Nossa Livraria

Procurar Livro

Meu Carrinho


O seu Cesto encontra-se vazio no momento.

Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã (2a. parte)
Dom, 07 de Setembro de 2008 19:23

Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã (continuação)

As chaves que abrem o reino dos céus na Terra

Autor: Raul Branco

IV. O PROCESSO DE RETORNO À CASA DO PAI 

5. A lei das correspondências

Muitos dos grandes instrutores da humanidade fizeram apresentações de suas idéias sobre a criação e o desenvolvimento do universo e do homem. Seria lícito, portanto, perguntar a razão de ser dessa fixação em assunto tão abstruso. Existem bons motivos para isso. Talvez o mais importante seja que a visão cosmológica, com os processos de criação do universo, oferece a perspectiva mais ampla possível para o homem entender seu lugar no cosmo. 

Grandes sábios ensinaram que existe uma lei universal de correspondência entre o macro e o microcosmo.[1] Do ponto de vista físico, a ciência moderna mostra claramente que existe uma grande semelhança entre as leis prevalecentes nos sistemas siderais e nos sistemas atômicos. A lei das correspondências, como apresentadas nos ensinamentos herméticos, indica que: "Assim como é acima é em baixo; e assim como em baixo é acima. O interior é semelhante ao exterior, e o exterior ao interior". Essa lei também foi mencionada por Jesus no evangelho de Felipe: "Vim fazer (as coisas abaixo) como as coisas (acima e as coisas) fora como aquelas (dentro. Vim para uni-las) no lugar."[2] Vale a pena lembrar que as palavras da oração do Senhor "...seja feita a tua vontade, assim na Terra como no céu," também sugerem o mesmo ordenamento nas esferas espirituais e materiais. 

Geoffrey Hodson afirma que:  

"Todo o Universo com suas partes, do plano mais elevado até a natureza física, é considerado como sendo interligado, entrelaçado, formando uma única unidade -- um corpo, um organismo, um poder, uma vida, uma consciência, todos evoluindo ciclicamente sob uma única lei. Os órgãos, ou partes, do Macrocosmo, ainda que aparentemente separados no espaço e nos planos de manifestação, estão na verdade harmoniosamente interrelacionados, intercomunicando-se e interagindo constantemente. 

De acordo com essa revelação da filosofia oculta, o zodíaco, as galáxias e seus sistemas componentes, os planetas com seus reinos e planos da natureza, elementos, ordens de seres, irradiando forças, cores e notas não só são partes de um todo coordenado e em ‘correspondência,' ou ressonância mútua com cada um, mas também -- o que é profundamente significativo -- têm suas representações dentro do próprio homem. Esse sistema de correspondências está em operação através de todo o microcosmo, desde a Mônada até a carne mortal, incluindo as partes do mecanismo (ou veículos) da consciência e seus chacras, através dos quais o Espírito no homem se manifesta por toda sua natureza, variando em grau de acordo com o estágio de desenvolvimento evolutivo. O ser humano que descobre esta verdade pode entrar no aspecto poder do Universo e valer-se de qualquer dessas forças. Ele se torna então possuidor de uma influência quase irresistível sobre a Natureza e os homens."[3] 

Esse conceito aparentemente tão simples é a chave do estudo esotérico dos mundos sutis, ou planos da natureza, nos quais nossa mente, em condições usuais, não pode penetrar. Por meio de inferências a partir do plano, ou sistema, que conhecemos, podemos ter uma idéia aproximada daqueles que não conhecemos. Existe, por exemplo, um paralelo entre o conhecimento da célula e da mente. Cada célula do corpo tem codificada todas as informações para reproduzir a totalidade do corpo. Assim, também, a mente de cada ser recapitula por meio dos movimentos holográficos todos os eventos cósmicos.[4] Portanto, a partir dos sistemas cosmogônicos, com as diferentes etapas de manifestação do cosmo, podemos inferir que o ser humano seguiu as mesmas etapas de descida à matéria e retornará da mesma forma à sua fonte divina. Assim como o Deus Supremo, por intermédio de um processo de sucessivas emanações, manifestou o mundo material, também Deus no interior do homem, que é um aspecto microcósmico do Deus Supremo macrocósmico, manifesta-se como o Cristo interior, emanando outros níveis de manifestação, espiritual, psíquico e material, para formar o homem completo. O homem imortal, espiritual, pode então ser identificado e sua longa peregrinação entendida.  

Assim, a lei das correspondências presta-se perfeitamente como instrumento de análise para o estudioso do ocultismo. O conhecimento de determinado nível da manifestação, seja macro ou microcósmico, permite o acesso a outros níveis em virtude da harmoniosa ressonância mútua entre as muitas partes aparentemente separadas do universo. Essa técnica é especialmente útil para entender a constituição do homem e a natureza do divino. 

Por que, então, vários movimentos gnósticos eram associados a sistemas cosmogônicos? A razão dessa ênfase na cosmogonia é que ela propicia uma visão ampla das questões fundamentais da vida humana, esclarecendo de onde viemos e para onde vamos. No entanto, deve ficar bem claro que os sistemas cosmogônicos não são a gnosis. Eles propiciam um mero vislumbre da verdade que não pode ser obtida em segunda mão, quer seja de livros ou de apresentações orais, ainda que proferidas por grandes sábios. A gnosis é necessariamente uma conquista pessoal, uma revelação interior. 

Essa revelação ocorre quando a mente do buscador, inteiramente serena, torna-se translúcida. Quando isso ocorre, a mente é iluminada pela intuição. Usando a terminologia cristã, nesse momento o Cristo interior revela a verdade à alma serena e receptiva. A revelação é feita num outro plano de percepção que prescinde de palavras. A percepção vem em relances sintéticos, simbólicos, junto com uma imensa quantidade de informações transmitidas num curtíssimo intervalo de tempo. Somente após a experiência é que o místico procede à decodificação das verdades abstratas conferidas durante o vôo da alma, passando a expressá-las por meio de palavras e imagens que podem ser compreendidas, ainda que só vagamente, pelos outros. Nessa decodificação, ou tradução da experiência simbólica interior em palavras, o místico deve valer-se de sua capacidade imaginativa e dos conceitos correntes em sua cultura para transmitir os valores ou imagens que procura expressar. Isso explica, portanto, parte das diferenças entre as várias apresentações cosmogônicas, quando elas expressam realmente as experiências interiores de seus autores. A mesma experiência interior inefável provavelmente será descrita por meio de palavras diferentes por diferentes indivíduos, em diferentes épocas. 

Não podemos nos esquecer, também, que a gnosis não é uma experiência uniforme. Existem diferentes graus de gnosis, ou seja, a iluminação interior ocorre com diferentes níveis de intensidade. Assim como uma lâmpada no mundo moderno pode ser de diferentes potências, indo desde a luzinha usada numa lanterna até os grandes holofotes, também a potência da iluminação interior apresenta-se em diferentes graus durante o processo de adentramento no Reino dos Céus. Por isso, alguns autores gnósticos podem ter percebido apenas o contorno da verdade, enquanto outros foram banhados com a Luz do Alto em grande intensidade, recebendo, portanto, revelações mais profundas que, aliadas a sua melhor capacidade de comunicação no mundo exterior, explicam, então, as diferenças de detalhes dos sistemas cosmológicos existentes.  

Portanto, as representações cosmogônicas derivadas dos ensinamentos de Jesus, como finalmente foram apresentadas pelos diferentes autores, gnósticos ou não, oferecem valiosos instrumentos para o entendimento do magnífico processo da manifestação divina, incluindo a peregrinação da alma. Infelizmente, diferentes interpretações cosmogônicas e metafísicas geraram disputas e cisões dentro do cristianismo. Dentre essas vale citar a questão da substância do Filho, se igual ou semelhante à do Pai (a questão filioque); se o corpo de Cristo era de carne ou de uma natureza ilusória, denominada questão docética; se Jesus foi concebido de forma natural ou pelo Espírito Santo; se sua mãe permaneceu virgem após a concepção, etc.  

Essas questões, que geraram disputas tão acirradas no passado, tornam-se absolutamente irrelevantes quando examinadas à luz do nosso esforço para alcançar o Reino. Será que a opção por uma ou outra opinião faz-nos avançar um milímetro sequer na evolução da alma? Por outro lado, será que o desenvolvimento da tolerância e do respeito e mesmo do amor por aqueles que mantêm opiniões diferentes da nossa não nos adianta quilômetros no caminho da perfeição? Felizmente, nos dias de hoje, é possível uma posição de questionamento religioso temperada pela tolerância para com as posições contrárias. Isso nem sempre foi assim. O Papa Inocente III, que ordenou o genocídio dos albigenses e da população de Constantinopla, no início do século XIII, declarou que "todo aquele que tentar estabelecer uma visão pessoal de Deus que conflite com o dogma da Igreja deve ser queimado sem piedade."[5] 

A realidade é que o entendimento profundo de todas essas questões cosmológicas de natureza abstrata e simbólica estão além da capacidade de nossa mente concreta. Se nos fosse permitido olhar um eclipse do sol através da imagem refletida numa série de espelhos com diferentes graus de distorção, cada uma delas tendo passado por filtros que diminuem a intensidade e a nitidez do brilho solar para proteger nossos olhos, teríamos uma imagem muito mais fidedigna da natureza do sol do que a que podemos ter da verdadeira natureza e dos processos espirituais descritos nos tratados de cosmogonia.


[1] Vide, por exemplo, Hermetica, os escritos atribuidos a Hermes Trimegistos, editado e traduzido por Walter Scott (Boston, Shambhala, 1985), 4 volumes.

[2] Evangelho de Felipe, em Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 150.

[3] The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., Vol. I, pg. vii.

[4] Vide Sam Keen, Amor Próprio e Conexão Cósmica, em O Paradigma Holográfico (S.P.: Cultrix), pg. 115.

[5] Peter Tompkins, "Symbols of Heresy" em The Magic of Obelisks (N.Y.: Harper, 1981), pg. 57.

6. ALEGORIAS, MITOS E SÍMBOLOS 

As verdades mais profundas relativas à natureza e ao homem nas escrituras sagradas de todos os povos e de todos os tempos, são geralmente apresentadas por meio de alegorias, mitos e símbolos. Esse método de ensinamento é uma prática imemorial dos grandes instrutores da humanidade para que as verdades profundas que conferem poder possam permanecer circunscritas aos iniciados cujo caráter já tenha sido amplamente testado.[1] Esses grandes seres, cuja missão é legar aos buscadores da verdade os ensinamentos que os capacitem a alcançar a libertação do sofrimento, ou a ‘salvação', ou ainda o ‘Reino dos Céus', são forçados a velar seus ensinamentos para impedir que venham a cair em mãos indignas. Por outro lado, esses instrutores também são obrigados a exercer extrema cautela na escolha de seus discípulos devido a uma lei espiritual segundo a qual o instrutor que revela verdades ocultas a seus estudantes passa a assumir a responsabilidade cármica por todos os erros que esses possam cometer, sejam eles de abuso ou de omissão, até que esses estudantes alcancem a meta da Perfeição e assumam a total responsabilidade por seus atos, tornando-se, por sua vez, Instrutores da humanidade.[2] 

Não há dúvida de que a humanidade vem desenvolvendo o intelecto mais rapidamente do que a consciência ética, e que existem muitos indivíduos que buscam ensinamentos esotéricos como forma de aumentar seu poder e usá-los para seus interesses pessoais. Por essa razão os grandes instrutores sempre velaram seus ensinamentos com linguagem simbólica e alegorias, devendo os sinceros aspirantes aprender a chave dessa simbologia para penetrar nos mistérios. 

A grande maioria dos leitores da Bíblia e de outras escrituras sagradas insiste em interpretar esses textos literalmente, como se fossem relatos históricos insofismáveis. Os absurdos e as contradições encontrados nesses materiais, tomados ao pé da letra, não parecem arrefecer os ânimos dos crentes, que encaram essas contradições e impossibilidades como oportunidades para reiterar sua fé cega nos mistérios de Deus, como supostamente nos foram revelados nessas sagradas escrituras. No entanto, um grande número de estudiosos, mesmo nas hostes da ortodoxia,[3] estão acordando para a realidade óbvia da alegoria, para a beleza do mito e para a riqueza dos símbolos como métodos tradicionais de expressão de verdades eternas. Nas palavras de um desses estudiosos: 

"Como pode aquilo que está inteiramente além de nossa consciência comum de tempo e espaço e do realismo grosseiro dos conceitos comuns deste mundo de matéria física, como podem estas coisas serem expressas senão por meio de analogias físicas (alegorias) e numa linguagem física que só pode ser simbólica, nunca literal? Mas o prejuízo está justamente nisto, que a alegoria seja tomada pelos não-instruídos como história literal e o símbolo como realidade."[4] 

Desde o início de nossa era os autores gnósticos eram capazes de entender o verdadeiro significado velado do Antigo Testamento, a começar pelos relatos do Gênesis, com suas afirmações aparentemente absurdas. Uma séria estudiosa das questões bíblicas contrasta a atitude dos gnósticos com a dos ortodoxos em relação ao entendimento das escrituras: 

"Alguns cristãos gnósticos sugeriram que esses absurdos demonstram que a estória (do Gênesis) nunca teve a intenção de ser tomada literalmente, mas que deveria ser compreendida como uma alegoria espiritual -- não como história com uma moral mas como um mito com um significado. Esses gnósticos encaravam cada linha das escrituras como um enigma, um quebra cabeça indicando um significado mais profundo. Lido dessa forma, o texto tornava-se uma superfície brilhante de símbolos, convidando o aventureiro espiritual a explorar suas profundidades escondidas, para valer-se de sua própria experiência interior -- que os artistas chamam de imaginação criativa -- para interpretar a estória."[5] 

Assim sendo, devemos nos preparar para abordar os relatos cosmológicos, tanto da Bíblia canônica como dos textos gnósticos como alegorias, mitos e símbolos de verdades mais profundas, que os autores nos convidam a explorar com a mente aberta e, se possível, iluminada pelo Cristo interior. 

Deve ser lembrado que os autores das escrituras escreveram a partir dos relatos que lhes foram confiados diretamente pelo Mestre ou por um dos discípulo ou, então, a partir de uma experiência interior. Essas experiências, por serem geralmente de cunho abstrato e simbólico, são relatadas na forma de mitos, facilitando o entendimento, por meio da analogia, de algo que não poderia ser expresso de outra forma. Apesar do caráter poético da maioria dos mitos, isso não deve nos levar a crer que o mito é um produto da imaginação fértil de seu autor. O verdadeiro mito expressa necessariamente uma experiência interior, não sendo, portanto, uma ficção mas sim algo mais real do que os fatos do mundo exterior. 

Muitos, no entanto, não percebem que a insistência desses autores na apresentação dos mitos cosmogônicos, longe de ser um mero entretenimento para seus leitores ou mesmo uma instrução, constitui, na verdade, convite para que cada um de nós experimente, por sua vez, a viagem da alma que levou o autor original àquela experiência transcendental, com suas conseqüências usuais de transformação interior. Jung utilizou-se amplamente de mitos e símbolos pessoais, principalmente os revelados em sonhos, para o conhecimento da realidade interior do homem. Um de seus discípulos, Stephan A. Hoeller, deixou claro o papel do ritual como instrumento para transformar a riqueza do mito, expressando uma experiência interior, num processo de interiorização que eventualmente poderia levar o praticante a uma experiência mística semelhante à original, fechando, portanto, o ciclo. 

