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O Plano Devachânico ou Mundo Celeste - Suas Características e Habitantes
Dom, 07 de Setembro de 2008 15:58

C.W.Leadbeater

Prefácio

Poucas palavras são necessárias ao enviarmos este livreto para o mundo. É o sexto de uma série de Manuais concebidos para atender à demanda do público por uma exposição simples dos ensinamentos Teosóficos. Alguns têm lamentado que nossa literatura seja ao mesmo tempo por demais abstrusa, demasiado técnica, e muito cara para o leitor comum, e é nossa esperança que esta presente série possa ter sucesso em suprir uma necessidade muito real. A Teosofia não é só para os instruídos; é para todos. Talvez entre aqueles que nestes opúsculos obtiverem seu primeiro vislumbre de suas doutrinas, possa haver uns poucos que sejam por eles levados a penetrar mais fundo em sua filosofia, sua ciência e sua religião, enfrentando seus problemas mais abstrusos com o zelo do estudante - e o ardor do neófito. Mas estes Manuais não são escritos só para os estudantes ávidos, a quem nenhumas dificuldades iniciais podem atemorizar; são escritos para os ocupados homens e mulheres do mundo cotidiano, e procuram tornar acessíveis algumas das grandes verdades que fazem a vida mais fácil de suportar e a morte mais fácil de enfrentar. Escrito por servos dos Mestres que são os Irmãos Mais Velhos de nossa raça, eles não terão nenhum outro objetivo senão servir nossos semelhantes.  

Nota do Autor

Uma vez que pesquisas posteriores revelaram que o termo ‘Devachan' é etimologicamente inexato e enganador, o autor teria preferido omiti-lo inteiramente, e publicar este manual sob o título mais simples e mais descritivo de ‘O Plano Mental'. Os editores lhe informam, entretanto, que esta alteração causaria dificuldades em matéria de copyright, e produziria confusão de vários modos, de modo que ele se rende aos seus desejos. 

INTRODUÇÃO

No manual anterior foi feita uma tentativa de descrever em alguma extensão o plano astral - a parte inferior do vasto mundo invisível em meio do qual vivemos e nos movemos despercebidamente. Neste livreto deve ser empreendida a tarefa ainda mais difícil de tentarmos dar alguma idéia do estágio imediatamente acima daquele - o plano mental ou mundo celeste, freqüentemente chamado em nossa literatura Teosófica de Devachan ou Sukhâvatí.

Mesmo assim, ao chamarmos este plano de mundo celeste, nós tencionamos claramente implicar que ele contém a realidade que subjaz em todas as melhores e mais espirituais idéias de céu que têm sido propostas em várias religiões, ainda que não deva de modo algum ser considerado somente sob este ponto de vista. É um reino da natureza, que tem excepcional importância para nós - um vasto e esplêndido mundo de vida fervilhante no qual estamos vivendo agora e nos períodos entre as encarnações físicas. É somente nossa falta de desenvolvimento, só as limitações impostas sobre nós por esta roupagem de carne, o que nos impede de percebermos plenamente que toda aquela glória dos altos céus está ao redor de nós aqui e agora, e que influências provenientes daquele mundo estão sempre agindo sobre nós se apenas as entendermos e as acolhermos. Impossível como isso possa parecer ao homem do mundo, é a mais corriqueira das realidades para o ocultista; e para aqueles que ainda não captaram esta verdade fundamental podemos apenas repetir o conselho dado pelo instrutor Budista: ‘Não vos lamenteis nem choreis nem oreis, apenas abride vossos olhos e vêde. A luz está toda à vossa volta, se somente tirardes a venda de vossos olhos e olhardes. É tão maravilhosa, tão bela, tão superior a tudo que o homem tem sonhado ou pelo que tem rezado, e é para todo o sempre' [The Soul of a People (A Alma de Um Povo), pg. 163].

É absolutamente necessário para o estudante de Teosofia perceber esta grande verdade, de que existem na Natureza vários planos ou divisões, cada um com sua própria matéria de apropriado grau de densidade, que em cada caso interpenetra a matéria do plano imediatamente inferior ao seu. Deveria ser ainda entendido claramente que o emprego dos termos ‘superior' e ‘inferior' com relação a estes planos não se refere de nenhum modo à sua posição (uma vez que ocupam o mesmo espaço), mas somente ao grau de rarefação da matéria de que são respectivamente compostos, ou (em outras palavras) à extensão na qual sua matéria é subdividida - pois toda matéria de que sabemos alguma coisa é essencialmente a mesma, e difere apenas no grau de sua rarefação e na rapidez de suas vibrações.

Segue-se, portanto, que falar de um homem como passando de um desses planos para outro nunca significa algum tipo de movimento no espaço, mas simplesmente, uma mudança de consciência. Pois cada homem tem em si mesmo matéria pertencente a cada um desses planos, um veículo correspondente a cada um, no qual ele pode atuar no plano respectivo quando aprender como isso pode ser feito. Assim, pois, passar de um plano para outro é alterar o foco da consciência de um dos veículos para outro, usar diferentemente em cada ocasião o corpo astral ou o mental, em vez do físico. Pois naturalmente cada um destes corpos responde unicamente às vibrações de seu próprio plano; e assim, enquanto a consciência do homem estiver focalizada em seu corpo astral, ele perceberá somente o mundo astral, exatamente como enquanto nossa consciência está usando só os sentidos físicos nós não percebemos nada senão o mundo físico - ainda que ambos estes mundos (e muitos outros) existam e estejam em plena atividade ao nosso redor todo o tempo. Na verdade, todos esses planos juntos constituem realmente um todo vivo e poderoso, mesmo que nossos débeis poderes sejam capazes de observar somente uma parte muito pequena dele a cada vez.

Quando consideramos esta questão de localização e interpenetração devemos permanecer em guarda contra possíveis mal-entendidos. Deveria ser compreendido que nenhum dos três planos inferiores do sistema solar são co-extensivos a ele exceto no que se refere a uma condição particular da subdivisão mais alta ou atômica de cada um. Cada globo físico tem seu plano físico (incluindo sua atmosfera), seu plano astral, e seu plano mental, todos interpenetrando-se mutuamente, e portanto ocupando a mesma posição no espaço, mas todos inteiramente à parte entre si e não se comunicando com os planos correspondentes de nenhum outro globo. É só quando nos elevamos aos níveis elevados do plano búdico que encontramos uma circunstância, de algum modo, comum a todos os planetas de nossa cadeia.

Não obstante, há, como foi dito acima, uma condição da matéria atômica de cada um desses planos que é cósmica em sua extensão; de forma que os sete sub-planos atômicos de nosso sistema, tomados à parte dos restantes, podem ser ditos constituindo um plano cósmico - o mais baixo, algumas vezes chamado cósmico-prakrítico. O éter interplanetário, por exemplo, que parece estender-se por todo o espaço - de fato deve ser assim, pelo menos até a estrela mais distante visível, de outro modo nossos olhos físicos não poderiam perceber a estrela - é composto de átomos físicos ultérrimos em sua condição normal e não comprimida. Mas todas as formas inferiores e mais complexas do éter existem somente (até onde se sabe hoje) em conexão com os vários corpos celestes, agregadas em seu redor como está sua atmosfera, ainda que provavelmente se estendendo consideravelmente além de suas superfícies.

Precisamente o mesmo é verdadeiro em relação aos planos astral e mental. O plano astral de nossa própria Terra a interpenetra e à sua atmosfera, mas se estende ainda por alguma distância para além da atmosfera. Pode ser lembrado que este plano era chamado pelos gregos de mundo sublunar. O plano mental por sua vez interpenetra o astral, mas se estende ainda mais no espaço do que o anterior.

Só a matéria atômica de cada um destes planos, e mesmo esta só em uma condição inteiramente livre, é co-extensiva ao éter interplanetário, e conseqüentemente uma pessoa não pode passar de planeta para planeta mesmo de nossa própria cadeia em seu corpo astral ou mental, mais do que o pode com seu corpo físico. No corpo causal, quando altamente desenvolvido, esta façanha é possível, ainda que mesmo então de modo algum com a facilidade e rapidez com que isso pode ser feito no plano búdico por aqueles que conseguiram elevar sua consciência àquele nível.

Uma clara compreensão destes fatos evitará a confusão que às vezes tem sido feita por estudantes entre o plano mental de nossa Terra e os outros globos de nossa cadeia que existem no plano mental. Deve ser compreendido que os sete globos de nossa cadeia são globos reais, ocupando posições definidas e separadas no espaço, não obstante o fato de que alguns deles não estejam no plano físico. Os globos A, B, F e G estão separados de nós e entre si exatamente da mesma maneira que o estão Marte e a Terra; a única diferença é que onde esta possui planos físico, astral e mental próprios, os globos B e F não têm nada abaixo do plano astral, e os A e G, nada abaixo do mental. O plano astral de que tratamos no Manual V e o plano mental que em breve passaremos a considerar são aqueles próprios desta Terra somente, e não têm nada a ver com aqueles outros planetas.

O plano mental sobre o qual tem lugar a vida celeste é o terceiro dos cinco grandes planos aos quais a humanidade está no presente relacionada, tendo abaixo o astral e físico, e acima o búdico e nirvânico. É o plano onde o homem, exceto se em um estágio extraordinariamente primitivo de seu progresso, despende de longe a maior parte de seu tempo durante o processo de evolução; pois, fora o caso dos inteiramente subdesenvolvidos, a proporção da vida física em relação à celestial raramente é muito maior que um para vinte, e em no caso de pessoas bastante boas poderia por vezes cair para um para trinta. É, de fato, a morada verdadeira e permanente do Ego ou Alma reencarnante do homem, cada descida à encarnação constituindo meramente um breve embora significativo episódio em sua trajetória. Portanto são bem aproveitados todo o tempo e cuidado que devotarmos ao seu estudo para adquirir uma compreensão do mesmo tão completa quanto seja possível para nós, enquanto encerrados no corpo físico.

Infelizmente há dificuldades praticamente insuperáveis no caminho de qualquer tentativa de transpor os fatos deste terceiro plano da Natureza em palavras - naturalmente, pois amiúde consideramos as palavras insuficientes para expressar nossas idéias e sentimentos mesmo neste plano mais inferior. Leitores de O Plano Astral lembrarão que lá foi assinalada a impossibilidade de veicular qualquer noção adequada das maravilhas daquela região para aqueles cuja experiência ainda não havia transcendido o mundo físico; alguém poderá apenas dizer que cada observação feita lá a respeito desta circunstância se aplica com força decuplicada ao esforço que está diante de nós nesta seqüência daquele tratado. Não somente a matéria que deveremos tentar descrever é muito mais remota que a astral desta a que estamos acostumados, mas a consciência daquele plano é tão imensamente mais larga do que qualquer coisa que possamos imaginar aqui embaixo, e suas verdadeiras condições tão inteiramente diferentes, que quando instado a descrever isso com as palavras ordinárias o explorador sente-se numa extrema impotência, e pode apenas confiar que a intuição de seus leitores suplementará as inevitáveis imperfeições de sua descrição.

Para tomarmos apenas um dos muitos possíveis exemplos de nossas dificuldades, pareceria como se neste plano mental o espaço e o tempo não existissem, pois eventos que aqui embaixo se desenrolam em sucessão e em lugares largamente separados, apareceriam lá como se ocorrendo simultaneamente e no mesmo ponto. Este pelo menos é o efeito produzido na consciência do Ego, ainda que haja circunstâncias que apóiem a suposição de que a absoluta simultaneidade seja atributo de um plano ainda mais elevado, e que esta sensação no mundo celeste é só o resultado de uma sucessão tão rápida que os intervalos de tempo infinitesimalmente diminutos são indistinguíveis, como ocorre no bem conhecido experimento óptico de voltearmos uma vareta cuja extremidade está em brasa: o olho recebe a impressão de um contínuo anel de fogo se a vareta for girada mais rápido que dez vezes por segundo; não porque um anel contínuo realmente exista, mas porque o olho humano comum é incapaz de distinguir como separadas quaisquer impressões similares que se sigam em intervalos menores que a décima parte do segundo.

Como quer que seja, o leitor prontamente compreenderá que na tentativa de descrever uma condição de existência tão totalmente dessemelhante daquela da vida física como esta que temos de considerar, será impossível evitar dizermos muitas coisas que serão parcialmente ininteligíveis e podem mesmo parecer de todo inacreditáveis àqueles que não tiverem pessoalmente experimentado esta vida mais alta. Que isso deva ser assim, como eu disse, é inevitável, de modo que os leitores que se acharem incapazes de aceitar o relato de nossas investigações devem simplesmente esperar por uma noção mais satisfatória do mundo celeste até quando sejam capazes de o examinar por si mesmos: posso apenas repetir a declaração anteriormente feita em O Plano Astral de que todas as precauções razoáveis foram tomadas para assegurar a exatidão. Neste caso como no outro, podemos dizer que ‘nenhum fato, velho ou novo, foi incluído neste tratado a menos que tenha sido confirmado pelo testemunho de pelo menos dois investigadores dentre nós treinados e independentes, e que foram passados como corretos também por estudantes mais velhos cujo conhecimento é necessariamente muito maior que o nosso. É esperado, portanto, que este relato, ainda que não possa ser considerado completo, possa ser acreditado como confiável até onde se propõe.'

A organização geral do manual precedente será seguida até onde possível também neste, de modo que aqueles que o desejarem fazer poderão comparar os dois planos estágio por estágio. O título ‘Cenário', entretanto, seria inapropriado para o mundo mental, como veremos mais adiante; de modo que o substituiremos pelo título que segue.

CARACTERÍSTICAS GERAIS

Talvez o método menos insatisfatório de abordarmos este assunto superlativamente difícil será o de mergulharmos diretamente em meio à coisa e fazermos a tentativa (mesmo que destinada a falhar) de descrever o que um discípulo ou estudante treinado vê quando pela primeira vez o mundo celeste se desvenda diante dele. Eu usei a palavra discípulo judiciosamente, pois a não ser que um homem esteja nesta relação com um dos Mestres de Sabedoria, há apenas pouca chance de ser capaz de passar para esta gloriosa região de bem-aventurança em plena consciência, e retornar à Terra com uma recordação clara do que viu lá. Daí que nenhum ‘espírito' convencional jamais transmitiu nada além de trivialidades extremamente baratas pela boca do médium profissional; lá nenhum clarividente comum jamais chegou, ainda que algumas vezes os melhores e mais puros tenham lá entrado quando durante o transe mais profundo escaparam ao controle de seus mesmerizadores - e mesmo então raramente trouxeram mais que uma débil lembrança de uma intensa mas indescritível bem-aventurança, geralmente colorida pelas suas convicções religiosas pessoais.

Quando uma alma partiu, recolhendo-se dentro de si mesma após o que chamamos morte, e chegou àquele plano, nem os pensamentos lamentosos de seus amigos entristecidos nem os apelos dos círculos espíritas poderão jamais trazê-la de volta para a comunhão com a Terra física até que todas as forças espirituais que houver posto em ação em sua vida recente tiverem frutificado ao máximo, e ela estiver mais uma vez pronta para tomar sobre si novas roupagens de carne. Nem, mesmo se pudesse retornar, seu relato de sua experiência daria qualquer idéia verdadeira daquele plano, pois, como veremos em breve, só aqueles que entram em plena consciência desperta são capazes de se mover lá com liberdade e sorver ao máximo a deslumbrante glória e beleza que o mundo celeste tem a oferecer. Mas tudo isso será explicado mais completamente mais tarde, quando tratarmos dos habitantes deste reino celestial.

Uma Formosa Descrição

Numa carta antiga de um eminente ocultista a seguinte bela passagem foi dada, como citação de memória. Nunca fui capaz de descobrir de onde foi tirada, ainda que pareça ser uma outra versão, consideravelmente expandida, da que aparece em Catena of Buddhist Scriptures, de Beal, pg. 378.

‘Nosso Senhor o Buda disse: Milhares de miríades de sistemas de mundos além deste há uma região de bem-aventurança chamada Sukhâvatî. Esta região é circundada por sete séries de balaustradas, sete séries de vastas cortinas, sete séries de árvores balouçantes. Esta mansão sagrada dos Arhats é governada pelos Tathâgatas e é possuída pelos Bodhisattvas. Tem sete lagos preciosos, dos quais jorram águas cristalinas possuidoras de sete e mais uma distintas qualidades e propriedades. Este, oh Sâriputra, é o Devachan. Sua divina flor Udambara lança uma raiz na sombra de cada Terra, e flori para todos os que a encontram. Aqueles renascidos nesta região bendita - os que cruzaram a ponte dourada e chegaram às sete montanhas douradas - estes são veramente felizes; para eles não há mais sofrimento ou tristeza neste ciclo.'

Mesmo que veladas sob o opulento imaginário do Oriente, podemos facilmente detectar nesta passagem algumas das características principais que apareceram mais proeminentemente nas referências de nossos modernos investigadores. As ‘sete montanhas douradas' podem ser apenas as sete subdivisões do plano mental, separadas uma da outra por barreiras impalpáveis, ainda que reais e efetivas lá como ‘sete séries de balaustradas, sete séries de vastas cortinas, setes séries de árvores balouçantes' poderiam ser aqui: os sete tipos de águas cristalinas, tendo cada uma suas propriedades e qualidades distintas, representam os diferentes poderes e condições mentais pertencentes a eles respectivamente, enquanto a qualidade única que têm em comum é a de concederem àqueles lá residentes a maior intensidade de felicidade que são capazes de experimentar. Sua flor de fato ‘lança uma raiz na sombra de cada Terra', pois para cada mundo o homem encontra o céu correspondente, e a felicidade de que nenhuma língua pode falar é o botão que desabrocha para todos os que viveram de modo a se prepararem para obtê-lo. Pois eles terão ‘passado a ponte dourada' sobre a correnteza que divide este reino do mundo do desejo; para eles a luta entre o superior e o inferior é finda, e para eles, portanto, ‘não há mais sofrimento ou tristeza neste ciclo', até quando uma vez mais o homem aprontar-se para a encarnação, e o mundo celeste uma vez mais for deixado para trás por algum tempo. 

A Bem-Aventurança do Mundo Celeste

Esta intensidade de bem-aventurança é a primeira grande idéia que deve formar uma base para todas as nossas concepções da vida celeste. Não é apenas que estamos tratando de um mundo no qual, pela sua própria constituição, o mal e a tristeza são impossíveis; não é só um mundo no qual toda criatura é feliz; os fatos neste caso vão muito além de tudo isso. É um mundo onde cada ser, pelo simples fato de estar lá, deve estar desfrutando da mais alta felicidade espiritual de que é capaz - um mundo cujo poder de resposta às suas aspirações é limitado somente pela sua capacidade de aspirar.

Aqui pela primeira vez começamos a captar algo da verdadeira natureza da grande Fonte de Vida; aqui pela primeira vez captamos um distante vislumbre daquilo que o Logos deve ser, e do que Ele tenciona que sejamos. E quando a estupenda realidade disso explode ante nossa visão atônita, não podemos senão sentir que, com este conhecimento da verdade, a vida jamais poderá nos olhar como antes. Não podemos senão nos maravilhar da desesperada inadequação de todas as idéias mundanas do homem sobre a felicidade; de fato, não podemos evitar perceber que a maioria delas está absurdamente invertida e é de impossível realização, e que na maior parte ele realmente voltou as costas para a verdadeira meta que procura. Mas aqui pelo menos há verdade e beleza, transcendendo em muito tudo o que cada poeta sonhou; e na luz de sua glória transcendente todas as outras alegrias empalidecem e se apagam, irreais e insatisfatórias.

Deveremos tentar esclarecer mais tarde algum detalhe disso tudo; o ponto a ser enfatizado agora é que este radioso senso, não só de bem-vinda ausência de todo o mal e discórdia, mas de persistente, irresistível presença de júbilo universal, é a primeira e mais impressionante sensação experimentada por quem entra no mundo celeste. E ela jamais o abandona enquanto lá permanece; qualquer trabalho que possa estar fazendo; quaisquer ainda mais altas possibilidades de exaltação espiritual que possam surgir diante dele à medida que aprenda mais das capacidades deste novo mundo em que se encontra, o estranho, indescritível sentimento de inexprimível deleite pela mera existência em tal reino sobrepuja tudo mais - esta apreciação do extravasante júbilo dos outros sempre lhe é presente. Nada na Terra se assemelha; nada o pode figurar; se alguém pudesse imaginar a livre vida da criança elevada à nossa experiência espiritual e então intensificada muitos milhares de vezes, talvez alguma tênue sombra de uma idéia disso poderia ser insinuada; e mesmo tal comparação ficaria miseravelmente aquém daquilo que está além das palavras - a tremenda vitalidade espiritual deste mundo celeste.

Um modo pelo qual esta intensa vitalidade se manifesta é a extrema rapidez de vibração de todas as partículas e átomos desta matéria mental. Como proposição teórica estamos todos cientes de que mesmo aqui no plano físico nenhuma partícula de matéria, mesmo fazendo parte do mais denso dos corpos sólidos, jamais está parada por qualquer momento; não obstante, quando pela abertura da visão astral isso deixa de ser para nós uma teoria dos cientistas, mas torna-se um fato real e sempre presente, percebemos a universalidade da vida de um jeito e numa largueza que era de todo impossível antes; nossos horizontes mentais se expandem, e começamos mesmo a ter vislumbres de possibilidades na Natureza que para aqueles que ainda não podem ver devem parecer o mais desvairado dos sonhos.

Se este é o efeito de adquirir a mera visão astral, e aplicando-o à mera matéria densa, tente imaginar o resultado produzido na mente do observador quando, tendo deixado este plano físico para trás e estudado profundamente a vida muito mais intensa e as vibrações infinitamente mais rápidas do astral, encontra um novo e transcendente sentido se abrindo dentro de si, que desvenda ao seu olhar deslumbrado um outro e ainda mais elevado universo, cujas vibrações são muito mais aceleradas que as da luz de nosso plano físico o são em relação às do som - um universo onde a onipresente vida que pulsa incessante em volta e dentro de nós é de uma espécie toda diferente, como se tivesse sido elevada a uma potência enormemente mais alta.

