| Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã (4a parte) |
| Dom, 07 de Setembro de 2008 19:34 | |
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Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã (continuação) As chaves que abrem o reino dos céus na Terra Contentamento Há uma idéia inteiramente errônea de que o caminho espiritual, conhecido por suas renúncias, é sinônimo de tristeza e melancolia. Essa é uma das muitas imagens deturpadas e negativas legadas pela ortodoxia que precisam ser sanadas.[1] O objetivo último da vida espiritual é a suprema bem-aventurança da vida unitiva. É absolutamente ilógico supor-se que o treinamento para a felicidade suprema é a infelicidade. A felicidade é nossa herança divina, não só no futuro paraíso, mas aqui e agora. É importante cultivarmos o verdadeiro contentamento, que é livre de apegos e ansiedades. A felicidade passa a ser nossa companheira, dia e noite, quando nos apaixonamos por Deus em todas Suas expressões neste mundo. Quando nos damos conta de que todas as expressões de Deus na Natureza, que todos os processos da vida foram colocados no mundo para o nosso bem, não podemos deixar de agradecer e louvar ao Pai Supremo. Os arroubos dos místicos parecem expressar este tipo de profundo contentamento, independente das circunstâncias externas. Desde as primeiras experiências os místicos tendem a alternar suas vidas entre um indescritível contentamento e penosas mortificações. As visões e experiências vão aumentando em profundidade, com o passar do tempo, com o místico sentindo a cada estágio que chegou ao ponto máximo da escala da bem-aventurança, para conhecer novos picos de deleites espirituais na etapa seguinte.[2] O contentamento é um poderoso antídoto contra o desespero e a tristeza que acometem tantos peregrinos no Caminho. Diz uma passagem do livro sagrado dos hindus, o Bhagavad Gita, falando do comportamento do sábio: "(O sábio) está contente sempre com tudo o que o dia lhe oferece; não se deixa alterar por ventura nem por desventura; é livre da inveja; conserva o ânimo igual e o coração afável, tanto no sucesso como no insucesso; faz sempre o melhor que pode, porém, sem se apegar à obra. Assim, vive puro e imaculado entre os impuros e pecadores."[3] O papel da felicidade no caminho espiritual é enfatizado por outras tradições orientais: "Quando estamos contentes possuímos todas as coisas do mundo" (Lao Tsê). "A saúde é o maior bem; o contentamento, o maior tesouro; o amigo fiel, o melhor parente. O Nirvana é a suprema felicidade."[4] Dentre as passagens bíblicas ressaltando a importância do contentamento temos: "Os justos se alegram na presença de Deus, eles exultam e dançam de alegria" (Sl 68:4). "A piedade é de fato grande fonte de lucro, mas para quem sabe se contentar. Pois nós nada trouxemos para o mundo, nem coisa alguma dele podemos levar. Se, pois, temos alimento e vestuário, contentemo-nos com isso" (1 Tim 6:6-8). "Contentai-vos com o que tendes, porque ele mesmo disse: Eu nunca te deixarei, jamais te abandonarei" (Hb 13:5). "Ficai sempre alegres, orai sem cessar. Por tudo dai graças, pois esta é a vontade de Deus a vosso respeito, em Cristo Jesus" (1 Ts 5:16).
[1]: "Se queres algo progredir, conserva-te no temor de Deus e não procures excessiva liberdade; antes refreia, com firmeza, todos os teus sentidos e não te entregues à vã alegria." "O homem bom acha sempre motivo bastante para se afligir e chorar." Imitação de Cristo, op.cit., pg. 76 e 78. [2] Vide Mysticism, op.cit., pg. 239, 253, 354. [3] Bhagavad Gita (SP: Pensamento, 1996), pg. 60. [4] Dhammapada, 204, op.cit., pg. 39. Equilíbrio e moderação Foi dito que a prática das virtudes atua como um mecanismo de controle, um freio confiável na tortuosa estrada que conduz ao topo da montanha da realização espiritual. Nesse caso, o equilíbrio e a moderação funcionam como um freio motor, que impede as derrapagens e quedas nos precipícios do desequilíbrio e do fanatismo que possam surgir no caminho apertado de que fala Jesus. Buda, por sua vez, recomenda a seus seguidores o caminho do meio, a senda que evita os extremos de licenciosidade e austeridade. A disciplina de vida necessária para o autocontrole não pode descambar numa frenética autoflagelação. Os tristes espetáculos de masoquismo que ocorrem com freqüência nas romarias, com fiéis cumprindo promessas insensatas, são sinais de uma religiosidade fanática e desorientada e não de uma espiritualidade sadia. Outras tradições orientais também postula o equilíbrio, como podemos ver no Bhagavad Gita: "Executa a ação! Enquanto isso ocorrer, continua unido ao divino, renunciando a todo apego, equilibrado no sucesso e no fracasso. O equilíbrio é a yoga."[1] No caminho da perfeição o homem deve aperfeiçoar todos os aspectos de sua vida. Assim, o devoto não pode passar dia e noite louvando a Deus diante de um altar, esquecendo suas obrigações para com a sociedade e até mesmo o cuidado do corpo. O estudioso não pode ficar o tempo todo grudado nos livros, ignorando seus deveres e as necessidades de seus familiares. Precisamos usar o discernimento para concentrarmos energia no ideal espiritual sem, contudo, comprometermos aspectos importantes da vida pelos quais somos responsáveis, inclusive a saúde de nosso corpo, o bem estar de nossos familiares, as necessidades de nossa comunidade. Devemos, acima de tudo, cumprir nossos deveres, pois esses são a base da vida espiritual. Quando fazemos isso e aspiramos ardentemente servir a Deus, o nosso ambiente exterior vai sendo moldado, aos poucos, refletindo melhores condições para nossas necessidades espirituais do momento. Como a vida é um fluxo, o que é bom para nós hoje, estará ultrapassado no futuro. Novos desafios ser-nos-ão apresentados então. A moderação deve ser exercida em todos os sentidos, a começar pelo desfrute dos prazeres naturais que a vida nos proporciona, como por exemplo a comida. O prazer do paladar é lícito, o que não é aconselhável é a repetição imoderada da comida, descambando para o pecado da gula. Sempre que nos dedicamos de forma excessiva a alguma atividade e até mesmo ao exercício de uma virtude, chegará o momento em que um desequilíbrio será criado em nossa vida, demandando uma ação corretora. Assim, excesso de paciência gera preguiça e covardia, excesso de severidade na disciplina gera crueldade, excesso de compaixão estimula a injustiça, e assim por diante. Na tradição cristã, a moderação e o equilíbrio sempre foram considerados como virtudes a serem cultivadas. O apóstolo Paulo, em particular, exortava seguidamente os membros de suas comunidades nesse particular: "Que a vossa moderação se torne conhecida de todos os homens" ( Filip 4:5) "Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de sobriedade" (2 Tim 1:7). "Exorta igualmente os jovens, para que em tudo sejam criteriosos" (Tit 2:6).
[1] Bhagavad Gita, op.cit., cap. 2, vers. 48. VII. TRILHANDO O CAMINHO 26 - TRANSFORMAÇÃO, INTEGRAÇÃO E UNIÃO A pessoa que sente o chamado de Deus sabe que a Senda começa exatamente onde ela se encontra. As circunstâncias de sua vida, seus relacionamentos e seus problemas são os instrutores escolhidos pela providência divina para ajudá-la nessa etapa do Caminho. Cada período difícil, cada revés é a essência mesma da lição a ser aprendida. Porém, à medida que vai superando suas fraquezas e mudando sua maneira de pensar, o devoto verifica que o seu ambiente vai mudando, refletindo cada vez mais seu estado de espírito interior. Isso ocorre porque, quando aprendemos uma lição, a providência divina muda o cenário do palco da vida para que possamos vivenciar novos aprendizados. Nunca é tarde para começar e nenhum problema é insuperável. As verdadeiras barreiras não estão no mundo exterior, mas sim no interior de nossa mente, daí a importância da metanoia, isso é, da transformação de nossos estados mentais. Nenhum esforço é jamais perdido. O processo de transformação é cumulativo e recorrente, e todo esforço, pela lei de causa e efeito, dará seus frutos no devido tempo.[1] O devoto que verdadeiramente abraça o caminho da perfeição, procurando utilizar com todo empenho os instrumentos de transformação colocados a sua disposição, verifica que alguns sinais começam a aparecer com o tempo. Crescente paz e contentamento tomam conta de seu coração. Serenidade e alegria interiores, por sua vez, passam progressivamente a plasmar seu ambiente exterior. Circunstâncias cada vez mais favoráveis para a prática espiritual são colocadas no caminho daqueles que pedem essas dádivas ao Mestre. Por isso, Jesus advertia: Todo aquele que ouve essas minhas palavras e as põe em prática será comparado a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha. Por outro lado, todo aquele que ouve essas minhas palavras, mas não as pratica, será comparado a um homem insensato que construiu a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela caiu. E foi grande a sua ruína! (Mt.7:24-27). As primeiras etapas do processo de crescimento espiritual envolvem um ingente esforço para a transformação da natureza inferior. São tantos os aspectos de nossa personalidade que precisam ser modificados que só mais tarde nos damos conta de que alguns desequilíbrios gritantes precisam ser trabalhados. Começa então o trabalho de integração de todos os aspectos da totalidade humana. A vida de todos os seres é um verdadeiro milagre de integração. Quer enfoquemos a vida global do planeta, a vida de uma pequenina célula ou a vida de um ser humano, sem a integração de uma infinidade de processos nenhum organismo poderia sobreviver. Muitos psicólogos e neurologistas estão chamando a atenção para a necessidade de integração do desenvolvimento dos dois hemisférios do cérebro. Dizem isso porque o homem moderno desenvolveu muito mais o hemisfério esquerdo, onde são registradas e processadas as atividades intelectivas. O hemisfério direito, onde ocorrem as atividades emotivas e intuitivas, permanece pouco estimulado. Assim, os pesquisadores têm verificado que os indivíduos mais bem sucedidos, tanto na vida profissional e social quanto na familiar, são os que conseguem integrar seus sentimentos e percepções intuitivas com o processo intelectivo.[2] A integração do inferior ao Superior é o processo que busca reconectar a consciência individual à universal, que sempre existiu no mundo real apesar de não ser percebida pelo homem em sua consciência usual. A união permanente do divino com o terreno é aludida na última passagem do Evangelho de Mateus, quando Jesus se despede dos discípulos dizendo: "Eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" (Mt 28:20). Mas essa integração deve ser percebida pelo homem. Por isso foi dito: "Reconheçam o que têm diante dos olhos, e o que é oculto lhes será revelado."[3] Para isso o buscador deve deixar desabrochar sua natureza interior, usando toda a energia que lhe for possível direcionar para essa meta. Esse processo está expresso no Evangelho de Tomé em linguagem paradoxal: "Vendo crianças sendo amamentadas, Jesus disse a seus discípulos, ‘Essas crianças sendo amamentadas são como aqueles que entram no Reino'. Eles lhe perguntaram: ‘Nós, como crianças, entraremos no Reino?' Jesus lhes respondeu: ‘Quando tornarem o dois em um, e o interior como o exterior, e o exterior como o interior, e o que está em cima como o que está em baixo, e quando tornarem o masculino e o feminino uma coisa só ... então haverão de entrar no Reino'."[4] O uso do instrumental transformador, as Chaves do Reino dos Céus, visa promover essa integração. Porém, até mesmo o uso dos doze instrumentos transformadores precisa ser integrado. As dificuldades encontradas no Caminho podem ser invariavelmente identificadas com o uso inadequado ou insuficiente de um ou mais instrumentos. Como a natureza humana é complexa, sua transformação requer a utilização do instrumental como um conjunto integrado de medidas, pois essas agem de forma interativa, complementando-se umas às outras. Uma passagem do Evangelho de Felipe ressalta o caráter complementar de diferentes aspectos da natureza humana necessários à consecução de um determinado propósito: "A agricultura no mundo requer a cooperação de quatro elementos essenciais. A colheita será reunida no celeiro somente se houver a ação natural da água, da terra, do vento e da luz. A agricultura de Deus, da mesma forma, é baseada em quatro elementos: fé, esperança, amor e conhecimento. A fé é a terra em que fincamos raiz. A esperança é a água por meio da qual somos nutridos. Amor é o vento por meio do qual crescemos. O conhecimento (gnosis), então, é a luz, por meio da qual (amadurecemos)."[5] O processo de integração da consciência é, num certo sentido, o processo de retorno à essência das coisas, sendo facilitado por três aspectos divinos fundamentais: o Amor, a Verdade e a Ordem. O Amor, como já vimos, é o fator aglutinador por excelência no universo. É a força que leva á união dos pares de opostos na natureza manifestada, masculino e feminino, superior e inferior, Espírito e matéria, etc. Daí o ensinamento de Jesus, de que o amor é o maior dos mandamentos. O verdadeiro amor é o amor universal sem a conotação egoísta de posse de alguma parte desse todo. A Verdade é outro elemento integrador do ser, como indicam as palavras de Paulo aos Efésios: "Seguindo a verdade em amor, cresceremos em tudo em direção àquele que é a Cabeça, Cristo, cujo Corpo, em sua inteireza, bem ajustado e unido por meio de toda junta e ligadura, com a operação harmoniosa de cada uma das suas partes, realiza o seu crescimento para a sua própria edificação no amor" (Ef 4:15-16). Mas, como a verdade pode promover a integração de nossa natureza inferior à superior? O processo de integração requer o reconhecimento da realidade dessas duas naturezas e a identificação de tudo o que impede ou dificulta a manifestação da plenitude de nosso ser. [6] Se formos honestos conosco vamos verificar que, por uma série de mecanismos, procuramos dissimular e esconder muitos aspectos de nossa natureza, tanto inferior como superior. Antecipando as descobertas psicológicas dos tempos modernos, Jesus disse: "Se manifestarem aquilo que têm em si, isso que manifestarem os salvará. E se não manifestarem aquilo que têm em si, isso que não manifestarem os destruirá."