| Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã (3a. parte) |
| Dom, 07 de Setembro de 2008 19:27 | |||||||||||||||||
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Os Ensinamentos de Jesus e a Tradição Esotérica Cristã (continuação) As chaves que abrem o reino dos céus na Terra 12. AS REGRAS DO CAMINHO O Caminho da Perfeição é longo e sutil. Como está relacionado com a transformação do próprio indivíduo, de sua aparência externa para a realidade interior, o conhecimento das regras que vigoram no caminho facilitam sobremaneira o trabalho do discípulo. Pode-se fazer um paralelo com a situação de um homem que se propõe a atravessar um país de carro. Se ele não souber a estrada a tomar, não poderá empreender a viagem. Tampouco conseguirá se não souber dirigir nem puder obter um veículo. Mesmo que essas condições tenham sido atendidas, ele deve saber as regras do trânsito e de operação eficiente e segura de seu carro. As regras que prevalecem no Caminho que leva ao Reino dos Céus são as leis que governam nosso universo, tanto no seu sentido macro como microcósmico. Se por um lado, é absolutamente utópico, uma vã pretensão, tentar conhecer todas as leis do universo e os detalhes do Plano de Deus, por outro, felizmente, sabe-se que algumas leis fundamentais da Natureza e o propósito geral da Graça Divina foram revelados pelos grandes mestres e mensageiros divinos de todas as tradições, inclusive por Jesus. São essas regras fundamentais que devemos conhecer para orientar devidamente nosso trabalho de autotransformação. As principais regras do Caminho, ou leis da manifestação, são: a Unidade da Vida, a natureza cíclica da manifestação, o objetivo do processo de manifestação, o livre arbítrio, a lei da justiça retributiva, ou carma, e o conhecimento de si mesmo. A Unidade da Vida A Unidade é a realidade fundamental de tudo o que existe. É o ponto de partida e de retorno do universo manifestado. Para os seres humanos, acostumados a identificar-se com seu corpo, com sua consciência guiada pelo autocentrismo, governada pelo egoísmo da personalidade e limitada pela ilusão da separatividade, a Unidade parece, quanto muito, um ideal teórico. É dito que o Ser Supremo, o Inefável, existe eternamente no Imanifesto, num estado inconcebível pelas mentes humanas, sendo Incognoscível e reinando em Silêncio na Profundidade por incontáveis eras. [1] Esse conceito está em sintonia com a primeira proposição fundamental da Doutrina Secreta de que existe "um Princípio Onipresente, Sem Limites e Imutável, sobre o qual toda especulação é impossível, porque transcende o poder da concepção humana e porque toda expressão ou comparação da mente humana não poderia senão diminuí-lo."[2] Quando, porém, decide manifestar-se, emana de si sua essência, que se apresenta como Espírito e Matéria, os pólos opostos de uma mesma realidade primordial manifestada. A emanação, no entanto, é um processo inteiramente diferente do que concebemos na Terra como criação, em que o criador utiliza materiais fora de si para criar algo separado. "Na emanação, a entidade que deseja se manifestar num plano inferior ‘projeta' a sua luz, ou essência, neste plano. Essa essência é, então, envolvida pela matéria desse plano, o que causa limitação de consciência da entidade emanante, que adquire, assim, uma individualidade, ou consciência nova, apesar de permanecer a mesma essência. Esse é o mistério da Unidade de todos os seres: somos emanações, projeções, ou raios da Luz Suprema e, por conseguinte, somos também parte de todas as entidades, ou forças, que se encontram nos diferentes planos da manifestação, pois fomos de certa forma ‘emanados', ou ‘formados', com sua substância."[3] As grandes tradições insistem que o mundo da manifestação é uma ilusão (Maya, como dizem os budistas), em virtude da aparente separação de tudo que pode ser percebido pelos sentidos. Um simples exemplo pode esclarecer esse ponto. A percepção que temos do mundo é afetada por diversas variáveis que fazem com que a "realidade" que vemos seja uma realidade relativa. Assim, por exemplo, quando olhamos para o céu a noite e percebemos a estrela Alfa Centauro, a mais perto do nosso sol, o que realmente estamos vendo é a sua imagem há mais de quatro anos, o tempo que levou para que sua luz chegasse até nós.[4] A verdadeira estrela Alfa Centauro estará a uns quatro e meio anos luz de distância da sua imagem visível. Portanto, as imagens que vemos no céu são uma ilusão, são Maya, como dizem os orientais. E as imagens que vemos na Terra? A ciência vem apresentando, neste século, teses que se aproximam das posições defendidas pela tradição esotérica. Primeiro foi a descoberta de Einstein de que todo o universo não passa de energia em diferentes formas, dando um cunho científico para a proposição dos místicos de que Deus é energia, e que todo o mundo fenomênico não passa de manifestações energéticas de diferentes densidades da Fonte Única. Mais tarde, os físicos, estudando o comportamento das partículas subatômicas, concluíram que os resultados dos experimentos são afetados pelos observadores.[5] Os místicos certamente concordam que o universo é uma só coisa e que tudo está interligado. Outro enfoque científico que nos permite entender a unidade essencial de todas as coisas é a noção de espaço. Nosso planeta quando visto dentro do contexto do sistema solar não passa de pequenino ponto na imensidão do espaço. O mesmo se dá quando se compara nosso sistema solar à nossa galáxia, a Via Láctea, e esta ao universo conhecido, formado de centenas de bilhões de galáxias. Assim, percebemos que o fator cósmico primordial é a imensidão do espaço universal. O microcosmo parece guardar as mesmas proporções do macrocosmo. O núcleo de cada átomo está separado de seus elétrons por consideráveis distâncias. Por exemplo, se um átomo fosse ampliado para o tamanho de um estádio de futebol, seu núcleo, no centro do estádio, teria o tamanho de uma pequenina ervilha, e seus elétrons, equivalentes a minúsculos grãos de poeira, estariam circulando a incríveis velocidades na periferia do estádio. Assim, os átomos são na prática espaços vazios mantidos coesos por campos magnéticos. Visto sob outro ângulo, se fosse possível eliminar a distância que separa o núcleo de todos os átomos da matéria constituinte de nosso planeta, a Terra se tornaria um buraco negro de densidade inimaginável, porém, seu tamanho seria reduzido ao de uma caixa de fósforo.[6] Porém, nem mesmo o núcleo dos átomos é constituído de ‘matéria' densa, mas sim de partículas subatômicas, que são diferentes formas de energia com carga elétrica, que por sua vez podem ser decompostas no que os cientistas chamam de quarks, as últimas partículas de energia atualmente conhecidas. Assim, tudo o que vemos no mundo nada mais é do que o espaço pleno de energia mantida em formas perceptíveis aos nossos sentidos, pelo que os cientistas chamam de ‘campo', "a entidade física fundamental, um meio contínuo que está presente em todo o espaço".[7] O ‘campo' da física parece ser o arquétipo das hierarquias construtoras, o ‘modelo' abstrato do qual são construídos todos os corpos existentes no universo. Um novo campo científico está se descortinando com importantes implicações para a reaproximação da ciência e da espiritualidade. David Bohm, eminente físico teórico, propôs um novo modelo para a física baseado nos princípios da holografia. Esse modelo postula que a realidade é um contínuo, em que cada fragmento, cada célula ou átomo contém a essência de todo o universo.[8] A ilusão do mundo manifestado pode agora ser entendida com experiências científicas usando raios laser e produzindo imagens holográficas.[9] O holograma é uma reprodução tridimensional que tem aparência de realidade, geralmente chamado de realidade virtual. Pode ser produzido com um raio laser dividido em dois feixes: o primeiro é projetado no objeto que desejamos fotografar, e o segundo é redirecionado para incidir na luz refletida do primeiro. Surge, então, um padrão de interferência, que é registrado num filme.[10] Quando outro feixe de raio laser incide através do filme holográfico, surge uma imagem tridimensional do objeto com uma aparência tão real que temos a impressão de estar diante do objeto original. A aparência de realidade é tal que a pessoa pode andar ao redor da projeção holográfica e observá-la de diferentes ângulos como se fosse um objeto real. Só quando o observador entusiasmado tenta tocá-la é que constata estar se confrontando com uma projeção, uma realidade virtual, e não com um objeto físico. A imagem virtual poderia ser entendida como a "ordem explícita" ou "ordem revelada", na linguagem de Bohm, a manifestação em nosso mundo de espaço e tempo de uma realidade de outra dimensão mais sutil.[11] Porém, algo ainda mais surpreendente ocorre no universo holográfico que lembra o aspecto da imanência divina. "Se cortarmos ao meio um pedaço de filme holográfico contendo um determinado objeto, digamos, a imagem de uma maçã e projetarmos um feixe de laser, cada metade continuará a conter a imagem inteira da maçã. Se dividirmos essas metades progressivamente até obtermos pequenos fragmentos de filme, ainda assim em cada fragmento haverá uma maçã inteira, embora as imagens fiquem mais nebulosas à medida que os pedaços tornam-se menores. Isto significa que, ao contrário das fotografias normais, em cada pedaço de filme holográfico são registradas as informações completas do todo."[12] Esse experimento científico oferece um singular paralelo com a doutrina esotérica de que o Todo está em cada parte, ou seja, que a Deidade Suprema é imanente em cada unidade da manifestação.[13] Essa conclusão científica moderna é idêntica à conclusão dos místicos de todos os tempos que dizem exatamente isso: o mundo é uma ilusão, é Maya. Esse mundo ilusório e impermanente, no entanto, é um reflexo de uma realidade maior, um mundo de energia pura e fluida, um mundo numênico, que contém os padrões ou arquétipos de toda manifestação. Esse mundo primário dos arquétipos é a origem do mundo fenomênico que percebemos, ou seja, é Deus. Por outro lado, cada pequenina porção do nosso mundo, como nas fotografias holográficas subdivididas, contém em si a expressão da totalidade. Podemos entender, assim, como a manifestação de Deus, a Totalidade, pode ser plenamente percebida em cada ser humano, quando as condições de "Luz" são satisfatórias, ou seja, quando o homem alcança a iluminação. Essa natureza imanente do Divino encontra-se também na tradição cristã e foi expressa assim no Evangelho de Tomé: "Eu sou a luz que está acima de todos. Eu sou o todo. De mim tudo surgiu, e tudo se estende até mim. Rache um pedaço de madeira, e eu estarei ali. Levante a pedra, e encontrar-me-ás ali."[14] No Bhagavad Gita, livro sagrado dos hindus, encontramos uma passagem de teor semelhante, em que Krishna, representando a Divindade Suprema, dirige-se a Arjuna, seu discípulo: "Eu, ó príncipe! sou o Espírito que reside na consciência de todos os seres, e cujo reflexo é conhecido por todos como o ‘Eu' (ou Ego). Eu sou o princípio, o meio e o fim."[15] Em que pese a aparente separatividade no mundo material, todo místico ou iogue que atinge um certo grau de expansão de consciência descreve sua experiência como de união com o Todo, ou com Deus. Isso significa que, ao transcender a limitação da mente concreta, o homem começa a trilhar o caminho de retorno à Casa do Pai, que é a consciência da Unidade. Esses conceitos foram incluídos entre os ensinamentos ocultos de nossa tradição, como podemos inferir pelas palavras de Paulo: "Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança da vocação a que fostes chamados; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; há um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos" (Ef 4:4-6). No estado de consciência da unidade, experimentamos todos os aspectos, ou atributos, divinos de Bem-Aventurança, Serenidade, Paz, Amor e Sabedoria. Esses aspectos tornam-se mais presentes quanto mais elevado for o nível de expansão de consciência. Nesse estado o homem deixa para trás uma série de ilusões e preconceitos adquiridos ao longo de muitas existências condicionadas pela ilusão da separatividade. Quando isso ocorre podemos dizer: "nele vivemos, nos movemos e existimos" (At 17:28). Percebemos, também, que somos uma pequenina célula no grande organismo da humanidade, que por sua vez é uma pequenina parte dentro da imensidão física de nosso planeta, sistema solar, etc. Tudo o que existe é um componente de uma realidade maior, sendo todas essas unidades partes integrantes do Todo. Verificamos, como é dito no Evangelho de Felipe, que todos os pares de opostos são aspectos da totalidade. As coisas do mundo, ao fim de cada existência, dissolvem-se e retornam a sua origem primordial, mas as coisas do mundo de luz são eternas e indissolúveis, e assim é a nossa alma. "Luz e trevas, vida e morte, direita e esquerda são irmãos entre si. São inseparáveis. Por isso nem o bem é bom, nem o mal é mau, nem a vida é vida, nem a morte é morte. Por essa razão cada um se dissolverá em sua origem primordial. Mas aqueles que são exaltados acima do mundo são indissolúveis, eternos."[16] O Evangelho de Felipe apresenta outro exemplo dessa mudança de perspectiva entre a consciência do mundo material e a do mundo do Pai, esclarecendo a diferença entre a visão dualista e a visão da unidade. O homem comum vê as coisas que o cercam dissociando-se dessas coisas. Porém, quando alcança a visão da realidade, ou seja, a consciência da unidade no Pleroma (Plenitude), ao ver algo sente-se como sendo aquela coisa. Isso significa que existe uma fusão ou união total na unidade, sem que haja um ‘aniquilamento' da individualidade, pois o vidente se vê em total união com outros seres, tendo perfeita consciência disso. "Não é possível para ninguém ver as coisas que realmente existem a menos que ele se torne como elas. Não é assim que acontece com o homem no mundo: ele vê o sol sem ser o sol; e vê o céu e a terra e todas as coisas, sem ser essas coisas. Isso está de acordo com a verdade. Porém, ao veres algo daquele lugar (o Reino), tu te tornas aquela coisa. Ao veres o Espírito, tu te tornas Espírito. Ao veres o Cristo, te tornas Cristo. Ao veres (o Pai) te tornarás o Pai. Por isso, (neste lugar) vês tudo e não (vês) a ti próprio, mas (naquele lugar) vês a ti mesmo e te tornas o que vês."[17] A Unidade da Vida não é uma mera hipótese metafísica de religiões orientais. A própria Bíblia está repleta de citações em que a unidade do homem com Deus está implícita. As passagens mais claras são aquelas em que nos é dito que somos todos filhos de Deus, porque, na linguagem sagrada, a filiação é sinônimo de participação na natureza e na herança do Pai. "Compreendereis que estou em meu Pai e vós em mim e eu em vós" (Jo 14:20). "Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus" (Rm 8:14). "O próprio Espírito se une ao nosso espírito para testemunhar que somos filhos de Deus. E se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo" (Rm 8:16-17). "Vós todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus" (Gl 3:26). O conceito de unidade foi incorporado à doutrina cristã, como pode ser visto no livro que, por vários séculos, orientou grande número de buscadores dentro do cristianismo: "Aquele que tudo atribui à unidade, e a ela tudo refere e nela tudo vê, pode ter o coração sossegado e permanecer tranqüilo em Deus."[18] Nesse sentido, sempre que o homem age de forma egoísta, buscando seus interesses em detrimento dos interesses dos outros, ele está ignorando e, portanto, infringindo a lei básica da manifestação que é a Unidade. Por outro lado, o comportamento altruísta está em sintonia com a Unidade e é um dos mecanismos de aproximação do homem da sua realidade divina última. O egoísmo, porém, deve ser entendido como uma triste seqüela da ilusão da separatividade. Como a maior parte das pessoas se identifica com seu corpo físico, julga, portanto, que cada pessoa é uma entidade totalmente separada do mundo que a cerca e, consequentemente, usa um raciocínio linear de que se derem o que têm ficarão destituídas. Porém, a realidade é outra. Cada indivíduo, sendo uma expressão da consciência e da energia universal, pode ser visto como um canal para esta energia benigna. Quanto mais esse canal individual deixar fluir a energia benfazeja, mais energia será direcionada para ele pela fonte universal, pois ele se mostrou eficiente em sua função distributiva. É por isso que S. Francisco de Assis dizia que "é dando que se recebe."
[1] Pistis Sophia, op.cit., pg. 33 [2] H.P. Blavatsky, A Doutrina Secreta (S.P.: Pensamento, 1973), vol. I, pg. 81. [3] Pistis Sophia, op.cit., pg. 35 [4] Stephen W. Hawking, Uma Breve História do Tempo (R.J.:, Rocco, 1994), pg. 47-48. [5] "Os físicos redescobriram outra percepção essencial da filosofia esotérica -- de que sujeito e objeto não podem ser divorciados um do outro. Na física quântica, descobriram que os cientistas que fazem medições nunca conseguem separar-se completamente daquilo que está sendo medido." Shirley Nicholson, Sabedoria Antiga e Visão Moderna (Brasília: Editora Teosófica, 1991), pg. 130. [6] Vide Sabedoria Antiga e Visão Moderna, op.cit., pg. 87. [7] Sabedoria Antiga e Visão Moderna, op.cit., pg. 76-77 [8] Sabedoria Antiga e Visão Moderna, op.cit., pg. 79. [9] Vide, Michael Talbot, O Universo Holográfico (S.P., Best Seller) e David Bohm, A Totalidade e a Ordem Implicada (S.P., Cultrix) [10] O Universo Holográfico, op.cit., pg. 34. [11] Vide O Universo que dobra e desdobra. Uma conversa com David Bohm. Em O Paradigma Holográfico, op.cit., pg. 45-104. [12] O Universo Holográfico, op.cit., pg. 34. [13] A Imanência é uma expressão da terceira proposição da Doutrina Secreta que ensina "a identidade fundamental de todas as Almas com a Alma Suprema Universal, sendo essa última um aspecto da Raiz Desconhecida." (A Doutrina Secreta, op.cit., vol. I, pg. 84) [14] Evangelho de Tomé, The Nag Hammadi Library, op.cit., versículo 77, pg. 135. [15] Bhagavad Gita (S.P.: Pensamento), pg. 113. [16] Evangelho de Felipe, aforismo 10, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 142. [17] Evangelho de Felipe, aforismo 44, op.cit., pg. 146/47. [18] Imitação de Cristo, obra atribuída a Thomas Kempis, cônego alemão que viveu nos países baixos durante o século XV. (S.P.: Editora Paulinas, 1987), Edição de bolso, pg. 18. Natureza cíclica da manifestação Outra grande lei universal é a natureza cíclica da manifestação. Em nossa vida quotidiana estamos acostumados com certos aspectos dessa natureza cíclica, como a alternância de dia e noite, maré alta e baixa, nascimento e morte, inverno e verão, sístole e diástole, inspiração e exalação. Essa alternância cíclica é observável no macro e no microcosmo. Os universos surgem e desaparecem. O Inefável permanece por inumeráveis eras recolhido em Silêncio e imobilidade, no que é conhecido no oriente como Pralaya, ou seja, um período extremamente longo de recolhimento. Finalmente, quando Ele assim decide, surge o movimento e a manifestação, chamado Manvantara em sânscrito, por período igualmente interminável pelos padrões humanos. Num sentido mais limitado, os astrônomos observam o aparecimento e o desaparecimento de estrelas e até mesmo de galáxias. Essa é conhecida como a segunda proposição fundamental da Doutrina Secreta: "A Eternidade do Universo in toto, como plano sem limites; periodicamente ‘cenário de Universos inumeráveis, manifestando-se e desaparecendo constantemente', chamados ‘as Estrelas que se manifestam' e ‘as Centelhas da Eternidade'."[1] A natureza cíclica da manifestação deixa implícito que tudo que existe é impermanente, seja o seu ciclo de vida de vários bilhões de anos, como os corpos siderais, ou de frações de segundo como as partículas subatômicas. Esse conceito sempre foi conhecido dos sábios de todas as tradições desde a mais remota antigüidade, e também está expresso numa maravilhosa passagem bíblica: "Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece. O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar ao seu lugar e é lá que ele se levanta. O vento sopra em direção ao sul, gira para o norte, e girando e girando vai o vento em suas voltas. Todos os rios correm para o mar e, contudo, o mar nunca se enche; embora chegando ao fim do seu percurso, os rios continuam a correr. O que foi será, o que se fez, se tornará a fazer; nada há de novo debaixo do sol!" (Ecl 1:5-9) Na vida do homem os aspectos mais externos da natureza cíclica são o nascimento e a morte. Esse processo, quando visto no seu sentido esotérico, representa, na verdade, a passagem do homem do plano visível (encarnação) para o invisível (a alma desencarnada vivendo em seus corpos sutis). Essas alternâncias entre vida e morte, materialização e sutilização, integram-se no grande ciclo da vida humana, que é a descida da alma da fonte Una em sua longa peregrinação até seu retorno à origem. Como vimos, esse grande ciclo está retratado na Bíblia especialmente na Parábola do Filho Pródigo. O anel concedido pelo Pai ao Filho, naquela parábola (Lc 15:22), é o símbolo clássico da natureza cíclica. O círculo, sem começo nem fim, simboliza a eterna alternância entre repouso e atividade da vida una em sua progressão cíclica infindável, sem começo concebível nem fim imaginável. Um aspecto maravilhoso, mas nem sempre bem compreendido, da natureza cíclica é que cada nova etapa da manifestação humana, ou seja, cada nova encarnação, parece repetir ou recapitular as etapas do grande processo em seu último estágio. Assim, a vida humana começa como um virtual protozoário nas células zigóticas; após a fertilização no útero, as células começam a se multiplicar e assumem sucessivamente formas animais cada vez mais avançadas até adquirir a forma de um mamífero e, finalmente, de um ser humano quando a alma individual começa a dirigir seu processo de vida. Isso é expresso de forma clara na seguinte passagem: "O corpo é um museu vivo de história natural, no qual todo o drama da evolução é recapitulado. Estudos sobre o desenvolvimento do feto mostram que, da concepção ao nascimento, uma criança passa por todos os estágios da evolução. A caminho de nossa forma humana, atravessamos a hierarquia evolucionária."[2] Uma vez transposto o limite da vida uterina, inicia-se uma nova etapa cíclica, o reaprendizado humano propriamente dito. Mesmo as almas avançadas, até mesmo os grandes Mestres, precisam aprender a engatinhar, a caminhar, a pronunciar os sons, a falar, a perceber e distinguir os objetos exteriores com seus nomes e formas. O processo continua com o reaprendizado de conceitos e idéias em diferentes níveis, tanto das coisas materiais como das espirituais. Dois fatos, no entanto, distinguem esse processo de reaprendizado das almas avançadas: primeiro, sua aparentemente incrível facilidade para o aprendizado e uma memória prodigiosa; segundo, as circunstâncias favoráveis relacionadas a sua família e ao ambiente exterior, possibilitando um progresso acelerado para que a alma possa atingir seu patamar de realização anterior em tempo hábil, para então começar a trabalhar no que poderíamos chamar de sua missão para a atual encarnação. Vemos claramente esse processo de aprendizado na história conhecida de grande Mestres como Sidarta Gautama, Pitágoras, Jesus e Apolônio de Tiana. A tradição budista tibetana conhece profundamente esse processo dada sua experiência com a identificação da reencarnação de seus mestres, que são treinados desde cedo para reassumir suas funções com a maior brevidade possível. Isso não significa, porém, que os pequenos lamas não tenham que fazer um grande esforço, dedicando-se longas horas, por muitos anos, para retomar mais uma vez o domínio das matérias que já haviam desenvolvido e ensinado em suas encarnações anteriores. E ocorrem casos, verdade seja dita, em que as realizações espirituais numa nova encarnação parecem ficar aquém das realizações alcançadas na encarnação ou encarnações anteriores. Esse fato explica-se pela operação de outra lei, a do livre arbítrio, que será examinada mais adiante. Nesse sentido, poderíamos dizer que o propósito de cada encarnação é o nosso retorno à Escola da Vida, para reiniciarmos o processo de aprendizado rumo a meta suprema, a Perfeição. No entanto, o ser humano imaturo, que é a grande maioria da humanidade, freqüenta essa Escola com a mesma atitude da maior parte das crianças que vai à escola. Seu principal interesse é o recreio e a merenda, divertir-se e encher a barriga. Acham muitas matérias chatas e em vez de prestar atenção à aula deixam a mente divagar por seu mundo de fantasia interior. Não é de estranhar que o rendimento escolar seja tão deficiente, necessitando, às vezes, a repetência de certas matérias. Cada ser humano vem ao mundo com um determinado currículo para sua aprendizagem. Seu ambiente familiar, social, profissional, enfim, as circunstâncias de sua vida e, principalmente, de seus relacionamentos são seus instrutores. Todas as lições sobre negatividades e fraquezas que não foram resolvidas em vidas anteriores terão que ser reestudadas, ou seja, vivenciadas outra vez, só que de uma forma mais contundente para que tenha mais chance de aprender a lição desta vez. Esse é um dos aspectos mais negligenciados do saber humano, o autoconhecimento. A personalidade tem medo de voltar a atenção para si mesma, pois isso, inevitavelmente, vai desvelar suas falhas, seus podres, se assim podemos chamá-los, que ela procura por todos os meios encobrir e racionalizar como se fossem o resultado de circunstâncias desfavoráveis ou da falta de compreensão dos outros. Esses mecanismos de autodefesa do eu inferior[3] dificultam, quando não impedem, que as devidas lições da vida sejam aprendidas. A natureza cíclica, dentro do processo evolutivo, também pode ser observada no que poderíamos chamar de períodos de grandes realizações e de retraimento, de entusiasmo e de melancolia. Todo aspirante percebe que durante alguns meses ou anos a aspiração espiritual e o idealismo estão em ponto máximo, facilitando e estimulando o trabalho de autotransformação. Esses períodos favoráveis parecem ser seguidos de fases difíceis em que até a meditação parece árida e estéril, em que o entusiasmo e a dedicação parecem abandoná-lo. Essa alternância ocorre até mesmo na vida dos grandes seres. Na história da vida de Cristo, como retratada na Bíblia, observam-se momentos de grande atividade e sucesso do seu ministério terreno,[4] sintetizados pela passagem em Mateus: "Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas e pregando o evangelho do reino, enquanto curava toda sorte de doenças e enfermidades" (Mt 9:35), vindo logo após seu martírio e morte violenta nas mãos daqueles que procurava ajudar. O processo de transformação, com uso das forças criativas à disposição do homem, deve levar em conta essas alternâncias entre atividade e descanso típicas da vida comum. O aspirante deve fazer todo o possível para redirecionar sua vida, identificando prioridades e estabelecendo metas. Porém, devemos ter sempre em mente que não conhecemos todas as limitações que restringem nossa vida na Terra, como por exemplo certos débitos cármicos que podem exigir mais tempo em algumas das situações negativas em que nos encontramos. Sabendo, no entanto, que a Lei é inexorável e que conseqüências positivas seguem-se a atos positivos, devemos confiar nossa vida a Deus que, com sua Misericórdia infinita, procura todas as oportunidades para facilitar o nosso progresso, pois esse é, em última instância o objetivo final do Plano Divino. Portanto, devemos desenvolver também a paciência e a confiança em Deus como parte do processo criativo, assim como o agricultor tem confiança que, uma vez plantada a semente em solo fértil, sendo ela regada e protegida das ervas daninhas, a Divina Providência, cuidará do resto, em seu devido tempo.
[1] A Doutrina Secreta, op.cit., vol. I, pg. 84. [2] O Paradigma Holográfico, op.cit., pg. 115. [3] Vide Glossário. [4] The Christ Life from Nativity to Ascension, op.cit., pg. 218. O objetivo do processo da manifestação Qual é o objetivo da manifestação? Estamos agora procurando entrar no propósito da Mente de Deus, o que seria totalmente absurdo e mais uma demonstração da arrogância e soberba humana, se não fosse pelo grande acervo de revelações coincidentes em várias tradições. O propósito da manifestação, em seus infindáveis ciclos de expansão e recolhimento, parece ser a constante evolução. A busca da Perfeição é a grande meta universal, a evolução constante do Todo e de Suas partes ao longo da espiral do progresso infinito.[1] Esse processo parece requerer que o Todo se manifeste em seus diferentes aspectos, como o Sol manifesta-se por meio da infinidade de seus raios. Seguindo esse paralelo, podemos imaginar que o ser humano, como um raio do Sol Central Espiritual, é um aspecto da Divindade, é Deus imanente que se manifesta em cada partícula do Universo. É pelo progresso dessas partes, ou seja, pelo processo evolutivo, que o Todo alcança seu objetivo. Assim, a humanidade deve evoluir como um grande organismo, o que é feito por meio da somatória de suas partes constituintes, em particular, de cada ser humano. Num nível mais acessível à mente humana, poderíamos interpretar o objetivo divino como sendo a plena manifestação do Espírito através da matéria. Podemos conceber que o elevadíssimo estado de consciência do Espírito manifesta-se plenamente no plano espiritual. O grande desafio da manifestação e, portanto, sua meta final, é a manifestação da plenitude espiritual no plano físico, através da matéria. Alguns autores referem-se a esse processo como a redenção da matéria. Essa manifestação ocorre quando a consciência se expande, ou seja, quando abarca níveis de percepção cada vez mais sutis que são integrados aos níveis de consciência inferiores aos quais o homem estava acostumado anteriormente. A integração de consciência é a chave para se alcançar a plenitude do Cristo de que fala Paulo.[2] Para o ser humano isso significa alcançar a suprema expansão de consciência que é referida como ‘nirvânica' nas tradições orientais e que, na tradição cristã é dito ser alcançada quando o devoto funde-se em Deus. Isso deve ser feito enquanto o homem está encarnado, para que a mente suprema se manifeste através do cérebro, isto é, na matéria. Essa parece ser uma das razões para as reencarnações dos iniciados e mesmo dos mestres, para que, enquanto estão trabalhando para o bem da humanidade, tenham a oportunidade de dar mais um passo no processo evolutivo. Essas considerações não são de cunho meramente filosófico, mas estão solidamente embasadas nos ensinamentos da tradição cristã. O objetivo dinâmico do progresso infinito foi indicado por Jesus quando nos instruiu: "Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito" (Mt 5:48), reiterando o ensinamento milenar também expresso na tradição judaica "Sede santos, porque eu, Iahweh vosso Deus, sou santo" (Lv 19:2). É inconcebível pensarmos que Jesus poderia zombar de seus discípulos apontando para um objetivo inatingível de perfeição. Essa perfeição, que já existe em estado germinal, só precisa ser efetivada com a união, em consciência, de nossa natureza inferior com a superior. A meta da perfeição a ser alcançada por toda a família humana, e não meramente por uns poucos eleitos, é um dos argumentos mais sólidos para a necessidade da reencarnação. Muito poucos devotos, mesmo em se tratando de teólogos obedientes às doutrinas da igreja, teriam a ousadia de dizer em sã consciência que seriam capazes de alcançar a perfeição, entendida como a estatura da plenitude do Cristo, em sua atual encarnação. A concepção de um Deus que cria todo um universo, ao longo de sucessivas etapas de muitos milhões de anos, com o objetivo último de alcançar a perfeição da manifestação, mas que é impaciente com a culminação de sua obra prima, o homem, a ponto de condená-lo à danação eterna no inferno, após uma única e curta tentativa de encarnação da alma neste mundo, em meio a circunstâncias às vezes tão desfavoráveis, é realmente um monumento à insensatez e à ignorância de uma parte considerável da família humana. A concepção teológica de que Deus só dá uma única oportunidade de vida ao ser humano para alcançar a perfeição é uma ofensa à sabedoria divina. E o que dizer da compaixão do eterno Pai, que Jesus se referia tão carinhosamente como Abba? Como um pai justo poderia esperar o mesmo resultado de todos seus filhos colocados em situações de vida tão diferentes, alguns nascendo cegos, com deficiências mentais, em ambientes de guerra, ódio e miséria, e outros em situações obviamente muito mais favoráveis para a vida espiritual? Mas, a realidade é que Deus é justo e compassivo! Sua justiça e compaixão se expressam em nosso mundo por meio da lei de causa e efeito. As circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis em que nos encontramos não são o resultado de um Deus caprichoso e inconstante, mas sim o resultado cumulativo de nossas próprias ações ao longo de muitas vidas. A compaixão e a sabedoria divina estão sempre a nossa disposição, ainda que respeitando nosso livre arbítrio. Assim, a Lei molda o resultado de nosso carma, ainda que doloroso, de forma tal que se apresente sempre o estímulo para aprendermos a lição devida e sairmos do atoleiro de nossa ignorância rumo à senda da perfeição. A igreja postula que Deus cria uma alma nova para cada ser humano no ato de sua concepção. Dentro dessa lógica, o ser humano seria o corpo físico, que apesar de mortal, condiciona a criação da alma imortal. Daí a doutrina da ressurreição da carne tão querida da igreja, quando seria presumivelmente alcançada a perfeição. Por isso, os ensinamentos de Orígenes sobre a preexistência da alma foram declarados heréticos, no segundo concílio de Constantinopla em 553 de nossa era. As autoridades eclesiásticas ignoraram toda a tradição oral sobre a matéria, inclusive diversas passagens bíblicas aludindo sobre a reencarnação. Talvez a mais pertinente nesse contexto seja a passagem no Livro da Sabedoria, excluído da Bíblia pelos protestantes, mas mantido pelos católicos, em que é dito: "Eu era um jovem de boas qualidades, coubera-me, por sorte, uma boa alma; ou antes, sendo bom, entrara num corpo sem mancha" (Sb 8:19-20). Outras passagens bíblicas relacionadas com a reencarnação serão apresentadas quando examinarmos a lei de causa e efeito, a justiça divina. O objetivo do Plano de Deus da manifestação plena do Espírito através da matéria, parece ter sido registrado na Bíblia, em linguagem simbólica, na passagem em que Jesus entra em Jerusalém montado num jumento (Mt 21:1-11; Mc 11:1-11; Lc 19:30-36; Jo 12:14), reiterando, ensinamento já consagrado no Antigo Testamento (Zc 9:9). Nessa passagem, como na maior parte dos relatos dos evangelhos, Jesus, simboliza o Eu Superior, o Cristo no coração do homem; Jerusalém é a cidade sagrada, o símbolo do Reino dos Céus, que deve ser adentrado pela natureza superior do homem montada num quadrúpede, o jumento, que retrata o quaternário inferior do homem (seus corpos físico, energético, emocional e mental concreto). Para que isso possa ocorrer, esse quadrúpede deve ser domesticado, ou seja, disciplinado para servir como veículo satisfatório do Deus interior. Portanto, o Reino dos Céus, que é a perfeição, só é conquistado quando o Cristo interior consegue servir-se com total desenvoltura de seu veículo humano, então, totalmente treinado e subserviente ao seu Senhor. A Física postula que, quanto mais longínquo o passado, maior ordem deve ter existido e, quanto mais distante o futuro, maior a desordem. A ação do homem no mundo parece apontar nessa direção: ao comer todos os dias, ele transforma energia ordenada (alimentos) em energia desordenada (calorias) e, no processo de produzir seus alimentos e outras necessidades, degrada o meio ambiente com uma virulência tal que já preocupa os ambientalistas. Percebemos isso numa casa ou em qualquer outra coisa feita pelo homem. Se ela não tiver a devida manutenção, tenderá a se deteriorar com o passar do tempo. O mesmo acontece com o corpo do ser humano que, com a idade, vai se deteriorando e perdendo o vigor lentamente até o momento da morte, quando então o processo de deterioração dá um salto e acelera-se rapidamente. Essa tendência ao caos chama-se entropia. Por outro lado, o esoterismo e todas as grandes religiões apontam como objetivo o aperfeiçoamento progressivo do ser humano. Muitas tradições, como o cristianismo, falam de um caminho da perfeição, em que o ser humano pode galgar vários marcos, também conhecidos como iniciações, até alcançar um estágio supra-humano, como Mestres de Compaixão e Sabedoria. Esses marcos, ou iniciações, foram retratados de forma simbólica no relato bíblico da vida do Cristo, como sendo o nascimento, o batismo, a eucaristia, a morte seguida da ressurreição e, finalmente, a ascensão aos céus. Muitos desses Mestres, ou Adeptos, escolhem permanecer na esfera da Terra para ajudar a humanidade sofredora. Assim, como conciliar a premissa básica da Tradição-Sabedoria, compartilhada pelo cristianismo esotérico, de progresso infinito, com a premissa da Física, de um universo em expansão regido pela lei da entropia? A aparente incompatibilidade da física com o esoterismo é que a entropia, como é conhecida a segunda lei da termodinâmica, postula que, num sistema fechado, a desordem sempre aumenta com o tempo.[3] O progresso espiritual da humanidade, face a entropia do mundo material, só pode ser entendido se tivermos em mente que o ser humano é, na verdade, a alma, ou seja, a unidade de consciência, aquela parte da mente que é imortal e que utiliza periodicamente vestimentas corpóreas em suas descidas ao mundo terreno, à escola da vida, para dar mais alguns passos na longa estrada que leva à perfeição. Na verdade, a entropia rege o mundo material, enquanto a alma, no mundo espiritual, está sujeita a outras leis, tão inexoráveis como a da entropia e a da gravidade. Nota-se, no entanto, que nos dois planos sutis imediatamente acima do plano material, ou seja, no plano astral e no plano mental concreto, a entropia parece prevalecer. As emoções e as ‘formas-pensamento' (vide Glossário) tendem a desagregar-se e dissipar-se com o passar do tempo. É bem verdade que esses dois planos regem aspectos da personalidade sendo, assim, partes do mundo material fenomênico, enquanto a alma atua em planos mais sutis, imune à entropia e, ao contrário, progredindo sempre. A infinita sabedoria de Deus pode ser vista na interação entre entropia e progresso infinito. A entropia rege o mundo das formas, que são adentradas periodicamente pela alma em busca de experiência para seu progresso. A alma tem, então, um período determinado para aprender suas lições no mundo terreno até que a entropia inevitavelmente cause a deterioração de seus veículos, possibilitando que, numa próxima descida à Terra, novos veículos mais adaptados às suas conquistas sejam-lhe oferecidos. Portanto, a deterioração das formas e sua eventual destruição são essenciais para o progresso da consciência.