Um Novo Método de Cognição

O próprio sentido, pelo qual se torna apto para conhecer tudo isso, não é a menor das maravilhas deste mundo celestial; já não ouve e vê e sente através de órgãos separados e limitados, como faz aqui embaixo, nem tem mesmo as imensamente expandidas capacidades de visão e audição que possuía no plano astral; no lugar deles ele sente em si um estranho e novo poder que não é nenhum daqueles, mas os inclui todos e muito mais - um poder que o habilita no momento em que se depare com qualquer coisa ou pessoa não só a vê-la e senti-la e ouvi-la, mas a saber tudo instantaneamente sobre ela por dentro e por fora - suas causas, seus efeitos, e suas possibilidades, pelo menos até onde concerne a este plano e tudo o que está abaixo. Ele descobre que para ele pensar é realizar; lá não há nunca dúvida, hesitação, ou retardo acerca desta ação direta do sentido superior; se pensa em algum lugar, lá está; se num amigo, aquele amigo surge diante dele. Já nenhum mal-entendido pode surgir, já não pode ser enganado ou iludido por nenhuma aparência externa, pois cada pensamento e sentimento do seu amigo se desvelam como num livro aberto diante dele neste plano.

E se for afortunado bastante para ter entre seus amigos um outro cujo sentido superior esteja aberto, sua relação é duma perfeição além de toda concepção terrena. Pois para eles não há distância ou separação; seus sentimentos já não podem ser ocultos ou na melhor das hipóteses só parcialmente expressos por palavras desajeitadas; pergunta e resposta são desnecessárias, pois as imagens-pensamentos são lidas assim que se formam, e o intercâmbio de idéias é tão rápido quanto o seu nascimento fulgurante na mente.

Todo o conhecimento é deles para a pesquisa - todo, isto é, o que não transcende este mesmo plano elevado; o passado do mundo lhes está tão aberto como o presente; os indeléveis registros na memória da Natureza estão sempre à sua disposição, e a história, seja antiga ou moderna, se desenrola diante de seus olhos à sua vontade. Já não estão mais à mercê do historiador, que pode estar mal-informado, e deve ser mais ou menos parcial; eles podem estudar por si mesmos qualquer incidente no qual estejam interessados, com a absoluta certeza de ver ‘a verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade'. Se são capazes de permanecer nos níveis mais altos do plano, a longa série de suas vidas pregressas se desenrola diante deles como um pergaminho; eles vêem as causas kármicas que os fizeram ser como são; vêem o karma que ainda resta à sua frente para ser trabalhado antes que ‘a longa e triste conta seja encerrada', e assim percebem com infalível certeza seu exato lugar na evolução.

Se for perguntado se podem ver o futuro tão claramente quanto o passado, a resposta deve ser negativa, pois esta faculdade pertence a um plano ainda mais alto, e ainda que neste plano mental a previsão lhes seja em grande medida possível, já não é perfeita, porque onde quer que na rede do destino interfira a mão do homem desenvolvido, sua vontade poderosa pode introduzir novos fatores, e alterar o padrão da próxima vida. O caminho do homem comum não-desenvolvido, que não tem praticamente nenhuma vontade própria digna desse nome, amiúde pode ser previsto com clareza suficiente, mas quando o Ego ousadamente toma seu futuro em suas próprias mãos, a previsão exata se torna impossível. 

Ambiente

As primeiras impressões, então, do discípulo que entra neste plano mental em plena consciência serão de intensa bem-aventurança, indescritível vitalidade, poder enormemente aumentado, e a perfeita segurança que deles advém; e quando faz uso de seu novo sentido para examinar as adjacências, o que ele vê? Ele se encontra no meio do que lhe parece ser um universo inteiro de luz e cores e sons eternamente cambiantes, como jamais terá chegado a imaginar em nenhum de seus mais altos sonhos. De fato é verdadeiro que aqui embaixo ‘o olho não viu, nem o ouvido escutou, sequer o coração do homem terá chegado a imaginar' as glórias do mundo celeste: e o homem que o experimentou uma vez em plena consciência considerará o mundo com olhos mui diversos para sempre daí em diante. Pois sua experiência é tão dessemelhante de tudo o que conhecemos no plano físico que ao tentar colocá-la em palavras qualquer um se vê aflito por um curioso senso de desvalia - de absoluta incapacidade, não só de lhe fazer justiça, pois disso perde-se toda esperança desde o início, mas mesmo de dar alguma idéia de tudo isso àqueles que por si mesmos não o viram.

Que um homem se imagine, com o sentimento de intensa felicidade e poder enormemente aumentado já descritos, flutuando em um mar de luz viva, rodeado por todas as variedades concebíveis de beleza de cor e forma - o todo mudando com cada onda de pensamento que emite de sua mente, e sendo em verdade, como logo irá descobrir, somente a expressão de seu pensamento na matéria do plano e em sua essência elemental. Pois aquela matéria é da mesmíssima classe que aquela de que o próprio corpo mental é composto, e portanto quando aquela vibração de partículas do corpo mental a que chamamos pensamento ocorre, ela imediatamente se difunde para a matéria mental circunstante, e nela suscita vibrações correspondentes, enquanto que na essência elemental ela se espelha com absoluta exatidão. Pensamentos concretos naturalmente tomam a forma dos objetos, enquanto que idéias abstratas usualmente aparecem como todos os tipos de perfeitas e formosíssimas formas geométricas; mas em relação a isso deve ser lembrado que muitos pensamentos que para nós cá embaixo são pouco mais que a mais aérea das abstrações, se tornam fatos concretos neste plano superior.

Será pois verificado que neste mundo mais alto qualquer um que desejar devotar-se por algum tempo a um pensar tranqüilo, e abstrair-se do ambiente, poderá realmente viver em um mundo próprio sem a possibilidade de interrupção, e com a vantagem adicional de ver todas as suas idéias (e suas conseqüências, plenamente desenvolvidas) passando num tipo de panorama perante seus olhos. Se, entretanto, desejar em vez observar o plano em que se encontra, ser-lhe-á necessário suspender mui cuidadosamente seu pensamento durante este período, para que suas criações não possam influenciar a prontamente impressionável matéria ao seu redor, e destarte alterando todas as condições até onde lhe dizem respeito.

Este manter a mente em suspenso não deve ser confundido com o esvaziamento da mente tendo em mira aquilo a que muitas das práticas do Hatha Yoga se direcionam: neste caso a mente é bloqueada numa absoluta passividade a fim de que não possa, por qualquer pensamento próprio, oferecer resistência à entrada de qualquer influência externa que possa acontecer aproximar-se - uma condição muito próxima da mediunidade; enquanto que no primeiro caso a mente está tão agudamente alerta e positiva quanto pode estar, mantendo seus pensamentos por ora em suspenso meramente para evitar a intrusão de fatores pessoais na observação que deseja fazer.

Quando o visitante do plano mental consegue pôr-se nesta posição ele descobre que mesmo já não sendo um centro ele mesmo de radiação de toda aquela maravilhosa pletora de luz e cor, forma e som, que eu tão inutilmente tentei figurar, ela de todo modo não deixou de existir; ao contrário, suas harmonias e cintilações estão até mais grandiosas e mais plenas do que nunca. Especulando por uma explanação deste fenômeno, ele começa a perceber que toda esta magnificência não é meramente uma inútil ou fortuita demonstração - alguma espécie de aurora boreal devachânica; ele descobre que tudo aquilo tem um significado - um significado que ele mesmo pode entender; e logo capta o fato de que o que ele está testemunhando com tamanho êxtase de deleite é simplesmente a gloriosa linguagem cromática dos Devas - a expressão do pensamento ou a conversação de seres muito superiores a ele na escala evolutiva. Pela experiência e pela prática ele descobre que também pode usar este novo e belo modo de expressão, e com esta mesma descoberta entra na posse de uma outra grande porção de sua herança neste reino celestial - o poder de manter diálogo com, e aprender de, seus excelsos habitantes não-humanos, de quem trataremos mais completamente quando chegarmos a discorrer sobre esta parte de nosso assunto.

A esta altura já terá se tornado evidente o motivo pelo qual foi impossível devotar uma seção deste estudo ao cenário do plano mental, do modo como foi feito no caso do astral; pois de fato o plano mental não tem nenhum cenário propriamente dito exceto aquele que cada indivíduo escolhe construir para si mesmo através de seu pensamento - a menos na verdade que levemos em conta o fato de que o vasto número de entidades que estão continuamente passando diante dele são elas mesmas em muitos casos objetos da mais transcendente beleza. Por mais difícil que seja expressar em palavras as condições desta vida superior talvez fosse uma melhor descrição dos fatos dizer que qualquer cenário possível existe lá - que não há nada concebível de formosura na Terra ou no céu ou no mar que não exista aqui com uma plenitude e intensidade além de todo o poder de imaginação; mas que além de todo esse esplendor de viva realidade cada homem vê somente aquilo que é capaz de ver - aquilo para o que seu desenvolvimento durante as vidas terrestre e astral o capacitou a responder.  

As Grande Ondas

Se o visitante desejar levar sua análise do plano ainda além, e descobrir como seria quando inteiramente imperturbado pelo pensamento ou conversação de qualquer de seus habitantes, ele pode fazê-lo formando em volta de si uma poderosa concha através da qual nenhuma destas influências possa penetrar, e então (é claro que mantendo sua própria mente perfeitamente tranqüila como antes) examinando as condições que existem dentro desta concha.

Se ele levar a cabo este experimento com cuidado suficiente, descobrirá que o mar de luz tornou-se - não estático, pois suas partículas continuam com suas vibrações intensas e rápidas, mas - como que homogêneo; pois que aquelas maravilhosas fulgurações de cor e constantes mudanças de forma já não têm lugar, mas que ele é capaz de perceber agora uma outra e inteiramente diferente série de pulsações regulares que os outros fenômenos mais artificiais haviam previamente obscurecido. Estas são evidentemente universais, e nenhuma concha que o poder humano pudesse fazer as anularia ou afastaria. Elas não provocam nenhuma alteração de cor, não assumem nenhuma forma, mas fluem com irresistível regularidade através de toda a matéria do plano, para dentro ou de novo para fora, como as exalações e inalações de alguma grande respiração além de nosso conhecimento.

Há diversas séries delas, claramente discerníveis uma da outra pelo volume, pelo período de vibração, e pelo tom da harmonia que carregam, e mais grandiosa do que todas pulsa uma grande onda que parece o verdadeiro batimento cardíaco do sistema - uma onda que, partindo de centros desconhecidos em planos ainda mais subidos, derrama sua vida através de todo nosso mundo, e então remonta em sua maré tremenda Àquele de quem proveio. Vem numa longa curva ondulante, e o seu som é como o murmúrio do mar; e nela mesmo e através dela durante todo o tempo lá ecoa um poderoso e retumbante cântico de triunfo - a verdadeira música das esferas. O homem que alguma vez tiver ouvido este glorioso canto da Natureza jamais o esquece; mesmo aqui em seu lúgubre plano físico de ilusão ele o ouve sempre como uma espécie de subtom, mantendo sempre diante de sua mente a força e a luz e o esplendor da vida real acima.

Se o visitante for puro de coração e mente, e tiver chegado a certo grau de desenvolvimento espiritual, é-lhe possível identificar sua consciência com o fluxo desta onda estupenda - imergir seu espírito nela, e deixar que o leve direto à sua fonte. Digo que isso é possível; mas não é prudente - a menos, de fato, que seu Mestre esteja a seu lado para resgatá-lo no exato momento do poderoso abraço; doutro modo sua força irresistível o arrastaria para planos cada vez mais altos, cujas esmagadoras glórias seu Ego ainda não é capaz de suportar; ele perderia a consciência, sem certeza de quando ou onde ou como recuperá-la. É verdade que o objetivo último da evolução humana é atingir a unidade, mas ele deve conquistar esta meta final com plena e perfeita consciência como um rei vitorioso arrebatando triunfante sua herança, e não mergulhar na absorção em um estado de nula inconsciência bem pouco diferente da aniquilação.

Os Mundos Celestes Superior e Inferior

Tudo o que tentamos até agora indicar nesta descrição pode ser tomado como aplicando-se às subdivisões mais baixas do plano mental; pois este reino da Natureza, exatamente como o astral, ou o físico, tem suas sete subdivisões. Destas as quatro inferiores são chamadas nos livros de rûpa ou planos de forma, e estes constituem o Mundo Celeste Inferior, no qual o homem comum passa sua longa vida de bem-aventurança entre uma encarnação e a próxima. Os outros três planos são denominados arûpa ou sem forma, e constituem o Mundo Celeste Superior, onde atua o Ego reencarnante - o verdadeiro domicílio da Alma do homem. Estes nomes Sânscritos têm sido dados porque nos planos rûpa cada pensamento assume uma certa forma definida, enquanto que nas subdivisões arûpa ele se expressa de um modo inteiramente diferente, como a seguir explicaremos. A distinção entre estas duas grandes divisões do plano - a rûpa e a arûpa - é profundamente marcada; na verdade, o é tanto que requer o uso de diferentes veículos de consciência.

O veículo apropriado ao mundo celeste inferior é o corpo mental, enquanto aquele do mundo celeste superior é o corpo causal - o veículo do Ego reencarnante, no qual ele passa de vida para vida durante todo o período evolucionário. Uma outra enorme distinção é a de que naquelas quatro subdivisões inferiores algum grau de ilusão ainda é possível - não realmente para a entidade que permanece acima deles em plena consciência durante a vida, mas para a pessoa não desenvolvida que passa para lá depois do que os homens chamam de morte. Os mais elevados pensamentos e aspirações que ele gerou durante sua vida terrena se agregam então à sua volta, e criam uma espécie de concha em seu redor - um tipo de mundo subjetivo só seu; e nele ele vive sua vida celeste, percebendo apenas debilmente ou nada percebendo das glórias verdadeiras do plano que existem lá fora, e, na verdade, supondo usualmente que o que ele vê é tudo o que há para ver.

Mas estaríamos laborando em erro considerando esta nuvem de pensamentos como uma limitação. Sua função é capacitar o homem a responder a certas vibrações - e não isolá-lo dos outros. A verdade é que estes pensamentos que cercam o homem são os poderes pelos quais ele aproveita a abundância do mundo celeste. Este próprio plano mental é um reflexo da Mente Divina - um reservatório de extensão infinita do qual a pessoa que desfruta do céu é capaz de fazer uso exatamente de acordo com o poder de seus próprios pensamentos e aspirações gerados durante as vidas física e astral.

Mas no mundo celeste superior esta limitação já não existe; é verdade que mesmo aqui há muitos Egos que só leve e sonhadoramente estão cônscios de seu entorno, mas até onde podem ver, eles vêem verdadeiramente, pois o pensamento já não assume as mesmas formas limitadas que assumia no plano abaixo. 

A Ação do Pensamento

A exata condição mental dos habitantes humanos destes vários subplanos será naturalmente muito mais completamente tratada na sua seção correspondente; mas uma compreensão da maneira pela qual o pensamento age nos níveis superior e inferior respectivamente, é muito necessária para um acurado entendimento destas grandes divisões, pois que talvez seja útil referir em detalhe alguns dos experimentos feitos por nossos exploradores na tentativa de lançar luz sobre este assunto.

Num período de investigação anterior se tornou evidente que no plano astral bem como no mental havia presente uma essência elemental muito distinta da mera matéria do plano, e que era, se possível, ainda mais instantaneamente sensível aqui à ação do pensamento do que o havia sido naquele mundo inferior. Mas aqui no mundo celeste tudo é substância-pensamento, e portanto não só a essência elemental, mas a própria matéria do plano é diretamente afetada pela ação da mente; daí se tornou necessário fazer uma tentativa de distinguir estes dois efeitos.

Depois de vários experimentos menos concludentes foi adotado um método que deu uma idéia bem mais clara dos diferentes resultados produzidos: um investigador permaneceu na subdivisão mais baixa para emitir as formas-pensamento, enquanto que outros ascenderam ao nível imediatamente superior, para serem capazes de observar o que estava se passando de cima, e assim evitando muitas possibilidades de confusão. Nestas circunstâncias foi tentado o experimento de enviar-se um pensamento afetuoso e auxiliador para um amigo ausente num país distante.

O resultado foi muito notável: uma espécie de concha vibratória, formada da matéria do plano, irradiou-se em todas as direções ao redor do operador, correspondendo exatamente ao círculo que se forma na água parada de uma poça quando uma pedra é atirada nela, exceto que esta era uma esfera de vibração se estendendo em muitas dimensões em vez de meramente sobre uma superfície plana. Estas vibrações, como aquelas no plano físico, ainda que muito mais gradualmente, perdiam intensidade à medida que se estendiam para longe de sua fonte, até que a uma enorme distância pareciam se exaurir, ou pelo menos se tornavam fracas demais para serem perceptíveis.

Assim cada um no plano mental é um centro de pensamento irradiante, ainda que todos os raios emitidos se cruzem em todas as direções sem interferirem um com outro no mais mínimo grau, exatamente como o fazem aqui embaixo os raios de luz. Esta expansiva esfera de vibrações era multicolorida e opalescente, mas suas cores também empalideciam com a distância.

O efeito na essência elemental do plano, entretanto, foi inteiramente diferente. Neste o pensamento imediatamente chamou à existência uma forma distinta semelhante à humana, de uma só cor, ainda que exibindo muitas nuances desta cor. Esta forma relampejou instantaneamente através do oceano para o amigo a quem o bom voto tinha sido dirigido, e lá tomou para si essência elemental do plano astral, e assim se tornou um elemental artificial comum daquele plano, esperando, como explicado no Manual V, por uma oportunidade de derramar sobre ele sua carga de influência auxiliadora. Ao assumir aquela forma astral o elemental mental perdeu muito de seu fulgor, mesmo que sua brilhante cor rosada fosse ainda nitidamente visível dentro da concha de matéria inferior que construiu, demostrando que assim como o pensamento original animou a essência elemental de seu próprio plano, aquele mesmo pensamento, mais sua forma de elemental mental, funcionou como alma do elemental astral - desse modo seguindo estritamente o método pelo qual o próprio espírito primordial se reveste de véus sobre véus em sua descida através dos vários planos e subplanos de matéria.

Experimentos ulteriores ao longo de linhas similares revelaram o fato de que a cor do elemental projetado variava de acordo com o caráter do pensamento. Como foi dito acima, o pensamento de forte afeição produziu uma criatura de brilhante cor rosada; um intenso desejo de cura, projetado para um amigo doente, chamou à vida um adorável elemental branco-prateado; enquanto um concentrado esforço mental para estabillizar e fortificar a mente de uma pessoa deprimida e desesperada resultou na produção de um formoso mensageiro de coruscante amarelo-dourado.

Em todos estes casos será notado que, além do efeito de cores e vibrações irradiantes produzido na matéria do plano, uma força definida sob a forma de um elemental era enviada para a pessoa a quem o pensamento era direcionado; e isso ocorreu invariavelmente, com uma notável exceção. Um dos operadores, ainda na subdivisão mais baixa do plano, dirigiu um pensamento de intenso amor e devoção para o Adepto que é seu instrutor espiritual, e imediatamente foi notado pelos observadores de cima que o resultado foi de certo modo inverso do que havia acontecido nos casos anteriores.

Deveria ser pressuposto que um discípulo de um dos grandes Adeptos esteja sempre conectado com seu Mestre por uma constante corrente de pensamento e influência, que se expressa no plano mental como um grande raio ou fluxo de deslumbrante luz nas cores violeta e ouro e azul; e poderia talvez ter sido esperado que o devotado, amoroso pensamento do discípulo enviasse uma vibração especial ao longo dessa linha. Em vez disso, o resultado foi uma súbita intensificação das cores desta corrente de luz, e um muito nítido afluxo de influência espiritual, em direção ao discípulo; de modo que se tornou evidente que quando um estudante volta seu pensamento para seu Mestre, o que realmente acontece é a vivificação de sua conexão com o Mestre, abrindo caminho assim para um derramamento adicional de força e ajuda para ele a partir dos planos mais altos. Pareceria que o Adepto é, como de fato é, tão carregado de influências que sustentam e fortalecem, que qualquer pensamento que intensifica a atividade do canal de comunicação com ele não lhe manda nenhuma corrente, como o faria usualmente, mas simplesmente abre uma porta mais larga através da qual o grande oceano de seu amor encontra vazão.

Nos níveis arûpa a diferença de efeitos do pensamento é muito acentuada, especialmente no que diz respeito à essência elemental. A perturbação causada na mera matéria do plano é similar, ainda que grandemente intensificada nesta forma muito mais refinada de matéria; mas na essência nenhuma forma é jamais criada, e o método de atuação é inteiramente modificado. Em todas as experiências nos planos inferiores foi descoberto que o elemental alcançou a pessoa em que pensamos, e esperou uma oportunidade favorável de descarregar sua energia seja sobre seu corpo mental, seja sobre o astral, ou mesmo seu corpo físico; aqui o resultado é uma espécie de relampejante fulguração da essência a partir do corpo causal do pensador direto para o objeto de seu pensamento; pois enquanto o pensamento nas divisões inferiores é sempre dirigido à mera personalidade, aqui influímos no Ego reencarnante, no próprio homem verdadeiro, e se sua mensagem faz alguma referência à personalidade só a alcançará a partir de cima, através da instrumentalidade de seu veículo causal. 

Formas-Pensamento

Naturalmente os pensamentos visíveis neste plano não são de modo nenhum definidamente direcionados para alguma outra pessoa; muitos são simplesmente jogados a flutuar a esmo, e a diversidade de formas e cores encontradas entre estes é praticamente infinita, de modo que o seu estudo é uma ciência em si, e uma ciência fascinante. Qualquer coisa como uma descrição detalhada mesmo que só das suas classes principais ocuparia muito mais espaço do que dispomos; mas uma idéia dos princípios sob os quais tais classes poderiam ser agrupadas pode ser tirada de um extrato de um mui esclarecedor trabalho sobre o assunto escrito pela Sra. Besant no Lucifer (a versão antiga de The Theosophical Review) de setembro de 1896. Lá ela enuncia os três grandes princípios subjacentes à produção de formas-pensamento que são emitidas pela ação da mente - que (a) a qualidade do pensamento determina sua cor, (b) a natureza do pensamento determina sua forma, e (c) a precisão do pensamento determina a clareza de seu desenho. Dando exemplos do modo como a cor é influenciada, ela continua:

‘Se os corpos astral e mental estão vibrando sob a influência da devoção, a aura será banhada de azul, mais ou menos intenso, belo e puro de acordo com a profundidade, elevação, e pureza do sentimento. Numa igreja tais formas-pensamento podem ser vistas surgindo, mas em sua maioria não muito definidamente delineadas, apenas massas evolventes de nuvens azuis. Amiúde a cor é escurecida por mistura de sentimentos egoístas, quando o azul é mesclado de marrons perdendo assim seu brilho puro. Mas o pensamento devocional de um coração altruísta é muito adorável na cor, como o azul profundo de um céu estival. Através de tais nuvens de azul freqüentemente irrompem estrelas douradas de grande luminosidade, jorrando para cima como uma chuva de centelhas.