[7] Jesus, aparentemente estava se referindo à manifestação de nossos conteúdos inconscientes, tanto de nossa natureza inferior como da superior. É óbvio que a manifestação de nossa natureza superior é a essência do processo evolutivo. Porém, a manifestação de tudo o que está oculto, ou melhor, reprimido em nossa natureza inferior é condição sine qua non para nossa libertação. Praticamente todos os processos terapêuticos modernos estão voltados para facilitar a expressão dos conteúdos mal resolvidos, as áreas ainda não suficientemente trabalhadas dos pacientes. É interessante observar que o Buda já havia dado o sábio conselho para manifestarmos nossas falhas antes das nossas virtudes. Pode parecer estranho que a ordem possa exercer um papel integrador. A ordem, porém, é um princípio universal. Os astrônomos, físicos, biólogos e ecologistas descrevem o universo como um mecanismo de imensa complexidade regido por uma ordem intrínseca que ultrapassa a nossa imaginação. Todo elemento, seja ele um corpo celeste, uma partícula subatômica, uma célula em nosso organismo ou um elo na cadeia alimentar, está em seu devido lugar. Tudo interage como engrenagens dentro do grande mecanismo do universo. Essa harmonia fundamental só pode ser explicada pela ordem inerente ao Plano Divino. Essa ordem exterior é um reflexo da ordem interior, que no homem é alcançada quando o indivíduo torna-se totalmente consciente. O processo de integração, que é um retorno à essência do ser, é necessariamente acompanhado por um esvaziamento de tudo aquilo na natureza inferior que vai contra o amor, a verdade e a ordem. Por exemplo, somente quando o indivíduo se esvazia do desejo egoísta de reter para si os frutos da bênção divina, colocando-se como um elo na cadeia interminável de agentes que compartilham generosamente o que recebem, é que estará pronto para o passo final da união com Deus. Esse ensinamento foi apresentado na parábola da figueira que foi tornada estéril por não ter compartilhado seus frutos (Mt 21:18-22), bem como nas parábolas da semente de trigo que deve morrer para dar muito fruto (Jo 12:24) e da pessoa que deve morrer para alcançar a vida eterna (Jo 12:25). Um indício de que o processo de esvaziamento está ocorrendo é a crescente simplicidade que pode ser notada na vida do buscador. À medida em que seu coração se volta para o alto e naturalmente se torna desapegado das coisas do mundo, o devoto vai ficando indiferente a todas exigências que anteriormente fazia da vida. A sofisticação no vestir, na alimentação, na vida social e familiar vai dando lugar àquela simplicidade característica de todos os grandes místicos e que foi um dos fatores marcantes da vida de Jesus e de seus discípulos. Para o homem moderno, libertar-se da ilusão dos modismos já é uma grande conquista. Com a presciência dos sábios, Paulo alertou-nos sobre os perigos das exigências da vida mundana, quando disse: "Receio, porém, que, como a serpente seduziu Eva por sua astúcia, vossos pensamentos se corrompam, desviando-se da simplicidade devida a Cristo" (2 Cor 11:3). Um aspecto dessa simplicidade é a busca da essência que se encontra escondida em todas as tradições. É dito que Buda, ao ser perguntado qual a essência de seu ensinamento, respondeu: "Cesse de praticar o mal; aprenda a praticar o bem." É interessante notar que a assertiva de cessar de fazer o mal é peremptória. Tudo o que prejudica o eu individual e os outros "eus" deve ser evitado. Fazer o bem, no entanto, não é tão simples assim. Em nossa ignorância, muitas vezes tentamos ajudar os outros e acabamos prejudicando-os. Por isso, Buda nos insta a aprender a fazer o bem. Esse aprendizado é longo, até mesmo os discípulos avançados e os iniciados ainda estão aprendendo essa divina arte. Se Jesus fosse perguntado qual a prática que resumiria a essência de seu ensinamento, é possível que viesse a responder: "Sede perfeitos como o Pai celestial é perfeito. Para isso amai-vos uns aos outros e procurai sempre agir com o coração, falar com o coração e pensar com o coração." Jesus estaria assim indicando que nossa meta é a perfeição, que significa atingirmos a medida da estatura da plenitude do Cristo. A senda espiritual é pavimentada com o amor, o elemento aglutinador divino que supera todas as barreiras. Porém, esse amor precisa ser sábio e perceptivo, daí a segunda parte da recomendação de Jesus, para usarmos o coração como guia de todas nossas ações, palavras e pensamentos. Como Cristo habita no âmago de nosso ser, na câmara secreta do coração, quando nos centrarmos no coração, o Cristo passará a guiar todas as nossas ações, palavras e pensamentos, levando-nos, sem possibilidade de extravio, ao Reino dos Céus. Quando conseguimos ouvir a voz do coração, percebemos que a mensagem é suave e amorosa, e inteiramente dissociada da confusão que possa reinar em nossa vida exterior.[8] A partir de então estaremos conscientes da divina presença em nosso coração como Jesus indicou: "Nesse dia compreendereis que estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós" (Jo 14:20). Essa orientação tem um paralelo em outras tradições como vemos em Luz no Caminho: "Considera ansiosamente o teu próprio coração. Porque através do teu próprio coração vem a única luz que pode iluminar a vida e torná-la clara a teus olhos".[9] Quando o buscador consegue ouvir a voz do silêncio em seu coração, as leituras e instruções exteriores tornam-se secundárias, porque, a partir de então, ele contará com a orientação do Mestre em seu interior.[10] O devoto no limiar da experiência de comunhão precisará se valer da intuição, procurando identificar em suas meditações o que precisa ser feito para vencer as barreiras que ainda impedem sua união com o supremo bem. Nessa última etapa, a prática da lembrança de Deus assume uma nova conotação. Em vez de pensarmos em Cristo como o mestre que procuramos ter sempre ao nosso lado, devemos agora orientar nossa consciência para a realidade de que Cristo habita em nós. Algumas pessoas sentem-se inibidas em pensar sobre sua natureza última como sendo a de Cristo, pois estão condicionadas a acreditar que o poder divino do Cristo cósmico só se manifestou através do Cristo histórico. Porém, o próprio Jesus reiterou um antigo ensinamento contido nos Salmos (Sl 82:6) dizendo que somos todos deuses (Jo 10:34). Paulo foi bem explícito ao declarar: "Não sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1 Co 3:16). Nosso Eu Superior é o Cristo interior, e a meta nessa etapa deve ser tornar essa realidade cada vez mais presente em nossa consciência. Devemos ter em conta que quando ativamos um pensamento, especialmente um pensamento bem definido e concentrado, os resultados inevitavelmente se farão sentir. No entanto, o fator tempo na equação divina nem sempre corresponde às nossas expectativas humanas. Devemos ter fé que o processo de criação foi ativado e que os resultados estão a caminho, porém não podemos criar expectativas rígidas a respeito de como e quando esta manifestação vai ocorrer. Assim, devemos continuar a viver em total engajamento no serviço do Senhor e com profunda alegria na certeza de que já somos um canal da beneficência divina e que vamos nos tornar cada vez mais conscientes de nossa verdadeira natureza, até que, em profunda bem-aventurança, possamos dizer como o apóstolo Paulo: "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gl 2:20). Chega um determinado momento, porém, em que o devoto sente em seu coração que já chegou ao limite de sua capacidade. Isso é indicativo de que a fase do ciclo de atividade já cumpriu o seu papel e que agora ele deve aprender o segredo da entrega passiva e paciente a Deus. A partir de então, o progresso dependerá da ajuda do Cristo, de nosso mestre interior. Mas, de acordo com a lei divina, a ajuda do alto só pode ser concedida quando solicitada. Na Bíblia esse conceito é apresentado de forma poética e delicada numa tocante passagem do Apocalipse: Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo (Ap 3:20). Essa é uma das mais reveladoras passagens da Bíblia. Jesus, como símbolo do divino em nós, demonstra, com uma humildade que deve servir de modelo para todos os que aspiram seguir seus passos, que ele está sempre à porta de nosso coração, batendo suavemente na esperança de que estejamos atentos ao chamado sutil do alto e venhamos abrir a porta de nosso recinto interior para que Deus possa entrar. Cristo está sempre pronto para cear conosco. Se tomarmos as medidas necessárias para convidá-lo a entrar em nossa casa, ele comungará conosco. Seremos envolvidos e impregnados, primeiramente de forma inconsciente e, no seu devido tempo, conscientemente, pela substância divina, tornando-nos unos com ele. Mas, para que isso possa ocorrer, devemos querer ativamente essa comunhão, o que significa uma aspiração ardente, que deve ser demonstrada pelo nosso empenho em fazer todo o possível para que a graça divina possa ocorrer A coisa mais importante para isso é a disposição de tirarmos de nosso coração tudo aquilo que nos prende ao mundo (kenosis). A Graça é, portanto, imprescindível na última etapa do processo que leva à união com Deus. Existe, no entanto, uma certa confusão com relação à natureza da Graça. A maior parte dos cristãos acredita que a Graça é independente da lei divina, sendo concedida por Deus a seus devotos de uma forma que lembra o favoritismo e paternalismo comuns aos nossos governantes. Essa idéia é inteiramente errônea e precisa ser corrigida. A lei e a ordem fazem parte integrante da natureza de Deus. Todos os aspectos e níveis da manifestação são regidos por leis inexoráveis estabelecidas pelo governante supremo de todo o universo. Deus, portanto, não poderia ir contra suas próprias leis. A Graça parece uma expressão de favoritismo porque somos espiritualmente cegos e não conseguimos perceber aquele ponto em que, com o ato de entrega da alma a Deus, é superada a última barreira que restava para a comunhão com o Supremo Bem. Esse momento crítico ocorre com a convergência de dois processos: o amadurecimento ou esgotamento dos débitos cármicos do indivíduo e o acumulo de méritos até ser atingida a massa crítica, ou melhor, a velocidade de cruzeiro necessária para que a alma possa decolar vôo. Um carma maduro significa que não existem mais impedimentos para o próximo passo na Senda, e o acumulo de méritos indica que o combustível para o vôo da alma foi gerado pelo discípulo. A entrega irrestrita a Deus, nesse caso, funciona como o catalisador necessário para promover a combinação dos ingredientes espirituais existentes no interior da alma até que, decorrido o tempo necessário, ocorra a iluminação. Deus é absolutamente justo, portanto, o que chamamos de Graça é também uma expressão da grande lei. Por isso podemos dizer que a Graça não vem de graça; o místico deve trabalhar arduamente para merecê-la no seu devido tempo. A importância da "entrega a Deus," característica dos últimos estágios da vida espiritual, sempre foi enfatizada pelos místicos. Catarina de Gênova, escreve sobre o trabalho de purificação realizado pelo amor de Deus em operação no devoto que a Ele se entrega: "O último estágio do amor é aquele que ocorre e opera sem a participação do homem. Se o ser humano se tornasse consciente das muitas deficiências ocultas em si mesmo ele se desesperaria. Essas fraquezas são incineradas no último estágio do amor. Deus mostra então aquelas deficiências ao homem, para que a alma possa ver o trabalho de Deus, daquele amor em chamas. Se devemos nos tornar perfeitos, a mudança deve ser efetuada em nós, dentro de nós e ao nosso redor; isto é, a mudança deve ser o trabalho não do homem, mas de Deus. Isso, o último estágio do amor, ocorre exclusivamente pelo puro e intenso amor de Deus".[11] A necessidade da entrega paciente e humilde a Deus na última etapa do caminho é descrita numa passagem da Bíblia pouco compreendida. É dito que em sua pregação Jesus deparou-se na região de Tiro e Sidônia com uma mulher cananéia que gritava pedindo ajuda do Salvador: "Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim: a minha filha está horrivelmente endemoninhada. Ele, porém, nada lhe respondeu. Então os seus discípulos se chegaram a ele e pediram-lhe: Despede-a, porque vem gritando atrás de nós. Jesus respondeu: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel! Mas ela, aproximando-se, prostrou-se diante dele e pôs-se a rogar: Senhor, socorre-me! Ele tornou a responder: Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos. Ela insistiu: Isso é verdade, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos! Diante disso, Jesus lhe disse: Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como queres! E a partir daquele momento sua filha ficou curada" (Mt 15:22-28). O entendimento dessa passagem merece ser aprofundado, pois seus detalhes chocantes, são indícios de que um importante ensinamento está sendo velado. Os personagens e os fatos relatados são símbolos de verdades eternas. A mulher cananéia, não sendo judia, simboliza uma alma que não pertence ao grupo de discípulos do Mestre. Sua filha é a personalidade, que é descrita como estando horrivelmente endemoninhada, ou subjugada pelas paixões materiais, os demônios de nosso lado sombra. Jesus, representando o Cristo interior, ao receber o apelo da alma, inicialmente responde com silêncio. Notamos que ele não se nega a ajudá-la nem tece considerações sobre a questão, mas simplesmente responde com silêncio, como responde às preces dos devotos de pouca fé. Mas a alma é perseverante e continua a insistir em seus apelos à divina Presença, demonstrando profunda humildade, mesmo em face ao silêncio de Deus. Prostrar-se no chão significa submeter-se inteiramente à vontade do Senhor, reconhecendo que seu destino está nas mãos do Salvador. Esse ato de total humildade indica que a alma já procurou por todos os meios purificar sua natureza inferior e reconhece que só o Supremo Bem pode ajudá-la. A alma determinada a superar suas deficiências insiste em obter a ajuda do Cristo, que diz algo aparentemente cruel, comparando a mulher a um cachorrinho. Podemos estar certos de que o doce e compassivo Mestre jamais diria algo assim a uma pessoa que implorasse ajuda, prostrada a seus pés. Essa passagem é, portanto, inteiramente alegórica. O pão, como na eucaristia, representa o alimento espiritual. Esse alimento é dado prioritariamente aos "filhos", ou seja, aos iniciados que estão inteiramente comprometidos com a vida de serviço ao mundo e, portanto, devem ser devidamente preparados para esse ministério. Os cães, como os porcos, simbolizam as pessoas que ainda estão vivendo para o mundo. A mulher cananéia, no entanto, mostrando que sua compreensão espiritual já era bastante desenvolvida, responde de forma surpreendente, dizendo que os cachorrinhos (os buscadores) comem as sobras (absorvem os ensinamentos) que caem da mesa de seus donos (os Mestres). Todos os aspirantes estão exatamente nesse estágio alimentando-se das instruções dadas aos discípulos aceitos, que são ‘as migalhas que caem da mesa' do banquete divino. Essa demonstração de fé, tornada possível por uma profunda humildade e determinação, fará com que a alma receba do Cristo, no seu devido tempo, algumas migalhas da Graça, que possam satisfazer suas aspirações naquele momento de sua vida (curou a sua filha). Todos os grandes místicos, nas etapas finais da vida unitiva, foram conhecidos pela imensa energia com que se dedicavam a seus afazeres, totalmente esquecidos de si mesmos, inteiramente voltados para o bem da humanidade. Significa dizer que entrar no Reino dos Céus é continuar trabalhando no cumprimento da vontade de Deus aqui na Terra, que é o crescimento evolutivo de todos os seres. O místico sabe que sua missão é descrever a natureza do tesouro espiritual que agora é seu e compartilhar suas experiências sobre o modo de alcançá-lo. Esse tesouro, no entanto, tem que ser buscado por cada um. A visão espiritual tem que ser desenvolvida com o tempo, com a maturidade da alma, que não pode ser forçada como não pode ser forçada a maturidade do corpo. O místico, como todo discípulo avançado, prega mais pelo exemplo e pela prática do amor do que pelas palavras, ainda que suas palavras geralmente sejam reconhecidas como de extrema sabedoria.[12] Faz parte da grande Lei que a humanidade seja salva por seus próprios membros que despertaram o Cristo interior . É por isso que os grande Instrutores encarnam-se periodicamente para, no corpo físico, ajudarem seus irmãos sofredores. E é por isso que o Mestre procura com tanto afinco promover o despertar espiritual daqueles que estão suficientemente maduros e, em particular, facilitar o crescimento espiritual de seus discípulos. Esses discípulos, movidos pela compaixão, tornam-se obreiros na seara do Senhor, dedicando suas vidas, encarnação após encarnação, ao progresso espiritual da humanidade, trabalhando de forma altruísta para minorar o sofrimento e promover a harmonia, cooperação e crescimento de todos os seres.
