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São nossos filhos "parafusos de geléia"?
Qua, 22 de Outubro de 2008 16:12

São nossos filhos "parafusos de geléia"?

Walter Barbosa, membro da SOCIEDADE TEOSÓFICA

O ensinamento da "Lei da Evolução" talvez seja o maior diferencial que um "caminho espiritualista" pode oferecer à humanidade. Por quê? Pela simples razão de essa Lei Universal desvendar a razão de estarmos aqui. Há um significado para tudo o que vivenciamos, e esse significado é autoconhecimento, o despertar do potencial divino do ser humano.

Dando um colorido semelhante à vertente educacional, o psicólogo russo Vigotsky - hoje embasando a maioria dos projetos na área - diz que ninguém educa ninguém, "é o próprio ser que se educa". Qual seria então, nessa perspectiva, o papel do "educador", dentro ou fora da escola? Fornecer elementos de estímulo para que o "educando" eduque a si próprio.

Vemos que na prática do ser adulto o que ocorre é exatamente isso. Depois que abandonamos o status oficial de criancinhas, sob o amparo dos pais, o processo da auto-educação segue pela vida afora, com os elementos desse processo sendo fornecidos pelo universo das relações. Porém, o que sucede se os pais, em nossa fase de "criancinhas", se omitem de fornecer tais elementos de "auto-educação" aos filhos, até por falta dessa base para si mesmos?

O pensador indiano Krishnamurti diz: "A educação tem por escopo a liberdade individual, pois só esta pode promover a verdadeira cooperação com o todo, com a coletividade. Mas essa liberdade não se alcança quando o indivíduo só está interessado no próprio engrandecimento e bom êxito. A liberdade vem com o autoconhecimento, mediante o qual a mente se eleva acima dos empecilhos que para si mesma criou ao ansiar por segurança".

Ansiamos todos por segurança. Segurança é o que os pais pensam o tempo todo em dar aos filhos. Mas nossa busca de segurança não pode significar insegurança nem falta de liberdade para os outros. Aí caímos na "lei do mais forte" - ou do mais insensato.

Certa vez, numa livraria do Shopping, eu conversava com a proprietária. Lá me encontrava procurando a obra "Quem ama, educa" de Içami Tiba e, por acaso, entramos no tema da permissividade existente em muitas famílias. Então, a proprietária relatou o episódio que se segue.

Uma senhora havia entrado com seu filho e examinava as obras nas gôndolas. De repente, o garoto começou a se divertir derrubando livros no chão. Uma das atendentes correu, procurando restabelecer a ordem, mas o garoto não parou, achando a coisa até mais divertida. A mãe, ao lado, o que fazia? Seguia examinando as obras, como se o assunto não fosse com ela.

A atendente, enfim, percebendo que o problema não ia ser resolvido, chamou a proprietária. Esta foi direto ao assunto, alertando a mãe para a atitude da criança. Sua resposta: "Meu filho sempre faz o que quer". Resposta da proprietária: "Aqui dentro não!" - apontando a saída.

Içami Tiba, abordando a questão dos filhos que nunca são contrariados, diz: "Figuras paternas frágeis e mães hipersolícitas transformam os filhos em parafusos de geléia". O que é parafuso de geléia? É aquele que, se leva um apertão, espana, segundo Tiba. São filhos que não agüentam ser contrariados. "Não foram educados para suportar o não".

Do ponto de vista esotérico, aprende-se que o processo evolutivo do Ser, baseado em autoconhecimento, se dá exatamente pela oposição que o mundo lhe oferece. Essa oposição gera referenciais externos, elementos de "reflexão" (flexão de volta, para dentro). Sem tal resistência o autoconhecimento não ocorre. A viagem consciencial do Ser fica sem sentido, cai no vazio

"A natureza detesta o vazio" diz Blavatsky, assim, logo ele é preenchido. Como? No caso, pelo sentimento de falsa onipotência e intangibilidade, de "poder tudo", sob estímulo dos próprios pais - algo exatamente contrário à noção da vida em sociedade, da capacidade de retribuir e se relacionar. Boa maneira de se gerar um dependente, inclusive de drogas? É provável (quando nosso filhinho sempre faz o que quer, acaba fazendo o que a gente não quer, e também lastima).

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