‘Raiva dá origem ao vermelho, de todas as tonalidades desde o vermelho-tijolo até o escarlate brilhante; a raiva furiosa se mostrará como relâmpagos de opaco vermelho escuro por entre escuras nuvens marrons, enquanto que a ira de uma nobre indignação é dum escarlate vívido, de modo nenhum desgracioso de ver, ainda que provoque um arrepio desagradável.

‘A afeição gera nuvens de tons rosa, variando desde o violáceo opaco, quando o amor é animal em sua natureza; o rosa-vermelho tingido de marrom quando egoísta, ou de verde opaco quando ciumento, até as mais refinadas nuances de delicado cor-de-rosa como os primeiros rubores da aurora, quando o amor se torna purificado de todo elemento egoísta, e flui em amplos, cada vez mais largos círculos de generosa e impessoal ternura e compaixão para com todos os necessitados.

‘O intelecto produz formas-pensamento amarelas, a razão pura dirigida a objetivos espirituais surge como um amarelo muito delicado e belo, enquanto se usado para objetivos mais pessoais ou mesclado com ambição contém laivos mais profundos de laranja, claro e intenso.' (Lucifer, vol. XIX, pg. 71)

Deve ser mantido em mente, é claro, que as formas-pensamento astrais bem como mentais são descritas na citação acima, alguns dos sentimentos mencionados precisando de matéria do plano inferior bem como do superior para poderem ter expressão. Alguns exemplos são dados das belas formas de flores e conchas às vezes assumidas pelos nossos mais nobres pensamentos; e uma referência especial é feita ao caso não incomum em que o pensamento, tomando forma humana, é passível de ser confundido com uma aparição:

‘Uma forma-pensamento pode assumir a forma de seu emissor; se uma pessoa quer fortemente estar presente nalgum lugar especial, visitar uma pessoa particular, e ser vista, tal forma-pensamento pode assumir sua própria imagem, e um clarividente presente no local desejado veria o que provavelmente tomaria como o seu amigo em corpo astral. Tal forma-pensamento pode veicular uma mensagem, se isso formar parte de seu conteúdo, estabelecendo no corpo astral da pessoa alcançada vibrações como as suas, e estas transmitidas pelo corpo astral até o cérebro, onde seriam traduzidas como um pensamento ou frase. Tal forma-pensamento, também, poderia trazer de volta ao seu emissor, pela conexão magnética entre eles, vibrações lá impressas sobre si mesma.'

A íntegra do artigo de onde estes extratos foram retirados deveria ser mui cuidadosamente estudada por aqueles que desejam compreender esta parte verdadeiramente complexa de nosso assunto, pois, com a ajuda de ilustrações belamente executadas em cor que o acompanham, possibilita, àqueles que ainda não são capazes de ver por si mesmos, aproximarem-se muito mais de uma percepção do que são em verdade as formas-pensamento do que qualquer coisa anteriormente escrita.

Os Subplanos

Se for perguntada qual é a diferença real entre a matéria dos vários subplanos do plano mental, não será fácil responder a não ser em termos muito gerais, pois este desafortunado escriba esgota seus adjetivos nessa malsucedida tentativa de descrever o plano inferior, e então já não possui nada para falar dos outros. O que, de fato, pode ser dito, exceto que sempre que ascendemos o material se torna mais fino, as harmonias mais plenas, a luz mais viva e transparente? Há mais sobretons no som, mais nuances delicadas nas cores ao subirmos, mais e mais cores novas aparecem - matizes inteiramente desconhecidos da visão física; e tem sido poética mas verdadeiramente dito que a luz do plano inferior é treva no plano acima. Talvez esta idéia se torne mais simples se em pensamento partirmos do ápice em vez da base, e tentarmos perceber que naquele subplano mais alto encontraríamos sua respectiva matéria animada e vivificada por uma energia que também flui para baixo como a luz vem de cima - de um plano que jaz além ainda do mental. Então se descermos à segunda subdivisão veríamos que a matéria de nosso primeiro subplano se há tornado a energia deste - ou, para falarmos com mais precisão, que a energia original, mais a vestimenta de matéria do primeiro subplano com a qual se revestiu, torna-se a energia animadora da matéria deste segundo subplano. Do mesmo modo, na terceira divisão descobriríamos que a energia original terá se velado duas vezes na matéria deste terceiro e segundo subplanos pelos quais passou; assim que na hora em que chegarmos à nossa sétima subdivisão teríamos nossa energia original encerrada ou velada seis vezes, e por isso muito mais fraca e menos ativa. Este processo é exatamente análogo à velação do Âtma, ou Espírito primordial, em sua descida como essência monádica a fim de energizar a matéria dos planos do cosmos, e como isso ocorre freqüentemente na Natureza, poupará ao estudante muito trabalho se ele tentar se familiarizar com esta idéia (Vide Ancient Wisdom [A Sabedoria Antiga], de A. Besant, pg. 54 e nota de rodapé). 

Os Registros do Passado

Ao falarmos das características gerais do plano não devemos omitir a menção ao sempre presente pano de fundo formado pelos registros do passado - a memória da Natureza, a única história do mundo realmente confiável. Enquanto que o que temos neste plano não seja ainda o registro absoluto, mas um mero reflexo de algo ainda mais alto, de qualquer maneira é claro, acurado, e contínuo, diferindo assim das manifestações desconexas e irregulares que são tudo o que resta dele no mundo astral. É, portanto, somente quando um clarividente possui a visão deste plano mental que suas imagens do passado podem ser fidedignas; e mesmo então, a menos que ele tenha o poder de voltar em plena consciência daquele plano ao físico, temos que admitir a possibilidade de erros ao trazer a lembrança do que viu.

Mas o estudante que conseguiu desenvolver os poderes latentes em si o bastante para lhe possibilitarem o uso do sentido pertencente a este plano mental enquanto ainda em corpo físico, tem diante de si um campo de pesquisa histórica do mais apaixonante interesse. Não apenas pode revisar à sua vontade toda a história com que estamos familiarizados, corrigindo à medida em que a examina os muitos erros e mal-entendidos que têm-se imiscuído nos relatos deixados para nós; ele pode também percorrer como queira toda a história do mundo desde seus primórdios, observando o lento desenvolvimento do intelecto no homem, a descida dos Senhores da Chama, e o crescimento das poderosas civilizações que eles fundaram.

Tampouco seu estudo está confinado ao progresso da humanidade exclusivamente; ele tem à sua frente, como num museu, todas as estranhas formas animais e vegetais que ocuparam a cena nos dias em que o mundo era jovem; ele pode acompanhar todas as maravilhosas mudanças geológicas que têm ocorrido, e observar o curso dos grandes cataclismas que têm alterado repetidamente toda a face da Terra.

Muitas e variadas são as possibilidades abertas pelo acesso a esses registros - tantas e tão variadas na verdade que mesmo se esta fosse a única vantagem do plano mental, ainda transcenderia em interesse todos os mundos inferiores. Mas quando a isso acrescentamos o notável incremento nas oportunidades para aquisição de conhecimento proporcionadas por sua nova e expandida faculdade - o privilégio de intercâmbio direto e ilimitado não só com o grande reino Dévico, mas com os próprios Mestres da Sabedoria - o descanso e alívio da fatigosa tensão da vida física que é proporcionado pelo desfrute de sua profunda e imutável felicidade, e acima de tudo, a enormemente aumentada capacidade do estudante avançado para o serviço aos seus semelhantes - então começaríamos a ter alguma pálida concepção do que um discípulo ganha quando conquista o direito de entrar à vontade e em perfeita consciência na sua herança neste radiante domínio do mundo celeste.

HABITANTES

Em nossa tentativa de descrevermos os habitantes do plano mental nos será talvez conveniente dividí-los nas mesmas três grandes classes indicadas no manual sobre o plano astral - os humanos, não-humanos e artificiais - apesar de que as subdivisões sejam naturalmente menos numerosas neste caso do que naquele, uma vez que os produtos das más paixões humanas, que abundavam tão largamente lá, não podem ter lugar aqui. 

I- HUMANOS

Exatamente como foi o caso quando tratamos do mundo inferior, será desejável que subdividamos os habitantes humanos do plano mental em duas classes - os que ainda estão ligados a um corpo físico, e os que não o estão - os vivos e os mortos, como são usual mas muito erroneamente chamados. Uma brevíssima experiência nestes planos superiores já é suficiente para alterar fundamentalmente a concepção do estudante sobre a mudança que acontece na morte; ele imediatamente percebe, na abertura de sua consciência mesmo no astral, e ainda mais neste mundo mental, que a abundância da vida verdadeira é algo que jamais pode ser conhecido aqui embaixo, e que quando deixamos esta Terra física estamos passando para dentro daquela vida verdadeira, e não para fora dela. Não temos por enquanto na língua portuguesa nenhumas palavras convenientes e ao mesmo tempo exatas para expressar estas condições; talvez chamá-los respectivamente de encarnados e desencarnados sejam, afinal, os menos ilusórios dentre vários termos possíveis. Procedamos portanto à consideração dos habitantes do plano mental que se reúnem sob a classificação de: 

Os Encarnados

Aqueles seres humanos que, enquanto ainda ligados a um corpo físico, são encontrados se movendo em plena consciência e atividade neste plano, são invariavelmente Adeptos ou seus discípulos iniciados, pois até que um estudante tenha sido ensinado por seu Mestre como usar seu corpo mental ele será incapaz de se mover com liberdade mesmo nos seus níveis inferiores. Atuar conscientemente durante a vida física nos níveis superiores indica um avanço ainda maior, pois significa a unificação do homem, de modo que aqui embaixo ele já não é uma mera personalidade, mais ou menos influenciada pela individualidade acima, mas ele mesmo é aquela individualidade - limitada e confinada por um corpo, certamente, mas de todo modo possuindo em si o poder e conhecimento de um Ego altamente evoluído.

Magníficos objetos são estes Adeptos e iniciados à visão que aprendeu a vê-los - esplêndidos globos de luz e cor, dissipando toda influência má aonde quer que vão, agindo sobre todos os que se aproximam deles como a luz do sol age sobre as flores, e difundindo em seu redor um sentimento de paz e felicidade freqüentemente sentidos mesmo por aqueles que não os vêem. É neste mundo celestial que muito do seu trabalho mais importante é feito - mais especificamente nos seus níveis mais elevados, onde a individualidade pode ser diretamente influenciada. É deste plano que eles derramam as maiores influências espirituais sobre o mundo do pensamento; de lá também impulsionam grandes e beneficentes movimentos de todos os tipos. Aqui muito da força espiritual acumulada pelo glorioso auto-sacrifício dos Nirmânâkayas é distribuída; aqui também é dado ensinamento direto àqueles discípulos que são suficientemente adiantados para recebê-lo desta forma, uma vez que pode ser comunicado muito mais rápida e completamente aqui do que no plano astral. Somando-se a todas essas atividades eles têm um grande campo de trabalho em conexão àqueles que chamamos mortos, mas isto será mais adequadamente explanado em uma seção posterior.

É um prazer notar que uma classe de habitantes que penosamente se intrometeram em nosso relato sobre o plano astral está quase inteiramente ausente aqui. Em um mundo cujas características são o altruísmo e a espiritualidade o mago negro e seus discípulos obviamente não podem ter nenhum lugar, uma vez que o egoísmo é a essência dos procedimentos das escolas tenebrosas, e seu estudo das forças ocultas é inteiramente para fins pessoais. Não só que em muitos deles o intelecto é altamente desenvolvido, e conseqüentemente a matéria do corpo mental é extremamente ativa e sensível ao longo de certas linhas; mas em todos os casos estas linhas estão conectadas com desejo pessoal de alguma espécie, e portanto podem encontrar expressão somente através daquela parte do corpo mental que se tornou quase inextrincavelmente fundida à matéria astral. Como conseqüência necessária desta limitação segue-se que suas atividades são praticamente confinadas aos planos astral e físico. Um homem cujo inteiro curso de vida é mau e egoísta, pode de fato ter períodos de puro pensamento abstrato durante os quais pode utilizar o corpo mental se tiver aprendido como fazê-lo, mas no momento em que o elemento pessoal aparece, e é feito um esforço para produzir algum resultado funesto, o pensamento já deixa de ser abstrato, e o homem se acha trabalhando novamente em conexão à matéria astral usual. Quase se poderia dizer que um mago negro só poderia agir no plano mental quando esquecesse que é um mago negro.

Mas mesmo enquanto ele o esquece ele poderia ser visto no plano mental somente aos homens atuando conscientemente neste plano - jamais sob nenhuma hipótese por aqueles que estão desfrutando o repouso celeste nesta região após a morte, pois cada um deles está tão inteiramente encerrado dentro do mundo de seu próprio pensamento que nada fora daquilo pode afetá-lo, e ele destarte está absolutamente seguro. Desse modo é justificada a grande e antiga descrição do mundo celeste como o lugar ‘onde os maus cessam de perturbar, e o os fatigados repousam'. 

Os Adormecidos ou em transe

Ao pensarmos nos habitantes encarnados do plano mental, naturalmente se apresenta por si a questão de se ou pessoas comuns durante o sono, ou pessoas psiquicamente desenvolvidas numa condição de transe, podem alguma vez penetrar até este plano. Em ambos os casos a resposta deve ser que a ocorrência é possível, ainda que extremamente rara. Pureza de vida e de propósito são pré-requisitos absolutos, e mesmo quando o plano fosse alcançado não haveria nada que se poderia chamar de consciência real, mas simplesmente uma capacidade para receber certas impressões.

Exemplificando a possibilidade de entrar no plano mental durante o sono, pode ser mencionado um incidente que ocorreu em conexão com os experimentos feitos pela Loja Londrina da Sociedade Teosófica em torno da consciência do sonho, um relato da qual foi dado em meu livreto Dreams (Os Sonhos). Pode ser lembrado por aqueles que tiverem lido aquele tratado que uma imagem-pensamento de uma adorável paisagem tropical foi apresentada às mentes de várias classes de pessoas adormecidas, no intuito de testar a extensão do que era lembrado após despertarem. Um caso que não foi referido no relato previamente publicado, já que não tinha qualquer conexão com o fenômeno dos sonhos, servirá como útil ilustração aqui.

Foi o de uma pessoa de mente pura, e considerável ainda que não treinada capacidade psíquica; e o efeito da apresentação da imagem-pensamento à sua mente foi de um caráter algo surpreendente. Tão intenso foi o sentimento de reverente júbilo, tão elevados e tão espirituais foram os pensamentos evocados pela contemplação desta cena gloriosa, que a consciência da pessoa adormecida passou inteiramente para o corpo mental - ou, para expressar a mesma idéia em outras palavras, ascendeu ao plano mental. Entretanto, não se deve supor a partir disso que ela se tornou consciente de seu ambiente naquele plano ou de suas condições reais; ela estava simplesmente no estado das pessoas comuns que chegam a este nível após a morte, realmente flutuando no mar de luz e cor, mas não obstante inteiramente absorvida em seu próprio pensamento, e inconsciente de todo o resto - permanecendo em contemplação extática da paisagem e de tudo o que ela lhe sugeriu - ainda que contemplando, seja bem entendido, com a mais aguda penetração, a mais perfeita apreciação, e com o exaltado vigor de pensamento peculiar ao plano mental, e fruindo todo o tempo da intensidade de bem-aventurança que foi tão freqüentemente referida antes. A adormecida permaneceu naquela condição por diversas horas, ainda que aparentemente toda despercebida da passagem do tempo, e enfim acordou com uma sensação de paz profunda e júbilo interior às quais, uma vez que não trouxera nenhuma recordação do que ocorrera, foi de todo incapaz de dar explicação. Não há dúvida, entretanto, que uma experiência como essa, sendo ou não lembrada no corpo físico, atuaria como nítido impulso para a evolução espiritual do Ego envolvido.

Ainda que na ausência de um número suficiente de experiências se evitaria falar muito assertivamente, parece quase certo que um resultado como este recém descrito seria possível apenas no caso de uma pessoa portadora de algum desenvolvimento psíquico: e a mesma condição é ainda mais definidamente necessária para que um indivíduo mesmerizado possa tocar o plano mental em transe. Esta necessidade é tão imperiosa, que provavelmente nem um dentre mil clarividentes comuns jamais chega lá; mas nas raras ocasiões em que isso é obtido o clarividente, como assinalado antes, deve ser não só de um desenvolvimento excepcional, mas de uma perfeita pureza de vida e propósito; e mesmo quando todas estas características incomuns estão presentes permanece ainda a dificuldade que um psíquico destreinado sempre encontra de traduzir com exatidão uma visão do plano superior para o inferior. Todas estas considerações, é claro, somente enfatizam aquilo em que com tanta freqüência insistimos antes - a necessidade do cuidadoso treinamento de todos os psíquicos por um instrutor qualificado antes que seja possível dar muito peso aos seus relatos sobre o que vêem.

Os Desencarnados

Antes de considerarmos em detalhe a condição das entidades desencarnadas nas várias subdivisões do plano mental, devemos ter mui claramente em nossas mentes a larga distinção entre os níveis rûpa e arûpa, aos quais já fizemos menção. No primeiro o homem vive inteiramente no mundo de seus próprios pensamentos, ainda se identificando completamente com sua personalidade na vida que acabou de deixar; no último ele é simplesmente o Ego ou Alma reencarnante, que (se tiver desenvolvido suficiente consciência naquele nível para saber qualquer coisa com clareza) compreende, pelo menos em alguma extensão, a evolução na qual está engajado, e o trabalho que tem de fazer.

Deveria ser lembrado que cada homem passa através de ambos estes estágios entre a morte e o nascimento, ainda que a maioria não desenvolvida tenha tão pouca consciência em qualquer um deles que poderia ser dito com mais verdade que sonham através deles. Não obstante, seja consciente ou inconscientemente, todo ser humano deve tocar os níveis mais altos do plano mental antes que a reencarnação possa ter lugar; e à medida que sua evolução progride este toque se torna mais e mais definido e real para ele. Não só é mais consciente lá à medida que progride, mas o período que passa naquele mundo se torna mais longo; pois o fato é que sua consciência está lenta mas constantemente se elevando através dos diferentes planos do sistema.

O homem primitivo, por exemplo, tem comparativamente pouca consciência em qualquer plano além do físico durante a vida, e do astral inferior após a morte; e na verdade o mesmo pode ser dito do homem inteiramente não desenvolvido de nossos dias. Uma pessoa um pouco mais avançada começa a ter um curto período de vida celeste (nos níveis inferiores, é claro), mas ainda passa consideravelmente a maior parte de seu tempo entre encarnações no plano astral. Ao progredir a vida astral se reduz e a celeste se amplia, até que quando ele se torna uma pessoa intelectual e espiritualmente orientada ele passa através do plano astral com quase nenhuma demora, e desfruta de uma longa e feliz estadia nos mais refinados dos níveis mentais inferiores. Nesta altura, entretanto, a consciência no verdadeiro Ego em seu nível mais superior está já desperta em considerável extensão, e assim sua vida consciente no plano mental se divide em duas partes - a última e mais curta nos subplanos mais elevados, no corpo causal.

O processo descrito previamente então se repete, a vida nos níveis inferiores gradualmente encurtando, enquanto que a vida superior se torna progressivamente mais longa e plena, até que finalmente chega o tempo em que a consciência é unificada - quando o os eus superior e inferior se unem indissoluvelmente, e o homem já não é mais capaz de se enclausurar em sua nuvem de pensamentos, e tomar o pouco que ele pode ver através dela pelo todo do grande mundo celeste em seu redor - quando ele percebe as verdadeiras possibilidades de sua vida, e assim pela primeira vez verdadeiramente começa a viver. Mas na época em que ele atingir tais alturas ele já terá entrado na Senda, e tomado seu futuro progresso definitivamente em suas próprias mãos.

As Qualidades necessárias para a Vida Celeste

As realidades maiores da vida celeste quando comparadas com aquelas da Terra resplandecem claramente quando consideramos quais condições são requisitos para o atingimento deste elevado estado de existência. Pois as verdadeiras qualidades que um homem deve desenvolver durante a vida, se há de ter qualquer existência no mundo celeste após sua morte, são tão somente aquelas que todos os melhores e mais nobres de nossa raça têm concordado em considerar como real e permanentemente desejáveis. A fim de que uma aspiração ou uma força-pensamento resulte em existência naquele plano, suas características dominantes devem ser altruístas.

O afeto pela família ou pelos amigos leva muitos homens para o mundo celeste, e o mesmo o faz a devoção religiosa; já seria um erro supor que toda afeição ou toda devoção devam assim necessariamente encontrar lá suas expressões post-mortem, pois de cada uma destas qualidades obviamente há duas variedades, a egoísta e a altruísta - ainda que poderia ser razoável argüir que só o segundo tipo em cada caso seja realmente digno do nome.

Há o amor que se derrama sobre seu objeto, não buscando nada em troca - nem jamais pensando em si, mas somente no que pode fazer pelo ser amado; e um tal sentimento gera uma força espiritual que não pode frutificar a não ser no plano mental. Mas há também uma outra emoção que às vezes é chamada de amor - um tipo exigente e egoísta de paixão que deseja principalmente ser amada - que pensa todo o tempo no que recebe em vez de no que dá, e é muito suscetível de degenerar no horrível vício do ciúme com (ou mesmo sem) a menor provocação. Tal afeto não tem em si nenhuma semente para desenvolvimento mental; as forças que põe em ação nunca sobem acima do plano astral.

O mesmo é verdadeiro para o sentimento de uma certa grande classe de devotos religiosos, cujo único pensamento é, não a glória da Deidade, apenas como podem salvar suas próprias almas miseráveis - uma posição que forçosamente sugere que eles ainda não desenvolveram nada que mereça o nome de alma.

De outro lado há a devoção religiosa real, que jamais pensa em si, mas somente em amor e gratidão para com a deidade ou um líder, e está cheia do ardente desejo de fazer algo por ela ou em seu nome; e tal sentimento conduz freqüentemente a uma prolongada vida celeste de um tipo particularmente exaltado.

Este é claro seria o caso qualquer que fosse a deidade ou líder, e seguidores de Buddha, Krishna, Ormudz, Allah, e Cristo todos igualmente satisfarão sua necessidade de bem-aventurança celeste - sua duração e qualidade dependendo da intensidade e pureza dos sentimentos, e não de seu objeto, ainda que esta última consideração indubitavelmente afete a possibilidade de receber instrução durante aquela vida superior.

