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Oração de São Francisco de Assis
Dom, 07 de Setembro de 2008 14:51

Este trabalho foi redigido pela teósofa russa Ana Kamensky, em homenagem a C. Jinarajadasa, e publicado na revista "Teosofia na Argentina", de novembro-dezembro de 1996.

Senhor, faz de mim um instrumento de paz.

Onde haja ódio, que eu ponha o amor;

Onde haja ofensa, que eu ponha o perdão;

Onde haja discórdia, que eu ponha a união;

Onde haja erro, que eu ponha a verdade;

Onde haja dúvida, que eu ponha a fé;

Onde haja desespero, que eu ponha a esperança;

Onde haja trevas, que eu ponha a luz;

Onde haja tristeza, que eu ponha a alegria. 

Oh Senhor! Que eu não procure tanto

Ser consolado como consolar;

Ser compreendido, como compreender,

Ser amado, como amar. 

Porque

É dando que se recebe;

É esquecendo de si que nos encontramos;

É perdoando que obtemos perdão;

É morrendo ressuscitamos para a vida eterna. 

A oração atribuída a São Francisco de Assis está plena de inspiração amorosa, que foi a característica da vida do grande santo.Inicia com uma súplica que é o resumo de toda espiritualidade:"Senhor, faz de mim um instrumento de paz." A alma nada implora para si; deseja apenas cumprir

Esta oração pode ser dividida em três partes: 

Na primeira, as oito linhas iniciais indicam a maneira pela qual a alma quer trabalhar para ser um instrumento de paz. 

A segunda, as quatro linhas seguintes, revela a atitude da alma que empreende esse trabalho. 

A terceira, as quatro linhas finais, expressa a convicção de que o esquecimento de si mesmo conduz à união com o Eterno. É aí que a alma recebe sua recompensa, tornando-se aquilo que sonhava ser, isto é, uma mensageira de paz.  

Este é o tipo de oração superior: absolutamente desinteressada. Muitas orações destinam-se a pedir bens terrenos; outras pedem ajuda para superar dificuldades intelectuais e morais; finalmente, há orações que não são mais do que uma aspiração de amor, um desejo de cumprir a vontade divina. A essa categoria pertence a oração de São Francisco.  

Platão referiu-se a esse tipo de oração quando disse: "Há uma aspiração da alma pelo divino, não para solicitar um determinado bem, mas por amor ao próprio bem, o supremo e universal bem." 

Essa é uma atitude interna da alma que se elevou, por assim dizer, sobre toda oração, e vê a si mesma como um agente, um servo que procura se identificar com a vontade divina. A alma pode, então, dizer: "Pai, faça-se a tua vontade", ou, como diz São Francisco de Assis: "Senhor, faz de mim um instrumento de paz." Por acaso não é a vontade de Deus que levemos a paz a todo lugar?  

Depois dessas palavras, tudo o que se segue na oração do santo é apenas uma série de votos, que a alma pronuncia ao se preparar para colaborar com Deus.  

É interessante constatar que o santo demonstra aqui uma profunda compreensão das Leis Divinas, segundo as quais um fenômeno negativo só pode ser vencido por uma força contrária, isto é, por um elemento positivo no plano físico. Quando chega a escuridão e desejamos expulsar as trevas, que fazemos? Acendemos uma lâmpada. Para vencer as trevas é necessário executar uma ação simples, mas precisa: acender a luz. Basta a presença da luz para que a escuridão desapareça.  

O santo, que conhece a Lei, "acende a luz", isto é, faz o esforço necessário no plano espiritual. Começa por combater o ódio, colocando-o em presença da mais poderosa das forças espirituais, a do amor. Frente ao amor, o ódio perde sua força destruidora e se desfaz. Como conseqüência dessa lei, Cristo disse: "Amai vossos inimigos, bendizei aqueles que vos maldizem, fazei o bem àqueles que vos odeiam e rogai pelos que vos maltratam e perseguem". 

O mesmo disse Buda: "O ódio nunca vence o ódio; o ódio só pode ser vencido pelo amor".  

São Francisco refere-se a forças menores que o ódio, mas que não deixam de ser o seu eco: o ressentimento, a má vontade, a cólera, dos quais nascem a ofensa, a discórdia, o erro, a dúvida, o desespero, a tristeza e tudo o que vem das trevas. Como serão vencidos esses sentimentos?  

