, vivesse aquele mito, e por um princípio de magnetismo, de ressonância interior, incorporasse este mito na sua vida, tornasse este mito uma realidade palpável para ele. Este mito se incorporava em todos os seus poros, em todas as suas células; a partir deste momento, ele se tornava um indivíduo completo, um ser humano pronto para o trabalho, um ser humano que apavorava os governantes porque tinha opinião, vontade própria, era independente - por isso as perseguições aos Iniciados. Então, o mito dá força, dá poder. O mito dá segurança, dá opinião, dá expressão à vontade do indivíduo. O mito dá sentido à vida. Uma vida sem sentido, todos sabemos o que significa - é uma vida perdida. Uma vida que ganha sentido é uma vida que ganha movimento, que ganha direção, orientação. Quando incorporamos o mito à nossa vida e damos uma orientação aos nossos atos, aos nossos pensamentos, aos nossos sentimentos, a partir deste momento, nos tornamos efetivamente uma peça viva do processo da natureza, nos incorporamos ao ecossistema, digamos assim; estamos integrados efetivamente à natureza. Estas forças míticas passam por dentro de cada um de nós. Os mitos vivem, reverberam, ecoam dentro de cada um de nós. Cada vez que lemos uma história que clama um mito interior, temos vontade de ler de novo, e repetir, reproduzir, contar para os outros aquela história porque alguma coisa ressoa dentro de nós e nos obriga a expressar aquela história. Cecília Meireles escreveu um livro muito interessante sobre a literatura infantil. Ela faz uma pergunta: Nós temos excelentes autores de literatura infantil, mas por que os livros que eles escrevem têm uma vida tão curta? Escreveu hoje, daqui a três anos ninguém se lembra mais daquele livro. Enquanto as histórias das aventuras de Hércules, faz milênios que estão em voga e ninguém esquece. Existem livros excelentes. Ruth Rocha, excelente escritora, e outros tantos que estão por aí, escrevem para as crianças aquelas historinhas tão bem boladas e no entanto estas histórias se perdem, rapidamente são esquecidas, abandonadas. Por que? Porque não estão preenchidas com a natureza do mito; não estão preenchidas com conteúdo mítico que dá a força e a perenidade. O mito dá perenidade. Então, o mito dá imortalidade - este é o ponto final do processo ritual. A presença do mito no processo de iniciação, torna o indivíduo um imoral; torna o indivíduo livre da necessidade da morte e do renascimento. Esta imortalidade é representada pela integração do Sol e da Lua, é representada pela perfeição e, esta perfeição é expressa na figura do metal ouro. Esta imortalidade seria obtida através do rito, não necessariamente do rito religioso - o rito religioso cai na esfera da consciência. O ritualismo puro e simples não leva a nada, mas o ritualismo vivido interiormente, leva ao mito e à força que o mito tem de transformação do indivíduo. O mito tem a força de trazer a Presença do Espírito para dentro do corpo. A Presença do Espírito é o que dá imortalidade ao indivíduo. Um fato que todos os povos antigos mencionavam, era que o mito, a palavra que expressa o mito, aprisiona, por assim dizer, a divindade, e a torna um fato presente e imediato para aqueles que travam contato com estes mitos. Então, para concluirmos esta primeira abordagem, vale dizer que a princípio, o mito tem uma finalidade, tem uma utilidade. Assim como a linguagem da ciência, do intelecto tem a sua finalidade - estabelecer uma ordem no mundo externo, o mito tem a finalidade de estabelecer uma ordem interna do indivíduo, estabelecer uma ordenação dos nossos conteúdos inconscientes, internos. Os mitos nos dão estabilidade, segurança, vigor espiritual enquanto vivos, enquanto encarnados. Por isso, eram tão importantes para a humanidade e sempre serão, queira ou não queira. Nós precisamos, de alguma forma, expressar estes mitos; e aí, eles aparecem nestas superstições, nas crendices modernas; parece aquela sensação de estar alcançando a imortalidade, só que como não é uma fórmula