A maioria da devoção humana, todavia, como o amor humano comum, não é inteiramente pura nem toda altruísta. Aquele amor pode de fato ser vil, no qual nenhum pensamento ou impulso altruísta tenha entrado; e por outro lado uma afeição que é principalmente muito pura e nobre pode às vezes ser empanada por um acesso de sentimentos ciumentos ou por um pensamento egoísta passageiro. Em ambos os casos, como em todos, a lei da justiça eterna separa infalivelmente; e assim como o fugaz lampejo de sentimentos mais nobres no coração menos evoluído seguramente receberá sua recompensa no mundo celeste, mesmo que não reste nada além na vida que eleve a alma acima do plano astral, assim o pensamento mais baixo que empalidece a santa radiância de um amor verdadeiro recolherá sua força no plano astral, não interferindo em nada com a magnificente vida celestial que decorre infalivelmente de anos de profunda afeição aqui embaixo.

Como um Homem obtém a Vida Celeste pela Primeira Vez

Veremos, portanto, que nos estágios iniciais de sua evolução muitos dos Egos atrasados jamais chegam conscientemente ao mundo celeste, enquanto que um número já maior obtém apenas um comparativamente leve toque de alguns de seus planos inferiores. Cada alma deve é claro recolher-se em seu Eu real nos níveis superiores antes da reencarnação; mas não se segue que naquela condição experimente qualquer coisa que possamos chamar de consciência. Este assunto será tratado com mais completude quando viermos a abordar os planos arûpa; parece melhor iniciarmos com o mais baixo dos planos rûpa, e trabalharmos sempre para cima, de modo que por ora podemos deixar de lado aquela porção da humanidade cuja existência consciente após a morte é praticamente confinada ao plano astral, e prosseguirmos considerando o caso de uma entidade que recém ascendeu de tal posição - quem pela primeira vez teve uma tênue e fugaz consciência na subdivisão mais baixa do mundo celeste.

Evidentemente há vários métodos pelos quais este importante passo no desenvolvimento inicial da alma pode ser induzido a acontecer, mas será suficiente para nosso propósito atual se tomarmos como ilustração de um deles uma algo patética historieta retirada da vida real que ocorreu de ser observada por nossos estudantes quando estavam investigando esta questão. Neste caso o agente das grandes forças evolucionárias foi uma pobre costureira, vivendo em um dos mais lúgubres e esquálidos dos nossos terríveis subúrbios Londrinos - um fétido cortiço no East End no qual a luz e o ar dificilmente podiam circular.

Naturalmente ela não era muito instruída, pois sua vida tinha sido uma longa rotina do mais árduo trabalho sob condições as menos favoráveis; mas não obstante ela era uma criatura benevolente e de bom coração, transbordante de amor e gentileza para todos os que com ela entravam em contato. Seus aposentos eram tão pobres, talvez, quanto quaisquer outros no casarão, mas pelo menos eram mais limpos e arrumados que os outros. Ela não tinha nenhum dinheiro para dar quando a doença fazia as necessidades ainda mais prementes que o usual para algum de seus vizinhos, porém em tais ocasiões ela estava sempre disponível todas as vezes que podia roubar alguns poucos momentos de seu trabalho, oferecendo com solícita simpatia todo o serviço que lhe era possível.

Realmente, ela era mui providencial para as rudes, ignorantes moças operárias da redondeza, e elas gradualmente passaram a vê-la como uma espécie de anjo de auxílio e misericórdia, sempre disponível em horas de aflição ou doença. Muitas vezes, depois de fatigar-se todo o dia sem quase nenhum momento de folga, ela se levantava na metade da noite, assumindo seu turno no cuidado de algumas das muitas sofredoras que sempre se encontram em vizinhanças tão fatais à saúde e à felicidade como as de um subúrbio Londrino; e em muitos casos a gratidão e afeto que sua incansável amabilidade despertou nelas foram absolutamente os únicos sentimentos elevados que haviam tido durante todas suas vidas ásperas e sórdidas.

As condições de vida naquele cortiço sendo estas, pouco admira que alguns de seus pacientes morressem, e então se tornou claro que ela tinha feito por eles muito mais do que sabia; ela tinha lhes dado não só uma gentil pequena assistência em sua aflição temporal, mas um impulso muito importante no curso da evolução espiritual. Pois estas eram almas subdesenvolvidas - entidades de uma classe muito atrasada - que jamais em nenhum de seus nascimentos haviam posto em ação as forças espirituais que sozinhas poderiam lhes dar existência consciente no plano mental; mas agora pela primeira vez não apenas tinha sido posto diante delas um ideal pelo qual poderiam se esforçar, mas também amor realmente altruísta tinha sido evocado nelas pela sua atuação, e o simples fato de terem tido um sentimento tão forte como esse as tinha elevado e dado-lhes mais individualidade, e assim depois de sua permanência no plano astral se tivesse encerrado ganhariam sua primeira experiência na subdivisão mais inferior do mundo celeste. Uma experiência breve, provavelmente, e de modo algum de um tipo avançado, mas ainda de longe mais importante do que parece à primeira vista; pois quando uma vez a grande energia do altruísmo é despertada, a verdadeira frutificação de seus resultados no mundo celeste lhe dá a tendência de se repetir, e por reduzida em extensão que possa ser esta primeira efusão, ainda assim cria na Alma uma pálida cor de uma qualidade que certamente se expressará de novo na próxima vida.

Assim a gentil benevolência de uma pobre costureira deu a diversas almas menos desenvolvidas sua introdução a uma vida espiritual consciente que encarnação após encarnação crescerá mais e mais fortemente, e reagirá mais e mais sobre as vidas terrenas do futuro. Este pequeno incidente talvez sugira uma explicação para o fato de que em várias religiões tanta importância seja atribuída ao elemento pessoal na caridade - a associação direta entre doador e recebedor.

Os céus inferiores, com exemplos de cada Sétimo Subplano -O Céu Inferior -

Esta subdivisão mais baixa do mundo celeste, à qual a ação de nossa pobre costureira alçou os objetos de seu amável cuidado, tem como sua principal característica a afeição por familiares ou amigos - altruísta, é claro, mas usualmente algo estreita. Aqui, entretanto, devemos nos precaver contra a possibilidade de mal-entendido. Quando é dito que a afeição familiar leva um homem ao sétimo subplano celestial, e a devoção religiosa ao sexto, as pessoas por vezes naturalmente imaginam que uma pessoa tendo estas duas características fortemente desenvolvidas em si dividiria este período no mundo celeste entre estas duas subdivisões, primeiro passando um longo período de felicidade em meio à sua família, e então ascendendo para o próximo nível, onde esgotaria as forças espirituais engendradas por suas aspirações devocionais.

Isso, todavia, não é o que ocorre, pois num caso como o que supomos o homem despertaria para a consciência já na sexta subdivisão, onde se acharia engajado, junto com aqueles que ele amou tanto, na mais alta forma de devoção que fosse capaz de realizar. E quando pensamos que isto é bastante razoável, pois o homem que é capaz de devoção religiosa bem como de afeição familiar comum está naturalmente apto para ser favorecido com um mais alto e amplo desenvolvimento da última virtude do que alguém cuja mente é suscetível de influência só numa direção. A mesma regra funciona em todo o percurso acima; o plano mais elevado sempre inclui as qualidades do mais inferior bem como aquelas peculiares a si mesmo, e quando isso ocorre seus habitantes quase invariavelmente têm essas qualidades em mais completa medida que as almas num plano mais baixo.

Quando se diz que a afeição familiar é característica do sétimo subplano, não se deve por isso supor por um momento que aquele amor seja confinado a este plano, mas antes que o homem que se encontrar aqui depois da morte é um em cujo caráter esta afeição era da mais alta qualidade - a única, de fato, que o capacitou para a vida celeste. Mas o amor de um tipo muito mais nobre e exaltado do que tudo que pode ser visto neste plano pode ser, é claro, encontrado nos subplanos superiores.

Uma das primeiras entidades encontradas pelos investigadores neste subplano constitui um exemplo mui típico de seus habitantes. O homem durante a vida tinha sido um pequeno merceeiro - não uma pessoa de desenvolvimento intelectual ou algum tipo de sentimento religioso especial, mas simplesmente o honesto e respeitável pequeno comerciante comum. Sem dúvida ele tinha ido à igreja regularmente a cada Domingo, porque era a coisa costumeira e adequada a fazer; mas religião lhe tinha sido uma espécie de nuvem espessa que ele realmente não entendia, que não tinha conexão alguma com os negócios da vida cotidiana, e para a resolução de cujos problemas nunca era levada em conta. Ele não tinha portanto nenhuma profundidade de devoção que poderia tê-lo levado ao próximo subplano; mas ele tinha por sua esposa e família uma cálida afeição na qual havia um grande elemento de altruísmo. Eles estavam constantemente em sua mente, e era por eles muito mais que por si mesmo que ele tinha trabalhado da manhã à noite em seu pequeno estabelecimento; e assim quando, depois de um período de existência no plano astral, tinha afinal se desvencilhado do seu corpo de desejo em desintegração, encontrou-se nesta subdivisão inferior do mundo celeste com todos os seus seres amados reunidos ao seu redor.

Ele não era um homem intelectual ou mais altamente desenvolvido espiritualmente do que havia sido na Terra, pois a morte não traz nenhum desenvolvimento súbito deste tipo; o ambiente em que se achou com sua família não era de um tipo muito refinado, pois apenas eles representaram seus ideais mais altos de apreciação não-física durante a vida; mas de qualquer maneira ele era tão intensamente feliz quanto era capaz de ser, e desde que estava todo o tempo pensando em sua família antes que em si mesmo ele estava indubitavelmente desenvolvendo características altruístas, que se formariam em sua Alma como qualidades permanentes, e reapareceriam em todas as suas futuras vidas na Terra.

Um outro caso típico foi o de um homem que havia morrido quando sua filha única ainda era jovem; aqui no mundo celeste ele a tinha sempre consigo e ela sempre na flor de seus anos, e estava continuamente se ocupando em acalentar toda a sorte de formosos quadros de seu futuro. Outro ainda foi o caso de uma menina que estava sempre absorta na contemplação das múltiplas perfeições de seu pai, e planejando pequenas surpresas e novos prazeres para ele. Um outro foi o de uma mulher grega que estava passando um tempo maravilhosamente feliz com seus três filhos - um deles um garboso rapaz, que ela se deleitava em imaginar como o vencedor nos Jogos Olímpicos.

Uma notável característica deste subplano durante os últimos séculos tem sido o grande número de romanos, cartagineses e ingleses que lá se encontram - devido ao fato de que entre os homens destas nações a principal atividade altruísta encontra expressão através da afeição familiar, enquanto comparativamente poucos Hinduístas e Budistas estão aqui, uma vez que no seu caso um real sentimento religioso usualmente entre mais imediatamente em seu cotidiano, e conseqüentemente os leva para um nível mais elevado.

Havia, é óbvio, uma quase infinita variedade entre os casos observados, seus diferentes graus de progresso sendo distinguíveis por variados graus de luminosidade, enquanto diferenças de cor indicavam respectivamente as qualidades que as pessoas em questão haviam desenvolvido. Alguns eram amantes que tinham morrido no auge de sua afeição, e assim estavam sempre ocupados com a única pessoa que haviam amado com a inteira exclusão de todas as outras; outros havia que tinham sido quase selvagens, um exemplo sendo um malaio, um homem muito subdesenvolvido (num estágio que pode ser descrito tecnicamente como o de um pitri de terceira classe inferior) que obteve uma leve experiência da vida celeste em conexão com uma filha a quem amara.

Em todos estes casos foi o toque da afeição altruísta que lhes deu o seu céu; na verdade, à parte isso, não havia nada na atividade de suas vidas pessoais que poderia ter-se expresso naquele plano. Na maior parte dos exemplos observados neste nível as imagens dos seres amados estão muito longe de ser perfeitas, e conseqüentemente os verdadeiros Egos ou Almas dos amigos que amaram podem só pobremente se expressar através delas; porém mesmo a pior das expressões é muito mais plena e mais satisfatória do que jamais o foi na vida física. Na vida terrena vemos nossos amigos mui parcialmente; conhecemos apenas aquelas partes deles que se afinam conosco, e os outros lados de seus caracteres são-nos praticamente inexistentes. Nossa comunhão com eles e nosso conhecimento deles aqui significa muito para nós, e estão amiúde entre as maiores coisas da vida; mesmo que na realidade esta comunhão e este conhecimento devam ser sempre por demais defeituosos, pois mesmo nos raríssimos casos em que podemos pensar que conhecemos um homem completamente e de todas as formas, corpo e alma, ainda é somente a parte dele que está manifesta nesses planos inferiores durante a encarnação o que podemos conhecer, e há muito mais além no Ego real que não podemos alcançar de modo algum. De fato, se nos fosse possível, com a visão direta e perfeita do plano mental, vermos pela primeira vez o todo de nosso amigo quando o encontrarmos após a morte, a probabilidade é de que ele fosse assaz irreconhecível; certamente ele não seria mais o querido que pensamos que havíamos conhecido antes.

Deve ser entendido que a afeição que sozinha leva alguém para a vida celeste alheia é uma força poderosa nestes planos mais altos - uma força que alcança a Alma da pessoa amada, e evoca uma resposta dela. Naturalmente a vivacidade daquela resposta, a quantidade de vida e energia nela, dependem do desenvolvimento da Alma do ser amado, mas não há nenhum caso no qual a resposta não seja tão perfeitamente real quanto possa ser.

É claro que Alma ou Ego pode ser integralmente alcançado somente neste seu próprio nível - uma das subdivisão arûpa deste plano mental - mas pelo menos estamos muito mais perto disso em qualquer estágio do mundo celeste do que estamos aqui, e portanto sob condições favoráveis poderíamos conhecer imensamente mais de nosso amigo lá do que jamais seria possível aqui, enquanto que mesmo sob as condições as mais desfavoráveis estaremos de qualquer jeito muito mais perto da realidade lá do que jamais estivemos antes.

Dois fatores devem ser levados em conta em nossa consideração deste assunto - o grau de desenvolvimento de cada uma das pessoas envolvidas. Se o homem na vida celeste tem forte afeição e algum desenvolvimento na espiritualidade ele formará uma clara e quase perfeita imagem-pensamento de seu amigo assim como o conheceu - uma imagem através da qual naquele nível a Alma do amigo poderia expressar-se numa extensão bem considerável. Mas a fim de tirar completa vantagem desta oportunidade é necessário que aquela mesma Alma estivesse bastante avançada na evolução.

Vemos, assim, que há duas razões para que a manifestação seja imperfeita. A imagem feita pelo morto pode ser tão vaga e ineficaz que o amigo, mesmo que bastante evoluído, pode apenas ser capaz de fazer pouquíssimo uso dela; e de outro lado, mesmo quando uma boa imagem é formada, pode não haver desenvolvimento suficiente da parte do amigo para habilitá-lo a tirar o devido proveito disso.

Mas em qualquer um e em todos os casos a Alma do amigo é alcançada pelo sentimento de afeto, e qualquer que possa ser seu estágio de desenvolvimento ela imediatamente responde manifestando-se pela imagem que foi forjada. A extensão em que o homem real pode se expressar por ela depende dos dois fatores mencionados acima - o tipo de imagem que é feita em primeiro lugar, e quanta Alma há para se expressar em segundo; mas mesmo a mais tosca imagem que puder ser feita estará sempre no plano mental, e, portanto, muito mais fácil para o Ego alcançar do que um corpo físico dois planos inteiros abaixo.

Se o amigo amado está ainda vivo ele obviamente estará inteiramente inconsciente aqui embaixo de que seu Eu real está realizando esta manifestação adicional, mas isso de modo algum interfere no fato de que aquela manifestação é mais real e contém uma maior aproximação de seu Eu verdadeiro do que este eu inferior, que é tudo o que a maioria de nós pode ver.

Um ponto interessante é que uma vez que uma pessoa pode bem entrar ao mesmo tempo na vida celestial de diversos de seus amigos falecidos, ele pode assim estar simultaneamente se manifestando em todas estas várias formas, bem como, talvez, utilizando um corpo físico aqui embaixo. Esta concepção, contudo, não apresenta dificuldade nenhuma para quem quer que entenda a relação dos diferentes planos entre si; é tão fácil para ele manifestar-se em diversas dessas imagens celestiais de uma só vez, como o é para nós estarmos simultaneamente cônscios da pressão de diversos objetos diferentes contra diferentes partes de nosso corpo. A relação de um plano para com outro é como a de uma dimensão para com outra; nenhum número de unidades da dimensão inferior pode jamais equivaler a uma só do superior, e da mesmíssima forma nenhum número destas manifestações poderia exaurir o poder de resposta do Ego acima. Ao contrário, tais manifestações lhe propiciam uma apreciável oportunidade adicional para desenvolvimento no plano mental - uma oportunidade que é o resultado direto e a recompensa sob a operação da lei da justiça divina das ações ou qualidades que evocaram uma tal efusão de afeto.

Está claro a partir de tudo isso que, em o homem evoluindo, suas oportunidades em todas as direções se tornam maiores. Não só quando ele vai avançando torna-se mais provável que atraia o amor e reverência de muitos, e assim tenha muitas imagens-pensamento fortes à sua disposição no plano mental; mas ainda seu poder de manifestação através de cada uma delas e sua receptividade nelas rapidamente crescem com seu progresso.

Isso foi muito bem ilustrado por um caso simples que recentemente atraiu a atenção de nossos investigadores. Foi o de uma mãe que havia morrido há talvez vinte anos, deixando para trás dois filhos a quem era profundamente ligada. Naturalmente eles eram as figuras mais proeminentes em seu céu, e mui naturalmente, também, ela pensava neles do modo como os havia deixado, como rapazes de quinze ou dezesseis anos de idade. O amor que ela assim derramava incessantemente sobre estas imagens mentais realmente estava atuando como uma força benéfica descendo sobre os homens já adultos neste mundo físico, mas isso não afetava ambos na mesma medida - não que seu amor fosse mais forte por um deles que pelo outro, mas porque havia uma grande diferença na vitalidade das próprias imagens. Não uma diferença, bem entendido, que a mãe pudesse notar; para ela ambos apareciam igualmente junto dela e igualmente eram tudo o que ela poderia desejar: mas aos olhos dos investigadores era muito evidente que uma destas imagens era muito mais animada de força vital que a outra. Rastreando este interessantíssimo fenômeno até sua origem, foi descoberto que em um caso o filho havia se tornado um homem comum de negócios - não especialmente mau de alguma maneira, mas de modo algum espiritualmente orientado - enquanto o outro tinha se tornado um homem de altas aspirações altruístas, e de considerável refinamento e cultura. Sua vida tinha sido tal que desenvolvera uma proporção muito maior de consciência na Alma que seu irmão, e conseqüentemente este Eu superior era capaz de vitalizar muito mais plenamente aquela imagem de sua juventude que sua mãe havia formado em sua vida celeste. Havia mais Alma para animá-la, e assim a imagem era enérgica e vivaz.

Pesquisa ulterior revelou quantidades de exemplos similares, e foi claramente visto que quanto mais altamente a Alma é evoluída em espiritualidade, mais completamente pode se expressar nessas manifestações que o amor de seus amigos lhe provê. E por tais expressões mais completas ela também pode derivar mais e mais benefício da força viva daquele amor que se derrama nela através destas imagens-pensamento. À medida que a Alma cresce essas imagens se tornam expressões mais plenas de si, até que quando ela atinge o nível de Mestre ela conscientemente as emprega como meios de auxiliar e instruir seus discípulos.

Só ao longo dessas linhas é possível a comunicação consciente entre aqueles ainda aprisionados no corpo físico e aqueles que já passaram para este reino celestial. Como foi dito, uma Alma pode estar brilhando gloriosamente através de sua imagem na vida celeste de um amigo, e também nesta manifestação através do corpo físico neste plano aquela Alma pode estar inteiramente inconsciente de tudo isso, e assim pode supor-se incapaz de se comunicar com seu amigo falecido. Mas se aquela Alma tiver evoluído sua consciência até o ponto de unificação, e puder destarte usar seus plenos poderes enquanto ainda no corpo físico, ela pode então perceber, mesmo durante esta vida terrena, que ainda permanece face a face com seu amigo como antigamente - que a morte não afastou o amigo que ela ama, mas apenas abriu seus olhos para a vida maior e mais ampla que sempre está à nossa volta.

Em aspecto o amigo se pareceria muito como era na vida terrena, ainda que um tanto estranhamente glorificado. No corpo mental assim como no corpo astral há uma reprodução da forma física dentro do ovóide externo cuja forma é determinada pela do corpo causal, de modo que tem algo da aparência de uma forma de névoa mais densa rodeada por uma névoa mais diáfana. Durante toda a vida celeste a personalidade da última vida física é distintamente preservada, e é só quando a consciência é finalmente recolhida para dentro do corpo causal que este senso de personalidade imerge na individualidade, e o homem pela primeira vez desde que desceu à encarnação se percebe como o verdadeiro e comparativamente perdurável Ego.

As pessoas por vezes perguntam se neste plano mental existe alguma consciência de tempo - alguma alternância de dia e noite, de dormir e despertar. O único despertar do mundo celeste é o lento alvorecer de sua maravilhosa bem-aventurança no sentido mental à medida que o homem entra em sua vida naquele plano, e o único adormecer é o igualmente gradual mergulho em uma feliz inconsciência quando o dilatado período daquela vida chega a um fim. Foi-nos descrita já no início como uma espécie de prolongamento de todas as horas mais felizes da vida do homem magnificadas centenas de vezes em bem-aventurança; e mesmo que esta definição deixe muito a desejar (como de fato o devem todas as definições do plano físico), ainda chega muito mais perto da verdade do que esta idéia de dia e noite. Existe, realmente, o que parece uma infinita variedade na felicidade do mundo celeste; mas as alterações de sono e vigília não fazem parte deste plano.

Na separação final do corpo mental do astral um período de vazia inconsciência normalmente sobrevém - variando em extensão dentro de limites muito amplos - análogo àquele que usualmente se segue à morte física. O despertar disso para a ativa consciência mental muito se assemelha ao que ocorre no acordar após uma noite de sono. Exatamente como no primeiro despertar de manhã passamos por um período de repouso intensamente deleitoso durante o qual somos conscientes de um senso de satisfação, onde a mente está ainda inativa e o corpo sob relutante controle, assim a entidade que acorda no mundo celeste primeiro passa por um período mais ou menos prolongado de intensa e gradualmente crescente felicidade antes que sua atividade plena de consciência naquele plano seja atingida. Quando primeiro este senso de júbilo prodigioso desce sobre ele, preenche o inteiro campo de sua consciência, mas gradualmente no despertar ele se descobre rodeado por um mundo povoado por seus próprios ideais, e apresentando as características apropriadas do subplano ao qual se recolheu.