"A experiência transformada em mito, e o mito voltado para dentro como autoconhecimento psicológico: eis o grande movimento da Gnosis no plano da realidade psíquica. Contudo há, ainda, um terceiro componente que permite que o mito desça do nível puramente psicológico para o nível da manifestação material, onde ele pode imprimir sua marca, não apenas nas funções de intuição, pensamento e sentimento, mas também na função de sensação. Esse terceiro elemento é o ritual válido, que possui verdadeiro significado e que se transforma em dramatização ou ‘atuação' do mito para os sentidos. O interesse considerável dos gnósticos pelo ritual sacramental atesta o importante papel da ritualização do mito no supracitado movimento da Gnosis."[6] 

Examinaremos no capítulo seguinte a principal apresentação cosmogônica existente no Novo Testamento, a parábola do Filho Pródigo. Incluímos, também, em anexo, duas apresentações gnósticas, que podem contribuir para o nosso entendimento do processo de descida do espírito à matéria e seu eventual retorno ao mundo de luz. Estes mitos são o Hino da Pérola, provavelmente de autoria de Bardesanes, eminente autor gnóstico do século II, e Pistis Sophia, de autor desconhecido, do início de nossa era, que relata ensinamentos de caráter esotérico de Jesus aos discípulos, após sua ressurreição.


[1] A questão da preservação das verdades sagradas é abordada de forma contundente por Jesus: "Não deis aos cães o que é santo, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não as pisem e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem" (Mt 7:6). Ainda que chocante aos ouvidos de nossa cultura, as palavras de Jesus devem servir como um alerta atemporal para que usemos sempre o discernimento ao divulgarmos o que é santo. A maior parte das pessoas não está interessada nas verdades sagradas e, não estando moralmente preparadas, tenderão a usar esse conhecimento de forma egoísta. Assim, os ensinamentos ocultos que conferem poder, não devem ser ministrados a pessoas despreparadas para que elas não causem sofrimento adicional a si e aos outros.

[2] Existe um paralelo dessa lei espiritual com a tradição cristã de que os padrinhos de uma criança se responsabilizam pelos pecados de seu afilhado até que ele se transforme num ser responsável, com discernimento para distinguir entre o bem e o mal. Vide, H.P. Blavatsky, Ocultismo Prático (S.P.: Pensamento), pg. 11.

[3] Um exemplo disso pode ser encontrado na Introdução ao "Apocalipse" na Bíblia de Jerusalém. Temos ali a seguinte referência sobre as visões narradas no Apocalipse: "Tais visões não têm valor por si mesmas, mas pelo simbolismo que encerram, pois num apocalipse tudo ou quase tudo tem valor simbólico; os números, as coisas, as partes do corpo e até as personagens que entram em cena. Para entendê-lo, devemos, por isso, apreender a sua técnica e retraduzir em idéias os símbolos que ele propõe, sob pena de falsificar o sentido de sua mensagem." Esperemos que, em breve, o Vaticano permita a extensão dessas idéias para a interpretação do resto da Bíblia.

[4] The Gnosis or Ancient Wisdom in the Christian Scriptures, op.cit., pg. 26.

[5] Elaine Pagels, Adam, Eve and the Serpent (New York, Vintage Books, 1989), pg. 63-64.

[6] Stephan A. Hoeller, Jung e os Evangelhos Perdidos (São Paulo, Cultrix/Pensamento, 1989), pg. 110

7. A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO 

Deixemos que o evangelista nos conte, mais uma vez, sua linda mensagem de esperança para todos nós, peregrinos há muito desgarrados e humilhados em terra distante, que ansiamos voltar à Casa do Pai. 

"Um homem tinha dois filhos. O mais jovem disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe'. E o pai dividiu os bens entre eles. Poucos dias depois, ajuntando todos os seus haveres, o filho mais jovem partiu para uma região longínqua e ali dissipou sua herança numa vida devassa. E gastou tudo. Sobreveio àquela região uma grande fome e ele começou a passar privações. Foi, então, empregar-se com um dos homens daquela região, que o mandou para seus campos cuidar dos porcos. Ele queria matar a fome com as bolotas (cascas) que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. E caindo em si, disse: ‘Quantos servos de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome! Vou-me embora, procurar o meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou mais digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus empregados. Partiu, então, e foi ao encontro de seu pai. Ele estava ainda longe, quando seu pai viu-o, encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos. O filho, então, disse-lhe: ‘Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho'. Mas o pai disse aos seus servos: ‘Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado!' E começaram a festa. Seu filho mais velho estava no campo. Quando voltava, já perto de casa ouviu músicas e danças. Chamando um servo, perguntou-lhe o que estava acontecendo. Este lhe disse: ‘É teu irmão que voltou e teu pai matou o novilho cevado, porque o recuperou com saúde'. Então ele ficou com muita raiva e não queria entrar. Seu pai saiu para suplicar-lhe. Ele porém, respondeu a seu pai: ‘Há tantos anos que eu te sirvo, e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com meus amigos. Contudo, veio esse teu filho, que devorou teus bens com prostitutas, e para ele matas o novilho cevado!' Mas o pai lhe disse: ‘Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois esse teu irmão estava morto e tornou a viver, ele estava perdido e foi reencontrado!" (Lc 15:11-32). 

Para a maior parte dos cristãos, que por diversas vezes ouviram referências a essa parábola em sermões dominicais, a estória significa pouco mais do que a infinita generosidade do Pai, que recebe de braços abertos o filho pródigo que saiu de sua Casa para entregar-se à devassidão, dissipando sua herança. É mais uma lembrança de que o erro não compensa, mas que, em última análise, se tivermos a desgraça de cair no pecado (e quem não caiu incontáveis vezes?) podemos, por meio da verdadeira contrição, ser perdoados e recebidos de novo pelo Pai. Essa interpretação singela tem seus méritos e satisfaz a grande massa dos fiéis. Mas existe muito mais riqueza por trás dessa parábola, que é um verdadeiro exemplo de quantos ensinamentos podem estar velados na linguagem do simbolismo. 

O respeitado pesquisador e autor Geoffrey Hodson[1] afirma que essa parábola pode ser interpretada tanto do ponto de vista macro como do microcósmico, pois todas as alegorias apresentadas na Linguagem Sagrada são passíveis de diferentes níveis de interpretação. Isso deve-se a natureza essencial da unidade de toda a manifestação, desde o infinitamente grande até o infinitamente pequeno, tanto nos planos mais elevados como nos mais grosseiros. Esse é o sentido do homem ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Visto sob outro ângulo, o homem é aquele ser em quem o espírito mais elevado e a matéria mais densa estão unidos pela mente.  

Segundo aquele autor, a parábola do Filho Pródigo descreve, de forma simplificada, o processo cíclico de descida consciente da vida do Logos à matéria e seu eventual retorno à origem, à Casa do Pai, devidamente enriquecida pela experiência do processo, como simbolizado pela boa vinda concedida pelo Pai a seu filho. A parábola oferece um magnífico cenário, onde os atores e as principais etapas da jornada da alma, segundo a interpretação de G. Hodson, podem ser apresentados resumidamente da seguinte forma:[2] 

O Pai. Representa o eterno e infinito Genitor, do qual o temporário e o finito são gerados. Ele é causa primordial de toda a manifestação, sendo uma Existência ilimitada e incognoscível. 

O Filho mais Velho. No sentido macrocósmico, personifica os elohim, as inteligências criadoras ou arcanjos, que nunca perdem a consciência da unidade com sua Fonte divina, permanecendo, portanto, em casa. No sentido microcósmico, representa a Centelha Divina no homem, ou a Mônada humana, que também permanece em unidade com a Fonte divina. As Mônadas são provavelmente os anjos que estão sempre voltados para a Divina Presença. 

O Filho Pródigo. Macrocosmicamente, representa o aspecto imanente do Logos, a vida divina interior que embarca na grande peregrinação pelos diferentes planos da manifestação. No seu sentido microcósmico, representa o raio projetado da Mônada que, no seu devido tempo, manifesta-se a nível da inteligência abstrata como a alma espiritual em sua veste imortal de luz, o Cristo interior. Ele é o Deus peregrino que habita no homem, seu Eu Superior, que passa por infindáveis experiências ao longo de suas muitas encarnações na Terra. 

A Casa do Pai. A consciência do Logos do Universo (o Pai) está estabelecida em seu mundo espiritual mais elevado. Alegoricamente, o Pai permanece em casa com as inteligências criativas cósmicas, o filho mais velho. Essa é a residência celestial do ‘Pai que está nos Céus'. 

Ele toma a sua parte da herança e parte em viagem. A ‘parte da herança' representa a porção de vida cósmica alocada a uma unidade individual em manifestação. Esse evento é, às vezes, descrito como a ‘queda dos anjos', dando uma conotação infeliz ao processo, pois a saída da Casa do Pai é uma parte essencial do Plano Divino. Um símbolo mais apropriado é a plantação de sementes, que são enterradas na escuridão do solo, de onde germinarão, no seu devido tempo, quando regadas com a água da vida e fortalecidas com a luz do espírito. Num sentido pessoal, a ‘herança' refere-se aos poderes armazenados no Eu Superior. Quando o homem chega ao ‘país distante', isto é, manifesta-se no mundo das formas, esses poderes serão expressos de inúmeras maneiras, algumas temporariamente infrutíferas, insatisfatórias, daí a parábola dizer que o filho dissipou a herança de forma ‘pródiga'. 

A região longínqua. O país distante é o espaço virgem sobre o qual o novo Sistema Solar será construído, ou como diziam os gnósticos, o Grande Abismo. No sentido microcósmico, o país distante é o campo evolutivo, incluindo, portanto, os planos mental, emocional, etérico e físico, dos quais o corpo físico, por ser o mais denso, é geralmente tido como a prisão do Ego imortal. 

Dissipar a herança. Refere-se à Eterna Oferenda pela qual o Logos sacrifica Sua essência espiritual para que Seu Universo possa existir. É a crucificação voluntária do Cristo cósmico, o Filho Pródigo. Como se trata de um processo de limitação da vida universal da Deidade do universo, vincula-se alegoricamente como a dissipação da herança. 

Uma grande fome. No sentido macrocósmico, representa a inércia que resulta do equilíbrio temporário entre Espírito e matéria, quando é alcançado o ponto mais denso da manifestação. Microcosmicamente, refere-se à ausência de compreensão espiritual da mente concreta durante a etapa inicial da peregrinação da alma, quando não recebe conscientemente nenhum impulso espiritual, mas vive para a gratificação da personalidade de forma deliberadamente egoísta e sensual. Fome e sede são também símbolos do anseio pela verdade. Embora a fome e a sede físicas possam ter conseqüências desastrosas, a fome e a sede da alma são auspiciosas, pois representam o prelúdio da busca da verdade. 

Ele se emprega para cuidar de porcos. O porco é um símbolo dos instintos e desejos mais baixos e sensuais do homem. Isso significa que o filho pródigo chegou ao fundo do poço da materialidade, sensualidade e depravação. 

Ele alimenta os porcos. No sentido macrocósmico, a vida una (o filho pródigo) vitaliza as formas materiais grosseiras (os porcos). Sem essa alimentação interior eles morreriam de inanição (fome). De forma similar, a Mônada, como microcosmo, supre o poder e ‘alimenta' espiritualmente a alma que, por sua vez, inspira e vitaliza a personalidade. Na aplicação pessoal do símbolo, alimentar os porcos significa dar energia vital para as tendências animalescas, indicativas da vulgaridade que ocorre no ponto mais denso da jornada evolutiva. 

Ele queria matar a fome com as cascas jogadas aos porcos. As cascas são os revestimentos físicos exteriores, ou as formas temporárias. Comer cascas, então, simboliza existência e experiência no interior da forma externa mais densa. Para o intelecto humano, essa fase da jornada corresponde ao estágio evolutivo em que a mente é incapaz de apreender as idéias e verdades abstratas e espirituais, daí alimentar-se com as idéias concretas. A percepção de que as cascas, ou a natureza efêmera das formas exteriores, são inteiramente insatisfatórias produz um anseio pelas realidades permanentes interiores. Essa é a verdadeira ‘fome' por Deus, o anseio da alma pela união com sua verdadeira Fonte. 

Mas ninguém lhas dava. A fome ainda perdura. A descoberta da realidade pelo homem é acompanhada pela compreensão de que a fome da alma nunca poderá ser satisfeita por ‘comida' do exterior, e que a peregrinação da alma não terminará enquanto houver dependência de apoios externos. Esse é também um indício da solidão do místico. 

Os servos de seu Pai comem enquanto ele passa fome.  O ciclo de descida à matéria está chegando ao fim, pois o filho pródigo pensa em seu lar. O místico, faminto por alimento espiritual, contempla a casa do Pai, os seres espirituais e as inteligências criativas, os servos do Supremo, que têm comida em abundância. O homem que começa a despertar espiritualmente, percebe lentamente que somente através  do serviço ao próximo poderá encontrar o caminho de casa e trilhá-lo até o fim. Somente pelo serviço o homem pode tornar-se Senhor do Todo. Está implícita a necessidade de humildade e a subserviência da personalidade ao Eu espiritual. 

Vou-me embora. Macrocosmicamente, o ponto mais baixo da involução foi atingido e a viagem de retorno começa. Microcosmicamente, o filho pródigo fala pela primeira vez, indicando que a vida universal no homem atingiu a autoconsciência e a individualidade, capacitando-o a entrar deliberadamente no caminho de retorno. Seu arrependimento expressa um estágio de maturidade no qual descobre que nenhum objeto exterior pode satisfazer espiritualmente a alma, ou ‘salvar' qualquer ser humano. A busca da satisfação começa a ser direcionada para o interior e para cima. Simbolicamente, o filho pródigo arrepende-se de seus erros anteriores, descobre o verdadeiro caminho e começa a jornada de retorno. 

E ele partiu e foi ao encontro de seu Pai. Ainda que a longa e árdua jornada de volta à casa do Pai não seja explicitada (a via normal ou o caminho acelerado), a meta é atingida finalmente. Tendo escolhido as realidades permanentes, o homem entra no Caminho do Discipulado e acelera a viagem. A ilusão da separatividade é superada, e a consciência universal, a condição da Casa do Pai, é atingida. 

Seu Pai corre para recebê-lo, dando calorosas boas vindas e o beija. Quando o caminho de retorno é trilhado, num certo ponto ocorre um afluxo de poder divino. A partir de então, para cada passo que o aspirante dá em direção ao alto, seu Mestre dá dois passos em sua direção, alegoricamente seu Pai corre para abraçá-lo. No sentido iniciático, o beijo simboliza a descida da força monádica sobre o candidato, por meio da voz e do tirso do hierofante na iniciação. Nesse sentido, o beijo representa a união das energias telúricas com as energias espirituais no centro da cabeça do iniciado, conferindo iluminação. 

O filho pródigo confessa ser indigno. A confissão metafórica revela que, quando o ciclo evolutivo está prestes a terminar, o peregrino compreende o quanto a descida à matéria macula a expressão do Espírito. Da mesma forma, quando o Eu Superior alcança um certo grau de autoconsciência e é capaz de transmitir esse fato à mente e ao cérebro do homem mortal, então a motivação e a conduta não-espirituais anteriores são deploradas e renunciadas. A adoção natural dessa atitude de reconhecimento, renúncia e entrega marca uma fase muito importante no desenvolvimento do homem. Em cada encarnação, esse processo de arrependimento também ocorre no momento da morte, quando a alma passa em revista toda a vida da personalidade.  

O Pai disse: trazei a melhor veste. Vestimenta nova é símbolo de um estado de consciência renovado e expandido. A vestimenta existente expressa as limitações usuais da personalidade como egoísmo, preconceito, intolerância, cegueira espiritual e outros grilhões da mente, que devem ser descartados para que uma nova fase evolutiva possa ser adentrada. Geralmente, uma veste nova ou lavada significa um novo corpo para a consciência, uma vez terminada uma etapa de experiência de vida no mundo. Agora a Veste do Filho é do melhor tecido, o mais sutil, a veste de Luz, ou Manto de Glória. 