perfeita, uma fórmula natural de contato com o mito, às vezes ela se cerca de uma série de imperfeições que são prejudiciais à nossa estabilidade. Por exemplo: Através da ingestão de uma droga - álcool, cocaína, etc., um sujeito pode ter a sensação de poder que normalmente ele obteria com o mito. Aí, ele sai na avenida com seu carro a 160 km/h e só para no momento que o "diabo" botou um poste no caminho dele (foi o diabo, não foi ele) . Então, este indivíduo encontra um destino que ele construiu através de um mito falsificado, digamos assim. É uma muleta mitológica que a gente encontra para travar este contato com as forças do inconsciente, só que é um contato que não é controlado, que não é estruturado, ele é desordenado. O álcool, as drogas, todos estes elementos artificiais, provocam, na verdade, um corre-corre de forças espirituais, ou de forças inconscientes dentro de nós; eles provocam um desordenação destas forças que fogem ao controle da consciência e, consequentemente fazem o que bem entendem com o indivíduo. Se ele tiver muita sorte (e se diz que existe um anjo da guarda especial para os bêbados), não morre. Se ele tiver muita sorte, sobrevive a maluquice dele. Mas é só. No entanto, o processo de ordenação que dá sentido à vida do indivíduo, é o obtido através da vivência mitológica. Isto vem sendo redescoberto pelo caminho da psicologia. Alguns psicólogos estão fazendo a terapia dos mitos - através de uma dramatização, o sujeito desempenha um papel de um personagem mitológico que o seu analista considera que corresponde a deficiência que ele precisa vencer. Através da dramatização, ele se fortalece com os elementos mitológicos inconscientes associados àquele personagem. Então, ele vive um rei Artur, vive um herói do passado, um santo, um deus, um semideus, um guerreiro, etc., e ele acaba ganhando um certo sentido, uma certa força numa determinada parte do seu psiquismo, e lá vai ele saindo da depressão e ganhando um novo vigor na sua vida. O caminho dos antigos para se estabelecer este contato com os mitos, era tão simples, tão estruturado, tão fácil, tão seguro nos seus resultados; porque se baseava em princípios simples de ética, de conduta, de disciplina; coisas mínimas, mas difíceis de se fazer porque somos indisciplinados, não gostamos de seguir regras. Mas são coisas simples, bastava segui-las e o indivíduo se tornava apto para viver um mito sem qualquer risco de perder o controle sobre as forças despertadas. Estas forças, quando despertadas de modo ordenado, ou despertadas, por assim dizer, coletivamente - quando várias pessoas que tem um mínimo de contato com este mito interior se encontram, freqüentemente, o mito vem à tona coletivamente. Este mito coletivo se expressa nas lendas e histórias populares, àquelas que cada um deu uma parcela de contribuição, e a história se completa. Os antigos diziam que toda a história da humanidade tem sua origem nestas forças - os mitos. Então, quem consegue elaborar, compreender a essência de um mito, compreende a essência das forças que estão construindo a história da humanidade. Eu vou ler uma historinha que faz parte das lendas brasileiras, coletadas por Câmara Cascudo. Todos sabem que Câmara Cascudo foi um dos maiores pesquisadores do lendário brasileiro. Eu vou ler esta historinha resumidamente porque todas as histórias, por mais curtas que sejam, são imensas: "Uma senhora engravidou se banhando num rio, o Rio Claro. Ela teve dois filhos gêmeos, um rapaz e uma moça que se chamavam Honorato e Maria Caninana. Só que os dois não tinham aparência de gente, eles nasceram como duas serpentes negras. Eram duas cobras pretas, enormes, que viviam dentro do rio. A moça-cobra que nasceu, era ruim. O rapaz - a cobra-Honorato, era bonzinho. Então, toda a noite praticamente, o rapaz vinha serpenteando até a beira do rio, e de dentro da boca da cobra saía e visitava sua mãe que morava perto do rio, jantava com ela, às vezes dormia lá. Mas de manhã cedinho, tinha que voltar para dentro da cobra e ir