Sexto Subplano

- O Segundo Céu -

Podemos dizer que a característica dominante desta subdivisão seja a devoção religiosa antropomórfica. A distinção entre tal devoção e o sentimento religioso que acha sua expressão no segundo subplano do astral reside no fato de que a primeira é puramente altruísta (sendo o homem que a sente totalmente desinteressado quanto ao resultado que sua devoção possa trazer a si mesmo), enquanto a outra é sempre despertada pela esperança e desejo de ganhar alguma vantagem através dela; de modo que no segundo subplano astral onde tais sentimentos religiosos são ativos eles invariavelmente contêm um elemento de barganha egoísta, enquanto que a devoção que soergue o homem até o sexto subplano do mundo celeste é inteiramente livre de qualquer destas manchas.

Por outro lado, esta fase da devoção, que consiste essencialmente na adoração perpétua de uma deidade pessoal, deve ser cuidadosamente distinguida daquelas mais altas formas que acham sua expressão na realização de algum trabalho definido para o bem da deidade. Uns poucos exemplos dos casos observados neste subplano talvez evidenciem estas distinções mais claramente do que qualquer mera descrição pudesse fazer.

Um número muito mais vasto de entidades cujas atividades mentais frutificam neste nível é tirado das religiões orientais; mas somente são incluídos aqueles que têm as características de uma devoção pura, mas comparativamente irracional e pouco inteligente. Adoradores de Vishnu, seja em seu avatâr de Krishna seja de outra forma, bem como alguns poucos seguidores de Shiva, se encontram aqui, cada um encapsulado da concha auto-criada de seus próprios pensamentos, sozinhos com seu próprio deus, e esquecidos do resto da humanidade, exceto até onde suas afeições possam associar a ele em sua adoração aqueles que ele amou na Terra. Um Vaishnavita, por exemplo, foi visto inteiramente absorvido na adoração extática da mesmíssima imagem de Vishnu à qual havia feito oferendas durante a vida.

Alguns dos exemplos mais característicos deste plano são encontrados entre as mulheres, que de fato formam uma grande maioria de seus habitantes. Dentre outras havia uma mulher Hinduísta que havia glorificado seu marido como a um ser divino, e também imaginava o Menino Krishna brincando com seus próprios filhos, mas enquanto estes eram completamente humanos e reais, o Menino Krishna não era nada mais que a cópia vivificada de uma estátua de madeira azul. Krishna também aparecia em seu céu sob uma outra forma - a de um afeminado jovem tocando flauta; mas ela não ficava de modo algum confusa ou perturbada por essa dupla manifestação. Uma outra mulher, que era cultuadora de Shiva, tinha confundido o deus com seu marido, olhando para este último como uma manifestação do primeiro, de modo que um parecia estar constantemente se metamorfoseando no outro. Alguns Budistas também são encontrados nesta subdivisão, mas aparentemente só aqueles menos instruídos que consideram o Buddha mais um objeto de adoração do que um grande Instrutor.

A religião Cristã também contribui com muitos dos habitantes deste plano. A devoção não intelectual que é exemplificada de um lado pelo iletrado camponês Católico Romano, e de outro pelo devotado e sincero ‘soldado' do Exército da Salvação, parece produzir resultados muito similares aos já descritos, pois estas pessoas também estão envolvidas na contemplação de suas idéias de Cristo ou sua Mãe respectivamente. Por exemplo, um camponês da Irlanda foi visto absorvido na mais profunda adoração da Virgem Maria, a quem ele imaginava como estando sobre a lua à maneira da ‘Assunção' de Ticiano, mas de mãos estendidas e lhe falando. Um monge medieval foi encontrado na contemplação extática do Cristo crucificado, e a intensidade de seu anelante amor e piedade era tal que ao ver o sangue pingando das chagas da figura de seu Cristo os estigmas se reproduziam em seu próprio corpo mental.

Um outro homem parecia ter esquecido a triste história da crucificação, e somente pensava em seu Cristo glorificado em seu trono, com o mar de vidro diante dele, e em toda a volta uma vasta miríade de adoradores, entre os quais estava ele próprio, com sua esposa e família. Sua afeição por estes parentes era muito profunda, embora seus pensamentos estivessem mais ocupados na adoração do Cristo, ainda que sua concepção de sua deidade fosse tão material que ele a imaginava em constante e caleidoscópica mudança para cá e para lá entre a forma de um homem e a do cordeiro desfraldando a flâmula que ele freqüentemente via representada no vitral da igreja.

Caso mais interessante foi o de uma freira espanhola que tinha morrido perto dos dezenove ou vinte anos. Em seu céu ela se reportara à época da vida de Cristo sobre a Terra, e se imaginava acompanhando-o na cadeia de eventos recontada nos evangelhos, e depois de sua crucificação tomava conta de sua Mãe a Virgem Maria. Naturalmente, talvez, suas imagens do cenário e costumes da Palestina eram inteiramente inexatos, pois o Salvador e seus discípulos usavam os trajes de camponeses espanhóis, enquanto as colinas ao redor de Jerusalém eram grandes montanhas cobertas de videiras, e as oliveiras estavam cobertas de cinzento musgo espanhol. Ela se imaginava depois martirizada pela sua fé, e ascendendo ao céu, mas somente para já viver de novo e de novo esta vida na qual se deleitava tanto.

Um pequeno exemplo original e formoso da vida celeste de uma criança pode concluir nossa lista de exemplos deste subplano. Ela tinha falecido à idade de sete anos, e estava ocupada em representar no mundo celeste as histórias religiosas que sua babá irlandesa lhe havia contado aqui embaixo; e mais do que todas ela amava imaginar-se brincando com o Menino Jesus, e ajudando-o a fazer aqueles pardais de barro que na fábula o poder do Cristo Menino trazia à vida e fazia voar.

Está visto que a cega devoção irracional da qual estivemos falando não eleva nunca seus praticantes a nenhumas grandes alturas espirituais; mas deve ser lembrado que em todos os casos eles eram inteiramente felizes e satisfeitos ao máximo, pois o que recebem é sempre o mais alto que são capazes de apreciar. Tampouco isso fica sem um efeito muito positivo em suas futuras carreiras; pois mesmo que nenhuma quantidade de devoção singela como esta jamais desenvolva o intelecto, produz outrossim uma aumentada capacidade para uma forma mais elevada de devoção, e em grande parte dos casos conduz também à pureza de vida. Uma pessoa, portanto, que vive tal vida e desfruta de um céu tal como os que estivemos descrevendo, mesmo que não esteja apto para efetuar rápido progresso na senda do desenvolvimento espiritual, pelo menos é preservada de muitos perigos, pois é muito improvável que em seu próximo nascimento venha a cair em algum dos pecados mais grosseiros, ou se desvie de suas aspirações devocionais para uma mera vida mundana de avareza, ambição, ou dissipação. De qualquer forma, uma análise deste subplano enfatiza nitidamente a necessidade de seguirmos o conselho de São Pedro: ‘Some à sua fé a virtude, e à virtude, conhecimento.'

Uma vez que tais estranhos resultados parecem derivar de formas cruas de fé, procuramos com interesse ver que efeito é produzido pelo ainda mais cru materialismo que não há muito era tão dolorosamente comum na Europa. Madame Blavatsky assinalou em The Key to Theosophy (A Chave para a Teosofia) que em alguns casos um materialista não tinha nenhuma vida consciente no mundo celeste, pois durante sua vida na Terra não acreditara nesta condição post-mortem. Parece provável, contudo, que nossa grande fundadora estava empregando a palavra ‘materialista' em um sentido muito mais estrito que aquele em que geralmente é usado, já que no mesmo volume ela também assinala que para eles nenhuma vida consciente após a morte era de todo possível, visto que é questão de conhecimento comum entre aqueles que trabalham à noite no plano astral que muitos dos que são chamados usualmente de materialistas são encontráveis lá, e certamente não estão inconscientes.

Por exemplo, um proeminente materialista conhecido intimamente por um de nossos membros foi encontrado não há muito por seu amigo no subplano mais elevado do astral, onde se havia rodeado de seus livros, e estava continuando seus estudos quase como poderia ter feito na Terra. Sendo questionado por seu amigo ele prontamente admitiu que as teorias que ele havia sustentado enquanto na Terra estavam refutadas pela irresistível lógica dos fatos; mas suas próprias tendências agnósticas ainda eram fortes o suficiente para deixá-lo incapaz de aceitar o que seu amigo lhe falava sobre a existência do ainda mais elevado plano mental. Pois que havia certamente muito no caráter deste homem que poderia ter sua plena fruição somente no plano mental, e uma vez que sua descrença total na vida após a morte não havia impedido suas experiências astrais, não parece haver razão de supormos que isso possa obstar a devida frutificação de suas forças mais elevadas posteriormente no mundo celeste.

Com certeza ele terá perdido muito por sua descrença. Sem dúvida, tivesse sido ele capaz de entender a beleza do ideal religioso, teria acionado em si uma poderosa energia de devoção, o efeito da qual ele estaria colhendo agora. Tudo isso, que poderia ter sido seu, estava faltando. Mas sua profunda afeição familiar altruísta, seu sério e incansável esforço filantrópico - estas também foram grandes efusões de energia, que devem produzir seu resultado, e só o podem produzir no plano mental. A ausência de um tipo de força não pode evitar a ação das outras.

Um exemplo ainda mais recentemente observado foi o de um materialista que ao despertar no plano astral depois da morte supôs-se ainda vivo, e somente experimentando algum sonho desagradável. Afortunadamente para ele havia no grupo dos capazes de atuar no plano astral um filho de um velho amigo seu, que havia sido incumbido de o procurar e tentar prestar-lhe alguma assistência. Muito naturalmente, ele a princípio tomou o jovem como sendo meramente uma figura em seu sonho; mas ao receber uma mensagem de seu velho amigo referindo-se a assuntos que haviam ocorrido antes do nascimento do mensageiro, ele convenceu-se da realidade daquele plano onde se encontrava, e logo tornou-se extremamente ávido de adquirir toda a informação possível a respeito. A instrução que lhe é dada sob estas condições terá sem dúvida um efeito muito grande sobre ele, e modificará largamente não apenas a vida celeste que tem à frente mas também sua próxima encarnação na Terra.

O que nos foi evidenciado por estes dois e por muitos outros exemplos não precisa afinal nos surpreender, pois é só o que poderíamos esperar de nossa experiência no plano físico. Constantemente vemos aqui embaixo que a natureza não faz concessões à nossa ignorância de suas leis; se, sob uma impressão de que o fogo não queima, um homem colocar sua mão dentro da chama, ele rapidamente se convence de seu erro. Da mesma maneira a descrença de um homem numa existência futura não afeta os fatos da natureza; e em alguns casos pelo menos ele simplesmente descobre depois da morte que estava enganado.

O tipo de materialismo referido por Madame Blavatsky nas citações mencionadas acima era portanto provavelmente muito mais grosseiro e mais agressivo do que o agnosticismo comum - algo que tornaria excessivamente improvável que um homem que o sustentasse tivesse quaisquer qualidades necessitando uma vida no plano mental onde frutificar.

Quinto Subplano

- O Terceiro Céu -

A característica principal desta subdivisão pode ser definida como devoção se expressando em trabalho ativo. O Cristão neste plano, por exemplo, em vez de meramente adorar seu Salvador, pensaria em si mesmo indo pelo mundo para trabalhar por ele. É especialmente o plano da consecução de grandes esquemas e projetos irrealizados na Terra - de grandes organizações inspiradas pela devoção religiosa, e usualmente tendo como objetivo algum propósito filantrópico. Deve ser mantido em mente, contudo, que sempre que subimos maiores complexidade e variedade são introduzidas, de modo que ainda que possamos ser capazes de dar uma característica definida como dominante em todo o plano, estaremos ainda mais e mais sujeitos a encontrar variações e exceções que não tão prontamente se encaixam sob a classificação genérica.

Um caso típico, ainda que algo acima da média, foi o de um homem que foi encontrado desenvolvendo um grande esquema de melhoramento das condições das classes mais baixas. Ele próprio sendo um homem profundamente religioso, havia sentido que o primeiro passo necessário em tratando dos pobres era melhorar suas condições materiais; e o plano que ele estava agora desenvolvendo em sua vida celeste com triunfante sucesso e amorosa atenção a cada detalhe era um que havia muitas vezes cruzado sua mente enquanto na Terra, ainda que ele tivesse sido completamente incapaz de dar aqui qualquer passo para sua realização.

Sua idéia era de que, se possuísse enorme riqueza, compraria e reuniria em suas mãos num conglomerado todos os comércios menores - onde talvez somente três ou quatro grandes empresas estivessem então envolvidas; e ele pensava que fazendo isso poderia fazer enormes economias eliminando a publicidade competitiva e outras dispendiosas formas de rivalidade mercantil, e assim, enquanto supria o público de mercadorias a preço fixo, poderia pagar melhores salários aos seus trabalhadores. Era parte de seu projeto comprar um pedaço de terra e construir nele residências para seus operários, cada uma rodeada de seu pequeno jardim; e após certo número de anos em serviço, cada trabalhador receberia uma parte nos lucros do negócio que seria suficiente para sustentá-lo em sua velhice. Pela implantação deste sistema nosso filantropo esperava demonstrar ao mundo que havia um lado eminentemente prático no Cristianismo, e também conquistar as almas de seus homens para sua própria fé por virtude da gratidão pelos benefícios materiais que haviam recebido.

Um caso não dessemelhante foi o de um príncipe indiano cujo ideal na Terra havia sido o divino rei-herói Rama, sobre cujo exemplo ele tinha tentado modelar sua vida e métodos de governo. Naturalmente aqui embaixo havia ocorrido toda sorte de acidentes adversos, e muitos dos seus esquemas haviam conseqüentemente falhado, mas na vida celeste tudo transcorria bem, e o melhor resultado possível acompanhava cada um de seus esforços bem-intencionados - Rama é claro pessoalmente aconselhando e dirigindo seu trabalho, e recebendo perpétua adoração de todos os seus devotados súditos.

Um exemplo curioso e mesmo tocante de trabalho religioso pessoal foi o de uma mulher que havia sido freira, pertencendo não a uma ordem contemplativa, mas a uma ativa. Ela evidentemente havia baseado sua vida sobre o texto ‘O que quer que tenhais feito a cada um destes meus irmãos, o tereis feito para mim', e agora no mundo celeste ela ainda estava desenvolvendo até a máxima extensão as injunções de seu Senhor, e estava constantemente ocupada em curar os doentes, alimentar os famintos, vestir e ajudar os pobres - a peculiaridade do caso é que cada um que ela servia imediatamente mudava sua aparência na do Cristo, a quem ela então adorava com fervorosa devoção.

Um caso instrutivo foi o de duas irmãs, ambas intensamente religiosas; uma delas havia sido inválida, e a outra passara uma longa vida assistindo-a. Na Terra elas haviam muitas vezes discutido e planejado sobre qual trabalho religioso e filantrópico elas fariam se ambas fossem capazes, e agora cada uma delas é a figura mais proeminente no céu da outra, a aleijada estando boa e forte, enquanto cada uma pensava na outra auxiliando-a a levar a cabo os desejos irrealizados de sua vida terrena. Este foi um belíssimo exemplo da calma continuidade de vida no caso de pessoas de aspirações altruístas; pois a única diferença que a morte acarretou foi eliminar a doença e o sofrimento, e tornar fácil o trabalho que antes tinha sido impossível.

Neste plano também o tipo mais elevado de atividade missionária sincera e devota encontra expressão. É claro que o fanático ignorante comum jamais alcança este nível, mas uns poucos dos casos mais nobres, como o de Livingstone, poderia ser encontrado aqui engajado na original ocupação de converter multidões de povos à religião particular que eles defendiam. Um dos mais notáveis destes casos que veio à análise foi o de um Maometano, que se imaginava trabalhando zelosissimamente pela conversão do mundo, com seu governo de acordo com os princípios mais ortodoxos da fé do Islam.

Parece que sob certas condições a capacidade artística também pode trazer seus praticantes a este subplano. Mas aqui deve ser feita uma cuidadosa distinção. O artista ou músico cujo único objetivo é egoísta, a fama pessoal, ou que habitualmente se permite ser afetado por sentimentos de inveja profissional, naturalmente não gera forças nenhumas que o tragam ao plano mental. De outro lado, os maiores tipos de arte cujos discípulos consideram-na potentes poderes a eles confiados para a elevação espiritual de seus semelhantes, se expressarão em regiões ainda mais altas que esta. Mas entre estes dois extremos os devotos da arte que seguem-na por amor a ela mesma ou a consideram uma oferenda à sua deidade, jamais pensando no seu efeito sobre seus semelhantes, em alguns casos podem ter seu céu apropriado neste subplano.

Como exemplo disto pode ser citado um músico de temperamento muito religioso que considerava todo o seu trabalho de amor simplesmente como uma oferta ao Cristo, e não sabia nada dos magníficos arranjos de sons e cores que suas inspiradas composições estavam produzindo na matéria do plano mental. Tampouco todo o seu entusiasmo foi desperdiçado ou infrutífero, pois sem seu conhecimento estava trazendo alegria e auxílio a muitos, e seus resultados certamente seriam de lhe dar maior devoção e maiores capacidades musicais em sua próxima vida; mas sem a aspiração ainda mais ampla de auxiliar a humanidade este tipo de vida celeste poderia se repetir quase indefinidamente. Na verdade, passando em revista os três planos que acabamos de considerar, podemos perceber que são em todos os casos relacionados à frutificação da devoção a personalidades - seja à família e amigos ou a uma deidade pessoal - antes que a devoção mais abrangente à humanidade por seu próprio bem, que encontra sua expressão no próximo subplano.

Quarto Subplano

- O Quarto Céu -

Tão variadas são as atividades deste, o mais alto dos planos rûpa, que é difícil agrupá-las sob uma única característica. Talvez elas possam ser melhor arranjadas em quatro divisões principais - busca altruísta por conhecimento espiritual, alto pensamento filosófico ou científico, habilidade artística ou literária exercida com propósitos altruístas, e serviço por amor ao serviço. A definição exata de cada uma destas classes será mais prontamente compreendida quando alguns exemplos de cada forem dados.

Naturalmente é daquelas religiões onde a necessidade de conhecimento espiritual é reconhecida que a maioria da população deste subplano é retirada. Será lembrado que no sexto subplano encontramos muitos Budistas, cuja religião tinha principalmente assumido a forma de devoção ao seu grande líder como pessoa; aqui, ao contrário, temos estes seguidores mais inteligentes cuja aspiração suprema foi sentar a seus pés e aprender - os que o viram mais como um instrutor do que como uma criatura a ser adorada.

Agora em sua vida celeste este desejo supremo era atendido; eles se achavam veramente aprendendo do Buda, e a imagem que haviam feito dele não era uma forma vazia, mas com toda certeza através dela brilhava a maravilhosa sabedoria, poder, e amor do mais poderoso dos instrutores da Terra. Estão portanto adquirindo conhecimentos novos e concepções mais amplas, e o efeito sobre eles em sua próxima encarnação não pode ser senão do mais acentuado caráter. Talvez não venham a lembrar de nenhum fato individual que possam ter aprendido (ainda que quando tal fato seja apresentado às suas mentes numa vida posterior eles o acolherão avidamente e reconhecerão sua verdade de modo intuitivo), mas o resultado do ensino será construir no Ego uma poderosa tendência de formar mais amplas e filosóficas visões em todos esses assuntos.

Veremos num átimo o quão definida e inconfundivelmente tal vida celeste acelera a evolução do Ego; e uma vez mais nossa atenção é chamada para as enormes vantagens recebidas por aqueles que aceitaram a orientação de instrutores verdadeiros, viventes e poderosos.

Uma forma menos desenvolvida deste tipo de instrução é encontrada nos casos em que algum escritor realmente grande e espiritual tenha se tornado para um estudante uma personalidade viva, assumindo o aspecto de um amigo, formando parte da vida mental do estudante - uma figura ideal em suas meditações. Tal pessoa pode entrar na vida celeste de seu discípulo e pela virtude de sua própria Alma altamente evoluída pode vivificar a imagem mental de si mesmo, e iluminar adicionalmente sob estas circunstâncias afortunadas os ensinos de seus próprios livros, revelando os significados mais ocultos.

Muitos dos seguidores Hinduístas da senda da sabedoria acham seu céu neste plano - isto é, se seus instrutores eram de fato homens que possuíam algum conhecimento real. Uns poucos dentre os mais avançados Sûfis ou Parses também estão aqui, e achamos ainda alguns dos antigos Gnósticos cujo desenvolvimento espiritual era tal que lhes proporcionou uma prolongada estadia nesta região celestial. Mas exceto por este comparativamente pequeno número de Sûfis e Gnósticos, nem o Islamismo nem o Cristianismo parecem elevar seus seguidores até este nível, ainda que alguns que nominalmente pertençam a estas religiões possam ser levados a este subplano pela presença em seu caráter de qualidades que não dependem dos ensinamentos peculiares às suas religiões.

Nesta região encontramos também sérios e devotados estudantes do Ocultismo que ainda não eram avançados o suficiente para obter o direito e o poder de renunciar à sua vida celeste pelo bem do mundo. Entre estes estava um que em vida tinha sido pessoalmente conhecido de alguns dos investigadores - um monge Budista que havia sido um diligente estudante de Teosofia, e tinha longamente acalentado a esperança de um dia ter o privilégio de receber instruções diretamente de seus instrutores Adeptos. Nesta sua vida celeste o Buda era a figura dominante, enquanto os dois Mestres que têm estado mais intimamente associados com a Sociedade Teosófica também apareciam como seus lugares-tenentes, expondo e ilustrando seus preceitos. Todas as três imagens estavam realmente plenas do poder e sabedoria dos grandes seres que representavam, e o monge estava portanto definidamente recebendo ensino autêntico sobre assuntos ocultos, cujo efeito quase certamente seria o de levá-lo de fato para a Senda da Iniciação em seu próximo nascimento.