O Pai disse: ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. O círculo (anel), é o símbolo da eternidade e do poder e sabedoria eternos. Um ciclo foi terminado, e o anel indica que outro deverá ser começado, pois a progressão cíclica não tem começo concebível nem fim imaginável. O anel simboliza também os poderes adquiridos com o término do ciclo anterior. A colocação de sandálias nos pés complementa o simbolismo do anel no fim de um ciclo. A substância macrocósmica, especialmente a mais densa, é comumente representada por calçados, pois esses são colocados na parte inferior do corpo. O Ser está agora capacitado a entrar num novo ciclo devidamente aparelhado. Ao lavar os pés de seus discípulos, Jesus pretendeu o mesmo significado. Os pés simbolizam a fundação da vida humana e das atividades diárias. Quando são purificados ou ‘lavados' pela ação inspiradora e iluminadora do Princípio Crístico no interior de cada homem, então, é alcançada a autopurificação. 

O novilho cevado. Simboliza o resultado do processo criativo. Macrocosmicamente, comer o novilho cevado indica a absorção na Fonte divina de todas experiências e poderes resultantes do processo de manifestação em seus ciclos involutivo e evolutivo. No homem, o microcosmo, o novilho é o símbolo da sabedoria intuitiva, que nasce da descida da vontade espiritual ao veículo da inteligência abstrata, onde reside a alma imortal. No sentido espiritual, o processo de comer o novilho cevado, assim como todo banquete, simboliza o estado de ‘plenitude' que foi alcançado ao fim de um ciclo (como a última ceia do Senhor). 

O irmão mais velho ficou com raiva. A suposta raiva do filho mais velho deve ser tomada como uma manobra proposital para não chamar a atenção dos profanos para a natureza mais profunda da sabedoria secreta, pois é inconcebível a inveja entre diferentes aspectos da natureza Divina. Microcosmicamente, os dois irmãos podem ser considerados como os dois aspectos da mente humana, abstrato e concreto. Quando ocorre a sublimação da mente concreta, após o seu mergulho na matéria, os dois aspectos da mente são unidos e tornam-se o princípio intelectual. Assim, é natural que no fim da grande peregrinação o filho mais novo e o mais velho sejam reunidos na casa do Pai. 

Teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado! A parábola descreve estados de consciência. A morte, nesse caso, implica na completa, ainda que temporária, perda, pelo homem mortal, da experiência da natureza divina e imortal do verdadeiro Eu. A ressurreição, por outro lado, descreve o redescobrimento desse conhecimento da unidade. Estar perdido significa o estado mental de ilusão da separatividade, que inibe temporariamente a compreensão espiritual, principalmente da unidade com Deus. 

Queda e redenção. A idéia da queda do homem, da maldição de Eva e do pecado original, descritos no Gênesis, estão em íntima conexão com o tema da Parábola do Filho Pródigo, e descrevem a ‘queda' do Espírito na matéria e sua eventual redenção, simbolizada pela jornada do filho pródigo ao país longínquo e seu retorno à casa do Pai. Em contato com a matéria, o Espírito perde temporariamente a consciência da unidade, desenvolvendo a ilusão da separatividade, individualismo, orgulho, sensualidade, que constituem o preço que cada habitante da Terra deve pagar para alcançar o estado do Homem Perfeito, o Adepto. 

Tudo o que é meu é teu. A suave reprimenda do Pai ao filho mais velho, constitui a afirmação da verdade eterna de que todos os seres são expressões da vida una divina. Conseqüentemente, todas as manifestações da vida una participam nas realizações umas das outras, ainda que aparentemente separadas. A afirmação do Pai sobre a unidade aparece corretamente ao final da estória, que descreve alegoricamente o término de um grande ciclo. 

Está implícito que a descida do ‘filho' de sua morada celestial de eterna harmonia e bem-aventurança obedece a um desígnio da maior transcendência e não representa uma atitude de rebeldia ou de desrespeito, mas, ao contrário, constitui-se num ato de total obediência à vontade do Pai.


[1] The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., Vol. I, parte iv, apresenta uma seção com a exposição da  Parábola do Filho Pródigo como um exemplo da lei dos ciclos. (pg. 197-243).

[2] Vale lembrar que o leitor poderá encontrar o significado das palavras técnicas incluídas nesta seção no glossário apresentado no anexo 4.

8. A PEREGRINAÇÃO DA ALMA 

Como indicamos anteriormente, os diferentes mitos da Criação, ou apresentações cosmogônicas, oferecem profundos ensinamentos sobre a origem do universo, a natureza do homem, sua origem e seu destino. A parábola do filho pródigo deixa clara a natureza divina do ser humano e lembra que, após nossa longa peregrinação pela terra distante, [1] deveremos voltar à Casa do Pai. A viagem de regresso começa tão logo tenhamos adquirido a consciência de que estávamos nos nutrindo com a comida lançada aos porcos (as paixões e desejos), enquanto na Casa do Pai há pão para todos (sustento espiritual) em abundância. Quando estivermos a caminho do Lar, o Pai nos verá à distância e virá correndo para receber-nos com grande afeto (proverá meios para acelerarmos o nosso progresso), perdoando todas nossas falhas e comemorando o evento com uma grande festa. É dito que, quando um Mestre finalmente recebe a Iniciação suprema, toda a natureza comemora.[2] 

O Hino da Pérola, ou do Manto de Glória, apresentado no Anexo 2, retoma o tema, esclarecendo diferentes aspectos da grande Jornada da alma. Nossa origem divina é confirmada. É mencionado que os tesouros que obtemos ao término de nossa valorosa aventura já eram nossos desde o princípio. Isso significa que somos herdeiros de direito à nossa condição divina. Esse tema está também elaborado no Evangelho de Tomé em linguagem velada: 

"Os discípulos disseram a Jesus: ‘Diz-nos como será o nosso fim'. Jesus disse: ‘Então, se estais buscando o fim, isso significa que haveis descoberto o princípio? Pois onde está o princípio é que estará o fim. Abençoado aquele que ocupar o seu lugar no princípio, pois conhecerá o fim e não provará a morte'."[3]  

Um dos ensinamentos mais intrigantes e profundos sobre a peregrinação da alma é o próprio relato bíblico da vida de Jesus. Vimos anteriormente que a Bíblia é um repositório de ensinamentos profundos velados pela linguagem alegórica. Uma dessas alegorias é a vida de Jesus. Como foi dito anteriormente, Jesus, nesses relatos, simboliza o Cristo que habita no interior do homem. Sua vida, como apresentada nos quatro evangelhos, é uma descrição da viagem de retorno de todas as almas à casa do Pai. Ela inclui os cinco grandes marcos iniciáticos da progressiva expansão de consciência que caracteriza aquelas almas que se engajam no esforço ingente conhecido como o caminho acelerado.  

Jesus faz alusão ao processo iniciático ao referir-se a Jonas: "Como Jonas esteve no ventre do monstro marinho três dias e três noites, assim ficará o Filho do Homem três dias e três noites no seio da terra" (Mt 12:40). Na iniciação o candidato sai o corpo físico, simbolizado pelo barco, entra no mundo interior, o mar, quando é, então, elevado em consciência ao estado crístico, o peixe. Após um período determinado, geralmente três dias e três noites, o iniciado retorna ao seu corpo, na alegoria é expelido do monstro marinho e volta à terra firme. 

Outra alusão importante aos Mistérios é encontrada na Epístola aos Hebreus, em que Paulo, indica que Jesus também era membro da grande confraria, como havia sido profetizado no Antigo Testamento (Sl 2:7 e Sl 110:4): "Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec" (Hb 5:6). E quem seria esse misterioso Melquisedec? De acordo com o autor de Hebreus: "Este Melquisedec é, de fato, rei de Salém, sacerdote de Deus Altíssimo. E o seu nome significa, em primeiro lugar, '‘Rei de Justiça', e, depois, ‘Rei de Salém', o que quer dizer, ‘Rei da Paz'." (Hb 7:1-2) Esse ser, a quem Abraão fez suas oferendas (Gn 14:20), certamente não podia ser humano, pois é descrito como: "Sem pai, sem mãe, sem genealogia, nem princípio de dias nem fim de vida! É assim que se assemelha ao Filho de Deus, e permanece sacerdote eternamente" (Hb 7:3). O sacerdócio eterno refere-se à Grande Fraternidade de Adeptos, dedicada a facilitar a evolução da grande família humana por meio de periódicas revelações a seus filhos, conferidas por seus Mestres de compaixão e sabedoria. 

A tradição cristã enfatiza que a consciência focalizada exclusivamente nas coisas terrenas representa, na verdade, uma vida de trevas, na qual prosseguimos como mortos-vivos, cegos, nada sabendo a respeito de nossa verdadeira natureza e destino, mergulhados na escuridão da ignorância, adormecidos e embriagados, apartados do Reino dos Céus. Vivemos nessa condição por muito tempo, na realidade, por muitas existências terrenas, vagando ao sabor dos ventos da ilusão da separatividade, buscando a felicidade na gratificação dos sentidos e, mais tarde, alimentando nosso orgulho, buscando o poder sobre as coisas do mundo e sobre nosso próximo. Só depois de termos exaurido nossas tentativas de alcançar a felicidade com as coisas deste mundo, quando chegamos ao ‘fundo do poço', geralmente passando por crises existenciais, é que nos damos conta de que estamos no caminho errado e começamos, então, a busca das coisas do alto, tateando a princípio e, mais tarde, trilhando firme a Senda sob a orientação do Mestre. 

O mecanismo que possibilita o retorno da alma ao Mundo de Luz é a metanoia, palavra grega geralmente traduzida como arrependimento, mas que tem o significado mais amplo de transformação do estado mental do homem, entendido como mudança de seus condicionamentos e orientação de seus pensamentos. Esse processo de transformação mental é lento, demandando muitas vidas até que o homem alcance o estado final de perfeição, referido como "a medida da estatura da plenitude do Cristo". Para que a transformação dos estados mentais se processe de forma mais acelerada, o Mestre legou a seus discípulos as chaves do Reino, o instrumental transformador que será examinado na próxima seção.  

Deve ficar claro, no entanto, que nossa admissão ao Reino dos Céus não ocorre depois da morte, mas enquanto estamos encarnados no corpo físico. Essa verdade é apresentada de forma alegórica na passagem bíblica em que Jesus entra em Jerusalém montado num jumento (Mc 11:1-11). Nessa passagem, Jesus simboliza o Cristo interior, que deve entrar no Reino de Deus (a cidade santa de Jerusalém) servindo-se de um quadrúpede como veículo (os quatro corpos da natureza inferior). Esse quadrúpede deve ser devidamente domesticado (com suas emoções e pensamentos inteiramente disciplinados) para servir como veículo apropriado à natureza superior. Portanto, devemos alcançar esse estado de consciência com nosso esforço e merecimento aqui na Terra. Só então conseguiremos estender esse estado beatífico para o resto de nossa existência, inclusive do outro lado do véu, ou seja, quando deixarmos para trás a vestimenta do corpo material. 

No Evangelho de Felipe esse conceito é expresso em relação aos sacramentos. É dito que se as pessoas "não receberem a ressurreição enquanto estiverem vivas, quando morrerem não receberão nada".[4] E, com relação ao sacramento da câmara nupcial que promove a mais alta expansão de consciência, é dito: "Se alguém torna-se um filho da câmara nupcial, ele recebe a luz. Se alguém não a recebe enquanto estiver aqui, não será capaz de recebê-la no outro lugar."[5] 

No sentido mais profundo, a peregrinação da alma deve ser entendida como uma jornada da consciência. Essa jornada inicia-se quando a consciência divina em estado imanifesto, no Interior dos Interiores, decide manifestar-se. A partir desse momento passa a emanar de sua essência veículos para manifestação em planos progressivamente mais densos, até completar o processo no corpo físico do homem. Com isso a consciência desses veículos vai sendo limitada ao que ocorre naquele plano e nos inferiores a ele.  

A segunda etapa da jornada da consciência é conhecida em nossa tradição como o Retorno à Casa do Pai. Nessa etapa ocorre um gradual deslocamento da unidade de consciência para níveis cada vez mais elevados ou sutis. Para o homem no mundo, isso pode ser entendido como a progressiva expansão de consciência do nível material para o emocional, depois para o nível mental concreto, a seguir para o mental abstrato e assim sucessivamente. Essa expansão de consciência reflete, em grande parte, o interesse do ser humano, que deixa de procurar a gratificação dos sentidos, buscando sua felicidade em níveis de realização cada vez mais sutis. O ponto crucial desse processo é a expansão de consciência para o nível mental abstrato, a partir do qual a consciência pode, então, ascender ao nível intuicional da percepção direta da verdade. Os ensinamentos cosmológicos contidos em Pistis Sophia (anexo 3) nos ajudam a entender essa questão.

Para o homem comum, é difícil entender que a consciência inclui tanto o aspecto inferior quanto o superior. Ocorre que, durante a maior parte de sua vida na Terra, o homem só percebe, ou alcança, sua consciência inferior. O fator limitativo é o corpo material ou, mais especificamente, o cérebro. Como vimos anteriormente, a missão do homem é manifestar plenamente o Espírito através da matéria, com a intermediação da mente. Isso significa que o homem deve alcançar a plenitude de sua consciência superior enquanto estiver no corpo físico, sendo essa consciência percebida, ou registrada, pelo cérebro.  

Essa manifestação do Espírito através da matéria, ou Deus através do homem, não deve ser confundida com aniquilamento da consciência do corpo, das emoções ou da mente concreta. No Todo não há dualidade, portanto o eu inferior deve ser integrado à consciência do Eu Superior. Esse processo de integração sempre esteve implícito na tradição do cristianismo primitivo que exortava o homem a alcançar o Pleroma, a plenitude do ser, que não pode ser entendida como exclusão dos níveis inferiores, mas como expansão da consciência para abarcar níveis cada vez mais amplos. De forma semelhante, a prática budista da plena atenção, implica na percepção integrada de tudo o que ocorre nos diferentes níveis de consciência do indivíduo. 

Esse processo de expansão da consciência a planos mais elevados é exemplificado no mito de Sophia pela estória contada por Maria, a mãe de Jesus: 

"Quando eras pequeno, antes do Espírito ter descido sobre ti, enquanto estavas na vinha com José, o Espírito desceu do alto e veio a mim em minha casa, parecendo contigo. Eu não o reconheci, mas pensei que ele era tu. E o Espírito me disse: ‘Onde está Jesus, meu irmão, para que possa encontrá-lo?' E quando ele me disse isso, fiquei em dúvida e pensei que era uma aparição, tentando-me. Agarrei-o, amarrando-o ao pé da cama em minha casa, indo encontrar-me contigo e com José no campo. Encontrei a ti e a José na vinha. José estava fincando estacas para as videiras. Quando me ouviste dizer aquilo a José, tu compreendeste e te alegraste, dizendo: ‘Onde está ele, para que possa vê-lo? Pois na verdade estou esperando-o neste lugar.' Quando José te ouviu dizer essas palavras, ele se assustou. Fomos juntos, entramos na casa e encontramos o Espírito preso à cama. E olhamos para ti e para ele e achamos que eras semelhante a ele. E aquele que estava preso à cama foi desatado. Ele te abraçou e beijou, e tu também o beijaste. E vos tornasteis um e o mesmo ser."[6] 

O simbolismo é claro. Jesus quando menino ainda não havia desenvolvido inteiramente a consciência espiritual, mas estava ciente de que isso deveria ocorrer quando seus veículos estivessem suficientemente preparados (o que geralmente ocorre por volta dos sete anos de idade). O Espírito com a aparência de Jesus, que Maria confunde com uma aparição, simboliza a contraparte espiritual de sua consciência. Um espírito, logicamente, não pode ser amarrado numa cama, portanto essa cena deve ser entendida num sentido alegórico, ou seja, que ficou aprisionado às emoções e ao corpo. Nesse sentido, o espírito de todos nós está amarrado ao nosso corpo e só pode ser solto quando o reconhecemos e o libertamos dessa prisão milenar, dando asas à nossa consciência. Quando isso ocorre, a consciência inferior, Jesus menino, abraça e beija sua contraparte espiritual, tornando-se os dois um só ser, ou melhor, uma só consciência. O abraço e beijo oferecem um paralelo com os mistérios do despertar da kundalini, quando a energia telúrica sobe serpentinamente pela coluna dorsal, encontrando-se no centro da cabeça com a energia espiritual que entra pelo chacra coronário, beijando-se aí, ou simbolicamente unindo-se, provocando assim um estado de iluminação no indivíduo. 