para o rio. Quando ele voltava para o rio, salvava as pessoas, resgatava afogados, ajudava alguém a atravessar o rio. Enquanto a irmã dele, não. Ela devorava as pessoas, derrubava os pescadores, afastava os peixes; era o demônio em pessoa. Eram uma serpente boa e uma serpente ruim, nascidas da mesma mãe. Diz-se o seguinte: Honorato descobriu um dia que para se livrar de ser a cobra, quando ele estivesse fora dela, se alguém derramasse três gotinhas de leite de mulher na boca dela enquanto estava deitada na beira do rio; depois, batesse três vezes na cabeça dela para saírem três gotas de sangue; a partir daí, ele queimaria a cobra e nunca mais precisaria entrar dentro dela. Ele chamava todo mundo, mas ninguém tinha coragem. A cobra era enorme, preta, todos se assustavam; até a bruxa da região tentou, mas ficou com medo, e não levou, de jeito nenhum, adiante este ritual. Na cidade de Óbidos - esta história é paraense - tinha uma serpente gigantesca, considerada mágica que estava adormecida há muitos séculos embaixo da terra, a cauda dela ficava dentro do rio e a cabeça embaixo do altar da Igreja de Nossa Senhora de Santana - Santana, a mãe da Virgem Maria. Então, embaixo do altar ficava a cabeça da cobra, a cauda ficava no rio. A irmã de Honorato, muito maldosa, disse : - Eu vou derrubar esta igreja. Então, mordeu a cauda da cobra, e ela se mexeu formando um raio na terra que ia desde o rio até a porta da igreja. Mas a igreja não caiu. O irmão, quando viu a maldade que ela queria fazer, matou Maria Caninana, e fez adormecer novamente aquela cobra maligna, gigantesca. A cobra continuou adormecida com a cabeça embaixo do altar que ficou intacto. Honorato voltou à cidade para comemorar. Foi ao baile junto com os amigos. (ele saía de dentro da cobra e virava gente) No baile, ele encontrou um marinheiro que tomou coragem e falou: - Eu vou te resgatar desta cobra. O ritual foi feito, Honorato se livrou da maldição e passou a ser um ser humano como os outros." Diz-se que a história e verdadeira. Todo pescador se lembra dela e conta : "Por aqui passava a cobra-Honorato" Esta história é uma história druida. É uma história que vocês vão encontrar na França dos druidas. A serpente lá se chama "wouivre" (cf. Louis Charpentier in "Les Mystères de la Cathédrale de Chartres"), percorre as profundezas da terra e brota sua cabeça, justamente, embaixo do altar das Virgens Negras das catedrais góticas. A história é a mesma; existem também duas serpentes, uma boa e uma ruim. A ruim quer destruir o trabalho dos templos, a boa os protege. Como esta história veio parar aqui? Foram os franceses que contaram para os paraenses? Não! Surgiu da terra. Já era conhecida dos índios. Então, nós vemos o seguinte: Quem conhece os mitos, conhece a história; conhece a história tal como ela acontece; conhece detalhes da história que muita gente não percebe. A história é mítica do começo ao fim. Tudo aquilo que acontece na história que não corresponde a um mito, é esquecido pela humanidade, não ganha importância, não tem força nenhuma. Mas tudo aquilo que acontece na história e que se encaixa nos mitos, cresce de importância na mente das pessoas, e é lembrado eternamente. Assim evolui a humanidade, assim se desenvolve a história da humanidade. Eu usei isto apenas como ilustração. Vamos às perguntas. Pergunta: No livro Aos Pés do Mestre, Alcione praticamente condena as superstições. No livro, ele fala do processo de um candidato à iniciação num Ashram indiano. Na Índia existem infinitas histórias populares e muitas superstições. A superstição é uma forma ritual do mito que se torna mais forte que o indivíduo. O indivíduo se sente impotente diante da superstição e diz: "Eu não posso passar por baixo da escada, senão vou ter azar." Então, a vontade dele está condicionada a um fato externo; isto não é admissível para quem se candidata à uma iniciação numa escola típica indiana. Aliás, qualquer Escola de Mistério vai exigir que se abra mão de todas as superstições, todas as crendices e