Um outro indivíduo de nossas fileiras que foi encontrado neste nível ilustra o terrível efeito de abrigar suspeitas infundadas e não caridosas. Foi o caso de uma devotada e dedicada estudante que perto do fim da vida havia infelizmente decaído para uma atitude de muito indigna e injustificável desconfiança sobre as motivações de sua velha amiga e instrutora Madame Blavatsky; e foi triste perceber como este sentimento havia excluído em considerável extensão a influência e ensino superiores que ela poderia ter desfrutado em sua vida celeste. Não foi que a influência e o ensino lhes fossem de algum modo negados, pois isso jamais pode ocorrer; mas que sua própria atitude mental a tornou em alguma extensão não receptiva a eles. Ela estava é claro totalmente despercebida disso, e parecia-lhe estar desfrutando da mais completa e perfeita comunhão com os Mestres, ainda que fosse óbvio aos investigadores que se não fosse por aquela infeliz auto-limitação ela teria derivado muito maior vantagem de sua estada neste nível. Uma pletora quase infinita de amor e força e conhecimento jazia lá ao seu alcance, mas sua própria ingratidão havia tristemente lhe amputado seu poder de aceitá-la.

Seja entendido que uma vez que há outros Mestres de Sabedoria além daqueles ligados ao nosso próprio movimento, e outras escolas de ocultismo trabalhando ao longo das mesmas linhas gerais a que pertencemos, estudantes associados a elas também freqüentemente são encontrados neste subplano.

Passando agora para a próxima classe, a do alto pensamento filosófico e científico, encontramos aqui muitos daqueles pensadores mais nobres e altruístas que procuram visão e conhecimento somente no intuito de iluminar e ajudar os seus semelhantes. Não estamos incluindo como estudantes de filosofia aqueles homens, seja no Oriente ou no Ocidente, que gastam seu tempo na mera controvérsia verbal e disputa - pois esta é uma forma de discussão que tem raízes no egoísmo e preconceito, e portanto jamais pode ajudar para um real entendimento dos fatos do universo: pois naturalmente uma tola superficialidade como esta não produz nenhum resultado que possa frutificar no plano mental.

Como exemplo de um verdadeiro estudante observado neste subplano podemos mencionar um dos últimos seguidores do sistema neo-platônico, cujo nome foi felizmente preservado para nós nos registros remanescentes daquele período. Ele havia se esforçado durante toda a vida terrena para realmente dominar os ensinamentos daquela escola, e agora sua vida celeste era ocupada em desvendar seus mistérios e tentar entender suas aplicações sobre a vida e desenvolvimento humanos.

Um outro caso foi o de um astrônomo, que pareceu ter começado sua vida como ortodoxo, mas tinha gradualmente sob influência de seus estudos chegado até o Panteísmo; em sua vida celeste ele ainda continuava seus estudos com uma mente cheia de reverência, e estava indubitavelmente obtendo conhecimento real das grandes ordens de Devas, através dos quais neste plano o majestoso movimento cíclico das poderosas influências estelares parecia se expressar em incessantes fulgurações de onipenetrante luz viva. Ele estava perdido na contemplação de um vasto panorama de nebulosas rodopiantes e sistemas e mundos em lenta formação, e parecia estar elaborando uma estranha idéia de qual seria a conformação do universo, que ele imaginava como um vasto animal. Seus pensamentos o cercavam como formas elementares do feitio de estrelas, e uma fonte de especial júbilo para ele consistia em ouvir o augusto ritmo da música que emanava como poderosos corais dos orbes semoventes.

O terceiro tipo de atividade neste plano é o do esforço literário e artístico do tipo mais elevado, que é inspirado principalmente pelo desejo de elevar e espiritualizar a raça. Aqui encontramos todos os nossos maiores músicos; neste subplano Mozart, Beethoven, Bach, Wagner e outros estão ainda inundando o mundo celeste com harmonias muito mais gloriosas do que mesmo as mais sublimes que foram capazes de produzir quando na Terra. Parecia como se uma grande torrente de divina música se derramasse neles de regiões superiores, e era, por assim dizer, especializada por eles e tornada sua, para ser irradiada sobre todo o plano em uma vasta maré sonora que aumentava a felicidade de tudo em torno. Aqueles que estão atuando em plena consciência no plano mental ouvirão claramente e apreciarão toda esta magnífica efusão, mas mesmo as entidades desencarnadas deste nível, cada qual encapsulada em sua própria nuvem-pensamento, são também profundamente afetadas pela elevadora e enobrecedora influência desta música ressonante.

 

Também o pintor e escultor, se tiverem seguido suas respectivas artes sempre com uma aspiração alta e altruísta, estão aqui constantemente fazendo e disseminando todos os tipos de formas adoráveis para o deleite e encorajamento de seus semelhantes - as formas sendo simplesmente elementais artificiais criadas por seu pensamento. E não só podem estas formosas concepções proporcionar o mais fundo prazer aos que vivem inteiramente no plano mental; elas podem ainda em muitos casos ser captadas pelas mentes de artistas ainda encarnados - podem agir como inspiração para eles, e assim ser reproduzidas cá embaixo para a elevação e enobrecimento daquela porção da humanidade que está lutando em meio à agitação da vida física.

Uma figura tocante e bela encontrada neste plano foi a de um jovem que havia sido cantor de coro, e morrido com a idade de quatorze anos. Toda sua alma estava cheia de música e de juvenil devoção à sua arte, profundamente colorida pelo pensamento de que através dela ele estava expressando os anelos religiosos da multidão que enchia uma vasta catedral, e ao mesmo tempo estava derramando neles encorajamento e inspiração celestiais. Ele tinha aprendido pouco, exceto no que se refere a este único e grande dom para o canto, mas o havia usado com dignidade, tentando ser a voz do povo para o céu e do céu para o povo, e sempre desejando aprender mais música e executá-la mais nobremente por amor da Igreja. E assim em sua vida celeste seu desejo estava dando fruto, e sobre ele se inclinava a angulosíssima figura de uma Santa Cecília medieval, formada por seu amoroso pensamento a partir de uma imagem dela existente num vitral colorido. Mas mesmo que a aparência externa fosse uma assim pouco artística representação de uma duvidosa lenda eclesiástica, a realidade que jazia por trás era viva e gloriosa; pois a forma-pensamento infantil estava vivificada por um dos poderosos arcanjos da celestial hierarquia canora, e através dela ensinava ao corista um gênero de música mais sublime do que a Terra jamais conheceu.

Aqui ainda estava um dos fracassos terrenos - pois a tragédia da vida terrena deixa estranhas marcas algumas vezes até mesmo nos domínios celestes. No mundo onde todos os pensamentos dos seres amados sorriem para o homem como amigos, ele estava pensando e escrevendo em solitude. Na Terra ele tinha se empenhado em escrever um grande livro, e por amor disso havia recusado usar seus dotes literários para meramente sustentar-se com trabalho mercenário; mas ninguém leria seu livro, e ele andou pelas ruas desesperado, até que a tristeza e a privação fecharam seus olhos para a Terra. Ele tinha sido solitário toda a vida - sem amigos na juventude e afastado dos laços familiares, e em sua maturidade foi capaz de trabalhar somente a seu próprio modo, rejeitando mãos que o teriam conduzido a uma perspectiva das possibilidades da vida maior do que o paraíso terrestre que ele anelou construir para todos.

Agora, à medida que pensava e escrevia, mesmo não havendo ninguém lá a quem tenha amado como pessoa ou auxiliares ideais que poderiam fazer parte de sua vida mental, ele via se desenrolando à sua frente a Utopia que sonhara, pela qual tinha tentado viver, e as vastas multidões impessoais que ele havia desejado servir; e o júbilo pelo júbilo deles desceu sobre ele e fez de sua solidão um céu. Quando renascer sobre a Terra ele seguramente retornará com o poder de realizar bem como de planejar, e esta visão celestial tomará parcialmente corpo em vidas terrenas mais felizes.

Muitos foram encontrados neste plano que durante sua permanência na Terra haviam-se devotado a ajudar os homens porque haviam sentido o laço da fraternidade - que prestaram serviço por amor ao serviço antes que por desejarem agradar qualquer deidade particular. Eles estavam engajados em desenvolver com pleno conhecimento e tranqüila sabedoria vastos esquemas de beneficência, magníficos planos de melhoramento do mundo, e ao mesmo tempo estavam amadurecendo poderes com os quais os implementariam posteriormente aqui no plano inferior da vida física. 

A Realidade da Vida Celeste

Críticos que têm apreendido muito imperfeitamente o ensino Teosófico sobre o tema do além, algumas vezes têm argumentado que a vida da pessoa comum no mundo celeste inferior não passa de um sonho e uma ilusão - que quando a pessoa se imagina feliz entre os seus familiares e amigos, ou executando seus planos com tanta abundância de alegria e sucesso, seria na verdade vítima de uma cruel delusão: e isso é às vezes contrastado desfavoravelmente com a chamada ‘objetividade sólida' do céu prometido pela ortodoxia. A resposta para tal objeção é dupla: primeiro, que quando estamos estudando os problemas da vida futura não estamos interessados em saber qual das duas hipóteses colocadas diante de nós seria a mais agradável (isso, no final das contas, sendo uma questão de opinião), mas antes qual das duas é a verídica; e segundo, que quando pesquisamos mais profundamente a realidade dos fatos do caso vemos que os que sustentam a teoria da ilusão estão considerando a matéria de um ponto de vista assaz equivocado, e entenderam muito mal os fatos. 

Quanto ao primeiro ponto, o verdadeiro estado das coisas é facilmente averiguável por aqueles que desenvolveram o poder de passar conscientemente para o plano mental durante a vida; e quando assim investigado é descoberto estar em perfeita concordância com o relato a nós fornecido pelos Mestres da Sabedoria através de nossa grande fundadora e instrutora Madame Blavatsky. Isso imediatamente resolve a teoria da ‘objetividade sólida' mencionada acima, e transfere o ônus da prova para os ombros de nossos amigos ortodoxos. Quanto ao segundo ponto, se a controvérsia for sobre se a verdade em sua plenitude nos níveis inferiores do mundo celeste ainda não é conhecida pelo homem, e que conseqüentemente lá ainda existe ilusão, devemos admitir com franqueza que assim é. Mas isso não é o que usualmente querem dizer os que trazem esta objeção à baila; eles estão geralmente oprimidos por um sentimento de que a vida celeste será mais ilusória e inútil que a física - uma idéia que não poderia estar mais completamente oposta aos fatos.

É alegado que naquele plano construímos nosso próprio ambiente, e por esta razão vemos apenas uma parte muito pequena do plano? Certamente aqui em baixo também o mundo ao qual uma pessoa é sensível jamais é o todo do mundo externo, mas tão somente o quanto seus sentidos, seu intelecto, sua educação, o capacitam a apreender. É óbvio que durante a vida terrena a concepção da pessoa comum sobre tudo ao redor é realmente por demais equivocada - vazia, imperfeita, imprecisa em uma dúzia de maneiras; pois o que ela sabe das grandes forças - etérica, astral, mental - que estão além de tudo o que vê, e de fato constituem de longe a parte mais importante de tudo? O que ela sabe, como regra, mesmo sobre os mais recônditos fatos físicos que a rodeiam e a confrontam a cada passo que dá? A verdade é que aqui, como em sua vida celeste, vive em um mundo que em larguíssima parte é de sua própria criação. Ela não o percebe, seja aqui ou lá, mas isso ocorre em função de sua própria ignorância - porque ela não entende melhor.

É dito que no mundo celeste um homem toma seus pensamentos por coisas reais? Pois está absolutamente certo; eles são coisas reais, e nele, no plano-pensamento, nada além de pensamento pode ser real. Lá reconhecemos este grande fato - aqui não; em qual plano, então, a ilusão é maior? Aqueles seus pensamentos são mesmo realidades, e são capazes de produzir os mais extraordinários resultados sobre o homem vivente - resultados que jamais podem ser nada além de benéficos, porque naquele plano elevado não pode haver nada exceto pensamentos amorosos. Assim se vê que a teoria de que a vida celeste é uma ilusão é puramente o resultado de uma noção errônea, e demonstra imperfeito conhecimento de suas condições e possibilidades; a verdade é que quanto mais alto subimos - mais perto chegamos da realidade única.

Talvez auxilie o iniciante compreender quão real e quão inteiramente natural é a porção superior da vida humana se ele considerá-la simplesmente como o resultado da porção anterior passada nos dois planos inferiores. Todos nós bem sabemos que nossos mais altos ideais jamais se realizam, que nossas mais elevadas aspirações jamais dão frutos plenos aqui embaixo. De modo que poderia parecer que assim alguns esforços foram vãos, alguma força foi desperdiçada. Mas sabemos que não pode ser assim, pois a lei da conservação da energia trabalha tão bem nos planos superiores quanto nos inferiores. Muita daquela energia espiritual superior que o homem mobiliza reage sobre ele durante sua vida na Terra, pois até que seus princípios superiores não se libertem do cascão da carne, são incapazes de responder àquelas vibrações muitíssimo mais finas e sutis. Mas na vida celeste pela primeira vez todo este impedimento é removido, e a energia acumulada imediatamente se libera na reação inevitável que a lei da justiça eterna requer. Como Browning grandiosamente o descreveu:

‘Lá nenhum bem jamais é perdido! O que findou, será como outrora;
Nulo é o mal, o mal só é nada, é o silêncio implicando o som;
O que era bem será repetido, o que era mal, em bem torna agora;
Sobre a Terra as partes dos arcos: no Paraíso, um círculo bom.

‘O que esperamos ou pretendemos ou sonhamos de bom haverá;
Não na aparência, mas em verdade: toda beleza, o bem, a potência,
Cuja harmonia no ontem perdemos, para o Cantor tudo viverá
Quando afirmar-se na eternidade de momentânea idéia a essência.

‘A altitude alta em excesso, o heroísmo aqui demasiado,
Toda a paixão que asas criou para no aéreo espaço perder-se,
Música são, mandadas a Deus pelo poeta e o enamorado;

 

Uma só vez que Ele a ouça, e basta; nós a ouviremos eternamente.' 

Um outro ponto que merece lembrança é o de que este sistema sobre o qual a natureza organizou a vida após a morte é o único imaginável que poderia atender ao seu objetivo de fazer cada um feliz na mais plena extensão de sua capacidade para a felicidade. Se a alegria celeste fosse de um só tipo particular, como é na teoria ortodoxa, sempre haveriam alguns que estariam insatisfeitos, alguns que seriam incapazes de participar nela, seja por falta de gosto naquela direção particular, seja por carência da educação necessária - para não falarmos do outro fato óbvio, de que se essa situação fosse eterna, a mais grosseira injustiça seria perpetrada ao conceder-se praticamente a mesma recompensa a todos os que entram, não importando quais pudessem ser seus respectivos méritos.

Novamente, que outro arranjo no que tange aos parentes e amigos poderia ser igualmente satisfatório? Se os falecidos fossem capazes de acompanhar a sorte oscilante de seus amigos na Terra, a felicidade lhes seria impossível; se, sem saberem o que lhes estava sucedendo, tivessem que esperar até a morte daqueles amigos antes de encontrá-los, seria um doloroso período de espera, freqüentemente se estendendo por muitos anos, enquanto em muitos casos o amigo chegaria tão mudado que já não lhe seria simpático.

No sistema tão sabiamente disposto para nós pela natureza cada uma destas dificuldades é contornada; um homem decide por si mesmo a duração e o caráter de sua vida celeste pelas causas que ele mesmo gerou durante sua vida terrestre; daí que ele não pode ter senão a porção exata do que lhe cabe, e precisamente a qualidade de alegria que melhor é adequada às suas idiossincrasias. Aqueles a quem ama tem sempre consigo, e sempre em sua melhor e mais nobre condição; enquanto que nenhuma sombra de discórdia ou mudança pode jamais aparecer entre eles, uma vez que recebe deles exatamente o que deseja. Em verdade, o arranjo realmente feito é infinitamente superior a qualquer coisa que a imaginação do homem tem sido capaz de nos oferecer neste ponto; como de fato poderíamos ter esperado, apesar de todas as especulações do homem sobre o que é melhor; mas a idéia de Deus é a verdade.

A Renúncia ao Céu

Tem sido entendido há tempo pelos estudantes do ocultismo que entre as possibilidades de mais rápido progresso que surgem para o homem à medida que avança está a ‘renúncia à recompensa do Devachan' como tem sido chamada - isto é, o abrir mão da vida de bem-aventurança no mundo celeste entre duas encarnações a fim de voltar mais rapidamente para executar trabalho no plano físico. A frase não é muito boa, pois seria muito mais provável chegarmos a um entendimento correto da vida celeste se a olhássemos como um necessário resultado da vida terrestre, mais do que como sua recompensa. No curso de sua existência física um homem põe em movimento por seus mais altos pensamentos e aspirações o que poderia ser descrito como certa quantidade de força espiritual, que reagirá sobre ele quando chegar no plano mental. Se houver apenas pouca desta força, ela comparativamente cedo se esgotará, e a vida celeste será curta; se, ao contrário, uma grande quantidade tiver sido gerada, um espaço de tempo correspondente será necessário para sua frutificação plena, e o céu será enormemente prolongado.

À medida que um homem desenvolve-se em espiritualidade, portanto, suas vidas no mundo celeste se tornam mais longas, mas não devemos supor que seu progresso seja por isso atrasado ou suas oportunidades de utilidade diminuídas. Para todas as pessoas exceto as muito evoluídas a vida celeste é absolutamente necessária, sendo em suas condições apenas que suas aspirações podem ser desenvolvidas em faculdades, suas experiências em sabedoria; e o progresso que é feito assim pela Alma é muitíssimo maior do que seria possível se por algum milagre ela fosse capaz de permanecer em encarnação fisica durante todo o período. Se fosse de outro modo, obviamente toda a lei da natureza anularia a si mesma, pois quanto mais perto chegasse à consecução de seu grande objetivo, mais determinados e formidáveis seriam os seus esforços de derrotar a si mesma - dificilmente uma visão razoável a ter de uma lei que sabemos ser uma expressão da mais exaltada sabedoria!

A possibilidade de renúncia à vida celeste não está de modo algum ao alcance de todo mundo. A Grande Lei não permite a nenhum homem renunciar cegamente ao que ignora, nem desviar-se do curso comum da evolução a menos e até que esteja certa de que tal desvio seja para seu benefício maior.

A regra geral é que ninguém está em posição de renunciar à bem-aventurança da vida celeste até que a tenha experimentado durante a vida terrena - até que esteja suficientemente desenvolvido para ser capaz de alçar sua consciência àquele plano, e trazer de volta consigo uma memória clara e completa daquela glória que tão de longe transcende a concepção terrestre.

Uma pequena reflexão tornará evidente a razão e a justiça disso. Poderia ser dito que desde que é o progresso da Alma o que realmente está em questão, seria suficiente para ela entender em seu próprio plano a conveniência de fazer o sacrifício da bem-aventurança celestial, e então compelir seu eu inferior a agir em concordância com sua decisão. Ainda assim dificilmente seria uma justiça estrita, pois o desfrute da bem-aventurança celeste nos níveis rûpa, mesmo pertencendo ao Ego, pertence a ele apenas somente manifesto através de sua personalidade; é a vida daquela personalidade, com todo o seu ambiente pessoal familiar, que é levada para o céu inferior. Assim, antes que a renúncia de tudo isso possa ter lugar, aquela personalidade deve perceber claramente o que é aquilo a que ela está renunciando; a mente inferior deve estar de acordo com a superior neste assunto.

Agora, tal percepção obviamente envolve a posse durante a vida terrena de uma consciência no plano mental equivalente àquela que a pessoa em questão teria após a morte. Mas deve ser bem lembrado que a evolução da consciência ocorre realmente de baixo para cima, e que a comparativamente não evoluída maioria da humanidade está efetivamente cônscia até agora só no seu corpo físico. Seus corpos astrais ainda são na maior parte ainda informes e desorganizados - pontes de comunicação sim entre o Ego e sua vestimenta física, e mesmo veículos para a recepção de sensações, mas ainda em nenhum sentido instrumentos na mão do homem verdadeiro ou expressões adequadas de seus futuros poderes naquele plano.

Nas raças mais evoluídas da humanidade encontramos o corpo astral muito mais desenvolvido, e a consciência nele em muitos casos potencialmente quase completa, ainda que mesmo então na maioria dos casos o homem esteja totalmente auto-centrado - cônscio principalmente de seus próprios pensamentos, e muito pouco de seu real entorno. Para avançar ainda mais, alguns poucos que têm empreendido o estudo do ocultismo têm sido regularmente despertos naquele plano, e assim iniciado o uso pleno de suas faculdades astrais, e doravante estão de muitas maneiras derivando disso grandes benefícios.

Entretanto, não se segue que tais homens devam logo, ou mesmo durante um longo período, lembrar-se no plano físico das atividades e experiências de sua vida astral. Como regra geral eles o fazem de modo parcial e intermitente, mas há casos que por várias razões quase nada que poderia deixar lembrança daquela experiência mais alta encontra meios de chegar ao cérebro físico.

Qualquer tipo de consciência definida no plano mental, é claro, indicaria um avanço ainda ulterior, e no caso de um homem que estivesse se desenvolvendo de modo bastante normal e regular esperaríamos encontrar tal consciência despertando apenas quando a conexão entre o astral e o físico estivesse já bastante estabilizada. Mas nesta condição unilateral e artificiosa que chamamos de civilização moderna, as pessoas nem sempre se desenvolvem muito regular e normalmente, daí que encontramos casos em que grande porção de consciência no plano mental já foi adquirida e devidamente conectada à vida astral, mesmo que nenhuma percepção de toda esta existência mais elevada jamais alcance o cérebro físico.

Tais casos são muito raros, mas certamente existem, e neles vemos imediatamente a possibilidade de uma exceção à nossa regra. Uma personalidade deste tipo poderia estar suficientemente evoluída para provar da indescritível beatitude do céu e portanto adquirir o direito de renunciar a ele, mesmo não sendo capaz de trazer a memória disso mais para baixo do que na sua vida astral. Mas supondo a hipótese de que a vida astral fosse de plena e perfeita consciência para a personalidade, tal memória seria amplamente suficientemente para preencher os requisitos da justiça, mesmo que nenhuma sombra disso tudo jamais chegasse à consciência física desperta. O grande ponto a ser mantido em mente é que se é a personalidade quem deve renunciar, também é a personalidade que deve experimentar, e deve trazer a lembrança para algum plano onde funcione normalmente e em plena consciência; mas este plano não precisa necessariamente ser o físico se estas condições forem preenchidas no astral. Um caso assim seria pouco provável de ocorrer exceto entre os que já são pelo menos discípulos probacionários de um dos Mestres de Sabedoria.