Mas se a consciência inferior e a superior são partes de um todo, o que ocorre com a consciência superior ao longo de todas as existências em que o homem está voltado para o mundo, mantendo-a, portanto, amarrada ao pé da cama? Durante essas longas eras, a consciência superior aguarda, com paciência divina, o momento oportuno para revelar-se, em obediência ao livre arbítrio do homem, aproveitando, porém, todas as ocasiões possíveis para inspirar sua contraparte inferior. As intuições que temos ocasionalmente fazem parte dessa comunicação esporádica entre o superior e o inferior dentro de nós, que ocorrem sem que nos apercebamos em nossa consciência de vigília. A consciência superior aguarda que chegue o momento em que o homem no mundo busque o caminho da perfeição, o que implica na purificação da mente e sua conseqüente sintonia com o mundo superior. A passagem do Apocalipse: "Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim; e a quem tem sede eu darei gratuitamente da fonte de água viva" (Ap 21:6), retrata essa lei espiritual de que o Senhor do universo deve aguardar a solicitação do homem, nesse caso referida como a sede de espiritualidade, para só então saciá-lo. 

A unidade da vida, da qual resulta a unidade da consciência, pode ser imaginada como um cordão espiritual que une todos os veículos emanados pelo Deus interior nos diferentes planos da manifestação. Assim, todos os veículos do homem, desde o mais elevado, ou espiritual, até o mais grosseiro, o corpo físico, fazem parte de um todo. Ao longo da peregrinação da alma, com sua lenta evolução e sutilização, a consciência vai como que subindo ao longo desse cordão, devendo para isso superar certas barreiras. A mais importante para o homem do mundo é a barreira entre o mental concreto e o mental abstrato. As tradições orientais chamam este cordão de antakharana, que é também, às vezes, referido como o cordão prateado, ou ponte, entre o superior e o inferior.


[1] A idéia de que vivemos em desterro longe da casa do Pai está expressa em Imitação de Cristo: "Considera-te, neste mundo, como peregrino e hóspede, que nada tem que ver com os negócios da terra. Conserva o teu coração livre e voltado para Deus, porque não tens aqui morada permanente." Imitação de Cristo, op.cit., pg. 90-91.

[2] "Sabe, ó Vencedor dos pecados, que tão logo o praticante tenha cruzado a sétima Senda, toda a Natureza vibra de reverente alegria e se faz submissa. A argêntea estrela cintila a boa nova às flores noturnas, o riacho sussurra a lenda aos calhaus; as escuras ondas do oceano a bramam aos rochedos envoltos de espuma, brisas impregnadas de aromas a cantam aos vales, e altivos pinheiros murmuram misteriosamente: ‘Surgiu um Mestre, um Mestre do Dia'." A Voz do Silêncio, op.cit., pg. 85.

[3] Evangelho de Tomé, versículo 18, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 128.

[4] Evangelho de Felipe, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 153.

[5] Evangelho de Felipe, op.cit., pg. 160.

[6] Pistis Sophia, op.cit., pg. 206-7.

V. O MÉTODO DE TRANSFORMAÇÃO 

9. A PORTA ESTREITA E O CAMINHO APERTADO 

O objetivo da vida do homem é, como já foi visto, entrar, ou melhor, retornar ao Reino dos Céus. Esse Reino não é deste mundo, como disse Jesus,[1] e se encontra em toda parte, mas os homens não o reconhecem. O Reino está dentro de cada ser humano; ele é a dimensão espiritual da manifestação e pode ser adentrado quando o homem expande a sua consciência além dos limites usuais do mundo de nomes e formas expresso pela mente concreta. 

Jesus nos convida a trilhar esse caminho:[2] "Entrai pela porta estreita, porque largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição. E muitos são os que entram por ele. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho que conduz à Vida. E poucos são os que o encontram." (Mt 7:13-14). A expressão usada por Jesus para descrever o caminho da perfeição, como sendo A porta estreita e o caminho apertado, é mais um exemplo da felicidade de sua terminologia. A Porta Estreita transmite a idéia de que só pode passar por ela quem não tiver carregando bagagens volumosas, ou seja, quem obedecer ao requisito básico de renunciar ao mundo, deixando para trás seus apegos à vida passada.

 Passar pela Porta Estreita é iniciar o caminho da perfeição. Para alcançar a meta o postulante terá que percorrer o caminho apertado, o ‘caminho do fio da navalha' como é descrito nas tradições orientais. Esse caminho está cheio de perigos, devendo o viajante permanecer constantemente atento para não cair nas armadilhas existentes nos dois lados da via. Por isso, os excessos em qualquer direção são prejudiciais para o postulante, como alertou o Buda, ao ensinar o Caminho do Meio, livre dos extremos da vida de licenciosidade, por um lado, e das asceses rigorosas com punições e até mesmo macerações do corpo, por outro. 

Nesse sentido Jesus disse ainda: "Em verdade, em verdade te digo quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus" (Jo 3:3). A expressão simbólica ‘nascer de novo' (alterada na Bíblia de Jerusalém para ‘nascer do alto') refere-se ao renascimento espiritual que ocorre quando o homem é iniciado nos mistérios divinos, tornando-se simbolicamente uma ‘criancinha'. A criança é inocente e verdadeira, sem condicionamentos limitadores, não tendo, portanto, uma grande ‘bagagem', facilitando, assim, sua passagem pela porta estreita. 

Existem também uma interpretação de sentido ocultista na expressão do Mestre de que "estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à Vida." Para aqueles que postulam que Jesus teria sido iniciado nos Mistérios egípcios, a expressão pode se referir ao local dos ritos na Grande Pirâmide onde eram conferidas as iniciações. Como essas iniciações provocavam expansões de consciência, verdadeiras iluminações, que permitiam ao iniciado a experiência da unidade e da eternidade, elas eram referidas como a "Vida". Para chegar ao local da iniciação o discípulo tinha que atravessar uma estreita passagem: "A chamada Câmara do Rei ... se não era a ‘câmara das perfeições' do túmulo de Cheops, era, provavelmente, o recinto onde tinha admissão o neófito depois de atravessar a estreita passagem do alto e a grande galeria com a extremidade pouco elevada, que gradualmente o preparavam para a fase final dos Mistérios."[3] 

O caminho largo e espaçoso, por sua vez, não deve ser interpretado como sendo exclusivamente o dos ‘pecados capitais', que sem dúvida afundam o homem ainda mais nas trevas da ignorância e do sofrimento. Para o aspirante espiritual que, como o jovem rico referido nos evangelhos (Mt 19:16-22; Mc 10:17-22; Lc 18:18-23), já obedece os preceitos básicos da lei, o que falta é a renúncia ao mundo, simbolizada na parábola pela renúncia aos bens materiais e, por outro lado, dedicação ao trabalho de autotransformação (seguir Jesus). O caminho largo e espaçoso, para o aspirante, representa o caminho da sabedoria convencional, sancionado em alguns casos pelas escrituras e santificado pela prática. Nele procura-se a segurança e a identificação com a cultura e a estratificação social prevalecentes, com suas quatro preocupações centrais: família, riqueza, honra e religião.[4] 

A família era considerada o esteio da sociedade judaica, tradição essa que perdura em nossos dias. A maior parte das famílias conhecia e vangloriava-se de sua genealogia. Jesus, porém, conclamava seus seguidores a abandonar suas famílias e segui-lo. Ele deu o exemplo, pois, ao ser alertado de que sua mãe e seus irmãos o aguardavam, virou-se para aqueles que o ouviam e disse: "Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe" (Mc 3:34-35). Para Jesus, o discipulado envolvia uma clara escolha entre a dedicação estreita à família e o mais amplo amor à coletividade, ou seja, à família humana.  

Para seus contemporâneos, deve ter sido chocante a afirmação de Jesus de que não veio trazer paz à terra, mas sim divisão: "Pois doravante, numa casa com cinco pessoas, estarão divididas três contra duas, e duas contra três" (Lc 12:52). Essa passagem refere-se á própria natureza do homem. A casa é o ser humano. De um lado ficam dois: a alma e o Eu Superior, contrapondo-se a três: o corpo astral, o destino vinculado ao corpo etérico e o corpo físico. Como Jesus simboliza o Eu Superior, ou Cristo, esta passagem indica que quando o Cristo interior finalmente se manifesta no homem (a casa), o resultado é a divisão que leva à batalha entre a natureza superior e a inferior.[5] Trata-se da tradicional batalha entre a luz e as trevas, que é travada no interior do homem.  

Nem mesmo a sagrada obrigação dos judeus ortodoxos de enterrar os pais escapou da crítica do Mestre. Quando um possível seguidor, desejoso de juntar-se aos seus discípulos, disse que iria primeiro enterrar seu pai, Jesus retrucou: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos" (Lc 9:60), fazendo um jogo de palavras cujo sentido era alertar aqueles meramente preocupados com o cumprimento da letra da lei para o fato de que eles estavam mortos no sentido espiritual, e são esses mortos espiritualmente que estão preocupados com a morte física. 

As posses e as riquezas eram, para os judeus, símbolos de segurança e identidade, sendo consideradas, juntamente com a honra, indicação da recompensa divina para os justos. A riqueza, portanto, não só era o instrumento para o conforto dos ricos, mas um motivo para seu orgulho, pois os ricos se consideravam eleitos dentre os eleitos de Deus. Nesse contexto torna-se mais fácil entender porque Jesus disse: "Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus!" (Mc 10:23). Esse comentário do Mestre não significava necessariamente que a riqueza em si fosse condenável, até mesmo porque alguns de seus discípulos eram abastados de acordo com os parâmetros da época (como Bartolomeu, também chamado Nicodemos, Mateus, Felipe, os irmãos Lázaro, Tiago, Madalena e Marta, José de Arimatéia e algumas mulheres que contribuíam financeiramente para o movimento[6]), mas simplesmente que os bens materiais eram mais uma amarra poderosa que prendia os homens à vida do mundo e dificultava a vida espiritual.[7] Existe um aspecto de nossas posses que geralmente não recebe a devida atenção, que são as nossas idéias. Muitas pessoas têm mais dificuldade para desapegar-se de suas idéias que de suas posses materiais. Por isso, cada um de nós pode ser o "homem rico" da parábola, apegado aos supostos tesouros de sua mente. É por isso que os padres da igreja primitiva e a tradição mística falam da necessidade de esvaziamento (kenosis) como a primeira etapa do caminho. 

A honra também agia de forma semelhante, minando a alma com sentimentos de orgulho. Era, de certa forma, uma conseqüência do status da família, da situação do nascimento e da riqueza, e seu reconhecimento social podia aumentar ou diminuir em função da postura do indivíduo perante a sociedade. A honra era a consideração mais importante que o indivíduo acreditava merecer em função do seu status. Numa sociedade de relativamente poucas opções para o consumismo, boa parte das ações daqueles que tinham poder econômico, político ou social eram voltadas para a aquisição, preservação e demonstração da honra. Jesus, no entanto, ridicularizava aqueles que buscavam a honra em seu comportamento social, como por exemplo ocupar o lugar de destaque num banquete[8] ou na sinagoga[9], esperar saudações nas ruas[10] e, pior ainda, realizar suas práticas religiosas para obter reconhecimento social.[11] 

A religião era o ponto mais alto do reconhecimento da sabedoria convencional. A crença entre os judeus de serem o povo eleito de Deus, em virtude da promessa divina feita a Abraão, levava à conclusão natural de que as práticas religiosas eram o elemento central para assegurar a herança no Reino dos Céus. João Batista, em sua linguagem contundente chama a atenção para esse engano: "Não penseis que basta dizer: Temos por pai a Abraão" (Mt 3:9). Jesus levou mais adiante o argumento de que o Reino não é exclusivamente, nem mesmo primordialmente, dos judeus, ao atestar a fé do centurião romano: "Mas eu vos digo que virão muitos do oriente e do ocidente e se assentarão à mesa no Reino dos Céus, com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão postos para fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes" (Mt 8:11-12). É, assim, fácil de entender a ênfase dada às práticas religiosas entre os judeus que julgavam que suas realizações no mundo eram indicações de que Deus começava a prodigalizar na terra o que seria consumado no céu. Jesus como sábio crítico social e arauto da verdade criticou, em diversas ocasiões, essa atitude de profunda miopia espiritual de seus conterrâneos. 

A mensagem de Jesus subverte esses valores culturais. Suas parábolas e provérbios, revertendo as expectativas criadas pela sabedoria convencional, provocaram perplexidade e animosidade entre os judeus, despertando ressentimentos entre os guardiões da cultura religiosa, ou seja, entre os levitas e fariseus. Nas palavras de um erudito moderno, Jesus "atacou o ‘caminho largo e espaçoso' da sabedoria convencional como um meio inadequado para realizar uma transformação interna. Na verdade, ele considerou-a não só como uma cura inadequada mas como parte do problema. A sabedoria convencional torna-se facilmente uma armadilha, prendendo o ego com suas promessas de segurança e identidade, levando-o a preocupar-se com assuntos externos, limitando sua visão e estreitando seus interesses e compaixão. Jesus subverteu a sabedoria convencional pela raiz, vendo-a, juntamente com a autopreocupação que ela promovia, como o mais sério obstáculo a ser vencido pelo devoto que busca centralizar sua vida e conduta nos caminhos de Deus."[12] 

A expressão ‘a porta estreita e o caminho apertado' também transmite outro conceito profundamente oculto relacionado à possibilidade de experiências psíquicas em estados alterados de consciência. Isso ocorre quando, num determinado momento da prática espiritual, o devoto sente como se sua alma tivesse alçado vôo no qual experimenta uma expansão de consciência, percebendo a realidade em outros planos, onde pode receber instruções, experimentar visões beatíficas, penetrar na Luz, ou mesmo, sentir-se uno com Deus. Essa experiência mística é descrita por muitos como iniciando-se com a sensação de que o ser está passando em alta velocidade por um túnel estreito e escuro. 

Para trilhar-se o Caminho da Perfeição, deve-se, nas palavras de Paulo, deixar o homem velho morrer para que o homem novo possa nascer.[13] Essa é a idéia por trás das palavras de Jesus: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mc 8:34). Isso significa uma transformação radical simbolizada pela expressão ‘morrer para o mundo',[14] o que só pode ser feito atacando as causas e não os efeitos de nossas perturbações mentais. Nossas ações são efeitos, as causas são nossas atitudes mentais, que desencadeiam pensamentos e emoções que determinam nosso comportamento. Portanto, são esses estados mentais que devem ser mudados. 

O processo de transformação é longo e árduo, porque a personalidade autocentrada resiste por todos os meios a qualquer mudança, erguendo barreiras, apresentando dificuldades, racionalizando sempre com todo tipo de argumento o porquê não pode e não deve mudar. As dificuldades do caminho espiritual podem ser imaginadas como a subida de uma ladeira íngreme que se torna mais difícil quanto maior for o peso das tendências materiais que tivermos de carregar. Esse processo de transformação era conhecido no cristianismo primitivo como metanoia, posteriormente traduzido como ‘arrependimento.' Neste sentido, em quase todos livros da tradição cristã, quando encontramos a palavra arrependimento, o que está sendo transmitido é a idéia de mudança de atitude, valores e orientação de vida, devido à mudança mental.[15] 

O caminho espiritual, portanto, é o processo de gradativa mudança do estado mental do homem, que deixa de ser autocentrado para tornar-se theoscentrado (centrado em Deus). Inicialmente a metanoia significa uma mudança nos pensamentos, do material para o espiritual. Chega um determinado momento em que a resistência inercial do mundo material é vencida e a alma, guiada pelo Cristo interior, alça vôo, transcendendo os pensamentos ordinários e voltando-se cada vez mais para Deus. A partir desse momento o progresso da alma será acelerado, à medida que a luz interior vai desabrochando até alcançar a meta final, a plenitude do Cristo. 