dogmas religiosos. Tem de se aceitar uma nova ordem de fenômenos, uma nova ordem de comandos, de valores e de forças para a natureza com a qual se está lidando. Senão, se é subjugado por estas forças. A nossa consciência, a nossa atenção é que dá vigor a estas superstições. Veja só: Se eu te der um prato de comida, perfeita, saudável; você come aquele prato, se delicia com ele, comete o pecado da gula. Depois que você comeu, eu digo: "Esqueci de te avisar, esta comida estava envenenada." O que vai acontecer? Se você se convencer de que estava, vai passar mal. Vai sofrer, vai doer seu estômago, acreditando que eu te servi comida envenenada. Você converteu em veneno aquela comida que não tinha veneno nenhum. A superstição faz isto com a mente da pessoa, converte-se em uma força muito grande, torna o indivíduo impotente diante desta força; porém, não existe força nenhuma. Por isso, Krishnamurti fala neste livrinho da necessidade de se abandonar estas superstições. Então, eu acredito que haja forças muito intensas na natureza, mas não estas da crendice popular; não estas que o sacerdote grita para as pessoas: Eu vou chamar aqui o "anjo do demônio" para te castigar. Não é esta força, é outra força que deve ser respeitada, que deve ser seguida pelo neófito, pelo candidato à uma iniciação. Pergunta: Como as parábolas se enquadrariam em relação ao mito? As parábolas não se referem ao mito, elas se referem a uma gnose, é um ensinamento consciente. A parábola tem um problema - ela é uma interpretação em linguagem vulgar de um mito, de detalhes mitológicos. A pessoa tem de passar por cima da parábola, mergulhar para além das palavras para começar a ter um acesso ao mito. No caso das parábolas de Jesus, ele dizia: "Para os meus, falo abertamente." Ele usa a linguagem dos mistérios. "Para os não iniciados, para os outros, eu me expresso por parábolas." A parábola tergiversa, esta seria a expressão. Ela chega perto, mas não chega ao ponto. Ela desvia a atenção do indivíduo do ponto essencial; ele precisa passar por cima das palavras, se tornar um indivíduo que não está limitado às palavras para conseguir entender uma parábola. A parábola é um desafio para que o indivíduo rompa a dependência que ele tem das palavras; essencialmente, é isto. É um desafio que qualquer poeta vence num instante. O poeta vence a parábola; o cientista jamais. O cientista quer o sentido preciso das palavras, o poeta não. O poeta usa aquilo que se chama de imagem poética. Na imagem poética vale tudo, a natureza é colocada de pernas para o ar; eu posso falar de uma "morte muito viva" e ninguém vai estranhar - é a licença poética. A imagem poética rompe com a lógica para dar vazão aos mitos, para dar vazão à expressão do inconsciente; por isso a poesia tem força. Aquela poesia matemática, geométrica que é só rima, rima, rima ... que é só palavrinhas bonitas, expressões vulgares, esta poesia não tem força. Mas a poesia forte, aquela que todo mundo quer ler mais uma vez, e outra, e outra, e outra... , esta é cheia de algo que não dá para se expressar. Algumas poesias de Fernando Pessoa, eram carregadas deste conteúdo mítico. Tem uma que eu gosto de reproduzir, na qual ele reclama da cidade, dos prédios que obstruem a visão dele - ele era "catatauzinho", era baixinho. Ele expressa seu desgosto dizendo: "... por que eu não sou do tamanho da minha altura, eu sou do tamanho que os meus olhos enxergam." Isto pode não fazer sentido para o pensamento científico, pode se achar que ele é um imbecil. Mas ele está absolutamente certo, a gente entende e se emociona quando lê esta poesia. Ela faz sentido no eixo do inconsciente - a presença dele se espalha por onde seus olhos alcançam; então, nós temos um processo de integração que só pode ser inconsciente e espiritual. As parábolas são um desafio. A parábola nos diz: "Eu sou uma porta fechada, abra-me." O sujeito precisa aprender a abrir esta porta, aprender a ultrapassar o limite da superficialidade das palavras e mergulhar na profundidade do