| A Responsabilidade Universal do Indivíduo |
| Qui, 05 de Junho de 2008 17:18 | |
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Autor: Samdhong Rinpoche Não vou discorrer sobre religião, filosofia profunda ou sobre o misticismo tibetano que atualmente é muito comercial. Quero compartilhar alguns de meus pensamentos sobre os problemas humanos do dia a dia moderno, especialmente sobre aqueles que impedem a Humanidade de evoluir espiritualmente. Muitas pessoas tornaram-se escravas de considerações monetárias e econômicas, e perderam a liberdade para pensar sobre sua própria responsabilidade e poder de agir para atingir níveis mais elevados de evolução. Embora muito de meu vocabulário provenha do Budismo, o assunto básico de minha argumentação não é nem ensinamento budista nem assunto religioso. São apenas problemas humanos comuns sobre os quais juntos podemos refletir e investigar. De acordo com a tradição budista, o Universo se manifesta através da força Kármica individual e coletiva de todos seus seres sensíveis. A força Kármica favorável produz formas que estão em sintonia com o processo da vida, e o Universo vivo cria um universo não-vivo em sintonia com ele. Esta força Kármica positiva tem o poder de transformar as formas que não estão em harmonia com o Universo naquelas que se harmonizam com ele. Durante o surgimento, crescimento e amadurecimento da vida individual de um planeta, há coesão entre suas formas vivas e sua própria natureza. Esta é a chamada Era de Ouro, ou Satya Yuga. Mas após um determinado período, esta força Kármica positiva gradualmente diminui, e a força Kármica negativa, não-coesiva ganha força, o que cria conflitos e contradições entre os seres vivos e não-vivos, e é causa destes seres e do próprio planeta estarem em desarmonia com o Universo, impelindo-o à deterioração e ao total aniquilamento. Esta é a chamada Kali Yuga, ou Era da Decadência. Hoje este pequeno planeta Terra está sofrendo por falta de coesão que resulta em conflitos, e seus seres sensíveis estão sujeitos à indescritível miséria e medo. Basicamente isto se deve à negra força Kármica coletiva dos seres vivos, que não é fácil de corrigir ou melhorar. Contudo, não podemos esperar pela transformação da força Kármica coletiva da sociedade como um todo, para resolver os problemas que estamos vivendo no nosso dia a dia. Portanto devemos ser mais atentos à postura individual do que à coletiva para regenerar o mundo e a nós mesmos. O método de "sair da corrente" é o único meio prático e possível para indivíduos na situação atual. Quando a poderosa corrente de uma inundação carrega alguém, ele pode não ser capaz de parar ou inverter o fluxo da inundação, mas tem a liberdade, a habilidade e talvez a responsabilidade de nadar para a margem e conseqüentemente sair da correnteza. Quando uma pessoa puder agir assim, será capaz de ajudar e resgatar muitas outras. Hoje, cada um de nós, individualmente, deve sair da corrente da civilização moderna e cumprir sua responsabilidade universal. Desta maneira cada indivíduo pode harmonizar-se com o Universo e também colocar o Universo em sintonia consigo. Atualmente parece não haver solução para os inumeráveis problemas que afligem nosso globo e seus seres sensíveis. Mahatma Gandhi, o santo secular da Índia, acertadamente disse que nossos problemas são o direto resultado da civilização moderna, de seu materialismo e cobiça. Dentre os pensadores contemporâneos e líderes espirituais que encontrei, somente ele teve a visão e a coragem de denunciar a doença da modernidade como um todo. Uma idéia semelhante foi expressa nas famosas palavras do Chefe Índio Seattle, ao Presidente dos EUA, há cento e cinqüenta anos atrás. Sua carta, uma peça clássica de literatura, e o livreto de 1909 de Mahatma Gandhi, Hind Swaraj, foram escritos de uma maneira simples e profunda, chamando a espada de espada, e diagnosticando as raízes e os remédios da atual tragédia humana. O mundo atual está enfrentando cinco grandes desafios: 1. O aumento descontrolado da população humana, especialmente nos países do terceiro mundo. 2. O aumento contínuo da disparidade econômica entre ricos e pobres. 3. A violência e a tortura, as guerras e o medo da guerra, muitas formas de terrorismo, o crescente uso de armas de destruição de massa e as conseqüências das guerras. 