Parece que Paulo se referia a esse tipo de transformação radical da mente quando disse algo que lembra muito o dharma budista: "E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus" (Rm 12:2). Essa vontade parece ser a consecução da perfeição, uma perfeição tão sublime que transcende qualquer idéia que o homem possa dela ter em sua experiência de vida usual. Poderia ser imaginada como sendo a plena união de Espírito e matéria ou, vista sob outro ângulo, a plena manifestação do Espírito através da matéria. Essa meta foi alcançada pelos grandes Mestres, referidos como "homens justos que chegaram a perfeição" (Hb 12:23), que expressam o divino amor, poder e sabedoria num grau muito além do concebido pelo homem comum.


[1] Jo 18:36.

[2] No primeiro século de nossa era, a tradição cristã é referida em Atos (9:2) como o Caminho.

[3] Stanisland Wake, "The Origin and Significance of the Great Pyramid", citado por H.P. Blavastky em A Doutrina Secreta, vol. II, pg. 23.

[4] Marcus Bog, Jesus. A New Vision (Harper San Francisco, 1991), pg. 115

[5] Vide Pistis Sophia, op.cit., 343-44

[6] Vide Lc 8:1-3.

[7]  Vide Jesus, a New Vision, op.cit., pg. 104-105.

[8] Lc 14:8-11

[9] Lc 11:43

[10] Mc 12:38-39

[11] Mt 6:1-2, Mt 6:5 e Mt 6:16

[12] Jesus. A New Vision, op.cit., pg. 116.

[13] Cl 3:9-10.

[14] Cl 3:5.

[15] Vide, Pistis Sophia. Os Mistérios de Jesus, op.cit., pg. 32.

10. A TRANSFORMAÇÃO DA MENTE 

As diferentes tradições espirituais oferecem alternativas para a transformação da mente que poderiam ser classificadas sob dois enfoques básicos. 

O primeiro seria o da transformação de fora para dentro, típica da Hata Ioga, que, de forma simplificada, seria a utilização de um complexo método de posturas e exercícios físicos visando o controle da mente, por meio da disciplina do corpo físico. 

Num outro extremo, o da transformação de dentro para fora, encontramos a Raja Ioga, desenvolvida por intermédio de uma metodologia, exemplificada na ‘Ioga de oito passos' (Astanga Ioga) de Patanjali,[1] que busca controlar a mente pela mente. Esse método parece ser mais adequado para pessoas que já tenham alcançado certo nível de desenvolvimento mental.  

Esses dois ramos clássicos da ioga, no entanto, não podem ser descritos como puramente físico e exclusivamente mental, pois em ambos os casos algumas práticas valem-se do enfoque oposto. Por exemplo, na Raja Ioga, duas das suas oito etapas envolvem práticas físicas, a respiração (pranayama) e as posturas (asanas). Vemos, portanto, que as diferentes escolas de transformação da mente da linha ióguica caracterizam-se pela ênfase dada a certas práticas e não pela adoção exclusiva de um método em detrimento de outros. 

Os métodos de transformação da mente também podem ser classificados pelas condições em que são praticados. Na tradição ocidental e, em menor escala, na oriental, a maior parte das práticas espirituais foram desenvolvidas para praticantes engajados na vida monástica. Na via monástica, o monge abdica de sua vida familiar, entrando para um convento ou vivendo como eremita, numa rotina inteiramente voltada para o objetivo espiritual. Em alguns casos, a rotina monástica demanda 16 ou mais horas por dia de dedicação às práticas espirituais de orações, meditações, liturgias, vigílias, trabalho e outras asceses, que são inadequadas para o homem comum, que deve trabalhar para sustentar sua família e dar atenção aos seus diferentes deveres sociais e familiares.  

Outras práticas mais simplificadas estão sendo desenvolvidas, ou melhor, redescobertas, adequando-se à realidade da vida agitada e com pouca disponibilidade de tempo do buscador moderno que vive fora dos mosteiros. A tranqüilidade tão estimada pelos monges hesicastas[2] deve dar lugar agora ao tumulto da vida em sociedade, com suas conhecidas pressões, profissionais e familiares. Na constante interação com diferentes grupos, o homem moderno, de orientação mental, tem oportunidade de desenvolver mais rapidamente certos aspectos da alma. Porém, essa nova realidade social demanda um esforço especial para o preenchimento das necessidades atuais. Isso não quer dizer que os requisitos para o discipulado tenham sido modificados, pois são imutáveis, independem do tempo e do espaço. O que muda é o ritmo e o enfoque. O aprendizado para aqueles que realmente se voltam para a busca interior pode ser acelerado, tendo em vista o nível mental mais avançado do homem moderno, que lhe faculta a possibilidade de passar, num período de poucos anos, por mais experiências do que normalmente seria possível durante toda uma vida na idade média, por exemplo. 

        Duas outras vias abrem-se aos buscadores espirituais dedicados, a via mística e a ocultista. Apesar de ambas buscarem exatamente a mesma experiência, a união com Deus, e utilizarem praticamente os mesmos fundamentos e instrumentos, o caráter distinto do místico é seu amor a Deus, que tudo consome e supera, enquanto o ocultista vale-se especificamente de aportes energéticos de fora, na forma de rituais, sacramentos, ou iniciações, para ajudar a superar suas limitações e expandir sua consciência. As diferenças entre essas duas vias devem ser devidamente compreendidas, pois, como o objetivo último da vida espiritual é a perfeição, para que essa seja alcançada é necessário que todos os diferentes aspectos da alma sejam desenvolvidos, o que por sua vez requer diferentes situações de vida e experiências ao longo da peregrinação da alma. Assim, o místico numa encarnação poderá ser um ocultista em outra e vice-versa.

 


[1] I. Taimni, A Ciência da Ioga (Brasília, Editora Teosófica).

[2] Termo derivado da palavra grega hesychia (hsucia) que significa silêncio e tranqüilidade, buscados inicialmente no isolamento do deserto e, mais tarde, quando o crescente número de buscadores solitários tomaram consciência das imensas dificuldades para a sobrevivência no deserto, em grupos afins reunidos no que veio a ser chamado de mosteiros (monastiria).

O enfoque de Jesus 

Nos documentos canônicos e apócrifos existentes, não se encontra nenhuma apresentação sistemática do método de Jesus para a transformação do homem. Cabe a nós, buscadores da verdade e discípulos do Mestre, organizar seus diferentes e esparsos ensinamentos de forma a obter um instrumental transformador coerente e sistemático. Nesse afã, não é difícil perceber nos ensinamentos de Jesus que ele preconizava uma abordagem semelhante a que hoje seria chamada de holística. Todos os aspectos do homem deveriam ser desenvolvidos, já que seu enfoque incluía tanto os métodos de desenvolvimento de fora para dentro como os de dentro para fora. Seus ensinamentos serviam de alimento à alma tanto das pessoas comuns, que buscavam consolo para as agruras de suas vidas diárias e esperança de dias melhores, como dos buscadores avançados que simbolicamente batiam às portas do Reino. 

Para todo ser humano, o caminho começa exatamente no ponto em que ele se encontra quando decide trilhá-lo. Como o homem do mundo está necessariamente sob o jugo de sua natureza inferior, seus primeiros passos serão dados pelo seu eu adulto consciente, que começa a buscar em si a força para a mudança. Assim, numa primeira etapa, a mudança será efetuada de fora para dentro e, consequentemente, de forma lenta e penosa. Só mais tarde, quando a intuição for despertada, será possível a ajuda do Eu Superior, do Cristo interno, que começa a orientar a alma, inspirando-a a seguir o caminho do alto. Inicia-se, então, uma etapa de desenvolvimento acelerado, em que a transformação ocorre de dentro para fora, possibilitando a alma queimar etapas. 

Jesus, como todo Mestre, conhecia a complexidade da natureza humana, que tende a resistir à mudança. Por isso, ele legou à humanidade ensinamentos concebidos para trabalhar a natureza do homem sob diferentes ângulos. Sua primeira preocupação parece ter sido quebrar os condicionamentos que limitavam a capacidade de transformação dos judeus naquela época, da mesma forma como ainda limitam o homem moderno. 

O comportamento do homem é determinado por seus condicionamentos que refletem os valores recebidos da família e da sociedade, que são progressivamente adaptados para refletir seu temperamento, suas experiências e seu estágio evolutivo. Grande parte dos condicionamentos origina-se de experiências da infância, quando a criança busca amor e proteção dos pais e nem sempre os encontra na forma e intensidade desejadas e, em alguns casos, chega até mesmo a receber maus tratos e descaso, gerando, então, traumas que a criança procura superar, criando defesas para evitar o sofrimento. Essas defesas, envolvendo um ‘raciocínio' emocional,[1] são mantidas no inconsciente e passam a governar importantes aspectos da vida do jovem e, mais tarde, do adulto, até serem trabalhadas e superadas, geralmente com bastante esforço.  

A liberdade do ser humano, expressa por seu livre arbítrio, deve ser entendida num sentido relativo, pois os condicionamentos agem de forma inconsciente, como um programa de computador que automaticamente processa todos os dados novos, apresentando respostas ou resultados de acordo com o programa inicial. Jesus procurou quebrar essa programação inconsciente do homem que o torna egoísta e distante de Deus. Nos ensinamentos públicos isso era feito de forma contundente por meio das parábolas, que criticavam a sabedoria convencional,[2] fonte de importantes condicionamentos, como por exemplo: 

"Ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos" (Mt 5:45). 

"Aquele que ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim. E aquele que ama filho ou filha mais do que a mim não é digno de mim" (Mt 10:37) 

"Se alguém vem a mim e não odeia[3] seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmã e até a própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lc 14:26). 

A sabedoria convencional é a expressão da tradição, abarcando os valores da vida social, principalmente no que se refere à família, riqueza, honra e religião. As rígidas normas de obediência à Torá, com suas prescrições detalhadas de práticas religiosas, inevitavelmente criavam situações conflitivas na vida dos judeus. Um exemplo desse conflito foram as curas efetuadas por Jesus no sábado, que se prestaram a críticas por parte dos fariseus e escribas e deram ocasião aos inesquecíveis ensinamentos do Mestre a respeito da compaixão e das prioridades na vida do verdadeiro homem justo.[4]  

Assim, tendo Jesus curado num sábado uma mulher que há dezoito anos era possuída por um espírito que a mantinha recurvada e doente, foi criticado pelo chefe da sinagoga. Jesus, então, replicou: "Hipócritas! Cada um de vós, no sábado, não solta seu boi ou seu asno do estábulo para levá-lo a beber? E esta filha de Abraão que Satanás prendeu há dezoito anos, não convinha soltá-la no dia de sábado?" (Lc 13:15-16). Diversas outras passagens dos evangelho (Mt 12:6-7, Mt 12:10-12 e Lc 14:1-5) são igualmente ricas em ensinamentos espirituais do gênero. 

A própria prática da oração, aparentemente de acordo com a lei, ou seja de acordo com a sabedoria convencional, podia ser ocasião para expressão de orgulho e não de verdadeiro louvor a Deus, como no caso da parábola do publicano (coletor de impostos). 

"Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu, de pé, orava interiormente deste modo: ‘Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano; jejuo duas vezes por semana, pago o dízimo de todos os meus rendimentos'. O publicano, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos para o céu, mas batia no peito dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!' Eu vos digo que este último desceu para casa justificado, o outro não." (Lc 18:10-14) 

Essa parábola é especialmente feliz em mostrar o contraste entre a pessoa que se identifica com a máscara de ser "boa e correta" e outra que reconhece o comportamento negativo de seu eu inferior, dando assim o passo necessário para trabalhá-lo e ser, então, purificada. 

Todos esses exemplos do ministério de Jesus são reiteradas críticas à uma interpretação estreita da lei mosaica, principalmente de seus preceitos de pureza e observância do sábado, como interpretados pelos escribas e fariseus, porque não eram temperados pela compaixão. Aliás, outros profetas da tradição judaica já haviam feito essas mesmas críticas no passado, como os autores de Isaias, Eclesiastes e Jó. Portanto, o comportamento pautado pelos ditames da sabedoria convencional, ou seja, pelos padrões de excelência que guiam a maior parte da sociedade, não eram no tempo de Jesus, e não são nos dias de hoje, garantia de comportamento verdadeiramente espiritual. O homem deve usar o seu discernimento em cada caso, guiando-se pelo coração, ou seja, tendo a compaixão como bússola para nortear sua rota no relacionamento com as pessoas e o mundo. 

Talvez a expressão de Jesus: "é pelos seus frutos que os reconhecereis" (Mt 7:20) seja um resumo de sua crítica à posição farisaica. As aparências externas de práticas religiosas e obediência à lei não eram garantia de uma alma pura e elevada.[5] O comportamento naturalmente amoroso e um verdadeiro senso de dever comandado pelo coração e pela razão é uma indicação mais certa do homem verdadeiramente justo. O que importa é o que vem do coração e não a preocupação com crenças e comportamentos sancionados pela tradição. Na prática, crença e comportamento podem se tornar uma religião de segunda mão, herdada pela tradição, deixando, porém, o homem egoísta em seu interior, apesar dele acreditar estar fazendo as coisas corretas. 

Em Pistis Sophia (Anexo 3), é dito que os condicionamentos agem como verdadeiros demônios interiores, procurando levar o ser humano ao erro, mesmo quando ele procura a vida espiritual. Esses demônios são formas de influência persistentes, as tendências, que se incorporam aos nossos conteúdos mentais. Assim, a transformação do homem permanecerá lenta enquanto a personalidade lutar sozinha contra seus condicionamentos. É por isso que deve ser solicitada ajuda ao grande aliado da alma, o Cristo interno, para superar a resistência às influências ‘demoníacas' na forma de tendências arraigadas. Quando isso ocorre, o ser integral, o homem exterior e seu Eu Superior começam a agir em uníssono, promovendo a transformação de dentro para fora. E a mudança terá que ser radical, pois, enquanto as tendências persistirem, enquanto a negatividade não for reconhecida, o homem voltará a cair no erro. Essa transformação ocorre progressivamente durante o desenrolar das experiências da vida, em níveis cada vez mais elevados da espiral do progresso infinito, até que o homem alcance a gnosis suprema, a iluminação libertadora, tornando-se, então, um homem perfeito. 

Um autor experiente chama esses dois enfoques de o caminho longo e o caminho curto. "Há o Caminho Longo do auto-aperfeiçoamento, da autopurificação e do auto-esforço; e há o Caminho Breve do completo esquecimento do eu e do direcionamento da mente para o Objetivo, para a Vida Una Real, pela lembrança constante dela e pela prática da identificação com ela."[6] O caminho longo é ensinado aos principiantes, sendo praticado até um estágio bem avançado da busca. É extremamente penoso, demandando que as mesmas batalhas sejam travadas repetidamente, até que a semente do mal seja extirpada do coração do aspirante, daí ser chamado de caminho longo, pois leva muitas encarnações para que a iluminação seja alcançada por este método. O caminho breve geralmente é trilhado quando o aspirante já labutou por muito tempo da forma tradicional sem conseguir os vislumbres do mundo interior e, finalmente, decide entregar-se ao Mestre interior, negando as demandas de sua natureza inferior e aquietando inteiramente sua mente em contemplação. Quando isso ocorre, quebram-se as duas últimas amarras que seguram o homem ao mundo: o orgulho e a ambição espiritual. Assim, a Graça encontra um ambiente favorável para atuar. 