O homem que deseje realizar esta grande façanha deve portanto trabalhar com a mais intensa aplicação para fazer-se um instrumento digno nas mãos daqueles que auxiliam o mundo - deve arrojar-se com o mais devotado fervor ao trabalho pelo bem espiritual dos outros, sem presumir-se arrogante que já merece tão alta honra, mas antes esperando com humildade que talvez em uma ou duas vidas de estrênuo esforço seu Mestre possa dizer-lhe que é chegado o tempo em que também para ele esta pode ser uma possibilidade. 

Os Mundos Celestes Superiores

Nós agora deixamos os quatro níveis inferiores ou rûpa do plano mental, nos quais o homem atua em sua personalidade temporária, e passamos a considerar os três níveis superiores ou arûpa, sua morada verdadeira e relativamente perene. Aqui, até onde ele pode ver, vê claramente, pois subiu para acima das ilusões da personalidade e do meio refratante do eu inferior, e por mais que sua consciência possa ser confusa, sonhadoramente desatenta e pouco desperta, sua visão pelo menos é verdadeira, mesmo que limitada. As condições de consciência são tão diversas de tudo o que nos é familiar aqui embaixo que todos os termos conhecidos da psicologia são inúteis e ilusórios. Este tem sido chamado o domínio do numenal em contraste com o do fenomenal, ou do sem forma em contraposição ao formado; mais ainda é um mundo de manifestação, por mais real que seja quando comparado às irrealidades dos estados inferiores, e ainda tem formas, mesmo que mais refinadas em seus materiais e mais sutis em suas essências.

Depois de encerrado o período que usualmente denominamos vida celeste, ainda há uma outra fase de existência para a Alma antes que renasça na Terra, e mesmo que no caso da maioria das pessoas este seja um estágio comparativamente breve, não devemos ignorá-lo se desejamos formar uma concepção completa da vida supra-física do homem.

Estamos perpetuamente entendendo mal a vida do homem porque temos o hábito de ter uma visão parcial dela, e que desconsidera inteiramente sua real natureza e objetivo. Geralmente a olhamos, de fato, do ponto de vista do corpo físico, e jamais do ponto de vista da Alma; e portanto apreendemos toda a coisa completamente fora de proporção. Cada movimento do Ego em direção a estes planos inferiores e de volta são em verdade um vasto caminho circular; tomamos um diminuto fragmento do arco inferior deste círculo e o consideramos uma linha reta, dando mui indevida importância ao seu início e fim, enquanto o verdadeiro ponto crucial do círculo naturalmente de todo nos escapa.

Pense no assunto por um momento como ele deve aparecer ao homem real em seu próprio plano, assim que ele começa a tornar-se claramente cônscio lá. Obedecendo ao desejo por manifestação que encontra em si, que é impresso nele pela lei de evolução que é a vontade do Logos, ele imita a ação daquele Logos se manifestando em planos inferiores.

No decurso deste processo ele se reveste de matéria dos vários planos pelos quais passa - mental, astral, e então físico, todo o tempo pressionando firmemente para fora. Durante a parte inicial daquele pequeno fragmento de existência no plano físico que chamamos de sua vida, a força para fora é ainda grande, mas por volta da metade do ciclo, nos casos comuns, aquela força começa a se esgotar, e o grande caminho de retorno começa.

Não que ali haja alguma mudança súbita ou violenta, pois isso não é um ângulo, mas ainda parte da curva do mesmo círculo - correspondendo exatamente ao momento do afélio no percurso de um planeta em torno de sua órbita. Este é o verdadeiro ponto de retorno daquele pequeno ciclo de evolução, ainda que em nosso caso usualmente não o seja demarcado de alguma maneira. No antigo sistema de vida indiano ele era assinalado como sendo o fim do período grihastha ou período de chefe de família da existência do homem.

Deste ponto em diante não haveria nada além de um constante refluxo para o interior de toda a força do homem, e sua atenção deveria ser mais e mais desligada das coisas meramente mundanas, e concentrar-se nas dos planos superiores - daí vemos de imediato o quão excessivamente mal-adaptadas ao progresso real são as modernas condições da vida européia.

O ponto no qual o homem abandona seu corpo físico não é especialmente importante neste arco evolutivo - de modo nenhum tão importante como a próxima mudança, que poderíamos chamar de sua morte no plano astral e seu nascimento no mundo celeste, ainda, embora seja realmente só a transferência de consciência da matéria astral para a matéria mental no decorrer do mesmo constante recolher-se do qual já falamos.

O resultado final da vida é conhecido somente quando neste processo de recolhimento a consciência é uma vez mais centrada no Ego em seu domicílio no mundo celeste superior; então é percebido quais novas qualidades ele adquiriu no curso daquele particular pequeno ciclo de sua evolução. Neste momento ainda é obtido um vislumbre da vida como um todo; a Alma tem por um instante um lampejo de consciência mais clara, no qual vê os resultados da vida recém completada, e alguma coisa do que sucederá disso no seu próximo nascimento.

Este vislumbre dificilmente pode ser dito como envolvendo um conhecimento da natureza da próxima encarnação, exceto no sentido mais vago e geral; sem dúvida o objetivo principal da vida seguinte será percebido, mas a visão seria principalmente valiosa para a Alma como uma lição sobre o resultado kármico de sua atuação no passado. Isso lhe oferece uma oportunidade, da qual ela tira maior ou menor proveito de acordo com o estágio de desenvolvimento que já tiver alcançado.

No início ela faz pouco uso disso, pois não está senão vagamente consciente e muito pobremente preparada para apreender os fatos e suas variadas inter-relações; mas gradualmente seu poder de apreciar o que vê aumenta, e mais tarde chega a habilidade de incluir a lembrança dos lampejos finais de vidas anteriores, e compará-los, e assim estimar o progresso que ela está fazendo ao longo da estrada que tem de percorrer. 

Terceiro Subplano

- O Quinto Céu -

Este, o mais baixo dos subplanos arûpa, é também de longe a mais populosa de todas as regiões com que nos familiarizamos, pois aqui estão presentes quase todos os sessenta bilhões de Almas que nos dizem estar engajadas na presente evolução humana - todas, de fato, exceto o comparativamente pequeno número das que são capazes de atuar no segundo e primeiro subplanos. Cada alma é representada por uma forma ovóide - de início uma simples película, incolor e quase invisível, da mais tênue consistência; mas, com a evolução do Ego, este corpo começa a mostrar uma tremeluzente iridescência como uma bolha de sabão, as cores a brincar em sua superfície como os matizes cambiantes produzidos pela luz do sol nos borrifos de uma cachoeira.

Compostas de matéria inconcebivelmente fina, delicada e etérea, intensamente viva e pulsando com fogo vivente, ao adiantar sua evolução ela se torna um radiante globo de cores flamejantes, suas altas vibrações emitindo fulgurações de tons mutáveis sobre sua superfície - tons dos quais a Terra nada sabe - brilhantes, suaves e luminosos além do poder de descrição da linguagem. Tome as cores de um pôr-de-sol no Egito e adicione a elas a maravilhosa suavidade de um céu inglês ao entardecer - transporte-as tão acima de si mesmas em luz e transparência e esplendor como estão acima das cores produzidas por uma paleta de tintas infantis - e mesmo aí ninguém que não os tenha visto pode imaginar a beleza desses orbes radiosos que resplendem no campo visual do clarividente quando se alça ao nível deste mundo superno.

Todos os corpos causais estão cheios de fogo vivo descido de um plano superior, ao qual cada globo parece estar conectado por um palpitante fio de intensa luz, trazendo vividamente à memória as palavras das Estâncias de Dzyan, ‘a Centelha pende da Chama pelo finíssimo fio de Fohat'; e à medida que a Alma cresce e é capaz de receber mais e mais do inexaurível oceano do Espírito Divino que se infunde pelo fio como num canal, este se expande e dá mais larga passagem à corrente, até que no próximo subplano poderia ser figurado como uma adutora interligando Terra e céu, e mais alto ainda como sendo um grande globo através do qual jorra a fonte viva, até que o corpo causal parece fundir-se dentro da luz efluente. Uma vez mais a Estância nos diz: ‘O fio entre o Vigilante e sua sombra se torna mais forte e radiante a cada mudança. A luz da manhã se tornou a glória meridiana. Esta é tua presente ronda, disse a Chama à Centelha. Tu és Eu mesma, minha imagem e minha sombra. Eu ocultei-me em ti, e tu és meu veículo até o dia "Sêde-conosco", quando tu voltarás a ser Eu mesma e outras, tu mesma e Eu.'

As Almas que estão ligadas a um corpo físico são distinguíveis dos que desfrutam o estado desencarnado pela diferença nos tipos de vibração disseminados pela superfície dos globos, e é destarte fácil neste plano reconhecer num relance qual indivíduo está ou não em encarnação no momento. A imensa maioria, seja dentro ou fora do corpo, estão apenas sonhadoramente semiconscientes, embora poucas ainda estejam agora na condição de meras películas incolores; as que estão plenamente despertas são notáveis e brilhantes exceções, destacando-se dentre as multidões menos radiosas como estrelas de primeira magnitude, e entre estas e as menos desenvolvidas estão escalonadas todas as variedades de tamanho e beleza de cores - cada uma assim evidenciando o exato estágio evolutivo a que chegou.

A maioria ainda não está suficientemente definida, mesmo com a consciência que possuem, para entender o propósito das leis da evolução em que estão engajadas; elas buscam a encarnação em obediência ao impulso da Vontade Cósmica, e também por Tanhâ, a sede cega por vida manifesta - um desejo de encontrar alguma região na qual possam sentir e ser conscientes do viver. Pois em seus estágios iniciais estas Almas não desenvolvidas não podem sentir as vibrações intensamente aceleradas e penetrantes da matéria altamente refinada de seu próprio plano; as vibrações fortes e grosseiras mas comparativamente mais lentas da matéria mais densa do plano físico são as únicas capazes de evocar-lhes qualquer resposta. De modo que é somente no plano físico que elas se sentem inteiramente vivas, e isso explica seu ardente desejo por renascimento na vida terrestre. Portanto durante algum tempo seu desejo concorda exatamente com a lei da evolução. Elas podem se desenvolver tão somente por meio desses impactos externos, aos quais gradualmente despertam para responder, e neste estágio inicial só podem recebê-los em vida terrena. A passos lentos seu poder de resposta aumenta, e é despertado primeiro para as vibrações físicas mais altas e mais finas, e ainda mais gradativamente para aquelas do plano astral. Então seus corpos astrais, que até então haviam sido meras pontes para transmissão de sensações à Alma, paulatinamente se tornam veículos definidos que elas podem usar, e sua consciência começa a estar centrada antes em suas emoções do que nas meras sensações físicas.

Num estágio ulterior, mas sempre pelo mesmo processo de aprender a responder a impactos de fora, as Almas aprendem a centrar sua consciência no corpo mental - a viver de acordo com as imagens mentais que formaram para si mesmas, e assim a governar suas emoções através da mente. Mais tarde ainda na longa, longa estrada o centro passa para o corpo causal, e as Almas percebem sua vida verdadeira. Quando este tempo chegar elas serão encontradas em um subplano mais alto que este, e a existência inferior terrestre já não lhes será necessária; mas por enquanto estamos pensando na maioria menos evoluída, que ainda projetam no oceano de existência apalpando com tentáculos ondulantes as personalidades que são elas próprias nos planos inferiores da vida, ainda que não estejam de modo algum conscientes de que estas personalidades são os meios pelos quais são nutridas e crescem. Não vêem nada de seu passado ou seu futuro, sequer estando conscientes em seu próprio plano. E mais, como estão lentamente imergindo na experiência e assimilando-a, lá vai crescendo uma sensação de que certas coisas são boas de fazer e outras são ruins, e isso se expressa imperfeitamente na personalidade associada como um início de consciência, um sentimento de certo e errado: e gradualmente, ao se desenvolverem, este sentimento mais e mais claramente se formula na natureza inferior, e se torna um guia de conduta menos ineficiente.

Através das oportunidades dadas pelo lampejo de consciência mais completa a que antes nos referimos, as Almas mais avançadas deste subplano as desenvolvem até um ponto em que se acham empenhadas em estudar seu passado, detectando as causas desencadeadas nele, e aprendendo muito desta retrospectiva, de modo que os impulsos enviados para baixo se tornam mais claros e definidos, e se trasladam à consciência inferior como convicções firmes e intuições imperativas.

Talvez seja pouco necessário repetir que as imagens-pensamento dos níveis rûpa não são carregadas para o mundo celeste superior; toda a ilusão aqui é passado, e cada Alma conhece sua verdadeira linhagem, percebem-se e são percebidas em suas próprias naturezas régias, como o homem verdadeiro imortal que continua de vida para vida, com todos os laços intactos que são enfeixados em seu ser real. 

Segundo Subplano

- O Sexto Céu -

Da densamente povoada região que estivemos considerando passaremos para um mundo mais esparsamente habitado, como se nos deslocássemos de uma grande cidade para um pacato vilarejo interiorano; pois no presente estágio da evolução humana somente uma pequena minoria de indivíduos subiu até este elevadíssimo nível onde até o menos avançado é definitivamente auto-consciente, e também consciente de seu entorno. Capaz de rever o passado donde veio pelo menos em alguma extensão, a Alma neste nível está ciente do propósito e método da evolução; ela sabe que está empenhada num trabalho de auto-desenvolvimento, e reconhece os estágios da vida física e post-mortem pelos quais passa em seus veículos inferiores. A personalidade a que está conectada é vista por ela como parte de si mesma, e tenta guiá-la, usando seu conhecimento do passado como um repositório de experiência da qual eduz princípios de conduta, convicções claras e imutáveis sobre o certo e o errado. Estas ela envia para sua mente inferior, superintendendo e direcionando suas atividades. Conquanto falhe continuamente na primeira parte de sua vida neste subplano em fazer a mente inferior entender logicamente os fundamentos dos princípios que imprime nela, já mui definidamente é bem sucedida no fazer essa impressão, e idéias abstratas tais como verdade, justiça e honra se tornam concepções inabaláveis e direcionadoras na vida mental inferior.

Há regras de conduta impostas por sanções sociais, nacionais, e religiosas, pelas quais um homem se governa na vida diária, ainda que possa ser desviado por algum ímpeto de tentação, alguma sobrepujante onda de paixão e desejo; mas há coisas que um homem evoluído não pode fazer - coisas que vão contra sua verdadeira natureza; ele não pode mentir, ou trair, ou empreender alguma ação desonrosa. Nas mais íntimas fibras de seu ser certos princípios estão fundidos, e agir contra eles é uma impossibilidade, não importa qual possa ser a pressão das circunstâncias ou a veemência da tentação; pois essas coisas são da vida da Alma. Entretanto, ao conseguir guiar assim seu veículo inferior, seu conhecimento dele e suas ações estão freqüentemente longe de serem precisos e claros. Ela vê os planos inferiores mas nubladamente, entendendo seus princípios antes que seus detalhes, e parte de sua evolução neste plano consiste em entrar mais e mais conscientemente em contato com a personalidade que tão imperfeitamente a representa aqui embaixo.

Deve ser entendido disso que somente Almas que deliberadamente estão desejando crescimento espiritual vivem neste plano, e têm em conseqüência se tornado largamente receptivas a influências dos planos acima delas. O canal de comunicação cresce e se alarga, e um fluxo mais copioso passa através. O pensamento sob estas influências assume uma qualidade singularmente clara e penetrante, mesmo nos menos desenvolvidos, e o efeito disso na mente inferior se mostra como uma tendência à filosofia e ao pensamento abstrato. Nos mais altamente evoluídos a visão é de longo alcance; abrange com clara percepção o passado, reconhece as causas desencadeadas, suas conseqüências, e o que resta ainda não esgotado de seus efeitos.

As Almas que vivem neste plano têm amplas oportunidades de crescimento quando livres do corpo físico, pois aqui podem receber instruções de entidades mais avançadas, entrando em contato direto com seus instrutores. Não mais através de imagens-pensamento, mas de clarões fulgurantes impossíveis de descrever: a verdadeira essência da idéia voa como uma estrela de uma Alma para outra, suas correlações se expressando como ondas de luz emanando da estrela central, e prescindindo de qualquer enunciado à parte. Um pensamento é como uma lâmpada colocada numa sala; mostra todas as coisas em torno, mas não requer palavras para descrevê-las.

Primeiro Subplano

- O Sétimo Céu -

Este, o nível mais glorioso do mundo mental, ainda tem apenas poucos moradores de nossa humanidade, pois em suas altitudes não reside ninguém além dos Mestres da Sabedoria e Compaixão, e seus discípulos iniciados. Da beleza de forma e cor e som daqui nenhuma palavra pode falar, pois a linguagem mortal não possui termos nos quais aqueles radiantes esplendores possam achar expressão. Basta que existam, e que alguns de nossa raça os estejam vestindo, o penhor do que outros hão de ser, a fruição cuja semente foi plantada nos planos mais baixos. Estes completaram a evolução mental, de modo que neles o mais elevado rebrilha mesmo através do mais baixo; pois o véu ilusório da personalidade foi erguido de seus olhos, e sabem e percebem que não são a natureza inferior, mas só a usam como veículo de experiência. Ela pode ainda ter o poder nos menos evoluídos deles de abalar e limitar, mas eles não podem jamais cair no desatino de confundir o veículo com o Eu por trás dele. Disto estão salvos por manterem sua consciência ininterrupta não só de um dia para outro mas de vida para vida, de modo que as vidas passadas não são tanto recuperadas pela retrospecção, mas estão como que sempre presentes em sua consciência, sentindo-as o homem como uma só vida antes do que como muitas.

Nesta altura a Alma é cônscia do mundo celeste inferior bem como do seu próprio, e se possuir quaisquer manifestações lá como forma-pensamento na vida celeste de seus amigos, pode fazer delas o mais completo uso. No terceiro subplano, e mesmo na parte inferior do segundo, sua consciência dos planos abaixo de si ainda era nevoenta, e sua ação nas formas-pensamento largamente instintiva e automática. Mas tão cedo acostumou-se ao segundo subplano sua visão rapidamente se tornou mais clara, e com prazer reconheceu as formas-pensamento como veículos através dos quais era capaz de expressar de certas maneiras mais de si mesma do que o poderia por meio de sua personalidade.

Agora que está funcionando no corpo causal em meio à magnificente luz e esplendor do mais alto dos céus, sua consciência é instantânea e perfeitamente ativa em qualquer ponto das divisões inferiores a que quiser direcioná-la, e, assim, pode intencionalmente projetar energia adicional em tal forma-pensamento quando desejar usá-la com o propósito de ensinar.

Deste nível mais alto do mundo mental desce a maior parte da influência irradiada pelos Mestres da Sabedoria em seu trabalho pela evolução da raça humana, agindo diretamente nas Almas dos homens, semeando nelas as energias inspiradoras que estimulam o crescimento espiritual, que iluminam o intelecto e purificam as emoções. É daí que o gênio recebe sua iluminação; aqui todos os esforços ascendentes encontram assistência. Como todos os raios do sol partem de um centro, e cada corpo que os recebe os usa de conformidade com sua natureza, assim dos Irmãos Mais Velhos da raça recai em todas as Almas a luz e a vida que é sua função distribuir; e cada uma utiliza o que é capaz de assimilar, crescendo portanto e evoluindo. Assim, como todo o resto, a mais excelsa glória do mundo celeste está na glória do serviço, e os que completaram sua evolução mental são as fontes de onde jorra força para os que ainda estão subindo. 

II. NÃO-HUMANOS

Quando tentamos descrever os habitantes não-humanos do plano mental, vemo-nos de pronto face a face com dificuldades do mais insuperável caráter. Pois ao tocarmos o sétimo céu entramos em contato pela primeira vez com um plano que é cósmico em sua extensão - no qual, portanto, podem ser encontradas muitas entidades que a mera linguagem humana não tem palavras para retratar. Para os propósitos do presente estudo, provavelmente seria melhor pô-las de lado junto com aquela imensa hoste de seres cujo âmbito é cósmico, e confinar nossas asserções estritamente aos habitantes peculiares ao plano mental de nossa própria cadeia de mundos. Pode ser lembrado que no manual sobre O Plano Astral o mesmo expediente foi adotado, sem nenhuma tentativa de descrevermos os visitantes de outros planetas e sistemas; e mesmo sendo lá tais visitantes só ocasionais, e aqui muito mais freqüentes, parece melhor neste caso aderir ao mesmo preceito. Contudo, será de utilidade deixarmos aqui umas poucas palavras sobre a essência elemental do plano e as seções do grande Reino Dévico que lhe são especialmente relacionadas; e a extrema dificuldade de apresentar mesmo estas idéias comparativamente simples mostrarão conclusivamente o quão impossível seria lidar com outras que não poderiam ser senão muitíssimo mais complicadas. 

A Essência Elemental

Pode ser lembrado que em uma das primeiras cartas recebidas de um instrutor Adepto foi assinalado que compreender a condição do primeiro e segundo dos reinos elementais era impossível exceto para o iniciado - uma observação que mostra quão parcial deve ser o sucesso que pode resultar de qualquer esforço para descrevê-las aqui no plano físico. Será bom antes de tudo que tentemos formar em nossas mentes uma idéia o mais clara possível do que realmente seja a essência elemental, uma vez que este é um ponto onde muita confusão parece amiúde existir, mesmo entre aqueles que têm feito consideráveis estudos da literatura Teosófica. 

O que É

Essência elemental, portanto, é meramente um nome aplicado durante certos estágios primitivos de sua evolução à essência monádica, que por sua vez pode ser definida como a emanação da Vida Divina do Segundo Logos dentro da matéria. Estamos todos familiarizados com o fato de que antes desta emanação chegar ao estágio da individualização no qual forma o corpo causal de um homem, já atravessou e animou por sua vez seis fases mais inferiores da evolução - a animal, a vegetal, a mineral e três reinos elementais. Ao energizar aqueles respectivos estágios foi chamada às vezes de mônada animal, vegetal ou mineral - mesmo que este termo seja definitivamente enganador, uma vez que muito antes de chegar a qualquer destes reinos já se tornou não uma, mas muitas mônadas. O nome, foi, contudo, adotado para transmitir a idéia de que, mesmo que a diferenciação na essência monádica já tenha há muito se estabelecido, ainda não havia sido levada ao ponto de individualização. Agora, quando a essência monádica está energizando os três grandes reinos elementais que precedem o mineral, é chamada pelo nome de ‘essência elemental'. 