4. A degradação do meio ambiente, como o aquecimento global, a destruição da camada de ozônio, a crescente escassez de ar puro e de água potável, que são as necessidades básicas para a manutenção dos sistemas de vida. 5. Por último, mas não menos importante, a intolerância cultural e religiosa. A religião, que deveria ser a fonte de salvação e de felicidade, tornou-se uma fonte de conflito e de divisão. Todos nós conhecemos estes problemas, porque os vivenciamos em todos os dias de nossas vidas. Cada um deles é uma provocação ameaçando a paz, a felicidade e o bem estar dos seres vivos, que pode terminar na sua e na destruição total da Terra. Cada desafio tem facetas diversas, interligadas e inter-relacionadas. Como foi mencionado antes, a causa última destes problemas pode ser a força Kármica negativa, individual e coletiva, mas as condições imediatas que facilitam a causa última a gerar seus efeitos de forma completa é a civilização chamada de moderna, ultra-moderna e de pós-moderna, ou mais precisamente, a falta de civilização, baseada na ciência e na tecnologia. A evolução da ciência e tecnologia modernas propiciou dois poderes malévolos sem precedentes a uma seleta porção da Humanidade. Estes poderes são: 1. A produção excessiva de bens supérfluos, acima das necessidades reais das pessoas, e 2. O monopólio sobre esta produção na forma de capital ou do chamado know-how tecnológico. Estes dois poderes pavimentaram o caminho para que poucos acumulem riquezas e explorem indiscriminada e constantemente a Natureza e os seres vivos. Alguns indivíduos obtusos e sedentos de poder, sem consideração às ideologias políticas e aos sistemas sociais, estão consolidando estes poderes. A acumulação de riqueza por estes poucos tornou-se mais fácil, e o processo natural da distribuição equânime com base na habilidade individual para produzir foi completamente destruída. As pessoas tornaram-se gradualmente dependentes dos outros em várias coisas, degradando a dignidade do trabalho e a vontade de fazer trabalho físico. A produção em massa de artigos industrializados precisa de consumidores, e fomentar o mercado é sua conseqüência lógica. Produtores astuciosos acham fácil explorar a seu favor as emoções negativas da Humanidade – emoções como as de desejar conforto físico, de apelo à miragem do lazer, que são manifestações diretas de apego (Raga) e de ânsia (Trshna). A base da infindável multiplicação dos apegos e das ânsias é a educação moderna e a moderna estrutura social inculcando a competitividade nas pessoas desde a infância e produzindo repulsa (Dvesha) em várias formas. A competição significa, pelo melhor, ser um concorrente com os outros, e pelo pior, ser um inimigo de todos os outros. Por exemplo, numa escola todos os estudantes da classe tornam-se concorrentes e cada um deseja sobrepujar os outros. Isto se chama "competição saudável"! No sistema liberal econômico "a competição justa e livre é a base da economia saudável" é uma expressão usada habitualmente e por si só contraditória. A competição significa simplesmente a vitória do eu sobre os outros, e isto não é mais do que egoísmo e desrespeito com os outros. Conseqüentemente, nenhuma competição pode ser justa ou boa. Sob a perspectiva budista a competição é imoral e é uma das piores formas possíveis de comportamento humano. Para ser justa, a igualdade deveria ser o objetivo principal, porque ninguém compete para perder ou para deixar os outros ganharem. A exploração do desejo, do apego e do ódio é muito fácil, porque estamos sob a influência da ignorância. Os fabricantes dos bens de consumo não somente exploram nossas emoções negativas como o desejo, a ânsia e o ódio, mas também nos privam completamente de sabedoria e de discernimento, ou Viveka. No mundo de hoje as pessoas perderam o poder de discernir quais são e quais não são suas reais necessidades; as coisas que são boas e as que não são más. O que supostamente é bom para nós é determinado pelos fabricantes e eles nos dizem quais são nossas necessidades – e isto também a nosso custo. Usando terminologia moderna, isto é uma violação do direito à nossa autodeterminação. Deveríamos ser livres para decidir quais são nossas necessidades reais e o que é supérfluo. Mas este direito nos foi tomado. Fazem-nos acreditar que necessitamos de doze pares de sapatos e de dezesseis trajes para transitarmos na sociedade atual e mantermos nosso status social. Se uma pessoa acumula riquezas para consumo desnecessário, ela necessariamente tem que tirar da parte dos outros e ela não passa de um ladrão comum. Para esta pessoa é impossível ter um meio de vida correto. Se, de acordo com a estimativa moderna, não formos capazes de formar um patrimônio, não poderemos levar "uma vida digna". Esta pessoa fica classificada com aquelas