[1] O jovem Krishnamurti, refletindo os ensinamentos de seu Mestre escreveu: "...o que é realmente importante é o conhecimento - conhecimento do Plano de Deus em relação aos homens. Pois Deus tem um plano e esse plano é a Evolução; quando o homem o tiver visto, e realmente o conhecer, não poderá deixar de cooperar nele, unificando-se com ele, tal a sua glória e beleza." Aos pés do Mestre, op.cit., pg. 17. [2] Ef 4:13. [3] Stephen W. Hawking, Uma Breve História do Tempo (R.J.: Rocco, 1994), pg. 201. O livre arbítrio O ser humano, como vimos, é uma pequenina expressão da Divindade que, em seu devido tempo, será manifestada em toda sua plenitude, tornando-se "perfeito como o Pai que está nos Céus é perfeito." Mas, para que o processo evolutivo possa ter sentido, é necessário que o homem disponha de livre arbítrio. Se ele estiver programado para fazer invariavelmente coisas predeterminadas, sem ter a opção de escolher entre o certo e o errado, então não passará de um robô agindo automaticamente, sem colher nenhum fruto do aprendizado terreno. O aprendizado implica na capacidade de optar, de descobrir o que é certo, ainda que com isto o processo torne-se longo e tumultuado. Assim, todo mérito do progresso existe somente porque podemos optar entre fazer o bem ou o mal. Muitos acham que já superaram o mal porque não cometem atos perversos, porém, como diz a sabedoria popular, ‘a ocasião faz o ladrão.' O verdadeiro teste de nossas virtudes são as ocasiões, ou as tentações, como diz a Bíblia. E esses testes surgirão sempre no momento apropriado, porque até o último instante de nossa peregrinação por essa terra distante de nosso lar celestial, deveremos escolher entre várias opções. Para fazer-se uma escolha é necessário o uso da razão, daí porque um dos instrumentos do processo de transformação do homem, que faz parte da tradição cristã, é exatamente a qualidade do discernimento. Se Deus ou os membros da hierarquia celestial nos forçassem a adotar um determinado comportamento ou atitude, mesmo que fosse para livrar-nos do sofrimento, então não seríamos verdadeiramente livres. A liberdade inerente ao livre arbítrio significa que nenhuma força ou coação pode ser usada ainda que para produzir o bem. As leis de Deus continuam operando, no entanto, e, assim, quando nossas ações são negativas colhemos como fruto o sofrimento. Quanto mais nos afastamos das leis de Deus, maior o sofrimento e, conseqüentemente, maior o incentivo para usarmos o discernimento e, pelo livre arbítrio, escolhermos o caminho que nos liberta do sofrimento. A lógica indica que o dom divino do livre arbítrio, como parte inerente do processo de aprendizado humano, é incompatível com restrições dogmáticas nas esferas mais essenciais do pensamento e da vida religiosa do homem. É por isto que Jesus disse: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (Jo 8:32). A importância fundamental do livre arbítrio é reconhecida também em outras tradições. Buda declarou expressamente que os buscadores da verdade não deveriam aceitar as palavras encontradas nas escrituras sagradas, nem mesmo seus próprios ensinamentos sem antes passá-los pelo crivo da razão. O livre arbítrio é tão fundamental ao Plano Divino que até mesmo para receber a Graça Divina é imprescindível o nosso consentimento. A Graça está constantemente disponível a todos os homens, como a luz do Sol que brilha num céu límpido. Porém, a maior parte dos homens opta por manter as janelas fechadas, impedindo o acesso da luz ao interior de sua casa. Para que a Graça possa dissipar a escuridão interior, temos que exercer o nosso livre arbítrio, abrindo as janelas de nossa alma. E quanto mais ardente a nossa aspiração pela luz mais abertas estarão as janelas. Na vida cotidiana, governada por condicionamentos e idéias preconcebidas, o exercício do livre arbítrio restringe-se, na prática, ao mero consentimento em fazer isso ou aquilo. Porém, até mesmo o exercício desse consentimento, consciente ou inconsciente, é, na verdade, expressão do livre arbítrio. Esse processo de consentimento parece implícito numa passagem da Bíblia em que Jesus indica a necessidade do indivíduo alinhar a sua vontade com a Vontade de Deus: "Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor' entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mt 7:21) Alguns autores distinguem dois aspectos do consentimento, o filosófico e o psicológico. "Consentimento filosófico é a necessidade de consentir à Palavra de Deus. É o consentimento da fé como o compreendemos hoje. Está ligado ao que os antigos padres reconheciam como o primeiro estágio da fé. O consentimento psicológico é o assentimento de momento a momento que fazemos a respeito das possibilidades de nossa vida. Ou consentimos ao que compreendemos como vindo de Deus ou consentimos ao que escolhemos por motivos pessoais."[1] Essa distinção é importante, pois nossa vida é determinada pelas coisas que consentimos em fazer ou mesmo não fazer. É, nesse sentido, que a estrutura filosófica de nossas crenças torna-se importante, pois passa a orientar a direção de nossos assentimentos. Se não tivermos um arcabouço filosófico, nossos assentimentos interiores serão efetuados de forma aleatória, ao sabor de nossa disposição momentânea.
[1] A Different Christianity, op.cit., pg. 172. A justiça divina Como o homem dispõe de livre arbítrio, segue-se naturalmente que suas ações devem gerar conseqüências correspondentes à natureza de seus atos. A justiça retributiva divina, conhecida no Oriente como carma, é a Lei da Causação Universal, a Lei de Causa e Efeito que governa todas as ações em todos os níveis, ou planos, da natureza. Em sânscrito, a palavra karma significa ação, portanto, a lei deixa implícito que cada ação gera uma reação de natureza e intensidade equivalente. Visto sob outro ângulo, o carma é o inter-relacionamento de tudo o que existe. Esse inter-relacionamento sempre existiu, não tendo começo nem fim. Portanto, nada existe isoladamente, ou fora de um relacionamento determinado pelo carma numa seqüência de causa e efeito.[1] Embora no plano abstrato da consciência divina causa e efeito sejam simultâneos, no mundo físico geralmente ocorre um hiato temporal entre a causa e a materialização de seu efeito. Poderíamos imaginar o Universo como uma imensa caverna em que o som de qualquer ruído reverbera nas paredes e volta até sua fonte de origem. Esse eco universal, que é o carma, funciona como vibrações, em todos os planos, que fazem retornar a nós, mais cedo ou mais tarde, as conseqüências de nossos atos. O carma pode ser imaginado também como o reencontro com todos nossos pensamentos, palavras e atos, porém, agora, na qualidade de experimentador dos efeitos que anteriormente causamos. A lei de causa e efeito no plano material é bem conhecida dos cientistas. Temos assim a formulação dada pela terceira lei de Newton: "A toda ação corresponde uma reação igual em sentido contrário." A justiça divina, ou carma, é apropriada à intensidade e à natureza de todos nossos atos físicos, palavras e pensamentos. A conseqüência de um ato físico será sentida principalmente no corpo físico, más palavras trarão também más palavras dirigidas a nós e pensamentos ruins repercutirão em nosso corpo mental. Se alguém achar estranho que possa haver carma relacionado aos pensamentos, basta recordar quantas vezes sentiu-se perturbado, triste, desanimado, deprimido, com medo e, outras vezes, também o oposto destes estados mentais. Esses sentimentos são invariavelmente resultados do carma mental. O papel da mente na geração do carma é o primeiro ensinamento apresentado no livro sagrado dos budistas, o Dhammapada. "Todas as coisas são precedidas pela mente, guiadas pela mente e criadas pela mente. Tudo o que somos hoje é o resultado do que temos pensado. O que pensamos hoje é o que seremos amanhã; nossa vida é uma criação da nossa mente. Se um homem fala ou age com uma mente impura, o sofrimento o acompanha tão de perto como a roda segue a pata do boi que puxa o carro. Se um homem fala ou age com a mente pura, a felicidade o acompanha como sua sombra inseparável."[2] Vistos sob outro ângulo, todos pensamentos e sentimentos são agentes poderosos de energia criadora; criam de acordo com a natureza deles. Pensamentos criam sentimentos, estes criam atitudes, comportamentos e vibrações que, por sua vez, criam as circunstâncias da vida.[3] Essa capacidade criadora do homem nem sempre é devidamente levada em consideração por aqueles que se aventuram pelo caminho espiritual. Assim, em nosso estado de ignorância criamos no passado o sofrimento que ora estamos colhendo em nossas vidas. Da mesma forma, agora que estamos começando a abrir a nossa mente para a operação das leis divinas, podemos criar as circunstâncias favoráveis para nosso progresso espiritual. Por isso, um comportamento e, principalmente, pensamentos apropriados são indispensáveis, como sugerem os versos de Tennyson: "Semeias um pensamento, colherás uma ação. Semeias uma ação, colherás um hábito. Semeias um hábito, colherás um caráter. Semeias um caráter, colherás teu destino." O entendimento da lei do carma marca uma importante etapa na vida do homem. Deve ser lembrado, no entanto, que enquanto o homem estiver usando o seu conhecimento da lei para criar seu próprio bem, estará apenas deixando de praticar o mal egoísta para praticar o bem egoísta. O verdadeiro discípulo de Jesus, sabendo que seu reino não é deste mundo e que é uno com todos os seres, vai além e procura fazer o bem verdadeiro, que é o bem para os outros e não para o seu próprio benefício. "Se agirmos corretamente, o carma, a providência ou a justiça divina ¾ como preferirmos dizer ¾ cuidarão do resto. Se buscarmos o tesouro que está no reino dos céus, o resto nos será dado por acréscimo."[4] A atuação do carma na vida do homem foi-nos apresentada numa linguagem inspirada, na obra de Sir Edwin Arnold: "Não conhece nem a cólera nem o perdão; suas medidas são de uma precisão absoluta e sua balança é infalível; o tempo não existe para ele; julgará amanhã ou muito tempo depois. Graças a ele, o assassino se fere com sua própria arma; o juiz injusto perde seu defensor, a língua falaz condena sua própria mentira, o ladrão furtivo e o espoliador roubam para entregar o produto de suas rapinas. Tal é a Lei que se move para a Justiça, que ninguém pode evitar ou deter; seu coração é o Amor e seu fim a Paz e a Perfeição última. Obedecei!"[5] O carma, no entanto, não é meramente um conceito exótico oriental, mas uma lei universal que figura claramente na tradição cristã, geralmente referida como justiça divina e, às vezes, como a vingança de Deus, seguindo a tendência antropomórfica da Bíblia. São copiosas as passagens a esse respeito no Antigo Testamento; eis aqui alguns exemplos: "Iahweh fará justiça ao seu povo, e terá piedade dos seus servos." (Dt 32:36) "Iahweh é justo, ele ama a justiça, e os corações retos contemplarão sua face." (Sl 11:7) "O homem misericordioso faz bem a si mesmo, o homem cruel destroi sua própria carne." (Pr 11:17) "Quem estabelece a justiça viverá, quem procura o mal morrerá." (Pr 11:19) "Se o justo aqui na terra recebe o seu salário, quanto mais o ímpio e o pecador." (Pr 11:31) "Do fruto de sua boca o homem sacia-se com o que é bom, e cada qual receberá a recompensa por suas obras." (Pr 12:14) "(Iahweh) não julgará segundo a aparência. Ele não dará sentença apenas por ouvir dizer. Antes, julgará os fracos com justiça, com eqüidade pronunciará uma sentença em favor dos pobres da terra. Ele ferirá a terra com o bastão da sua boca, e com o sopro dos seus lábios matará o ímpio. A justiça será o cinto dos seus lombos e a fidelidade, o cinto dos seus rins." (Is 11:3-5) "Porei o direito como regra e a justiça como nível." (Is 28:17) "Iahweh, ó Deus das vinganças, aparece, ó Deus das vinganças! Levanta-te, ó juiz da terra, devolve o merecido aos soberbos!" (Sl 94:1-2) As referências no Novo Testamento têm uma linguagem própria, e algumas vezes o sentido da justiça retributiva está implícito na passagem, precisando ser devidamente interpretado: eis algumas: "O machado já está posto à raiz das árvores e toda árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada ao fogo." (Mt 3:10) "Porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só i, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja realizado." (Mt 5:18) "Todo aquele que se encolerizar contra seu irmão, terá de responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão ‘Cretino!' estará sujeito ao julgamento do Sinédrio; aquele que lhe chamar ‘Louco' terá de responder na geena de fogo." (Mt 5:22) "Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles. Do contrário, não recebereis recompensa junto ao vosso Pai que está nos céus." (Mt 6:1) "Não julgueis para não serdes julgados. Pois com o julgamento com que julgais sereis julgados, e com a medida com que medis sereis medidos." (Mt 7:1-2) "Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas." (Mt 7:12) "Eu vos digo que de toda palavra inútil, que os homens disserem, darão contas no dia do Julgamento." (Mt 12:36) "E Deus não faria justiça a seus eleitos que clamam a ele dia e noite, mesmo que os faça esperar? Digo-vos que lhes fará justiça muito em breve." (Lc 18:7-8) "Viu um homem, cego de nascença. Seus discípulos lhe perguntaram: ‘Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?' Jesus respondeu: ‘Nem ele nem seus pais pecaram mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus'." (Jo 9:1-3) Nessas passagens a lei do retorno é descrita como inexorável, ainda que lenta na concepção dos homens que geralmente esperam uma retribuição quase que instantânea. O efeito deve seguir a causa, assim como o dia segue a noite, porque a lei transcende o tempo e o espaço. A justiça virá no seu devido tempo. E esse tempo pode ser alguns anos ou, muito depois, noutra encarnação, como indica a última passagem sobre o cego de nascença. Jesus explica que não foram seus pais nem aquele homem que pecou, ou seja, a personalidade naquela encarnação, pois já era cego ao nascer. A afirmação de que a cegueira era a manifestação das obras de Deus, deve ser entendida como a inexorável lei do carma, por pecados cometidos noutra encarnação. Paulo exorta os romanos (Rm 12:19) a não fazerem justiça com suas próprias mãos, para não incorrerem em carma, mas deixá-la a cargo de Deus, como pregava a tradição judaica (Lv 19:18 e Dt 32:35). Em Hebreus essa orientação é reiterada: "A mim pertence a vingança, eu é que retribuirei!" (Hb 10:30). Uma das mais claras e diretas indicações da justiça retributiva é enunciada em Gálatas: "Não vos iludais: de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso colherá: quem semear na sua carne, na carne colherá corrupção; quem semear no espírito, do espírito colherá a vida eterna. Não desanimemos na prática do bem, pois, se não desfalecermos, a seu tempo, colheremos" (Gl 6:7-9). A lei do carma, deve ser entendida não só no seu sentido de instrumento da justiça divina, mas também como a expressão da compaixão do Pai que procura instruir o homem rumo a uma vida de retidão. Como as conseqüências de atos negativos implicam necessariamente em sofrimento, os homens, aos poucos, aprendem a associar causa e efeito e, assim, a afastar-se do mal.[6] Esse aprendizado, no entanto, é bastante lento, pois na maior parte das vezes as pessoas não conseguem entender que as violências que sofrem, as doenças que de repente as acometem, os entes queridos que perdem, enfim, toda uma série de eventos dolorosos que acontecem sem nenhuma razão aparente são conseqüências de atos cometidos muitos anos atrás ou mesmo em vidas anteriores. Como os ajustes cármicos são efetuados sempre de forma natural, ou seja, por meios decorrentes de circunstâncias perfeitamente normais, podem, às vezes, demandar um tempo considerável para ocorrer. Deve ficar claro, no entanto, que carma não é fatalidade. Não é algo como destino que não admite interferência. Ao contrário, cada um de nós tem a obrigação de interferir em seu carma, ou seja, de criar as condições mais favoráveis possíveis para a sua vida futura. Como diariamente efetuamos dezenas de ações, dizemos centenas de palavras e produzimos milhares de pensamentos, a cada instante o nosso carma está sendo modificado. Ele pode ser imaginado como a resultante da atuação de uma infinidade de vetores de força atuando de forma dinâmica e contínua. Portanto, o carma de cada indivíduo está constantemente sendo ajustado e reajustado; nossas pendências cármicas podem ser modificadas por nossas ações no presente. Assim, podemos amenizar ou até mesmo cancelar certos débitos cármicos com boas ações na vida atual. É por isso que Jesus nos advertiu: "Assume logo uma atitude conciliadora com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho, para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e, assim, sejas lançado na prisão. Em verdade te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo." (Mt 5:25-26). O juiz e o oficial de justiça representam a Lei da retribuição divina. A prisão é o corpo físico, onde seremos confinados, vida após vida, enquanto não pagarmos até o último centavo figurativo de nossos débitos cármicos. A reencarnação é outro aspecto da realidade Divina que opera juntamente com a lei do carma. Esse era um dos ensinamentos reservados que Jesus ministrava a seus discípulos, como era feito tradicionalmente nas Escolas de Mistérios. A lógica nos leva a entender que a reencarnação é uma necessidade para que se cumpra o propósito de Deus. Como poderia haver evolução, como o homem poderia alcançar a perfeição para a qual Jesus nos conclama (Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito. Mt 5:48), se só houvesse uma única oportunidade de vida no mundo para alcançarmos esse objetivo? Como o Pai celestial, que ama todos seus filhos, sejam eles pobres ou ricos, santos ou pecadores, poderia esperar a perfeição, numa única vida, da grande legião de almas que nasce com deficiências mentais e em ambientes de ódio, ignorância e miséria? As condições difíceis em que muitas pessoas se encontram ao nascer refletem seu carma de vidas anteriores. Todas nossas boas ações, palavras e pensamentos são inexoravelmente contabilizadas pela justiça divina, fazendo com que, vida após vida, nossas condições e oportunidades sejam cada vez mais propícias para nos aproximarmos paulatinamente da meta de união com o Pai, a suprema perfeição e bem-aventurança. A realidade da reencarnação era conhecida dos iniciados judeus ao tempo de Jesus, em especial da comunidade dos essênios e dos cabalistas. Algumas passagens da Bíblia indicam essa realidade, como a já citada do cego de nascença. A passagem citada do Livro da Sabedoria de Salomão, no AT, não deixa dúvida que os judeus esclarecidos sabiam da preexistência da alma: "Eu era um jovem de boas qualidades, coubera-me, por sorte, uma boa alma; ou antes, sendo bom, entrara num corpo sem mancha" (Sb 8:19-20). Em Êxodo, temos uma passagem em que Iahweh diz: "Sou um Deu ciumento, que puno a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam, mas que também ajo com amor até a milésima geração para aqueles que me amam e guardam meus mandamentos" (Ex 20:5-6). Tomada literalmente, essa passagem estaria descrevendo a atitude de um monstro sanguinário, que persegue seus inimigos até a quarta geração, o que não pode ser o caso com o Pai celestial. O sentido alegórico é que os filhos das gerações futuras são, na verdade as futuras reencarnações do indivíduo, que recebe a conseqüência de seus atos, a justiça de Iahweh. Essa retribuição cármica tanto pode ser desagradável como benéfica e não é limitada pelo tempo, podendo ocorrer na mesma vida da pessoa ou numa encarnação futura. No Novo Testamento uma passagem bastante explícita sobre a reencarnação refere-se a vinda de Elias: "Os discípulos perguntaram-lhe: 'Por que razão os escribas dizem que é preciso que Elias venha primeiro?' Respondeu-lhes Jesus: ‘Certamente Elias terá de vir para restaurar tudo. Eu vos digo, porém, que Elias já veio, mas não o reconheceram. Ao contrário, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem irá sofrer da parte deles.' Então os discípulos entenderam que se referia a João Batista." (Mt 17:10-13). Noutra ocasião Jesus perguntou a seus discípulos: "Quem dizem os homens ser o Filho do Homem? Disseram: ‘Uns afirmam que é João Batista, outros que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou um dos profetas'." (Mt 16:13-14). Nessa passagem fica claro que o povo da época acreditava na reencarnação e que para muitos Jesus era tido como a reencarnação de um dos grandes profetas judeus. Como Deus é amor, a operação de todas as leis divinas é, em sua essência última, uma expressão do amor. Isso também se dá com o carma. Podemos interpretá-lo de forma mais abrangente como a maneira compassiva da ação de Deus como Supremo Instrutor. Todas as situações de nossa vida, que são conseqüências de ações anteriores, são exatamente o que mais precisamos, no momento, para prosseguirmos em nosso processo de aprendizado. Todas as pessoas com quem temos relacionamentos difíceis ou mesmo tumultuados são, na verdade, agentes do carma, os instrutores divinos que estão inconscientemente nos ajudando a aprender alguma lição que se tornou indispensável para o nosso progresso.
[1] Annie Besant, Um Estudo Sobre o Karma (S.P., Pensamento), pg. 21 [2] Dhammapada, caminho da lei (S.P.: Pensamento, 1993), pg. 19. [3] Para maior aprofundamento ler: O Caminho da Auto-Transformação, op.cit., pg. 32. [4] O Poder da Sabedoria, op.cit., pg. 44. [5] E. Arnold, A Luz da Ásia (S.P., Pensamento), pg. 180-81 [6] Um corolário da lei do carma é a responsabilidade de cada homem por sua própria vida. "Cada homem é seu próprio absoluto legislador, o dispensador de glória ou escuridão para si mesmo; o decretador de sua vida, sua recompensa, sua punição." M. Collins, O Idílio do Lótus Branco (S.P.: Pensamento), pg. 83 Conhecimento de si mesmo Desde a mais remota antigüidade, os grande mestres sempre instaram o homem a buscar o conhecimento de si mesmo. Essa instrução foi tornada particularmente famosa na Grécia antiga com a inscrição no portal de entrada do Templo de Delfos, que dizia: Homem, conhece-te a ti mesmo. Dizem alguns iniciados que entraram no Templo que, do lado interno do portal, a inscrição continuava: E conhecerás o universo. A tradição cristã, continuadora da eterna tradição de sabedoria, não poderia adotar uma postura diferente. Na extensa literatura do cristianismo primitivo constatamos a ênfase especial dada aos mitos da peregrinação da alma em que os ensinamentos sobre os princípios do homem figuram como parte central do relato. No Evangelho de Tomé, documento apócrifo de grande importância, redescoberto entre os textos da Biblioteca de Nag Hammadi, encontramos três aforismos que se reportam a essa questão: (3) Quando conhecerdes a vós mesmos, então sereis conhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas se não conhecerdes a vós mesmos, então estareis na pobreza e sereis essa pobreza. (67) Jesus disse: ‘Quem conhece o Todo com sua mente, mas priva-se (do conhecimento) de seu verdadeiro Eu, está privado do Todo.' (84) Jesus disse: ‘Nos dias em que vedes vossa semelhança, vós vos rejubilais. Mas, quando virdes vossas imagens, que no princípio estavam convosco, que não morrem nem se manifestam, o quanto tereis de suportar!'[1] Esses aforismos têm profundas implicações. No primeiro é dito que o conhecimento de si mesmo implica num reconhecimento da filiação com o Pai Supremo. O reconhecimento de nossa filiação divina deixa implícito que nossa herança é divina e, enquanto não a reivindicarmos, viveremos na pobreza. No segundo, é indicado que, apenas com o conhecimento intelectivo das coisas do Universo, sem um conhecimento da natureza interior de si mesmo, o indivíduo está se condenando a alienar-se do Todo. É o conhecimento da natureza divina do homem que oferece a chave para o verdadeiro conhecimento do Todo, como nos assegura a Lei Hermética das correspondências ("assim em baixo como em cima"), já que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (o Todo). No aforismo 84, nossas imagens podem ser de três tipos: a imagem física refletida num espelho ou, nos tempos modernos, nas nossas fotografias; a nossa imagem social através de pessoas muito semelhantes a nós ou de descrições, orais ou escritas, a nosso respeito; e, finalmente, a imagem psíquica e a aura, que começam a ser vistas quando o indivíduo conquista as primeiras etapas da clarividência. Essas semelhanças geralmente trazem júbilo, principalmente as da última categoria, pois o indivíduo tende a associar essas visões com uma conquista espiritual. Porém, quando virmos nossas imagens primordiais, nossos arquétipos, enfim, Deus em nosso interior, o enorme contraste entre o que deveríamos ser, de acordo com nosso modelo divino, e a maculada realidade de nossa atual realização espiritual, teremos então um imenso pesar pela nossa fraqueza e nosso apego às futilidades e às ilusões da vida do mundo. Nessa ocasião teremos realmente de suportar um imenso peso em nossa consciência. Diz-se que, ao final de cada vida, o indivíduo passa em revista, de forma extremamente rápida, todos os eventos, palavras e pensamentos de sua presente existência, tendo então noção de seus erros e das oportunidades perdidas. É dito também que grande parte da dor sentida nos estados após a morte referem-se ao pesar e arrependimento pelos erros cometidos. Quanto maior será, então, nosso pesar quando tivermos não só o pleno conhecimento de nossos erros e fraquezas, mas também pelo que deixamos de fazer frente ao modelo de perfeição pelo qual seremos medidos, que reflete a missão que Deus nos outorgou. Em outro documento apócrifo, Jesus deixa claro que tipo de conhecimento devemos procurar, quando diz: ‘Pois aquele que não conhece a si mesmo não sabe nada, mas aquele que conheceu a si próprio alcançou simultaneamente o conhecimento sobre a Profundidade do Todo.'[2] Esse ensinamento do Mestre, que também foi registrado em outros textos não-canônicos,[3] reflete inteiramente a mensagem do Oráculo de Delfos, ligando a natureza do conhecimento interior com o conhecimento do Universo pela extensão das correspondências. Mas por que o conhecimento de si mesmo é fundamental no caminho espiritual? A resposta pode parecer desconcertante: o conhecimento de si mesmo é o próprio caminho espiritual. É por essa razão que esse conhecimento é incluído como uma das regras do caminho, senão vejamos: a meta, como foi visto, é a união em consciência com Deus, simbolizada pelo retorno à Casa do Pai. Como Deus é nossa essência última, o conhecimento de nossa natureza divina facilita essa expansão de consciência, que por sua vez possibilita um conhecimento mais profundo de nossa natureza última. O método, por sua vez, é a metanoia, a transformação de nossos conteúdos mentais, das ilusões e negatividades do homem comum para o estado de consciência de nossa natureza superior. Isso só pode ser feito quando conhecemos nossa natureza inferior e os mecanismos que mantêm nossa consciência aprisionada às coisas deste mundo. Os doze mecanismos transformadores que serão examinados na seção AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS visam facilitar o conhecimento de nossa verdadeira natureza. Quando conhecemos nossos princípios inferiores e superiores podemos mapear uma estratégia para superar ou reorientar os primeiros e ativar os últimos. Assim, o caminho da autotransformação demanda o conhecimento de nosso inconsciente, seja subconsciente ou supraconsciente. Nesse ponto parece haver um impasse: o pleno conhecimento e contato com o Eu Superior depende de conhecermos o eu inferior e transformá-lo num aliado na busca do seu irmão de Luz. Porém, para conhecermos o eu inferior precisamos da ajuda do Eu Superior. Esse aparente paradoxo pode ser superado, como será visto posteriormente. No inconsciente encontram-se as raízes de nossas limitações, de cada defeito e de cada falha de caráter. Para trilharmos o Caminho da Perfeição que leva à União com Deus, precisamos superar todas as fraquezas que nos tolhem os passos. Naturalmente só podemos trabalhar aqueles defeitos que conhecemos, daí a importância do autoconhecimento. O autoconhecimento é especialmente necessário para que possamos desvelar nosso inconsciente, onde estão armazenadas as informações sobre o passado, tanto da infância como de outras vidas. Essas informações oferecem a chave para o entendimento e, portanto, a superação dos condicionamentos limitadores. A psicologia moderna, principalmente depois das reflexões de Jung sobre a ‘sombra' e o ‘inconsciente', permite-nos entender que todos os traumas e frustrações da infância, resultantes de situações não resolvidas ou não compreendidas, são armazenados pelo indivíduo em seu inconsciente sob a forma de mecanismos de defesa, os condicionamentos, que passarão a comandar nossas reações aos estímulos do mundo exterior. Como disse Jung: "A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem despender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, via de regra, ele se defronta com considerável resistência."[4] O trabalho pioneiro de Jung, teve como uma de suas fontes de inspiração os escritos gnósticos e os de seus sucessores, os alquimistas.[5] A partir dessas elucidações, outros autores apresentaram de forma mais acessível ao grande público o conceito da sombra, chamado por alguns de "eu inferior", juntamente com os conceitos de imagem e máscara que geram os mecanismos de defesa das pessoas. Imaginemos a verdade como uma luz intensa que brilha no âmago de nosso ser. Antes de ser percebida pela consciência, isto é, antes de deixar uma imagem em nosso cérebro, essa luz deve passar através de todos nossos veículos, do mais sutil ao mais denso. Cada veículo funciona como um conjunto de filtros que obscurece e distorce progressivamente a luz original, fazendo com que a imagem última a ser refletida no cérebro seja, na maioria das vezes, um mero arremedo quase irreconhecível da imagem inicial projetada pela fonte de luz. O processo de autoconhecimento implica na identificação de todos os filtros de nossos veículos (material, astral e mental) para que possam ser trabalhados e purificados, a fim de que possa diminuir e, por fim, terminar o obscurecimento e a distorção da realidade. Para que esse processo de purificação seja efetivo, e seus resultados possam ser sentidos onde são mais necessários, é preciso que, após a etapa inicial de purificação generalizada dos aspectos mais grosseiros e gritantes da personalidade, o esforço seja então especialmente direcionado para os pontos de distorção, que nem sempre são conhecidos pelo homem. O processo de identificação e aceitação de nossas fraquezas pode ser entendido como um desnudamento. Quando aceitamos retirar a capa protetora de nossas falsas defesas, procedemos a um desvelar de nossa verdadeira natureza. Essa nudez pode causar uma vergonha inicial, mas será o marco de uma nova era em nossa vida. Temos na história de Adão e Eva um exemplo alegórico desse fato. Quando foram expulsos do paraíso tornaram-se conscientes de que estavam despidos. Ora, se enquanto eles viviam no paraíso não eram conscientes de sua nudez, isso significa que a nudez frente à realidade é o próprio paraíso. Esse conceito ajuda-nos a entender duas passagens aparentemente paradoxais do Evangelho de Tomé. Na primeira, ao ser perguntado como eram seus discípulos, Jesus disse: "Eles são como crianças que se estabeleceram num campo que não é seu. Quando os donos do campo chegam, dizem: ‘Devolvam-nos nosso campo.' As crianças se despirão perante os donos para que eles possam receber de volta o campo, entregando-o a eles." Na segunda, ao ser perguntado por seus discípulos quando se revelaria a eles para que pudessem vê-lo, Jesus respondeu: "Quando vocês se despirem sem sentir vergonha e tomarem suas vestes, colocando-as sob seus pés, como criancinhas, e pisarem sobre elas, então vocês verão o filho daquele que vive, e não terão medo."[6] O desnudamento é indicado por Jesus, em primeiro lugar, como a característica que define seus discípulos e, em seguida, como o fato que lhes permitirá ver o Mestre em sua natureza real. As vestes que as criancinhas retiram quando chegam os donos do campo são os envoltórios da natureza inferior, as máscaras e as negatividades que as crianças, como os iniciados, em sua inocência, descartam sem o menor sentimento de vergonha, pois é algo que não lhes pertence. Assim, o requisito indicado por Jesus para que os discípulos possam ter a revelação de sua natureza real é despirem as máscaras e as negatividades e pisarem sobre elas, simbolizando a renúncia a essas vestes inferiores, para que, sem esses impedimentos, a natureza do Cristo possa ser revelada. A identificação dessas distorções é difícil e muitas vezes dolorosa. Significa encarar algumas características pouco lisonjeiras do nosso caráter. Exige um questionamento constante do porquê de nosso comportamento, ou seja, de nossas motivações. Significa buscar a razão pela qual nossas reações são diferentes de nossos atos premeditados. É preciso entender por que algumas de nossas ações não estão respaldadas por nossos verdadeiros sentimentos.[7] Torna-se necessário, portanto, identificar as distorções provocadas pelos nossos condicionamentos inconscientes. A literatura gnóstica dos primeiros séculos de nossa era, especialmente a obra Pistis Sophia, muito contribuiu para o entendimento dos condicionamentos. No mito de Sophia eles são apresentados como sendo emanações da personalidade egoísta que se manifestam como nossos desejos e paixões materiais. Cada vez que repetimos um movimento para a gratificação dos sentidos, por exemplo, estamos reforçando uma tendência que, aos poucos, transforma-se numa virtual segunda natureza, agindo com vontade própria independente de nossa razão. As piores distorções, no entanto, são aquelas advindas dos mecanismos de defesa. Esses são as imagens idealizadas e as máscaras que criamos na tentativa de proteger-nos dos embates dolorosos do mundo exterior. Essas idealizações são aqueles aspectos de nosso eu inferior que provocam as reações negativas que procuramos evitar. Para compreender melhor esse mecanismo, podemos usar um paralelo com o mundo material. Assim como o nosso sistema solar pode ser imaginado como uma imensa esfera com o sol em seu centro e o átomo como uma esfera infinitesimal com o núcleo em seu centro, o ser humano poderia ser concebido como uma esfera, que tem seu Eu Superior, a natureza divina, em seu centro, cercado por uma extensa camada que seria o seu eu inferior e, finalmente, recoberto por uma casca protetora que chamaremos de máscara. Os primeiros sinais de consciência dão-se ao nível daquilo que interpretamos como sendo "eu", que é a camada externa, as imagens idealizadas, que no seu conjunto compõem a máscara. A "imagem" advém de uma falsa conclusão ou generalização sobre a vida. A somatória das imagens estabelecidas por cada pessoa ao longo da infância e da juventude constitui a "máscara" que o indivíduo constrói. Essa máscara é uma auto-imagem idealizada, com a qual o indivíduo tenta apresentar um quadro ideal ou perfeito do que imagina que ele deveria ser para conseguir a aprovação ou amor dos pais inicialmente e, mais tarde, de todos aqueles com quem interage no mundo. A máscara é, portanto, a defesa que estabelecemos em busca de proteção para assim nos tornarmos invulneráveis aos embates da vida.