[1] Na tradição oriental é dito que: "Na sua nova existência, o homem recupera novamente toda a organização espiritual que tinha adquirido na vida passada e, assim, fica preparado para continuar os estudos e as tarefas que conduzem à Perfeição. Com a morte, não se perde nada daquilo que a alma adquiriu. As experiências que o homem fez nas vidas passadas tornam-se instintos e incitam-no ao progresso, até inconscientemente." Bhagavad Gita, op.cit., pg. 82. [2] "Num certo sentido, temos dois cérebros, duas mentes -- e dois tipos diferentes de inteligência: racional e emocional. Nosso desempenho na vida é determinado pelas duas -- não apenas o QI, mas é a inteligência emocional que conta. Na verdade, o intelecto não pode dar o melhor de si sem a inteligência emocional. O velho paradigma defendia um ideal de razão livre do peso da emoção. O novo nos exorta a harmonizar cabeça e coração." Daniel Golman, Inteligência Emocional (R.J.: Editora Objetiva), pg. 42. Vide, também, Elaine de Beauport e Auro Sofia Diaz, Inteligência Emocional - As Três Faces da Mente (Brasília, DF: Editora Teosófica, 1998). [3] Evangelho de Tomé, op.cit., pg. 126. [4] Evangelho de Tomé, op.cit., pg. 129. [5] Evangelho de Felipe, op.cit., pg. 156. [6] Essa idéia é apresentada em Luz no Caminho, onde se usa o desabrochar da flor como símbolo do despertar da percepção direta da verdade: "Enquanto a personalidade toda do homem não tiver sido dissolvida e fundida; enquanto o divino fragmento que a criou não a manejar como mero instrumento de experimentação e experiências, enquanto a natureza toda não tiver sido vencida e se tornado submissa ao Eu Superior, a flor não poderá abrir-se." Op.cit., pg. 24. [7] Gospel of Thomas # 70, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 134. [8] The Mystical Christ, op.cit., pg. 97. [9] Luz no Caminho, op.cit., pg. 34. [10] Luz no Caminho sugere que quando o discípulo consegue ouvir a voz do Mestre interior a vitória está em suas mãos: "Mas, se o ouvires (o Mestre interior), imprime-o finalmente em tua memória, de modo que nada se perca do que tenha chegado a ti, e dele procura aprender o significado do mistério que te rodeia. Com o tempo não terás necessidade de instrutor algum." Op.cit., pg. 32-33. [11] Catarina de Gênova, citada em Divine Light and Fire, op.cit., pg. 42 [12] Vide, The Mystical Christ, op.cit., pg. 179. 27 - A VIDA DO CRISTO COMO O CAMINHO A integração, como vimos no capítulo anterior, é a chave para o entendimento de nossa tradição esotérica. Somente quando o devoto consegue integrar o relato bíblico em sua realidade interior é que a mensagem de Jesus realmente começa a trabalhar em sua alma. Isso é feito quando despertamos para o fato de que os relatos evangélicos não são meramente acontecimentos históricos de um passado distante, mas sim, a história de nossa própria alma. A chave que abre esse entendimento é a compreensão do simbolismo e da alegoria implícitos na mensagem evangélica. Encerraremos nosso estudo sobre a tradição esotérica do cristianismo com um dos aspectos mais velado dos evangelhos, a própria vida do Cristo. A comovente história da vida de Jesus, como relatada nos quatro evangelhos, mais do que um relato biográfico exato da vida do Mestre, retrata, segundo um método velado da tradição milenar dos Mistérios, ensinamentos esotéricos profundos sobre a vida de cada filho de Deus, de cada um de nós. Não é nosso propósito questionar a historicidade do relato bíblico que por tantos séculos serviu de esteio à devoção de milhões de fieis. O Vaticano, porém, ciente de uma série de incongruências nos relatos bíblicos da vida de Jesus, vem estimulando estudos para elucidar diversas questões históricas, inclusive a verdadeira data do nascimento e da morte de Jesus, um problema insolúvel para os historiadores há séculos. No relato bíblico a data apresentada para o nascimento de Jesus é fixa, porém a de sua morte é variável, uma indicação de que o relato é mítico e não histórico. O recém-nascido Jesus teria sido perseguido por Herodes, porém, é sabido que esse personagem histórico reinou na Palestina no período de 37 a 4 antes de nossa era, tendo morrido, portanto, quatro anos antes do suposto nascimento daquele a quem ele teria mandado matar. Esse e outros problemas históricos relativos à vida de Jesus não são objeto de nosso estudo. Tampouco examinaremos os paralelos da vida de Jesus com os relatos da vida de outros grandes personagens das mais diversas tradições, como Krishna, Odin, Baal, Indra, Zoar, Alcides, Mikado, Thor, Quexalcote, Fohi, Tien, Adônis, Quirinus, Prometeu, Maomé, Mitra, Hórus, Dionísio, Zaratustra e Buda, para citar alguns.[1] Ainda que alguns estudiosos tenham sugerido que a vida de Jesus é mais um exemplo do mesmo mito solar representado em outras tradições, especialmente na tradição egípcia, na qual Jesus era versado, essas considerações não são centrais para a nossa tese.[2] Para o verdadeiro cristão convencido de que o Reino de Deus está em seu interior e que ele pode ser alcançado pela metanoia, o importante é saber que o relato dos evangelhos descreve de forma alegórica os cinco estágios, ou iniciações, pelos quais todo buscador terá que passar até atingir a meta suprema da perfeição. Se o Reino está no interior de cada um, com mais razão ainda estará o Cristo. A importância desse ensinamento foi reiterada por Paulo que, em inúmeras passagens de suas epístolas, orienta-nos para o Cristo em nós, a esperança de glória. O amadurecimento espiritual faz com que as barreiras da separatividade sejam progressivamente destruídas. Para o místico, o Cristo não é mais uma figura separada no tempo e no espaço, mas uma realidade permanente em seu coração, que deve ser vivenciada aqui e agora. Procuraremos examinar, portanto, o relato evangélico como a descrição da verdade eterna dos grandes marcos iniciáticos da vida de todo filho de Deus na etapa final de retorno à casa do Pai. Esse enfoque não diminui em nada o respeito e veneração que devemos sentir por Jesus, o Mestre que demonstrou de forma pungente como é possível alcançar-se a medida da estatura da plenitude do Cristo. O personagem central, Jesus, simboliza o Cristo interior, que procura de forma ingente trazer sua mensagem redentora a nossa natureza inferior. Os principais eventos da vida de Jesus serão interpretados a seguir como marcos referenciais das cinco grandes iniciações, por que passam todos grandes mestres.[3]
[1] Um exaustivo trabalho de Kersey Graves, intitulado The World's Sixteen Crucified Saviors, or Christianity before Christ (reprint, Montana, Kessinger Publishing Co) indica que varias características são comuns a quase todos esses salvadores da humanidade. Dentre elas vale mencionar: nascimento milagroso, de mães virgens, em 25 de dezembro; suas vindas teriam sido profetizadas anteriormente; uma estrela brilhante indicaria o local do nascimento; anjos, pastores e magos estariam presentes; eram de descendência real; foram ameaçados de morte na infância pelo governante do país onde nasceram; deram provas de sua divindade; afastaram-se do mundo por algum tempo para jejuar; disseram que o seu reino não era desse mundo; foram ungidos; foram crucificados pelos pecados do mundo; depois de três dias enterrados ressurgiram dos mortos; ao final de sua missão ascenderam ao céu. [2] O leitor poderá obter mais informações sobre essas questões no exaustivo estudo de Gerald Massey, The Historical Jesus and the Mythical Christ (republicado em N.Y. por A&A Books Publishers, 1992). [3] As interpretações apresentadas foram baseadas nos livros listados a seguir: Geoffrey Hodson, The Hidden Wisdom in the Holy Bible, vol. I, op.cit., e A Vida do Cristo do Nascimento a Ascensão, (Brasília: Editora Teosófica, 1999); Annie Besant, O Cristianismo Esotérico, op.cit.; C.W. Leadbeater, A Gnose Cristã, op.cit.; Alice A. Bailey, From Bethehem to Calvary, The Initiations of Jesus (N.Y.: Lucis, 1981); Rudolf Steiner, From Jesus to Christ (Sussex, Inglaterra: Rudolf Steiner Press, 1991). Primeira iniciação: o nascimento O primeiro passo na senda da perfeição é o nascimento do Cristo. Ele é a luz do mundo, que permanece dormente em todos os seres até ser despertado em nossa consciência. Os relatos evangélicos apresentam uma riqueza de detalhes sobre o evento. A luz do Cristo nasce sempre quando as trevas são mais profundas no mundo, daí seu nascimento ser apresentado pela Igreja como ocorrendo em 25 de dezembro, data do equinócio do inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, onde ocorre o exemplo histórico. A luz do sol aparece nessa data sob o signo de virgem. Jesus representa a centelha divina no homem, o Cristo. Sua mãe, Maria, simboliza a alma espiritual, situada no plano mental superior. José, seu pai, figura como a mente inferior. Por isso, não foi José quem gerou a criança, pois a luz da intuição não pode ser gerada pela mente concreta. No entanto, após o nascimento da criança divina ela passa a ser cuidada por esse pai adotivo. Maria e José, portanto, formam um casal, a mente superior e a inferior, sendo, nesse sentido, os pais do Cristo. O Cristo é concebido pelo Espírito de Deus, sendo a conceição imaculada anunciada a Maria pelo mensageiro divino, o arcanjo Gabriel, a expressão da vontade divina criativa. A anunciação é uma experiência interior pela qual todo iniciado deve passar. Nessa ocasião, a consciência do homem começa a desabrochar expandindo sua capacidade intelectiva e percepção psíquica. Trata-se de um verdadeiro nascimento dentro da alma, aludido por Paulo alegoricamente: "meus filhos, por quem eu sofro de novo as dores do parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gl 4:19). No plano de Deus a harmonia está sempre presente. Toda vez que o pêndulo da vida estende-se para um extremo, deve inevitavelmente oscilar a seguir para o outro. Assim, depois do despontar da luz, da boa nova do nascimento divino, a força das trevas faz-se sentir, procurando trazer a morte. Herodes, o governante exterior, personifica as forças das trevas que combatem a luz .[1] No ser humano, Herodes representa a personalidade autocentrada, a força do passado, que teme o nascimento da luz no interior do ser, pois o Cristo, a esperança do futuro, necessariamente provocará uma revolução, ameaçando o controle das forças da materialidade e do egoísmo que mantêm o homem prisioneiro. Para que as forças trevosas do mal não matem o recém-nascido, a divina família deve fugir para o Egito, terra dos mistérios e santuário onde os iniciados eram e ainda são instruídos. A cena do Natal, rememorada com profunda alegria por milhões de cristãos todos os anos, está repleta de símbolos. O estábulo, ou gruta, representa o corpo físico que abriga em seu interior todos os membros da família divina, que são os diferentes princípios do homem. A manjedoura, onde o Cristo menino está reclinado, utensílio usado na alimentação dos animais, representa o corpo vital ou etérico que preserva e distribui o prana, ou força vital do sol, pelo corpo físico. Os carneiros e as vacas representam as emoções. Para que o Cristo possa nascer pressupõe-se que esses animais tenham sido domesticados, ou seja, que as emoções do candidato à iniciação tenham sido disciplinadas e purificadas. Os pastores representam os irmãos mais velhos e guias da humanidade, os Mestres que sempre comparecem às cerimônias de iniciação. Paulo refere-se a esses guias como "os justos que chegaram à perfeição" (Hb 12:23). Os três reis magos, que vieram do oriente (de onde vem a luz), simbolizam os três aspectos da divindade. Eles trazem presentes (ouro, incenso e mirra) ao jovem iniciado, expressando os aspectos espirituais do poder, do amor e da sabedoria. Com esses presentes a alma recém-iluminada, ou o Cristo-criança recém-nascido, está capacitado a empreender sua missão. Os reis magos são guiados pela estrela de Belém, o pentagrama que cintila acima da cabeça do hierofante sempre que um rito iniciático está em andamento. Os evangelistas, como iniciados, conheciam claramente a linguagem sagrada e assim apresentaram um relato alegórico que preserva para todos os que têm olhos para ver a mensagem auspiciosa de que Cristo aguarda a oportunidade para nascer na consciência de todos os que aspiram alcançar o Reino dos Céus. Quando esse nascimento virginal ocorrer, a luz crística na alma do iniciado passará a derramar suas bênçãos sobre toda a natureza inferior do homem, estimulando sua capacidade intelectual, percepção e sensibilidade. A expansão de consciência conseqüente faz com que a unidade de todos os seres deixe de ser meramente um conceito intelectual para tornar-se, ainda que momentaneamente, uma profunda experiência de vida.
[1] É interessante notar que, em hebraico, herodes quer dizer ‘um terror', talvez derivado da palavra egípcia "heru", aterrorizar. Segunda iniciação: o batismoO batismo de Jesus por João Batista representa a segunda grande iniciação. A imersão nas águas do Jordão tem um profundo significado místico. A água sempre foi usada como símbolo das emoções e paixões. Para que um iniciado possa capacitar-se a agir como um instrutor e salvador de almas, torna-se necessário que passe por essas experiências, que compartilhe a dor do mundo. Assim, o mergulho nas águas simboliza essa profunda experiência de sintonia com a dor de todos os que sofrem e anseiam por uma vida de felicidade, saúde e harmonia. Ao aceitar voluntariamente compartilhar a dor do próximo, o iniciado assinala ocultamente que está pronto para receber a Graça divina. O Poder divino é conferido quando, simbolicamente, Jesus emergiu da água e "os céus se abriram e ele viu o Espírito de Deus descendo como uma pomba e vindo sobre ele" (Mt 3:16). O iniciado que se compromete a servir a Deus na labuta de salvação da humanidade demonstra ser um filho dileto do Pai, o que é confirmado por uma voz celestial que afirma: "Este é o meu filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3:17). A segunda iniciação confere uma nova expansão de consciência e maiores poderes ao iniciado. O princípio intelectual, em particular, recebe um considerável estímulo. A capacidade analítica é consideravelmente aumentada, o que pode tornar o indivíduo demasiadamente crítico, orgulhoso e até mesmo materialista. Esse perigo é a contrapartida dos novos poderes concedidos. Assim como após a primeira iniciação os poderes da matéria se fizeram sentir na perseguição simbólica de Herodes, agora o iniciado enfrenta o mesmo processo numa volta mais alta da espiral. Jesus é, então, levado ao deserto para ser tentado pelo diabo (Mt 4:1). O diabo simboliza o lado sombra do homem, os resquícios de orgulho, egoísmo e ambição pelo poder. O deserto simboliza o período de aridez espiritual que se segue a toda experiência de exaltação espiritual, como é testemunhado por todos os místicos. Durante esse estado interior de aridez, simbolizado pelos quarenta dias de jejum de Jesus, a personalidade é tentada a usar seus novos poderes para saciar sua fome, para obter posses e prestígio. O mesmo Jesus que mais tarde alimentaria com seus poderes teúrgicos cinco mil homens (Lc 9:14-17), recusa-se a usar seus poderes para transformar pedra em pão para satisfazer suas necessidades pessoais. Ao contrário de Jesus, que responde com sabedoria e determinação a todas as tentações do diabo interior, muitos iniciados não resistem às tentações do mundo, especialmente ao orgulho e à ambição. Enquanto esses tentadores trevosos não forem definitivamente derrotados, o iniciado continuará marcando passo nessa etapa da senda. Por isso, é dito que o período entre a segunda e a terceira iniciação tende a ser um dos mais demorados a ser vencido pela maior parte dos iniciados, consumindo, em geral, várias encarnações. Depois de receber seus novos poderes, o iniciado inicia sua missão no mundo, o que é simbolizado pela passagem em que: "Jesus percorria toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda e qualquer doença ou enfermidade do povo" (Mt 4:23). Terceira iniciação: a transfiguração A terceira iniciação é geralmente representada na vida de Jesus pela transfiguração. É possível que esse acontecimento tenha sido inserido no lugar errado no relato bíblico, pois, no texto de Pistis Sophia, a transfiguração ocorre após a ressurreição de Jesus dos mortos como parte do processo de iluminação suprema do Mestre, simbolizado pela ascensão ao céu.[1] Nas duas hipóteses, a transfiguração retrata o processo de iluminação, que na terceira iniciação é parcial, enquanto na quinta é total e definitiva. O relato menciona que a cena ocorre num monte (Mt 17:1-8), o que significa uma elevação do estado de consciência. Assim como na primeira iniciação os pastores de alma estavam presentes, também nessa ocasião os predecessores de Jesus no caminho da perfeição (Moisés e Elias) participam desse momento de glória. Mas, se a transfiguração realmente tiver ocorrido como parte da quinta iniciação, qual seria, então, a passagem bíblica representativa da terceira iniciação? Certamente a eucaristia, o misterioso banquete divino. Jesus anuncia que desejava participar da páscoa com seus discípulos e que não a comeria até que ela se cumprisse no Reino de Deus (Lc 22:16). Ora, como foi dito anteriormente, o Reino de Deus é o estado de consciência da unidade, que é justamente alcançado quando a natureza superior do homem comunga com sua natureza inferior, o que é simbolizado pela eucaristia. A terceira iniciação seria, então, simbolizada pela comunhão do pão e do vinho dos doze apóstolos. Toda a cena e seus personagens, no seu sentido esotérico, deve ser entendida como simbólica. Jesus e seus doze apóstolos simbolizam a totalidade do ser humano, sendo a casa onde ocorre a ceia a representação do corpo físico, o templo de Deus. A ceia tem lugar no pavimento superior (Lc 22:11), ou seja, num estado de consciência elevado. Jesus representa a natureza divina do homem, o Cristo interior. Os doze apóstolos personificam as características do homem no mundo, com suas qualidades e fraquezas.[2] Pedro, por exemplo, representa a impulsividade e pusilanimidade do homem que ainda não aprendeu a controlar suas emoções. Judas, o traidor, com sua cobiça e ambição, simboliza o lado sombra que acompanha todo discípulo até as últimas etapas do caminho. João, o discípulo que Jesus amava, retrata a alma, a unidade de consciência, que busca a inspiração do Alto, simbolicamente reclinando sua cabeça (símbolo da mente) sobre o coração de Jesus (símbolo do Cristo interior), para aí permanecer no aguardo da Graça Divina. A sagrada eucaristia representa a integração do ser humano. Os aspectos da natureza humana, com suas negatividades e qualidades, os doze discípulos, recebem de Jesus, o pão e o vinho, símbolos da carne e sangue do Cristo, com a admoestação: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós" (Jo 6:53). Obviamente Jesus estava falando em linguagem cifrada, indicando que a carne do Cristo significa o conhecimento espiritual, o sagrado alimento que confere iluminação ao intelecto humano. O sangue de Cristo simboliza a vida divina, o fluido essencial que constantemente se verte sobre todo o universo, sem a qual nenhum ser poderia viver. A consciência da divina presença no homem iluminado confere a certeza da imortalidade da natureza superior do homem, a vida eterna de que nos fala a Bíblia.[3] Após a exaltação conferida pela terceira iniciação, a inexorável lei divina da harmonia leva o iniciado a experimentar o seu oposto. No relato bíblico isso é apresentado como a experiência no Getsêmani, que ocorre apropriadamente após a ceia pascal (Mt 26:36-45). Jesus convida três de seus discípulos mais próximos a acompanhá-lo, para juntos orarem. Mas naquele momento de angústia, em que o iniciado descortina sua missão e os sacrifícios e sofrimentos que lhe sobrevirão, ele verifica que está só. Não conseguirá nenhum apoio externo ou interno nesse momento de solidão, o que é simbolizado nos evangelhos pelos discípulos dormindo durante a oração (Mt 26:40-45). Numa atitude normal a qualquer ser humano, ao perceber o intenso sofrimento que lhe aguardava, Jesus invoca a Deus e diz: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice" (Lc 22:42). Porém, como iniciado comprometido com a missão de redenção da humanidade, aceita as conseqüências de uma vida altruísta de total desapego, ainda que ao preço de sua própria vida, e submete-se humildemente à vontade divina.