que estão abaixo da linha de pobreza, para quem se deve encontrar mais ajuda, mais fundos de investimento e mais oportunidades. Portanto mais ajuda, mais empréstimos e mais conhecimentos técnicos são necessários nos termos e nas condições determinados pelo Banco Mundial, pelo Fundo Monetário Internacional, pela Organização Mundial de Comércio ou pelos governos das nações desenvolvidas. Assim as nações do terceiro mundo são sempre sobrecarregadas com o peso da ajuda e das dívidas, resultando na perda de soberania política e cultural. O sistema econômico moderno não somente nos priva de nossa sabedoria e discernimento, mas também nos tira o senso de dignidade e auto-respeito. Hoje, muitos jovens educados não são capazes de pensar em como trabalhar por si e ser auto-suficientes. Todos eles procuram emprego, desejando se tornar empregados de alguém, assalariados de alguns capitalistas. O atual sistema geopolítico e sócio-cultural é governado por um único fator que é a economia de mercado. Os outros ideais políticos e sociais como a democracia, os direitos humanos, a diversidade cultural e a liberdade de consciência são meras palavras sem qualquer sentido, usadas como ornamento ou metaforicamente e, se necessário, como simulacro. O colonialismo político do passado terminou com o despertar dos povos submetidos a tal domínio nos últimos séculos. Hoje, ele foi substituído pelo colonialismo econômico que é muito mais perigoso. A ocupação política pode ser derrubada em pouco tempo, mas se necessitam muitas décadas ou séculos para recuperar o domínio econômico, presumindo-se que haja uma oportunidade de recuperar esta liberdade econômica. Como as prioridades econômicas atualmente ultrapassaram a tudo, isto torna o indivíduo egoísta, violento, destituído de moral e de alicerces éticos. As influências negativas levam as pessoas a se tornarem autocentradas e a buscarem riquezas. Os estilos modernos de vida destruíram as tendências espirituais de muitas pessoas e as tornaram descrentes. A essência religiosa foi ignorada e a religião e suas instituições estão sendo deturpadas, aumentando e fortalecendo o egoísmo, o ódio, a intolerância e o conflito. Muitas pessoas pensam que a espiritualidade, a moral e a ética são obstáculos ao desenvolvimento e ao avanço material. Muitos dizem abertamente que "a religião é veneno" para o progresso. Uma pequena minoria pode não concordar totalmente com isto, mas humildemente também dizem que desde que devem sobreviver, não há como fugir, apenas se ajustar. Faltando sabedoria e coragem para opor-se ao mal, a pergunta natural é "O que podemos fazer?" E esta é uma pergunta muito importante. Lembro aqui o que disse o Tathagata: "Somos nosso próprio Mestre; quem mais poderia ser o Mestre?" (atta hi attano natho, ko hi natho paro siya). É similar o princípio individual de Satyagraha, de Mahatma Gandhi, e inspirado nele recomendo às pessoas a abandonarem o estilo moderno materialista de vida, seu consumismo excessivo e imoral, e a compreenderem qual é sua responsabilidade individual a respeito do bem-estar universal. O macrouniverso é construído pelos microuniversos dos indivíduos, e tudo que um indivíduo faz tem relevância e efeito sobre o Universo. Por esta razão, pela dissociação individual com o mal, um Universo desarmônico pode harmonizar-se, e um planeta sem sintonia com o Universo pode recuperar sua harmonia com ele. Algumas sugestões práticas vem de Buda, através do Nobre Óctuplo Caminho. Esta Senda não é somente para a elevação espiritual, mas também para viver de uma maneira correta, criando uma sociedade coesa e não-violenta, e conseqüentemente fomentando a espiritualidade. O primeiro passo é ter um ponto de vista correto e uma percepção clara da sociedade egoísta e materialista de hoje com todos seus deméritos, além de também ter uma visão de como dissociar-se dela. Após ter conseguido esta visão, o segundo passo deve ser o da determinação reta. Devemos iniciar um estilo de vida controlado, não-violento, não-consumista, aceitando e suportando todos sofrimentos e dificuldades, inclusive a dor física que pode ocorrer no caminho ou pode ser imposta a nós pelas forças negativas. O terceiro passo será o de falar sobre isto sem medo. Os primeiros dois passos referem-se ao indivíduo. Compartilhá-los com os outros seres significa comunicar sua visão e determinação pelo falar reto. Se não falarmos sobre os males de nossa sociedade violenta, poderemos ser considerados coniventes com ela. O quarto passo será consolidar e estabilizar o esforço. Especialmente nos