[8] Infelizmente, porém, as imagens incorporadas em nossa máscara em vez de servirem de proteção real contra nossas frustrações são, na verdade, mecanismos retro-alimentadores de nosso sofrimento existencial. A máscara é como um cobertor curto para nos proteger do frio: se cobrimos os pés deixamos os ombros de fora e vice-versa. Quanto mais estamos na defensiva, procurando escapar de possíveis críticas, mágoas ou sentimentos de rejeição, mais limitamos o alcance de nossos sentimentos e, portanto, de nossa capacidade de dar e receber amor, de nos comunicarmos com os outros, de darmos expressão à criatividade e de nos aventurarmos na vida. Existem três máscaras básicas, ou três atitudes fundamentais face à vida: a máscara do amor, a do poder e a da serenidade, que refletem de forma distorcida os três temperamentos básicos (amor, vontade e sabedoria) do ser humano. Algumas pessoas acham que se forem amadas todos os problemas serão resolvidos. A pessoa com essa máscara tenta, por meio de seu comportamento amoroso e subserviente, conquistar a atenção e a demonstração de amor dos outros. Na tentativa de obter aprovação, simpatia, proteção e segurança, que seriam demonstrações de amor, essas pessoas procuram atender a todas as demandas dos outros, sejam elas razoáveis ou não. Como não podem conviver com nenhuma demonstração de rejeição ou mesmo de insatisfação dos outros, não ousam defender positivamente seus desejos ou necessidades.[9] A fraqueza e o desamparo demonstrados pelas pessoas que vestem a máscara do amor não são genuínos, daí caracterizarem-se como mecanismos de defesa, ou máscaras. O indivíduo com uma atitude primordialmente intelectiva frente à vida, geralmente adota a máscara da serenidade, aparentando que tudo vai bem. Nas palavras de uma estudiosa: "A máscara da serenidade é uma tentativa de fugir das dificuldades e vulnerabilidades da vida humana parecendo ser sempre totalmente sereno e distanciado. De fato, o que a pessoa realmente persegue é a distorção da serenidade, que significa retraimento, indiferença, fuga à vida, não envolvimento, distanciamento mundano e cético ou falso distanciamento espiritual. A falsa concepção da máscara da serenidade é que os problemas desaparecem desde que sejam negados."[10] O resultado dessa máscara, como de todas as máscaras, é uma dupla frustração: o indivíduo não consegue captar as demonstrações de amor que no fundo está buscando e aumenta seus problemas de relacionamento, fazendo com que as pessoas se afastem cada vez mais dele. A máscara do poder é a que se mostra mais agressiva das três. Ainda que todos os mecanismos de defesa busquem exercer o controle e, portanto, o poder sobre o mundo exterior, a máscara do poder é especialmente propícia à criação de rixas e animosidades com as outras pessoas. O indivíduo com essa máscara é excessivamente crítico e "procura exercer controle sobre a vida e sobre os outros, parecendo sempre totalmente independente, agressivo, competente e dominador. Através da falsa redução da vida a uma luta pelo domínio, a máscara do poder é uma tentativa de fugir da vulnerabilidade da impotência sentida na infância."[11] A máscara do poder geralmente leva a pessoa a ser voluntariosa e agressiva. Mas como criamos nossas máscaras? Todo indivíduo traz em sua bagagem cármica uma gama de tendências ou predisposições que geralmente são ativadas na infância. Nos primeiros anos de vida, a criança necessita do aconchego e proteção dos pais e espera uma constante demonstração de afeto e carinho. Todas as frustrações decorrentes de sua busca por amor e afeto paternos são processadas em sua mente de forma emotiva, não racional, e arquivadas inicialmente no consciente, refluindo depois para o inconsciente. Como o bebê e a criança ainda não têm capacidade para interpretar de forma madura esses acontecimentos e colocá-los em sua devida perspectiva, suas reações são necessariamente imaturas, mas nem por isto deixam de criar imagens e estabelecer mecanismos de defesa. A criança parece ser insaciável, sempre quer mais, achando que o mundo foi feito para ela, e que a mãe e o pai devem estar sempre a sua disposição para gratificar seus desejos e sua necessidade de aconchego e amor. Essa é a sôfrega busca da felicidade pelo pequenino ser que está sendo introduzido à realidade da vida. Porém, apesar do seu amor aos filhos, os pais são, como todos os demais seres humanos, imperfeitos em seu entendimento da natureza humana e, principalmente, em sua capacidade de demonstrar amor e atenção. Dessa forma, a reação dos pais em certas circunstâncias pode fazer com que a criança interprete uma negativa ou uma censura como indicação de que seu pai ou sua mãe não gostam mais dela. Sendo um escudo protetor fabricado pelo homem para camuflar e proteger seu eu inferior, a máscara geralmente costuma ser negada pelas pessoas que não a conhecem ou não querem reconhecê-la, pois julgam-na cômoda. Como o objetivo da máscara é justamente esconder as negatividades da natureza inferior, sem que haja a identificação e a retirada consciente dessa barreira, o trabalho de autotransformação não pode atingir a raiz do problema. Jesus sempre condenou a falsidade e a hipocrisia, exemplificada no comportamento dos fariseus e levitas. Porém, os ensinamentos do Mestre não eram voltados exclusivamente para situações momentâneas de sua época, mas eram dirigidos a seus seguidores de todos os tempos. Por isso, devemos buscar no âmago de nosso ser toda falsidade que por ventura possamos abrigar. Sabemos, no entanto, que a falsidade da máscara não é uma decisão consciente do indivíduo. A máscara é um condicionamento arquivado nas profundezas do inconsciente, que vem à tona como uma reação a certas situações do cotidiano. Antes que o indivíduo se dê conta já falou ou agiu de acordo com a sua programação inconsciente. Essa é uma das principais razões porque o indivíduo precisa de muita coragem, humildade e trabalho ingente para identificar a máscara, compreender que a proteção que oferece é efêmera e implica em altos custos para a saúde emocional, e que deve ser retirada para que o indivíduo possa participar da vida de forma saudável e responsável. Os mecanismos de defesa não só dificultam o reconhecimento das falhas do eu inferior como, em alguns casos, obstruem a manifestação de certos aspectos do Eu Superior. Isso será mais facilmente compreendido se examinarmos a concepção que temos de Deus. A imagem do Pai Celestial feita pelo adulto é geralmente uma decorrência da característica mais marcante que guarda de seus genitores. Se essa imagem for de pai e mãe amorosos, compreensivos e protetores, a tendência será estender essa impressão para o Supremo Pai-Mãe da humanidade. Nesse caso, a imagem de Deus será a de uma autoridade condescendente propensa a atender todas as vontades. No caso de crianças com pais autoritários e severos, essa percepção será transferida para Deus, a autoridade suprema, a quem passarão a temer, procurando ilogicamente se esconder do Pai Celestial, por medo de serem castigadas por suas faltas. Como todos nós estamos cientes de termos cometido muitos pecados, a insegurança sobre o seu perdão leva-nos a temer mais do que amar a Deus. Essa atitude de medo de Deus e de insegurança sobre o outro mundo faz com que o indivíduo erga barreiras protetoras para mantê-lo afastado daquela Deidade que teme. Como o Eu Superior é a expressão de Deus no íntimo de nosso ser, a conseqüência, nesse caso, é o impedimento do livre fluxo de todas as energias superiores. A personalidade acaba controlando tanto ou mais a expressão do Eu Superior do que a do eu inferior. A identificação e subseqüente demolição dessas barreiras à livre expressão da energia espiritual espontânea requer um esforço consciente, muita coragem e determinação por parte do indivíduo, porque ele se sentirá inicialmente desnudo, desprotegido e desamparado. A tendência da personalidade é resistir a essa abertura, porque ela nos torna vulneráveis às imagens que guardamos da autoridade paterna e de Deus quando éramos jovens, imaturos e indefesos. Quando esse despojamento do ego ocorre, o homem torna-se aberto e sensível como uma criança, o que lembra as palavras de Jesus: "Se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus" (Mt 18:3). Uma vez decidida e permitida a abertura, ainda que cautelosamente a princípio, o indivíduo passará a experimentar uma vida muito mais rica, dando expressão a seus verdadeiros sentimentos e facilitando uma interação mais saudável com as pessoas em sua vida. Um importante corolário do autoconhecimento é a possibilidade de utilização consciente de nosso imenso potencial criativo. Sabemos que o ser humano é altamente criativo. Porém, geralmente, associamos a capacidade criadora a coisas materiais, artísticas ou intelectuais. No entanto, a maior obra do homem é a sua própria vida. Vimos anteriormente que, pela inexorável operação da Lei de Causa e Efeito, todos nossos pensamentos, ações, palavras, sentimentos, intenções e desejos, conscientes e inconscientes, geram conseqüências diretamente associadas à causa inicial. Por isso, nossa vida atual nada mais é do que a conseqüência de nosso poder criativo no passado, ainda que em grande parte ativado de forma inconsciente. Nossa vida é uma resultante matemática precisa de todos os vetores de força que atuaram no passado e estão atuando no presente. A grande oportunidade para todo aquele que procura trilhar a Senda da Perfeição é a certeza de que pode mudar, passando a atuar de forma consciente na criação de sua realidade.[12] Porém, a imensa maioria dos seres humanos são criadores inconscientes, deixando que seu eu inferior, movido pelo egoísmo e o orgulho, seja o agente criador. Para por um fim a esse processo de criação negativa inconsciente, o buscador deve identificar todos os conteúdos negativos de seu inconsciente, fazendo-os aflorar ao consciente, onde podem ser compreendidos e, então, trabalhados. Com isso a energia que anteriormente permanecia reprimida ou manifestava-se de forma distorcida pode ser liberada e direcionada para seus propósitos originais construtivos. Além da identificação das negatividades e distorções inconscientes o processo de criação na Senda inclui a ativação do Eu Superior como agente criador consciente. Como nossa essência última é divina, temos em nosso interior tudo o que precisamos para alcançar nossas metas no Caminho da Perfeição. Quando devidamente invocado, o Eu Superior, que é o Cristo, pode fazer fluir a energia divina do Amor, da Sabedoria e do Poder que passam a trabalhar nossos veículos de manifestação, até que alcancemos, nas palavras de Paulo, "o estado de Homem Perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo" (Ef 4:13). Portanto, nossos desejos, aspirações e pensamentos podem ser usados de forma criativa para modelar o novo homem, que será, a partir de então, um agente consciente das forças do amor e da paz no mundo. A referência no Credo dos Apóstolos, de que Jesus, após a morte, desceu aos infernos, ressuscitou dos mortos e ascendeu ao céu, deve ser entendida como o caminho de todos os filhos de Deus rumo à libertação final. Primeiro devemos morrer para o mundo das falsidades da máscara, a seguir, descer aos infernos onde estão armazenados os arquivos de nossa natureza inferior, ressuscitando do mundo dos mortos, isso é, dos condicionamentos aprisionadores, para só então ascendermos ao céu de nossa natureza superior. Por isso Jesus disse: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (Jo 8:32). O papel e a importância relativa dos três "eus", ou níveis de consciência (o eu adulto, o eu inferior e o Eu Superior), podem ser visualizados de forma alegórica na Figura 2 como sendo os três andares de uma casa de forma piramidal que simboliza o ser humano integral. O eu adulto paramentado com suas máscaras vive no andar térreo, o andar de nossa interface com o mundo exterior, onde são recebidas as pessoas com quem interagimos na vida diária, sejam elas nossos familiares, amigos ou desconhecidos. Esse pavimento, composto de vários aposentos, que são as imagens idealizadas para as diferentes situações de nossa vida cotidiana, é, geralmente, o único a que o eu tem acesso consciente. Os dois outros andares, o porão subterrâneo, onde se encontra escondida a nossa criança imatura, e o andar de cima, onde vive o Eu Superior, são invisíveis, tanto para nós mesmos como para as outras pessoas. A maioria das pessoas passa a maior parte de sua vida circunscrita ao andar térreo. Elas vivem presas à máscara, governadas pelos condicionamentos inconscientes oriundos do eu inferior, simbolizados na Figura 2 pelos cabos que conectam as caixas armazenadas no subsolo. Essas caixas simbolizam as energias distorcidas e estagnadas das negatividades. As inspirações do Eu Superior passam geralmente despercebidas em virtude das paredes espessas que isolam a consciência do homem comum vivendo no mundo de ilusão da máscara. Para que a pessoa possa crescer espiritualmente, ela precisa abrir canais de comunicação com sua natureza divina que vive no andar superior. Porém, a vida espiritual está cheia de paradoxos: para subir é preciso antes descer, para alcançar a luz é preciso antes passar pela escuridão, para alcançar o superior é preciso antes conhecer o inferior.[13] Assim, o homem deve aprender que, para poder se banhar na luz do andar superior de sua ‘casa', ele deve antes passar pelos corredores sombrios e labirínticos do porão de sua natureza inferior. O pior é que além de sombrios e tortuosos, estes caminhos subterrâneos estão atulhados de todo tipo de velharia empoeirada, que bloqueia a passagem. Esses objetos velhos são nossas memórias carregadas de energia emocional, que foram guardadas no inconsciente, mas não totalmente esquecidas, pois são elas que ativam nossos mecanismos de defesa e de negatividades. Esse mecanismo de resposta é simbolizado pelos cabos ligando as caixas do porão ao coração (centro de consciência) do eu adulto no andar térreo. Isso significa que para alcançar a plenitude da luz da natureza superior, o buscador terá que retirar tudo aquilo que atravanca seu caminho pelos subterrâneos do inconsciente da natureza inferior. Todo o material arquivado no inconsciente terá que ser levado para o andar térreo e submetido, com muita compreensão e compaixão, ao crivo da razão do eu adulto. Por isso, o processo é longo e laborioso, mas, à medida que o material for sendo trabalhado, os corredores da natureza inferior serão desbloqueados e, para nossa surpresa, irão adquirindo uma certa luminosidade que nos facilitará encontrar a próxima etapa do caminho até a porta estreita e escondida de comunicação com o andar superior. A outra surpresa é que a limpeza dos corredores subterrâneos do inconsciente promoverá, simultaneamente, uma transformação saudável do andar térreo. Com a continuação desse trabalho de verdadeira purificação, chegará o dia em que conseguiremos abrir a porta do andar superior, de onde promana a luz divina. Ainda no limiar da luz, perceberemos extasiados a beleza e a grandiosidade da natureza divina, que, em nossa consciência dual, atribuiremos a Ele, ao Cristo interior que nos aguarda pacientemente. Com o tempo, seremos convidados a entrar nesse recinto de luz e a comungar com o Cristo e, mais tarde, a nos unirmos a Ele, quando então nos será revelado o segredo supremo de que "Eu e o Pai somos Um", terminando, então a ilusão da separatividade para todo o sempre. Assim como o andar subterrâneo de nossa casa está ligado ao térreo por uma imensa rede de cabos que transmitem os comandos da natureza inferior, pela lei das correspondências, podemos criar uma rede de comunicação de nossa natureza divina com nosso eu adulto. Esse trabalho é feito pela meditação sistemática e profunda.[14] Essa comunicação vai progressivamente neutralizando a ligação com as trevas que, pela ignorância, criamos ao longo de nossas vidas. O objetivo final do trabalho duplo de contato com a luz superior e de regeneração de nossa natureza inferior é a integração dos três "eus" num todo harmônico, agora sob o comando da natureza superior. Quando isso ocorre, a interação com o mundo é feita sem máscaras nem reações negativas, pois a criança imatura foi reeducada e integrada no adulto, possibilitando que todos atos, palavras e sentimentos sejam expressões da verdade e do amor divinos. Apesar da linguagem dessas considerações e elaborações psicológicas ser moderna seus fundamentos podem ser encontrados em linguagem simbólica em alguns documentos apócrifos dentre os quais Pistis Sophia. A atribuição da autoria do Evangelho de Tomé e do Livro de Tomé, o Contendor, ao "irmão gêmeo" de Jesus, oferece uma chave para o entendimento desses processos. No primeiro versículo do Evangelho de Tomé encontramos: "Todo aquele que entender estas palavras não experimentará a morte." Isso significa que quem alcançar a gnosis reveladora obterá, consequentemente, o conhecimento da imortalidade da alma, com a qual associará o seu verdadeiro ser. Porém, alcançar a gnosis suprema significa fundir-se na Luz do Alto, ou seja, unir-se ao Cristo interior. Portanto, quando isso ocorre, a pessoa pode ser legitimamente considerada como "irmão gêmeo" de Jesus. Podemos chegar a essa conclusão examinando atentamente a passagem no Livro de Tomé, o Contendor: "Como foi dito que você é meu gêmeo e meu verdadeiro companheiro, examine-se a si mesmo para compreender quem você é ... Eu sou o conhecimento da verdade. Se você me acompanhar, ainda que não compreenda (isso), já passou a conhecer, e será chamado ‘aquele que conhece a si mesmo.' Pois, quem não se conheceu, nada conheceu; mas quem se conheceu alcançou ao mesmo tempo conhecimento sobre as profundezas de todas as coisas."[15]
[1] Evangelho de Tomé, em J. Robinson, ed., The Nag Hammadi Library (Harper San Francisco, 1980), pg. 126-138. [2] O Livro de Tomé, o Contendor, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 201. [3] Vide, por exemplo O Diálogo do Salvador, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 249. [4] C.G. Jung, Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo (Petrópolis, Editora Vozes), pg. 6. [5] Jung declara em sua autobiografia: "Apesar da supressão da heresia gnóstica, ela continuou a florescer ao longo da Idade Média sob a aparência da alquimia" (pg. 97). "As experiências dos alquimistas eram, em certo sentido, minhas experiências, e seu mundo era meu mundo. A possibilidade de uma comparação com a alquimia e a cadeia intelectual ininterrupta até o gnosticismo deu substância à minha psicologia" (pg. 205). Em C.G. Jung, Memories, Dreams, Reflections (N.Y., Vintage Books, 1963). [6] Evangelho de Tomé, The Nag Hammadi Library, op.cit., versículos 21 e 37, pg. 129-130. [7] Vide Não Temas o Mal, op.cit., pg. 24-25. [8] Vide interessantes considerações sobre este tema em Susan Thesenga, O Eu Sem Defesas (S.P., Cultrix, 1997), pg. 126 e seg., e em Eva Pierrakos, O Caminho da autotransformação, op.cit., pg. 37 e seg. [9] Não Temas o Mal, op.cit., pg. 94. [10] O Eu Sem Defesas, op.cit., pg. 132-33. [11] O Eu Sem Defesas, op.cit., pg. 131-2. [12] Nossa capacidade de criação consciente é descrita por H.P. Blavatsky: "Assim como Deus cria, também o homem pode criar. Dando-se uma certa intensidade de vontade, as formas criadas pela mente tornam-se subjetivas. Alucinações, elas são chamadas, embora para o seu criador elas sejam tão reais como qualquer outro objeto visível o é para os demais. Dando-se uma concentração mais intensa e mais inteligente dessa vontade, a forma se torna concreta, visível, objetiva; o homem aprendeu o segredo dos segredos; ele é um mago." Isis Sem Véu (S.P.: Pensamento), vol. I, pg. 150. [13] Alguns místicos relatam a experiência de que quando encontram uma barreira para chegar à Presença Divina ascendendo a planos superiores, devem então reverter o processo procurando descer e mergulhar em sua própria natureza inferior. Vide: John Pordage, Sophia: The Graceful Eternal Virgin of Holy Wisdom (Londres, 1675), citado em Theosophic Correspondence of Louis Claude de Saint-Martin (Exeter, 1863), pg. 92-93. Outro místico descrevendo os caminhos misteriosos da alma diz: "Mas a maneira como a alma ascende do mundo interno para o eterno, é notável e maravilhosa. Ela não pode mover-se por si só nem mesmo um grau: a mesma Mão do Poder que a levou para baixo para ver as maravilhas de Deus nas profundidades [da natureza humana], deve agora carregá-la para o alto para ver Suas maravilhas nas alturas acima." Thomas Bromley, The Way to the Sabbath of Rest, or the Soul's Progress in the Work of the New Birth, citado por Arthur Versluis, em TheoSophia: Hidden Dimensions of Christianity (NY: Lindsfarne Press, 1994), pg. 205. [14] O escopo da meditação será examinado em maior profundidade no capítulo 21. Uma meditação especial é sugerida no Anexo 1 para o conhecimento de si mesmo que, se feita com paciência e determinação, por algum tempo, poderá abrir novas perspectivas para a vida de cada um. [15] Livro de Tomé, o Contendor, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 189. VI. AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS 13. O instrumental TRANSFORMADOR Na tradição cristã O cristão devoto, desejoso de seguir os passos do Mestre, defronta-se com uma barreira quase intransponível de desinformação a respeito do instrumental transformador disponível em nossa tradição. Os ensinamentos da igreja, ao longo dos séculos, não foram de muito ajuda para seus fiéis. Ao contrário, as instruções e normas eclesiásticas dificultaram o trabalho dos buscadores leigos que não tinham o amparo da literatura e da tradição das ordens religiosas, principalmente das monásticas. A orientação tradicional normalmente dada aos leigos era ter fé nos dogmas da igreja, ir à missa todos os domingos e dias santos, confessar, comungar, rezar, não pecar e, uma vez feito tudo isto, ter mais fé ainda na Graça de Deus para que pudessem receber a devida recompensa na outra vida, no paraíso. A necessidade de autotransformação não era enfatizada. O estudo não era incentivado. Na verdade, por muitos séculos a igreja romana proibiu aos leigos a leitura da Bíblia e preconizou que o estudo de outros livros, que não aqueles poucos publicados com sua permissão, era extremamente perigoso e podia desencaminhar a alma, levando-a para o inferno.[1] As práticas espirituais complementares abertas aos leigos tendiam a promover a devoção e não a razão e o entendimento, como as ladainhas, procissões e romarias. Os protestantes, pela natureza mesma de sua origem como movimento de protesto contra os abusos e distorções da igreja romana, sempre deram mais atenção à vida espiritual do que seus irmãos católicos. Contrastando com a proibição de leitura da Bíblia imposta por Roma, os protestantes consideravam a leitura das escrituras sagradas um dever de todo cristão. Uma conseqüência dessa orientação é que os povos protestantes sempre mostraram índices de alfabetização e de instrução mais altos do que os católicos. Talvez uma das razões por que a orientação do clero aos fieis seja tão tímida e limitada no Caminho da Perfeição deva-se à ênfase dada em sua doutrina ao aspecto transcendente da Divindade. Visto sob esse prisma, Deus estaria no alto dos céus, além do alcance dos homens, e para chegar até Ele precisaríamos da intermediação da santa madre igreja com todos os seus santos. Daí o caráter extremamente devocional e passivo da tradição ortodoxa: o homem deve entregar a sua sorte a Deus, colocando-se neste mundo aos cuidados da igreja. Contrastando com a posição ortodoxa, o buscador da verdade deve estar cada vez mais consciente do aspecto imanente de Deus, pois Ele está sempre em nosso coração "pois é Deus quem opera em vós o querer e o operar, segundo a sua vontade" (Fl 2:13). Na verdade, somos uma emanação Dele, e não estamos separados do Pai em nenhum momento. A impressão de separação, a grande ilusão, é inteiramente devida a nossa consciência ainda imperfeita e dualista. O processo de metanoia visa transformar os nossos conteúdos mentais para que nossa percepção possa se estender até aqueles planos interiores onde podemos alcançar a consciência da Unidade, sabendo, então, por experiência pessoal, e não por elucubrações intelectivas, que somos unos com Deus. Em que pese a pouca eficácia transformadora do instrumental ortodoxo, da forma como é geralmente apresentado pelo clero, deve ficar claro que, em sua origem, este instrumental era embasado nos ensinamentos do Mestre e na prática de seus seguidores. Com o tempo e diante da nova orientação dada pela hierarquia clerical à vida religiosa dos cristãos, esses métodos foram sendo deturpados e tirados do contexto em que deveriam ser praticados. O resultado é conhecido: as verdadeiras práticas foram sendo esquecidas, e as utilizadas tornaram-se de pouca ajuda para a transformação interior. Procuraremos, a seguir, oferecer algumas considerações visando resgatar as práticas da igreja primitiva, colocando-as numa linguagem mais acessível ao leitor moderno. Essas práticas, porém, deveriam ser adotadas dentro do contexto em que foram originalmente concebidas e ser utilizadas como um todo, pois que formam um conjunto orgânico em que cada elemento serve de suporte e reforço aos outros, levando, assim, o praticante aos objetivos desejados. Antes de examinarmos as práticas transformadoras da tradição interna, é indispensável ter bem claro que a premissa fundamental dessas práticas é derivada de um ponto central de nossa fé cristã, qual seja, que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Dessa premissa, surge o corolário bastante negligenciado, apesar de óbvio, de que o homem também é um criador. Ao longo de nossas existências criamos o mundo exterior, o ambiente em que vivemos, pela força de nossas ações e pensamentos, conscientes e inconscientes. Infelizmente, em nossa ignorância e movidos pelo egoísmo, criamos principalmente de forma negativa, haja vista a desarmonia, os problemas e sofrimentos que nos perseguem como conseqüência de nossa atividade criadora insensata. As chaves do Reino legadas por Jesus permitem reverter esse processo de criação negativa e estabelecer uma rotina consciente e inteligente de criação positiva. O processo positivo inicia-se com a decisão e a determinação da personalidade de buscar a Deus. Esse processo é acelerado quando o Cristo interior é devidamente invocado para canalizar seu infinito poder criador para a realização da meta final do homem, a perfeição. Após extenso estudo da literatura disponível, da vida dos místicos e de ingente busca interior em meditação concluímos que são doze as chaves do Reino. Essa conclusão parece ser corroborada por alguns indícios internos. O número doze tem o significado esotérico de completude, de totalidade. Os doze meses do ano, os doze signos do zodíaco, as doze horas do dia e da noite, por exemplo, apresentam a idéia de completude. No cristianismo primitivo esse número ocorre em diferentes contextos. Assim, simbolicamente, Jesus teria tido doze apóstolos, uma extensão do simbolismo judaico das doze tribos de Israel. Em Pistis Sophia, encontramos doze pares de emanações em quase todos os planos, assim como doze pares de Mistérios. Não seria de estranhar, portanto, que o método transformador de nossa tradição seja baseado em doze instrumentos.
Os instrumentos transformadores da tradição cristã podem ser agregados em dois conjuntos de seis. Chamamos os seis primeiros instrumentos de facilitadores e os outros seis de operativos. Verificamos também que os dois grupos expressam as duas etapas que os místicos da idade média chamavam de via negativa e via positiva já mencionadas anteriormente. Os instrumentos facilitadores abrem o caminho, promovendo a purificação dos veículos do homem e o estabelecimento de uma vibração conducente à vida espiritual. Os instrumentos operativos, como o nome indica, estão voltados para a promoção da transformação propriamente dita. Vistos sob esse prisma, o primeiro grupo de instrumentos facilitaria a promoção daquilo que os antigos gregos chamavam de kenosis, o esvaziamento da personalidade das coisas do mundo, para que o segundo grupo pudesse favorecer o preenchimento da alma com a luz divina. Os dois grupos de instrumentos parecem trabalhar em uníssono para efetuar a mudança do homem velho no homem novo que Paulo preconizava: "Como é a verdade em Jesus, nele fostes ensinados a remover o vosso modo de vida anterior - o homem velho, que se corrompe ao sabor das concupiscências enganosas - e a renovar-vos pela transformação espiritual da vossa mente, e revestir-vos do Homem Novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade" (Ef 4:21-24). Posto que o ser humano é um conjunto de princípios integrados, os instrumentos transformadores devem ser operados de forma orgânica, pois estão intimamente relacionados. Todo progresso na prática de qualquer dos instrumentos se fará sentir na prática dos outros, porém, um mínimo de proficiência em cada um é necessária para que não ocorram distorções ou estrangulamentos no processo de transformação do buscador. Parece haver um certo ritmo na utilização dos instrumentos dos dois grupos. O uso do primeiro estabelece a tônica, que é desenvolvida no do segundo, consolidada na utilização dos dois seguintes, aprofundada pelo quinto e, finalmente, temperada ou harmonizada pelo uso do último. Buscando um paralelo em nossa vida quotidiana, verificamos que eles se parecem com os principais sistemas de um carro. O primeiro é o motor de partida, o segundo o acelerador, o terceiro a direção, o quarto os sistemas estabilizadores, o quinto o sistema de injeção turbo ou a tração nas quatro rodas e, finalmente, o sexto, o freio. Quanto aos instrumentos facilitadores: o fundamento da vida espiritual é a fé, comparável ao motor de partida do nosso veículo hipotético; o amor a Deus acelera nossa viagem espiritual; a vontade nos mantém firmes na direção certa; a purificação é o sistema que refrigera o motor da alma e estabiliza a marcha de nosso veículo, suavizando os percalços da estrada; a renúncia das coisas do mundo, alivia o peso do carro, eqüivalendo a uma nova injeção de combustível no motor, o que permite maior progresso; finalmente, o discernimento é o freio necessário para que o buscador não derrape nas curvas de uma ascese excessiva nem de uma aceleração do fanatismo, que pode comprometer a segurança do motorista (a alma) e dos transeuntes que compartilham a estrada da vida conosco. O buscador está pronto agora para enfrentar uma nova etapa do caminho para subir pela estrada íngreme e acidentada que leva ao topo da montanha. Usando mais uma vez o paralelo sugerido do carro, desta vez com os instrumentos operativos, verificamos que o estudo constitui o motor de partida. Com a oração e a meditação começa a lenta aceleração da expansão de consciência. Como a estrada é estreita e tortuosa, conhecida por muitos como o ‘caminho do fio da navalha,' a lembrança de Deus é a direção que permite manobrar pelos percalços do caminho mantendo sempre rumo ao alto. Nessa estrada o veículo não pode falhar, portanto os sistemas auxiliares devem ser confiáveis, o que demanda a constante auto-observação. Como a estrada vai se tornando cada vez mais íngreme, a ascensão nas últimas etapas só pode ser feita com tração auxiliar nas quatro rodas, propiciada pelos rituais e sacramentos. O sistema de frenagem é especialmente crítico nesse trajeto; a euforia do progresso nas alturas desenvolve seguidamente o orgulho e a ambição, que só podem ser neutralizados pela prática constante das virtudes. Essa interdependência ficará mais clara quando examinarmos cada instrumento em particular. Ela já era conhecida dos antigos padres da Igreja. Máximo, o Confessor, escreveu: "O prêmio do autocontrole é o desapego e o da fé, o conhecimento. O desapego dá origem ao discernimento e o conhecimento dá origem ao amor a Deus. A mente que teve sucesso na vida ativa avança na prudência, a que teve na vida contemplativa, em conhecimento."[2] Existe uma correlação entre os seis instrumentos facilitadores e os seis operadores. Sem exaurir o assunto, poderíamos dizer que o estudo confirma a fé; a oração leva ao conhecimento de Deus que alimenta o amor a Deus; a determinação facilita a lembrança de Deus; o exercício da auto-observação facilita a purificação; a morte para o mundo, que é a renúncia, possibilita o renascimento através dos mistérios (rituais e sacramentos); e a identificação do real, que é o discernimento, leva à manifestação do divino no homem, que é a prática das virtudes. Apesar da lógica seqüencial dos instrumentos nos dois grupos, eles podem e devem ser utilizados todos ao mesmo tempo. Em cada etapa da vida espiritual do buscador, um ou mais desses instrumentos terá maior importância. No início da busca espiritual, os instrumentos facilitadores devem ser enfatizados, com vista a adequar a personalidade, pela purificação, à nova vibração mais elevada da alma. Essa é a via negativa dos místicos, em que é efetuada a purgação de tudo o que é grosseiro e mundano e que impede a sintonização da alma com o Divino. O equilíbrio é a meta que só pode ser alcançada quando as distorções são superadas, já que essas criam obstáculos ao progresso, daí o desenvolvimento do discernimento ser tão importante na primeira etapa, e a prática das virtudes, na etapa mais avançada. A necessidade de interação operacional dos instrumentos será inevitavelmente sentida com o tempo. No início, é especialmente importante o esforço da personalidade no sentido de trabalhar os defeitos ou falhas de caráter. Com o passar do tempo, o indivíduo se dá conta que atinge um patamar de realização. Para progredir além desse ponto precisará de auxílio. E essa ajuda só poderá ser obtida da fonte de sua força, que é o Deus interior, o Cristo que aguarda por milênios, no âmago de nosso ser, que o invoquemos para que possa vir em auxílio da alma sofredora. Invocamos o Cristo interior por meio dos instrumentos operadores. Esses, quando ativados harmonicamente, proporcionarão vislumbres de consciência por intermédio dos quais a alma perceberá a Luz que transforma e salva a todos que a alcançam. A utilização apropriada do instrumental transformador visa levar o buscador a última etapa do caminho, a via mística. Com o tempo e a prática, o buscador se sentirá cada vez mais próximo da Presença Divina, até o momento em que tiver seus primeiros contatos interiores. Quando isso ocorre o progresso passa a ser consideravelmente mais rápido, pois o indivíduo não estará mais sozinho em sua batalha diária, mas será assistido pelo Mestre interior, na medida em que pedir essa graça fervorosamente em suas orações.
