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Sensação de "rotina": está nos indicando o quê?
Seg, 06 de Outubro de 2008 13:05

Sensação de "rotina": está nos indicando o quê?
Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

Todo mundo admite que "rotina mata". É o ritual de sustentação diária da vida humana, girando em torno dos três mundos de nosso "eu material": físico, emoção e mente concreta.

É senso comum que repetições "sem fim" acabam gerando rotina, significando que o relacionamento com determinado "objeto de percepção" está se tornando estagnado, viciado, sem trocas de energia. E ante os pressupostos da própria evolução, estagnação é morte. Por isso mesmo, intimamente rejeitamos a estagnação.

De que maneira tentamos escapar à rotina? Mudando os "objetos de percepção" - pessoas ou coisas - que nos cercam, ou então alterando nosso relacionamento com eles. Assim, por exemplo, podemos comprar móveis novos para a casa, ou simplesmente mudá-los de lugar.

Se, para fugir à rotina, vamos à praia nas férias, o resultado é maravilhoso. Já para as pessoas que moram lá, talvez fosse ótimo passar as férias justamente no lugar de onde saímos.

Estaria a rotina de fato num lugar, numa função, num relacionamento? Não. Ao que tudo indica a rotina está na mente. Ou melhor, na mente não criativa, que - nas mudanças externas - busca justamente a renovação de seus espaços interiores, sempre presos às mesmas coisas.

Quando a mente não criativa encontra um "espaço novo", ela se revitaliza. Contudo, por ver superficialmente - escrava de suas ocupações internas - logo aquele espaço se torna sem atrativos, como se, no fundo, desde o início ela já o tivesse visto com um "olhar de ontem".

"Um homem não entra duas vezes no mesmo rio". Esse ensinamento nos foi legado por Heráclito, filósofo que viveu entre 540 a.C. e 470 a.C., em Éfeso (cidade hoje pertencente à Turquia, onde fizeram pregações os apóstolos João e Paulo). Na verdade, segundo Heráclito, não é possível ao homem sequer entrar num rio, pois ao mesmo tempo em que o rio "é", já deixa de ser, pela velocidade de mudança de suas águas. E quanto ao próprio homem?

Nosso corpo físico está sempre mudando. A cada 20 dias a pele se renova inteiramente. Grande parte da "sujeira" que dela sai a cada banho se compõe das células mortas que são eliminadas. Já na mente humana, ocorre o contrário. Enquanto o corpo físico elimina a parte velha para dar lugar à nova, o corpo mental se agarra à parte velha, pensando que nela se encontra a segurança. Mas ali, está de fato a estagnação, a rotina, a morte.

Por sinal, quando a capacidade de renovação celular começa a ir mais devagar, um dos conflitos humanos típicos vem à tona, com a questão do envelhecimento. Qual a causa desse conflito? Justamente o fato de a mente não acompanhar, não viver os processos em curso, não estar consciente de que a criação do mundo não se fez "em 6 dias", tendo o Criador descansado no sétimo. Para cada um de nós, a criação do mundo está se fazendo a todo momento.

Vê-se então que, se queremos evitar a rotina, não é mudando todo dia de parceiro(a) ou os móveis da casa que vamos conseguir isso. Tal coisa acaba até virando rotina! Só podemos vencer a estagnação por meio da "mente criativa" - limpa, desapegada, reflexiva - mergulhando nas possibilidades de consciência de cada instante. É o caminho do auto-conhecimento.

O pensador indiano Krishnamurti considera o estado criativo como de "intensa felicidade e indestrutibilidade" (Sobre relacionamentos, Cultrix). Por quê? Talvez por ser um estado que não conhece o medo. Nele a mente não se prende a nada, fazendo-nos permanentemente capazes de gerar ou transformar nosso próprio destino. Haverá rotina que resista a isso?

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