[1] Pistis Sophia, op.cit., pg. 93-95. [2] Alguns autores sugerem que os doze apóstolos representam os doze signos do zodíaco. Gaskell, um estudioso da simbologia esotérica propõe a seguinte correspondência: Pedro - a mente analítica inferior; André - fé e investigação; Tiago - esperança e progresso; João - amor e filosofia; Felipe - coragem e determinação; Bartolomeu - perseverança; Tomé - busca intelectual da verdade; Tiago Alfeu - modéstia e receptividade; Simão Zelote - gentileza e atenção; Judas, irmão de Tiago; mente aberta; Mateus - deliberação crítica; Judas - prudência. (vide G.A. Gaskell, Dictionary of the Sacred Language of all Scriptures and Myths (Londres: G. Allan & Unwin). [3] Vide G. Hodson, The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., vol. I, pg. 41. Quarta iniciação: morte e ressurreição O portal da quarta iniciação abre-se para o servidor resoluto e dedicado que aceita beber o cálice amargo da vida de serviço. Os sofrimentos intensos pelos quais passa o iniciado que aceita carregar a cruz do mundo e assumir parte do pesado carma da humanidade são representados nos evangelhos pelos dolorosos relatos da paixão do Senhor. A morte para o mundo e a ressurreição para a vida eterna, os dois aspectos complementares que simbolizam a quarta iniciação, têm lugar em Jerusalém, a cidade santa. O iniciado deve entrar nesse elevado estado de consciência em plena posse de suas faculdades humanas, ou seja, num corpo físico. Isso é simbolizado pela entrada de Jesus em Jerusalém montado num jumento, um quadrúpede domesticado, que representa os quatro corpos inferiores do homem (físico, etérico, astral e mental concreto) devidamente disciplinados. Nesse estágio o sofrimento parece ser o companheiro inseparável do iniciado. Na estória de Jesus, começa com o sofrimento psíquico antecipado no Getsêmani, onde ele se sente terrivelmente solitário e sem o apoio de seus discípulos. No desenrolar dos acontecimentos, segue-se a traição de um discípulo e a fuga dos outros quando se sentem ameaçados. Cristo é escarnecido e insultado pela multidão enfurecida, representando as paixões dos homens que sempre zombam da natureza divina. Depois ele é açoitado e espancado pelos soldados, que são os condicionamentos da natureza inferior que seguem as ordens de nosso inconsciente, sempre preocupado com a manutenção do status quo de nossa vida mundana. O julgamento é feito por Pilatos, o governante da ordem exterior, que simboliza a personalidade. Jesus é devidamente apresentado como aquele que procura subverter a nação e, quando interrogado por Pilatos, confirma que é o Cristo, rei da natureza humana. A personalidade, ao lavar as mãos, procura, como sempre, justificar-se alegando não ter culpa por condenar um inocente, pois está atendendo ao clamor da plebe (as paixões) e à recomendação dos sacerdotes, os líderes da natureza inferior, que representam o egoísmo, a ignorância, o orgulho e a ambição. Seguindo a tradição, Pilatos pergunta ao povo se prefere a libertação de Jesus ou do criminoso Barrabás. As paixões pedem a crucificação da natureza divina e a libertação do criminoso com o qual, em sua ignorância, identificam-se. Porém, Barrabás significa, em aramaico, o filho do pai. Portanto, a natureza inferior, mesmo com a conivência da personalidade, jamais conseguirá matar o Cristo. Ao exigir a libertação do usurpador Barrabás, estará simplesmente permitindo que o filho do Pai celestial, que é a alma ignorante de sua verdadeira natureza, continue a vagar pelo mundo até redimir-se de todos seus crimes contra a grande Lei para, então, retornar à casa paterna como o Cristo triunfante. O relato da paixão de Jesus representa a via crucis de todos os que passam pela quarta iniciação: devem morrer para o mundo para alcançar a consciência permanente do Reino de Deus, a consciência da vida eterna. Paulo descreve essa experiência: "Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gl 2:19-20). É interessante notar que a crucificação tem lugar no monte Gólgota, ou calvário, que significa a caveira. A culminação dessa importante iniciação ocorre mais uma vez num monte, uma clara indicação de um estado elevado de consciência. O Golgota representa o crânio humano, o lugar físico onde a consciência divina é crucificada. Jesus, expressando a consciência divina, é crucificado entre dois malfeitores, um dos quais seria o bom ladrão (Lc 23:39-43). Os dois ladrões simbolizam os dois aspectos da mente, um dos quais se volta para o alto e segue o Salvador rumo ao Reino dos Céus. O túmulo na rocha no qual Jesus teria sido enterrado é também outra representação de que o Cristo espiritual é enterrado no plano mais denso da manifestação, o plano físico, de onde só é libertado após cumprir sua missão terrena. É dito no Credo dos Apóstolos que, após a morte, Jesus "desceu ao inferno e ao terceiro dia ressuscitou dos mortos." Na Bíblia é dito que: "Morto na carne, foi vivificado no espírito, no qual foi também pregar aos espíritos em prisão" (1 Pd 3:19). Para os antigos o inferno não tinha a conotação de tormento eterno estabelecida mais tarde pela igreja. O inferno era tido como uma região ou lugar oculto, o Hades dos gregos, enfim, um submundo habitado pelas pessoas que deixavam o corpo físico para trás. Essa passagem pode ser interpretada de duas formas: uma psicológica e outra esotérica. A conotação psicológica é que o iniciado só pode alcançar a libertação quando desce ao inferno de seu inconsciente e liberta seu lado sombra. Ele só pode ser livre quando não existirem mais condicionamentos inconscientes em sua natureza inferior. A interpretação esotérica é que todo iniciado deve descer ao mundo astral e levar a luz e a esperança para as almas atormentadas pelo remorso dos erros cometidos quando encarnadas no mundo.[1] A morte e a ressurreição do Cristo representam alegoricamente a quarta iniciação. O que morre não é o corpo físico, mas o sentido pessoal de separatividade. O que ressurge dos mortos é a alma agora consciente da unidade com o Todo e com todos os seres. A partir desse momento a alma pode deixar o sepulcro terreno, que é o corpo físico, sem nenhum lapso de consciência e entrar nas regiões superiores do mundo celestial.[2] A vivência da unidade confere ao iniciado uma profunda compaixão. Ele agora, além de procurar aliviar a dor dos que sofrem injustiças e violências, busca ajudar os injustos e criminosos. Ele sabe que o injustiçado, caso tenha a atitude correta, estará terminando seu ciclo cármico, enquanto o criminoso está iniciando o seu, atraindo para si pesada carga de sofrimento, na justa medida do sofrimento que causou. O iniciado só estará pronto para a quarta iniciação quando puder perdoar aqueles que lhe ferem, bem como os que ferem a todos os fracos e oprimidos, como Jesus, que em meio à agonia da crucificação, disse: "Pai, perdoa-lhes: não sabem o que fazem" (Lc 23:34).
[1] Vide A Gnose Cristã, op.cit., pg. 125-131. [2] Vide The Hidden Wisdom in the Holy Bible, op.cit., vol. I, pg. 263-64. 27 - A VIDA DO CRISTO COMO O CAMINHO Quinta iniciação: a ascensão ao céu Para os budistas e hinduístas, aquele que recebeu a quarta iniciação é chamado de Arhat, sendo conhecido como o liberto que não mais precisa retornar ao mundo dos homens, tendo merecido o descanso paradisíaco no que chamam de Nirvana. A maior parte dos Arhats, no entanto, movidos pela suprema compaixão, comprometem-se a permanecer na esfera terrena para ajudar na libertação de todas as almas sofredoras, até o fim dos tempos. A alma (Jesus) agora venceu a morte, porque morreu para o mundo. Simbolizando o término de seu ministério terreno, o iniciado diz, como Jesus na cruz: "Está terminado" (Jo 19:30) e "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" (Lc 23:46). No relato bíblico Jesus retorna dos mortos e fica algum tempo instruindo seus discípulos, preparando-os para prosseguirem com o ministério de salvação das almas. Esse retorno ao mundo terreno, seja num corpo físico, seja num corpo sutil, dependendo dos textos consultados, comprova o compromisso do iniciado em permanecer em nossa esfera terrena instruindo e ajudando a humanidade. Chega finalmente o dia que, em grande glória, ele ascende ao céu. No texto Pistis Sophia a ascensão é descrita de forma tocante, com a descida de anjos portando seus mantos de luz. Uma vez envolvido na luz, Jesus é transfigurado e seus discípulos não podem agüentar o brilho de sua luz até que Jesus desaparece no alto. Jesus, como todo o adepto que recebeu a quinta iniciação, pode agora dizer: "Eu e o Pai somos um" (Jo 10:30). A quinta iniciação indica o término do aprendizado humano. O Mestre de Compaixão e Sabedoria alcança a perfeição e passa a ser um salvador de almas. Todas as tentativas de descrever a natureza desses excelsos seres são infrutíferas, pois não existe termo de comparação em nosso mundo terreno, já que eles agora pertencem a uma outra categoria de seres, muitas vezes descritos como divinos. São verdadeiros mensageiros plenipotenciários de Deus, trazendo, como Jesus, a eterna mensagem de salvação para as almas sofredoras. E essa é a meta que o Pai celestial estabeleceu para todos nós. Como vimos anteriormente, a harmonia do processo evolutivo requer que cada experiência de exaltação do iniciado seja contrabalançada por uma experiência em sentido contrário. Assim, após as três primeiras iniciações, Jesus teria enfrentado as forças das trevas: a perseguição por Herodes, a tentação no deserto e a agonia no Getsâmane. Na quarta iniciação a ordem é invertida, primeiro a noite escura da alma culminando com a crucificação, para depois alcançar a exaltação da ressurreição dos mortos. E a quinta iniciação? Qual seria a possível contraparte penosa para quem alcançou a união com Deus? Para quem permanece constantemente na bem aventurança de perfeita unidade com Deus, o seu estado oposto é justamente deixar esse estado paradisíaco. Essa é justamente a provação do Mestre de Compaixão e Sabedoria! Encarnar-se de tempos em tempos, assumindo as limitações inerentes a um corpo humano, submetido ao bombardeio das vibrações extremamente pesadas de nosso mundo, sempre que o Plano Divino requer sua atuação na Terra para dar mais um impulso ao processo evolutivo. Uma imagem que talvez possa transmitir uma vaga idéia do que deve ser essa provação para um Mestre seria o grau de sacrifício que um indivíduo de classe média faria ao decidir-se voluntariamente abandonar sua vida confortável para viver num barraco imundo num imenso aterro sanitário (o que comumente chamamos de lixão) para dedicar-se a ajudar as pobres almas que vivem catando lixo e morando naquela condição subumana. A vida mística Muitos cristãos sinceros, ao perceberem nos relatos da vida de Jesus uma representação alegórica dos cinco grandes marcos da vida do discípulo até atingir "a medida da estatura da plenitude do Cristo" (Ef 4:13), desejam também passar pela mesma experiência. Nesse caso, segue-se naturalmente a pergunta: como posso ser iniciado? O processo iniciático é um mistério que é mantido em segredo por aqueles que foram admitidos ao ádito sagrado. Sabemos que o primeiro passo é ser aceito como discípulo de um Mestre que assumirá o encargo de prepará-lo para as iniciações.[1] E o que devemos fazer para ser aceitos por um Mestre? Pensamos que a aspiração ardente pela união com Deus e o uso do instrumental transformador descrito nesse livro abre o caminho para isso. Ademais, existe na tradição esotérica um lema auspicioso para todo buscador: ‘Quando o discípulo está pronto o mestre aparece.' Nos primeiros séculos, após a morte de Jesus, os cristãos dedicados que levavam uma vida pura podiam ser admitidos aos grupos internos criados pelos discípulos de Jesus. Nesses grupos, uma vez devidamente preparados, os devotos podiam receber progressivamente os sacramentos, ou mistérios, instituídos por Jesus. Esses sacramentos eram: o batismo, a crisma, a eucaristia, a redenção e a câmara nupcial.[2] Os sacramentos tinham um estreito paralelo com as iniciações como descritas anteriormente. O batismo eqüivalia ao nascimento do Cristo interior ("Todos vós, que fostes batizados em Cristo, vos vestistes de Cristo" Gl 3:27); a crisma era o batismo do Espirito Santo, equivalente ao batismo de Jesus nas águas do Jordão; a eucaristia era equivalente à comunhão da natureza superior com a inferior do homem, que ocorria na terceira iniciação; a redenção tinha um paralelo com a quarta iniciação, representada pela morte e ressurreição do Senhor; finalmente, o sacramento supremo da câmara nupcial representava a união completa e permanente da consciência do homem com a de Deus, representada pela ascensão de Jesus ao céu para permanecer à direita do Pai. Com as perseguições instituídas pela ortodoxia, principalmente a partir do século IV de nossa era, os grupos esotéricos cristãos que mantinham a tradição dos mistérios de Jesus tiveram que se esconder para sobreviver. A história do ocultismo indica que inúmeros grupos, ao longo dos séculos, parecem ter recuperado de alguma forma essa tradição. Assim como esses grupos existiram no passado, é lícito supor-se que ainda existam nos dias de hoje, ainda que totalmente velados da curiosidade pública. Assim sendo, em vez de lançar-se a uma busca desenfreada por grupos ocultos, que muito provavelmente poderá redundar na afiliação a grupos inidôneos, o devoto deve cuidar de sua preparação interior, lembrando-se da verdade milenar mencionada anteriormente de que ‘quando o discípulo está pronto o mestre aparece.' Mas existe outra alternativa aos sacramentos exteriores, que são esses mesmos mistérios ministrados interiormente aos devotos sinceros. Esse é o caminho que vem sendo trilhado por milhares de místicos ao longo dos séculos. Esses incansáveis buscadores trilharam arduamente o caminho da perfeição, recebendo em seu coração, provavelmente de forma inconsciente, os sacramentos de Jesus, à medida que progrediam no caminho espiritual. Ao analisarmos a vida dos místicos torna-se óbvio a correlação dos estágios da via mística com as iniciações e os sacramentos de Jesus. Ainda que nem todos os místicos sigam exatamente a mesma seqüência de experiências interiores, alguns pesquisadores sugerem que existem cinco etapas gerais pelas quais a maior parte desses ardentes buscadores passam a caminho da união final com o Bem-Amado. [3] O despertar. A primeira etapa é caracterizada pelo despertar da consciência para a Realidade Divina. Ela é abrupta e bem marcante em muitos casos, mas também pode ser gradual. Geralmente, é acompanhada de sentimentos intensos de contentamento e até mesmo de arrebatamento espiritual, que proporcionam incentivo ao indivíduo a se dedicar integralmente a "seguir a Deus." Purgação. Na segunda etapa, o místico torna-se consciente da disparidade entre a beleza e a pureza divina que foram experimentadas em seu interior frente à realidade do seu estado exterior, caracterizado por imperfeições, apegos, ilusões e impurezas. Inicia-se, então, a penosa etapa de purificação em que ele procura eliminar, pela disciplina e mortificação, tudo aquilo que julga ser uma barreira ou elemento impeditivo para seu progresso rumo ao ideal de união com Deus. São geralmente longos anos de esforço e sofrimento, na luta ingente contra a natureza inferior. Iluminação. Depois do sofrimento da purgação vem a intensa felicidade da iluminação, ou comunhão com Deus. Tendo se libertado em grau considerável das ‘coisas do mundo,' a custo de muito suor e lágrimas, o místico pode agora colher os frutos da realidade espiritual que em nada se parecem com a gratificação dos sentidos. Ocorrem visões da Unidade, da Luz Divina, percepções intuitivas da natureza humana e da realidade das coisas, vozes angélicas e celestiais que o instruem, arrebatamentos e viagens fora do corpo. O místico entra numa nova dimensão e passa a contribuir de forma mais capaz e dedicada às necessidades dos que o cercam. A noite escura da alma. Prossegue a alternância entre luz e sombra das três primeiras etapas. Depois de ter metaforicamente visto o Sol, o místico agora penetra nas profundezas das trevas. Tendo se deleitado com a experiência da presença de Deus, agora ele sofre com a ausência divina. Ele enfrenta a mais terrível de todas as experiências do caminho místico, descrita por João da Cruz como a noite escura da alma e, por outros, como a ‘dor mística,' a ‘morte mística,' a ‘purificação do Espírito.' É uma verdadeira ‘crucificação espiritual' a que o buscador deve submeter-se para alcançar a glorificação subseqüente da ascensão às alturas da união com Deus. Enquanto estava na etapa da purgação, o místico buscava extirpar o interesse pelas coisas do mundo e pela gratificação dos sentidos, agora ele deve estender o processo de purificação ao âmago de sua natureza inferior, eliminar o sentido de ser um ‘eu separado.' Somente quando a personalidade entrega-se inteiramente a Deus, com fé inquebrantável, apesar de sofrer com o que lhe parece ser o abandono da Divina Presença, quando não mais espera nada para o eu pessoal, cortam-se os últimos laços com a consciência egoísta, capacitando a alma a unir-se com o Supremo Bem. A União. A bem-aventurança experimentada nesse estágio é inteiramente diferente de qualquer experiência de felicidade até então, pois agora o místico não experimenta algo fora de si como um observador ou mesmo como participante, como acontece na etapa da Iluminação. Nessa etapa ele une-se a Deus e tem a experiência absolutamente indescritível de ser divino. Essa é a meta final do caminho místico e da vida espiritual. É geralmente alcançada em estado de profunda contemplação, quando cessam todas as imagens do mundo das formas e dos conceitos, e o místico identifica-se com o Vazio, o estado contemplativo sem formas e conceitos, que é simultaneamente a plenitude da Vida e do Ser. * * * * * A rica tradição esotérica cristã sempre esteve voltada para a transformação do homem velho num homem novo. O objetivo dessa tradição não é formar meros devotos, ou cristãos tradicionais, mas sim verdadeiros Cristos, nascidos na gruta do coração, sendo batizados, transfigurados, mortos e sepultados, ressurgindo dos mortos e, finalmente, ascendendo em glória aos céus, para permanecerem à direita do Pai. Essa é a via mística, trilhada por tantos milhares de buscadores sinceros ao longo dos séculos. Nela todos os ensinamentos e passagens da vida do Cristo retratam a vida de sua própria alma. Se for bem sucedido nesse propósito, o místico perceberá que as palavras do Cristo eram dirigidas a ele: "Eu vos digo, verdadeiramente, que alguns que aqui estão presentes não provarão a morte até que vejam o Reino dos Céus" (Lc 9:27). Será excelsa a glória daqueles que alcançarem a perfeição, conforme se pode aquilatar nas palavras do Cristo registradas no Livro do Apocalipse: "Ao vencedor concederei sentar-se comigo no meu trono, assim como eu também venci e estou sentado com meu Pai em seu trono" (Ap 3:21).