[1] Um exemplo claro desta atitude pode ser visto em Imitação de Cristo, o manual de vida espiritual mais importante da igreja romana nos últimos cinco séculos: "Melhor, sem dúvida, é o camponês humilde que serve a Deus que o filósofo orgulhoso, o qual, de si mesmo esquecido, considera o curso dos astros. Abstém-te do desejo desordenado de saber, pela muita distração e ilusão que dele advêm. Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma." Op.cit., pg. 14-15. [2] Philokalia, op.cit., vol. I, pg. 25-6. 14. a fÉ A fé é o fundamento de toda prática espiritual. Portanto, é o primeiro instrumento que deve ser desenvolvido. Isso está de acordo com o ensinamento central de Jesus, exposto na obra Pistis Sophia, de que a fé (pistis) é o fator que assegura a vitória da alma em sua longa peregrinação pela terra distante.[1] Estamos falando da verdadeira fé e não da crença, conceito que freqüentemente a mascara. A diferença entre fé e crença é a mesma que existe entre o eterno e o passageiro. A fé baseia-se no eterno, nas verdades imutáveis que independem do tempo e do espaço. Um artigo de fé, portanto, tem que ser comum para católico e protestante, maometano e judeu, hindu e budista, etc. A crença varia com o tempo e o espaço, depende da cultura e da religião de cada povo, daí ser geralmente chamada de crença religiosa. Mas, se a fé é um fator tão importante na vida espiritual, poder-se-ia perguntar por que os cristãos comuns não fizeram progresso considerável no caminho da perfeição, já que a religião cristã vem preconizando a fé como virtude fundamental há dois mil anos? Várias razões conspiram para que isso ocorra. A principal é que a fé preconizada pela ortodoxia é uma fé passiva, na verdade uma crença e não a verdadeira fé. O fiel é instado a crer no nome de Jesus e que ele é o filho unigênito de Deus, que morreu na cruz para nos salvar.[2] Essa crença, embora seja reconfortante para o coração do devoto, tem como conseqüência a geração de um mecanismo vicioso de projeção psicológica. O fiel acha que o Filho de Deus, com seu sacrifício, já fez tudo o que é necessário para salvá-lo e que basta agora crer e não mais pecar, mas, se pecar, poderá sempre arrepender-se até o último instante antes de morrer, evitando, assim, o fogo eterno. Essa crença não leva necessariamente o fiel a buscar sua transformação interior, a trilhar o árduo "Caminho da Perfeição."[3] Só a verdadeira fé é transformadora, pois é ativa. É aquela certeza sentida no fundo do coração, que expressa um sentimento intuitivo das verdades eternas. A fé do místico é inquebrantável, pois advém de suas experiências interiores, visões ou revelações obtidas em contemplação. Nesse caso, o indivíduo tem fé porque sabe, seu sentimento é baseado numa profunda convicção interior que independe de seus conceitos religiosos ou filosóficos. O místico aprende que o importante não é ter fé em Jesus, mas sim ter fé como Jesus. Nesse caso há o compromisso de imitar o Mestre e buscar o Reino dos Céus, até tornar-se perfeito como o Pai que está nos Céus é perfeito. Inicialmente a fé se apresenta como a apreciação intuitiva de algo que não pode ser imediatamente conhecido. É por isso que está escrito que "A fé é uma posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidade que não se vêem" (Hb 11:1). Geralmente associamos o conhecimento com a memória mental. A fé, porém, seria como uma memória de coisas que transcendem a mente, um conhecimento que está gravado no coração e que aflora sem que a mente possa explicá-lo. Podemos conceber a fé como sendo o resultado de uma experiência da consciência do Eu Superior que não foi traduzida em termos da consciência do cérebro. Nesse caso, a experiência apesar de estar fora da esfera de percepção mental da personalidade, ainda assim é sentida, muitas vezes com grande intensidade, de uma forma alheia à lógica, por reações emocionais que refletem as intuições de um plano superior.[4] Mais tarde, quando o indivíduo entra no caminho místico e passa por expansões de consciência, poderá, então, focalizar sua consciência nas verdades eternas e saber com total convicção. Por isso, foi dito em Pistis Sophia, que a fé (pistis) é a pedra fundamental para se alcançar a sabedoria (sophia). A verdadeira fé não é um privilégio dos místicos. Dentre as outras pessoas que também sentem uma intensa fé poderíamos mencionar aquelas que tiveram uma experiência perto da morte. Indivíduos que por alguma razão passam pela morte clínica aparente, decorrente de um acidente, cirurgia, afogamento ou qualquer outra situação, apresentam freqüentemente um mesmo padrão de experiência: uma revisão instantânea de sua vida, a passagem rápida por algo que parece ser um túnel escuro e a aproximação de uma forte Luz, que associam com Deus. Ao retornarem ao seu estado de consciência normal, praticamente todas essas pessoas expressam uma convicção inabalável na existência de Deus. Dizem que Ele está bem próximo de nós ou mesmo no nosso interior, o tempo todo, e que a vida continua depois da morte. Afirmam que a morte não é nada a ser temido e que Deus nos ama e compreende qualquer que tenha sido nosso comportamento nessa vida (experiência relatada até mesmo por aqueles que tentaram suicídio - um pecado capital em todas as religiões). Compreendem que o amor é a coisa mais importante na vida do homem, e que todos nós temos uma missão na vida apesar de não estarmos certos da natureza dela.[5] Essas experiências de quase morte têm um impacto na vida das pessoas equivalente às visões dos místicos e iogues avançados, favorecendo o surgimento de uma fé inabalável em verdades universais, independente de crenças religiosas, cultura, espaço ou tempo. Essa é a verdadeira fé, que é baseada na experiência direta. É a fé em nossa natureza divina, no amor e na compaixão de Deus para conosco. É a convicção de que Deus nunca abandona seus filhos, mas, ao contrário, permanece em nossos corações o tempo todo e está sempre pronto a nos ajudar a nos libertarmos da servidão em que nos encontramos. É a fé na justiça divina, na lei de causa e efeito, pela qual criamos a nossa vida futura, assim como criamos no passado as circunstâncias de nossa vida presente. A fé na lei de causa e efeito é o fator central no processo de autotransformação do indivíduo. Somente quando nos conscientizamos de que somos o criador de nossa própria vida e que, sem esforço e mudanças em nossas atitudes interiores e, por conseguinte, no comportamento exterior, nada poderemos alcançar, é que passamos a reorientar a nossa vida de maneira adequada, ou seja, de maneira ativa, recusando a passividade espiritual que parece caracterizar a maior parte dos fiéis comuns. Jesus ensinou-nos que se tivéssemos a verdadeira fé, ainda que pequenina como a semente de mostarda, seríamos capazes de remover montanhas,[6] certamente as montanhas de lixo de nossa natureza inferior. Se, por um lado, a pequena semente da fé pode crescer e tornar-se uma grande árvore,[7] que é o conhecimento direto das verdades eternas, a mera crença, ou fé cega, por outro lado, não pode germinar e produzir os frutos da verdade. A crença em dogmas e outras doutrinas impositivas não tem a força transformadora que a verdadeira fé proporciona. A essência da fé, que é o conhecimento intuitivo da verdade, parece estar gravada em nossos corações. Ela é uma sementinha que aguarda as condições propícias para germinar e dar seus frutos. Essas condições são o gradual exercício da ioga, o trabalho ingente dos místicos, o árduo caminho da autotransformação trilhado pelas pessoas determinadas, além dos fatos marcantes que transformam a vida das pessoas, tais como as experiências perto da morte. Essa idéia de que a essência da fé está gravada em nosso coração desde o princípio foi muito bem explorado no Hino da Pérola[8] e em Pistis Sophia,[9] como indicado anteriormente. Na Epístola aos Hebreus é dito que: "A fé é uma posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se vêem. Foi por ela que os antigos deram o seu testemunho. Foi pela fé que compreendemos que os mundos foram organizados por uma palavra de Deus. Por isso é que o mundo visível não tem a sua origem em coisas manifestas" (Hb 11:1-3). A epístola continua mencionando os exemplos de Abel, Henoc, Noé e Abraão; "Na fé, todos estes morreram, sem ter obtido a realização da promessa, depois de tê-la visto e saudado de longe, e depois de se reconhecerem estrangeiros e peregrinos nesta terra. Pois aqueles que assim falam demonstram claramente que estão à procura de uma pátria. E se lembrassem a que deixaram, teriam tempo de voltar para lá. Eles aspiram, com efeito, a uma pátria melhor, isto é, a uma pátria celestial" (Hb 11:13-16). Essa convicção profunda deve guiar todo buscador, expressando a certeza de que a Luz divina está em seu interior e que, se devidamente invocada, a Luz virá em seu auxílio. A Luz é o Cristo interior, e Nele devemos colocar toda nossa fé. Mas como podemos alcançar essa fé? Buscando-a na fonte da Verdade! Como o Cristo habita no âmago de nosso coração, é lá que devemos procurar a fé, assim como a verdade e o amor. Buscar no coração significa agir sem os condicionamentos da mente, procurar orientação daquilo que chamamos de intuição, que nada mais é do que a voz do Cristo interior. Na prática, significa perguntar sempre ao coração o que é a coisa certa a fazer, em cada situação, de acordo com as leis da verdade e do amor, em vez de agirmos de acordo com o que fomos ensinados pelo nosso ambiente, nossa tradição e nossos condicionamentos. A prática meditativa ajuda abrir o canal de comunicação com nossa natureza interior.
[1] Pistis Sophia, op.cit., pg. 30. [2] Jo 3:14-18. [3] Pistis Sophia, op.cit., pg. 30-31. [4] Vide The Mystical Qabalah, op.cit., pg. 146 [5] Vide R.A. Moody Jr, The Light Beyond (N.Y.: Bantan Books, 1988) e Cherie Sutherland, Dentro da Luz (Brasília: Editora Teosófica, 1998). [6] Mt 17:20 e Lc 17:6. [7] Mt 13:31; Mc 4:31; e Lc 13:19. [8] Anexo 2. [9] Anexo 3. 15. aMOR A DEUS O amor é a energia cósmica mais atuante na vida do ser humano. Os grandes feitos heróicos decantados pela história são sempre casos de amor, seja à pátria, à esposa, ao filho em perigo, a idéias, ideologias ou causas. Existem, também, muitos casos de heroísmo anônimo, como por exemplo, de mães e pais que se sacrificam por seus filhos ao longo de meses ou anos de dedicação e sofrimento. É sabido que muitas pessoas mudam inteiramente sua vida devido a uma paixão que tudo consome. É essa força do amor (que também se manifesta como eros, ou atração, como dizia Freud) que transforma radicalmente a vida dos místicos. Os místicos, tendo renunciado ao mundo e voltado de forma unidirecionada toda a força de seu ser para o alto, consomem nas chamas do amor todas as barreiras e impedimentos para a união com o Bem-Amado. Suas vidas exemplares comprovam que o amor a Deus é um dos instrumentos mais cruciais no Caminho da Perfeição. Ainda que no cristianismo e em outras tradições religiosas e místicas o amor seja apontado como a maior virtude divina, nem sempre nos damos conta de que é também a lei fundamental do universo e do ser. O amor é a energia que garante o sucesso da manifestação em seu curso de retorno da diversidade para a unidade. Apesar da inércia da matéria, dos pares de opostos e dos diferentes níveis da manifestação parecerem conspirar a favor da manutenção da separatividade, o amor supera todas as barreiras e trabalha inexoravelmente para a união da essência por trás de todas as formas e em todos os níveis. O amor é, então, a força que promove a atração de todas as partes que se encontram aparentemente separadas.[1] Num sentido mais abstrato e abrangente, a lei do amor poderia ser vista como a lei universal da atração.[2] Essa lei se manifesta em diferentes níveis e contextos abrangendo até mesmo a coesão atômica, a afinidade química, o magnetismo, o sexo, a radiação, a gravidade e a gravitação cósmica. Vários desses aspectos de atração atuam nos seres humanos. Por exemplo, o fototropismo típico das plantas ocorre também com os homens, numa volta mais alta da espiral evolutiva, no sentido da orientação do homem em direção à luz espiritual. Todo ser humano que passa por uma experiência mística, por um profundo samadhi[3] meditativo ou por uma experiência próxima à morte (EPM) sabe, por sua própria vivência, que o amor de Deus pelos homens é incondicional e total, e que todos aqueles que o experimentam, ao sentirem-se unos com o Todo, passam a expressar em suas vidas esse profundo sentimento. Nas palavras de uma pessoa que passou por uma EPM: "Enquanto eu estava lá em cima era como se eu estivesse num mundo dourado, num incrível mundo dourado, pleno da luz de Cristo. Senti que eu fazia parte daquilo tudo, que era uma parte do todo, que aquele era o meu lugar, que aquilo era a verdade. E havia todos esses seres, anjos, seres angélicos, luminosos, e esse sentimento de amor total."[4] Não é de se estranhar que, ao ser perguntado qual era o maior mandamento, Jesus tenha respondido: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os profetas" (Mt 22:37-40). O amor é o mais abrangente de todos os mandamentos, pois, como Deus é o Todo, devemos amar todas as coisas visíveis e invisíveis, já que tudo o que existe é uma expressão de Deus. A menção de um segundo mandamento, o de amar ao próximo, é, de certa forma, redundante, pois Deus se manifesta também em cada ser humano, estando essa recomendação implícita no primeiro mandamento e vice-versa. Como esse mandamento nem sempre é devidamente compreendido, acaba tendo pouco impacto na vida do cristão comum. Amar o próximo não significa necessariamente gostar dele. A expressão sentimental do amor tende a obscurecer o verdadeiro amor, porque o que gostamos hoje podemos odiar amanhã. O amor ao próximo é o eixo central de toda a ética espiritual, pois significa a identificação com o outro, significa a compaixão pela dor do próximo que nos leva a uma atitude de boa vontade e cooperação, mesmo para com aqueles que não gostamos. Lembramos, nesse sentido, as palavras de Leonardo Boff: "O amor incondicional possui características maternas, tem compaixão por quem fracassou. Recolhe o que se perdeu. E tem misericórdia por quem pecou. Nem o inimigo é deixado de fora. Tudo é inserido, abraçado e amado desinteressadamente."[5] O sentimentalismo pode até ser prejudicial à compaixão, pois pode tornar nossa identificação com o sofrimento alheio intolerável e, portanto, impossível de ser transformada em ação de ajuda. O sentimentalismo advém da identificação do ego como sendo o outro. O verdadeiro amor identifica o Eu Superior como sendo o próximo. Portanto, enquanto não nos libertarmos em boa medida da prisão de nosso próprio ego, teremos dificuldade para identificar-nos com a natureza superior de nosso próximo. É por isso que Jesus acrescenta sabiamente ao final da declaração a condição de amar "como a ti mesmo."[6] Podemos concluir que para desenvolver a verdadeira compaixão devemos, em primeiro lugar, aprender a nos identificar com nosso verdadeiro ser, o Eu Superior, para então identificarmo-nos com o verdadeiro ser de nosso próximo, em vez de cairmos na armadilha do sentimentalismo inoperante e muitas vezes contraproducente. É por isso que a motivação central do budismo filosófico é a grande compaixão, conhecida no jargão budista como bhodichitta, ou seja, o compromisso de buscar a iluminação o mais rapidamente possível para capacitar-nos a ajudar verdadeiramente a todos os seres. Em muitas outras passagens da Bíblia, somos instados a amar-nos uns aos outros (Jo 15:17), a amar-nos como Jesus nos amou (Jo 13:34 e 15:12) e, até mesmo a amarmos nossos inimigos (Mt 5:44). O amor é, assim, um dos fatores fundamentais do ensinamento de Jesus, o que era reforçado pelo exemplo do Mestre, que aparece nos relatos canônicos e apócrifos como um ser profundamente amoroso que nos convida a seguir seus passos. Amar realmente nossos inimigos é sem dúvida um dos mais duros testes de nosso compromisso espiritual. Essa prática é especialmente difícil porque geralmente nos volvemos para o ego de nosso desafeto e não para sua natureza divina. Para amarmos nossos inimigos devemos manter fora de nossa esfera emocional todas as negatividades da natureza inferior, como o ressentimento, a amargura, a tendência à discussão, o ciúme, o rancor e a vingança.[7] Nesse sentido, Buda ensinou: "O ódio jamais é vencido pelo ódio. O ódio só se extingue com o amor; esta é uma verdade eterna."[8] Jesus nos ensina que a expressão de amor que Deus mais quer dos homens nem sempre é aquela que os homens procuram demonstrar. Por isso ele disse: "Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai" (Jo 14:21). Se interpretarmos a palavra "mandamentos" como "ensinamentos" teremos aqui a essência da tradição interna: seguir os ensinamentos de Jesus como a mais perfeita expressão de amor a Deus. No sentido mais amplo, o amor é a energia que está constantemente atuando para unir o que se apresenta aparentemente separado na manifestação. Sabemos que os pólos masculino e feminino estão sujeitos a força de eros, a força da atração entre os sexos. Mas existe uma polaridade ainda mais fundamental de atração, que antecede o aparecimento da diferença sexual no mundo, a polaridade entre Espírito e matéria. O amor do superior pelo inferior é o amor de Deus pelo homem e por toda a manifestação. Se por um instante sequer o amor divino fosse retirado ou suspenso, todo o universo entraria em colapso e deixaria de existir. Porém, o amor do inferior pelo superior é seguidamente suspenso ou, o que é pior, é renegado consciente ou inconscientemente. Mas nem por isso Deus deixa de amar seus filhos. Para que o ser humano possa alcançar o Reino dos Céus, que é a consciência da Unidade com o Todo e com todos, a força do amor tem que ser ativada ao máximo. Ela pode chegar a ser uma aspiração ardente a tal ponto que se torna um fator não só necessário como suficiente para se alcançar o Reino, como foi visto anteriormente. Para alguns temperamentos é mais fácil expressar o amor a Deus e aos outros seres. As pessoas amorosas ou devotas têm mais facilidade para crescer espiritualmente pelo amor a Deus. Esse é o elemento facilitador dos grandes místicos, os insaciáveis devotos que colocam toda sua vida à disposição do Bem-Amado. Para outros temperamentos, o amor a Deus pode ser cultivado pela busca incessante do conhecimento de Deus, através do estudo, da meditação e da lembrança de Deus. [9] Como nem todos podem sentir em seu coração o amor ao Todo, a alternativa é começar com o amor a certos aspectos desse Todo. Por exemplo, o verdadeiro amor altruísta para com os seres humanos ou mesmo para com os animais e a natureza é também um caminho seguro para expressarmos o amor a Deus. Outras formas de expressão de amor também oferecem caminhos válidos e seguros, como o amor ao belo, à verdade e à justiça. Assim, os artistas que se dedicam sinceramente à expressão do belo, sem outra motivação a não ser a satisfação do anseio por expressá-lo, estarão também manifestando seu amor a Deus, que é a suprema beleza e harmonia. O amor à verdade e à justiça pode ser tanto um instrumento do processo de transformação do homem como uma conseqüência da operação desse processo. Como Deus é Verdade, quem não ama a verdade não pode amar a Deus; o mesmo acontece quanto à justiça. Portanto, todo aquele que tem como meta a sua eventual união com Deus deve assumir um compromisso inabalável com a verdade e a justiça, agindo em todas as circunstâncias como arauto e defensor dessas virtudes capitais. É por isso que Jesus fustigava aqueles que adotavam posturas falsas ou mesmo dúbias, como na célebre passagem em que o Mestre deplorava a atitude de hipocrisia dos guardiões da Lei, válida em sua época como no presente: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque bloqueais o Reino dos Céus diante dos homens! Pois vós mesmos não entrais, nem deixais entrar os que querem fazê-lo!" (Mt 23:13).[10] O compromisso com a verdade em todas as circunstâncias seria suficiente para revolucionar a vida do homem comum tão envolvido com a mentira e a falsidade. A crença de que os fins justificam os meios, não tem lugar na verdadeira vida espiritual. Os fins só justificam os meios para as pessoas mundanas, cujo compromisso é com o sucesso nas coisas do mundo material. Na vida espiritual, pela operação inexorável da lei de causa e efeito, os meios determinam os fins. Esse truísmo foi negligenciado pela Igreja Católica ao longo de sua história, com suas campanhas de perseguição aos hereges, culminando com as atrocidades sistemáticas da inquisição, que chegava ao cúmulo de torturar e matar em nome de Deus. Assim, quem procura ser verdadeiro nas ações, palavras e pensamentos entra em sintonia com a Verdade, que é Deus. Por outro lado, quem se utiliza de meios errados jamais atingirá objetivos verdadeiros. Ser verdadeiro na ação significa agir sem o fingimento e a falsidade que caracterizam a vida do homem moderno, que sobrevaloriza as aparências. Ser verdadeiro significa também simplicidade e equanimidade, é dispensar o mesmo tratamento gentil e cordato a todas as pessoas, sejam importantes ou humildes. Ser verdadeiro no falar significa não mentir, mas também ser exato e não exagerar. Como não podemos estar certos da veracidade da maioria das estórias que se falam sobre as outras pessoas, é preferível não falar da vida alheia, para evitar a possibilidade de disseminarmos uma possível inverdade. Além disso, é mais compassivo não expormos as fraquezas dos outros, da mesma forma como não gostaríamos que falassem das nossas imperfeições. Na realidade, a nossa fala reflete o estado do nosso coração, como disse Jesus: "A boca fala daquilo de que o coração está cheio" (Mt 12:34). Ser verdadeiro no pensamento é ainda mais difícil, em virtude das correntes de pensamentos falsos e superstições que estão disseminadas na atmosfera mental. O indivíduo precisa valer-se de sua capacidade de discernimento para ser verdadeiro no pensamento, pois a diferenciação entre o falso e o verdadeiro na esfera mental é ainda mais difícil do que no plano das ações e das palavras.[11] Para aqueles mais avançados na Senda abre-se uma outra forma de expressão do amor que poderíamos chamar simplesmente de ‘não ferir'. É o que os vedantinos e os budistas chamam de ahimsa, ou inofensividade. Sabendo que todos os seres sensientes são expressões de Deus, aquele que ama a Deus entende que não pode provocar sofrimento a nenhuma expressão material de Deus. Portanto, todos os atos que prejudicam as outras criaturas, como matar, roubar, mentir, etc., são evitados. A prática da inofensividade é um grande passo no caminho espiritual, mormente em nossa sociedade competitiva, em que as pessoas não hesitam em prejudicar os outros para alcançar seus interesses egoístas. O buscador da verdade, movido pelo verdadeiro amor, será levado a estabelecer naturalmente seu código de ética pautado na norma de não ferir. O vegetarianismo ético origina-se desse preceito de não ferir. Os verdadeiros buscadores, movidos pela compaixão para com os animais, como demonstrada por alguns grandes santos, como S. Francisco de Assis, não matam animais e não comem carne para não compactuar com outros que venham a abater os nossos irmãos menores para suprir a demanda por carne. É interessante notar que o vegetarianismo já era previsto desde o princípio da criação como indicado no livro de Gênese: "Deus disse: ‘Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso alimento'." (Gn 1:29). Muitas pessoas, entre as quais me incluo, podem experimentar angústia e até desespero ao constatar que seu amor a Deus é algo formal, que existe mais da boca para fora do que no âmago de seu coração. O que podemos fazer a este respeito? Logicamente não podemos fingir, porque Deus conhece as nossas intenções, nem podemos forçar nossos sentimentos. O amor é algo que não pode ser forçado, pois é a expressão mais nobre de nossa natureza superior. As pessoas que sentem que seu amor a Deus não se conforma com a nobreza de sentimentos e a intensidade preconizada por nossa tradição cristã estão mais perto do caminho do que imaginam. Para começar, por sua honestidade interior nessa questão tão delicada estão demonstrando um considerável grau de despertar espiritual. O ponto central da questão, no entanto, é que a ilusão da separatividade distorce todas nossas percepções no mundo e nos leva, com freqüência, a imaginar Deus como fora de nós. Na verdade, Deus está no âmago de nosso ser e, portanto, toda expressão de amor que tivermos, seja por nossos pais, filhos ou esposa/o, será sempre uma expressão de amor a Deus, ainda que momentaneamente restrita a apenas algumas expressões de Deus. Com o tempo alcançaremos o amadurecimento espiritual que nos levará a perceber Deus em todas as pessoas e em todas as coisas e, assim, passaremos a expressar de forma mais consciente o amor a Deus que antes era demonstrado de forma inconsciente.
[1] Para alguns autores o amor é a síntese de todas as virtudes: "O amor é diligente, sincero, pio, alegre e suave; é forte, sofredor, fiel, prudente, constante, varonil, sem jamais cuidar de si mesmo; pois que, desde que alguém a si mesmo se busca, cessa de amar. O amor é circunspecto, humilde e reto; não é inconstante nem leviano; não se aplica a coisas vãs; é sóbrio, casto, firme, tranqüilo e recatado em todos os sentidos." Imitação de Cristo, op.cit., pg. 182. [2] Vide A.A. Bailey, A Treatise on Cosmic Fire (N.Y., Lucis Publishing Co, 1962), pg. 1166-1175. [3] Vide Glossário - Anexo 4. [4] Dentro da Luz, op.cit., pg. 210. [5] Leonardo Boff, A águia e a galinha (Petrópolis: Vozes, 1998), pg. 132. [6] Vide também, Paul Brunton, Idéias em Perspectiva, op.cit., pg. 82-85. [7] Para maior aprofundamento ver: Idéias em Perspectiva, op.cit., pg. 87-88. [8] Dhammapada, (S.P.: Pensamento, 1993), op.cit., pg. 19. [9] Geoffrey Hodson, O Homem e Seus Sete Temperamentos (S.P.: Pensamento). [10] Vide também, Mt 23:15-30; 6:2,5 e 16; 7:5; 15:7; 22:18; 23:13; Mc 7:6; 12:15; Lc 12:1,56; 13:15. [11] "Aquele que julga as coisas pelo que elas são e não segundo o dizer ou pensar alheio, é verdadeiramente sábio, instruído mais por Deus que pelos homens." Imitação de Cristo, op.cit., pg. 101. 16. VONTADE A Vontade é um dos três aspectos básicos da Trindade divina. É a energia fundamental pela qual Deus criou todo o Universo através da Palavra e que cada ser humano usa para criar o seu universo particular. Da mesma forma como o amor e a sabedoria, os outros dois atributos básicos do Divino, a vontade vai se expressando progressivamente à medida que as pessoas vão evoluindo. A vontade também pode ser cultivada, como o amor e a sabedoria, tornando-se um instrumento cada vez mais eficaz para o crescimento da alma. É uma força tão poderosa, capaz de vencer todas as barreiras, que na Bíblia é dito: "A Lei e os Profetas até João! Daí em diante, é anunciada a Boa Nova do Reino de Deus, e todos se esforçam para entrar nele, com violência" (Lc 16:16). A violência referida certamente não é física, pois o material não pode penetrar e subjugar o espiritual. O que está sendo transmitido é a idéia de que o poder da vontade consegue destruir as barreiras existentes entre o visível e o invisível, permitindo ao buscador rasgar o véu que o mantém preso na escuridão.[1] Muitas pessoas não se dão conta de que o desejo é a expressão distorcida da Vontade Divina. O desejo é a energia da vontade direcionada para a gratificação dos sentidos e as demandas autocentradas da personalidade. É com a expressão dos desejos materiais e egoístas que a maior parte dos homens constrói a sua vida. Não é de estranhar que esses desejos, pela operação da lei de causa e efeito, sejam a fonte de tanto sofrimento no mundo, pois a força do desejo pode se tornar avassaladora. Mas como atua o poder criador da vontade? A vontade é a capacidade criadora de Deus. Como somos criados à imagem e semelhança de Deus, temos a mesma capacidade criadora da Divindade. A diferença é, em primeiro lugar, que não nos damos conta dessa verdade e, em segundo, que geralmente usamos nossa capacidade criadora de forma inconsciente e destrutiva, como indicam a desarmonia e infelicidade que nos perseguem. O pensamento é o instrumento básico do processo criador, independente dele ser consciente ou inconsciente. No homem comum, a maior parte dos pensamentos são de natureza inconsciente. Os pensamentos conscientes são geralmente sem força, pois passam de forma fugidia pela mente. Assim, a força do poder criador é dispersada em milhares de breves pensamentos sem muita definição e intensidade. O discípulo que conhece o processo criador da vida procura se torna mais consciente de seus pensamentos para assim focalizar seu poder mental, tornando dessa forma seu ambiente interior cada vez mais harmônico e construtivo. Essa harmonia interior se fará sentir em nosso ambiente exterior que é sempre um reflexo de nossos pensamentos e sentimentos. A vontade manifesta-se no homem de diferentes maneiras: como determinação, concentração, unidirecionamento e assentimento. Força de vontade talvez seja a expressão mais usada para definir a determinação de um indivíduo para continuar trabalhando por um ideal previamente escolhido, apesar das dificuldades que invariavelmente irão aparecer. No Caminho da Perfeição, a determinação é imprescindível, em virtude dos obstáculos diários de toda ordem que afligem o buscador. Esses obstáculos só podem ser enfrentados e superados com determinação férrea, pois o poder aprisionador de nossas tendências materiais naturalmente provocará inúmeros fracassos, que tendem a desanimar os mais débeis. Como é dito em Imitação de Cristo, "Consoante o nosso propósito será o nosso progresso; de muita diligência precisa quem deseja sério aproveitamento."[2] Toda tentativa de disciplinar a personalidade esbarra numa muralha de objeções que só pode ser superada pela vontade. A personalidade usa inúmeras artimanhas para evitar o enfrentamento da verdade que ela procura esconder. Uma razão para isso é que o reconhecimento de nossas imperfeições é doloroso. Outra razão é que nossa natureza inferior é preguiçosa e está sempre procurando evitar qualquer esforço que não seja diretamente associado à gratificação de seus próprios desejos. Uma forma de superar essas barreiras da personalidade é desenvolver o hábito da recordação de nossa verdadeira natureza e propósito na vida.[3] A determinação deve ser mantida ao longo do percurso porque para cada dificuldade superada uma nova aparecerá, provavelmente de natureza mais sutil e, portanto, requerendo mais esforço, habilidade e dedicação de nossa parte. Deus, em sua infinita sabedoria fez com que a força de vontade atuasse de forma mais débil nas almas jovens, justamente para protegê-las das conseqüências de seus desejos insensatos. Feliz o homem que aumenta sua determinação na mesma medida em que desenvolve o discernimento, pois isso permite que sua crescente capacidade realizadora possa ser direcionada para o alvo certo. Uma das razões para a pouca força de vontade do homem comum é a dispersão dessa vontade na tentativa de satisfazer o grande número de desejos fugidios que ele expressa em sua vida cotidiana. Como o objetivo da vida espiritual é a união com Deus, o buscador precisa direcionar todas suas energias para o alto. Para que isso ocorra, sua natureza inferior deve estar irmanada com o propósito superior, porque na vontade espiritual não há a coerção de um eu teimoso, mas sim a harmonização do todo. Nas palavras de um místico oriental: "A verdadeira vontade nunca se tensiona, ela nasce no silêncio. Ela inclui tanto o pensamento como o sentimento. Ela é imovível por qualquer coisa externa a si própria. Quando eu não tenho vontade pessoal, posso atuar com a vontade mais forte do mundo. Quando sei que a Vontade una está em tudo, todo conflito é abolido."[4] No indivíduo totalmente comprometido com a vida espiritual o unidirecionamento de sua vida para Deus ocorre naturalmente, e ele pode então afirmar como o salmista: "o zelo por tua casa me devora" (Sl 69:10). Todo buscador sabe que o ritmo de progresso na Senda não é constante. Muitas vezes a aparente falta de progresso na vida espiritual pode provocar desânimo e frustração naqueles que não estão fortalecidos pela fé nas verdades eternas. Se um obstáculo parece irremovível ou a meditação permanece árida por semanas, meses ou mesmo anos, esta pode ser uma indicação de que precisamos direcionar ainda mais energia para vencer os obstáculos. Quando isso é feito e temos a consciência de que fizemos absolutamente tudo o que estava ao nosso alcance, devemos então exercitar a paciência dando tempo para que os resultados apareçam, pois os fatores causais, que provavelmente já foram acionados nos planos sutis, levam tempo para manifestar-se nos planos mais densos. É importante, nesse particular, o alinhamento de nossa vontade com a Vontade de Deus. Enquanto nossa vida estiver dirigida para a satisfação dos desejos ou vontades da personalidade, o homem estará amarrado ao mundo. Daí a importância das palavras do apóstolo Paulo: "Não sejais insensatos, mas procurai conhecer a vontade do Senhor" (Ef 5:17); e também: "E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito" (Rm 12:2). A vontade divina deve ser obedecida até mesmo nos momentos de angústia, como Jesus demonstrou pouco antes de sua morte violenta, quando no Monte das Oliveiras, sabendo o que lhe esperava, disse: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!" (Lc 22:42). Todo aquele que ama procura fazer a vontade da pessoa amada. Portanto, devemos procurar saber qual a vontade de Deus para então atendê-la. Considerando que Deus é o Supremo Amor, que sempre age com a Divina Bondade, Ele só pode desejar que nós sejamos realmente felizes. E o que significa sermos realmente felizes? Significa libertarmo-nos de todos os grilhões que nos mantêm prisioneiros e infelizes nas trevas da ignorância. Portanto, a Vontade de Deus não é algo inescrutável, não é nenhum mistério além de nosso alcance, mas sim o nosso destino último, o retorno à Casa do Pai, onde viveremos em eterna bem-aventurança. Considerando o lado prático de nossa vida cotidiana, devemos procurar alinhar a nossa vontade com a Vontade de Deus seguindo os ditames do coração, ou seja, ouvindo a voz da alma e vivendo de acordo com o mais elevado código de ética que nossa consciência ditar. O estudo e a meditação serão fontes constantes de instrução sobre a Vontade de Deus.[5] Algumas pessoas pensam que fazer a vontade de Deus é algo difícil, que demanda imensos sacrifícios de nossa parte. Ao contrário, é alegre e fácil seguir à divina Vontade, pois como nos disse Jesus: "O meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (Mt 11:30). Imaginamos, em nossa ignorância aprisionadora, que as mudanças necessárias para seguir o chamado do Alto e realizar a vontade de Deus são extremamente penosas. Na verdade, o grande peso, a causa real de nosso sofrimento, é a falsidade de nossa vida, que nos aliena da realidade, são as nossas negatividades que nos tornam destrutivos. Quando conseguimos, depois de algum esforço e certa dor inicial, deixar para trás as falsidades e as negatividades, verificamos que nos sentimos mais leves, livres e contentes, confirmando por experiência própria a promessa de Jesus de que o fardo da verdade é mais leve.