dias de hoje, a preguiça e o descuido não devem ser empecilhos para o esforço de viver retamente. O viver reto requer muito esforço. De outra maneira poderemos ser arrebatados pelas forças do mal. O quinto e mais importante passo é o meio de vida reto. Esta é a base da ação para "cair fora", bem como a realização individual efetiva da responsabilidade universal. Hoje é muito difícil manter um meio de vida reto e impoluto. A meu ver o ensinamento prático de Mahatma Gandhi de "auto-suficiência" e os princípios de auto-regulamentação das vilas são as únicas respostas ao atual estilo de vida consumista. O sexto passo é incutir a atenção reta. No mundo de hoje, a violência e a desonestidade são a norma corrente. Sem a atenção reta podemos cair no abismo materialista sem nos darmos conta. O sétimo e oitavo passos, isto é, concentração reta e ação reta, são também constantemente requeridos para um meio não-violento de vida. Em resumo, se o Nobre Óctuplo Caminho for praticado, podemos emergir do atual sistema de vida doentio e ter um vida exemplar. E talvez desta maneira, nós, como indivíduos, possamos "cair fora" e realizar nossa individual responsabilidade universal. Podemos colocar em prática as seguintes sugestões para ter uma mente espiritual ou religiosa, uma transformação de mente: 1. Estar cônscio dos deméritos da civilização moderna como um todo, de sua violência estruturada e de sua direta e indireta natureza exploradora. Isto é a visão reta. 2. Estar determinado a ficar dissociado de seu estilo ganancioso e egoísta de vida a despeito das dificuldades e inconveniências. Isto é a determinação reta. 3. Reduzir as necessidades ao nível mínimo e evitar qualquer desperdício de recursos. Com muita propriedade Mahatma Gandhi disse que a Mãe Terra é capaz de satisfazer as necessidades de todos, mas nunca poderá satisfazer a ganância de um único indivíduo. Devemos compreender quais são nossas necessidades e anular a ganância. 4. Renunciar às modernas normas de fartura e aceitar seletivamente o que for conveniente. A aceitação seletiva inclui os meios de comunicação, de viagens, de computadores e de outros males menores sem os quais não seríamos capazes de atuar no mundo moderno. 5. Introduzir tecnologia apropriada, meios e métodos para o consumo sustentável, ou então a Terra poderá não sobreviver. 6. Cultivar uma mente genuinamente espiritual que seja capaz de transformar o indivíduo e por meio dele, seu universo. Este é o derradeiro objetivo da vida humana. Necessariamente isto não obriga a seguir qualquer tradição religiosa conhecida. Mesmo um descrente, que não siga qualquer religião, pode ter uma mente religiosa. Atualmente mesmo pessoas que se declaram autoridades em religiões, tornaram-se muito mundanas e baixas, corrompidas por diversas emoções negativas. A prática de uma tradição religiosa tornou-se um ritual e uma instituição, motivo pelo qual J. Krishnamurti rejeitou consistentemente toda tradição. Ele não rejeitou a essência da tradição, mas somente a tradição predominante. Portanto é necessário compreender o que é uma mente verdadeiramente religiosa e o que é a religião verdadeira, livre de todos os dogmas e rituais, tradição e linhagem. Numa declaração bem curta, Krishnaji resume a totalidade dos ensinamentos religiosos, e eu gostaria de compartilhá-la com vocês: "A religião é algo que inclui tudo. Não é única. Uma mente religiosa não tem nacionalidade, não é limitada, nem pertence a um determinado grupo organizado. Não é o resultado de dois mil anos de propaganda. Não tem dogma ou crença. É uma mente que se movimenta de fato a fato. É uma mente que entende a qualidade total do pensamento, não apenas o óbvio, o pensamento superficial, o pensamento culto, mas também o pensamento inculto, o pensamento inconsciente e os motivos; uma mente que questiona totalmente algo, e quando, por este questionamento, compreende o que é falso, o nega porque é falso. Então a totalidade da negação produz uma nova qualidade na mente, e esta qualidade é religiosa, é revolucionária. " A frase "é uma mente que se movimenta de fato a fato" é muito importante. Repetimos o lema "Não há religião superior à verdade", mas na vida atual estamos presos a uma ou outra religião. A negação da falsidade e a compreensão da verdade, do fato, é a que faz surgir uma revolução, uma transformação, esta, na realidade, é uma mente religiosa, e devemos tentar cultivar esta mente em benefício de todos os seres. Extraído da revista The Theosophist, de maio de 2001
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