Verificamos, portanto, que o método de Jesus visava, numa primeira etapa, desenvolver o discernimento do buscador, quebrando seus condicionamentos limitadores. Mas, isso não era suficiente para que seus discípulos alcançassem o estado de consciência do Reino. Esse estado transcende a consciência usual do homem e só pode ser adentrado quando a mente é iluminada pela intuição. A realidade última, sendo espiritual, só pode ser apreendida por aqueles que desenvolveram os sentidos espirituais. Pode também ser percebida de forma aproximada pelos que conhecem a linguagem do plano abstrato, qual seja, a dos símbolos. A linguagem simbólica usada por Jesus em suas parábolas e ensinamentos alegóricos, visava promover o desenvolvimento da intuição em seus seguidores.  

Os símbolos são para a mente o mesmo que as ferramentas são para as mãos, meios de estender a aplicação de seus poderes. Assim, a linguagem carregada de simbolismo usada por Jesus era, em última instância, um método para forçar a mente a transcender sua consciência usual e atingir os estados de consciência do Reino. O método de ensino de Jesus tem um paralelo com o da Cabala, que é um método profundamente esotérico de transmitir o conhecimento de verdades que transcendem o entendimento da mente. O uso de símbolos serve como uma escada pela qual a mente pode subir, degrau a degrau, até adquirir as asas da intuição que lhe permitirão voar para o alto.[7] 

O efeito do simbolismo e da alegoria é sentido de forma dinâmica. Quando o discípulo medita sobre as parábolas e outras instruções veladas, os símbolos vão sendo como que incubados na mente até alcançarem o grau de amadurecimento em que naturalmente despontam como percepções iluminadas sobre uma realidade que transcende a mente. Nesse processo, as alegorias simbólicas, mesmo que não compreendidas, fixam-se no subconsciente de onde são evocadas sempre que a mente concreta trabalha com idéias relacionadas ao símbolo. Assim, gradualmente, uma percepção do conceito transcendental vai sendo desenvolvida por relances parciais até que num determinado momento a somatória dessas percepções alcança a necessária massa crítica para perfurar o véu da alegoria e perceber a realidade. 

Quando sugerimos que o método de ensino de Jesus poderia ser considerado holístico, por abranger todos os aspectos da natureza humana, não podemos esquecer que um dos legados da tradição cristã foi a divulgação, ainda que velada, de verdades que anteriormente só eram reveladas aos iniciados nos Mistérios Maiores. A vida do Cristo, como relatada nos quatro evangelhos, é uma representação alegórica das cinco grandes etapas ou iniciações do caminho ocultista que levam o discípulo ao pináculo da perfeição humana. Essas etapas serão examinadas no último capítulo deste livro. Muitas outras passagens relatadas na Bíblia são instruções de natureza profundamente esotérica, visando preparar o aspirante para prosseguir na busca. Finalmente, um aspecto importante e pouco conhecido de seu método eram os rituais e sacramentos, examinados mais adiante, que tinham por objetivo proporcionar condições interiores particularmente favoráveis aos discípulos que estavam preparados para recebê-los.


[1] Daniel Goleman, Inteligência Emocional (R.J.: Editora Objetiva, 1995).

[2] Vide Marcus J. Borg, Jesus, a New Vision (Harper San Francisco, 1987), pg.  97 - 116

[3] As passagens em Lucas (14:26) e Mateus (10:37), mencionando que para ser seguidor de Jesus a pessoa precisava "odiar" pais, irmãos e demais parentes, é geralmente citada fora do contexto lingüístico da época, pois em aramaico a expressão coloquial ‘odiar', nesse caso, significava colocar em segundo plano ou amar menos.

[4] Quando os fariseus criticaram os discípulos de Jesus, que ao passarem pelas plantações num sábado, arrancaram algumas espigas e comeram-nas, este lembrou-os de que Davi e seus companheiros haviam comido os pães da proposição na sinagoga, pois também estavam com fome. E acrescentou: "Digo-vos que aqui está algo maior do que o Templo. Se soubésseis o que significa: Misericórdia é que eu quero e não sacrifício, não condenaríeis os que não têm culpa" (Mt 12:6-7)

[5] Essa mesma idéia é claramente expressa na tradição hindu: "Alguns deles, em sua hipocrisia, desejam aparecer como bons perante o mundo e, por isso, praticam atos de piedade e ritos da religião, seguindo, entretanto, apenas a letra, e repelindo o espírito das doutrinas religiosas, e dando as esmolas com ostentação e com coração frio." Bhagavad Gita, op.cit., pg. 152.

[6] Paul Brunton, Idéias em Perspectiva (S.P.: Pensamento), pg. 300-303

[7] Vide Dion Fortune, The Mystical Qabalah (N.Y.: Samuel Weiser, 1996), pg. 29.

11. OS PRIMEIROS PASSOS 

O despertar 

Jesus costumava referir-se aos homens comuns como se estivessem ‘mortos'[1] ou ‘dormindo'.[2] O que caracteriza esses estados é que neles a consciência está total ou parcialmente embotada e o indivíduo ainda não deu o primeiro passo na senda de retorno, agindo como semi-autômato, levado por seus condicionamentos. Sendo a jornada espiritual um processo de constante expansão de consciência, o primeiro passo deve ser necessariamente o despertar espiritual, ou seja, o redirecionamento da vida para os objetivos espirituais. É interessante lembrar que Buda, após alcançar o estado de plena iluminação, se autodenominava ‘o desperto,' pois havia despertado inteiramente sua natureza divina inata. 

O que seria capaz de fazer o homem comum despertar espiritualmente e, assim, reverter a tendência para uma vida autocentrada e voltada a maior parte do tempo para a gratificação dos sentidos e as preocupações relacionadas com posição social, segurança e conforto? A providência divina, que tudo prevê e provê, sempre de forma natural, valendo-se de mecanismos inerentes ao processo da vida, proporciona os meios que capacitam esse despertar. 

A regra geral do despertar espiritual implica num lento processo em que as frustrações resultantes do atrito entre as expectativas e as realidades da vida vão amadurecendo gradativamente o indivíduo. Ele reconhece a lei de causa e efeito e desenvolve o discernimento, o que lhe permite distinguir as coisas passageiras das permanentes, as ilusórias das reais. Esse processo geralmente leva muitas vidas e deve ser retomado em cada encarnação, até que a alma assuma um compromisso irreversível com a vida espiritual. A partir de então, é estabelecida uma tendência de anseio espiritual capaz de fazer com que, em outras vidas, o caminho seja retomado mais cedo e em circunstâncias mais favoráveis. Essa é, portanto, a aparente exceção à regra: o caso de indivíduos que, já na infância ou juventude, demonstram uma inclinação inabalável para a vida espiritual. Esse caso, está estritamente dentro dos limites da lei de causa e efeito. As almas dessas pessoas estão colhendo o que plantaram em vidas anteriores e terão a ocasião e as condições para efetuar um rápido progresso rumo à perfeição em cada nova encarnação. 

Chega um determinado momento da vida do homem em que, não importa quais as suas condições externas de vida, a divina insatisfação toma conta de seu coração. É como se a alma tivesse saudades de um outro mundo, de outra vibração, mais condizente com sua verdadeira natureza. A natureza está antecipando o despertar que em breve deverá ocorrer. Na Bíblia, esse processo é simbolizado pela pregação de João Batista (Jo 1:23-31), o precursor do Cristo, que anuncia a iminente chegada do Salvador. 

O termo ‘despertar' deve ser compreendido numa perspectiva mais abrangente, expressando a passagem da alma por diversos estágios na senda. O estágio do ‘despertar' pode ser imaginado como um ponto de inflexão na curva evolutiva de cada ser humano, em que a tendência para a estagnação ou mesmo para queda na materialidade é revertida, resultando numa nova orientação no sentido da luz. A alma ‘desperta' inúmeras vezes ao longo de sua peregrinação pelo mundo. Esse despertar é especialmente importante em duas ocasiões: a primeira, quando o homem, em cada encarnação, sente-se cansado da busca de prazeres materiais e decide reorientar sua vida; a segunda, quando já no caminho da busca espiritual, desperta seu ser de luz, o Cristo interior. Paulo referiu-se claramente a esse nascimento quando escreveu a seus discípulos: "meus filhos, por quem eu sofro de novo as dores do parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gl 4:19). Esse estágio, foi descrito por Jesus como o renascimento: um evento iniciático que confere simplicidade e inocência tais que o discípulo é comparado a uma criancinha, como vemos nesta memorável passagem: "Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus" (Jo 3:3). 

O despertar também pode ser visto sob o prisma do atendimento ao chamado de Deus, que, desde o princípio da vida humana, procura se fazer ouvir em nossa consciência. A natureza superior do homem procura prevalecer sobre a natureza inferior, para trazer paz de espírito e verdadeira felicidade à alma. Isso porque, enquanto o homem preocupar-se em atender os ditames de sua natureza inferior não encontrará harmonia nem felicidade. O processo do despertar também está representado na literatura esotérica como uma carta enviada pelo pai ou pelo rei, como no Hino da Pérola (Anexo 2). Essa idéia também foi expressa por Paulo quando escreveu: "Nossa carta sois vós, carta escrita em nossos corações, reconhecida e lida por todos os homens. Evidentemente, pois, uma carta de Cristo, entregue ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações!"  (2 Cor 3, 2-3).


[1] Lc 9:60

[2] Mc 13:36 e Lc 22:46

A busca da felicidade 

Se a felicidade é o objetivo de nossa vida, por que colhemos tanta infelicidade e sofrimento ao longo de nossa existência? A razão para esse contraste entre nosso róseo ideal e nossa triste realidade é que, em nossa ignorância, buscamos a felicidade onde, quando e como de forma não-apropriada. Ademais, geralmente, não entendemos devidamente a operação dos mecanismos que nos impelem nessa busca. Esses mecanismos são o desejo e a insatisfação que, com o passar do tempo produzem crises na vida do homem.  

Grande parte da humanidade imagina que seria feliz se conseguisse obter essa ou aquela satisfação ou se tivesse um determinado problema resolvido. Em suma, pensam que a felicidade pode ser alcançada com a satisfação dos desejos. Não é difícil de perceber, observando-se o comportamento e as reações das pessoas em suas vidas diárias, que a satisfação de um desejo traz apenas alegria momentânea. Depois de algum tempo as pessoas voltam a experimentar a insatisfação. A razão dessa insatisfação decorre da natureza do desejo. 

O desejo é a expressão terrena da energia divina da Vontade. A Vontade, nos planos espirituais, é o meio para a realização dos objetivos do Plano de Deus. Já o desejo, sendo uma distorção da Vontade voltada para aquilo que é material e passageiro, tende geralmente a afastar o homem de sua meta divina. O desejo é, portanto, uma força extremamente poderosa que, geralmente, molda de forma negativa a vida do ser humano, causando sofrimento. O livro sagrado dos hindus falando sobre os homens ignorantes, diz: 

"Entregam-se aos prazeres carnais e dizem que esse é o mais alto bem. Mas nunca os prazeres sensuais os satisfazem, porque mal um apetite obteve satisfação, já emerge um outro, cada vez mais imperioso. Esses homens são hipócritas, vaidosos e ilusos. Enleados nas teias do desejo, entregam-se à volúpia, à ira e à avareza; prostituem as suas mentes e o seu sentimento de justiça, procurando acumular riquezas por meios ilegais, com o fim de terem com que satisfazer os desejos materiais".[1] 

As mesmas idéias são encontradas na tradição cristã, que recomenda: 

"Filho, muitas vezes, procura o homem, ansiosamente, alguma coisa que deseja; quando, porém, a alcança, começa a pensar de outro modo; porque as afeições não são duráveis e passam, facilmente, de um a outro objeto. Não é, pois, pequena coisa, mesmo nas coisas mínimas, cada um renunciar-se a si mesmo".[2] 

Deus, com sua infinita sabedoria, utiliza o desejo e a insatisfação como instrumentos para conduzir o homem, ainda que por um longo e sinuoso caminho, à verdadeira felicidade. Sempre que o homem se afasta de seu objetivo último, um mecanismo retificador automático é acionado. Esse mecanismo é a insatisfação, que é reforçada pelo sofrimento. Ambos operam de forma a redirecionar as atividades do homem para que encontre sua meta. A semente da insatisfação foi lançada por Deus no âmago do ser humano como uma bússola interior que permite à alma reorientar-se quando se perde no marasmo das paixões ou é desviada da rota pelos rodamoinhos dos apegos, para que possa chegar finalmente ao porto seguro da Casa do Pai. A insatisfação não é, como muitos pensam, necessariamente uma maldição, uma fraqueza ou um vício de caráter. É, na verdade, uma dádiva divina, uma espécie de alarme da alma sinalizando que alguma coisa importante está faltando. Ela atua, aliada a seu parceiro, o desejo, como o primum mobile da vida humana. 

A realidade de nossa existência terrena é de eterna insatisfação. Perseguimos algo, seja uma conquista amorosa, um bem material, uma posição social ou uma realização profissional, com todo afinco, como se nossa vida e felicidade dependessem inteiramente da realização do objetivo imediato à nossa frente. No entanto, quando conseguimos o que buscávamos tão ardentemente, verificamos que, após um certo período de satisfação, geralmente curto, surgem irresistíveis anseios de novas conquistas e realizações, impelindo-nos à busca de algo mais. E essa ciranda da vida continuará indefinidamente enquanto estivermos procurando a felicidade nas coisas do mundo, porque o nosso verdadeiro ser não é desse mundo. Se, por um lado, essa triste realidade é uma fonte perene de frustração, ela é também a garantia de nossa eventual libertação da prisão da materialidade.  

Como disse o divino Mestre, enquanto estivermos procurando saciar a sede com a água deste mundo voltaremos a ter sede; porém, quando conseguirmos beber a ‘água viva' da plenitude, seremos saciados.[3] Portanto, a insatisfação é um aspecto da força dinâmica que impele o homem a buscar a felicidade. Se ela não estivesse sempre insuflando a natureza humana, a inércia governaria o homem, fazendo com que ele permanecesse acomodado não se importando com a sua situação, seja ela qual fosse. 

Chega um momento em que o homem começa a questionar a razão de ser da vida. É nessa etapa de divina insatisfação que o homem é impelido a encontrar ideais mais elevados, a tentar a transcendência da vida meramente material. Essa busca é expressa em mitos de diferentes tradições, tais como a busca do velo de ouro na Grécia Antiga, ou da pérola preciosa de que nos fala o Hino da Pérola do cristianismo primitivo ou do santo graal na Idade Média na Europa. 

A insatisfação e o sofrimento podem levar a uma situação de crise. As crises são especialmente importantes no despertar e no redirecionamento da vida do homem. Todos nós passamos por inúmeras crises em nossa vida, algumas delas tão sérias que passam a ser marcos referencias de nossa experiência evolutiva. Esse processo interativo entre desejo e insatisfação gerando crises está intimamente relacionado ao apego. O apego às posses gera terríveis sofrimentos quando as circunstâncias da vida levam a perda do que possuímos. Assim, crises podem ocorrer com a perda da juventude, da beleza, da fortuna, do poder, da posição social ou dos pais, do companheiro, dos filhos, etc. Na maior parte dos casos esse apego reflete a auto-imagem idealizada do indivíduo que imagina essas posses como uma extensão de si mesmo.  

Muitas pessoas estão apegadas às sensações e emoções fortes, tais como as dos vícios (álcool, drogas, fumo, gula, sensualidade, etc.). Os prisioneiros do vício, mais cedo ou mais tarde, colhem os resultados de sua fraqueza na forma de doenças graves, perda de emprego, perda do companheiro ou abandono pela família. Mas ainda existem outras fontes de apegos que também levam à crises, como o apego mental às idéias, fonte da ambição desmedida e do orgulho. Qualquer que seja a fonte do apego, o desapontamento será inevitável com a perseguição de objetivos ilusórios, quando não fúteis, que levam sempre ao sofrimento, porque a perda das coisas deste mundo é inevitável. 