[1] Mc 15:38 e Lc 23:45. [2] Imitação de Cristo, op.cit., pg. 65. [3] Vide I.K. Taimni, Autocultura à Luz do Ocultismo (R.J.: Grupo Annie Besant), pg. 175. [4] Sri Ram, Pensamentos para aspirantes ao caminho espiritual (Brasília: Ed. Teosófica, 1989), pg. 22. [5] Vide The Mystical Christ, op.cit., pg. 146-47. 17 - PURIFICAÇÃO A purificação parece ser o ponto alto de toda a ascese da via negativa, o processo de purgação pelo qual os místicos procuram evitar as vibrações negativas e mudar radicalmente de vida para merecerem ser admitidos na Presença de Deus. A necessidade de purificação é enfatizada em todas as tradições. No entanto, todos os mestres advertem que, na prática, os devotos tendem a cometer exageros na ascese, desperdiçando seus esforços no objetivo errado. Todas as práticas de ascese devem ser voltadas para reforçar a vontade de fazer a coisa certa, ou seja, promover a ausência de desejo por objetivos inferiores, ao mesmo tempo em que procuram reverter as tendências estabelecidas pelos comportamentos errôneos adotados durante muitas vidas. O poder escravizador das tendências mundanas foi aludido na passagem lapidar de Paulo: "Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto. Na realidade, não sou mais eu que pratico a ação, mas o pecado que habita em mim. Eu sei que o bem não mora em mim, isto é, na minha carne. Pois o querer o bem está ao meu alcance, não porém o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que eu quero, mas pratico o mal que não quero" (Rm 7:15,17-19) Todo ser humano compartilha com o apóstolo Paulo a perplexidade de insistir em manter padrões de comportamento e atitude negativos, mesmo depois de saber que são destrutivos e trazem infelicidade para nós e para os outros. Paulo explica essa compulsão como advindo do "pecado que habita em nós." O pecado nada mais é do que a natureza inferior com suas imagens entrincheiradas por trás das defesas da obstinação, do orgulho e do medo que nos aprisionam num círculo vicioso. Por isso o processo de purificação deve procurar atingir a raiz do problema, o "pecado que habita em nós." O homem, porém, sempre achou mais fácil fazer coisas externas do que efetuar as necessárias mudanças em seu interior. Desde a mais remota antigüidade preferia as asceses, o uso de cilícios, sacrifícios e jejuns à prática das virtudes. Uma tocante passagem do profeta Isaías demonstra que os verdadeiros ensinamentos espirituais, com suas devidas prioridades, sempre estiveram ao alcance da humanidade: "Não continueis a jejuar como agora, se quereis que a vossa voz seja ouvida nas alturas! Por acaso não consiste nisto o jejum que escolhi: em romper os grilhões da iniqüidade, em soltar as ataduras do jugo e pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar todo o jugo? Não consiste em repartires o teu pão com o faminto, em recolheres em tua casa os pobres desabrigados, em vestires aquele que vês nu e em não te esconderes daquele que é tua carne?" (Is 58:4, 6-7). Conhecendo essa tendência milenar de excessos na ascese, Jesus declarou: "Um burro, girando uma pedra de moinho, caminhou cem milhas. Quando ele foi solto, percebeu que ainda estava no mesmo lugar. Existem homens que fazem muitas jornadas, mas sem fazer nenhum progresso em qualquer direção. Quando o crepúsculo os surpreende, não encontram nenhuma cidade nem vilarejo, nenhum produto humano nem fenômeno natural, poder nem anjo. Labutaram em vão, os coitados!"[1] As tradições orientais são ainda mais específicas ao tratar do assunto. Vemos assim, nos Ioga Sutras de Patanjali, que a krya ioga, ou ioga preliminar, conhecida como yamas e nyamas, ou proibições e prescrições, tem um papel fundamental. O iogue não conseguirá fazer muito progresso enquanto não preparar suficientemente seus veículos para a jornada interior. Alguns iogues e certas tradições monásticas, em seu zelo de purificar as tendências materiais, buscam na mortificação do corpo um meio rápido para alcançar esse fim. [2] Todos os mestres são contra exageros nesse particular. O Senhor Buda, depois de verificar por experiência própria que a excessiva mortificação do corpo com longos jejuns o havia debilitado a ponto de não poder se concentrar na meditação, preconizou o Caminho do Meio, em que o buscador deve evitar os extremos de licenciosidade e de maceração do corpo, mas viver com disciplina e controle da mente, pois é a mente que controla o corpo. Procurando retificar os conceitos errôneos existentes em sua época sobre a purificação, Buda ensinou: "O costume de andar nu, os cabelos trançados à maneira dos ascetas, os jejuns, o dormir no chão ao relento, o cobrir-se com cinzas ou poeira, o sentar-se imóvel nos calcanhares (em penitência), as prosternações, nada disso purifica o mortal que não se livrar do desejo e da dúvida."[3] Essa mesma idéia já era propalada pelo Bhagavad Gita: "Há pessoas que, espontaneamente, se martirizam e mortificam seu corpo, o que nenhuma Escritura Sagrada aconselha nem prescreve; tais pessoas são hipócritas, vaidosas, cheias de paixão, e desejam obter recompensas e louvores".[4] Como os homens tendem a imaginar a Deidade como uma extensão de seus pequeninos "eus", susceptível à lisonja, procuram acrescentar às suas asceses toda sorte de oferendas propiciatórias, que vão desde presentes para a igreja, acender velas para os santos, rezar o terço, até "pagar promessas" de todos os tipos. Jesus, repetindo a sabedoria milenar já expressa no Antigo Testamento, disse: "Misericórdia é que eu quero e não sacrifício" (Mt 12:7). A maior parte dos excessos das disciplinas físicas utilizadas para promover a purificação poderia ser evitada se o processo de condicionamento da personalidade fosse levado em consideração. Existe hierarquia em todos os sistemas do universo, inclusive em nossa personalidade: o corpo físico é governado pelas emoções, e esses dois pelos pensamentos conscientes e os condicionamentos inconscientes. Portanto, a verdadeira ascese tem que visar primordialmente a mente e não o corpo físico. Quando nos conscientizamos de que certas atitudes, tais como a busca do poder, da riqueza, do status, da sensualidade, enfim, de que todas as atitudes egoístas são prejudiciais ao progresso espiritual, damos o primeiro grande passo para a purificação. O grau de pureza expresso em nossas ações, palavras e pensamentos refletem nossas intenções e motivações ulteriores. É por isso que Jesus disse no Sermão da Montanha, "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus" (Mt 5:8). Os puros de coração são aqueles seres simples e sinceros que agem espontaneamente sem segundas intenções. Como diz um místico: "Quando não há egoísmo, ambição e medo no coração humano, todas as atividades externas do homem serão boas. Às vezes, as impurezas em nossos motivos são tão sutis e intangíveis que passam despercebidas."[5] Os processos de purificação e de renúncia, assim como tudo mais no verdadeiro caminho espiritual, devem andar de mãos dadas com o amor. O devoto não pode, em nenhum momento, sentir ódio ou aversão a seu corpo físico, acreditando que o corpo é a fonte de seus problemas. Ao contrário, o corpo físico deve ser encarado com simpatia, pois é um instrumento maravilhoso, um verdadeiro milagre de harmonia e beleza oferecido pela natureza e sem o qual não teríamos a possibilidade de progredir no Caminho. Assim como seria imaturo e pouco inteligente de nossa parte sentir vergonha de nosso comportamento quando éramos bebês, quando fazíamos nossas necessidades fisiológicas na fralda, assim também não é lógico uma atitude de condenação de nosso corpo, das nossas emoções e pensamentos enquanto personalidades imaturas. Nossa atitude, ao contrário, deve ser de grande compaixão, encarando nosso eu inferior como o ser primitivo que é, adotando para com ele a mesma postura de compreensão e firmeza amorosa que temos ou que deveríamos ter para com nossos filhos. É a mente, mais do que o corpo, que deve ser disciplinada. A disciplina exige profunda compreensão dos processos de condicionamento que nos levam a fazer o mal que não desejamos ao invés do bem que queremos. A purificação do corpo, no entanto, deve ser promovida levando em conta as devidas prioridades relacionadas com a purificação das emoções e dos pensamentos. A tarefa mais importante, nesse particular é dissociar-nos da identidade com o corpo. Devemos pensar em nós como a alma que usa um corpo físico. Para tanto, será útil lembrarmos que não somos nós que temos sede, fome, sono, etc., mas sim o corpo físico. A alimentação apropriada impede a contaminação do corpo. Por alimentação apropriada devemos entender alimentos saudáveis, leves e, principalmente, em quantidade moderada, para assim mantermos a saúde em vez de satisfazermos a gula. Uma alimentação pesada e excessiva dificulta a digestão, a saúde e a meditação.[6] Como a verdadeira purificação é interior, isso significa que toda ascese exterior é desnecessária? As disciplinas exteriores podem ser úteis, como instrumentos complementares, para as práticas interiores, desde que usadas com o devido equilíbrio. Por exemplo, é conhecido na tradição monástica que os jejuns e as vigílias são instrumentos importantes na ascese. Os jejuns e as vigílias, afetando aspectos ainda pouco conhecidos da fisiologia humana, podem facilitar ou mesmo provocar estados alterados de consciência quando o corpo e a psique parecem estar perto de seus limites. Esse parece ser também o princípio que levam os dervixes[7] a efetuar seus rodopios na tentativa de induzir estados exaltados de consciência. Dentre as práticas monásticas da Igreja Oriental, como as realizadas em Monte Athos na Grécia, encontramos as vigílias, conhecidas entre eles como agrypnia (sem dormir), que são os serviços litúrgicos e preces durante toda a noite. Nessas ocasiões, a constância da lembrança de Deus, em meio a preces auxiliadas pela vibração de devoção de toda a congregação do mosteiro e facilitada pela alteração psico-fisiológica do cansaço, tende a criar uma atmosfera psíquica propícia para os contatos interiores. O mesmo parece ocorrer após jejuns mais prolongados, que servem para quebrar o domínio das demandas do corpo sobre a mente. Ainda que esses processos sejam difíceis de explicar, a prática dentro de certos limites mostra sua utilidade.[8] O objetivo de todas as práticas de purificação envolvendo o corpo e a mente é criar condições favoráveis para o despertar do Cristo interior. Quando isso ocorre, o sucesso está garantido, pois o homem passará a contar com a ajuda divina para proceder às transformações necessárias de dentro para fora. A purificação promovida pela ação da natureza superior é o tema, geralmente pouco compreendido, da comensalidade de Jesus, como exemplifica a seguinte passagem: "Aconteceu que, estando Jesus à mesa em casa, vieram muitos publicanos e pecadores e se sentaram com ele e seus discípulos" (Mt 9:10). Os judeus ortodoxos insistiam em regras rígidas de segregação e purificação em seus hábitos alimentares. A aceitação por parte de Jesus da participação de publicanos (coletores de impostos) e de notórios pecadores à mesa, e sua negligência às regras de ablução exigidas antes das refeições, devem ser entendidas no sentido alegórico. Jesus representa o princípio divino no homem, e seus discípulos são os atributos e qualidades mais elevadas da mente. Os publicanos e pecadores representam os aspectos da natureza inferior, como o egoísmo, a ganância, o orgulho e a sensualidade. A casa representa o corpo físico, onde todos se encontram. A interação do princípio divino e dos atributos superiores da mente com os aspectos da natureza inferior, simbolizada pela refeição compartilhada, promove a regeneração e a transformação do homem exterior. Essa integração do superior com o inferior, ainda que anátema para o homem do mundo guiado pelo preconceito e pela sabedoria convencional, é o processo pelo qual ocorre a mudança de orientação do material para o espiritual. Em que pese os exercícios de ascese, a prática da verdade é o agente purificador mais seguro. Em nossa tradição, a frase de Jesus: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (Jo 8:32), resume o processo de purificação. Esse ensinamento é reiterado na epístola de Pedro: "Pela obediência à verdade purificastes as vossas almas para praticardes um amor fraternal sem hipocrisia" (1 Pd 1:22). Esse processo nada mais é do que a remoção de todas as falsidades e negatividades que obscurecem e abafam o Cristo interior. Portanto, a primeira etapa da purificação deve ser o autoconhecimento, como foi visto anteriormente. Esta mesma idéia é apresentada numa interessante passagem do Bhagavad Gita: "Não há, no mundo, outro agente de purificação igual à chama da Verdade Espiritual. Quem a conhece, quem a ela se dedica, será purificado das manchas da personalidade, e achará o seu Eu Real."[9] O processo de identificação de nossas negatividades é bem mais complexo e delicado do que as pessoas geralmente imaginam. Tanto a repressão como o sentimento de culpa são contraproducentes. O processo requer, numa primeira etapa, a identificação, sem julgamento, das negatividades que condicionam nossas reações ao mundo exterior. Significa trazer o material inconsciente para o consciente, para então ser trabalhado. Essa é a tarefa mais delicada e difícil da verdadeira purificação que leva à autotransformação. Não podemos transformar aquelas negatividades que desconhecemos e que, em geral, negamos. Quando as negatividades são identificadas com o auxílio do Eu Superior, é possível reorientar as forças distorcidas, transformando-as em energias construtivas. O amor e a sabedoria do Cristo interior são essenciais nessa tarefa. Na medida em que tivermos êxito nesse processo de desbloquear as energias dos condicionamentos inconscientes, seremos capazes de manifestar cada vez mais plenamente o Cristo interior. Por isso foi dito que: "Se confessarmos nossos pecados, ele, que é fiel e justo, perdoará nossos pecados e nos purificará de toda injustiça" (1 Jo 1:9). O poder purificador da verdade também é aludido de forma contundente na passagem do Evangelho de Felipe sobre a raiz do mal: "(A maior parte das coisas) no mundo, enquanto suas (partes internas) estão ocultas, ficam de pé e vivem. (Se são reveladas), morrem... Enquanto a raiz está escondida ela brota e cresce. Se suas raízes são expostas, a árvore seca. Assim ocorre com todo nascimento no mundo, não só com o revelado, mas (também) com o oculto. Porque, enquanto a raiz da maldade está escondida, esta permanece forte. Mas quando é reconhecida ela se dissolve. Quando é revelada ela morre. É por isso que a palavra disse: ‘O machado já está posto à raiz da árvore'. Ele não só cortará -- o que é cortado brota outra vez -- mas o machado penetra profundamente até trazer a raiz para fora. Jesus arrancou inteiramente a raiz de todas as coisas, enquanto outros só o fizeram parcialmente. Quanto a nós, que cada um cave em busca da raiz do mal que está dentro de si, e que ele seja arrancado do coração de cada um pela raiz. O mal será arrancado se nós o reconhecermos. Mas se o ignorarmos, ele se enraizará em nós e produzirá seus frutos em nossos corações."[10]
[1] Evangelho de Felipe, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 147-48. [2] "Se não fazes violência a ti mesmo, jamais vencerás as tuas paixões. Enquanto arrastarmos este corpo frágil, não poderemos estar sem pecado, nem viver sem tédio e sem dor." Imitação de Cristo, op.cit., pg. 83. [3] Dhammapada, op.cit., pg. 33. [4] Bhagavad Gita, op.cit., pg. 156. [5] The Mystical Christ, op.cit., pg. 172. [6] "Devemos também jejuar e abster-nos dos vícios e pecados bem como do excesso no comer e no beber." São Francisco, op.cit., pg. 85. [7] Membros de uma fraternidade religiosa islâmica do oriente médio, derivada do sufismo, que apresenta certa semelhança com as ordens monásticas cristãs. [8] Vide A Different Christianity, op.cit., pg. 217-25. [9] Bhagavad Gita, op.cit., pg. 63. [10] Evangelho de Felipe, op.cit., pg. 158. 18 - RENÚNCIA A renúncia é parte integral do processo de kenosis dos antigos místicos, o esvaziamento da personalidade que abre espaço para que a mente possa ser preenchida com o Espírito, dando nascimento, então, ao Cristo interior. A essência da renúncia é um estado de espírito que coloca as coisas do mundo em segundo plano e dá prioridade aos interesses da alma. Por isso Jesus disse: "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros nos céus, onde nem a traça nem o caruncho corroem e onde os ladrões não arrombam e roubam; pois onde está o teu tesouro aí estará também teu coração" (Mt 6:19-21). O objetivo do renunciante é morrer para o mundo, abdicando as práticas mundanas da busca do prazer e do poder. Isso está muito bem sintetizado na brilhante imagem de Paulo: "Vós vos desvestistes do homem velho com as suas práticas e vos revestistes do novo, que se renova para o conhecimento segundo a imagem do seu Criador" (Cl 3:9-10). O símbolo cristão da morte é a cruz. No símbolo do madeiro estão representados dois pólos, o da dor e o da alegria, pois, a dor da morte, como renúncia ao mundo, é o pré-requisito para a ressurreição, ou alegria do renascimento. Por isso foi dito que "Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer produzirá muito fruto" (Jo 12:24). O mesmo ensinamento é apresentado noutra imagem diretamente relacionada com a vida e a morte: "Quem ama sua vida a perde e quem odeia a sua vida neste mundo guarda-la-á para a vida eterna" (Jo 12:25). O apego egoísta é morte, e o altruísmo é vida para o discípulo. Jesus deixa claro que a renúncia a este mundo é fundamental para se atingir o outro mundo, o Reino de Deus. Nas parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa, o homem deve vender tudo o que tem, ou seja, renunciar a tudo, para adquirir a bem-aventurança celestial, representada pelo tesouro e pela pérola: "O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido no campo; um homem o acha e torna a esconder e, na sua alegria, vai, vende tudo o que possui e compra aquele campo. O Reino dos Céus é ainda semelhante a um negociante que anda em busca de pérolas finas. Ao achar uma pérola de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra" (Mt 13:44-46). Padres da Igreja Primitiva, como Cassian e Evagrius de Pontus, falam de três tipos de renúncia e insinuam uma quarta, que deve ocorrer quando a pessoa está próxima de atingir a Theosis, ou União com Deus. [1] A primeira renúncia é aos bens materiais e às coisas exteriores. Esse é um grande passo no Caminho, sendo recomendado em quase todas as tradições espirituais. Os padres e monges lidam com essa renúncia por meio do voto de pobreza. As pessoas com obrigações de família não precisam literalmente vender ou doar seus bens para seguir o Mestre, o importante é que haja um real desapego das coisas materiais. Por isso Jesus disse: "Qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo" (Lc 14:33). Essa renúncia está relacionada com o tempo presente. A segunda renúncia é o abandono das paixões, vícios e fraquezas. É a renúncia ao desejo das sensações e emoções prazerosas que, com o passar dos anos, condicionam nossa mente à busca da gratificação dos sentidos. Para os monges, o voto de castidade é tido como fundamental nesse particular. Devemos renunciar, também, as nossas rejeições ou aversões, pois elas são sentimentos negativos que perturbam a alma. Essa modalidade de renúncia está relacionada ao passado, pois a busca do prazer é movida pelo apego às lembranças passadas. A terceira renúncia é ainda mais difícil, pois é o último passo na renúncia ao mundo de que fala Paulo. Implica em abandonar toda expectativa de prazer, proteção e conforto das coisas do mundo visível, para que o renunciante possa ser gratificado e preenchido com as coisas do mundo invisível. Requer total fé na providência divina, como indicado na parábola dos lírios do campo (Mt 6:30-34). Essa renúncia está relacionada ao futuro. Poderíamos perguntar: tendo renunciado ao presente, ao passado e ao futuro, ao que mais o homem poderia renunciar? Falta ainda aquilo que ele mais preza e que considera como parte inalienável de seu ser, o sentimento de ser um eu separado. Quando ocorre essa renúncia final, normalmente associada à experiência mística conhecida como a ‘noite escura da alma', segundo os escritos de João da Cruz,[2] o homem está pronto para a união com Deus. Quando ocorre, então, a tão ansiada união, o místico verifica que sacrificou seu pequenino eu para alcançar a consciência de seu verdadeiro Eu Divino. A extensão e as implicações dessa renúncia final são tão profundas que somente alguém que passou por ela pode transmitir alguma idéia dessa experiência. Nas palavras de Meister Eckhart, um dos maiores místicos da tradição cristã: "A renúncia em grau mais elevado ocorre quando, por amor a Deus, o homem se despede de deus. São Paulo separou-se de deus, por amor a Deus e deixou tudo o que poderia ter recebido de deus, assim como tudo o que poderia dar -- juntamente com qualquer idéia sobre deus, e Deus permaneceu nele como Deus em sua própria natureza -- não como é concebido por alguém ou ‘representado' -- nem tampouco como algo a ser ainda atingido, mas antes como ‘Seidade' como Deus é realmente. Então, o homem e Deus se tornam um todo que é pura unidade. Assim, o homem se transforma na pessoa real para quem não pode haver nenhum sofrimento, como de modo algum o pode haver na essência divina."[3] Para o devoto que ainda não alcançou esse estado supremo de união com Deus, a renúncia é um estado de consciência caracterizado pelo desapego, que só ocorre quando termina o desejo pelas coisas do mundo. O desapego consiste em redirecionar o desejo para as coisas do Alto e evitar a prisão da busca do prazer e do poder.[4] É esse estado de desapego que liberta a alma, mesmo que permaneça a posse do objeto. Quando Jesus recomendou ao jovem rico vender todos seus bens para segui-lo, certamente sabia que o apego era a fraqueza que ainda amarrava aquela alma ao mundo, como fica confirmado pela reação do jovem: "Uma coisa ainda te falta. Vende tudo o que tens, distribui aos pobres e terás um tesouro nos céus; depois vem e segue-me. Ele, porém, ouvindo isso, ficou cheio de tristeza, pois era muito rico" (Lc 18:22-23). O comentário de Jesus a respeito da atitude do homem rico tem levado muitas pessoas à conclusão apressada de que a pobreza é indispensável ao discipulado: "Vendo-o assim, Jesus disse: Como é difícil aos que têm riquezas entrar no Reino de Deus! Com efeito, é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!" (Lc 18:24-25). É importante lembrar que Jesus pregava por meio de parábolas para "os muitos." Esses identificam-se com a sua personalidade no mundo e com as suas particularidades, como por exemplo, ser rico. O discípulo avançado sabe que a personalidade é um mero veículo da alma, considerando todas as características e atributos da personalidade como instrumentos passageiros para sua missão no mundo. Por isso não é necessário ser pobre no sentido material para entrar no Reino dos Céus, até por que os pobres não são necessariamente menos desapegados do que os ricos. Ao que parece, o importante é termos consciência de que todas as coisas que consideramos como nossas, na verdade, pertencem a Deus, tendo sido colocadas à nossa disposição pela generosidade do Pai.[5] O dinheiro e os bens materiais são energia em forma concreta. A energia financeira, assim como a energia do poder podem ser usadas tanto de forma egoísta como altruísta. Como a maior parte dos homens do mundo são fracos e apegados às coisas materiais, Jesus, reiterando a sabedoria milenar, disse que é difícil o rico entrar no Reino dos Céus. É por isso, também, que o desenvolvimento do poder, seja ele secular ou oculto, é tido como extremamente perigoso para quem procura trilhar o caminho espiritual. Nas etapas iniciais do caminho, enquanto o devoto ainda não desenvolveu suficientemente seu caráter, o melhor será evitar esses tipos de tentação. Porém, chegará o dia em que o devoto, agora um discípulo avançado, terá a missão de atuar no mundo como um canal da Providência Divina, devendo administrar de forma altruísta e sábia tanto a riqueza como o poder. Nesse particular, vale lembrar que alguns dos discípulos de Jesus eram homens de posses, como seu irmão José de Arimatéia, Mateus, Nicodemos (também conhecido como Bartolomeu) e os irmãos: Lázaro (outro nome para João, o discípulo que Jesus amava), Tiago, Marta e Maria Madalena. Assim, não são as coisas do mundo material, per se, que prejudicam a alma, mas sim o desejo e o apego que condicionam o indivíduo a buscá-las para seu benefício próprio. Vencido o desejo e alcançado o estado de desapego, o indivíduo passa a considerar tudo como passageiro, inclusive seu próprio corpo, colocado a sua disposição para servir aos objetivos maiores da vida. Esse é o estado último da renúncia, o estado de desapego expresso na passagem: "Quem ama a sua vida a perde e quem odeia a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna" (Jo 12:25). Com isso, Jesus queria dizer que, o homem que está centrado na personalidade, apegando-se a ela, está fadado a perdê-la com a morte do corpo. Porém, o homem que está centrado em sua alma, desdenhando a vida mundana, continuará consciente de estar vivo mesmo após a morte do corpo físico. A renúncia aos prazeres normais da vida diária de interação com as coisas e as pessoas do mundo não expressa, contudo, a verdadeira espiritualidade. Na maioria dos casos é simplesmente uma fuga, um pequeno sacrifício que essas pessoas fazem para evitar o que mais temem, que é encarar e lidar com seus aspectos sombrios. A culpa por esses últimos é incessantemente expiada por autoprivações que supostamente se constituem portas para o céu. Nenhuma renúncia, por mais penosa que seja, extinguirá a culpa sentida por quem evita a verdadeira purificação da alma.[6] Algumas práticas religiosas tradicionais podem ser úteis na batalha contra o apego. Num sentido prático, retiros e peregrinações ajudam a quebrar, ainda que temporariamente, nossas rotinas. Quando isso ocorre, temos a possibilidade de conscientizar-nos de que as rotinas interrompidas são apenas condicionamentos, apegos que não fazem parte da essência do nosso ser. E com isso podemos entender que nossos apegos rotineiros não são necessários para a nossa felicidade, ao contrário, são um óbice à nossa elevação espiritual. Por isso, os retiros e as peregrinações são especialmente importantes na promoção do desapego porque oferecem a oportunidade de afastar-nos de toda a parafernália que nos envolve na vida diária, como a mídia e as diversões. O principal propósito dessas coisas parece ser de distrair-nos, mantendo-nos ocupados com as ilusões do mundo exterior e alheios à realidade interior. Nos retiros, a realidade interior tem uma chance de ser resgatada, facilitando nossa reorientação para o real, ao deixarmos para trás as rotinas ilusórias que nos aprisionam à vida mundana. Para o buscador da Verdade, a meta da peregrinação não é Roma, Jerusalém nem Meca, mas o santuário interior escondido no coração, objeto também dos retiros. Nas peregrinações e retiros, vivendo uma vida simples e frugal, livre das distrações do mundo e com o coração sintonizado com o alto ("pois onde está o teu tesouro aí estará também o teu coração" - Mt 6:21), teremos oportunidade de despojar-nos dos apegos e condicionamentos e voltarmos a atenção inteiramente para Deus. Para o homem moderno, assediado por mil demandas familiares, profissionais e de entretenimentos, o maior sacrifício ou renúncia nessas ocasiões é o tempo dedicado ao retiro ou peregrinação.[7] Jesus legou esse ensinamento aos buscadores de todos os tempos, de forma velada, na passagem sobre o óbolo da viuva (Lc 21:1-4). Ao ver uma viuva pobre oferecer duas moedinhas para o Tesouro do Templo, Jesus observou a seus discípulos que ela havia contribuído muito mais do que os outros, inclusive os ricos que ofertavam grandes quantias, porque estes davam do que lhes sobrava, enquanto ela havia oferecido tudo o que possuía para viver. A viuva representa o verdadeiro devoto e as duas moedinhas a totalidade da natureza humana, ou seja, o corpo e a alma. Aquele que realmente ama a Deus sente que deve ofertar ao Pai celestial todo o seu tesouro - não as coisas terrenas que são supérfluas, mas sim o que temos de mais precioso nessa vida, o nosso corpo e nossa alma.[8] Essa é a renúncia que abre as portas do Reino de Deus. Enquanto o homem está orientado para as coisas do mundo, toda renúncia é tida como penosa, representando um sacrifício. Etimologicamente, a palavra ‘sacrifício' vem do latim e significa tornar sagrado, oferecer algo à divindade. Assim, podemos tornar nossa vida sagrada, sacrificando todas as nossas ações. Como as nossas intenções são mais importantes ainda que nossos atos, podemos tornar sagrada a nossa vida diária, sem efetuar grandes mudanças em nossas rotinas, simplesmente oferecendo ou dedicando cada ação à Deus.[9] Devemos estar sempre atentos às nossas intenções porque Deus está no âmago de nosso ser e "julga as disposições e as intenções do coração. E não há criatura oculta à sua presença. Tudo está nu e descoberto aos olhos daquele a quem devemos prestar contas" (Hb 4:12-13). O sacrifício que contribui para o crescimento da alma é aquele que envolve a escolha deliberada entre um bem menor e um bem maior, sendo o menor sacrificado pelo maior. Assim, sacrificamos o prazer de vários alimentos e iguarias que engordam pelo bem maior da silhueta e da saúde; o atleta sacrifica o descanso preguiçoso pelo cansaço estimulante dos exercícios que o manterão em forma; o estudante sacrifica inúmeras horas de lazer para estudar com afinco para poder vencer na vida. Todos esses exemplos indicam que o sacrifício é, em última análise, uma transmutação da força. O prazer do paladar é transmutado em prazer da estética e da saúde, o prazer do descanso em prazer do condicionamento físico, o prazer do lazer em satisfação pelo crescimento profissional. Essa transmutação era o segredo dos alquimistas, que buscavam transmutar o chumbo da personalidade em ouro da natureza espiritual. Nesse sentido vale lembrar que a questão dos méritos relativos da ação e da não-ação foi examinada extensivamente na obra Bhagavad Gita: "A renúncia às ações e o desempenho desinteressado das ações de acordo com a Yoga, ambos conduzem à suprema bem-aventurança; mas, dos dois, melhor é o desempenho desinteressado que a renúncia à ação."[10] O verdadeiro devoto deveria meditar no silêncio de seu coração sobre as implicações das palavras de Jesus sobre a renúncia: "Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas o que perder a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. De fato, que aproveitará ao homem se ganhar o mundo inteiro mas arruinar a sua vida? Ou que poderá o homem dar em troca de sua vida?" (Mt 16:24-26).