A ofensa será desfeita pelo perdão, a discórdia cessará com o esforço pela união, o erro se esclarecerá pela demonstração da verdade e a dúvida pela chama ardente da fé; o desespero se extinguirá com o surgimento da esperança e a tristeza cederá seu lugar à alegria. Não é difícil entender que, após mencionar a força maior do bem e do amor, o santo mencione os estados menos poderosos da alma. Diz São Paulo, no capítulo décimo terceiro de primeira Epístola aos Coríntos: "Não foi demonstrado que o amor possui toda uma gama de sentimentos fraternos, do mesmo modo que o ódio tem uma gama dos sentimentos hostis?"  

Paciência, bondade, humildade, honestidade, altruísmo, suavidade, confiança, perdão, incapacidade de inveja, de orgulho, de irritação, de suspeita do mal, de vangloriar-se, de alegrar-se com a injustiça, essas são as notas da gama do amor. A caridade se alegra com a verdade, tudo desculpa, crê em tudo, espera tudo, suporta tudo.  

Henry Drummond, autor norte-americano que fez um estudo profundo desta epístola, analisou cada uma dessas atitudes, comparando-as com os raios de cor da luz branca atravessando um prisma de cristal. Da mesma maneira que cada um desses raios coloridos nada mais é do que um dos elementos da luz branca, igualmente essas qualidades nada mais são do que as diferentes expressões do amor, as diferentes notas de uma mesma melodia fundamental. Por isso o santo as cita uma depois da outra.  

Mas o São Francisco acrescenta algo à enumeração. Mostra que cada um dos elementos negativos pode e deve ser substituído por um elemento da força oposta, e desse modo efetua um trabalho de transmutação, de maneira natural. Faz falta apenas a boa vontade e a perseverança. Como se efetua essa transmutação?  

Ela se realiza através de uma mudança em nosso estado de consciência, já que, desde o momento em que fixamos nossa atenção num novo objetivo, nosso estado de consciência se altera. Por exemplo: alguém me ofende e eu me sinto irritado; sinto aversão por quem me feriu. Inconscientemente lembro do fato e meu ressentimento aumenta. Mas se perdôo, deixo de pensar nisso e me liberto do ressentimento, estou em paz e curado.  

Se houver discussão e discórdia, ficarei dentro de uma espécie de turbilhão e de caos; haverá desarmonia e me sentirei infeliz. Mas se eu fizer um esforço para restabelecer a compreensão e a confiança, estabelecerei as condições necessárias para a harmonia, e a união poderá se efetivar.  

Se há erro, há ignorância. Posso compartilhar o fruto de minha experiência, de meu conhecimento, e a verdade aparecerá. A sabedoria tem tanto de amor quanto de conhecimento, porque o amor é a sabedoria que ama.  

Se existe dúvida que paralisa as forças da alma, pode-se recorrer a valores para demonstrar o poder da fé. Numa palavra, onde há trevas pode fazer-se a luz. É evidente que não estamos falando de palavras, mas do testemunho da fé e da caridade. Devemos viver o que proclamamos; devemos amar e ser sábios. O exemplo vivo é que chega aos corações e os arrebata. É como uma tocha acesa onde outros fogos podem se acender, atraídos de maneira irresistível pela beleza radiante da chama.  

Mas, para possuir o poder dessa irradiação, é necessário que a alma se esqueça completamente de si mesma e se identifique com os que sofrem. O santo descobriu o grande segredo, e diz ao Senhor: "Oh, Mestre! Que eu não procure tanto ser consolado como consolar, ser compreendido como compreender, ser amado como amar."  

A alma não busca nem conselho nem compreensão, nem mesmo o amor; quer reservar toda a sua força para ajudar os demais. Ela aceita alegremente as condições sob as quais pode adquirir esse poder mágico, o poder de compreender e consolar os aflitos, dando-lhes sua compaixão e ternura. Ao fazer esses votos a alma diz que não há alegria maior do que a de dar, esquecer de si mesma e perdoar.  

É dando que se recebe; é esquecendo de nós mesmos que nos encontraremos; é perdoando que seremos perdoados, e morrendo é que ressuscitaremos para a vida eterna.  

Porque, se a personalidade morre nesse impulso de amor, a alma entra no reino do espírito e se une para sempre à Vontade Divina. 

A oração foi feita e se realizou; o homem se converteu num instrumento de paz na Terra, num mensageiro do Céu.  

Notas:

Tradução: Izar G. Tauceda, MST Loja Jehoshua, Porto Alegre, RS

Extraído da Revista TheoShofia - outubro/novembro/dezembro 2004 .