mito que esta escondido pela parábola. A parábola não é o mito, mas ela esconde o mito; esconde, mas deixa entrever; você entra se tiver coragem, se tiver a capacidade, a sensibilidade. Pergunta: Você comentou sobre os mitos mais em relação à generalidade. As pessoas conhecem mais o mito do ponto de vista da personalidade. Na mitologia grega, e em outras, encontramos estas personalidades interagindo com os seres humanos. A mitologia egípcia tem uma característica que me chama a atenção: A pessoa se identifica com o deus ou com a deusa para poder agir na Terra. Ele se identifica - Eu sou Nefertiti, eu sou isso, eu sou aquilo, e depois ele age para vencer os inimigos ou fazer qualquer coisa. Só que isto não quer dizer que ele vai sair vencedor, mas a mente dele funciona desta maneira. Vamos falar um pouco sobre isto: Os personagens dos mitos, freqüentemente são deuses, semideuses, heróis; alguns são semi-animais e outras tantas figuras. A maior parte destes personagens são personificações de forças naturais, geralmente atribuídas ao grupo dos devas, na Índia; ao grupo dos deuses, no Egito. Estes deuses interagem com seres humanos, e alguns destes indivíduos que são considerados deuses, são deuses de natureza humana. A natureza humana é considerada a essência do eixo da inconsciência. Os deuses ligados à inconsciência são deuses aproximados do ser humano: Vênus, Mercúrio, Lua, são planetas ligados ao inconsciente e, consequentemente, ligados ao ser humano. Enquanto Júpiter, Sol, Saturno e a própria Terra, são ligados à consciência, são ligados à entidades hostis ao ser humano. Então, os deuses de uma maneira geral - embora se conceba que nas religiões antigas se adorava uma série de deuses - não eram propriamente adorados; na verdade, se buscava comandar estes deuses que são forças da natureza. O objetivo dos antigos, dos sacerdotes, dos ascetas, dos filósofos era se tornar mais forte do que os deuses, comandá-los e fazê-los trabalhar no sentido daquilo que eles queriam. Eram ações propiciatórias; ou seja, obrigar um deus a derrotar meus inimigos, obrigar um deus a fazer chover e alimentar com água o meu povo, obrigar aquele deus a fertilizar meus campos e desta forma, dar fartura à população e ao exército. É um trabalho de comando sobre os deuses e não de obediência. Para comandar os deuses o sujeito precisava cumprir o ritual. O ritual era a ferramenta através da qual o sacerdote se tornava mais forte que o deus, e conseguia fazer o deus obedecê-lo. Se ele não cumprisse corretamente o ritual o deus ficava mais forte do que ele; e aí, mandava-lhe um raio, uma enchente, uma inundação, derruba uma montanha em cima dele. Na verdade, os mitos personificam forças da natureza e forças humanas em constante conflito, em constante interação. Esta é a essência destes mitos históricos. Mas, além disto, estes mitos revelam uma série de outras coisas - revelam a história da humanidade, revelam a estrutura e a organização das forças da natureza, às vezes, de uma forma mais clara do que a ciência. Revelam de uma forma que o ser humano é capaz de se conectar a ela. Enquanto a ciência coloca de uma forma que só a mente dos mais brilhantes cientistas consegue se conectar. A importância destes mitos personificados, destes mitos onde as forças são personificadas, é permitir ao ser humano um acesso direto ou indireto a estas grandes forças. Quando o sujeito era capaz de comandar os deuses, era chamado Teurgo. A teurgia é a arte de comandar os deuses, de se tornar superior aos deuses. Na Índia, quando os deuses viam um asceta em processo de adquirir a disciplina, o desapego, eles cercavam-no de tentações, de inimigos, faziam de tudo para distrair o sujeito de medo de ter que obedecê-lo. Os deuses detestavam os Santos, eram completamente hostis aos bons seres humanos. É uma coisa que a gente considera contraditória. Inclusive, a formação católica hostiliza estes deuses antigos. A igreja considera que estes deuses pagãos eram todos ruins por que, aparentemente, eles