[1] The Philokakia, op.cit., Vol. I, pg. 29-93. [2] João da Cruz, Obras Completas, op. cit. [3] R.B. Blakney, Meister Eckhart, a Modern Translation. Sermão ‘Bem-aventurados os pobres' (N.Y.: 1941), pg. 231, citado por Thomas Merton em Zen e as Aves de Rapina (S.P.: Cultrix), pg. 39. [4] "O motivo dos teus descontentamentos e freqüentes atribulações é que não morreste ainda, perfeitamente, para ti mesmo, nem te desapegaste das coisas terrenas." Imitação de Cristo, op.cit., pg. 112 [5] Renúncia, equilíbrio e discernimento são interdependentes: "O corpo deve ser alimentado, vestido e abrigado. A menos que dotado de poderes sobrenaturais, o discípulo deve antes de tudo garantir essas necessidades para a continuação da vida, mesmo se reduzidas ao mais simples mínimo. A lei oculta tem sido sempre que a renúncia, nascida da compreensão da realidade espiritual, deve achar expressão em todos os hábitos e nos aspectos visíveis da vida diária do discípulo. Então, as posses pessoais, as roupas e as finanças serão mantidas num mínimo sensato, sendo o discernimento empregado sempre em obediência a essa regra." Geoffrey Hodson, A vida do Cristo do Nascimento a Ascensão, op.cit., pg. 184. [6] O Caminho da Auto-Transformação, op.cit., pg. 31. [7] "A peregrinação pode ser considerada como um misticismo extrovertido, assim como o misticismo é uma peregrinação introvertida. O peregrino atravessa fisicamente um caminho místico; o místico parte numa peregrinação interior." Victor e Edith Turner, Image and Pilgrimage in Christian Culture (N.Y.: Columbia University Press, 1978), pg. 33-34. [8] Vide, Thomas Keating, Crisis of Faith, Crisis of Love (N.Y.: Continuum, 1998), pg. 77-78. [9] Vide, Annie Besant, O Cristianismo Esotérico (S.P.: Pensamento), pg. 129-30. [10] O Cântico do Senhor (Bhagavad Gita), tradução e comentários de Murillo Nunes de Azevedo, (S.P.: Cultrix, 1981), pg. 65. 19 - DISCERNIMENTO O desenvolvimento do discernimento é considerado como fundamental por todas as tradições. Na tradição cristã, como mantida nos mosteiros orientais, considera-se de suma importância o desenvolvimento do discernimento, para que o praticante possa distinguir entre as coisas certas e erradas ou, em termos mais esotéricos, as coisas do mundo real, que são eternas e muitas vezes invisíveis, das coisas deste mundo, que são passageiras e ilusórias. Como dizia Paulo: "Não olhamos para as coisas que se vêem, mas para as que não se vêem, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno" (2 Co 4:18). Jesus, usando linguagem parabólica, fustigou seus ouvintes pela falta de discernimento nas coisas importantes da vida interior, em contraste com a percepção acertada que tinham dos fatos externos: "Hipócritas, sabeis discernir o aspecto da terra e do céu; e por que não discernis o tempo presente?" (Lc 12:56). É dito em Aos Pés do Mestre[1] que o discernimento é a primeira qualidade que deve ser desenvolvida no Caminho, pois será necessária a cada passo até a última etapa da iluminação. Ainda que na teoria pareça fácil efetuar a escolha entre o certo e o errado, na prática ela não é tão fácil, porque a mente do homem do mundo está condicionada por toda uma vida, ou melhor, muitas vidas, voltadas para a gratificação dos sentidos e a busca do prazer, poder e posição social. Como a escolha é efetuada pela mente, os conteúdos mentais, principalmente as imagens e condicionamentos do inconsciente, passam a colorir a mente como se fossem lentes através das quais o mundo é percebido pela pessoa. Portanto, o discernimento tem que se tornar um processo consciente comandado pela razão, para que as escolhas não sejam automáticas, comandadas pela memória do passado, que refletem os velhos condicionamentos, geralmente de natureza material.[2] A vontade própria do corpo físico, que prefere o descanso ao trabalho, a vontade do corpo astral, que prefere as emoções fortes das paixões em vez das vibrações mais sutis do coração, a vontade do corpo mental concreto, que medra no orgulho e no egoísmo, são as vozes da natureza inferior que devem ser dominadas pela vontade da natureza superior que discerne entre o certo e o errado e escolhe sempre o que ajuda na evolução da alma. Por isso foi dito: "Discerni tudo e ficai com o que é bom" (1 Ts 5:21). A escolha entre o real e o ilusório, ainda que inicialmente difícil, é somente a primeira etapa do exercício do discernimento. Tão logo haja o despertar espiritual, esses dois pólos tornam-se cada vez mais claros para o aspirante. A nova meta do discernimento passa a ser, então, o estabelecimento de prioridades: escolher dentre duas coisas boas a que for mais importante. Vale mencionar a passagem bíblica em que Marta, ocupada com os afazeres da casa, reclama com Jesus que sua irmã Maria Madalena, em vez de ajudá-la, ficava aos pés do Mestre ouvindo atentamente suas palavras. Jesus, então, disse: "Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada" (Lc 10:41-42). Essa questão é abordada em Aos Pés do Mestre com a linguagem singela e direta que lhe é peculiar: "Precisas distinguir não somente o útil do inútil, mas ainda o mais útil do menos útil. Alimentar os pobres é uma boa obra, nobre e útil; porém, alimentar-lhes as almas é ainda mais nobre e mais útil."[3] O discernimento deve ser exercitado nas questões mais fundamentais da vida. Para o buscador leigo, ao contrário dos monges protegidos no claustro, as práticas espirituais oferecem algumas dificuldades iniciais. Confrontado com as justas demandas familiares, a pressão da vida profissional no mundo moderno e os atrativos da vida de lazer após um dia cansativo, o buscador pode ter dificuldade em encontrar tempo e energia suficiente para as práticas espirituais em sua rotina diária. São nessas ocasiões que devemos nos lembrar das palavras de Jesus: "Onde está o teu tesouro aí estará também teu coração" (Mt 6:21). Para o verdadeiro buscador não deve haver dúvida quanto à sua prioridade máxima. Se ele for sincero em seus objetivos será sempre possível dedicar uma ou duas horas por dia, ainda que distribuídas em dois ou mais períodos ao longo do dia, para fazer aquilo que mais alegra seu coração, ou seja, aproximar-se cada vez mais do Pai. Por outro lado, a verdadeira vida espiritual requer a devida atenção a nossos deveres, sejam eles profissionais ou familiares, bem como ao cuidado de nosso corpo e mente. Os compromissos assumidos devem ser devidamente cumpridos como parte da vida espiritual. Porém, sempre haverá tempo para as práticas espirituais quando houver interesse, não importa quão ocupados estejamos. Isto pode ser facilmente verificado no caso de pessoas extremamente ocupadas que, por exemplo, quando sofrem um ataque de coração, mudam sua rotina por recomendação médica e passam a dedicar uma ou duas horas por dia ao cuidado da saúde. Devemos encarar os exercícios espirituais como essenciais para a saúde de nossa alma. Ademais, a parte mais importante dos exercícios espirituais é a intenção. Podemos manter praticamente a mesma rotina de vida, tornando-a espiritual, quando dedicamos tudo o que fazemos a Deus. O objetivo último do discernimento é colocar a natureza superior do homem no comando de seu ser, revertendo o hábito estabelecido ao longo de centenas de encarnações de permitir que a natureza inferior decida em função de seus interesses próprios e venha a colher, como sói acontecer, os frutos amargos que resultam de suas escolhas insensatas. Por isso foi dito: "Que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação" (1 Cor 11:28-29). Na etapa atual do desenvolvimento da maior parte das pessoas que têm suas vidas ainda governadas pela personalidade, mas que já estão desejosas de seguir o caminho espiritual, as difíceis escolhas que se apresentam a cada passo podem levar os indivíduos a achar que o melhor é não agir. A indefinição causada pela dúvida entre ação e inação só pode ser resolvida pelo discernimento, que é recomendado desde tempos imemoriais. No capítulo quinto do Bhagavad Gita encontramos algumas passagens sobre a ioga da renúncia que podem ser úteis ao buscador interessado em desenvolver seu discernimento. "7. Aquele que está purificado, harmonizado pela Yoga, cujo ser é o Ser de todos os seres, embora execute a ação não é por ela afetado. 10. Aquele que age colocando todas as ações no Eterno abandona o apego e não é mais atingido pelo pecado, assim como o lótus não é pelas águas. 16. Quando a ignorância é destruída pela Sabedoria do Eu, a Sabedoria, como o Sol, resplandece revelando a Suprema Verdade."[4] As condições de vida dos buscadores leigos oferecem mais incentivos para o desenvolvimento do discernimento do que as dos monges. Os leigos no mundo moderno estão acostumados a questionar tudo, sendo essa uma atitude favorável para desenvolver o discernimento. As ordens monásticas, principalmente no ocidente, exigem tradicionalmente um voto de obediência de seus membros que deve ser cumprido à risca.[5] O indivíduo que se acostuma a obedecer, a seguir regras tradicionais, a não questionar, a esperar a orientação dos superiores tem naturalmente dificuldade para pensar por conta própria e, portanto, para desenvolver o discernimento. O hábito da obediência inquestionável pode levar a sérias implicações, tanto para o indivíduo que se submete ao domínio de outros, como para a sociedade, que acaba arcando com as conseqüências do comportamento de robôs humanos. O discernimento é a grande válvula de segurança da sociedade moderna no processo de busca da verdade, pois impede o domínio de uma mente sobre outra, evitando assim a tirania. Se por um lado a obediência cega às ordens dos superiores hierárquicos é extremamente perigosa para a vida espiritual, a obediência também pode ser entendida de uma forma mais abrangente, como o atendimento à vontade de Deus percebida pelo coração do buscador. É nesse sentido que místicos entendem a obediência como importante, pois, tendo vislumbrado o Reino dos Céus, percebido a vontade do Pai, só podem desejar de todo coração obedecer às mínimas insinuações que lhes sejam feitas em suas visões, como ordens do sábio e compassivo Salvador. O discernimento é imprescindível até mesmo nas atitudes compassivas de tolerância. Quando somos tolerantes com os outros, não precisamos deixar que eles se imponham a nós. Devemos avaliar as circunstâncias e prováveis conseqüências de nossos atos para, então, decidirmos com prudência até que ponto podemos ceder sem causar prejuízos a nós e ao próximo. Essa avaliação requer muito discernimento. Clemente de Alexandria, o grande sábio da Igreja Primitiva disse: "A consciência é o melhor guia para determinar precisamente se deve ser dito ‘sim' ou ‘não'. A fundação sólida da consciência é uma vida reta juntamente com o aprendizado apropriado,"[6] ou seja o discernimento. O perfeito discernimento só pode ocorrer quando o indivíduo renuncia o egoísmo e age movido pelo dever e orientado pela Sabedoria do Eu superior, buscando sempre fazer a coisa certa sem apegar-se aos resultados da ação.
[1] Krishnamurti, Aos Pés do Mestre (S.P.: Editora Pensamento, 1987) [2] Talvez por isso encontramos em Imitação de Cristo: "Não se deve dar crédito a qualquer palavra ou impressão; antes, com prudência e vagar, pondere-se cada coisa, diante de Deus." Op.cit., pg. 23. [3] Aos Pés do Mestre, op.cit., pg. 21. [4] O Cântico do Senhor (Bhagavad Gita), op.cit., pg. 65-70. [5] "Grande coisa é viver na obediência, às ordens de um superior e não ser senhor de si." Imitação de Cristo, op.cit., pg. 33. [6] Clemente de Alexandria, Stromateis (Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 1991), pg. 26.
20 - ESTUDO Apesar da verdadeira gnosis ser obtida em meditação profunda, pois é a percepção direta da verdade, a dedicação ao estudo é enfatizada em todas as tradições religiosas, inclusive no cristianismo. Para algumas ordens monásticas, por quase quinze séculos, até o final da Idade Média, o estudo era a primeira etapa de uma prática espiritual conhecida como lectio divina, leitura divina, que podia levar à contemplação. Os monges liam ou, mais freqüentemente, ouviam a leitura de passagens da escritura, procurando envolver a mente e o corpo no exercício, por meio da repetição labial das palavras. A seguir meditavam sobre o significado mais profundo do texto e, quando seu coração fosse tocado por algum aspecto da Graça Divina, passavam para a etapa da ‘oração afetiva'. Com a aquietação dessas reflexões e movimentos de devoção, o monge era levado ao que era chamado de estado de ‘descanso na presença de Deus,' sendo esse estado conhecido também como contemplação.[1] A busca do conhecimento é uma das práticas da ioga oriental, conhecida como jnana ioga. O termo sânscrito jnana abarca tanto o conceito de conhecimento como de sabedoria, eqüivalendo ao termo grego gnosis tão utilizado em nossa tradição. Nas palavras de um estudioso da matéria: "O que é conhecido como ‘jnana ioga' trata do saber científico e intelectual relativo às grandes questões concernentes à Vida e àquilo que com a Vida se correlaciona -- os Enigmas do Universo."[2] O estudo de assuntos espirituais tem quatro objetivos principais: facilitar o aprendizado do conhecimento acumulado por outros buscadores, criar uma vibração favorável para a busca interior, desenvolver a mente e favorecer o desenvolvimento da intuição. Ao longo dos séculos, milhares de pesquisadores avançaram as fronteiras do conhecimento humano. Boa parte desse conhecimento ficou registrada em livros, sendo que verdadeiros tesouros de sabedoria contidos em manuscritos antigos foram queimados pela ignorância fanática de certas pessoas ou instituições. A Igreja Romana tem um pesado débito para com a humanidade nesse particular, com quase dois milênios de sistemática destruição ou seqüestro de livros e manuscritos que reputava heréticos. Atualmente, porém, a Igreja Romana vem procurando redimir-se nesse particular, tanto por iniciativa de alguns prelados e certas congregações como pela própria hierarquia superior, haja vista as iniciativas ecumênicas dos Concílios Vaticano I e II. No Brasil, por exemplo, foram publicados inúmeros clássicos que por muitos anos permaneceram segregados do público, como por exemplo as obras não-expurgadas de místicos como Teresa de Ávila e João da Cruz, "Prática da Presença de Deus" do Irmão Lourenço", as obras anônimas: "Relatos de um Peregrino Russo," "A Nuvem do Não-Saber," e tantos outros tesouros escondidos de nossa tradição. O estudo do acervo acumulado pelos pesquisadores de todos os tempos permite ao buscador inteirar-se, de forma relativamente rápida, do estado atual do conhecimento sobre o cristianismo esotérico. No caso dos que estão procurando trilhar o Caminho da Perfeição, a literatura existente possibilita razoavelmente bem ao aspirante o conhecimento da experiência e das práticas de outros buscadores que conseguiram superar as barreiras e entrar não só na via iluminativa, mas em particular na via unitiva. O estudo sério dos livros dos grandes místicos de nossa tradição, como Teresa de Ávila, João da Cruz, Meister Ekhart, Tauler, Suso, Jean de Ruysbroeck, Jacob Boehme, e tantos outros, permite que o verdadeiro buscador se transporte pela imaginação ao ambiente desses místicos e, assim, procure sintonizar-se com a metodologia utilizada e as conquistas obtidas por esses grandes representantes da tradição cristã. Numa alegoria sobre a importância do estudo na tradição cabalista, um erudito escreve: "A casca, a clara e a gema formam um ovo perfeito. A casca protege a clara e a gema, e a gema alimenta mais do que a clara; e quando a clara tiver sumido, a gema, na forma de pássaro emplumado, irrompe através da casca e em breve se eleva sobre o ar. Então, o estático torna-se dinâmico; o material, o espiritual. Se a casca é o princípio exotérico e a gema o esotérico, o que então é a clara? A clara é o alimento da segunda, a sabedoria acumulada do mundo centrando-se ao redor do mistério do crescimento que cada indivíduo deve absorver antes que possa quebrar a casca. A transmutação, por intermédio da gema, da clara na avezinha é o segredo dos segredos de toda a filosofia cabalística."[3] Mas a leitura não é unicamente uma fonte de conhecimento. Todo indivíduo que se debruça sobre uma obra séria a respeito de assuntos espirituais sabe, por experiência própria, que, durante o período de estudo, cria-se uma vibração sutil que tende a elevar os pensamentos para o alto. Como a vida espiritual é uma questão de mudança vibratória, em que a atenção do aspirante é redirecionada das vibrações grosseiras para as vibrações elevadas, o estudo presta-se maravilhosamente bem a esse propósito. Isso explica por que Clemente de Alexandria dizia que o conhecimento revelado não é para todos, devendo ser adquirido com esforço pelo buscador: "As maiores dádivas são acumuladas para aqueles que pela providência de Deus estão prontos para elas - a fundação da fé, entusiasmo pela reta conduta, um anseio pela verdade, um impulso para a investigação, são os indícios do conhecimento revelado. Numa palavra, ele concede o ponto de partida da salvação. Aqueles que são genuinamente nutridos pelas palavras da verdade tomam o viático da vida eterna e acham seu caminho para o céu."[4] Várias ordens religiosas e monásticas recomendam que seus membros reservem algum tempo, todos os dias, para o estudo. Essa prática parece criar novos condicionamentos, proporcionando uma profunda satisfação aos que se dedicam regularmente à leitura. Muitos instrutores sugerem que os buscadores espirituais leiam antes de dormir pelo menos uma ou duas páginas de um livro de cabeceira, para criar uma vibração apropriada. Essa vibração é capaz de estabelecer a tônica das experiências da alma durante o sono, quando esta deixa para trás sua pesada vestimenta de carne e pode voar mais alto em seu envoltório astro-mental. Está implícito que no "Caminho da Perfeição" o homem deve desenvolver ao máximo todo o seu potencial. É sabido que o potencial da mente humana é bastante subtilizado. Os cientistas estimam que o homem comum usa menos de 10% da capacidade de seu cérebro, a contraparte material da mente. Portanto, o exercício intelectual inerente ao estudo contribui para o progressivo desenvolvimento da mente, tanto concreta como abstrata. Esse desenvolvimento será extremamente útil, mais tarde, quando o contato interior for estabelecido, capacitando o indivíduo a interpretar as instruções simbólicas que vier a receber. O estudo também pode favorecer o desenvolvimento da intuição. Muitos estudiosos já tiveram a experiência de insights intuitivos durante o estudo dos assuntos em que estavam profundamente empenhados. Essas percepções são bastante comuns a cientistas, pesquisadores, filósofos e mesmos poetas e artistas, sendo o resultado do mergulho profundo nas questões a que se dedicam, pois quando a mente está totalmente concentrada, num determinado momento consegue ser transcendida alcançando-se, assim, o plano intuitivo da verdade pura. O estudo é especialmente útil para o desenvolvimento da mente quando é efetuado com espírito crítico. O estudioso deve procurar pensar com o autor, submetendo os argumentos à lógica. Mais importante ainda é analisar as premissas sobre as quais a tese está fundamentada. Quando esses critérios de análise crítica são seguidos, o estudante estará invariavelmente desenvolvendo sua capacidade cerebral e mental com o estudo. Ademais, estará passando o material estudado pelo crivo da razão, podendo, assim, encampar e assumir como seu aquilo que passar no teste. Nas recomendações de Paulo encontramos: "Discerni tudo e ficai com o que é bom" (1 Ts 5:21). Esse era, também, o procedimento recomendado pelo Buda para todos os que lessem as escrituras sagradas e ouvissem seus ensinamentos. O discípulo que almeja entrar no círculo interno de Jesus, deve procurar estudar também o esoterismo, porque dessa forma estará abrindo novas perspectivas para o entendimento de sua natureza interior e do processo evolutivo. O estudo do esoterismo, ou ocultismo como é conhecido por muitos, tem como escopo o estudo das energias e das forças, das suas fontes e dos seus efeitos, à medida que elas agem através de diferentes canais ou agentes dispensadores, produzindo mudanças em consciência e, portanto, na forma.[5] O homem é o criador. Forças e energias agem através do mecanismo humano, quer ele saiba ou não, quer faça um esforço para dirigi-las ou não. Efeitos são produzidos, alguns bons e outros maus, em sua vida, nos seus veículos e no seu ambiente. O estudo dessas forças e da forma de orientá-las para propósitos construtivos terá que ser empreendido pelo discípulo quando ele estiver devidamente preparado. Uma das fontes do esoterismo cristão é o Apocalipse atribuído a João. Uma passagem a respeito do livro da vida parece convidar-nos a partilhar da experiência nele relatada: "A voz do céu que eu tinha ouvido tornou então a falar-me: ‘Vai, toma o livrinho aberto da mão do Anjo que está em pé sobre o mar e sobre a terra'. Fui, pois, ao Anjo e lhe pedi que me entregasse o livrinho. Ele então me disse: ‘Toma-o e devora-o; ele te amargará o estômago, mas em tua boca será doce como mel'. Tomei o livrinho da mão do Anjo e o devorei: na boca era doce como mel; quando o engoli, porém, meu estômago se tornou amargo" (Ap 10:8-10).
[1] Vide Thomas Keating, Open Mind Open Heart (N.Y.: The Continuum Publishing Co., 1997), pg. 20. [2] Yogue Ramacharaca, Jnana-Yoga. Yoga da Sabedoria (S.P.: Editora Pensamento, 1974), pg. 9. [3] J.F.C. Fuller, The Secret Wisdom of the Qabalah, citado por G. Hodson em The Hidden Wisdom in the Holy Bible (Adyar, Índia, The Theosophical Publishing House, 1963), vol. I, pg. xiv. [4] Stromateis, op.cit., pg. 25. [5] Outra definição de ocultismo é sugerida por Annie Besant em Ocultismo, semi-ocultismo e pseudo-ocultismo (Brasília: Editora Teosófica, 1996), pg. 15; para ela ocultismo é "o estudo de todas as energias que, advindas do centro espiritual, atuam nos mundos ao nosso redor." 21 - ORAÇÃO E MEDITAÇÃO A oração sempre foi a base de toda a prática religiosa e a meditação, a fundação da vida espiritual. O homem como ser reflexivo pode voltar sua mente para explorar sua própria natureza e para comunicar-se com o que transcende a si mesmo. Daí as práticas da oração e da meditação, sobre as quais a literatura de nossa tradição está repleta de referências. Alguns autores parecem não distinguir entre oração e meditação, usando um só termo para abranger os dois conceitos, como Teresa de Ávila. Poderíamos dizer, de forma simplificada, que oração é uma prática para falar com Deus, enquanto a meditação é a prática em que procuramos ouvir a Deus. Se adotarmos esses parâmetros, a oração é de longe a prática mais usual das pessoas religiosas. Deve ficar claro para todo devoto que Deus não precisa de adoração, de louvor e de ação de graças. Ao contrário, é o homem que precisa dos benefícios associados a essas práticas. Esse entendimento deve orientar sua vida interior e seu relacionamento com Deus. Teresa de Ávila, mística de grande realização espiritual, escreveu sobre os tipos de oração em seu clássico livro Castelo Interior ou Moradas.[1] Ela sugere que a mais elementar é a oração mecânica repetitiva, como habitualmente se reza o terço entre os católicos. Geralmente, os devotos que rezam o terço ou os Pai-Nossos e Ave-Marias impostos como penitências por seus confessores repetem as palavras destas orações apenas com os lábios, enquanto a mente está distante entretida em outros assuntos mais prosaicos. Obviamente, o efeito espiritual de tal prática é bastante reduzido. Nesse sentido Jesus nos instruiu: "Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes" (Mt 6:7-8). Por outro lado, uma oração como o Pai Nosso, quando proferida lentamente pelo devoto, procurando vivenciar em seu coração o significado de cada palavra e de cada idéia, torna-se um poderoso instrumento de elevação espiritual.[2] O Pai Nosso, por exemplo, pode levar-nos às alturas espirituais quando recitado em atitude meditativa.[3] No entanto, não basta a enunciação oral ou mental das palavras da oração. O mais importante é nossa intenção e prática de vida relacionada com as idéias contidas na oração. A paráfrase anônima a seguir exemplifica esse conceito: "Se em minha vida não ajo como filho de Deus, fechando meu coração ao amor. Será inútil dizer: PAI NOSSO. Se os meus valores são representados pelos bens da terra. Será inútil dizer: QUE ESTAIS NO CÉU. Se penso apenas em ser cristão por medo, superstição e comodismo. Será inútil dizer: SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME. Se acho tão sedutora a vida aqui, cheia de supérfluos e futilidades. Será inútil dizer: VENHA A NÓS O VOSSO REINO. Se no fundo o que eu quero mesmo é que todos os meus desejos se realizem. Será inútil dizer: SEJA FEITA A VOSSA VONTADE. Se prefiro acumular riquezas, desprezando meus irmãos que passam fome. Será inútil dizer: O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE. Se não me importo em ferir, injustiçar, oprimir e magoar aos que atravessam o meu caminho. Será inútil dizer: PERDOAI AS NOSSAS OFENSAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS A QUEM NOS TEM OFENDIDO. Se escolho sempre o caminho mais fácil, que nem sempre é o caminho do Cristo. Será inútil dizer: E NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO. Se por minha vontade procuro os prazeres materiais e tudo o que é proibido me seduz. Será inútil dizer: LIVRAI-NOS DO MAL... Se sabendo que sou assim, continuo me omitindo e nada faço para me modificar. Será inútil dizer: AMÉM." Outra oração muito útil é aquela atribuída a São Francisco, que invoca os mais altos ideais da vida espiritual: "Senhor, fazei de mim instrumento de Tua paz; Onde houver ódio que eu leve o amor; Onde houver desespero que eu leve o perdão; Onde houver discórdia que eu leve a união; Onde houver tristeza que eu leve a alegria. Ó Mestre! Fazei que eu procure mais: Consolar que ser consolado, Compreender que ser compreendido, Amar que ser amado. Porque é dando que se recebe, É perdoando que se é perdoado, E é morrendo que nascemos para a vida eterna!" De acordo com Teresa de Ávila, o próximo passo na escala espiritual é a oração mental, o grande sustentáculo dos devotos e buscadores da verdade por boa parte do Caminho. Nessa modalidade de oração a pessoa conversa com Deus, abrindo seu coração para suas necessidades e anseios. É através da oração mental que buscamos a ajuda de Deus, confiantes nas palavras de Jesus: "Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto; pois todo o que pede recebe; o que busca acha e ao que bate se lhe abrirá" (Mt 7:7-8). Apesar de Deus estar no âmago de nosso ser e conhecer todas as nossas necessidades antes mesmo que possamos enunciá-las, existe uma lei espiritual pela qual devemos nos engajar em tudo aquilo que aspiramos, inclusive por meio da invocação do auxílio de Deus. O devoto ainda centrado em sua personalidade e apegado às coisas do mundo tende a voltar-se para Deus como a instância última de suprimento de suas necessidades e anseios materiais e sentimentais. Quando as necessidades e aspirações são legítimas ou altruístas e o pedido é suficientemente fervoroso, elas poderão ser atendidas de forma tal que venhamos a reconhecer a dádiva Divina. Muitas vezes, porém, os pedidos são direcionados para coisas mundanas, que Deus, em sua onisciência, sabe que não atendem aos nossos verdadeiros interesses. Nesses casos, se os pedidos forem insistentes, poderemos conseguir o que pedimos, mas não da forma como queríamos ou no momento que esperávamos, mas da forma e na hora que for mais útil para o nosso aprendizado espiritual. Com freqüência, queremos coisas que vão contra o nosso verdadeiro interesse, por isso adverte-nos um monge católico espiritualmente maduro: "A oração não é um meio para fazermos de Deus o escravo de nossas ambições, mas para fazer de nós os servos de Seu amor."[4] Quando, porém, pedimos aquilo que está em conformidade com a vontade de Deus, nossos pedidos adquirem uma força inusitada, pois entramos em sintonia com o Plano Divino. "A oração fervorosa do justo tem grande poder" (Tg 5:16). Por isso, devemos pedir ajuda a Deus para conhecermos nossos defeitos e negatividades, que são as correntes que nos aprisionam neste mundo. O passo seguinte será pedirmos Sua ajuda para superarmos esses entraves ao nosso progresso espiritual. Se pedimos com fervor, teremos, com certeza, a Sua ajuda, que poderá se manifestar de muitas maneiras ou formas inusitadas, até mesmo por meio de livros ou conferências ou de pessoas que, de forma amigável ou não, apontam nossos defeitos ou através de sonhos simbólicos ou inspirações durante a meditação, etc. As palavras de um conhecido instrutor espiritual sobre a oração são especialmente pertinentes neste particular: "A prece não deve ser, como é para tantos religiosos não esclarecidos, nada mais do que um pedido para que seja concedido algo em troca de nada, um pedido de benefícios pessoais imerecidos e pelos quais não se trabalhou. Ela deve ser, primeiro, uma confissão da dificuldade ou mesmo do malogro do ego em encontrar corretamente o seu próprio caminho através da sombria floresta da vida; segundo, uma confissão da fraqueza ou mesmo da incapacidade do ego em enfrentar os obstáculos morais e mentais em seu caminho; terceiro, um pedido de ajuda para o esforço do próprio ego em busca da auto-iluminação e auto-aperfeiçoamento; quarto, uma resolução de lutar até o fim para abandonar os desejos inferiores e superar as emoções grosseiras que erguem tempestades de areia entre o aspirante e seu eu mais elevado; e, quinto, uma deliberada auto-submissão do ego, ao admitir a necessidade imperiosa de um poder mais alto."[5] A verdadeira oração, quando expressa os anseios do coração do devoto, tende a criar uma estado místico, uma atmosfera de quietude e paz, que traz conforto e alento à vida interior. Esse estado interior deve ser considerado como uma bênção. Poderíamos dizer que o teste da eficácia da oração do coração é a paz interior que ela confere. No período de oração desligamo-nos de nossas preocupações e interesses mundanos e voltamos nosso coração para o Alto, recebendo nutrição para a alma, o pão espiritual de cada dia que o Supremo Consolador está sempre pronto a nos conceder.[6] Esse estado de paz interior deve ser compartilhado com os outros, mesmo com aqueles que procuram nos fazer mal, como nos ensinou Jesus: "Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem" (Mt 5:44). O buscador dá um passo considerável no Caminho quando introduz a meditação em sua prática espiritual. A meditação é um processo que visa promover a aquietação da mente, possibilitando uma progressiva penetração nas camadas mais profundas da consciência. A prática da meditação é bem mais simples do que as pessoas pensam. Ao invés das práticas usuais dos iogues orientais, que podem passar horas imóveis na posição de lótus (sentados no chão com as pernas cruzadas), nós ocidentais podemos conseguir os mesmos estados de consciência sentados numa cadeira, com os pés no chão e com a espinha ereta. Existem vários manuais de meditação que podem orientar os primeiros passos daqueles que desejam iniciar essa prática imprescindível da vida espiritual. [7] Dentre os diferentes tipos de meditação, algumas podem ser consideradas como práticas de aquietação da mente, em que o meditador procura concentrar-se na sua respiração ou observar de forma desapegada a passagem dos pensamentos. A prática mais comum é a meditação analítica, também chamada de meditação ‘com semente', em que o meditador procura concentrar seus pensamentos analíticos exclusivamente no tema escolhido (a semente). Finalmente, a prática mais elevada é a meditação ‘sem semente', ou meditação do ‘vazio,' como dizem os budistas, ou contemplação como é chamada na tradição cristã, em que o meditador procura manter sua mente absolutamente serena, para que, livre de pensamentos, ela se torne transparente e capaz de receber a pura luz da percepção direta. A prática contemplativa é uma das etapas mais avançadas do relacionamento com Deus, geralmente precedidas pela oração mental e pela meditação discursiva. A experiência de alguns anos de meditação discursiva é altamente desejável antes do indivíduo tentar a "meditação sem semente." A prática meditativa requer um progressivo controle do corpo, das emoções e, finalmente, dos pensamentos. Essa autodisciplina deve ser desenvolvida gradualmente, sendo a meditação "com semente," focalizada num tema determinado, o caminho natural para a etapa final, a concentração sobre o silêncio ou sobre o vazio, que é a contemplação. O aspirante espiritual, durante boa parte do caminho, faria grande proveito da meditação analítica, usando-a para descobrir as fraquezas e apegos da natureza inferior, que se constituem nos principais obstáculos ao seu progresso. Só podemos progredir na medida em que identificamos nossas fantasias e negatividades. Quando as reconhecemos, podemos, então, reeducar nossa criança interior levando-a a crescer. Essa prática é apresentada no Anexo 1. Os budistas, ao iniciarem suas práticas espirituais, costumam invocar três refúgios, que servem como fontes de força e inspiração. Eles se refugiam no Buda, no dharma e na sangha. O Buda simboliza a fonte da sabedoria e da compaixão; o dharma, o conjunto de ensinamentos que leva a iluminação; e a sangha, a comunidade de praticantes que assegura que esses ensinamentos permaneçam disponíveis a todos os buscadores. O devoto cristão poderia adotar uma prática semelhante, tomando refúgio em Cristo, na Gnosis e na Comunhão dos Santos, os Filhos da Luz. Cristo é a fonte da luz interior, a Gnosis é o conhecimento obtido pela iluminação interior e os Filhos da Luz são os verdadeiros discípulos que se tornam portadores e disseminadores da Luz no tempo e no espaço. De acordo com Teresa de Ávila, a oração mais elevada é a do silêncio. É um processo que visa desenvolver a contemplação. É nesse estado que o místico entra em contanto com outros planos espirituais, chegando a ter visões que muitos interpretam como visões de Deus e, mais tarde, alcança o coroamento de todo seu esforço, a união com Deus. A contemplação eqüivale ao que os orientais descrevem como samadhi, a comunhão consciencial do meditador com o objeto da meditação, que ocorre como um transe em que a dualidade é superada, possibilitando a percepção da Unidade.[8] É esse último tipo de oração que Jesus nos ensinou ao dizer: "Quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora ao teu Pai que está lá, no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará" (Mt 6:6). Em outras palavras, Jesus recomenda que retiremos nossa consciência para a caverna de nosso coração, para a essência de nosso ser, fechemos as portas dos sentidos e da mente, um óbvio paralelo ao recolhimento da quinta etapa do processo de ioga de Patanjali (pratyahara), e permaneçamos em silêncio, sem palavras e pensamentos, criando as condições para que a pura luz de buddhi, a intuição, possa filtrar-se dos planos mais elevados, de onde tudo vê em segredo, atravessando nossa mente totalmente aquietada, para finalmente deixar sua impressão em nosso cérebro, registrando assim o conhecimento superior, a recompensa do Pai, em nossa consciência.