[1] Vide, para mais informações, C.W. Leadbeater, Os Mestres e a Senda (S.P.: Pensamento) [2] Vide Evangelho de Felipe, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 150. [3] As cinco etapas apresentadas a seguir foram resumidas do livro de Evelyn Underhill, Mysticism, op.cit., pg. 169-70. EPÍLOGO Faço votos que o leitor tenha achado este livro tão estimulante quanto foi para mim pesquisar o material, vivenciá-lo e escrevê-lo. Caso sinta em seu coração que o texto expressa a essência do ensinamento esotérico passado por Jesus, saiba que essa descoberta traz consigo uma nova responsabilidade, a de tornar-se um elo na cadeia do conhecimento místico trazido por Jesus, cuja luz deve ser espalhada pelo mundo, conforme a recomendação do próprio Mestre: "Quem traz uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Ao invés, não a traz para colocá-la no candelabro? Pois nada há de oculto que não venha a ser manifesto, e nada em segredo que não venha à luz do dia. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça!" (Mc 4:21-23). Gostaria de sugerir que uma forma dinâmica e criativa de atender aos ditames dessa nova responsabilidade seria fazer um convite a alguns amigos para estudarem juntos este livro e outros títulos da literatura esotérica cristã. O estudo em grupo tem várias vantagens. Em primeiro lugar vale mencionar a prática da virtude: devemos compartilhar com nossos irmãos tudo aquilo que achamos de bom para nós. Essa seria uma demonstração prática da verdadeira caridade, no seu sentido mais elevado. Vale lembrar que, ao procurarmos seguir os ensinamentos internos de Jesus, estaremos nos tornando discípulos do Mestre. Ele disse aos seus primeiros discípulos, como nos diz hoje: "Segui-me e eu vos farei pescadores de homens" (Mt 4:19). Uma vez convencidos que os ensinamentos esotéricos de Jesus têm o poder de transformar o homem velho num homem novo e, assim, abrir as portas do Reino dos Céus, devemos procurar levar a ‘boa nova' a outros irmãos. E a melhor maneira de fazer isso, de forma humilde e inteligente, é convidá-los a trilhar o caminho conosco, no estudo e na vivência desses ensinamentos. Outro grande mérito do estudo em grupo é a natureza complementar das aptidões e dos temperamentos humanos. Encontraremos algumas pessoas que nos ajudarão a compreender alguns pontos que nos parecem confusos, bem como outras que irão questionar algumas proposições que nos parecem claras. Essa interação grupal será extremamente útil para promover não só o entendimento mais profundo dos ensinamentos, mas também, para facilitar a troca de experiências relacionadas com as práticas espirituais, pois os ensinamentos de Jesus só poderão nos ajudar à medida em que os colocarmos em prática. "Tornai-vos praticantes da Palavra e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos!" (Ti 1:22). Não podemos negligenciar a força da fé de um grupo de pessoas atuando em uníssono para um mesmo objetivo, como fazem os evangélicos e carismáticos. A Graça divina, tão óbvia nas atividades desses grupos, atuará com mais poder ainda em grupos irmanados pelo ideal de seguir Jesus rumo ao Reino dos Céus, como o próprio Mestre nos indicou: "Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles" (Mt 18:20). Esse processo inovador de estudar e praticar os ensinamentos de Jesus, se realizado por um bom número de pessoas, poderá alcançar a massa crítica necessária para desencadear um verdadeiro movimento em cadeia de renovação espiritual no mundo cristão. E o mais interessante é que essa renovação seria um retorno às origens de nossa tradição. Que a Luz de Deus esteja com todos os que buscam a verdade. Que a Paz do Senhor esteja com todos os que cultivam a harmonia. Que o Amor Divino se irradie por todos os que amam seu próximo. Raul Branco Brasília, 1999 ANEXO 1 EXERCÍCIOS E PRÁTICAS ESPIRITUAIS Práticas preparatórias O trabalho de autotransformação do devoto é grandemente facilitado por hábitos salutares especialmente direcionados para a vida espiritual. Como cada ser humano é uma experiência única da manifestação de Deus, não existe um padrão, em seus mínimos detalhes, igualmente apropriado para todas as pessoas. Existem, porém, alguns marcos referenciais, dentre os quais cada indivíduo pode fazer suas adaptações levando em consideração suas circunstâncias de vida e necessidades específicas em cada estágio da senda. As sugestões apresentadas a seguir devem ser entendidas como um exemplo possível dessas práticas e não como uma fórmula rígida e necessária para todos os casos. Um atleta que se disponha a participar de uma competição olímpica sabe de antemão que deverá se submeter a um rigoroso programa de treinamento, por vários anos, para ter chance de ser bem sucedido. O seguidor de Jesus deve saber antecipadamente que seu ideal requer um programa de treinamento mais exigente do que o dos atletas olímpicos. A diferença é que o vigor físico essencial para os atletas esportivos não é um fator limitativo para os atletas espirituais. Para esses, as exigências de concentração e disciplina interior requerem outras capacidades que não as físicas. Todo indivíduo voltado para a vida espiritual costuma rezar e meditar. Ainda que as orações e meditações estabeleçam a tônica da vida espiritual, o grau de realização espiritual da pessoa, na maior parte dos casos, dependerá das outras práticas durante o dia. Como um verdadeiro atleta espiritual o buscador deve usar todas as oportunidades e todo seu tempo disponível para o treinamento espiritual. Tudo deve ser feito com amor. O trabalho doméstico e profissional é a nossa oportunidade para contribuir de alguma forma para o grande plano de Deus. Por isso devemos procurar fazer tudo da melhor maneira possível, lembrando o ditado popular: "Tudo o que merece ser feito, merece ser bem feito," porém, sem apego ao fruto das ações. Quando isso ocorre, tornamo-nos agentes da manifestação do bom, do belo e do justo no mundo, não importa se nossos deveres são importantes ou modestos. A ginástica espiritual começa ao despertar. A primeira coisa a fazer é orar com todo fervor, agradecendo a Deus pela dádiva de mais um dia de vida com tantas oportunidades para o aprendizado e o serviço aos nossos semelhantes. Devemos agradecer a Deus pelas inumeráveis graças de toda natureza que Ele nos proporciona diariamente através da ação dos agentes da providência divina. Todas as coisas que nos cercam e que usufruímos foram feitas pelo esforço de centenas ou mesmo de milhares de outras pessoas utilizando os frutos da natureza. Enviemos a essas pessoas desconhecidas e à natureza, que é a expressão física de Deus no mundo, o nosso agradecimento. Agradeçamos, também, pelos revezes e pelas dificuldades que possamos enfrentar durante o dia, pois estes acontecimentos desagradáveis serão ocasiões para aprendermos lições importantes para nosso progresso, como ensinou o Apóstolo Paulo: "Por tudo daí graças, pois esta é a vontade de Deus a vosso respeito" (1 Ts 5:18). Devemos nos comprometer a procurar fazer tudo ao longo do dia da melhor maneira possível, com amor e de acordo com a verdade, dedicando todas ações ao Pai misericordioso. Agindo como criadores conscientes de um campo vibratório elevado, devemos afirmar ao final da oração algo como: "Minha natureza essencial é de luz, paz e amor. Para que eu possa manifestar plenamente essa natureza, procurarei agir sempre de acordo com a verdade, com compaixão, paciência e humildade." Esse compromisso deveria ser renovado várias vezes ao dia, ou pelo menos ao meio dia, ao final da tarde e antes de dormir. Devemos dedicar todas tarefas e atividades de nossa vida diária a Deus. Com isso daremos um grande impulso em nossa vida espiritual, pois, a partir de então, nossas atividades, não importa se singelas ou grandiosas, serão transformadas em oração, em lembrança de Deus e em dádivas ao Pai. Isso significa, na prática, que logo ao acordarmos, depois de nossa prece matinal, ao sairmos da cama, dedicamos nosso dia a Deus, ao efetuarmos nossa higiene matinal, dedicamos isso a Deus, ao tomarmos o café da manhã, dedicamos isso a Deus. Esta rotina deve continuar ao longo do dia, ao caminharmos, ao tomarmos o transporte para ir ao trabalho, escola ou compras, ao nos engajarmos numa conversa, ao executarmos nosso trabalho, ao lermos um livro, ao vermos um filme, etc. O amor deve tornar-se a mola mestra a impulsionar as atitudes de nossa vida. A atitude amorosa não deve ser somente uma consideração teórica, mas um fato na vida diária. Ao dar "bom dia" ou "boa tarde," procuremos colocar em nossas palavras uma forte e genuína intenção que as pessoas realmente tenham um bom dia ou boa tarde, em vez de falarmos mecanicamente. Quando abraçarmos uma pessoa deveremos procurar envolvê-la mentalmente com uma aura de luz ou o sentimento de nosso amor, desejando de todo coração que ela seja feliz. Procuremos transmitir amor dando atenção e compreensão, sendo verdadeiros e evitando as falsidades usuais de nossa sociedade. Procuremos ajudar estendendo nossa genuína cooperação e evitando prejudicar os outros. A empatia e a cooperação são fundamentais para nos tornarmos um verdadeiro canal do amor divino. Quanto mais deixarmos o amor de Deus fluir através do nosso ser para os outros, mais o amor se fará presente em nossa vida. Todo momento em que estivermos preocupados com o tempo, procurando saber que horas são, devemos fazer a seguinte afirmação: "Como o tempo passa! Não quero mais perder tempo! Doravante quero cumprir a vontade de Deus e não a minha." Quanto mais repetirmos essa afirmação, procurando fazê-la com convicção, maior efeito transformador ela terá em nossa vida. É importante, porém, que esse exercício, como todas as práticas espirituais, seja feito de forma natural e sem nenhuma compulsão, para assim facilitar a passagem do fluxo natural da energia divina, com serenidade e harmonia. Esse exercício nos levará, naturalmente, a procurar determinar qual a vontade de Deus em nossa vida. Antes de dormir, devemos buscar uma vibração elevada para influenciar nossos sonhos e atividades fora do corpo físico. A leitura de uma ou duas páginas de um bom livro de natureza espiritual é uma excelente forma de induzir essa vibração elevada. Finalmente, devemos fazer uma prece fervorosa agradecendo a Deus por todas as dádivas do dia, pedindo força e inspiração para superar nossas fraquezas. Como o sono eqüivale a uma morte temporária, podemos aproveitar esse momento anterior ao sono para reiterarmos total confiança no Pai misericordioso, entregando nossa vida em Suas mãos e repetindo as palavras de Jesus: "em todas as coisas e a todo momento seja feita a Tua Vontade, Pai, e não a minha." A meditação é o exercício central de toda prática espiritual. As quatro práticas meditativas apresentadas ao final deste anexo são especialmente úteis. Duas estão relacionadas entre si: a "meditação para conhecimento de si mesmo" e a "meditação para a purificação." Provavelmente são as mais necessárias para o devoto na primeira etapa da vida espiritual. Conhecer as negatividades e superá-las é o verdadeiro objetivo de toda a ascese e essas duas meditações são de muita ajuda nesse particular. Para as pessoas que se dedicam a trabalhos de natureza criativa ou estão procurando respostas para questões específicas, a meditação analítica é extremamente útil para obter novos vislumbres sobre o tema que está sendo estudado. A maior parte das pessoas que meditam acham que o melhor momento para esse exercício é cedo pela manhã. Dentre as razões para essa preferência podemos mencionar o fato que, de manhã cedo, as pessoas estão mais serenas e descansadas e existe menos barulho externo e interno para interferir na concentração. Aqueles que deixam a meditação para o final da tarde ou para a noite defrontam-se, seguidamente, com outras demandas inesperadas que exigem mais de seu tempo e, às vezes, acabam ficando sem meditar naquele dia. Mesmo quando conseguem meditar verificam que o cansaço afeta seu rendimento. Se você acha que sua rotina matinal é muito apertada para dedicar de dez a vinte minutos para a meditação antes de sair de casa, eis uma excelente oportunidade para fazer um ‘sacrifício': levante-se um pouco mais cedo para serenar a mente e tente comunicar-se com Deus através da meditação. Meditação para o conhecimento de si mesmo. Essa prática envolve os três níveis de consciência, ou "eus," que formam o homem integral: o eu consciente adulto, o eu inferior e o Eu Superior. A meditação é conduzida pelo eu consciente adulto, que é o nosso nível de consciência usual. Começamos assumindo um compromisso inabalável com a verdade procurando conhecer todas as negatividades e imagens de nossa natureza inferior. Como essa informação está quase toda escondida no inconsciente, devemos invocar o Eu Superior, o Cristo interior, que tudo sabe e tudo pode, para ajudar-nos a obtê-la. Devemos ter paciência para aguardar a resposta, que pode chegar durante o período mesmo da meditação ou, durante o dia, em ocasiões e de formas inesperadas. Os padrões repetitivos de comportamento e, principalmente, de nossas reações emocionais, identificados no exercício sobre a revisão diária, servirão como ponto de partida para esse processo de recuperação do material inconsciente. A primeira etapa é simplesmente a identificação das máscaras e das negatividades de nossa natureza inferior, o nosso lado criança, que não amadureceu e abriga inúmeros ressentimentos. Não devemos nos apavorar com nosso lado sombra, os aspectos negativos e destrutivos do ser primitivo que ainda existe escondido em nós. Essa natureza obscura é encontrada em todo ser humano até que ele atinja a iluminação. Devemos ter a mesma compaixão e paciência para com nossa criança interior que o Mestre tem para conosco. A identificação de nossas negatividades demanda muita paciência e determinação, pois ao longo de nossa vida sempre procuramos reprimir estes sentimentos e atitudes destrutivas. A segunda etapa do processo é a exploração da razão por trás dessas negatividades, o entendimento das causas que nos levaram a adotar esse tipo de comportamento. As causas, geralmente estão escondidas em nossa infância. A terceira etapa é a analise dos efeitos que as negatividades têm em nossa vida. Devemos verificar até que ponto elas são de caráter destrutivo, para nós e para as pessoas ao nosso redor. Essa constatação de como criamos um ambiente destrutivo e infeliz requer muita coragem de nossa parte, pois o nosso mecanismo de defesa sempre foi culpar os outros, as circunstâncias ou o destino por nossos problemas e sofrimentos. Essa é a prova cabal de nossa maturidade: a aceitação da responsabilidade pela criação de nossa vida, pelas nossas atitudes interiores e pensamentos que moldam o mundo exterior que nos cerca. A etapa final do processo demanda muito amor, sabedoria e, mais uma vez, paciência e determinação. Essa etapa, extremamente delicada, é a reeducação de nossa criança interior. A ajuda do Mestre em nosso coração é indispensável. Precisamos invocar o Cristo interior, com sua ilimitada compaixão e sabedoria, para nos instruir sobre como trilhar o caminho estreito que evita tanto a repressão como a complacência com nossas negatividades. Teremos que reeducar e disciplinar nossa criança interior com amor e firmeza, e isso levará algum tempo. Mas, com fé é determinação, conseguiremos progressivamente reintegrar nossa natureza inferior ao nosso consciente e, à medida que formos fazendo progresso, teremos a agradável surpresa de constatar que estamos trazendo também para o nosso consciente o Cristo interior, que há muito tempo aguarda pacientemente ser convidado a compartilhar da nossa vida. Meditação da purificação. Um dos métodos mais efetivos de promover a purificação de nossos veículos é invocar os três aspectos do Divino - Verdade, Amor e Poder - em nossa meditação. Após visualizarmos o Cristo interior brilhando em nosso coração, devemos invocar seus poderes para purificar os instrumentos de nossa personalidade pelos quais ele se manifesta no mundo. Pedimos primeiramente que a Verdade, como Luz, torne visível as falsas imagens e negatividades de nossa natureza inferior. Quando as respostas forem obtidas, devemos passar à segunda fase, invocando o fogo do Amor divino para que ele envolva a nossa natureza inferior, incinerando todas as falsidades e transmutando nossas negatividades em qualidades superiores. Nessa etapa algumas pessoas sentem calor em seu coração. A última etapa é invocarmos o poder da Vontade divina, que atua como som, o Verbo de Deus. Devemos imaginar que nos entregamos inteiramente à Vontade divina, enquanto sentimos a repetição do mantra AMÉM ressoando do âmago de nosso coração, simbolizando "Seja feita a Vontade de Deus em mim." Meditação de preparação para a morte. Essa meditação promove a purificação, a renúncia e o desenvolvimento do discernimento. Deveria ser feita por um período mínimo de uma semana e máximo de um mês, para tomarmos consciência das verdadeiras prioridades de nossa vida. A partir de então, seria útil efetuá-la uma vez por mês, digamos, no dia de nosso aniversário, para simbolizar nosso compromisso de renascermos espiritualmente, e sempre que sentirmos que as demandas da vida material estão causando uma diminuição excessiva do tempo e energia dedicados à vida espiritual. A prática consiste em analisarmos que mudanças deveríamos realizar em nossas vidas se soubéssemos que só temos mais doze meses de vida. Não sabemos, na verdade, se teremos ainda doze horas, dias, semanas, meses ou anos de vida. O que importa é a aceitação da morte do corpo físico, como inevitável, assumindo que tivemos a grande Graça divina de um aviso prévio para organizarmos nossas vidas. Nesse particular devemos nos lembrar das palavras de Jesus: "Vigiai, portanto, porque não sabeis nem o dia nem a hora" (Mt 25:13). Alguns instrutores de nossa tradição recomendam uma prática bem mais radical: "Feliz quem sempre traz diante dos olhos a hora da morte e se dispõe, cada dia, a morrer. Pela manhã pensa que não chegarás à noite; e à noite não contes chegar ao dia seguinte. Por isso está sempre prevenido e vive de tal modo, que a morte nunca te encontre desapercebido".