Mas por que ocorrem as crises? Porque o homem, condicionado por seus hábitos, vivendo como virtual prisioneiro deles, é geralmente incapaz de mudar seu comportamento, mesmo quando percebe que sua atitude é prejudicial à saúde do corpo e da alma. O pior é que, no mais das vezes, nem mesmo se dá conta de que está enredado em algo contrário a seus interesses maiores. Não consegue perceber que seu padrão de comportamento, ainda que buscando a felicidade, é, na verdade, fonte de grande sofrimento. A Sabedoria Antiga ensina que isso se deve à inércia da matéria. Quando um determinado comportamento é repetido várias vezes, estabelece-se uma tendência em nossos corpos inferiores (material, etérico, astral e mental concreto), que se perpetua até que a energia inicial seja identificada e redirecionada. 

Porém, esses condicionamentos devem ser entendidos dentro de uma perspectiva mais ampla, pois tudo na vida do homem tem sua razão de ser durante certa fase de sua vida. Assim, o útero materno é imprescindível para a sobrevivência do feto, mas deve ser abandonado para que o bebê possa continuar seu progresso como ser humano. O recém-nascido encontra maior proteção e conforto no berço, porém, esse terá que ser abandonado depois de poucos anos, porque, num determinado momento, vai tornar-se fator limitativo ao crescimento subseqüente da criança. 

Da mesma forma, várias estruturas condicionantes do homem moderno, tais como a agressão, a competitividade e a ambição, que atualmente se configuram como limitativas do seu progresso, já tiveram sua importância numa fase anterior da evolução da alma. Por isso Jesus preconizava isenção e discernimento superiores nas avaliações a respeito do semelhante: "Não julgueis pela aparência, mas julgai conforme a justiça" (Jo 7:24). A verdadeira justiça requer que todos os fatos pertinentes sejam levados em consideração. Mas quem está disposto e capacitado a fazê-lo? Já não é pequeno o desafio de cada um de nós para reconhecer os próprios erros, julgando nossa própria vida, para mudá-la de acordo com os ditames do coração. Lembremos as palavras de Jesus: "Não julgueis para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais sereis julgados, e com a medida com que medirdes sereis medidos. Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, quando não percebes a trave que está no teu?" (Mt 7:1-3). 

Nessa perspectiva mais ampla da evolução, a maior oportunidade de mudança é a crise. As crises sérias na vida do homem podem ser vistas como dádivas divinas, porque, em meio à dor e ao transtorno do momento, o indivíduo é levado a questionar seus valores, modo de vida e condicionamentos mentais.[4] Quanto maior o sentimento de vazio, frustração e futilidade, maior a dor, e quanto mais insuportável a dor maior a nossa predisposição para reavaliar e questionar a nossa vida. Desse questionamento pode surgir o despertar espiritual. 

Uma crise só é bem sucedida quando o homem aprende por meio dela a redirecionar a força do desejo para um objetivo mais alto. Como o desejo é o reflexo distorcido da imensa energia da Vontade Divina, o homem tem que aprender a lidar com o desejo de forma construtiva. Em vez de reprimir o desejo, o que é sempre contraproducente, deve reorientá-lo para fins mais nobres, até que, com o despertar espiritual, possa usá-lo como combustível da aspiração ardente pela união com Deus. 

Tendo examinado o mecanismo de atuação do desejo e da insatisfação, torna-se mais fácil entender a razão pela qual o homem erra com freqüência quanto ao lugar, ao tempo e à maneira como procura a felicidade. Em geral, ele procura a felicidade onde só pode encontrar fugidios momentos de prazer. Como diz a tradição budista: "Aquele que se dedica ao improfícuo e não se dedica ao que é útil e esquece o verdadeiro objetivo da vida à caça de prazeres transitórios, prepara o remorso de não ter seguido a melhor vida."[5] Como a felicidade é um estado de espírito, esse estado só pode ser encontrado dentro do próprio ser humano. Assim, para encontrarmos a verdadeira felicidade teremos que mudar a nossa atitude interior. Esse é o cerne dos ensinamentos internos de Jesus, resumido na palavra grega metanoia, a mudança de estado mental, examinada anteriormente. 

Também, em geral, não temos muito amadurecimento para reconhecer quando podemos encontrar a felicidade. Se prestarmos atenção aos nossos pensamentos, veremos que estamos voltados a maior parte do tempo para o passado ou para o futuro. A verdadeira felicidade não será encontrada nem no passado nem no futuro, mas somente no presente. Por mais que nos concentremos no passado nada poderemos mudar do que já passou. O passado só pode nos dar as lições da experiência de nossos erros. Mas, uma vez analisadas essas lições, devemos fechar as páginas do passado sem, no entanto, nos voltarmos para o outro extremo, que é o futuro, uma incógnita que deve aguardar a sua vez. A sabedoria consiste em viver no eterno agora, o único tempo e lugar onde podemos crescer, atentos para o fato de que cada minuto desperdiçado jamais poderá ser recuperado. 

Outra fonte de frustração ocorre na forma como as pessoas buscam a felicidade. A maneira como os indivíduos buscam a felicidade muda em função da idade, das circunstâncias da vida e da maturidade. A felicidade está geralmente associada ao prazer, ao poder e ao saber. Como o homem é um ser complexo, pode desejar, em qualquer momento da vida, realizar-se por meio de mais de uma dessas categorias. Porém, terá sempre uma linha mestra de ação comportamental, dando ênfase a um desses objetivos. 

Essas três categorias básicas de busca da felicidade (prazer, poder e saber) parecem coincidir, em linhas gerais, com a ênfase observada nas três grandes fases da vida do homem: infância, idade adulta e maturidade. Essas fases, com seus marcos cronológicos indicativos, são profundamente influenciadas pela idade da alma. Seguidamente encontramos crianças que nos surpreendem com a maturidade de seu comportamento, assim como somos chocados por certos adultos e mesmo velhos que agem com um grau de irresponsabilidade que normalmente só esperamos encontrar em crianças. Paulo aludiu a essa questão em suas pregações: "Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Depois que me tornei homem, fiz desaparecer o que era próprio da criança" (1 Cor 13:11). 

A busca do prazer é típica da primeira fase da vida do ser humano. Desde cedo a criança procura constantemente a gratificação dos sentidos. Além do seu prazer e conforto físico, busca o aconchego da proteção e carinho materno. Essa é uma indicação de que, mesmo nessa tenra idade, formas mais sutis de satisfação já estão sendo perseguidas. Os anos passam e o prazer continua a dominar a vida da criança. É bem verdade que a curiosidade insaciável, indicativa do desejo de saber e a incansável tentativa de dominar novas habilidades, indicativa da ânsia pelo poder, fazem-se também cada vez mais presentes. Prazer, poder e saber alternam sua importância relativa ao longo dos anos de formação da criança, variando de acordo com cada momento particular da vida do jovem e da idade da alma. O prazer tende a ser, no entanto, o fator dominante e principal objetivo a ser perseguido na infância. 

Durante a adolescência, e até mesmo na vida adulta, a busca do prazer continua de forma imperiosa e frenética para a maior parte da humanidade. As formas mais primitivas de gratificação dos sentidos, principalmente do sexo e da gula, vão se refinando. O homem torna-se cada vez mais exigente à medida que se vai entediando com os prazeres naturais e passa, então, a exigir maior variação e sofisticação. Isso tem levado ao aparecimento de distorções e perversões como conseqüência da tentativa de explorar o que já alcançou o limiar da saturação. Com isso a busca do prazer toma outros rumos, descambando para sensações artificiais e emoções cada vez mais fortes, alimentadas pela adrenalina.  

O álcool e outras drogas assumiram um papel importante na busca de emoções. Além das sensações inebriantes de prazer que produzem, oferecem alívio momentâneo às preocupações e ao estresse, tornando-se, por isso mesmo, cada vez mais procuradas em nossa sociedade alienada e perturbada. As conseqüências desse crescente consumo de álcool e drogas já está se fazendo sentir na saúde social pelo número cada vez maior de viciados e dependentes, pagando a sociedade altíssimo preço pela irresponsabilidade de um número crescente de seus membros. 

Por outro lado, a indústria do lazer, uma das mais dinâmicas em nossa sociedade moderna, vale-se cada vez mais das emoções fortes e do inesperado como forma de proporcionar prazer. Neste particular, até o medo torna-se um artigo comercializável. A seqüela indesejável do prazer proporcionado pelas emoções fortes é que os indivíduos vão embotando cada vez mais a sua sensibilidade, até tornarem-se praticamente insensíveis, especialmente devido ao fato de que a maior parte dessas atividades, especialmente os video-games, que também invadiram os computadores, são um culto alarmante à violência. Isso é reforçado pela mídia, que agora pode trazer para o seio de nosso lar e de nossa família as cenas mais horripilantes de desastres, assaltos, espancamentos e guerra, além das perversões sexuais tratadas como banalidades. Com a repetição exagerada da violência generalizada passamos a aceitar a exceção como se fora a regra, criando aos poucos uma imagem de que toda excrescência é algo normal, tornando-nos cada vez mais insensíveis à dor do próximo, contribuindo, assim, para o esgarçamento do tecido social, já tão combalido. 

A segunda etapa na busca da felicidade caracteriza-se pela luta incessante pelo poder. O poder pode ser exercido sobre pessoas e coisas, sobre o nosso ambiente e sobre nós mesmos. Durante toda sua vida o ser humano está sempre desenvolvendo uma ampla gama de habilidades necessárias a sua participação efetiva na sociedade. Cada uma dessas habilidades significa poder sobre algum conjunto de músculos e emoções que se expressam como um sentimento de estética (na pintura e escultura), de harmonia (na música e na dança), de coordenação motora e senso de oportunidade (nos esportes), de funcionalidade (na industria), etc. Assim, o desenvolvimento de todo ser humano requer necessariamente um considerável exercício de poder. Parece haver uma linha de demarcação entre o domínio de habilidades que requerem poder sobre o próprio indivíduo e o domínio de outras pessoas, tanto pela manipulação como pelo exercício da força, seja ela política, econômica ou física.

O exercício do poder sobre as outras pessoas tem um grande potencial de geração de sofrimento. Isso não quer dizer que todo exercício de poder sobre os outros seja necessariamente negativo para o bem estar social ou para a felicidade do indivíduo. Por exemplo, é essencial que os pais exerçam certo grau de controle sobre seus filhos, disciplinando-os. O mesmo aplica-se aos professores e a todo indivíduo em posição de comando. A diferença aqui, como em todas as questões da vida humana, está na motivação,[6] se altruísta ou egoísta. Toda ação egoísta causa sofrimento a seu perpetrador, seja imediatamente ou mais tarde ¾ essa é a lei natural da retribuição. E como o exercício do poder pode potencialmente trazer conseqüências extremamente danosas para muitas pessoas, a retribuição cármica será proporcional à causa inicial. 

A fase mais adiantada da vida do homem, a que chamamos de maturidade, é caracterizada, por um lado, pela busca do saber e, por outro, por intenso sentimento de dever. As pessoas não buscam exatamente o dever para ser feliz, ao contrário, é o senso de dever que as persegue quando estão suficientemente maduras. Se não obedecem ao chamado do dever, sentem um vazio na alma, um peso na consciência que as impedem de ser felizes. O dever, na  verdade, é um corolário do saber. O sábio tem consciência da interdependência de todos os seres e, por conseguinte, sabe que deve cumprir com suas obrigações porque isto é a coisa certa a fazer para o bem de todos. Várias passagens na Bíblia atestam a importância acordada ao dever e ao serviço humilde na tradição cristã.[7] O mesmo ocorre na tradição oriental: 

"Seja, pois, o motivo das tuas ações e dos teus pensamentos sempre o cumprimento do dever, e faze as tuas obras sem procurares recompensa, nem te preocupares com o teu sucesso ou insucesso, com o teu ganho ou o teu prejuízo pessoal".[8] 

Mesmo na infância, muitos jovens são perseguidos por esse senso de dever que os impele a ajudar os pais e a estudar com seriedade. A realidade, porém, é que boa parte dos jovens e mesmo dos adultos ainda não alcançou suficiente grau de maturidade para ser tocada pelo senso do dever. Por outro lado, as mães geralmente estão profundamente conscientes do dever para com seus filhos; suas vidas são pautadas por incansáveis atos de doação a seus rebentos, que as pessoas não imbuídas do amor maternal podem considerar como sacrifícios. A maternidade parece ser uma das mais abrangentes escolas do dever em nosso planeta. 

Mas o ponto alto do dever é aquele que é realizado sem nenhuma consideração egoísta, indo além do cumprimento das obrigações para consigo próprio ou com os filhos, pais, parentes próximos e amigos. Essa marca de excelência é o senso de dever para com o grupo. O ápice desse compromisso com a comunidade é alcançado pelos Mestres de Compaixão e Sabedoria que, tendo alcançado a suprema libertação que os capacita a entrar no Nirvana (bem-aventurança celestial ininterrupta), são movidos pela compaixão a permanecer na esfera terrena para ajudar a humanidade, sem fazer distinção de nacionalidade, raça ou religião. 

A abertura para a felicidade real e permanente desponta com a busca do saber. Essa busca começa de forma generalizada na mais tenra idade, com a curiosidade incessante das crianças procurando respostas para suas incansáveis perguntas. Porém, com o passar do tempo, quando não encontram um ambiente favorável para satisfazer sua curiosidade em níveis crescentes de sofisticação, vão redirecionando sua energia e entusiasmo para os folguedos. A continuidade da curiosidade infantil é também função do nível evolutivo da alma, que reflete sua bagagem cármica, ou seja, as conquistas de vidas passadas. Assim, as ‘almas velhas' são muito mais persistentes em sua curiosidade e, dadas as condições favoráveis para seu aprendizado propiciadas pelo carma, continuam o processo de busca do saber ao longo de toda a vida. 

No atual estágio de evolução da humanidade, existe uma crença generalizada de que o conhecimento é resultado do intelecto. Essa crença é compreensível porque o conhecimento humano começa como uma busca intelectual. O buscador estuda a literatura disponível, ouve a opinião dos eruditos, estabelece modelos para testar suas hipóteses e, assim, desenvolve seu entendimento da matéria pela atividade mental. Porém, toda essa informação deve ser interiorizada para transformar-se em conhecimento, pois, como dizia Einstein: "Conhecimento é experiência. Qualquer outra coisa é apenas informação." Por isso os filósofos, os grandes cientistas e outros criadores, incluindo os poetas e artistas, sabem que a compreensão última sobre qualquer assunto depende da intuição. A percepção instantânea, que ilumina a mente e faz com que todas as peças do quebra-cabeça ajustem-se nos seus devidos lugares, é alcançada pela intuição. 

Porém, a mais alta felicidade humana resulta não do conhecimento das coisas do mundo, mas da Sabedoria. Enquanto o homem comum geralmente contenta-se em saber o que e como, o sábio exige saber o porquê. Quando o homem busca a sabedoria divina, ou seja, a razão de sua existência, ele está no limiar da felicidade sublime daqueles que estão definitivamente libertos do sofrimento. É por isto que Jesus disse: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (Jo 8:32).  

Essa sabedoria suprema, que é bem-aventurança, é alcançada quando se rasga o véu da ilusão da separatividade e o homem sabe, então, que ele é uno com o Todo e com todos. E a surpreendente conquista dessa sabedoria é o AMOR. O sábio agora sabe, no íntimo de seu ser, que o amor é o conhecimento mais importante a ser conquistado pela humanidade. É interessante notar, nesse particular, que, em casos de experiências próximas à morte, inúmeras pessoas relatam que, enquanto estiveram ‘do outro lado,' entenderam finalmente que a coisa mais importante na vida do ser humano é o amor. Conseqüentemente, após retornarem a sua consciência comum, mudaram drasticamente suas vidas, tornando-se mais altruístas, bondosas e compreensivas com os outros.[9]  

Amor e sabedoria são, na verdade, aspectos de uma mesma coisa. A bem-aventurança, portanto, pode ser conquistada tanto pela via do conhecimento como pela do amor, mas, uma vez conquistada, as duas dádivas são asseguradas ao "Adepto."[10] É por isso que o grande conquistador que trilha a Senda da Perfeição até seu coroamento final é chamado de Mestre de Compaixão e Sabedoria. 