[1] Teresa de Ávila, Castelo Interior ou Moradas (R.J.: Paulus, 1981) [2] O tesouro espiritual que é a Oração do Senhor parece ter sua origem na tradição judaica. Os judeus tinham uma oração antiga conhecida como Kadish que guarda considerável semelhança com o Pai Nosso. De acordo com Webster, a Oração do Senhor pode ser construída quase verbatim do Talmud. Vide The Mystical Christ, op.cit., pg. 135. [3] Vide, por exemplo, a ‘Paráfrase à Oração do Senhor', em São Francisco de Assis. Escritos e biografias de São Francisco de Assis (Petrópolis: Vozes, 1988), pg. 100-102 e E. Norman Pearson, O Pai Nosso à Luz da Teosofia (S.P.: Palas Athena). [4] Pierre-Ives Emery, A Meditação na Escritura, em Mergulho no Absoluto, op.cit., pg. 230. [5] Paul Brunton, Idéias em Perspectiva, op.cit., pg. 219. [6] Ver: The Mystical Christ, op.cit., pg. 139-41. [7] Como livros introdutórios sobre meditação recomendamos: Clara M. Codd, Meditação, sua prática e resultados (Brasília, Editora Teosófica, 1992); Michael J. Eastcott, O Caminho Silencioso (S.P.: Pensamento) e Adelaide Garner, Meditação, um estudo prático (Brasília, Editora Teosófica, 1995). O principal e mais completo livro de meditação continua sendo os Ioga Sutras de Patanjali, que teria sido escrito entre dois mil e quatrocentos a quatro mil anos atrás, segundo alguns autores. Existem versões modernas, com comentários explicativos como a de I.K. Taimni, A Ciência da Ioga (Brasília, Editora Teosófica, 1996) e a de Rohit Mehta, Yoga. A arte da integração (Brasília: Editora Teosófica, 1995). [8] Vide J. Hermógenes Andrade, A Meditação no Hinduísmo, em Mergulho no Absoluto, op.cit., pg. 52. A contemplação Segundo alguns autores, o retorno à pratica da contemplação no cristianismo pode ser imputado ao Abade Saudreau, que em 1896 editou sua obra Os Graus da Vida Espiritual, baseada principalmente nos livros não expurgados de João da Cruz. Em suas obras, João da Cruz ensinava que a contemplação começa com ‘a noite do sentido', que é o período de transição entre as atividades e percepções mentais do indivíduo e a inspiração espiritual direta, durante a qual se tornam quase impossíveis os pensamentos comuns da vida devocional. A ‘noite da percepção' é um processo espiritual de amadurecimento, em que a emotividade e sentimentalidade da vida devocional começam a ser colocados de lado, em favor de um relacionamento mais maduro com Deus. Tudo o que tem que ser feito nesse estado é permanecer em repouso, procurando não pensar, entregando-se à Graça de Deus.[1] Na obra A Chama Viva do Amor,[2] João da Cruz descreve detalhadamente a transição da devoção sentimental para a intimidade com Deus. Quando a alma começa a ter dificuldade para proceder a análises discursivas e a atos de volição devocional, essa pode ser a indicação de que um novo relacionamento pode ser encetado com o Pai. Para isso devemos abandonar as antigas práticas e entregarmo-nos a Deus sem demandas e em silêncio. Começa então um período de descanso em Deus, em que nada parece acontecer. A alma se entrega a Deus, sentindo uma profunda paz. Esse período, que alguns consideram de uma certa aridez espiritual, pode durar algumas semanas ou vários meses, mas se a verdadeira renúncia for feita, com total entrega e fé na graça divina, mais cedo ou mais tarde o buscador encontrará o Bem Amado, não como imaginava que Ele fosse, mas como Ele é na realidade. O estudo das obras dos grandes místicos será de grande utilidade para todo aquele que estiver buscando o aprofundamento da vida espiritual. Esses autores, tendo penetrado na Luz, deleitando-se na bem-aventurança da união com Deus, experimentado o inexpressável, prestaram um grande serviço à humanidade ao tentar divulgar o que nos espera nos caminhos rarefeitos das alturas espirituais. A linguagem deles é eminentemente mística e poética, fadada a tocar o coração de todo buscador. Nas palavras de Richard Rolle, grande místico cristão: "A contemplação é um maravilhoso deleite do amor de Deus, e essa alegria é uma forma de venerar a Deus que não pode ser descrita. E essa incrível veneração ocorre dentro da alma, e em virtude da transbordante alegria e doçura, ela sobe à boca e, então, o coração e a voz combinam-se em uníssono, e corpo e alma comprazem-se no Deus Vivo."[3] Outra obra de grande impacto no misticismo dos últimos seis séculos, conhecida de Teresa de Ávila e João da Cruz, tem o título provocador de A Nuvem do Não-Saber. É obra anônima de autor inglês, provavelmente um monge, escrita no século XIV. O autor procura transmitir sua experiência prática de que o conhecimento de Deus não pode ser obtido por intermédio de idéias e da reflexão intelectual. Sabendo que os leitores da época estavam mais interessados justamente nas práticas intelectuais, o autor faz um ingente esforço para esclarecer que este não é o caminho indicado para se chegar ao verdadeiro conhecimento divino. Esse conceito é transmitido de forma bastante clara na apresentação da obra: "O conhecimento de Deus é um saber que nunca sai de certa escuridão: sempre fica na nuvem, não sai nunca das nuvens. Tudo permanece de certo modo confuso e indefinido, embora se tenha a certeza de estar mesmo em comunicação com o Deus verdadeiro. Os que querem aprender o caminho da oração mais profunda não devem ficar desnorteados por não conseguirem sair da nuvem. Se ficarem preocupados pelas idéias e pelas reflexões, nunca chegarão ao verdadeiro conhecimento, não alcançarão os níveis mais altos da oração."[4] Consciente da prática tradicional da piedade cristã de sua época e da suspeita com que os místicos sempre foram tratados, aquele autor procura alertar logo de início que sua obra era dirigida para uma minoria de buscadores que não se satisfaziam mais com as práticas de oração tradicionais. Sua obra é um tratado sobre a contemplação, descrevendo as práticas preliminares e a perplexidade inicial do meditador que, ao buscar Deus com a mente repleta de conceitos teológicos sobre o Ser Divino, ao penetrar fundo em seu coração, através de aparentes nuvens, encontra o Nada, ou o Vazio, que aos poucos reconhece como sendo o Todo, a Plenitude de todo o saber e de todo o amor, que é a Vida. A Nuvem do Não-Saber foi de importância capital para um grupo de monges americanos que, a partir da década de 70, procurou resgatar a antiga tradição contemplativa, apresentando suas técnicas preparatórias em linguagem e abordagem modernas. Esses monges trapistas, no mosteiro de St. Joseph, em Spencer, Massachusetts, sob a coordenação dos frades William Menninger e Basil Pennington, passaram a realizar uma série de programas de treinamento sobre o que chamaram de "oração de centralização." Dada sua grande aceitação por clérigos e leigos, o método passou a ser difundido, e vários centros foram criados para ensiná-lo, dentre os quais destaca-se, nos Estados Unidos, o Mosteiro de St. Benedict, no Colorado, sob a direção de Thomas Keating. Vários livros foram escritos divulgando o método.[5] Esse método, que tem por objetivo aprofundar o relacionamento com Deus, foi desenvolvido a partir dos antigos métodos contemplativos da tradição cristã, sendo apresentado numa forma mais sistemática, que procura colocar uma certa ordem e regularidade nas práticas que levam ao silêncio interior. Durante a prática, nossa única intenção deve ser consentir a presença e a ação de Deus em nosso interior. Essa prática é apresentada de forma resumida no Anexo 1.
[1] Vide Open Mind Open Heart, op.cit., pg. 26-27. [2] João da Cruz, Obras Completas (Petrópolis: Vozes, 1996), pg. 823-930. [3] Richard Rolle, The Forms of Living (N.Y.: Paulist Press, 1988), pg. 182. [4] Anônimo, A Nuvem do Não-saber (S.P., Editora Paulinas), pg. 7. [5] Livros de Thomas Keating: Crisis of Faith, Crisis of Love; Invitation to Love; The Mystery of Christ; livros de William Meninger: The Loving Search for God; The Process of Forgiveness, todos da Editora Continuum, de Nova York.
22 - LEMBRANÇA DE DEUS A alta vibração obtida durante o período de meditação diário tende geralmente a diminuir quando a pessoa volta-se para as exigências da vida cotidiana. O objetivo do devoto é manter essa vibração elevada ao longo do dia, como é sugerido no Evangelho de João: "Permanecei em mim como eu em vós" (Jo 15:4). A instrução evangélica continua, indicando o que ocorre quando o homem consegue manter essa sintonia com Deus: "Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vós o tereis" (Jo 15:7). Para alcançar esse propósito, Paulo recomenda a prática da oração permanente, instando: "Orai sem cessar" (1 Ts 5:17). No livro anônimo Relatos de um Peregrino Russo, o autor narra como entende a oração interior, a oração do coração que transforma o homem. Dentre as várias passagens interessantes destaca-se uma sobre a importância da oração permanente e como ela pode ser alcançada: "É preciso lembrar-se de Deus em todo tempo, em todo lugar e em todas as coisas. Se fabricas alguma coisa, deves pensar no Criador de tudo o que existe; se vês a luz do dia, lembra-te Daquele que criou a luz para ti; se olhas o céu, a terra e o mar e tudo o que eles contêm, admira, glorifica Aquele que tudo criou; se te vestes com uma roupa, pensa Naquele de quem a recebeste e lhe agradece, a Ele que provê a tua existência. Em resumo, que todo movimento seja para ti um motivo para celebrar o Senhor: assim rezarás sem cessar e tua alma estará sempre alegre".[1] Se permanecêssemos conscientes de nossa natureza divina última, estaríamos mergulhados permanentemente na lembrança de Deus, pois Deus é imanente. Para que esse processo tenha um poder transformador em nossa vida ele deve ser vivencial e não meramente intelectivo. Quando essa lembrança passa a ser uma realidade em nossa vida, somos submetidos, a cada momento, ao esmeril divino que desbasta as arestas de nossas imperfeições. A realidade, porém, é que a maior parte dos aspirantes mantém a atenção, o dia todo, na sua natureza inferior, esquecido do seu Eu Superior. Para que haja progresso no Caminho são necessários exercícios de recordação de nossa verdadeira natureza divina, ou seja, a lembrança de Deus. Esses exercícios são muito mais valiosos do que sua aparente simplicidade sugere.[2] A ‘Lembrança de Deus' é uma prática recomendada por algumas ordens monásticas, como a carmelita. No monaquismo da igreja cristã oriental, esse exercício é conhecida como Mneme Theou (lembrança de Deus). Para essas ordens, Mneme Theou é um componente essencial na vida de transformação da mente (metanoia). A mente inteiramente voltada para Deus não deseja pensar a respeito de nada mais. A todo momento e em qualquer situação, quando ela precisa de ajuda para resolver seus problemas, volve-se não para as pessoas ou as coisas do mundo, mas para Deus.[3] O processo de centralização em Deus foi chamado de "orientação magnética para Deus" por um bispo russo conhecido como Theophanis, o recluso, que no final do século passado traduziu o original grego de Philokalia[4] para o russo, acrescentando vários textos adicionais. Theophanis escreveu como essa orientação magnética para Deus pode ser desenvolvida: "O objetivo é nos esforçarmos em direção a Deus; inicialmente isso é feito só na intenção. Deve ser feito em nossa vida real -- uma gravitação natural que é doce, voluntária e permanente. Esse é o tipo de atitude que nos mostra quando estamos no caminho certo. Só se torna claro que Deus está nos tocando quando experimentamos essa aspiração viva; quando nosso espírito vira as costas para tudo o mais e fixa-se Nele deixando-se levar. No início isso não vai acontecer; a pessoa fervorosa ainda está inteiramente voltada para si mesma. Apesar de ter-se ‘decidido' por Deus, isso só ocorre em sua mente. Então, quando seu coração começa a se purificar e assumir a atitude correta, ele passa a trilhar o Seu caminho com amor e contentamento. A alma começa, então, a retirar-se de tudo mais como que do frio e a gravitar em direção a Deus, que a aquece. Esse princípio de gravitação é implantado na alma fervorosa pela Graça divina. Por sua inspiração e orientação a atração cresce em progressão natural, nutrida internamente mesmo sem o conhecimento da própria pessoa. Passa a ser, então, uma profunda felicidade estar sozinha com Deus, longe dos outros e esquecida das coisas externas. Ela adquire o reino de Deus dentro de si mesma, que é paz e alegria no Espírito Santo."[5] Dada a realidade da vida moderna, com a constante premência de tempo para realizar inúmeras atividades, pode parecer-nos que o método de lembrança de Deus foi mais apropriado para a época em que a vida era mais tranqüila, e quando os homens podiam voltar-se para a introspeção, mesmo que estivessem cuidando de seus afazeres mais simples e menos estressantes daquela época. Porém, quanto maior a demanda do mundo, maior a necessidade de estarmos constantemente sintonizados com Deus para mantermos o alto nível vibratório que conduz à transformação (metanoia), que por sua vez leva à união ou ioga. Por isso Jesus dizia: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca" (Mt 26:41). Para nos lembrarmos de Deus, temos que esquecer de nós mesmos, de nossos pensamentos, de nossos interesses, de nossos insistentes medos e anseios. Esse processo está relacionado com a renúncia das lembranças passadas e das esperanças futuras, a fim de que possamos nos lembrar de Deus, agora no presente, como o centro de nossa vida. É também uma conseqüência do primeiro e maior mandamento, amar a Deus de todo coração, com toda a alma e de todo nosso entendimento (Mt 22:38). Se Deus é realmente o nosso maior tesouro, nele deverá estar sempre nosso coração,[6] como ocorre com as pessoas verdadeiramente apaixonadas. Esse é o espírito da lembrança de Deus. Quando o praticante engaja-se no processo de lembrança de Deus, ainda que inicialmente de forma imperfeita e com lapsos freqüentes durante o dia, ele inicia uma nova etapa no Caminho. Antes ele lutava contra seus demônios interiores sozinho. Agora ele terá um aliado permanente a seu lado, o próprio Senhor do Universo, a Luz infinita que automaticamente repele a escuridão, a Onisciência divina que vence toda ignorância. A partir de então o progresso será muito mais rápido, porque a Verdade é incompatível com a falsidade do mundo, o Amor com o egoísmo da personalidade. Como Deus é Verdade e Amor, enquanto estivermos sintonizados com Ele, as vibrações distorcidas do mundo material não terão lugar em nosso coração. Estaremos vivendo, então, numa vibração elevada, praticando naturalmente as virtudes divinas e avançando no Caminho da Perfeição. A lembrança de Deus pode dar-se de diferentes maneiras de acordo com o temperamento de cada homem. Ela pode aparecer como uma constante sintonia com Deus, em que a pessoa percebe a presença de Deus no íntimo de seu coração. Para o indivíduo que ama a natureza ou que tem um pendor poético, a lembrança pode ser a percepção de Deus na beleza de toda manifestação da natureza e em todos os seres. Para o devoto, pode ser mais natural viver com o Cristo a seu lado, em permanente comunhão, como se Ele fosse seu companheiro inseparável. Ele está sempre a nossa disposição; somos nós que temos que optar por nos mantermos a Seu lado, sem perder-nos em considerações mundanas e fúteis. Poderemos, também, observar nosso comportamento e nossas tendências, contrastando o Cristo interior que procura nos levar para o alto, com a personalidade, que nos puxa para baixo. E, quando alguma atividade demandar toda a nossa atenção, podemos oferecer ou dedicar a Deus aquela tarefa, pedindo que Ele guie o nosso coração para podermos realizá-la da melhor maneira possível. Deve ficar claro, no entanto, que a prática da presença de Deus não é uma mera técnica que possa ser adotada por qualquer um a qualquer momento. Ela é uma conseqüência do profundo amor a Deus sentido pelo devoto que, na alegria de seu anseio por comungar com o Supremo, procura estender o seu contentamento a todo momento e a toda ocasião. Muitos aspirantes, convencidos da importância da prática da lembrança de Deus, tentam incorporá-la à sua rotina diária, mas verificam que, por razões que não conseguem entender, não fazem muito progresso. Sentem como se seu coração não estivesse realmente engajado, como se lá dentro do coração algo estivesse dizendo que isso não é mesmo para ele. Esses casos, que infelizmente não são raros, geralmente são um reflexo da imagem que temos de Deus. Esse é um assunto de importância transcendental. Geralmente não nos damos conta de que a maior parte das práticas espirituais dependem do que sentimos a respeito de Deus e não do que pensamos a seu respeito. Nossos sentimentos a respeito de Deus dependem da imagem que fazemos a seu respeito. Esta imagem não é o resultado do conceito que temos de Deus, que é nossa visão intelectiva, mas sim da imagem que formamos inconscientemente durante nossa infância, como uma extensão natural da imagem de nossos pais, a autoridade que conhecemos. Dependendo de como a criança é tratada pelos pais, se com disciplina rigorosa e castigos, com indulgência e permissividade ou com frieza e descaso, a criança, aos poucos, vai formando uma imagem sobre a autoridade que conhece, os pais. Essa imagem tende a ser transferida para a autoridade suprema, Deus. Assim, pais rigorosos e punitivos tendem a criar uma imagem de um Deus justiceiro, ao qual devemos temer e procurar manter distância, porque sua proximidade pode trazer castigos se ele observar nossas falhas, e como estamos conscientes de termos muitos defeitos, inconscientemente procuramos manter a autoridade suprema distante de nós. É importante, portanto, que descubramos qual a imagem que fazemos de Deus, para que a prática da lembrança de Deus possa ser realmente incorporada a nossa rotina diária como a expressão natural do anseio da alma pelo Supremo Bem. Se verificarmos que a imagem que temos de Deus, o que realmente sentimos a respeito do Pai Celestial, é muito diferente do conceito ou da idéia que temos, será necessário, antes de mais nada, confrontarmos a imagem distorcida com nosso conceito intelectivo, que provavelmente é mais próximo da realidade.[7] O objetivo último da prática da presença de Deus é levar-nos a agir no mundo como instrumentos do Alto. Não importa como Deus seja concebido: como o Ser Supremo que tudo abrange, ou como o Cristo interior, que comanda a personalidade, ou como o Mestre, instrumento do Divino, cuja missão é promover a salvação da humanidade sofredora. Quando nosso senso de responsabilidade nos impele a agir com motivação altruísta e total desapego pelo resultado de nossas ações, conscientes de que somos um instrumento da Vontade Divina, estaremos vivendo com Deus no coração e expressando o amor Divino por meio de nossas ações. Existe na tradição cristã algo que é às vezes confundido com a lembrança de Deus, que é a prática da presença de Deus. Enquanto a lembrança de Deus é um instrumento usado na senda mística, que tem por objetivo alcançar a união com Deus, a prática da presença de Deus é, na verdade, um corolário da consecução do objetivo último da união. Quando o místico alcança a união com Deus, o resultado natural será sentir a presença do Supremo Bem a todo momento, não importa se orando ou trabalhando. O exemplo clássico dessa prática é a experiência do Irmão Lourenço, místico humilde que entrou para um convento carmelita em Paris, no século XVII com a idade de 55 anos. Encarregado do serviço da cozinha, em breve tornou-se o confidente e orientador espiritual de seus companheiros mais instruídos no mosteiro. Seu segredo era simples: sua oração era simplesmente um sentido da presença de Deus, quando sua alma tornava-se insensível a tudo que não fosse o amor divino. O interessante, porém, é que ao término das sessões rotineiras de oração ele continuava sentindo-se na presença de Deus, louvando-o e dando graças a Ele com todo seu coração, vivendo em profunda alegria a todo momento. Até mesmo na cozinha, em meio ao buliço das panelas e da louça, do burburinho das conversas e solicitações, o Irmão Lourenço sentia a presença de Deus. Dizia que muitos monges não progrediam espiritualmente porque davam mais atenção a penitências e exercícios especiais do que ao amor a Deus, que era o fim de toda a vida espiritual.[8]
[1] Relatos de um Peregrino Russo (S.P.: Edições Paulinas, 1985), pg. 106. [2] Vide Idéias em Perspectiva, op.cit., pg. 305. [3] A Different Christianity, op.cit., pg. 189-90. [4] Philokalia é um compêndio clássico, em cinco volumes, de textos de vários autores dos primeiros séculos, a maior parte dos quais escritos em grego, versando sobre a piedade cristã e a vida mística. [5] St. Theophan, o recluso, The Heart of Salvation, citado em A Different Christianity, pg. 293. [6] Mt 6:21 [7] Para maior aprofundamento dessa questão recomendamos o livro O Caminho da Autotransformação, op.cit., capítulo 4: "O Deus real e a imagem de Deus". [8] Conversations & Letters of Brother Lawrence, The Practice of the Presence of God (Oxford: One World, 1993), pg. 17, 20-21.
23 - ATENÇÃO A falta de atenção do ocidental é notória. Quantas vezes não entendemos o que alguém está nos dizendo porque estamos pensando em outra coisa enquanto o outro está falando. O desenvolvimento da atenção em todas as atividades de nossa vida cotidiana não só servirá para tornar-nos mais eficientes no que tivermos que realizar, mas também facilitará o desempenho de nossa meditação. A inabilidade em manter a plena atenção é uma das principais razões porque os ocidentais têm mais dificuldade para meditar do que os orientais. Mas a atenção também é necessária para evitar que cometamos deslizes na vida. Jesus já dizia: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca" (Mt. 26:41). Se não estivermos atentos às circunstâncias de nossa vida, analisando as implicações de diferentes cursos alternativos de comportamento, podemos nos deixar levar pelos nossos condicionamentos, geralmente expressando tendências materiais e egoístas. O cuidado e a atenção são especialmente importantes no que se refere às instruções espirituais. No Antigo Testamento encontramos diversas passagens a este respeito, como por exemplo: "Se aceitares, meu filho, minhas palavras e conservares os meus preceitos, dando ouvidos à sabedoria, e inclinando o teu coração ao entendimento; se invocares a inteligência e chamares o entendimento; se o procurares como o dinheiro e o buscares como um tesouro; então entenderás o temor de Iahweh e encontrarás o conhecimento de Deus" (Prov 2:1-5). "Meu filho, sê atento às minhas palavras; dá ouvidos às minhas sentenças: não se afastem dos teus olhos, guarda-as dentro do coração. Pois são vida para quem as encontra, e saúde para a sua carne. Guarda o teu coração acima de tudo, porque dele provém a vida" (Prov 4:20-23). "Deus fala de um modo e depois de um outro, e não prestamos atenção. Em sonhos ou visões noturnas, quando a letargia desce sobre os homens adormecidos em seu leito: então lhes abre os ouvidos, e os aterroriza com aparições, para afastar o homem de suas obras e pôr-lhe fim ao orgulho, para impedir sua alma de cair na sepultura e sua vida de cruzar o Canal" (Jó 33:14-18). Alguns autores da tradição cristã sugerem que a atenção é um elemento fundamental da prática espiritual. Theophanis, o recluso, escreveu: "A vida de atenção, levada a fruição em Cristo Jesus, é o pai da contemplação e do conhecimento espiritual (gnosis). Ligada à humildade, ela gera a exaltação divina e pensamentos do tipo mais sábio."[1] Entre os padres da igreja primitiva falava-se da interdependência da atenção e da prece, que se unem na luta contra o orgulho, levando à humildade, que por sua vez abre o coração aos poderes do alto. S. Hesychios, o Padre, escreveu: "Se nosso intelecto é inexperiente na arte da atenção, ele começa imediatamente a entreter todas as fantasias intensas que nele aparecem, importunando-o com perguntas ilícitas e respondendo-as de forma ilícita. Então, nossos próprios pensamentos juntam-se à fantasia demoníaca, que cresce e se expande até que parece ser maravilhosa e desejável para o intelecto acolhedor e despojado."[2] A atenção pode ser enfocada sob dois aspectos: o que os budistas chamam de ‘plena atenção' e a técnica da ‘auto-observação.' Esses dois aspectos são de capital importância no caminho espiritual. O importante em ambos aspectos é o direcionamento de nossa atenção. Na maior parte dos exercícios o que é preciso é o unidirecionamento da atenção, no que poderíamos chamar de concentração. As atividades do mundo e a meditação analítica demandam essa concentração. No entanto, em certas situações, em vez de concentrar o foco da atenção, é preciso justamente o contrário, expandir ao máximo o foco da atenção para que ela abarque tudo o que possa estar ocorrendo ao nosso redor. Em certos tipos de meditação, o meditador deve permanecer atento a todos os pensamentos que passam por sua tela mental sem, porém seguir ou apegar-se a nenhum deles. Numa volta mais elevada da técnica meditativa, o objetivo é a contemplação que requer perfeita aquietação da mente. Para que isso ocorra, a mente deve ser pacientemente treinada. A plena atenção voltada para o aqui e agora de cada atividade que está sendo realizada é a melhor disciplina da mente, para que durante o período meditativo ela possa ser naturalmente direcionada a um determinado objeto, e firmemente mantida durante o tempo necessário para analisar tudo o que for possível pela lógica. Se o meditador continuar a manter a atenção no objeto, poderão surgir inspirações reveladoras vindas da pura luz da intuição. O exercício da plena atenção é tão fundamental para a prática budista que eles costumam dizer, com sua alegria costumeira, que a diferença entre eles e os não-praticantes é que quando eles caminham eles caminham, quando comem eles comem, quando meditam eles meditam, etc. A explicação dessa aparente tautologia é que um praticante budista procura voltar toda a sua atenção para o que está sendo realizado, evitando que a mente divague enquanto está fazendo alguma coisa.[3] Como parte do treinamento da mente, os iniciantes são instados a praticar a concentração sobre a respiração como uma técnica meditativa básica. Alguns praticam a meditação ao caminhar lentamente, procurando concentrar-se em todos os movimentos; o mesmo é feito ao comer, com a concentração em cada movimento da mão, do maxilar, etc. Dois autores budistas contemporâneos escreveram a esse respeito: "Quando de pé, andando, sentados ou deitados, durante todo o tempo em que estivermos acordados, deveremos desenvolver a plena atenção mental e o amor universal. Isso, dizem, é a mais elevada conduta aqui."[4] A atenção está relacionada aos sentidos e à mente. O grau mais elevado de atenção é aquele em que a mente está engajada, pois é a mente que sintetiza os sentidos. Mas existe um nível ainda mais elevado de atenção, que é a atenção relacionada aos sentidos espirituais. É para esse nível de atenção que Paulo parecia estar se reportando quando escreveu: "Não olhamos para as coisas que se vêem, mas para as que não se vêem; pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno" (2 Cor 4:18) A atenção é geralmente relacionada na Bíblia como vigilância, daí as várias passagens em que os fiéis são instados a vigiar. Uma passagem merece ser citada em virtude de suas implicações esotéricas: "Felizes os servos que o senhor, á sua chegada, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo, ele se cingirá e os colocará à mesa e, passando de um a outro, os servirá" (Lc 12:37). Usando as chaves para a interpretação dos textos sagrados sugeridas anteriormente, podemos assumir que o sentido esotérico da passagem é interior. O senhor é o Eu Superior. Os servos são os veículos inferiores. Felizes, pois, as almas cujos veículos inferiores estiverem vigilantes quando a Graça da chegada consciente do Cristo interior ocorrer. Nesse caso o senhor colocará estas almas à mesa e as servirá com o banquete celestial da sagrada Comunhão.
[1] St. Theophanis, o recluso, Four Sermons on Prayer, citado por R. Amin, A Different Christianity, op.cit., pg. 276. [2] St. Hesychios the Priest, em The Philokalia (London: Faber and Faber, 1979), vol. I, pg. 187. [3] Uma passagem do Dhammapada ilustra a importância da vigilância, ou plena atenção, para os budistas: "A vigilância é o caminho da imortalidade, o Nirvana. A negligência é o caminho da morte. Os vigilantes não perecem; os negligentes já estão como mortos." Op.cit., pg. 21. [4] Georges da Silva e Rita Homenko, Budismo: Psicologia do Autoconhecimento (S.P.: Pensamento), pg. 147. 24 - RITUAIS E SACRAMENTOS Rituais internos e externos Todas as tradições religiosas e esotéricas valem-se de rituais para estabelecer uma vibração elevada e direcionar energias para facilitar a expansão de consciência dos participantes. A milenar tradição dos mistérios sempre se valeu de rituais, ou teurgia, para a realização de seus propósitos.[1] Com o passar do tempo, algumas dessas tradições julgaram por bem instituir não só Mistérios Menores, de caráter preparatório para os Mistérios Maiores, mas também cerimônias abertas para o grande público. Nessas, obviamente, não havia exigência de segredo. Pouco se sabe a respeito dos rituais e dos mistérios das verdadeiras tradições ocultas, pois seus praticantes sempre mantiveram em respeitoso segredo suas práticas, em obediência ao juramento de total sigilo que devia ser feito como condição de acesso aos mistérios. Por isso, sabemos simplesmente que existiam e ainda existem mistérios, e naquelas sociedades em que algumas práticas exotéricas, ou populares, foram instituídas, algo mais é conhecido do público, mas nunca os detalhes dos rituais, principalmente as palavras e sinais de poder que são transmitidos de boca a ouvido pelos oficiantes. Durante seu ministério, Jesus instituiu rituais e mistérios, ou sacramentos. Seguindo a antiga tradição oculta, ele também exigia de seus discípulos estrito segredo sobre esses mistérios, como atesta a seguinte passagem: Jesus disse: "Eu digo meus mistérios aos que são dignos de meus mistérios. Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita!" (Evangelho de Tomé, vers. 62).[2] Com isto Jesus indica que os mistérios só eram concedidos aos discípulos mais avançados, que estavam suficientemente purificados e comprometidos com a vida espiritual. O Mestre pedia discrição, a fim de que os irmãos da mão esquerda não pudessem se valer dos conhecimentos que conferem poder para seus fins nefastos. Mais tarde a igreja romana, herdeira da tradição externa dos ensinamentos populares, resolveu adaptar alguns dos rituais e sacramentos internos ao uso público, resultando, com o passar do tempo, na missa e nos sete sacramentos conhecidos atualmente. Esses rituais apresentavam várias características regionais. Ainda hoje os rituais da Igreja Ortodoxa Oriental são consideravelmente diferentes dos rituais da Igreja Católica Romana, particularmente depois das reformas recentes. É sabido que uma das razões da Reforma protestante instituída por Lutero e Calvino dizia respeito à natureza do ritual da igreja romana. Com a Reforma, as diferentes seitas protestantes passaram a oferecer a seus fiéis um ‘serviço religioso' e não o ritual da missa.
[1] Vide Samuel Angus, The Mystery-Religions and Christianity (N.Y.: Carol Publishing, 1996), cap. II. [2] O Evangelho de Tomé, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 133. Rituais internos e externos Todas as tradições religiosas e esotéricas valem-se de rituais para estabelecer uma vibração elevada e direcionar energias para facilitar a expansão de consciência dos participantes. A milenar tradição dos mistérios sempre se valeu de rituais, ou teurgia, para a realização de seus propósitos.[1] Com o passar do tempo, algumas dessas tradições julgaram por bem instituir não só Mistérios Menores, de caráter preparatório para os Mistérios Maiores, mas também cerimônias abertas para o grande público. Nessas, obviamente, não havia exigência de segredo. Pouco se sabe a respeito dos rituais e dos mistérios das verdadeiras tradições ocultas, pois seus praticantes sempre mantiveram em respeitoso segredo suas práticas, em obediência ao juramento de total sigilo que devia ser feito como condição de acesso aos mistérios. Por isso, sabemos simplesmente que existiam e ainda existem mistérios, e naquelas sociedades em que algumas práticas exotéricas, ou populares, foram instituídas, algo mais é conhecido do público, mas nunca os detalhes dos rituais, principalmente as palavras e sinais de poder que são transmitidos de boca a ouvido pelos oficiantes. Durante seu ministério, Jesus instituiu rituais e mistérios, ou sacramentos. Seguindo a antiga tradição oculta, ele também exigia de seus discípulos estrito segredo sobre esses mistérios, como atesta a seguinte passagem: Jesus disse: "Eu digo meus mistérios aos que são dignos de meus mistérios. Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita!" (Evangelho de Tomé, vers. 62).[2] Com isto Jesus indica que os mistérios só eram concedidos aos discípulos mais avançados, que estavam suficientemente purificados e comprometidos com a vida espiritual. O Mestre pedia discrição, a fim de que os irmãos da mão esquerda não pudessem se valer dos conhecimentos que conferem poder para seus fins nefastos. Mais tarde a igreja romana, herdeira da tradição externa dos ensinamentos populares, resolveu adaptar alguns dos rituais e sacramentos internos ao uso público, resultando, com o passar do tempo, na missa e nos sete sacramentos conhecidos atualmente. Esses rituais apresentavam várias características regionais. Ainda hoje os rituais da Igreja Ortodoxa Oriental são consideravelmente diferentes dos rituais da Igreja Católica Romana, particularmente depois das reformas recentes. É sabido que uma das razões da Reforma protestante instituída por Lutero e Calvino dizia respeito à natureza do ritual da igreja romana. Com a Reforma, as diferentes seitas protestantes passaram a oferecer a seus fiéis um ‘serviço religioso' e não o ritual da missa.