[1] Devemos procurar, o mais rapidamente possível, por fim aos nossos ressentimentos, terminar inimizades e criar relacionamentos fraternos. O perdão sincero a nossos desafetos é essencial para que possamos merecer também o perdão de Deus na hora do acerto de contas. Uma vez tenhamos reorganizado os aspectos mais óbvios de nossas pendências e negatividades, assumindo o firme compromisso de colocar em prática as decisões tomadas durante a meditação, começa a etapa verdadeiramente espiritual do exercício. Devemos analisar nossas rotinas, nossos valores e, principalmente, nossas motivações. Nesse ponto o discernimento é importantíssimo para identificar o que nos ajuda na vida espiritual e o que, dentre nossos afazeres, é meramente mundano, ou seja, aquelas atividades da personalidade egoísta apegada às coisas do mundo. O discernimento também será preciso para estabelecermos as devidas prioridades dentre as atividades a serem realizadas nos "doze meses que nos restam." O objetivo mais importante a ser perseguido nesse período de vida renovada é a expressão constante e sincera do amor. Com isso estaremos estabelecendo a vibração divina que nos acompanhará até o outro lado do véu. Essa meditação, se realizada com seriedade durante um mês, mudará radicalmente a nossa vida. Nossa fé na bondade, justiça e sabedoria divinas será consolidada. Nosso amor a Deus e a todas as expressões divinas, incluindo os seres humanos, aumentará exponencialmente. A purificação de nossas negatividades e o desapego de tudo o que é impermanente ocorrerá naturalmente. Nossa vontade de seguir o chamado do alto se tornará mais firme, sendo expressa com determinação em todas as circunstâncias de nossas vidas. Em suma, a aceitação da inevitabilidade da morte e nossa preparação nesse sentido será para nós uma ressurreição. Nasceremos de novo e estaremos, então, em condição de dizer: "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gl 2:20). Meditação do silêncio -- contemplação. O método é bastante simples e visa promover o silêncio interior. Primeiramente escolhemos uma palavra simples, a qual damos um valor sagrado como símbolo de nosso consentimento à presença e ação de Deus em nosso interior. Essa palavra deve tocar o nosso coração com um significado ou aspecto divino, como Luz, Paz, Silêncio, Amor, Senhor, Jesus, Pai, etc. Sentados confortavelmente com a coluna ereta, em lugar tranqüilo, devemos procurar o total silêncio interior, na câmara secreta onde Jesus disse que se encontra "o Pai em segredo." Quando percebermos pensamentos aflorando em nossa mente, enunciamos mentalmente, de forma lenta e suave, a nossa palavra sagrada; isto deve ser repetido cada vez que percebemos pensamentos em nossa consciência. Para algumas pessoas, pode ser mais proveitoso simplesmente voltar a atenção para a presença de Deus do que a repetição da palavra sagrada. O termo ‘pensamento' é usado para englobar toda percepção incluindo as percepções dos sentidos, sentimentos, imagens, memórias, reflexões ou comentários. Qualquer que seja o ‘pensamento' devemos retornar sempre, gentilmente, para a palavra sagrada; esta é a única atividade que iniciamos durante a meditação do silêncio, também chamada de oração de centralização. Mesmo que aparentes percepções ou idéias interessantes possam aflorar durante o exercício contemplativo, elas não devem ser elaboradas, mas simplesmente deixadas passar, voltando-se ao silêncio mental. O período mínimo para esse exercício contemplativo é de vinte minutos, sendo o ideal dois períodos por dia. Revisão diáriaUma técnica muito útil usada em quase todas as tradições é a revisão diária. Nesse exercício a pessoa faz uma revisão do dia, procurando identificar os momentos em que cometeu falhas e aqueles em que agiu com acerto. A revisão não deve ser usada como desculpa para massacrar a personalidade por seus erros, pois nesse caso a prática seria abandonada rapidamente. Não se trata de alimentar sentimentos de culpa por nossas fraquezas, mas de nos conscientizarmos de nossas falhas. A prática da revisão deve ser vista como a atividade de um jardineiro que procura identificar as ervas daninhas para arrancá-las, mas sem prejudicar as plantinhas ainda débeis de nossas virtudes, que precisam de cuidado e paciência para poder crescer. O caminho da perfeição, como o próprio nome diz, tem como meta a perfeição: "Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5:48). Para que essa perfeição possa ser alcançada um dia, devemos nos comprometer a suprimir todos os defeitos de nosso caráter. Para isso, devemos em primeiro lugar identificá-los. Essa identificação não é um mero exercício intelectual, feita de uma vez para sempre. Ela precisa ser efetuada todos os dias, para constatarmos se estamos fazendo progresso ou se continuamos patinando em boas intenções, mas sem a devida determinação para agir, quando necessário, no sentido de cortar o mal pela raiz, a fim de evitar que ele mostre a sua cabeça de novo e de novo. Mas, se a raiz de nossos defeitos está no inconsciente, como poderemos identificar aquilo que não estamos conscientes? Esse é o grande desafio e a razão porque as pessoas têm tanta dificuldade para se modificar. Porém, apesar de não estarmos conscientes das causas de nossos condicionamentos, podemos identificar os efeitos que eles têm em nossa vida. É por isso que o processo de revisão deve ser entendido como a primeira e importantíssima etapa no processo de transformação. Devemos procurar anotar, de forma bem resumida, todos os eventos que de uma forma ou de outra causaram desarmonia e nossa reação a essas situações. Devemos escrever da forma mais resumida possível o fato, anotando ao final o sentimento que o fato evocou. Isso deve ser feito mesmo que não possamos compreender de imediato a razão de nossos sentimentos desarmônicos. O propósito dessa revisão por escrito é possibilitar que nossas anotações, depois de algum tempo, lancem luz sobre os padrões de comportamento que se repetem. Esses sentimentos ou eventos infelizes são uma indicação clara de que existe uma causa interior, um condicionamento que cria uma vibração que atrai, como se fosse um imã, essas circunstâncias exteriores, sendo isso conseqüência da lei de causa e efeito. Esses padrões repetitivos são a pista para uma análise das imagens que condicionam nosso comportamento e causam desarmonias, trazendo como conseqüência a infelicidade. Portanto, a revisão escrita é o primeiro e indispensável passo para o processo de autoconhecimento que possibilita a superação de nossos defeitos. Observador desapegado. Uma técnica recomendada em muitas tradições para o efetivo conhecimento de si mesmo, consiste na prática do ‘observador desapegado.' Ao longo do dia, a nossa consciência deveria passar a funcionar em dois níveis: a personalidade, atuando com plena atenção, enquanto a alma agiria como um observador desapegado do nosso comportamento e motivações. Isso pode parecer utópico, além de nossa capacidade de realização. Porém, é uma técnica factível e de grande impacto na vida espiritual. O observador desapegado simplesmente observa, ao contrário da personalidade, que alterna suas reações aos atos da natureza inferior com condenação ou vergonha, quando não vira as costas ou racionaliza, considerando inevitáveis aquelas ações. Ainda que isso possa parecer inócuo, na verdade essa observação, quando o observador está isento de raiva ou de vergonha, é extremamente útil. Por um lado, a observação sistemática de todos os aspectos do comportamento da personalidade faz com que toda uma gama de reações anteriormente inconscientes ou semi-conscientes passem a ser percebidas pela nossa consciência e tornem-se passíveis de serem trabalhadas. Por outro lado, o processo de observação torna claro para o indivíduo que a natureza inferior que ele tanto teme não é seu verdadeiro eu ou, pelo menos, não é todo o seu ser. Essa constatação advém da não-identificação da natureza última do ser com aquilo que está sendo observado e a conseqüente identificação com o observador, que é um aspecto de sua natureza superior. Lembrança de DeusSabemos intelectualmente que Deus é imanente, está em todas as coisas. No entanto, devemos procurar transformar esse conhecimento mental numa realidade em nossa vida diária. Podemos fazer isso procurando ver Deus em todas as coisas. Isso é relativamente fácil quando vemos um por de sol, olhamos o céu estrelado, contemplamos uma flor, o embate das ondas nas pedras, o trabalho das formigas e das abelhas e tantas outras maravilhas da natureza. Porém, devemos fazer um esforço adicional para ver a Deus em tudo. Cada vez que olhamos para os inúmeros artefatos de nossa civilização moderna, carros, computadores, telefones, televisão, etc., devemos ver a criatividade de Deus manifestando-se através de um de seus agentes na Terra, o homem. Tudo o que vemos, inclusive os processos da natureza, como o nascimento e a morte, a alimentação e a eliminação, o dia e a noite, tudo é uma expressão da sabedoria divina, que devemos apreciar como tal. Com isso, estaremos cada vez mais perto de Deus, em sintonia com o Alto e protegidos das influências nefastas da materialidade. Outra forma de exercitar a lembrança de Deus é deixar que o nosso ser de luz, o Cristo interior, acompanhe-nos conscientemente durante o dia. É importante enfatizar o aspecto de estarmos consciente dessa participação de Cristo em nossa vida, porque, na realidade ele está sempre conosco, quer estejamos consciente ou não, quer o invoquemos ou não. O Deus interior não só está conosco, mas Ele é a essência de nosso ser. O que é importante para a vida espiritual é desenvolvermos a consciência da participação de Cristo em nossa vida, procurando viver não só com Cristo, mas como Cristo, pois essa é a nossa meta. Podemos promover essa conscientização repetindo de todo coração as palavras de Paulo: "Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim" (Gl 2:20). Podemos, também, invocar o Mestre para que ele nos acompanhe ao longo do dia, procurando pensar o que ele faria em cada situação com que nos defrontamos. Quando aparecem problemas este é o momento de pedirmos a ajuda de Cristo, para agirmos com amor e sabedoria.
[1] Imitação de Cristo, op.cit., pg. 87. O Hino da Pérola [1] Esse Hino, atribuído a Bardesanes, influente poeta do gnosticismo cristão do século II, oferece uma excepcional oportunidade para percebermos a profundidade do misticismo nos primórdios de nossa tradição interna. O Hino apresenta um comovente relato da peregrinação da alma, que culmina com a sua ‘salvação', representada pela aquisição da ‘pérola' (a gnosis), e o conseqüente retorno ao reino da Casa do Pai, num estreito paralelo com a parábola do Filho Pródigo. Deixemos que a mensagem celestial de esperança penetre em nossos corações, pois a estória que será narrada é a história de nossa vida. "Quando eu era criancinha, demasiado novo para falar e morava no Reino da Casa de meu Pai, deleitando-me na riqueza e no esplendor daqueles que me nutriam, meus pais me enviaram do oriente, nosso lar, numa missão, equipado com suprimentos para a jornada. Das riquezas de nossos tesouros eles me deram um grande carregamento, mas que era leve, para que eu pudesse carregá-lo sozinho. A carga consistia de ouro das terras altas, prata dos grandes tesouros, jóias de esmeraldas da Índia e ágatas de Kushan. E cingiram-me com diamantes. Retiraram a minha veste cravejada de jóias e adornada de ouro que, por seu amor, haviam feito para mim, e meu manto de púrpura, confeccionado na minha exata medida. E fizeram um pacto comigo, gravando-o em meu coração para que eu não pudesse esquecê-lo, dizendo isto: ‘Se tu fores ao Egito e dali trouxeres a pérola que se encontra no meio do mar, envolta pela serpente voraz, então colocarás outra vez a veste cravejada de jóias e, por cima, o manto que tanto aprecias e serás um herdeiro de nosso reino, juntamente com teu irmão, o segundo em nossa hierarquia. Deixei o Oriente e parti acompanhado de dois guias, pois o caminho era difícil e perigoso e eu era jovem para uma tal viagem. Atravessei as fronteiras de Maishan, o lugar de encontro dos mercadores orientais, cheguei à Terra de Babel e entrei pelas muralhas de Sarbug. Continuei e, chegando ao Egito, meus acompanhantes separaram-se de mim. Incontinente procurei a serpente, estabelecendo-me próximo de sua morada, aguardando a ocasião em que ela ficasse sonolenta e fosse dormir, para então tirar-lhe a pérola. Como estava sozinho e me mantinha à parte, parecia um estranho para meus companheiros de hospedagem. Entretanto, lá eu vi um homem livre, meu parente da terra da Alvorada, um jovem formoso e bem favorecido, filho de Nobres. Ele veio e juntou-se a mim. Fi-lo meu parceiro predileto, um parceiro para minhas jornadas. Como constante companheiro alertou-me sobre os egípcios, para que evitasse misturar-me com os impuros. Pois, havia me vestido como eles, para que não pudessem imaginar que eu era estrangeiro e tinha vindo de longe para apossar-me da pérola e pudessem assim incitar a serpente contra mim. Mas por alguma razão, eles souberam que eu não era de seu país. Com suas artimanhas, apresentaram-se a mim e ofereceram-me seus alimentos para comer. Ao prová-los, esqueci-me que era filho de um Rei e tornei-me um servo do rei deles. Esqueci completamente a pérola para a qual meus Pais me haviam enviado e, com o peso de seus alimentos, mergulhei num sono profundo Meus Pais percebiam tudo aquilo que estava acontecendo, e ficaram ansiosos. Foi feita então uma proclamação em nosso Reino: que todos se apresentassem rapidamente no Pórtico. E então os reis e chefes de Partia e todos os nobres do Levante decidiram que eu não deveria ficar no Egito. Escreveram-me uma carta e nela todos os nobres assinaram seu nome: "De parte de teu pai, o Rei dos Reis, de tua mãe, Senhora do Levante, e de nosso segundo, teu irmão, ao nosso filho no Egito, saudações! Acorda e desperta de teu sono. Ouve as palavras de nossa carta! Lembra-te que és filho de um rei; vê a quem serviste em tua escravidão. Pensa outra vez sobre a pérola, a razão pela qual viajastes ao Egito. Lembra-te de tua veste gloriosa e de teu esplêndido manto, para que possas outra vez vesti-los e usá-los como ornamentos, e para que teu nome possa ser lido no Livro dos Heróis, e com nosso sucessor, teu irmão, possas ser herdeiro em nosso reino." A carta, que o Rei havia lacrado com sua mão direita, era como um mensageiro contra a ameaça dos filhos de Babel e dos rebeldes demônios do Labirinto. Ela voou na forma de uma águia, a rainha de todas as aves; voou até pousar ao meu lado, transformando-se num discurso inteiro. Com sua voz e o som de sua asas, levantei-me, despertando de meu sono profundo. Tomei-a, beijei-a, parti seu lacre e a li. As palavras de minha carta estavam redigidas como as que estavam escritas em meu coração Lembrei-me naquele momento que eu era filho de rei e que minha alma, nascida livre, tinha saudade daqueles da mesma natureza. Lembrei-me novamente da pérola, pela qual eu havia sido enviado em missão ao Egito. E comecei a cativar a terrível e ruidosa serpente. Encantei-a para dormir, cantando para ela o nome de meu Pai, o nome de nosso segundo e o de minha mãe, a Rainha do Oriente. Apoderei-me, então, da pérola e parti em direção à casa de meu Pai. Retirei as vestimentas sujas e impuras, deixando-as em seu país de origem. Dirigi-me para o caminho pelo qual havia vindo, a estrada que leva à Luz de nossa casa, o Oriente. No caminho, encontrei diante de mim a mensagem que havia me despertado. E assim como ela havia me despertado com sua voz, agora me orientava com sua luz que brilhava à minha frente; com sua voz vencia meu temor, e com seu amor me conduzia. Eu segui adiante... Vislumbrava, às vezes, as vestes reais de seda, brilhando diante de mim. Segui adiante; passei pelo Labirinto; deixei a Terra de Babel à esquerda; e cheguei a Maishan, o lugar de encontro dos mercadores, que se localiza na costa. Meus pais enviaram-me a Veste de Glória que eu havia despido e o Manto que a cobria. Enviaram-nos das alturas de Hyrcânia, pelas mãos de seus distribuidores de tesouros, pois que, por sua lealdade, a eles podiam ser confiados. Sem me lembrar de seu esplendor, pois a havia deixado na Casa de meu Pai na minha infância, ao vê-la, imediatamente a Veste pareceu-me como a imagem de mim mesmo. Percebi nela todo o meu ser e, por meio dela, reconheci-me e percebi-me. Pois, apesar de termos sido originados da mesma unidade, éramos parcialmente divididos e, no entanto, éramos também unos em semelhança. Também, os tesoureiros que a haviam trazido do alto para mim, vi que eram dois seres, mas havia uma única forma em ambos, um único símbolo real consistindo de duas metades. E traziam meu dinheiro e minha riqueza em suas mãos e deram-me minha recompensa. A gloriosa veste reluzente, enfeitada com brilhante esplendor de cores: com ouro, pérolas e também com pedras preciosas de diferentes cores. Para realçar sua grandeza estava cingida com diamantes. (Além disso) a Imagem do Rei dos Reis estava estampada inteiramente nela; pedras de safiras tinham sido afixadas na gola com lindo efeito. Percebi, que movimentos de gnosis abundavam em toda sua extensão, e que estava se preparando como que para falar. Ouvi o som de sua música, que sussurrava ao descer: ‘Sou eu que pertence àquele que é mais forte do que todos os seres humanos e para o qual fui indicada pelo próprio Pai. E percebi em mim como minha estatura aumentava com sua atividade'. E (agora), com seus movimentos reais, ela vinha em minha direção, como que apressada nas mãos de seus doadores, para que eu pudesse (tomá-la e) recebê-la. E de minha parte, também, meu amor instava-me a correr ao seu encontro e tomá-la. Estendi-me para recebê-la; com sua beleza colorida vesti-me e enrolei-me em meu manto de cores resplandecentes. Vestido dessa forma, ascendi ao Portal das Boas Vindas e da Reverência. Inclinei minha cabeça e prestei homenagem à glória do Pai que a havia enviado, cujas ordens eu havia cumprido, e que, de sua parte, também havia feito o que prometera. Ele recebeu-me com alegria, e fiquei com Ele em seu Reino, e todos seus súditos estavam cantando hinos com vozes reverentes. Ele permitiu-me também ser levado à corte do Rei em sua companhia, para que com a pérola eu pudesse comparecer diante do Rei." A estória começa quando uma alma demasiado nova para falar (exercer seus poderes) é enviada, por seus pais, do mundo espiritual para o mundo material, numa missão que representa a grande peregrinação da alma. O oriente é onde nasce a luz do sol físico e, no sentido figurativo, é a origem da Luz espiritual primordial. A alma é enviada com suprimentos para a jornada, que são a substância de todos os planos pelos quais o peregrino deve passar. As riquezas do tesouro do pai, jóias e metais preciosos, referem-se aos poderes espirituais, que possuem grande valor e nenhum peso, podendo ser carregados facilmente pela alma. O ouro das terras altas simboliza a mais elevada sabedoria espiritual e a prata a compreensão espiritual; o diamante, a pedra mais preciosa, simboliza a essência espiritual do universo e sua expressão no homem como coragem intrépida e vontade indomável (a pedra mais dura que risca todas as outras); a safira representa a sabedoria.[2] Para encetar a viagem o jovem deve retirar sua veste real e seu manto de púrpura. Temos aqui a descrição do processo involutivo, a penosa descida do espírito à matéria. A alegoria da retirada das vestes espirituais refere-se à desativação dos poderes espirituais no espírito encarnante que deve recobrir-se com roupagens cada vez mais grosseiras, culminando na colocação de vestes que, por suas vibrações pesadas, são consideradas como impuras, o corpo astral e o físico. Segue-se, então, o curioso pacto feito por seus pais, que é gravado no coração do peregrino, no âmago de seu ser, para que nunca mais possa ser esquecido. Esse pacto simboliza a missão do homem no mundo, que encerra a promessa de seu retorno triunfal às glórias celestiais. O conhecimento interior desse pacto explica a insatisfação latente que aflora no homem em determinados momentos, quando experimenta um sentimento de carência, uma saudade inexplicável que o persegue, até que entende que as coisas externas deste mundo não atendem aos profundos anseios da alma. Começa, então, a busca do verdadeiro tesouro, quando se dá a compreensão de que vivemos em desterro neste mundo distante. O pacto envolve a ida ao Egito, onde deverá recuperar a pérola preciosa que se encontra escondida no meio do mar, guardada pelas forças da matéria, simbolizadas pela terrível serpente. Essa pérola representa a gnosis, termo grego que significa conhecimento, porém não um conhecimento qualquer, mas o conhecimento último da Realidade, que é vivencial e não meramente intelectual. O mar é o símbolo tradicional do plano emocional, onde se produzem as paixões e os desejos. A serpente, sobre a qual quase nada é dito no Hino, simboliza a tremenda força telúrica que, como desejo sexual, é a força da procriação, mas que quando sublimada e dirigida para o alto torna-se o poder da criação espiritual. Insinuada como um monstro terrível, a serpente é na verdade o fogo serpentino, chamado no oriente de kundalini, que deve ser despertada e elevada cuidadosamente até o centro da cabeça, onde se encontra com a força espiritual que desce pelo chacra coronário para conferir a iluminação ou gnosis, simbolizada pela pérola. O curioso é que o prêmio por essa realização extremamente difícil é o retorno ao estado inicial. Em paralelo com outras tradições, percebe-se aqui que os universos passam por infindáveis ciclos de manifestação e retração. Em cada ciclo a consciência divina desce progressivamente à matéria, num processo de involução, seguido por uma etapa evolutiva em que vai se sutilizando, desprendendo-se progressivamente do jugo da matéria, até manifestar plenamente sua natureza divina original. O nobre filho parte do Oriente, da terra da luz, acompanhado de dois guias. Esses, são provavelmente aqueles seres divinos chamados de Arcanjos, Elohim ou Sefirotes cuja missão é facilitar a descida da emanação das Mônadas dos planos da plenitude celestial até o corpo físico. Segue-se um relato da passagem do jovem por diferentes lugares. A denominação desses locais deve corresponder à realidade histórico-geográfica da época em que o hino foi escrito e vela o seu significado interno. Atravessar as fronteiras de Maishan