Vista sob outro prisma, a conquista da suprema felicidade é a descoberta de Deus. A expansão de consciência que leva à Unidade nada mais é do que o encontro e fusão com Deus. Esse retorno às origens, o anseio de todo ser humano, só pode ser satisfeito quando voltamos todo nosso instrumental de pesquisa para dentro, na clássica busca da pérola preciosa guardada pela serpente feroz de nosso eu inferior. É o conhecimento de si mesmo que abre gradualmente as portas para o buscador determinado e corajoso. Determinado porque tudo parecerá conspirar no sentido de retirar a sua atenção dessa busca. Corajoso porque terá que enfrentar os demônios de seu lado sombra. Esse conhecimento é a chave do poder: "A palavra [que é o símbolo do poder] só vem com o conhecimento. Alcança o conhecimento e alcançarás a palavra".[11] 

Se a sabedoria suprema traz a felicidade, o seu oposto, a ignorância, é a raiz do sofrimento. Esse é o cerne do ensinamento dos grandes mestres da humanidade, como Gautama, o Buda, e Jesus, o Cristo. [12] A ignorância existe porque o homem insiste em permanecer nas trevas do egoísmo e da separatividade, ou seja, na natureza de seu eu inferior. O caminho da libertação é o caminho da progressiva iluminação da mente, com a superação da ignorância e de seu aliado, o egoísmo. Uma passagem lapidar da literatura gnóstica sobre a ignorância é encontrada no Evangelho de Felipe: "A ignorância é a mãe de todos os males."[13] O texto prossegue explicando que, enquanto a ignorância e o mal permanecerem escondidos, serão fortes, mas, quando expostos e conhecidos, secarão e morrerão. O texto continua ainda apresentando um paralelo entre os intestinos do homem e as raízes de uma árvore que, quando expostos levam à morte do organismo. 

O homem sábio aprende que a felicidade não depende de circunstâncias exteriores ou da atitude de outras pessoas. Um corolário de seu amadurecimento é saber que ele é o único responsável por sua felicidade ou infelicidade. Primeiro deve ser criado um estado de felicidade em seu interior, para que, no seu devido tempo, esse estado possa ser expresso também em sua vida exterior.[14] Essa é uma conseqüência natural da lei de causa e efeito e do livre arbítrio. As situações exteriores de nossa vida, o comportamento dos outros para conosco, a sorte ou azar que parecem nos perseguir refletem o poder do homem de criar a sua própria vida. 

Como a maior parte das pessoas exerce seu poder criador de forma inconsciente, a identificação do processo de causa e efeito geralmente não ocorre e, portanto, essas pessoas têm dificuldade em aceitar a responsabilidade por suas próprias vidas. Assim, esses três aspectos do processo criador humano estão diretamente relacionados: a capacidade criadora do homem, a inexorabilidade da lei do carma e o senso de responsabilidade por seus próprios atos.  

Quando existe um verdadeiro entendimento da lei da justiça retributiva, o homem pode perceber sua capacidade criativa e a conseqüente responsabilidade por sua própria felicidade ou infelicidade. Talvez a maior dificuldade para esse entendimento seja o fato de que, em geral, as pessoas tendem a associar o carma exclusivamente aos atos físicos. Porém, nossos pensamentos, sentimentos e atitudes também geram carma, ou seja, também causam efeitos que retornam a sua fonte original. Assim, por exemplo, nossa atitude de indiferença para com as pessoas, por mais que possa estar camuflada por um comportamento externo de cortesia e polidez, fará com que as pessoas nos tratem com distanciamento e frieza, ainda que de forma cortês. 

Isso pode ser explicado pelo fato de que tudo no mundo, inclusive pensamentos, sentimentos e atitudes, caracteriza-se por sua vibração particular. Cada sentimento gera uma vibração diferente. Mesmo que não sejamos capazes de perceber essas vibrações no plano material, nossos outros corpos sutis percebem as diferentes vibrações a que estamos expostos e respondem automaticamente com sentimentos e atitudes correspondentes. Todo estudante de música, por exemplo, aprende que um diapasão passa a vibrar quando sua nota é tocada noutro instrumento em sua proximidade. O mesmo ocorre com os seres humanos, que respondem de forma inconsciente às atitudes e sentimentos expressos pelas pessoas com quem estão interagindo. Esse mecanismo de resposta sutil também faz parte de nossa capacidade criadora inconsciente, responsável por grande parte de nossa infelicidade. Nossos sentimentos e atitudes influenciam de forma sutil o comportamento das pessoas ao nosso redor.[15]


[1] Bhagavad Gita, op.cit., pg. 151.

[2] Imitação de Cristo, op.cit., pg. 313.

[3] Jo 4:1-15.

[4] "É de vantagem que passemos, de quando em quando, por algumas aflições e contrariedades; porque sempre fazem que o homem entre em si mesmo e reconheça que vive no exílio e não deve colocar sua esperança em coisa alguma deste mundo." Imitação de Cristo, op.cit., pg. 43.

[5] Dhammapada, op.cit., pg. 39.

[6] A motivação, no entanto, deve ser temperada pelo respeito ao livre arbítrio das outras pessoas. A história está cheia de exemplos de indivíduos e instituições que, movidos pelas melhores das intenções, procuraram forçar o comportamento de seus irmãos de acordo com padrões preestabelecidos que acreditavam ser construtivos para eles. Dessa forma surgiram a Inquisição e os grupos fundamentalistas de todas as religiões que fanaticamente procuram fazer com que os outros se conformem aos padrões que crêem ser socialmente desejáveis ou divinamente determinados.

[7] Lc 17:7-10; 1 Cor 7:3, 10-16; Rm 13:5, 14:1-12; Ti 3:1-2, 6:17-19; 1 Pd 3:1-7; Ef 5:21-33, 6:1-9;

[8] Bhagavad Gita, op.cit., pg. 36.

[9] Vide, Claire Sutherland, Dentro da Luz (Brasília: Editora Teosófica, 1998),

[10] Título conferido ao ser humano que recebe a Quinta Iniciação na senda ocultista, também chamado de Mestre de Compaixão e Sabedoria.

[11] Luz no Caminho, op.cit., pg. 35.

[12] Buda disse: "a ignorância é a maior de todas as máculas." Dhammapada, op.cit., pg 42.

[13] Evangelho de Felipe, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 159.

[14] Veja-se, a propósito, Eva Pierrakos e Donovan Thesenga, no interessante livro Não Temas o Mal, (S.P.: Cultrix), pg. 23.

[15] Esta idéia encontra-se no Bhagavad Gita de forma bastante direta: "Cada um chega a ser o que desejou ser; o semelhante atrai o semelhante." op.cit., pg. 95.

 

A busca do caminho 

O despertar para a realidade da vida é o primeiro passo na longa jornada da alma. Esse passo é muitas vezes desencontrado e sem direção certa, marcado somente pela determinação de sair do marasmo aprisionador em que a pessoa se encontrava anteriormente. Quando isso ocorre, o homem passa a ser um buscador da verdade.  

A busca só começa quando estamos em condições de perceber o ‘chamado'. Uma vez ouvido em nossos corações, jamais conseguiremos esquecê-lo. Podemos negligenciá-lo por uns anos ou até mesmo por algumas vidas, mas, quando a alma desperta para a realidade espiritual, só descansará ao voltar à sua origem, ainda que isso possa levar muitas vidas de luta ingente com as paixões mundanas. O Pai, através de seus auxiliares nos mundos espirituais e materiais, coloca em nosso caminho oportunidades para a busca. São amizades apropriadas, palestras reveladoras, livros estimulantes, enfim, toda uma série de circunstâncias favoráveis para a reorientação de nossa vida, da materialidade para a espiritualidade.[1] Vale lembrar que as circunstâncias favoráveis incluem desapontamentos, crises e ajustes cármicos, pois o sofrimento é, geralmente, um instrutor mais eficaz do que a felicidade para o aprendizado da realidade última.1  

No início o aspirante busca, como as crianças brincando de ‘cabra cega', tateando no escuro, procurando a verdade em grupos de apoio nem sempre idôneos, mudando de filiação sectária ou religiosa diversas vezes, demonstrando uma grande inconstância. Isso é natural e reflete a insatisfação que motiva a busca. A determinação do buscador e o uso do discernimento são suas garantias de que, no seu devido tempo, encontrará o Caminho, pois ele começa e termina no coração. 

A necessidade da busca é mencionada explicitamente na Bíblia. Somos constantemente instados a buscar sem cessar e a bater à porta, porque ela se abrirá.[2] Em Atos é dito que "O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, ... fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, ... para que procurassem a divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos" (At 17:24-28).  

Em meio a tantas demandas da vida familiar, social e profissional, o buscador sincero deve estabelecer suas reais prioridades. Por isso Jesus dizia: "Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas" (Mt 6:33). Essa busca é uma regra fundamental da vida espiritual. A busca persistente é indispensável para o sucesso, porque o próprio esforço da busca já predispõe o coração a mudar. É essencial, também, porque o Caminho só pode ser trilhado quando descobrirmos onde ele começa.[3]  O esforço da busca não deve cessar nem mesmo na última etapa do caminho ocultista, a mais crítica, em que o candidato deve descobrir uma escola do verdadeiro ocultismo, pedir admissão, ser aceito e receber instruções ou, como é dito em Pistis Sophia, descobrir e receber os mistérios. Os gnósticos eram particularmente insistentes na necessidade da busca. No Ensinamento Autorizado encontramos: "Busque e investigue a respeito dos caminhos que deves trilhar, pois não há nada que seja tão bom como isso."[4] O místico, por sua vez, deve buscar o silêncio e a paz que envolve a essência de nosso ser, ainda que viva na agitação e bulício do mundo, pois só em profunda quietude será capaz de encontrar Deus. 

Essa busca envolve todos os aspectos do ser, para que haja um desenvolvimento harmonioso e integrado do homem, como é sugerido e exemplificado no livro Luz no Caminho, numa passagem que parece sintetizar todo o caminho espiritual: 

"Busca o caminho, retirando-te para o interior. Busca o caminho, avançando resolutamente para o exterior. Busca-o, mas não em uma direção única. Para cada temperamento existe uma via que parece ser a mais desejável. Porém, só pela devoção não se encontra o caminho, nem pela mera contemplação religiosa, nem pelo ardor de progresso, nem pelo laborioso sacrifício de si mesmo, nem pela estudiosa observação da vida. Nenhuma dessas coisas, por si só, faz adiantar o discípulo mais que um passo. Todos os degraus são necessários para subir a escada. Os vícios dos homens se convertem em degraus da escada, um a um, à proporção que vão sendo dominados. As virtudes do homem são, em verdade, degraus necessários, dos quais não se pode prescindir de modo algum. Entretanto, ainda que criem uma bela atmosfera e futuro feliz, são inúteis se estão isoladas. A natureza toda do homem deve ser sabiamente empregada por aquele que deseja entrar no caminho. Cada homem é absolutamente para si mesmo o caminho, a verdade e a vida. Só o é, porém, quando domina firmemente toda a sua individualidade e, quando pela energia de sua acordada espiritualidade, reconhece que esta individualidade não é ele mesmo, mas uma coisa que ele criou trabalhosamente para seu uso e por cujo meio se propõe, à proporção que o seu crescimento desenvolve lentamente a sua inteligência, alcançar a vida além da individualidade. Quando sabe que para isso existe a sua assombrosa vida complexa e separada, então, em verdade, e só então, se acha no caminho. Busca-o submergindo-te nas misteriosas e esplêndidas profundidades do teu ser. Busca-o provando toda a experiência, utilizando os sentidos a fim de compreender o desenvolvimento e a significação da individualidade, a formosura e a obscuridade desses outros fragmentos divinos que contigo e a teu lado combatem e que formam a raça à qual pertences. Busca-o estudando as leis do ser, as leis da natureza, as leis do sobrenatural: e busca-o prosternando a tua alma ante a pequena estrela que arde no interior. Enquanto vigias e adoras com perseverança, a sua luz irá sendo cada vez mais brilhante. Então poderás reconhecer que encontraste o começo do caminho. E quando chegares ao fim, a sua luz se converterá subitamente em luz infinita".[5]

Se por um lado Deus nos incita a buscá-lo, por outro, Ele nos aguarda pacientemente por toda a eternidade. O Senhor Supremo mostra Sua disposição de estar conosco, esperando somente que tenhamos a iniciativa de abrir a porta do coração para que Ele possa entrar e comungar conosco, como é dito na Bíblia: "Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo" (Ap 3:20)


[1] A transição da materialidade para a espiritualidade não é tão simples. Numa primeira etapa, o ego orgulhoso tentará perseguir objetivos espirituais para obter reconhecimento e consideração, ou seja, poder e status. Só mais tarde é que o buscador se dará conta de que não basta fazer a coisa certa, mas é preciso, também, ter a motivação certa que, no caso da busca, deve ser alcançar a Verdade e superar todo egoísmo, orgulho e sentimento de separatividade. Essa etapa de transição foi chamada de materialismo espiritual pelo monge tibetano Chögyam Trungpa, no livro Além do Materialismo Espiritual (S.P.: Cultrix).

[2] Mt 7:7 e  Lc 11:9-10.

[3] Vide, nesse particular, o interessante livro de Rohrit Metha, Seek Out the Way, (Adyar, India: The Theosophical Publishing House, 1990).

[4] Authoritative Teaching, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 310.

[5] Mabel Collins, Luz no Caminho (S.P.: Pensamento), pg. 21-22.

Aspiração ardente 

A força do desejo, quando redirecionada para a satisfação dos anseios mais elevados da alma humana, torna-se o combustível da busca espiritual. Transforma-se, então, numa aspiração ardente, aludida nas palavras do Mestre: "Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto; pois todo o que pede recebe; o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá" (Mt 7:7-8). Uma aspiração ardente pelas coisas do alto é mencionada em todas as tradições como necessária para se alcançar a iluminação espiritual. Nos "Ioga Sutras de Patanjali", é dito que essa aspiração é um fator necessário e pode mesmo ser suficiente, se tiver a força e a constância necessárias para vencer os mais difíceis obstáculos. 

A atitude do buscador é determinada por seu entusiasmo.[1] Como em tudo na vida, quanto mais energia dedicarmos a um empreendimento, maior a probabilidade de conseguirmos nosso objetivo. É bem verdade que toda uma série de outros pré-requisitos e técnicas apropriadas deverá ser levada em consideração, porém, quando o indivíduo está engajado de todo coração, seu entusiasmo e dedicação o levarão a procurar e desenvolver os meios que porventura sejam necessários para alcançar sua meta. Paulo fala do anseio insopitável para alcançar o estado do Reino dos Céus quando escreve: "Gememos pelo desejo ardente de revestir por cima da nossa morada terrestre a nossa habitação celeste" (2 Cor 5:2). 

A dedicação entusiástica, (virya, em sânscrito) é uma das seis virtudes (paramitas) cultivadas no budismo mahayana como método para alcançar a Iluminação. Alguns autores referem-se a essa virtude como ‘energia': "Os três tipos de energia superam três fraquezas: a primeira fraqueza é a da mente que não se volta para o Dharma (a doutrina budista); a segunda é a da fadiga que nós experienciamos quando a praticamos; a terceira é a da dúvida que temos em nossa capacidade de atingir o alvo do Dharma. A pessoa que deseja atingir o topo de uma montanha deve, primeiro, voltar-se para a Senda; segundo, continuar a não se entregar à preguiça, e terceiro, não vacilar nem pensar: ‘isto é possível para pessoas fortes, não para mim'."[2]


[1] A Different Christianity, op.cit., pg. 229.

[2] Geshe Rabten, A Senda Graduada para a Libertação (Brasília, Editora Teosófica, 1993), pg. 74.