[1] Vide Samuel Angus, The Mystery-Religions and Christianity (N.Y.: Carol Publishing, 1996), cap. II. [2] O Evangelho de Tomé, em The Nag Hammadi Library, op.cit., pg. 133. Os rituais internos da tradição cristã Jesus, como todo hierofante, instituiu alguns rituais secretos, visando facilitar a expansão de consciência de seus discípulos. Além da menção da instituição do batismo e da eucaristia (Mt 26:26-28; Mc 14:22-25; Lc 22:14-20; Jo 6:52-59), um importante registro que temos desses rituais na Bíblia é a curta e enigmática menção do hino cantado por Jesus e seus discípulos: "Depois de terem cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras" (Mt 26:30 e Mc 14:26). Esse ritual foi parcialmente preservado num documento apócrifo conhecido como Atos de João e, mais tarde, publicado como O Hino de Jesus.[1] No rito do Hino, os discípulos aparecem num círculo, segurando as mãos uns dos outros. Jesus entoava invocações no centro da roda e seus discípulos respondiam ‘Amém', movendo-se em círculo. O poder do Hino pode ser aquilatado por algumas estrofes: "Glória a Ti, Pai! Glória a Ti, Verbo! Glória a Ti, Graça! Glória a Ti, Espírito! Glória a Ti, Sagrado Um! Glória a Tua Glória!"[2] e o rito continuava com seu ritmo envolvente, conduzindo os participantes a elevados níveis de consciência. No Hino encontram-se declarações de caráter esotérico tal como: "E agora responde ao Meu dançar! Veja a ti mesmo em Mim que falo; e vendo o que faço, guarda silêncio sobre os Meus Mistérios."[3] E uma afirmação que antecipa descobertas psicológicas de Jung nesse século: "Se tivesses sabido como sofrer, terias o poder de não sofrer. Conhece (pois) o sofrimento, e terás o poder de não sofrer."[4] Outro importante ritual oficiado por Jesus é descrito nos evangelhos canônicos de forma tão velada que é geralmente interpretado como um "milagre". Trata-se da assim chamada ressurreição de Lázaro. Se tomarmos a passagem em João (Jo 11:1-43) veremos que todo o relato assume um caráter curioso devido ao comportamento aparentemente bizarro de Jesus face às notícias sobre Lázaro.[5] É dito que Lázaro estava ‘doente' e que suas irmãs, Maria e Marta, mandaram avisar a Jesus sobre o fato. De forma surpreendente, Jesus demonstra um aparente desinteresse pelo estado de saúde de seu discípulo amado e disse: ‘Essa doença não é mortal, mas para a glória de Deus, para que, por ela, seja glorificado o Filho de Deus'. Depois disso Jesus permaneceu mais dois dias no local onde se encontrava e só depois decidiu ir para o povoado de Lázaro, na Judéia. Disse então a seus discípulos: ‘Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou despertá-lo'. E os discípulos ficaram confusos, pois parecia-lhes que Jesus falara da morte de Lázaro como se fora apenas um sono. Então Jesus falou claramente: ‘Lázaro morreu'. Vamos para junto dele! Tomé, surpreendentemente, diz aos outros discípulos: ‘Vamos também nós, para morrermos com ele!' Como explicar o anseio dos discípulos por morrer com Lázaro, a não ser que essa ‘morte' fosse algo extremamente desejável? Ao chegar, Jesus encontrou Lázaro já sepultado havia quatro dias. Então, disse Marta a Jesus: ‘Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido'. Jesus respondeu: ‘Teu irmão ressuscitará'. Jesus mandou então que retirassem a pedra do sepulcro e gritou em voz alta: ‘Lázaro, vem para fora!' O morto saiu, com os pés e mãos enfaixados e com o rosto recoberto com um sudário. Para aqueles familiarizados com os rituais esotéricos, esse aparente milagre é a forma alegórica de descrever o ofício de um elevado rito de mistério no qual o iniciado entra em transe por três dias, aparentando estar morto. Ao fim do terceiro dia, o hierofante, nesse caso Jesus, usando palavras de poder, desperta-o de seu transe. Em outra passagem, Jesus refere-se a esse profundo mistério quando diz: "Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei" (Jo 2:19). Compreende-se, portanto, porque Tomé queria também passar por aquela ‘morte'. O fato da maior parte das referências aos mistérios de Jesus encontrarem-se nos evangelhos gnósticos não significa que os padres da igreja dos primeiros séculos desconhecessem os mistérios. Alguns eram até mesmo iniciados neles. Existem inúmeras referências veladas nas epístolas de Paulo, o grande iniciado, usando a linguagem técnica dos mistérios, como por exemplo: "Como bom arquiteto, lancei o fundamento, outro constrói por cima" (1 Co 3:10); "É realmente de sabedoria que falamos entre os perfeitos, sabedoria que não é deste mundo nem dos príncipes deste mundo, votados à destruição. Ensinamos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória" (1 Co 2:6-7).[6] Alguns discípulos de Valentino, na segunda metade do século II, diziam ter recebido dele os ensinamentos secretos de Paulo, os ‘mistérios profundos' que o apóstolo ministrava somente a uns poucos discípulos escolhidos, em segredo.[7] Vale mencionar que, dentre os tópicos da ‘sabedoria de Deus, misteriosa e oculta,' de que fala Paulo, encontram-se ensinamentos sobre a reencarnação. Esse era um conceito corrente, aceito por boa parte dos povos da época de Jesus, em especial pelos essênios, grupo a que Jesus pertencia. A Cabala, o ensinamento esotérico dos judeus, que Jesus dominava, pressupõe o conceito de mudança ou movimento da alma de um veículo para outro. É interessante notar que os fariseus aceitavam a reencarnação de uma forma curiosa, ou seja, que os justos voltavam à Terra assumindo outros corpos, para se aproximarem cada vez mais da perfeição, enquanto os iníquos não tinham a mesma oportunidade. O conceito de reencarnação era aceito entre os primeiros cristãos, até ser decretado em concílio como um conceito herético. Nesse sentido, diz-nos o bispo Leadbeater da Igreja Católica Liberal: "Jerônimo fala da crença na passagem da alma de um corpo a outro como presente no início do cristianismo. Orígenes, o maior de todos os padres da Igreja, sustentava-a forte e claramente, e é significativo que afirmasse não tê-la tomado de Platão, mas que ela lhe fora ensinada por São Clemente de Alexandria que, por sua vez, aprendeu-a de Panteno, um discípulo de homens apostólicos. Assim, temos uma afirmação clara de que a doutrina da reencarnação veio dos próprios apóstolos. Era um dos Mistérios da Igreja primitiva ensinado somente àqueles que eram dignos, que tinham ingressado no círculo interno de sua organização e haviam comprovado ser membros bons e confiáveis, aptos a receber em confiança os ensinamentos internos."[8] Com relação aos sacramentos é dito no Evangelho de Felipe que Jesus instituiu cinco e não sete sacramentos: "O Senhor fez tudo num mistério, um batismo, uma crisma, uma eucaristia, uma redenção e uma câmara nupcial."[9] A igreja romana manteve a mesma conotação iniciática para os três primeiros sacramentos em seus rituais. Assim, os sacramentos ministrados pela Igreja: batismo, crisma e eucaristia, ainda hoje, conferem certo grau de expansão de consciência a todos aqueles que os recebem no estado de espírito apropriado. Os dois últimos sacramentos, no entanto, foram totalmente desvirtuados. O sacramento da redenção, conhecido na igreja primitiva como apolytrosis, a última etapa preparatória para o sacramento supremo da câmara nupcial, foi transformado na penitência, mais conhecida dos católicos como confissão. O significado original desse sacramento era a redenção da alma, quando o iniciado morria para o mundo e ressurgia liberto de todas as correntes de apego, inclusive da noção de um eu separado. A ‘ressurreição de Lázaro', mencionada anteriormente, parece ser uma alegoria desse sacramento. A igreja romana, numa gritante contradição com os ensinamentos de Jesus a respeito da lei de causa e efeito, conferiu a seus prelados o suposto poder de perdoar os pecados por meio da ‘confissão'. No sacramento da câmara nupcial, os discípulos avançados alcançavam a iluminação quando a alma devidamente purificada, referida como virgem, unia-se ao supremo esposo, o Cristo interior. Esse sacramento, mencionado claramente na literatura gnóstica, especialmente no Evangelho de Felipe, também é referido na Bíblia, de forma mais velada, na parábola do banquete nupcial (Mt 22:1-14) e na parábola das dez virgens (Mt 25:1-13). Esse sacramento também pode ser conferido internamente, como parece ocorrer com os místicos que alcançam as alturas espirituais. Jan van Ruysbroeck, um dos maiores místicos católicos, escreveu, no século XIV, em Adornos do Casamento Espiritual, que Cristo é nosso noivo e Ele nos convida a vir a Ele.[10] A igreja transformou esse elevado sacramento esotérico na cerimônia externa do matrimônio. Assim, as palavras de Jesus: "o que ligares na terra será ligado nos céus" (Mt 16:19), que se referia ao ritual esotérico de união em consciência da alma com o Espírito, foram usadas de forma indevida para o ritual exotérico da união matrimonial, criando um sofrimento desnecessário a milhões de casais, ao longo dos séculos, pois, quando se separavam, eram perseguidos pelo sentimento de culpa de estarem infringindo uma lei divina. A Igreja Católica também instituiu dois outros sacramentos: a unção e a ordem, com isso estendendo suas atribuições e controle às atividades mais importantes da vida do ser humano, do nascimento à morte. A unção, ou melhor dito, a extrema unção, tem um paralelo com rituais semelhantes em outras tradições. Com o sacramento da ordem ficava instituída a sucessão apostólica na ordenação dos prelados. Os cinco sacramentos internos de Jesus apresentam um estreito paralelo com os cinco estágios da vida mística e com as cinco grandes iniciações, como será visto no capítulo 27. Os discípulos só recebiam os sacramentos depois de um extenso trabalho preparatório, pois um sacramento eqüivale a um aporte energético de alta voltagem, que só podia ser recebido com segurança quando os veículos do postulante estivessem devidamente purificados.
[1] Ver G.R.S. Mead, O Hino de Jesus (Brasília: Editora Teosófica, 1994) [2] O Hino de Jesus, op.cit., pg. 33. [3] Os poetas seguidamente entram em sintonia com a verdade maior, expressando-a em suas poesias. Um caso em pauta com o Hino de Jesus são os poemas de T.S. Elliot: "O ponto imóvel do mundo que gira, que não é carne nem deixa de ser carne, que não é pausa nem movimento. E não o chame de fixidez, onde passado e futuro estão unidos. Exceto pelo ponto, o ponto imóvel, não haveria dança, e há somente a dança." Citado em O Paradigma Holográfico, op.cit., pg. 28. [4] O Hino de Jesus, op.cit., pg. 38-39. [5] O nome de Lázaro parece ser uma abreviatura de um antigo nome hebreu Eleazar, que significa ‘ajuda de Deus'. [6] Para outras referências aos mistérios em Paulo vide: Gl 2:20; 1 Co 2:12; 1 Co 3:1-2; 1 Co 3:16-17; Ef 3:3-4; Cl 1:27. [7] Vide Clemente de Alexandria, Stromata, op.cit., 7,7. [8] C.W. Leadbeater, A Gnose Cristã (Brasília: Editora Teosófica, 1994), pg. 162. [9] Evangelho de Felipe, op.cit., pg. 150. [10] John of Ruysbroeck, The Adornment of the Spiritual Marriage, The Sparkling Stone , The Book of Supreme Truth (reprint) (Kila, Montana: Kessinger Publishing), pg. 10. Símbolos e Teurgia O poder dos rituais e sacramentos reside em sua capacidade de servir de instrumento para canalização da energia superior para certos fins desejados, geralmente a expansão de consciência dos postulantes. São atos de teurgia, isso é, de utilização de energia espiritual por pessoas altamente qualificadas, capazes de transmutar essa energia em força direcionada aos planos inferiores, geralmente certos chacras do corpo humano, para fins específicos. Nas palavras de um ocultista, "Um Sacramento assemelha-se a um cadinho, no qual se elabora a alquimia espiritual. Uma energia, colocada neste cadinho e submetida a certas operações, sai transformada."[1] Os rituais sacramentais atuam em dois níveis. Primeiro agem no exterior, por intermédio de cerimônias alegóricas em que se executam certas ações e utilizam-se certas substâncias. No segundo nível, o interior, o nível esotérico, as energias atuam da forma como são direcionadas pelo hierofante. As pessoas geralmente fixam-se na cerimônia alegórica exterior, que é planejada para transmitir um ensinamento importante de forma a ser lembrado vivamente pelo participante. Dentre as substâncias utilizadas nesses rituais, os quatro elementos conhecidos das antigas tradições (terra, água, ar e fogo) estão invariavelmente presentes, simbolizando verdades profundas. Certos objetos, como cálice, vaso, espada ou lança, flor, pedra, quase sempre, fazem parte da cerimônia. As ações cerimoniais são variadas. Em alguns casos envolvem movimentos rítmicos e até danças, gestos de poder (mudras) e sons ou palavras de poder (mantras). O que poucos sabem é que nos sacramentos, os gestos e sons de poder são usados para atrair e orientar a ação de seres angélicos na captação e direcionamento de energias para os fins desejados.[2] Em alguns casos certos objetos usados nos rituais são especialmente magnetizados no plano oculto, com energia sutil que lhes confere a vibração apropriada para facilitar o ato teúrgico. Os locais das cerimônias também costumam ser magnetizados, como os antigos Templos dos Mistérios e certas criptas de antigas igrejas ou mosteiros, que têm uma vibração especial facilmente detectável por sensitivos. Os símbolos usados nas cerimônias servem para transmitir aos participantes certos conceitos conhecidos da linguagem sagrada. Na tradição cristã dois símbolos são particularmente importantes: a cruz e o cálice. Ao contrário do que muitos cristãos imaginam, a cruz não é um símbolo exclusivo do cristianismo nem originou-se da crucificação de Jesus. A cruz já era um símbolo esotérico muito antes de nossa era. Ela simboliza a crucificação do espírito na matéria, a descida da energia do alto (simbolizada pela haste vertical) e sua distribuição a todos os seres (braços horizontais). Atualmente, esse símbolo está carregado das conotações estabelecidas pela ortodoxia relacionadas à morte violenta de Jesus. O outro símbolo de grande importância nos rituais esotéricos em geral e nos rituais cristãos, em particular, é o cálice. Esse objeto é um símbolo da natureza dual do homem, material e espiritual. A superfície inferior da base representa o corpo físico, pois é nessa superfície que se apoia o cálice, assim como o corpo físico é o veículo que possibilita a interface com o mundo exterior. A base representa o corpo emocional (astral) e a haste o corpo mental concreto, que serve de ponte entre a natureza inferior e a superior. O bojo do cálice representa o corpo mental abstrato, ou o corpo causal, e forma o receptáculo interior. É no interior do cálice que reside seu valor funcional, tanto no sentido material, para receber água ou vinho, como no esotérico, para receber a substância espiritual, o sangue de Cristo, ou a pura luz da intuição. E essa vem do Alto, símbolo do Sol Espiritual, ou Logos, depois de atravessar o grande espaço, o Espírito Universal, ou Atma, representado pelo espaço entre o Logos e o cálice. Assim, o cálice representa todos os princípios do ser humano. O cálice, no entanto, só está aberto para o alto, simbolizando a disposição dos participantes do ritual de renunciar ao mundo material e abrir seu coração para o alto, para a luz do Cristo interior. Portanto, na missa ou em outros rituais em que o cálice for usado, quando o cálice for elevado ao alto, devemos visualizá-lo como símbolo de nossa própria natureza humana, que está sendo oferecida a Deus para ser preenchida com a luz crística, que traz a iluminação. A lenda do Santo Graal, que por tantos séculos inspirou milhares de devotos, simboliza a busca do cálice sagrado, ou seja, da centelha divina escondida na alma do próprio buscador. Quando o cálice é encontrado (quando o homem se torna consciente de que Deus habita em seu coração) ele pode, então, ser preenchido com o vinho, simbolizando o sangue de Cristo, que confere a vida eterna, a iluminação. A busca do Santo Graal, pode ser considerada como uma representação da busca dos mistérios revelados na Iniciação. Toda a história ocorre no interior, sendo os personagens símbolos de aspectos da natureza do homem: Merlin seria o hierofante, o rei Artur a natureza superior e os cavaleiros da távola redonda as qualidades e fraquezas de cada peregrino.
[1] Annie Besant, O Cristianismo Esotérico (S.P.: Pensamento), pg. 178. [2] G. Hodson, O Lado Interno do Culto na Igreja (S.P.: Pensamento), pg. 19. 25 - PRÁTICA DAS VIRTUDES A prática das virtudes é um instrumento de importância vital para o discípulo, pois serve como mecanismo de controle, um freio para distorções que podem aparecer no caminho. Trilhar a Senda é como andar de bicicleta: o indivíduo tem que aprender a equilibrar-se, para não cair nem para a direita nem para a esquerda. Esse equilíbrio é alcançado com o ritmo apropriado das pedaladas de um e outro lado. As virtudes, servem como fatores estabilizadores sempre que um desequilíbrio surge e ameaça fazer o peregrino cair simbolicamente de sua bicicleta. No início da jornada os desequilíbrios mais óbvios são: preguiça, falta de entusiasmo, apego ao mundo e impureza, que devem ser compensados com as virtudes da aspiração ardente, do desapego e da pureza. Após certa medida de progresso, os principais óbices do discípulo tendem a ser o orgulho, a impaciência e a ambição, quando torna-se então necessário cultivar as virtudes opostas a estes vícios. As virtudes são tanto causa como efeito do progresso espiritual. Quando o buscador alcança o contato consciente com a realidade interior, essa experiência inevitavelmente se traduz numa vida mais virtuosa e amorosa. Essa sempre foi uma preocupação nos meios religiosos: "A vida do bom religioso deve ser adornada de todas as virtudes, a fim de que seja, interiormente, tal qual parece aos homens no exterior."[1] O buscador passa a ser, então, um canal cada vez mais amplo para a manifestação do divino no mundo e, assim, todas as qualidades que associamos ao que existe de mais elevado no homem passam a expressar-se por meio dele. Nesse caso as virtudes são uma conseqüência da elevação espiritual. As recomendações de Tiago podem ser vistas neste contexto: "Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre pelo seu bom comportamento as suas obras repassadas de docilidade e sabedoria. Mas, se tendes inveja amargura e preocupações egoísticas no vosso coração, não vos orgulheis nem mintais contra a verdade, porque esta sabedoria não vem do alto; antes, é terrena, animal e demoníaca. Com efeito, onde há inveja e preocupação egoística, aí estão as desordens e toda sorte de más ações. Por outra parte, a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, indulgente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, isenta de parcialidade e de hipocrisia. Um fruto de justiça é semeado pacificamente para aqueles que promovem a paz." (Tg 3:13-18) Mas as virtudes também podem ser instrumentos de nossa transformação, servindo, nesse caso, para recondicionar a personalidade. Mas, por que isso é necessário? Porque as virtudes são atributos da natureza superior e demoram a expressar-se no homem do mundo por causa das distorções e condicionamentos causados por muitas encarnações regidas pelo egoísmo e pela ignorância. Portanto, como os condicionamentos usuais impedem a manifestação plena das virtudes, o que temos a fazer é reeducar a personalidade, estabelecendo novos hábitos que, com o tempo, se transformarão em condicionamentos positivos nesta encarnação e em tendências para as encarnações futuras. Por isso, Paulo recomendava: "Finalmente, irmãos, ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor. O que aprendestes e herdastes, o que ouvistes e observastes em mim, isso praticai. Então o Deus da paz estará convosco" (Filip 4:8-9). Consciente, portanto, de que as virtudes devem ser desenvolvidas, o aspirante deve dedicar-se com afinco a cultivá-las. Uma razão adicional para esse propósito é que as virtudes são antídotos naturais contra os vícios de caráter, as fraquezas da personalidade. São Francisco enfatiza esse fato em suas admoestações sobre as virtudes que afugentam os vícios: "Onde há caridade e sabedoria, não há medo nem ignorância. Onde há paciência e humildade, não há ira nem perturbação. Onde à pobreza se une a alegria, não há cobiça nem avareza. Onde há paz e meditação, não há nervosismo nem dissipação. Onde o temor de Deus está guardando a casa, o inimigo não encontra porta para entrar. Onde há misericórdia e prudência, não há prodigalidade nem dureza de coração."[2] A tradição enfatiza que as principais virtudes a serem desenvolvidas são a caridade, a humildade, a paciência, o contentamento e o equilíbrio, pois seus opostos são os mais sérios entraves ao progresso da alma. A prática das virtudes vem sendo apregoada desde os primórdios de nossa tradição cristã. Pedro já nos advertia a esse respeito: "Por isto mesmo, aplicai toda a diligência em juntar à vossa fé a virtude, à virtude o conhecimento, ao conhecimento o autodomínio, ao autodomínio a perseverança, à perseverança a piedade, à piedade o amor fraternal e ao amor fraternal a caridade. Com efeito, se possuirdes essas virtudes em abundância, elas não permitirão que sejais inúteis nem infrutíferos no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo" (2 Pd 1:5-8). Por sua vez, Paulo pregava: "Sede diligentes, sem preguiça, fervorosos de espírito, servindo ao Senhor, alegrando-vos na esperança, perseverando na tribulação, assíduos na oração, tomando parte nas necessidades dos santos, buscando proporcionar a hospitalidade" ( Rm 12:11-13).
[1] Imitação de Cristo, op.cit., pg. 64. [2] São Francisco, op.cit., pg. 69-70. Caridade A sabedoria antiga já pregava que "Quem faz caridade ao pobre empresta a Deus" (Pr 19:17). No entanto, a caridade é muito mais do que a prática comum de doar roupas velhas e sobras de comida aos pobres. A verdadeira caridade envolve tanto o ato da doação como a intenção. A doação pode abranger vários níveis. É mais fácil, para a maior parte das pessoas, dar coisas materiais. Porém, subindo na escala de valores, algo ainda mais importante no sentido espiritual é a consideração, a atenção e a compreensão que todos os indivíduos desejam ardentemente, sejam pobres ou ricos. A caridade mais elevada, no entanto, é a doação do conhecimento espiritual, que possibilita às pessoas engajarem-se no processo de salvação, ou de libertação do sofrimento, como dizem os orientais. Do ponto de vista espiritual, mais importante do que o objeto da doação é o estado de espírito e a motivação com que a fazemos.[1] Os budistas investigaram profundamente essa questão e dizem: "O objeto que damos não é a doação real -- ele é apenas o meio da doação. A atividade real de doar é a forte decisão de dar livremente sem avareza. Desta maneira, mesmo se nada possuímos, podemos praticar a doação, porque esta atividade depende de nosso estado mental, não do objeto que é doado."[2] Devemos, portanto, desenvolver a atitude interior de generosidade e de amor fraternal para com todos os seres, para que, com o tempo, essa atitude interior se manifeste naturalmente no exterior, em nossa vida diária. Assim, mesmo que tenhamos sérias limitações materiais podemos ser grandes doadores, por meio da consideração demonstrada e da dedicação de nosso tempo e atenção aos problemas dos outros. A doação do conhecimento espiritual pode ter um enorme impacto na vida das pessoas. Não nos referimos aqui às pregações e atividades missionárias de algumas ordens religiosas. Não é possível enfiar a Verdade goela abaixo das pessoas. A pregação mais efetiva dos ensinamentos do Mestre deve ser a vida exemplar do próprio pregador, o que naturalmente leva as pessoas que convivem com ele a querer saber mais sobre suas práticas espirituais. Dois exemplos recentes de indivíduos que exerceram enorme influência sobre um grande número de pessoas de religiões diferentes da sua são a Madre Teresa de Calcutá e o Dalai Lama. Existe, no entanto, uma tendência nas pessoas recém-engajadas no caminho espiritual, decorrente do deslumbramento proporcionado pelos novos horizontes que começam a descortinar, de tentar convencer as demais a aderir às suas idéias. Pior ainda são os religiosos que, incapazes de praticar as virtudes e efetuar as transformações que são seus deveres primordiais, exigem dos outros aquilo que eles mesmos não conseguem cumprir. O livre arbítrio deve ser sempre respeitado. Podemos colocar a verdade à disposição dos outros, mas não podemos forçá-los a adotá-la. O exemplo dos mestres budistas pode ser útil. Suas regras exigem que só façam a exposição de qualquer ensinamento do Dharma (conjunto de ensinamentos do Buda) quando solicitados. Eles estão sempre à disposição, mas o postulante deve mostrar o seu interesse, solicitando a instrução. A caridade é uma expressão prática do amor divino. A pessoa caridosa deve ser como o Sol, que não discrimina entre justos e pecadores, derramando seus raios sobre todos, doando luz e calor a todos os seres. Assim, nossa caridade deve ser abrangente e nunca restritiva, como fazem alguns que não contribuem para certas obras de caridade porque são conduzidas por essa ou aquela seita diferente da sua. Na tradição cristã, em que pese a tentativa posterior dos teólogos de dar primazia à fé, ou melhor, à crença, a caridade era considerada como a maior virtude. Isso foi dito claramente por Paulo em seu memorável hino à caridade, contido na Primeira Epístola aos Coríntios. Vale a pena lembrar que no original grego, a palavra usada por Paulo era agape (agaph), que significa amor, mais tarde traduzida para o latim como caritas. A caridade, portanto, deve ser entendida como amor em ação: Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse caridade, seria como um bronze que soa ou como um címbalo que tine. Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas; se não tivesse caridade, eu nada seria. Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse caridade, isso nada me adiantaria. A caridade é paciente, a caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta... Agora, portanto, permanecem fé, esperança e caridade, estas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade. (1 Co 13:1-7, 13) A caridade, portanto, é a disposição de espírito de fazer tudo com amor. Essa intenção de doação, normalmente dirigida para o exterior, para o benefício das pessoas que nos cercam, deve traduzir a verdadeira expressão de nosso amor a Deus. Essa é a caridade que o Mestre e seu Apóstolo nos ensinaram com o exemplo de suas vidas, e que devemos procurar seguir. Se formos honestos conosco mesmos constataremos que não possuímos o verdadeiro amor, ou caridade, de que fala Paulo. Essa constatação, em lugar de nos desencorajar, deve ser motivo de inspiração para que alcancemos a meta do verdadeiro altruísmo. A prática da compaixão suscita níveis mais elevados de realização espiritual quando o praticante doa-se de todo coração ao objeto de sua ação, passando a compartilhar os sentimentos e a dor daqueles a quem ajuda. Esse é um dos estados mais refinados da prática do amor. No Sermão da Montanha encontramos: "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia". Nessa, como nas outras Beatitudes, Jesus nos alerta para o significado mais profundo de uma ética baseada no amor e regida pela lei do retorno. Esse ensinamento já havia sido enunciado no Antigo Testamento: "Quem faz caridade ao pobre empresta a Iahweh, e ele dará a sua recompensa" (Pr 19:17). Misericórdia é, por um lado, a disposição para perdoar e, também, a manifestação de compaixão que surge da compreensão da fragilidade e da ignorância humana que nos permite relevar os insultos e injustiças recebidos. Uma atitude crítica e intolerante é incompatível com a compaixão. Quando permitimos a suspeita e a dúvida se assenhorarem de nossos processos mentais, alimentamos nossas tendências negativas. Com isso deixamos de ser caridosos pois estamos imputando más intenções ao nosso próximo.[3]
[1] "Sem caridade, de nada vale a obra exterior; tudo porém, que dela procede, por insignificante e desprezível que seja, torna-se proveitoso; porque Deus não olha tanto para as ações, como para a intenção com que as fazemos." Imitação de Cristo, op.cit., pg. 53. [2] A Senda Graduada para a Libertação, op.cit., pg. 65-66. [3] Vide The Mystical Christ, op.cit., pg. 169-171. Humildade O desenvolvimento da humildade é especialmente importante para os discípulos que começam a fazer progresso no Caminho. Essas pessoas, tendo passado por purificações rigorosas, efetuado renúncias penosas, estudado longas horas e praticado regularmente a meditação, sentem, com razão, que já fizeram algum progresso ao deixar para trás suas fraquezas mais grosseiras. Além disso, seus estudos e meditações possibilitam um maior entendimento das verdades eternas. Essas são, no entanto, as circunstâncias favoráveis, o solo fértil, para o crescimento do orgulho, a pior erva daninha no jardim de virtudes do discípulo.[1] O orgulho exacerba o sentimento de separatividade. O orgulhoso julga-se melhor do que os outros, por isso sente-se superior aos demais. Quando está acometido desse desequilíbrio de percepção da realidade, o orgulhoso torna-se vítima da vaidade, procurando todas as oportunidades para mostrar o conhecimento adquirido e as suas supostas virtudes. É dito que o orgulho já fez tropeçar muitos discípulos avançados, que não só caíram, mas que se juntaram aos Irmãos da Mão Esquerda, tendo condenado suas almas a um infortúnio indescritível. Por isso é dito que: "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes" (Tg 4:6). O buscador intelectual que, com o tempo, passa a ser conhecido como erudito ou especialista, sendo cortejado e constantemente solicitado a dar orientação espiritual, proferir palestras e escrever sobre assuntos de natureza espiritual, é vítima fácil do orgulho. São esses e todos aqueles que recebem dons especiais, tais como vidência, clariaudiência ou cura, os que devem ficar especialmente atentos às palavras do Mestre: "Àquele a quem muito se deu, muito será pedido, e a quem muito se houver confiado, mais será reclamado" (Lc 12:48). Portanto, os que já fizeram algum avanço num determinado aspecto da busca, em vez de sentirem-se orgulhosos, deveriam humildemente verificar se estão fazendo jus aos dons que receberam da Providência Divina.[2] Segundo um velho adágio, "os loucos se precipitam onde os anjos temem entrar," por isso pode-se ver o quanto o desenvolvimento da verdadeira humildade é ajudado pelo discernimento. Enquanto o orgulhoso tende a olhar para baixo e se comparar com os que estão em situação inferior em termos de realização, o humilde prefere olhar para cima, procurando perceber como ainda está distante dos irmãos mais velhos da humanidade que alcançaram a perfeição. Se fizermos isso com honestidade, veremos que a distância que nos separa dos Mestres é muitíssimo maior do que a que nos separa dos nossos desafortunados irmãos menos preparados prisioneiros da sensualidade e da maldade, que servem como referência para nossos sentimentos de grandeza. Se estudarmos a vida dos grandes seres, veremos que eles nunca demonstram orgulho, empáfia ou intolerância. A verdadeira grandeza de seu caráter vem acompanhada de uma humildade e mansidão naturais, pois o Mestre sabe que toda virtude vem de Deus, do Pai que habita em nosso interior e para o qual servimos de instrumento para a manifestação divina. Lao Tsê já dizia a esse respeito: "A virtude suprema é como a água. A água e a virtude são benfazejas a milhares de criaturas. Elas ocupam os lugares mais baixos, que os homens detestam. Ocupam-se onde ninguém quer permanecer."[3] Estamos falando, porém, da verdadeira humildade, que implica na habilidade de discernir aquelas áreas em que estamos melhor preparados para ajudar nossos irmãos e aquelas em que não temos esta capacitação. Muitos aspirantes, inclusive certos religiosos, entregam-se à falsa humildade quando, com suas fanáticas e desequilibradas asceses castigam o corpo e humilham a personalidade, demonstrando com isto orgulho de ser mais humildes de que seus outros irmãos mais comedidos na virtude. A humildade é uma das virtudes favoritas da tradição cristã em geral e das ordens religiosas em particular.[4] Numa das ordens monásticas mais antigas e mais influentes no mundo católico, a beneditina, fundada por S. Bento no final do século V e inspirada na experiência de S. Pacômio, o organizador das comunidades cenobitas do século IV, das quais se originaram várias ordens monásticas posteriores, as regras de conduta eram bem rigorosas no que tange a humildade. Os graus de humildade preconizados pela ordem são apresentados a seguir, de forma resumida, usando na medida do possível as palavras de seu manual. "(1) Pondo sempre o monge diante dos olhos o temor a Deus, evite, absolutamente, qualquer esquecimento e esteja, ao contrário, sempre lembrando de tudo o que Deus ordenou. (2) Não amando a própria vontade, não se deleite o monge em realizar os seus desejos, mas imite nas ações aquela palavra do Senhor: ‘Não vim fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou' (Jo 6:38). (3) Por amor de Deus, submeta-se o monge, com inteira obediência, ao superior. (4) No exercício dessa mesma obediência, abrace o monge a paciência de ânimo sereno nas coisas duras e adversas mesmo que se lhe tenham dirigido injúrias. (5) Não esconda o monge ao seu abade os maus pensamentos que lhe vêm ao coração ou o que de mal tenha cometido ocultamente. (6) Esteja o monge contente com o que há de mais vil e com a situação mais extrema, e em tudo que lhe seja ordenado fazer se considere mau e indigno operário. (7) O monge se diga inferior e mais vil que todos, não só com a boca, mas também o creia no íntimo pulsar do coração. (8) Só faça o monge o que lhe exortam a regra comum do mosteiro e os exemplos de seus maiores. (9) Negue o falar à sua língua, entregando-se ao silêncio, nada diga, até que seja interrogado. (10) Não seja o monge fácil e pronto ao riso. (11) Quando falar, faça-o suavemente e sem riso, humildemente e com gravidade, com poucas e razoáveis palavras e não em alta voz. (12) Não só no coração tenha o monge a humildade, mas a deixe transparecer sempre, no próprio corpo; quer esteja sentado, andando ou em pé, tenha sempre a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão, considerando-se a cada momento culpado de seus pecados."[5] Na literatura dos padres da igreja primitiva, preservada no compêndio conhecido como Philokalia,[6] há inúmeras referências à humildade, destacando-se uma passagem de St. Hesychios, o Padre. "Como a humildade é por natureza algo que enobrece, algo que é amado por Deus, que destrói em nós quase tudo que é mal e odioso a Ele, por essa razão ela é difícil de ser atingida. Ainda que seja possível encontrarmos alguém que de alguma forma pratique muitas virtudes, dificilmente descobriremos o odor de humildade nele, não importa o quanto procuremos. A humildade é algo que só pode ser adquirido com muita diligência. Na verdade, as Escrituras referem-se ao diabo como ‘imundo' porque desde o princípio ele rejeitou a humildade e assumiu a arrogância. "Se estamos preocupados com a nossa salvação, há muitas coisas que o intelecto pode fazer para nos assegurar essa dádiva abençoada da humildade. Por exemplo, podemos lembrar-nos dos pecados que cometemos por palavra, ação e pensamento. A verdadeira humildade também é realizada pela nossa meditação diária sobre as realizações de nossos irmãos, pela exaltação de suas superioridades naturais e pela comparação de nossos dons com os deles. Quando o intelecto percebe dessa forma como somos destituídos de mérito e como estamos longe da perfeição de nossos irmãos, passaremos a nos considerar como pó e cinza, e não como homens, mas como um tipo de cão vadio, com mais defeitos sob todos os aspectos e inferior a todos os homens na terra."[7] Para ser verdadeiramente humilde, o homem deve renunciar ao que considera mais valioso, ou seja, às suas conquistas interiores. Assim fazendo, ele renuncia os louros das vitórias passadas e vive com afinco no presente, com os olhos fixos na meta de perfeição indicada para o futuro. E como a essência da perfeição é a consciência da unidade, sabemos que ela não pode ser alcançada enquanto o discípulo tiver algum resquício de sentimento de separatividade, ou seja, de orgulho. Portanto, a humildade afasta as negatividades do coração assim como uma lâmpada dispersa a escuridão de uma sala. Uma forma efetiva de promover a humildade é creditar todas as nossas realizações ao Mestre, ao Cristo interior, de quem recebemos inspiração para a realização das tarefas mais sublimes e importantes em nossa vida. Qualquer que seja a habilidade pessoal de que mais nos orgulhemos, ela nada mais é do que uma pálida manifestação da criatividade do Eu Superior. Se agradecermos o Mestre por esse dom estaremos nos conscientizando de que nada mais somos do que um canal para a expressão da energia criativa do Cristo, a quem todo o sucesso em nossa vida deve ser creditado.[8] Por isso Jesus dizia: "Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas" (Mt 11:29).
[1] Vide A Different Christianity, op.cit., pg. 189. [2] "Sê humilde se queres adquirir sabedoria; sê mais humilde ainda quando a tiveres adquirido. Sê como o oceano que recebe todos os rios e riachos. A calma imensa do oceano não se perturba, recebe-os e não os sente." A Voz do Silêncio, op.cit., pg. 91. [3] Lao Tsê, O Livro do Caminho Perfeito (Tao Tê Ching), (S.P.: Pensamento) [4] Em Imitação de Cristo é dito: "Deus protege e livra ao humilde; ama-o e consola-o; inclina-se para ele; dá-lhe abundantes graças e, depois do abatimento, eleva-o à glória, descobre-lhe seus segredos e, com doçura, a si o atrai e convida." Op.cit., pg. 114. [5] Claude Jean-Nesmy, São Bento e a vida monástica (RJ: Livraria Agir Editora, 1962), pg. 132-37. [6] Palmer, Sherrard & Ware (tr. e ed.), The Philokalia (Londres: faber and faber, 1979), 5 vol. [7] The Philokalia, op.cit., Vol I, pg. 173-74. [8] No livro Imitação de Cristo esta prática é formulada da seguinte forma: "Considera cada coisa de per si como derivada do sumo bem; e, por isso, tudo se deve atribuir a mim (Cristo), como à sua origem. De mim, como fonte perene, o pequeno e o grande, o rico e o pobre tiram água viva; e os que me servem recebem graça sobre graça." Op.cit., pg. 198. |
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| Última atualização ( Dom, 07 de Setembro de 2008 19:43 ) | |||||||||||||||||