significa a passagem da alma pelos limites do mundo celestial, ou a ponte entre o mundo espiritual e o material, chamada no oriente de anthakarana, e na Cabala referida como a sephira Tiphereth. É nesta esfera que os seres de luz se ‘misturam' com os seres materiais, o lugar de encontro dos mercadores orientais. Esse local, ou melhor dito, plano de consciência, parece simbolizar o ponto de transição entre a mente superior e a inferior, onde os conceitos abstratos são cambiados por conceitos concretos utilizados neste mundo. Chegam, então, à Terra de Babel, que tradicionalmente expressa a confusão dos sons, ou seja, das vibrações do plano dos desejos, das emoções e das paixões. Entram pelas muralhas de Sarbug, também referida como o Labirinto, simbolizando os inextricáveis meandros da Providência, que determina o destino dos homens, provavelmente uma alusão ao plano etérico em que uma complexa rede de ligações energéticas determina a conformação e as tendências dos corpos humanos. Ao chegarem ao Egito, símbolo do corpo físico, seus acompanhantes, tendo cumprido sua missão, retornam a seu mundo de origem. Nosso aventureiro estabelece-se numa hospedaria, ou seja, no corpo físico em que veio ao mundo (para os gnósticos, o corpo humano era considerado como uma hospedaria da alma, expressando a idéia da impermanência). Ele parece um estranho aos seus companheiros, pois, enquanto o peregrino estiver consciente de sua missão divina, apesar de estar vestido como os egípcios (encarnado), será de alguma forma diferente dos outros, na medida em que seu comportamento e suas motivações estarão pautados por interesses que não são deste mundo. O viajante, porém, alia-se a um ‘homem livre, filho de nobres da terra da Alvorada'. Esse, ‘jovem formoso e bem favorecido,' representa o guia, ou instrutor espiritual, que sempre aparece quando o peregrino está em busca do supremo tesouro, e sua orientação e ajuda são inestimáveis para que o buscador possa realizar sua missão. O nobre amigo do nosso herói aconselha-o a não se misturar com os impuros. Os egípcios, porém, com suas artimanhas, apresentam-se ao viajante e oferecem-lhe seus alimentos. No caso, mais do que alimentos físicos, trata-se de alimentos para as emoções e as paixões, para o orgulho e a ambição, que mantêm a mente constantemente direcionada para atividades ligadas às coisas deste mundo. Com isso, o filho do Rei esquece-se de sua missão e torna-se súdito do rei local, ou seja, passa a atender aos interesses materiais, mergulhando num profundo esquecimento das coisas espirituais. Seus Pais percebiam tudo o que se passava e ficaram ansiosos. A ansiedade dos Pais é um véu, pois sabiam desde o início a natureza difícil da missão de seu filho e o longo tempo que deveria durar. Porém, chegado o momento apropriado na longa jornada da alma, que só a providência divina conhece, a corte divina envia uma mensagem em que cada membro da hierarquia celeste assina seu nome. Assinar o nome significa colocar seus poderes à disposição do destinatário. A carta lembra uma referência similar existente no livro Voz do Silêncio,[3] onde é dito que o guia é a voz interior, a expressão da consciência divina, que só pode ser percebido quando há total silêncio interior e, portanto, quando o indivíduo não mais está voltado para as coisas do mundo. A carta voa como uma águia e, ao pousar ao lado do destinatário, transforma-se num discurso. A águia, a ave mais poderosa que voa em direção ao sol (o Logos) e desce para tomar pequenos quadrúpedes como presa (a personalidade quaternária), simboliza a natureza divina no homem que é enviada como mensageiro ao peregrino na terra distante. A águia representa o Cristo interior, a intuição espiritual, que ao pousar traz a verdade espiritual para o plano da mente concreta. Esse é um lindo simbolismo para a mensagem enviada pelo Pai e a corte celestial que, na realidade, já se encontra no interior da alma, no âmago do ser. O vôo representa a elevação de consciência que permite a percepção do mundo sutil além dos interesses mundanos. A graça divina permite que o atribulado aventureiro possa ouvir a voz do silêncio, a mensagem da carta, e assim ele se levanta, despertando de seu sono profundo. O buscador regozija-se com a dádiva recebida, a lembrança de sua verdadeira natureza, e agradece a seus Pais, beijando a carta, ou seja, absorvendo a mensagem de seu Eu Superior à sua consciência usual. O beijo é usado com freqüência na linguagem sagrada para expressar a união, nesse caso a união da consciência superior (a mensagem do plano intuitivo simbolizado pela águia) com a consciência inferior (o jovem peregrino). O viajante percebe, então, que a carta já estava escrita em seu coração desde o princípio. Ela é a mensagem da Vida Una, que reverbera nos planos sutis desde o princípio da manifestação. Essa idéia é também expressa por Paulo: "Nossa carta sois vós, carta escrita em nossos corações, reconhecida e lida por todos os homens. Evidentemente, pois, uma carta de Cristo, entregue ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações!" (II Cor 3, 2-3) Ao receber a mensagem da carta, o buscador desperta e parte para cumprir sua missão. A estória não dá maiores detalhes sobre como é obtido o tesouro, além da informação de que o jovem começou ‘a cativar a serpente, encantando-a para dormir, cantando para ela o nome de seu Pai'. Está implícito o poder dos nomes sagrados da divindade, usados na Cabala como mantras. O peregrino invoca o nome do Pai, da Mãe e de toda a hierarquia celestial, mobilizando toda a força divina dos Arcanjos para despertar e utilizar os tremendos poderes da serpente adormecida, a kundalini, elevando-a até a cabeça onde ocorre a iluminação libertadora, a gnosis, simbolizada pela pérola. Esse processo tem um estreito paralelo com a Cabala, em que a consciência é elevada pelo pilar central, usando a força armazenada na base, na sephira Yesod, valendo-se então da intermediação do redentor Tipheret, para finalmente alcançar a sephira oculta, Daath, que significa Conhecimento, ou seja, gnosis. Uma vez obtida a pérola preciosa, o peregrino está livre do Egito e parte em direção à casa do Pai, deixando para trás as vestimentas impuras. Isso parece indicar que, tendo obtido a iluminação, o buscador liberta-se do mundo da matéria e, simbolicamente, descarta seus corpos grosseiros. Caso deseje mais tarde voltar numa missão de misericórdia para ajudar outros buscadores adormecidos no Egito, poderá adquirir veículos, ou vestimentas, apropriados para esse tipo especial de missão que, apesar de serem idênticos aos usados pelos moradores da terra, não são sujos nem impuros, pois foram especialmente confeccionados para o nobre, agora um Mestre de Compaixão e Sabedoria. Nosso herói retorna pelo caminho pelo qual viera. A direção do oriente simboliza a direção de onde vem a luz, portanto, a alma dirige-se para as alturas espirituais, o que também significa, voltar-se para o seu interior. Ocorre agora uma aparente contradição. O herói encontra, no caminho diante de si, a mensagem que o havia despertado. É como se houvesse um segundo encontro com a mensagem. Como o herói está liberto das limitações do corpo físico, agora pode perceber o que se encontra no recôndito de seu ser. A expansão de consciência, que inicialmente despertou a sua audição sutil, agora desperta também a sua visão espiritual. Essa parece ser a tendência da maior parte dos aspirantes na Senda, primeiramente a audição espiritual é desperta e só mais tarde a visão. Segue adiante, portanto, reconfortado pela voz amorosa do mestre interior e por visões diáfanas das vestes reais do mundo celestial. A Voz é o aspecto feminino do poder, e a Luz, o masculino, que guia, controla e ordena. A Voz e a Luz também podem ser interpretadas como sendo a Verdade Eterna, como nas Odes de Salomão.[4] Ele vê as vestes mas ainda não pode vesti-las, pois não entrou no mundo da luz. A crescente expansão de consciência que nosso nobre experimenta é descrita como uma viagem. Assim, é dito que ele deixa para trás o Labirinto e a Terra de Babel, chegando a Maishan, o lugar de intercâmbio entre os mundos espiritual e material. Uma vez transposto esse limite, expresso como ‘a costa' onde se localiza a Maisham simbólica, aparecem os distribuidores do tesouro portando a Veste de Glória que havia sido deixada na casa do Pai. Mais uma surpresa: a veste se parece como a imagem dele mesmo.[5] O reencontro consigo mesmo, o reconhecimento de sua imagem primordial e a união com ela significam o verdadeiro momento da salvação. O fato de a veste parecer-se com seu dono é de grande importância em todas as tradições esotéricas. O conhecimento de nossa verdadeira natureza só pode ser realmente obtido através da gnosis, quando então percebemos todas as implicações de sermos a centelha divina interior, unos com o Pai e, portanto, com todos os seres. Os tesoureiros apresentam-se como dois seres com uma única forma, representando a verdade oculta de que, no mundo da manifestação, toda unidade apresenta-se de forma dual. Cada ser de luz é completo trazendo em si os dois aspectos da totalidade, masculino e feminino, força e forma. Os dois tesoureiros também representam o Mestre instrutor, que até então havia guiado ocultamente o jovem nobre, e o Grande Hierofante que concede a Iniciação, ou seja, a Veste de Luz que simboliza a iluminação suprema. Os fiéis depositários dos tesouros do Rei finalmente entregam a recompensa prometida ao herói, a veste gloriosa. A veste cravejada de jóias, os tesouros espirituais, tem estampada a Imagem do Rei dos Reis, ou seja, é uma expressão do Supremo. Ele, então, percebe que ‘movimentos de gnosis abundavam em toda a extensão (da veste) que estava se preparando como que para falar.' A consciência da unidade faz com que a gnosis suprema seja concedida, desvelando a verdade sobre todas as coisas diretamente à mente. Pelas palavras da veste fica claro que o conquistador recebeu a iniciação final que o torna um super-homem, um Mestre de Compaixão e Sabedoria. Isso é confirmado pelo Nobre que diz: ‘E percebi em mim como minha estatura aumentava com sua atividade.' O próximo passo é a cerimônia de posse da veste, que simboliza o grande esplendor que deve ser a cerimônia de iniciação de um Mestre. A beleza colorida da veste e o manto de cores resplandecentes expressam o fato de que ao tornar-se Uno com o Todo, o Adepto tem a seu alcance os poderes dos sete raios, simbolizados pela profusão de cores. Finalmente o vencedor coloca a veste de luz e o manto de poder, ascende ao ‘Portal das Boas Vindas e da Reverência', onde inclina-se e presta homenagem à glória do Pai. Esse o recebe com alegria, da mesma forma como o Pai agiu na parábola do filho pródigo, e todos os súditos do Reino participam das comemorações, pois mais um Filho de Deus, ou um raio do Sol Espiritual, retornou à fonte depois de cumprida sua missão. [1] A versão aqui apresentado é uma tradução cotejada dos textos dos livros The Gnostic Religion, de Hans Jonas, The Other Bible, de Willis Barnstone, The Hymn of the Robe of Glory, de G.R.S. Mead e The Gnostic Scriptures, de Bentley Layton. As diferenças existentes entre as versões em inglês desses quatro autores explicam-se, em parte, pelo fato de existirem originais em grego e siríaco, que apresentam algumas diferenças. Os comentários são uma adaptação de um artigo de nossa autoria intitulado O Hino da Veste de Glória ou Hino da Pérola, publicado em TheoSophia, de julho de 1997 e publicado como anexo, com algumas adaptações, no livro de nossa autoria OS ENSINAMENTOS DE JESUS E A TRADIÇÃO ESOTÉRICA CRISTÃ, Editora Pensamento, 1999. [2] Vide Geoffrey Hodson, The Hidden Wisdom in the Holy Bible, vol. I, pg. 181/183. [3] H.P. Blavatsky, A Voz do Silêncio, ( Editora Pensamento) [4] "Ascendi à luz como se na carruagem da Verdade, a Verdade guiava e me levava. Ela me carregou sobre golfos e abismos e me agüentou na subida de gargantas e vales. Ela tornou-se para mim um porto de salvação e colocou-me nos braços da vida eterna." (Ode 38, 1-3) [5] A idéia de que a Veste é sua imagem também foi expressa por Paulo: "E nós todos que, com a face descoberta, refletimos como num espelho a glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor, que é Espírito." (II Cor 3,18) ANEXO 3PISTIS SOPHIA[1]Outro grande mito cosmológico da tradição cristã é o mito de Sophia. A versão mais conhecida é a de Valentino, a qual sobreviveu apenas nas citações encontradas nas obras de seus detratores, pois nenhum documento diretamente atribuído a Valentino parece ser conhecido. Esses textos foram destruídos por ordem da Igreja Romana ao longo dos séculos de perseguição aos escritos e autores gnósticos. Outra versão pouco conhecida encontra-se no texto denominado Pistis Sophia agora comentado. O documento, originalmente escrito em grego, e tido como perdido, foi guardado pela providência divina numa tradução para o copto, o dialeto do sul do Egito em princípios de nossa era. O manuscrito foi levado para a Inglaterra por volta de 1772, mas somente em meados do século XIX o texto foi traduzido para o latim[2] e, no final daquele século e início do século XX, para línguas vivas européias. As melhores versões para o inglês foram produzidas por G.R.S. Mead[3] e Violet MacDermot.[4] Apesar da tradição oral confirmar a importância daquele documento contendo instruções reservadas ministradas por Jesus a seus discípulos, após seu retorno dos mortos, ele teve relativamente pouco impacto no mundo cristão e mesmo em seus círculos esotéricos, devido ao caráter extremamente velado da linguagem com que foi escrito, que dificultava sobremaneira o seu estudo por aqueles que não dispunham das chaves para a sua interpretação. Essa dificuldade foi em grande parte superada com a publicação da versão brasileira do livro,[5] que contém em sua introdução uma interpretação do mito, e mais de 400 notas explicativas, baseadas principalmente em anotações pouco conhecidas de Blavatsky.[6] A decodificação da linguagem simbólica apresentada na versão brasileira permite que os profundos ensinamentos desse maravilhoso mito possam ser melhor compreendidos. O manuscrito descreve a Ascensão de Jesus como um evento iniciático, e nele são apresentadas interpretações reservadas de vários aforismos e parábolas do Mestre proferidos durante seu ministério público, destacando-se a importância dos mistérios, ou sacramentos. Mas é principalmente na narração do mito de Sophia que reside seu valor inestimável para a tradição cristã. O mito de Sophia é a descrição simbólica da longa peregrinação da alma através de muitas encarnações na Terra até retornar ao seu lugar de origem. Ao despertar para a realidade de sua fonte divina, a alma volta-se ansiosa para a Luz do Alto, para Deus. A narrativa culmina com a revelação de que o destino de todas as almas é o retorno ao aconchego da Casa do Pai, como indicado na Parábola do Filho Pródigo e no Hino da Pérola. Esse mito evidencia-se como a mais completa apresentação cosmogônica da tradição ocidental, com reveladores insights sobre as relações entre os diferentes níveis da manifestação do inefável e os princípios constituintes do ser humano. Os princípios de que trata são os fundamentos da psicologia moderna apresentada, dois milênios depois, por Jung. Pistis Sophia (P.S.), a heroína da estória, simboliza a alma, a unidade de consciência da natureza inferior do homem, enquanto Jesus, o par de P.S., simboliza a natureza superior que, no devido tempo, intervém como o salvador da alma. O processo de salvação ocorre por meio de uma série de "arrependimentos" e invocações de P.S., em que ela se lamenta sobre as aflições que lhe são causadas por várias entidades que a perseguem para retirar a sua luz. Dentre essas entidades destacam-se o Autocentrado e sua emanação, o ‘poder com aparência de leão' e os ‘regentes' dos eons. Esses seres são os verdadeiros inimigos da alma: o Autocentrado é a personalidade vaidosa, egoísta e presunçosa do homem; o poder com cara de leão é o egoísmo; os regentes dos eons são os desejos e as paixões que constantemente afligem a alma. Portanto, os perseguidores de P.S., os senhores das trevas, não são entidades exógenas mas sim aspectos internos do homem, o seu lado sombra. O papel central dos "arrependimentos" no processo de salvação de P.S. torna-se claro quando se verifica que o termo original traduzido por arrependimento vem da palavra grega metanoia, termo que originalmente significava mudança de estado mental ou dos conteúdos mentais que, por sua vez, leva ao arrependimento. Portanto, o longo processo de salvação de P.S. é a progressiva transformação dos estados mentais do homem, que possibilita sua libertação do caos, que ocorre simultaneamente com a apoteótica ascensão de Jesus ao Alto. Assim, a salvação da natureza inferior do homem é coincidente com a glorificação de sua natureza superior, simbolizada pelo Mestre. As diferentes etapas da salvação de P.S. são apresentadas em correspondência com as cinco grandes Iniciações, indicando as expansões de consciência por que passa a alma, incluindo sua iluminação e a dolorosa ‘noite escura da alma', até sua libertação final da matéria. Curiosamente, essa fórmula para a libertação, a transformação da mente, é a mesma exposta na doutrina budista, indicando que os ensinamentos esotéricos dos grandes Mestres parecem originar-se de uma fonte única de sabedoria. A cosmogonia de P.S. distingue claramente duas etapas: a não-manifestação e a manifestação. A entidade suprema, a fonte de tudo o que existe, visível e invisível, permanece não-manifesta, sendo chamada de Inefável, aquele ou aquilo sobre quem nada pode ser dito, pois está infinitamente além de qualquer concepção pelo homem. Quando o Inefável decide manifestar-se no processo de auto-expressão, emana de si diferentes entidades em cinco planos básicos de manifestação. Nesse sentido, a cosmologia de P.S. apresenta um estreito paralelo com a Vedanta e a Teosofia. Cada um daqueles planos básicos está divido em três regiões: direita, meio e esquerda. Na região da direita, ou superior, manifestam-se entidades idealizadoras, isso é criadoras de arquétipos; na região do meio encontram-se as entidades nutridoras que provêm os meios; e na da esquerda, ou região inferior, estão os agentes, ou executores, das funções do plano. Seus papéis parecem ser respectivamente o de Pai, Mãe e Filho, ou seja, a semente, a terra que nutre e o fruto. O lugar de origem de Pistis Sophia é o plano intermediário, chamado de Plano Psíquico, equivalente ao Plano Mental Concreto, onde se situa a unidade de consciência (a alma) do homem encarnado. Ela cai no caos, subentendido como o estado de perturbação da mente, sendo perseguida pelos regentes dos eons, que são os desejos, as emoções e paixões do plano astral. Seu salvador é Jesus, sua contraparte, que simboliza a natureza tríplice do Eu Superior do homem. O método de instrução do Salvador objetiva a transformação do homem a partir de seu interior, de dentro para fora. Por isso não são enfatizados os ensinamentos tradicionais de valores morais, geralmente usados para promover o ajuste da personalidade de fora para dentro. O próprio nome Pistis Sophia transmite a chave para o entendimento do processo. Pistis, o fator fundamental da jornada espiritual, significa fé, a fé primordial da alma em sua natureza divina, confirmada após seu despertar espiritual pelo conhecimento interior, a gnosis. Sophia, por sua vez, quer dizer Sabedoria, o objetivo final da peregrinação da alma, a sabedoria dos dois mundos, visível e invisível. Após a entoação de cada "arrependimento" de P.S., um dos discípulos oferece, alternadamente, a ‘interpretação' desse arrependimento, que se baseia nas mesmas idéias contidas nos Salmos de Davi e nas Odes de Salomão. Há aí mais uma indicação de que os ensinamentos transformadores sempre estiveram disponíveis em todas as tradições, inclusive na dos profetas, da qual Jesus foi o maior representante. O ensinamento de Jesus procura despertar o homem para a realidade de sua origem divina e de sua missão na Terra. Visto sob esse ângulo, o texto poderia ser interpretado como um ‘mapa do tesouro', indicando a rota da grande jornada da alma e os principais acidentes geográficos do caminho, assinalando ainda as precauções a serem adotadas pelos peregrinos divinos.