A Velação do Espírito

Antes, contudo, que a natureza da essência monádica e a maneira pela qual se manifesta nos vários planos possa ser entendida, deve ser percebido o método pelo qual o espírito reveste-se de matéria em sua descida. Aqui não estamos tratando da formação original da matéria dos planos, mas simplesmente da descida de uma nova onda de evolução para dentro de matéria pré-existente.

Antes do período de que estamos falando, esta onda de vida passou éons incontáveis evoluindo, de um modo de que só podemos ter pouquíssima compreensão, através de sucessivas formações de átomos, moléculas e células; mas deixaremos por enquanto de lado toda esta primeira parte desta estupenda história, e consideraremos somente sua descida na matéria de planos um tanto mais dentro do alcance do intelecto humano, embora ainda muito acima do que o nível meramente físico.

Seja entendido, então, que quando o espírito repousando em qualquer plano (não importa qual), em sua trajetória descendente em direção à matéria, pela força irresistível de sua própria evolução é levado a passar para o plano imediatamente inferior, deve, a fim de manifestar-se lá, envolver-se pelo menos de matéria atômica daquele plano mais baixo - lançar em torno de si sob a forma de um corpo um véu daquela matéria, para o qual servirá de alma ou força energizante. Similarmente, quando continua em sua descida para um terceiro plano, deve reunir à sua volta um pouco desta matéria, e teremos então uma entidade cujo corpo ou cobertura externa consiste de matéria atômica daquele terceiro plano.

Mas a força energizante nesta entidade - sua alma, por assim dizer - não será o espírito na condição em que existia no plano onde primeiro o encontramos; será aquele espírito mais o véu de matéria atômica do segundo plano através do qual passou. Quando uma descida ulterior é feita para um quarto plano, a entidade se torna ainda mais complexa, pois terá então um corpo de matéria daquele quarto plano, animado por espírito duas vezes velado na matéria atômica do segundo e terceiro planos. Vê-se que uma vez que este processo se repete para cada plano do sistema solar: no momento em que a força original atinge nosso nível físico está tão pesadamente velada que pouco admira que os homens freqüentemente falhem em reconhecê-la como espírito.

Por exemplo, vamos supor que o clarividente destreinado tentando investigar a mônada mineral - examinar a força-vida por trás do reino mineral. A sua visão seria praticamente com certeza confinada ao plano astral, e provavelmente seria por demais imperfeita mesmo ali; pois para ele esta força pareceria simplesmente astral. Mas um estudante treinado, examinando-a com poder superior, veria que o que o clarividente havia tomado por força astral era meramente matéria atômica astral posta em movimento por uma força procedente da parte atômica do plano mental. O estudante mais avançado seria capaz de ver que aquela matéria atômica metal por sua vez era só um veículo no qual algo do subplano búdico mais elevado estava agindo, enquanto que o Adepto perceberia que a matéria búdica não passava de um veículo para a nirvânica, e que a força que penetrou e agiu através de todos esses sucessivos véus veio na realidade também de fora deste plano cósmico-prakrítico, e era de fato simplesmente uma das manifestações da Força Divina. 

Os Reinos Elementais

A essência elemental que encontramos no plano mental constitui o primeiro e segundo dos grandes reinos elementais. Uma onda da Vida Divina, tendo encerrado nalgum éon anterior sua evolução descendente através do plano búdico, desce ao sétimo céu, e anima grandes massas da matéria atômica mental, tornando-se assim a essência elemental do primeiro grande reino. Neste, sua condição mais simples, não combina os átomos em moléculas a fim de formar um corpo para si, mas simplesmente por sua atração aplica-lhes uma imensa força compressora. Podemos imaginar a força, primeiro atingindo este plano em seu percurso descendente, sendo inteiramente desacostumada com suas vibrações, e incapaz de responder-lhes de início. Durante o éon que passa neste nível, sua evolução consistirá em acostumar-se a vibrar em todas as freqüências que forem possíveis lá, de modo que a qualquer momento pode animar e utilizar qualquer combinação de matéria daquele plano. Durante este longo período de evolução terá tomado sobre si todas as possíveis combinações de matéria dos três níveis arûpa, mas no final deste tempo retorna ao nível atômico - não, é claro, como era antes, mas levando latentes consigo todos os poderes que adquiriu.

No éon subseqüente ela desce ao quarto subplano do mental - isto é, o mais alto dos níveis rûpa - e atrai para si mesma como um corpo um pouco da matéria daquela subdivisão. Ela é então a essência elemental do segundo reino em sua condição mais simples; mas como antes, no curso de sua evolução, assume muitas e diversas aparências, compostas de todas as possíveis combinações de matéria dos subplanos inferiores.

Poderíamos naturalmente supor que estes reinos elementais que existem e atuam no plano mental, sendo muito mais elevados, devam ser mais avançados na evolução que o terceiro reino, que pertence exclusivamente ao plano astral. Contudo, não é assim; pois deve ser lembrado que ao falarmos desta fase da evolução o termo ‘mais alto' não significa, como usualmente, mais avançado, mas sim menos avançado, pois aqui estamos lidando com a essência monádica no trajeto descendente de seu arco, e para a essência elemental progresso significa portanto descer para a matéria em vez de, como nós, ascender a planos mais altos. A menos que o estudante tenha isso sempre claro na mente, ele repetidamente se encontrará confundido por anomalias que o deixam perplexo, e sua visão deste lado da evolução perderá em firmeza e abrangência.

As características gerais da essência elemental foram indicadas em considerável extensão no manual sobre O Plano Astral, e tudo o que lá é dito sobre o número das subdivisões nos reinos e sua maravilhosa impressionabilidade pelo pensamento humano é igualmente verdadeiro para estas variedades celestiais. Umas poucas palavras talvez poderiam ser ditas para explicar como as sete subdivisões horizontais de cada reino se arranjam em conexão com as várias partes do plano mental. No caso do primeiro reino, sua subdivisão mais alta corresponde ao primeiro subplano, enquanto os segundo e terceiro subplanos são cada um divididos em três partes, cada uma das quais é o habitat de uma das subdivisões elementais. O segundo reino se distribui no mundo celeste inferior, sua subdivisão mais alta correspondendo ao quarto subplano, enquanto que o quinto, o sexto e o sétimo subplanos são cada um dividido em dois para acomodar os remanescentes.

Como a Essência Evolui

Foi falado tanto na primeira parte deste manual a respeito do efeito do pensamento sobre a essência elemental que seria desnecessário retornar a esta parte do assunto agora; mas deve ser mantido em mente que ela é, se possível, ainda mais instantaneamente sensível à ação do pensamento aqui do que no plano astral, sendo constante e proeminentemente evidenciada aos nossos investigadores a maravilhosa delicadeza com que responde à mais tênue ação da mente. Captaríamos melhor esta capacidade se percebermos que é nesta resposta que sua verdadeira vida consiste - que seu progresso é grandemente auxiliado pelo uso que é feito dela pelo processo de pensamento das entidades mais avançadas cuja evolução compartilha.

Se pudesse ser imaginada por um momento como inteiramente livre da ação do pensamento, apareceria como um conglomerado informe de irrequietos átomos infinitesimais - infusos de fato com uma maravilhosa intensidade de vida, ainda que provavelmente fazendo apenas pouco progresso no arco descendente de sua involução para dentro da matéria. Mas quando o pensamento a atinge e incita à atividade, atirando-a nos níveis rûpa sob os mais diversos tipos de adoráveis formas, e nos níveis arûpa como jorros fulgurantes, ela recebe um nítido impulso adicional que, se repetido muitas vezes, a auxilia em seu caminho para diante. Pois sempre que um pensamento é dirigido daqueles altos níveis aos assuntos terrenos, naturalmente desce e toma sobre si matéria dos planos inferiores. Assim fazendo traz ao contato com aquela matéria a essência elemental da qual seu primeiro véu foi formado, e assim por estágios habitua aquela essência a responder a vibrações mais baixas; e isso muito a ajuda em sua evolução descendente para dentro da matéria.

Muito notavelmente também é afetada pela música - pelas esplêndidas torrentes de gloriosos sons de que já falamos que são derramadas sobre estes planos elevados pelos grandes mestres da música que estão levando a cabo lá em muito maior extensão o trabalho que aqui embaixo nesta Terra obtusa eles apenas começaram.

Um outro ponto que deveria ser lembrado é a vasta diferença entre a grandiosidade e o poder do pensamento neste plano e a comparativa fragilidade dos esforços que aqui em baixo dignificamos com aquele nome. Nossos pensamentos ordinários começam no corpo mental nos planos mentais inferiores e ao descer se reveste com a essência elemental astral apropriada; mas quando um homem já se adiantou a ponto de ter sua consciência ativa no Eu real no mundo celeste superior, seu pensamento começa lá e primeiro se reveste da essência elemental dos níveis inferiores do plano mental, e conseqüentemente é infinitamente mais sutil, mais penetrante, e de todas as formas mais efetivo. Se o pensamento for dirigido exclusivamente para altos assuntos, suas vibrações podem ter um caráter por demais fino para encontrar qualquer expressão no plano astral; mas quando realmente afetarem esta matéria inferior o farão com efeito de muito maior alcance do que os que são gerados tão mais próximos de seu próprio nível.

Seguindo esta idéia um estágio além veremos o pensamento do iniciado tomando sua partida no plano búdico, acima de todo o mundo mental, e revestindo-se com a essência elemental do mais alto dos céus, enquanto o pensamento do Adepto provém do próprio Nirvâna, portando os tremendos, os absolutamente incalculáveis poderes das regiões além do âmbito da mera humanidade comum. Assim, sempre que nossa concepção se ergue mais alto vemos diante de nós campos sempre mais vastos de utilidade para nossas capacidades ampliadas de imenso, e percebemos o quão verdadeiro é o ditado de que o trabalho de um dia em tais níveis pode bem ultrapassar em eficiência a labuta de mil anos no plano físico.  

O Reino Animal

O reino animal é representado no plano mental por duas divisões principais. No mundo celeste inferior encontramos as almas-grupo às quais a maioria dos animais está ligada, e no terceiro subplano os corpos causais dos comparativamente poucos membros deste reino que já se individualizaram. Estes últimos, contudo, estritamente falando, já não são animais; são praticamente os únicos exemplos para ver-se agora dos primitivíssimos corpos causais, subdesenvolvidos em tamanho e ainda coloridos somente com as tenuíssimas primeiras vibrações das qualidades recém-nascidas.

Após sua morte nos planos físico e astral, os animais individualizados têm usualmente uma vida muito prolongada, ainda que amiúde algo sonhadora, no mundo celeste inferior. Sua condição durante este intervalo é análoga àquela do ser humano naquele mesmo nível, ainda que com muito menos atividade mental. Ele se acha cercado por suas próprias formas-pensamento, mesmo que possa estar apenas consciente delas como num sonho, e estas incluem por certo as formas de seus amigos terrestres em seu caráter mais benigno e simpático. E uma vez que o amor que é forte e altruísta bastante para formar tal imagem deve também ser forte o suficiente para alcançar a alma do ser amado, e obter uma resposta dele, mesmo os animaizinhos sobre os quais nossa benevolência é prodigalizada podem fazer seu pequeno eco em resposta ajudando em nossa evolução.

Quando o animal individualizado se retira para dentro do corpo causal à espera da volta na roda evolutiva que lhe dará a oportunidade de uma encarnação humana primitiva, ele parece perder quase toda a consciência de coisas externas, e passar o tempo em um tipo de deleitoso transe da mais profunda paz e contentamento. Mesmo então alguma espécie de desenvolvimento interior está seguramente tendo lugar, ainda que sua natureza seja difícil para nós compreendermos. Mas pelo menos é certo que para cada entidade que entra em contato com ele, esteja ele apenas entrando na evolução humana ou se preparando para ultrapassá-la, o mundo celeste significa a mais elevada bem-aventurança da qual a entidade é capaz neste nível.  

Os Devas, ou Anjos

Muito pouco pode ser expresso em linguagem humana sobre estes admiráveis e exaltados seres, e a maior parte do que sabemos deles já foi descrito em O Plano Astral. Para a informação daqueles que não possuem aquele manual em mãos, repetirei aqui um pouco da explanação geral dada lá com referência a estas entidades.

O mais elevado sistema de evolução especialmente conectado com esta Terra, até onde sabemos, é o dos seres a quem os hindus chamam de Devas, e que noutras partes têm sido chamados de Anjos, Filhos de Deus, etc. Eles podem, de fato, ser considerados como um reino estando imediatamente acima da humanidade, do mesmo modo que a humanidade por sua vez jaz imediatamente acima do reino animal, mas com esta importante diferença, de que enquanto para um animal não há nenhuma possibilidade de evolução através de nenhum outro reino senão o humano, o homem, quando atinge o nível de Asekha, ou Adepto pleno, encontra várias sendas de progresso abertas diante de si, das quais esta grande evolução Dévica é apenas uma (Vide ‘Invisible Helpers [Auxiliares Invisíveis]', pg 124).

Na literatura oriental esta palavra ‘Deva' é freqüentemente usada vagamente para significar quase qualquer tipo de entidade não-humana, de modo que inclui amiúde os mais excelsos poderes espirituais de um lado, e espíritos da natureza e elementais artificiais de outro. Aqui, entretanto, seu emprego será restrito à magnífica evolução que ora consideramos.

Mesmo que ligados a esta Terra, os Anjos de modo algum a ela estão confinados, pois o conjunto de nossa presente cadeia de sete mundos é como se fosse um único mundo para eles, sua evolução se dando através de um grande sistema de sete cadeias. Suas falanges têm portanto sido recrutadas principalmente de outras humanidades do sistema solar, algumas mais altas e outras menos que a nossa, uma vez que só uma porção muito pequena da nossa já alcançou o nível em que nos é possível unirmo-nos a eles; mas parece certo que algumas de suas numerosas classes jamais passaram em seu progresso ascendente por qualquer humanidade de alguma forma comparável à nossa.

Não nos é possível por ora entender muito sobre eles, mas é claro que o que quer que possa ser descrito como sendo o escopo de sua evolução é consideravelmente mais alto que o nosso; isto é, enquanto que o objetivo de nossa evolução humana é elevar a porção vitoriosa da humanidade à posição de Adepto Asekha ao fim da sétima ronda, o objetivo da evolução Dévica é elevar sua hierarquia mais avançada a uma posição muito mais elevada no período correspondente. Para eles, como para nós, uma senda mais íngreme porém mais curta para alturas ainda superiores se encontra aberta ao esforço mais intenso; mas o que aquelas altitudes possam sem no seu caso podemos somente conjeturar.  

Suas Classes

Suas três grandes divisões inferiores, partindo da mais baixa, são geralmente denominadas de Kâma-devas, Rûpa-devas e Arûpa-devas, que podem ser traduzidas como Anjos do mundo astral, do mundo celeste inferior e do mundo celeste superior respectivamente. Assim como nosso corpo usual aqui - o corpo mais inferior possível para nós - é o físico, assim o corpo usual de um Kâma-deva é o astral; de modo que ele está numa posição similar àquela em que a humanidade estará quando alcançar o planeta F, e ele, vivendo ordinariamente no corpo astral, se alçaria a esferas superiores num corpo mental exatamente como poderíamos fazer em um corpo astral, ao passo que entrar no corpo causal não lhe seria (quando suficientemente desenvolvido) um esforço maior do que para nós seria usarmos o corpo mental. Igualmente, o corpo comum do Rûpa-deva seria o mental, uma vez que seu domicílio é os quatro níveis rûpa do plano mental; enquanto que o Arûpa-deva pertence aos três níveis superiores daquele plano, e não possui nenhum corpo mais denso que o causal. Acima dos Arûpa-devas existem quatro outras grandes classes em seu reino, habitando respectivamente os quatro planos superiores de nosso sistema solar; e novamente, acima e além de todo o conjunto do reino Dévico estão as grandes hostes de espíritos planetários; mas a consideração de seres tão glorificados estaria deslocada aqui.

Cada uma das duas grandes divisões deste reino que mencionamos como habitando o plano mental contém em si muitas diferentes classes; mas sua vida é de todas as maneiras tão diversa da nossa que seria inútil tentarmos dizer qualquer coisa dela além de uma idéia a mais geral. Não sei como poderia melhor transmitir a impressão produzida sobre as mentes de nossos investigadores deste assunto que reproduzir as mesmas palavras usadas por um deles na época da pesquisa: ‘Percebi o efeito de uma consciência intensamente exaltada - uma consciência gloriosa além de toda palavra; e contudo tão estranha; tão diferente - tão inteiramente distinta de tudo o que eu jamais senti antes, tão diversa de qualquer possível tipo de experiência humana, que não há esperança de tentar colocá-la em palavras'.

Igualmente desesperançada é nossa tentativa de dar alguma idéia neste plano físico da aparência destes poderosos seres, pois ela muda com cada linha de pensamento que eles seguem. Alguma referência já foi feita antes neste tratado sobre a magnificência e maravilhoso poder de expressão de sua linguagem de cores, e isso já foi também inferido de algumas observações feitas de passagem ao descrevermos os habitantes humanos, que sob certas condições é possível ao homem atuando neste plano aprender muito deles. Pode ser lembrado como um deles havia animado a figura angélica na vida celeste de um corista, e lhe estava ensinando música muito mais sublime do que jamais foi ouvida por ouvidos terrenos, e como em outro caso aqueles associados com a administração de certas influências planetárias estavam auxiliando o progresso da evolução de certo astrônomo.

Sua relação com os espíritos da natureza (para um relato sobre eles vide o Manual V) poderia ser descrita como algo semelhante, mesmo que em escala mais alta, àquela dos homens em relação ao reino animal; pois assim como o animal pode obter individualização apenas pela associação com o homem, também parece que uma individualidade reencarnante permanente pode ser obtida por um espírito da natureza normalmente só pela associação de caráter algo similar com membros de alguma das ordens dos Devas.

É claro que nada do que já foi, ou pode ser, dito desta grande evolução angélica pode senão roçar a beirada de um tema muito poderoso, cuja elaboração mais integral deve ser deixada a cada leitor fazer por si mesmo quando desenvolver a consciência destes planos superiores; mas o que já foi escrito, superficial e insatisfatório como é e deve ser, pode ajudar a dar alguma tênue idéia das hostes de auxiliares que o avanço do homem na evolução o porá a entrar em contato, e mostrar como cada aspiração que suas capacidades aumentadas lhe possibilitam à medida que ascende é mais que satisfeita pelo beneficente arranjo que a natureza dispôs para ele. 

III. ARTIFICIAIS

Muito breves palavras precisam ser ditas sobre esta parte de nosso assunto. O plano mental está mesmo muito mais povoado que o astral pelos elementais artificiais chamados à existência temporária pelos pensamentos de seus habitantes; e quando é recordado o quão mais magnífico e mais potente é o pensamento neste plano, e que suas forças são utilizadas não somente pelos habitantes humanos, encarnados ou desencarnados, mas também pelos Devas e visitantes de planos mais altos, de imediato veremos que a importância e influência destas entidades artificiais dificilmente pode ser exagerada. Não é necessário aqui percorrermos um terreno já palmilhado no manual anterior sobre o efeito dos pensamentos do homem e a necessidade de vigiá-los cuidadosamente; e bastante já foi dito descrevendo a diferença entre a ação do pensamento nos níveis rûpa e arûpa para mostrar como o elemental artificial do plano mental é chamado à existência, e dar alguma idéia da infinita variedade de entidades temporárias que assim se produzem, e a imensa importância do trabalho que constantemente é feito por seu intermédio. Um uso muito grande deles é feito pelos Adeptos e seus discípulos iniciados, e é escusado dizer que o elemental artificial formado por mentes tão poderosas como estas é uma criatura de existência infinitamente mais longa e proporcionalmente maior poder do que qualquer uma das descritas ao tratarmos do plano astral.

 CONCLUSÃO

Lançando um olhar sobre o que já foi escrito, a idéia proeminente não deixa de ser naturalmente um humilhante senso da mais completa inadequação de todas as tentativas de descrição - da desesperança de qualquer esforço de pôr em palavras humanas as glórias inefáveis do mundo celestial. Além disso, lamentavelmente imperfeito como um ensaio como este deva ser, ainda é melhor do que nada, e pode servir para colocar na mente do leitor alguma pálida noção do que o espera do outro lado do túmulo; e mesmo quando atingir este refulgente reino de bem-aventurança ele certamente ache infinitamente mais do que foi induzido a esperar, não terá, espera-se, que desaprender qualquer informação que porventura tenha adquirido.

O homem, como agora é constituído, tem dentro de si princípios pertencentes aos dois planos ainda mais elevados que o mental, pois seu Buddhi o representa naquilo que por isso mesmo é chamado plano búdico, e seu Atmâ (a Divina Centelha dentro de si), no terceiro plano do sistema solar que tem sido usualmente chamado de nirvânico. No homem comum estes princípios superiores estão ainda quase inteiramente subdesenvolvidos, e de qualquer forma os planos a que pertencem estão ainda mais fora do alcance de qualquer descrição do que está o mental. Deve ser suficiente dizer que no plano búdico todas as limitações começam a se desvanecer, e a consciência do homem se expande até que percebe, já não só em teoria, mas por absoluta experiência, que a consciência de seus semelhantes está inclusa na sua, e ele sente e conhece e experimenta com uma absoluta perfeição de simpatia tudo o que está neles, porque é em verdade uma parte de si mesmo; enquanto que no plano nirvânico ele dá um passo além, e percebe que a sua consciência e a deles são uma só num sentido ainda mais elevado, porque em realidade todas são facetas da consciência infinitamente maior do Logos, em Quem todas vivem e se movem e têm seu ser; de modo que quando ‘a gota mergulha no oceano de luz' o efeito produzido é antes como se o processo tivesse se invertido e o oceano tivesse mergulhado na gota, que agora pela primeira vez percebe que é o oceano - não uma parte dele, mas o todo. Paradoxalmente, profundamente incompreensível, aparentemente impossível; mas absolutamente verdadeiro.

Mas pelo menos isso podemos captar - que o abençoado estado do Nirvâna não é, como alguns têm ignorantemente suposto, uma condição de vazia nulidade, mas de muito maior e benéfica atividade; e que sempre que subimos mais alto na escala da natureza nossas possibilidades se tornam maiores, nosso trabalho pelos outros sempre maior e de maior alcance, e que a infinita sabedoria e infinitos poderes significam tão somente infinita capacidade para o serviço, porque são dirigidos pelo amor infinito.