eram todos inimigos do ser humano, faziam de tudo para prejudicá-lo, para subjugá-lo, para fazê-los escravos. Mas é uma representação da capacidade do ser humano em relação às capacidades das forças da natureza ao seu redor. Diz-se que em Delfos, estava escrito na fachada do templo: Conhece-te. Na parte interna do templo: E conhecerás o Universo. Na verdade é: Domina tuas forças e dominarás todas as forças do Universo. Este é o princípio do macro e do micro cosmos. Eu tenho dentro de mim uma reprodução de todas as forças da natureza, se eu aprender a controlá-las, eu controlarei tudo, controlarei todos os deuses do Olimpo. Daí, o dilema dos deuses - estão sempre desafiando, castigando, colocando empecilhos e obstáculos na vida do ser humano. Os gregos chamavam esta desobediência aos deuses, esta desobediência ao ritual propiciatório de ribris (?). Quando o sujeito cometia ribris, ele era castigado de uma forma medonha, o azar do mundo inteiro caía em cima dele. Era a forma que os sacerdotes achavam de se fortalecer - eles eram os "donos" dos rituais; o ser humano se sentia sempre fraco, ele tinha que obedecer o ritual para ficar de bem com os deuses. Na verdade, isto é oriundo das Escolas de Mistérios, onde se ensinava que o ser humano é mais forte que qualquer um dos deuses, que qualquer uma das forças da natureza. Pergunta: É curioso perceber que existe um fator que é determinante da ação. Então, os seis bilhões de seres humanos do planeta, imagine como é a força de cada um... , a interação entre as forças da natureza e a força dos seres humanos. Essencialmente, a união faz a força. A gente diz que uma pessoa sozinha pode fazer muito bem para a humanidade, mas duas pessoas juntas, não fazem apenas duas vezes mais bem para a humanidade, vão fazer muito mais. ... dez mil segundo a bíblia. Dez Mil; está aí um cálculo teológico. Então, a sinergia dos seres humanos é multiplicativa, não é apenas somatória. A soma de esforços concatenados de seres humanos é muito poderosa na concepção mitológica. Por isso, a tática dos deuses sempre foi dividir, separar, criar hostilidade entre os homens para manter a soberania, para manter o controle das forças naturais. É estranho, mas é a história dos mitos. Pergunta: Os índios fazem dança para chover; existe esta possibilidade? São rituais propiciatórios. A questão do mito depende muito da fé que se tem na eficácia daquele ritual, na eficácia daquela relação mítica com a divindade. Quando o indivíduo tem muita fé, e desempenha aquele ritual, se diz que eventualmente ele consegue que a coisa se cumpra. Aí, nós caímos naquele terreno meio movediço da prova: "Prove que isto pode acontecer. Prove que estas forças existem." O fato é que há uma crença generalizada no mundo inteiro, em várias tribos, em várias civilizações, de que cumprindo realmente à risca determinados ritos, se consegue resultados extraordinários. Na Índia se propõe que o indivíduo, sozinho, cumprindo determinada disciplina, determinados atos rituais, consegue evocar forças muito grandes e desenvolver poderes diferenciados do indivíduo comum. Entre ter, e provar que tem, há uma diferença muito grande. Diz-se que quem tem, não precisa provar, e quem não tem, quer a prova. Então, a resposta dos indianos inevitavelmente é: Faça! Se você não tiver interesse nenhum em fazer, não tem utilidade nenhuma provar que existe. Mas nós pensamos: Prove que existe, e aí eu faço. A gente fica no dilema: Primeiro prova que existe ou faz para ver se existe. Então, eu não vou te responder se funciona ou não. Fica do seu foro íntimo se deve ou não acreditar.. Mas todos acreditamos em alguma bobagem, em algum ritualzinho que a gente tem certeza que funciona. Sempre tem uma crendice, um talismã - o chaveiro que ganhei da minha avó, a caneta com a qual eu fiz o primeiro exame da minha vida. Sempre tem algum mito que carregamos conosco, e nele acreditamos. (mas o resto é tudo mentira) É uma questão realmente de foro íntimo, não dá para explicar ou justificar.
|