[1] Este anexo é uma adaptação de um artigo de Edilson A. Pedrosa e Raul Branco intitulado Pistis Sophia. Os ensinamentos internos de Jesus, publicado pela revista TheoSophia, edição de junho de 1998. [2] Schwartze, M.G., Pistis Sophia: opus gnosticum Valentino adiudicatum e codice manuscripto coptico Londinensi descriptum (Berlin: J. Petermann, 1851) [3] Mead, G.R.S., Pistis Sophia: A Gnostic Miscellany (London: J.M. Watkins, 1921) [4] MacDermot, Violet, Pistis Sophia (Leiden, The Netherlands: E.J. Brill, 1978) [5] Branco, Raul, Pistis Sophia, Os Mistérios de Jesus (R.J.: Bertrand Brasil, 1997) [6] Blavatsky, H.P., "H.P.B.'s Commentary on the Pistis Sophia", Collected Writings, vol. 13, pg. 1-81. GLOSSÁRIOAlma. A alma pode ser entendida como o elo de ligação entre Espírito e matéria. A alma é um ‘ser' eterno, que abriga em seu âmago a fagulha divina, Deus no interior do homem. Em cada encarnação a alma, que atua no plano mental superior, ou abstrato, projeta de si uma extensão até o plano mental concreto, que passa a ser a unidade de consciência do homem enquanto encarnado. Essa unidade de consciência é Pistis Sophia, no mito de mesmo nome, sendo também chamada de "eu adulto consciente" nos enfoques psicológicos. É interessante notar que, nos mundos inferiores, a alma usa veículos ou vestes mais densos para sua missão de experimentação e aprendizagem no mundo: os corpos mental concreto, emocional (astral) e físico; nos mundos superiores, no entanto, ocorre o reverso, sendo a alma o veículo das vestes espirituais mais diáfanas do Divino. Anacoretas. Termo grego para os primeiros ascetas da história cristã que se retiraram para o deserto em busca da paz interior e exterior para encontrar a Deus no silêncio e na solidão. Ascese. Exercício prático que procura levar à efetiva realização da virtude, à plenitude da vida moral. Exercícios de purificação, geralmente de natureza física, usados por monges e iogues, que se dizem ascetas. Avatar. Do sânscrito avatara, encarnação divina. A encarnação ou descida ao corpo de um deus ou ser divino, que já atingiu o estado de perfeição e não mais precisa encarnar-se, com a missão específica de ajudar a humanidade. Krishna é considerado um avatar de Vishnu, o Dalai Lama um de Avalokitesvara e, Jesus, um do Cristo. Carma. Em sânscrito karma, significa ação. A grande lei cósmica de Causa e Efeito, ou lei da Retribuição, ou de causação ética. No hinduísmo, budismo e cristianismo (primitivo) o carma é o poder que controla todas as coisas, a resultante da ação moral de todos os atos e pensamentos. O carma nem pune nem recompensa, mas simplesmente faz retornar a cada um o efeito das ações que ele iniciou. Cenobitas. Os devotos que buscaram a solidão e a simplicidade de vida no deserto e verificando que a vida era extremamente difícil nesses lugares desolados, passaram a viver em comum, formando os primeiros conventos da tradição cristã. Criação/emanação. O universo não foi criado por Deus no sentido em que entendemos comumente uma criação, em que o objeto criado está fora de seu criador. O Absoluto abarca tudo o que existe em todos os planos da manifestação. Quando Ele decide se manifestar, após imensas eras de inatividade, chamadas no oriente de Pralaya, Ele emana de sua própria essência uma série de projeções que, passando por diferentes planos, vão sendo envolvidas pela matéria daqueles planos, também parte da Fonte Una, e adquirindo consciência própria, parecendo então, para a mente humana, como seres separados. Inicia-se, então, o que é chamado pelos orientais o Pralaya, um longo período de manifestação Assim, tudo o que existe faz parte do Uno; Criador e criatura são aspectos da mesma Totalidade. Cristo. O Cristo é um dos aspectos da Divindade. O Cristo manifesta-se simultaneamente tanto em sua natureza transcendente como na imanente. O Cristo imanente é o Eu Superior do homem, a voz da consciência, que está sempre instando a alma a voltar-se para o alto. A natureza tríplice do divino pode ser percebida pelo místico como uma esfera com três zonas de luz, calor e chama. A primeira percepção é da natureza da luz, com seu duplo aspecto de sabedoria e bem-aventurança. Essa camada mais externa da natureza divina corresponderia ao aspecto de Deus-Filho, a pura luz da intuição, o eterno operador do Plano Divino responsável pelo vir a ser da manifestação com seus infindáveis ajustes, até a consecução da meta última, a perfeição. A camada intermediária da esfera hipotética da divindade seria o aspecto de Deus-Mãe, percebida como o calor do amor divino que tudo abrange e tudo nutre e sustenta. Essa sustentação universal é feita, por um lado, pela substância una da manifestação, que conhecemos no sentido dual como Espírito e matéria e, por outro, pelas leis divinas que regem toda a manifestação. Essas leis têm o poder de garantir o sucesso último do plano divino, mesmo quando o homem, usando seu livre arbítrio, decide agir contra a lei. Nesse caso a dor será a conseqüência, levando-o, mais cedo ou mais tarde, a cooperar com a vontade de Deus. A camada mais interna da esfera divina seria a chama da Vida Una, Deus-Pai, em seu duplo aspecto de Arquétipo Primordial, ou Plano Divino, e de Vontade, a força primordial que torna possível o progressivo desabrochar da manifestação. Finalmente, o ponto central da esfera, sendo um ponto matemático infinitesimal, poderia ser concebido como a natureza não manifestada do Absoluto, o Incognoscível. Dervixes. Do árabe-persa daruix, que significa pobre ou asceta. No mundo muçulmano, um asceta ou monge nômade. Alguns dervixes, porém, vivem em comunidades. São, às vezes, chamados de ‘encantadores do rodopio' por seu costume de rodopiar como prática para induzir estados alterados de consciência. Docetismo. Doutrina gnóstica do século II, segundo a qual o corpo de Cristo não era real, porém, só aparente. Para os docéticos, Cristo, sendo um ser divino, não tinha um corpo de carne como os homens, mas podia manifestar-se no mundo material com um corpo sutil, ilusório, com toda a aparência de um corpo humano. Doxologia. Fórmula litúrgica de louvor a Deus, geralmente ritmada. Epifania. Aparição ou manifestação divina. Festividade religiosa que celebra essa aparição. Dia de Reis. Escatologia. Termo teológico para a doutrina sobre a consumação do tempo e da história; tratado sobre os fins últimos do homem. O mesmo termo, derivado do grego scato + logia, também significa tratado acerca dos excrementos ou coprologia. Esotérico. Esotérico, vem do termo grego esoterikó, que significa interno. Diz-se do ensinamento que, em escolas filosóficas da antigüidade grega, era reservado aos discípulos avançados e iniciados. Também usado para os ensinamentos ligados ao ocultismo. Espírito. Muita confusão existe no uso desta palavra. Para os autores orientais Espírito é o polo superior da substância Una universal, sendo o outro polo a matéria. O Espírito é sem forma e imaterial, geralmente referido na literatura hinduísta, budista e teosófica como Atma. Eu inferior. Todas as emoções e sentimentos desenvolvidos pelo indivíduo desde a mais tenra infância que, com a repetição, tornaram-se condicionamentos armazenados no inconsciente constituem o que chamamos de eu inferior. Poderíamos conceber o eu inferior como uma criança ferida, um ser primitivo que precisa, em primeiro lugar, ser conhecido conscientemente para, em seguida, ser reeducado e integrado ao eu adulto. Eu Superior. Vários termos são usados para representar o aspecto divino no homem, sendo o Eu Superior usado extensamente nesta obra. O Eu Superior engloba todos os níveis da natureza superior que manifestam os aspectos divinos no homem, sendo representado em nossa tradição pelo Cristo. Exegese. Usado na teologia para comentário ou dissertação para esclarecimento ou minuciosa interpretação de um texto ou de uma palavra. Exotérico. O termo exotérico, por outro lado, refere-se aos ensinamentos externos, abertos ao público. Hermenêutica. Interpretação do sentido das palavras. Usado na teologia como interpretação dos textos sagrados. Homem. O ser humano deve ser encarado como uma expressão microcósmica do macrocosmo. Essa idéia está na Bíblia quando é dito que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Sob esse prisma, o homem poderia ser considerado como uma expressão de Deus no mundo, ainda que limitada, servindo para o propósito divino de experimentar a limitação da matéria por um tempo determinado, até o retorno da consciência para a Fonte Una, que na Bíblia encontra expressão na parábola do Filho Pródigo. O homem é formado de matéria ou consciência dos sete planos, podendo ser também apresentado de forma simplificada como existindo em três níveis: espírito, alma e corpo. Ícone. Imagem. Representação da figura de Cristo, da virgem ou de algum santo, geralmente usada nas igrejas grega e russa. Iconoclasta. Aquele que destrói imagens ou ídolos e, por extensão, obras de arte. Pessoa que não respeita as tradições, a quem nada parece digno de culto ou reverência. Partidário da luta contra as imagens sagradas desencadeada no século VIII por Leão Issáurico (Leão II, 675-741). Máscara. É o conjunto das imagens idealizadas de si próprio que o indivíduo desenvolve na infância, como tentativa de defesa contra as situações da vida que, na sua imaturidade infantil, não conseguia enfrentar de outro modo mais verdadeiro e construtivo. A máscara procura encobrir aqueles aspectos do eu inferior que o indivíduo teme que poderão lhe causar problemas de relacionamento caso sejam conhecidos. A máscara é, portanto, uma falsidade que, no processo de autotransformação, deve ser a primeira meta a ser identificada e descartada, para então abrir espaço para o conhecimento do eu inferior a ser trabalhado. Assim como os condicionamentos do eu inferior, a máscara, ou melhor, as máscaras do indivíduo estão geralmente escondidas no inconsciente e demandam um trabalho de fôlego para sua identificação, daí a importância da verdade no caminho espiritual. Mônada. Do grego monás, único, unidade. De acordo com o conceito filosófico de Leibnitz, uma substância simples, sem partes, que, agregada a outras substâncias, constitui as coisas de que a natureza se compõe. No esoterismo, representa o Deus imanente no homem; a centelha divina que envia um raio de sua essência que se encarna nos planos inferiores. Paradigma. Modelo, padrão. Parênese. Termo de origem grega que significa exortação, discurso moral. Parusia. Doutrina cristã que trata do retorno do Cristo, quando seria estabelecido o Reino de Deus na Terra. Personalidade. É o que imaginamos como o homem no mundo, um agregado de veículos e níveis de consciência que age, em geral, como um conjunto que segue a resultante das diferentes forças que atuam sobre ela, incluindo a força da alma, da mente concreta, das emoções e dos instintos. A personalidade também engloba o eu inferior e as máscaras. Planos. Os planos poderiam ser entendidos como diferentes níveis de densidade da substância una, ou níveis de consciência, que para nós se apresentam como a dualidade Espírito-matéria. No mundo físico sabemos que a água pode se apresentar no estado sólido, como gelo; no estado líquido, como a água do rio; e no estado gasoso, como o vapor d'água que sobe de uma chaleira e se acumula nas nuvens. Essas três substâncias são diferentes densidades da mesma coisa, água. No cosmo, o mesmo ocorre numa escala mais ampla. O apóstolo Paulo fala de forma simplificada sobre o homem como sendo Espírito, alma e corpo. A maior parte das escolas esotéricas falam de sete planos de manifestação. Apesar de, para efeitos didáticos, serem geralmente apresentados na forma de prateleiras, em que o mais sutil está no topo, e o mais denso, o corpo físico, em baixo, uma apresentação mais correta seria a utilização de uma esfera, em que a sutilíssima Fonte Una estaria no centro, enquanto os planos progressivamente mais densos estariam em camadas cada vez mais distantes do centro, até que a mais grosseira, o corpo físico, apresentar-se-ia como a casca exterior. Os cientistas entendem esses planos de manifestação como diferentes dimensões da matéria. Como a Fonte Una está no âmago de todas as coisas, sendo referida na linguagem cristã como o aspecto imanente de Deus, algumas escolas esotéricas sugerem uma imagem para Deus como sendo o círculo que tem o seu centro em toda parte (é imanente) e sua circunferência em lugar nenhum (é infinito). Proléptico. Que antecipa. Diz-se de um fato que se fixa segundo uma era ou método cronológico ainda não conhecido quando ele ocorreu. Querigma. Do grego kerygma, proclamação em alta voz. Núcleo central da mensagem cristã. Anúncio da mensagem cristã ao não cristão destinado a despertar a fé e a conversão. Cada um dos trechos do Novo Testamento que transcrevem alguma modalidade de mensagem. Soteriologia. Termo derivado da palavra grega, soter, salvador; parte da teologia que trata da salvação do homem. Torá. Do hebraico torah. A lei mosaica. A escritura dos hebreus, que encerra o Pentateuco. Unidade. Como tudo o que existe vem da Fonte Una, a dualidade nada mais é do que uma ilusão, maya, como chamam os orientais, resultado da limitação da nossa capacidade de percepção. A unidade é, portanto, o conceito fundamental de todo entendimento espiritual. BIBLIOGRAFIAAltizer, T.J.J., The Contemporary Jesus (State University of New York Press, 1997) Amis, Robin, A Different Christianity (State University of New York Press, 1995) Andrews, Ted, O Cristo Oculto. 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